"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa
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domingo, 23 de setembro de 2012

Falklands/Malvinas - Aspectos Logísticos


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O conflito entre argentinos e britânicos pela posse das Ilhas Falklands/Malvinas foi, em alguns aspectos, um confronto entre duas gerações de Forças Armadas. Por um lado, havia uma confiança na quantidade; do outro, na qualidade. Conscritos, mal preparados e equipados, lutando contra profissionais altamente treinados, dotados de equipamentos entre os mais modernos então disponíveis. A total falta de preparação logística contra a eficácia no apoio.

Certas guerras representaram um estopim para mudanças em outros exércitos nelas não envolvidos, pela coleta de ensinamentos e um estudo aprofundado posterior. A Guerra de Secessão influenciou a conduta de Caxias durante a Guerra da Tríplice Aliança; a guerra árabe-israelense de 1973 (Yon Kipur) fez nascer nos EUA os conceitos do que mais tarde seria conhecido como doutrina da batalha ar-terra (Air-land battle), empregada com sucesso contra o Iraque em 1991.



A guerra das  Falklands/Malvinas, até pela proximidade física, representou para o Exército Brasileiro a oportunidade de renovação doutrinária. Sem dúvida, os ensinamentos ali colhidos provocaram modificações importantes na estrutura organizacional  e nas doutrinas de emprego do EB.

A análise do papel representado pela logística para ambos os contendores, com resultados diametralmente opostos, ainda hoje é fonte de ensinamentos e experiência. 

Caracterização da Área

As Ilhas  Falklands/Malvinas ficam no Atlântico Sul, logo abaixo do paralelo 50ºS, a cerca de 740 km a leste da Argentina. As Ilhas Geórgias do Sul ficam  a cerca de 1.400 km da leste das Malvinas e as Ilhas Sandwich do Sul, a cerca de 700 km a leste das Geórgias.

As  Falklands/Malvinas compreendem 2 ilhas principais e, aproximadamente, 200 ilhas menores, com uma área total de 8.704 km2 . As duas ilhas maiores, as Falkland Leste (Ilha Soledad) e Oeste (Gran Malvina), são separadas pelo estreito das Falkland ou San Carlos que, na sua parte mais estreita, tem 4,4 km. Stanley, a capital, rebatizada pelos argentinos como Porto Argentino, fica situada na costa leste da Malvina Leste e tinha, à época,  1.200 "kelpers", dos 1.800 que habitavam as ilhas.

A costa das Malvinas é irregular, com inúmeras pequenas e restritas praias. A parte mais elevada é a metade norte das ilhas, variando entre 400 e 700 m acima do nível do mar. A região interiorana á muito acidentada e difícil de ser atravessada, a pé ou por veículo. Havia, na época, haviam somente 45 km de estradas pavimentadas nas ilhas. As poucas árvores existentes foram plantadas pelo homem.



O meio de transporte mais usado nas ilhas é o aéreo, havendo mais de 30 pistas de pouso espalhadas por elas, sendo que as 5 melhores permitem o pouso de aeronaves C-130 Hércules. O maior aeroporto é o da capital, com uma pista de asfalto de 1.250 m. Seguem-se em importância os de Pebble Island e o de Goose Green.

Nas ilhas predominam ventos fortes e temperaturas baixas. A temperatura média, no inverno, no período diurno, varia entre -7º C e 0º C. Em média, a precipitação pluviométrica é da ordem de 686 mm, espaçados uniformemente durante o ano, com queda de neve em cerca de 50 dias por ano. Os ventos sopram com 36 km/h, em qualquer época do ano, com mares bravios em torno das ilhas.

Rápida cronologia dos eventos

Em 02Abr82, as forças argentinas desembarcam nas Ilhas Malvinas. A operação aconteceu sem baixas entre os britânicos e kelpers, mas com uma baixa entre os atacantes, um Capitão de Corveta fuzileiro naval, atingido por fogo inimigo. Neste dia, a  Grã-Bretanha alerta sua Frota e o Conselho de Segurança da ONU decide tratar da questão.

No dia seguinte, os argentinos informam oficialmente que as Ilhas Malvinas, Geórgias e Sandwich do Sul estão sob sua soberania. Londres adverte que aplicará sanções econômicas e resolve empregar uma Força Tarefa em ação punitiva ao Atlântico Sul. Embarcada junto com a FT, segue para a região de operações a 3ª Brigada de Comandos de Fuzileiros Navais, reforçada por 2 batalhões de fuzileiros. O Conselho de Segurança aprova a resolução 502, que exige a retirada argentina das ilhas e o início de negociações.

A Grã-Bretanha anuncia o bloqueio naval  de 200 milhas em torno das Ilhas, enquanto a Comunidade Econômica Européia apóia as sanções britânicas.  Mesmo com a intervenção diplomática  norte-americana e do Papa, não se chega a  uma solução negociada para o conflito.



Em 25Abr, já com o bloqueio naval operando, a Força Tarefa britânica reconquista as Ilhas Geórgias, com fraca resistência da guarnição argentina, que se rende.

O primeiro ataque aéreo britânico a Porto Argentino ocorre em 01Mai. No dia seguinte, os argentinos sofrem uma pesada baixa: o Cruzador Belgrano é afundado pelo submarino nuclear Conqueror, com um saldo de 323 vítimas. A partir daí, a esquadra argentina praticamente retira-se do conflito, recolhendo-se aos seus portos.

No dia 04 de maio, em meio a novas incursões aéreas inglesas contra Porto Argentino e Porto Darwin, aeronaves da Aviação Naval Argentina, equipadas com mísseis Exocet, atacam o destróier inglês HMS Sheffield, afundando-o.

Em 12Mai, partem da Grã-Bretanha, a bordo do transatlântico Queen Elisabeth, 3000 soldados da 5ª Brigada de Infantaria com destino ao Teatro de Operações.

O desembarque britânico dá-se em 21Mai, quando é estabelecida uma cabeça de praia em Porto San Carlos. As tropas britânicas da 3ª Brigada de Comandos Fuzileiros Navais, reforçadas pelos 2º e 3º Batalhões do Regimento de Paraquedistas desembarcaram em 4 praias, antes do alvorecer, utilizando embarcações de desembarque e helicópteros. Fez-se largo uso de equipamentos de visão noturna, permitindo a rapidez da operação.

Um dos primeiros itens a serem desembarcados foram os mísseis antiaéreos Rapier,  transportados por helicópteros Sea King para posições nas alturas que dominavam o local de desembarque.

Os combates aeronavais são bastante intensos, com fortes perdas de ambos os lados, destacando-se o afundamento da fragata inglesa Ardent. Estes combates prosseguem nos dias subseqüentes, com afundamento de outro destróier e de um transporte de tropas ingleses, o Atlantic Conveyor.

A oposição em terra foi fraca devido à total surpresa tática alcançada. Após a consolidação da cabeça de praia, os ingleses iniciam o deslocamento para a conquista do objetivo final: Porto Argentino, em um movimento de pinça. O braço mais ao norte dirigia-se diretamente contra a capital, enquanto ao sul investem sobre as localidades de Darwin e Goose Green, com as finalidades de proteger o flanco sul britânico frente às guarnições argentinas nestas localidades e conquistar as pistas de pouso ali existentes, de onde operavam aeronaves Pucará.

Uma acentuada vantagem que os britânicos dispunham neste conflito era a utilização de equipamentos de visão noturna, que equipavam, inclusive, alguns de seus helicópteros. Tal fato fez com que optassem pela realização de ataques noturnos durante as operações, já que os argentinos não dispunham destes meios.

O ataque contra Darwin foi desfechado às 0200 horas do dia 28, contando com eficiente apoio de fogo naval. Dez horas mais tarde, a posição argentina caía, prosseguindo os britânicos contra a forte posição de Goose Green. O ataque foi apoiado por potente fogo de morteiros e mísseis Milan, enquanto os argentinos utilizavam seus canhões antiaéreos 35mm contra a tropa atacante. No dia 29, os cerca de 1.400 argentinos que guarneciam a posição renderam-se ao batalhão inglês de cerca de 600 homens.

O braço do norte prosseguia em terreno de muito difícil trânsito, enfrentando pequena resistência, chegando a conquistar Teal Inlet, de onde as tropas poderiam passar a ser supridas por mar. Em 04 Jun, era conquistada a posição de Monte Kent, de onde poderia ser desfechado o ataque final contra Porto Argentino.

Aparentemente, os argentinos concentravam sua defesa na capital das Ilhas, onde poderiam oferecer uma última e desesperada resistência aos britânicos. Estes logo descobriram que a estratégica região de Bluff Cove e Fitzroy havia sido abandonada. Cientes da importância desta região, os britânicos enviam uma pequena força para ocupá-la, por helicópteros, tentando reforçá-los com um batalhão da 5ª Brigada,  enviado por mar. Posteriormente, seguem outros navios com reforços e suprimento, especialmente munição.



Em 08Jun, uma súbita melhora no tempo permite aos argentinos que realizem uma incursão aérea contra os navios que apoiavam este desembarque, afundando uma fragata e os transportes de tropas Sir Galahad e Sir Tristan, causando severas baixas. Os argentinos, no entanto, não exploraram a desorganização ali existente entre as forças britânicas, empenhadas no salvamento às vítimas do afundamento dos navios de transporte, deixando de aproveitar uma excelente oportunidade.

Em 12Jun, enquanto as tropas britânicas avançam rumo a Porto Argentino, faz-se a última vítima dos mísseis Exocet: o HMS Glamorgan.

O plano para o ataque final contra Porto Argentino era relativamente simples: uma sucessão de ataques noturnos, levados a cabo ora pela 3ª Brigada, ora pela 5ª Brigada cercariam o inimigo, levando-o ao colapso final.

Em 13Jun, os ingleses penetram nas últimas defesas argentinas, em Porto Argentino. No dia seguinte á assinado o cessar fogo e a rendição argentina.

As forças terrestres envolvidas

1) Argentina


  • Brigada de Infantaria III 
    • Comando e Companhia de Comando e Serviço 
    • Regimento de Infantaria 4 (RI 4) 
    • Regimento de Infantaria 5 
    • 2  Seções da  Companhia de Engenharia de Combate 3 
    • Regimento de Infantaria 12 
    • Grupo de Artilharia 3, reforçado com canhões 155 mm 
    • Companhia de Comando 3 
    • Companhia de Saúde do Batalhão Logístico 3 (40 homens) 
    • Elementos da Companhia de Material Bélico do Batalhão Logístico 3 (20 homens)

  • Brigada de Infantaria Mecanizada IX 
    • Regimento de Infantaria 8 (+) 
    • Regimento de Infantaria 25 
    • Companhia de Engenharia 9 
    • Elementos do Batalhão Logístico 9

  • Brigada de Infantaria Mecanizada X 
    • Comando e Companhia de Comando e Serviços 
    • Regimento de Infantaria  Mecanizado 3 
    • Regimento de Infantaria Mecanizado 6 
    • Regimento de Infantaria Mecanizado 7 
    • Companhia A do regimento de Infantaria I (188 homens) 
    • Esquadrão de Exploração de Cavalaria Blindada 10 ( com 12 viaturas Panhard) 
    • Companhia de Engenharia Mecanizada 10 
    • Companhia de Comunicações Mecanizada 10 
    • Elementos do Batalhão Logístico 10

  • Companhia de Comandos  601
  • Companhia de Comandos  602
  • Grupo de Artilharia de Defesa Aérea 601
  • Grupo de Artilharia Aerotransportada 4
  • Bateria do Grupo de Artilharia de Defesa Aérea 101
  • Companhia de Engenharia de Combate 601
  • Elementos do Batalhão de Comunicações 181 (44 homens)
  • Batalhão de Aviação do Exército 601 (19 helicópteros)
  • Elementos da Companhia de Abastecimento e Manutenção de Aeronaves 601 
  • Hospital Militar "Comodoro Rivadavia"
  • Hospital Militar "Malvinas"
  • Seção de Inteligência "Malvinas"
  • Centro de Operações Logísticas
  • Elementos da Companhia de Polícia Militar 181 (60 homens)
A constituição do que se chamou Guarnição Militar das Malvinas (GMM) chegou a contar com cerca de 10.000 homens, distribuídos em 4 postos: Porto Argentino, com cerca 7.100 homens, Goose Green-Darwin, Howard e Baía Fox, cada uma destas com cerca de  930 homens.



Os primeiros  elementos a chegarem às Ilhas pertenciam à Brigada de Infantaria IX e ao Regimento de Infantaria de Marinha 2, que foi substituído após a ocupação pelo RI 25.  A partir de 12 de abril, a Brigada de Infantaria X foi enviada em reforço à  guarnição. Posteriormente, o Comando do Exército decidiu enviar a Brigada de Infantaria III para compor seus meios nas Malvinas 

2) Grã-Bretanha

  • 3ª Brigada de Comandos (Fuzileiros Navais) 
    • Comando 
    • 40º, 42º e 45º Batalhões de Comandos 
    • 3º Batalhão de Pára-quedistas (Exército) 
    • 29º Regimento de Artilharia 
    • 59ª Companhia de Engenharia 
    • 49ª Companhia de Explosivos e Destruições (Exército) 
    • Regimento Logístico 
    • 148ª Bateria de Observação Avançada de Artilharia  Naval 
    • Bateria T do 12º Regimento de Defesa Aérea (Exército), com 12 lançadores de mísseis Superfície-ar Rapier 
    • Pelotão de Reconhecimento Médio (Exército), com 7 viaturas blindadas: 2 Scorpion,4 Scimitar e um Samson 
    • Companhia de Quartel-General e Comunicações 
    • Esquadrão Aéreo (helicópteros Gazelle e Scout) 
    • 845º e 846º Esquadrões Aeronavais (helicópteros Sea King) 
    • Turma de Observação Avançada do 4º Regimento de Artilharia de Campanha (Exército) 
    • Destacamento de Ligação de Retaguarda do 30º Regimento de Comunicações (Exército) 
    • 2ª, 4ª e 6ª Seções SBS - Special Boat Service (Forças Especiais da Marinha) 
    • Equipe de Guerra na Montanha e no Ártico (FN) 
    • Destacamento Logístico de Barcaças de Desembarque e Meios Flutuantes 
    • Pelotão Y de Comunicações 
    • Equipe de Apoio Cirúrgico (Marinha) 
    • Seção do 19º Batalhão de Saúde (Exército) 
    • Banda de Música (FN), também com missão de padioleiros

  • 5ª Brigada de Infantaria (Exército) 
    • Comando 
    • 1º Batalhão do regimento de Guardas Galeses 
    • 2º Batalhão do Regimento de Guardas Escoceses 
    • 2º Batalhão de Pára-quedistas 
    • 1º Batalhão do 7º Regimento de Fuzileiros Gurkhas 
    • 4º Regimento de Artilharia de Campanha 
    • Duas Seções do 32º Regimento de Artilharia de Foguetes Dirigidos 
    • Turmas de Observação Avançada do 49º Regimento de Artilharia 
    • 36º Regimento de Engenharia 
    • 9ª Companhia de Engenharia Pára-quedista 
    • Destacamento do 2º Regimento de Controle de Portos 
    • 56º Esquadrão do Corpo de Aviação do Exército (helicópteros Gazelle e Scout) 
    • 407º Batalhão de Transporte 
    • Elementos do 17º Regimento de Portos 
    • 16º Batalhão de Saúde 
    • 81ª Companhia de Intendência 
    • Destacamento de Lavanderia e Padaria do 9º Batalhão de Intendência 
    • Elementos da 421ª Companhia de Explosivos e Destruições 
    • 10ª Companhia de Manutenção Avançada 
    • 160ª Companhia de Polícia do Exército 
    • 66ª Pagadoria de Campanha 
    • Destacamento de Relações  Públicas 

  • Força de Apoio 
    • 12º Regimento de Defesa Aérea 
    • 21ª Bateria de Artilharia Antiaérea 
    • Destacamentos de Engenharia, Intendência, Comunicações, Correios, Controle de Movimento 
    • Elementos de SAS - Special Air Service (Forças Especiais do Exército)


A logística britânica

Um dos aspectos mais relevantes do conflito foi o extraordinário esforço logístico desenvolvido para apoiar as operações pelos britânicos. A Força Tarefa foi capaz de operar, com elevado grau de eficiência, a cerca de 15.000 km de suas bases principais. A base mais próxima, Gibraltar, dista mais de 11.000 km. Mesmo sua base mais avançada, na ilha de Ascensão, encontram-se a, aproximadamente, 7.400 km das Malvinas.

A 3ª Brigada de Comandos Fuzileiros Navais, embora constituísse uma força de intervenção rápida britânica, foi pega despreparada para a missão de retomar as ilhas invadidas pelos argentinos.

Discussões políticas adiaram a emissão de uma ordem de alerta para a GU. Seu comando e EM participavam de um  exercício da OTAN na Dinamarca no final de março, quando os primeiros informes sobre a provável invasão argentina chegaram a Londres. A ordem de partida somente chegou quando as Ilhas já tinha sido tomadas.

Não havia planos de operação que atendessem à nova situação. Para uma brigada de FN isto pode vir a constituir-se em grande óbice, já que o carregamento nos navios de transporte deve atender a necessidades táticas, ou seja, o carregamento deverá ser feito por frações constituídas. Homens, equipamentos e suprimentos devem viajar juntos,  possibilitando que estejam prontos para o combate ao desembarcarem. Assim, a Brigada teve de adotar um  plano existente, destinado a operações no norte da Noruega,  para orientar seu embarque e carregamento.



Além disso, a Brigada teve de competir com a própria Marinha e elementos da Força Aérea embarcados por espaço para transportar o suprimento necessário para o distante TO. Este constituía-se na Reserva de Manutenção de Guerra, equivalente a 30 dias de suprimento de todos as classes, além de uma dotação orgânica de 2 dias de munição e 5 dias de ração.

Dois outros problemas surgiram durante o embarque: a necessidade de rapidez e as novas unidades que foram adidas à Brigada de Comandos, oriundas do Exército. Com isto, o carregamento não seguiu a ordem ideal. Como solução, decidiu-se que as cargas seriam reconfiguradas em uma rápida parada da frota na Ilha de Ascensão, a meio caminho das Malvinas.

Uma dos grandes feitos da Marinha Britânica foi a mobilização e posterior conversão para a guerra de navios mercantes. Estes representaram um  importante acréscimo à capacidade de transporte de carga e pessoal e à prestação de apoio logístico, como navios-oficinas e navios-hospitais. No total, foram empregados 26 navios de guerra e 54 mercantes modificados, com 25.000 homens a bordo.

Todos os itens de suprimento previstos de serem empregados tinham de ser enviados por uma linha de suprimento de 8.000 milhas de comprimento. Somente para atender às demandas da Marinha, foram embarcados 900.000 tipos de itens de suprimento. A estes, tinham de ser adicionados os itens destinados às tropas em terra.



A passagem da frota pela  Ilha de Ascensão  foi aproveitada para o remanejamento da carga entre os navios, procurando-se a melhor configuração para o combate. Nesta ocasião, os planos operacionais já estavam bastante adiantados, com algumas conclusões: 

  • seria procurada a vitória aérea e naval antes do desembarque, o que daria algum tempo a mais para a tropa se preparar em Ascensão; 
  • o desembarque seria realizado na Ilha Soledad (Falkland Leste), em local a ser definido após reconhecimentos; 
  • a Brigada de Comandos deveria ser reforçada com  novos meios, chegando a um efetivo de 5.500 homens (para tal, recebeu mais um batalhão paraquedista do Exército); 
  • com as forças argentinas nas Ilhas chegando a  um total de 10.000 homens, dos quais se acreditava que cerca de 7.500 estavam na região de Stanley (porto Argentino), no mínimo outra brigada seria necessária para que os britânicos diminuíssem sua desvantagem numérica. Esta segunda brigada seria a 5ª Brigada de Infantaria, estacionada no Reino Unido. 
O conceito logístico da operação baseava-se na manutenção dos suprimentos a bordo dos navios logísticos na área da cabeça-de-praia, de modo a economizar tempo na descarga e evitar  a existência de um grande depósito em terra firme. O espaço em terreno firme era bastante disputado; desta forma, foi decidido que as instalações logísticas não teriam prioridade no desembarque, utilizando ao máximo o "flanco marítimo", ou seja, o suprimento pelo mar. Isto, de certa forma, impedia grandes movimentos de tropas longe do litoral.

Como parte da reconfiguração, o Regimento Logístico carregou os navios de desembarque logísticos Sir Galahad e Sir Percival com dois dias de suprimento para toda a brigada de munição, combustível, rações e outros itens de alto consumo (um dia de suprimento para a brigada eqüivalia a 95 ton). Outros dois navios armazenavam mais 20 dias de suprimento, sendo que um deles seria deixado mais distante da Zona de Combate, garantindo um relativo escalonamento em profundidade e segurança.

O SS Canberra foi designado como  Posto de Triagem principal para a Brigada; as baixas seriam evacuadas para ele por helicóptero e, se necessário, seriam dali evacuadas para o navio-hospital SS Uganda. No entanto, um posto de triagem avançado seria desdobrado em terra firme,  capaz de reter baixas por até 6 horas.

No início de maio, o comboio com a tropa da 3ª Brigada embarcada seguiu rumo às Malvinas. A 5ª Brigada zarparia  da Inglaterra poucos dias depois.

O comando da brigada, após decidir-se pelo local de desembarque, no estreito de San Carlos, designou a Baía Ajax para a sua Área de Apoio Logístico, basicamente por imposição do terreno, já que ali era o local que melhor permitiria o desdobramento das suas instalações logísticas pela existência de espaço com solo firme e construções abandonadas que poderiam ser empregadas.

Em 19Mai, foi confirmado que o desembarque seria realizado às 02:30 h de 21Mai.

Os desembarques ocorreram sem problemas, somente com alguns atrasos. Não houve oposição argentina em terra e todos os objetivos estavam seguros no meio da manhã. Contudo, o crescente número de ataques aéreos levou os britânicos à decisão de enviar todos os navios considerados não essenciais para fora do Estreito de San Carlos, rumando bem para oeste.



Assim, a decisão inicial de manter o máximo possível do suprimento embarcado teve de ser modificada, desembarcando-se uma razoável quantidade na AApLog. Da mesma forma, o Canberra teve de ser afastado, não podendo funcionar como P Trig para a Bda. De qualquer forma, os  ataques argentinos concentraram-se nos navios de guerra; nenhum dos mercantes foi atingido. Caso o fossem, poderia ter havido uma séria dificuldade para a prestação do Ap  Log.

A partir desta data, os navios logísticos somente eram autorizados a aproximarem-se à noite para desembarcarem suas cargas. Helicópteros não eram autorizados a operarem nestes navios à noite, o que fez com que o movimento navio-terra somente fosse realizado por intermédio de pequenas embarcações, o que consumia bastante tempo. Além disso, nem sempre era fácil localizar um item específico nos navios, o que tornava a tarefa de reabastecimento lenta e frustrante para os logísticos.

A distribuição de combustível foi um problema nos primeiros dias após o desembarque. O equipamento destinado a receber o combustível a granel dos navios e distribuí-lo aos usuários não pôde ser desembarcado, exigindo uma série de improvisações. Tanques flexíveis foram amplamente utilizados, assim como camburões. Além dos  helicópteros, que consumiam 50.000 galões de combustível de aviação por dia, os geradores dos Rapier e as viaturas "mulas mecânicas" consumiam grande quantidade de diesel diariamente.

A falta de meios de transporte para o suprimento era outro grave problema. As hipóteses de emprego da brigada previam a existência de uma rede rodoviária capaz de permitir a distribuição de suprimentos  por caminhões; helicópteros seriam utilizados em casos muito especiais. Agora, eles eram o único meio de transporte capaz de distribuir o suprimento. E não estavam sob o controle do Regimento Logístico, podendo ou não ser empregados nesta missão. Para complicar ainda mais,  o Regimento não fazia parte da rede de controle de vôo, de maneira que tornou-se bastante difícil coordenar as missões com as aeronaves.

O suprimento de munição, especialmente para canhões, tornou-se a maior prioridade, superando as rações, combustível ou outros equipamentos. Muitas unidades viram-se com falta de rações, sacos de dormir ou uniformes de muda ante a impossibilidade de mover-se estes itens à frente por via aérea.

Estas limitações iniciais impediram um avanço imediato em direção a Porto Argentino, até que a situação do suprimento se normalizasse na cabeça-de-praia e mais helicópteros chegassem. Um ataque a posições mais fortemente defendidas dependeria de grande quantidade de munição, o que não estava ainda disponível.



Neste sentido, o afundamento do Atlantic Conveyor em 25Mai representou uma enorme perda. O navio transportava quatro helicópteros de transporte Chinook e cinco Wessex. Além disso, o navio levava material de acampamento para toda a tropa desembarcada.  Isto, se por um lado dificultava a aceleração do ritmo das operações, por outro lado tornava imperativo a antecipação do fim do conflito, já que o tempo estava piorando com a chegada do inverno e a tropa estava desabrigada.

O apoio logístico ao ataque contra Darwin - Goose Green foi parcialmente interrompido por um ataque aéreo argentino à AApLog, que não dispunha de adequada proteção antiaérea, matando 7 homens e ferindo outros 32. Em termos logísticos, a maior perda foi de munição: 200 tiros de morteiro 81 mm e 300 tiros de 105 mm que aguardavam o transporte para a frente. Além disso, aviões Pucara argentinos atacavam as linhas de suprimento durante todo o dia. A conseqüência foi a falta destas munições em momentos cruciais da batalha, a primeira de grande vulto travada nas ilhas.

A batalha de Goose Green demonstrou que as taxas de consumo de munição nas quais o planejamento da Brigada tinha se baseado tinham sido  irrealisticamente baixas.  O consumo das armas de pequeno calibre tinha sido quatro vezes superior ao previsto, enquanto o das munições 105 mm e 81 mm, cinco vezes. Este consumo equivalia a cerca de 25% do previsto para conflitos de grande intensidade (como os contra as forças do Pacto de Varsóvia). Por sorte, os logísticos previram esta possibilidade, aumentando deliberadamente os estoques transportados para a Zona de Combate.



Com o avanço das operações e a conquista de Teal Inlet, os britânicos tiveram a oportunidade de cerrar o apoio logístico, desdobrando uma área de apoio logístico avançada naquela localidade.

A situação logística da 5ª Brigada de Infantaria, que chegou em 02 Jun, era  menos satisfatória. Seus estoques estavam baixos e as organizações de apoio resumiam-se a duas companhias de manutenção. A brigada não levara meios para a distribuição de suprimentos.

Seus problemas logísticos nasceram da incerteza sobre sua ida para o Teatro de Operações. A hipótese de emprego para a qual a brigada era preparada referia-se "Missões de Intervenção", um eufemismo que se referia às ações limitadas em tempo e espaço destinadas a  salvaguardar os interesses de nacionais britânicos em países em crise. Uma missão de resgate e proteção, que não envolvia grande necessidade de duração na ação. Assim, seus meios logísticos eram naturalmente limitados.

Outra limitação nasceu das normas britânicas para o transporte em navios mercantes (a brigada foi transportada no Queen Elizabeth II), que impedia o transporte de munição e combustível na quantidade e na conformação desejáveis para sua configuração para o combate. Finalmente, houve uma indefinição de sua missão, na ocasião do embarque. As projeções eram de que a brigada não chegaria a envolver-se no combate, mas cumpriria papel de ocupação militar da Ilha, após o conflito.

A conseqüência desta limitação  foi um novo e muito maior encargo de apoio para o Regimento Logístico dos Comandos.



Seguindo as ordens para a 5ª Brigada de mover-se pelo eixo ao sul em direção à capital e em função da necessidade de emprego do "flanco marítimo" e por sua própria limitada capacidade de prestação do apoio logístico, foi decidido o estabelecimento de outra AApLog avançada em Fitzroy, a SW de seu objetivo. 

Suprimento foram enviados por mar para o estabelecimento desta área em dois navios logísticos. Estes navios foram observados por tropas argentinas que dominavam as alturas próximas, que informaram o comando argentino. Os navios foram bombardeados pela aviação vinda do continente, com a perda de 43 mortos e 200 feridos, além de preciosos suprimentos e equipamentos. 
  
O fato dos argentinos não terem aproveitado a confusão reinante em Fitzroy para contra-atacarem, permitiu que os britânicos consolidassem aquela posição próxima ao seu objetivo estratégico, enquanto a 3ª Brigada aproximava-se pelo norte. O ataque final seria faseado: a 3ª Brigada atacaria primeiro mais ao norte, seguida da 5ª Brigada ao sul na próxima noite.

O alto consumo de munição e a sua dificuldade de distribuição acabaram forçando uma adiamento do ataque da 5ª Brigada, previsto para a noite de 12/13 Jun, ante a impossibilidade de pré-posicionamento de tiros 105 junto às peças. O ataque foi, finalmente, realizado na noite seguinte. Na manhã de 14, o comando da guarnição argentina aceitou o cessar-fogo.



A logística argentina

Ao iniciar as hostilidades enfrentando uma hipótese de guerra inédita, o Exército Argentino não se achava devidamente adestrado e capacitado para sustentar um conflito da magnitude e características como as que enfrentou contra um inimigo com experiência e poder militar superiores.

O Exército funcionava no sistema de conscrição. Na ocasião, os soldados da classe de 1962 estavam dando baixa, enquanto os da classe de 1963 ainda não tinham completado sua instrução básica. Muitas das unidades enviadas para as Ilhas provinham de áreas de clima mais  ameno, no litoral ou no Norte da Argentina, o que resultou em graves problemas  de adaptação às inóspitas condições em que iriam lutar.



O bloqueio naval britânico impediu o apoio logístico às Ilhas por via marítima. Já o menor controle do espaço aéreo permitiu que a Força Aérea realizasse missões de reabastecimento, com aviões C-130 e Electra pousando nos aeroportos de Porto Argentino e Goose Green até, praticamente, o final do conflito. 

No período de 02 a 30 de abril, foram transportados para as Ilhas cerca de 1.500 homens e 500 toneladas de suprimento por via aérea; de 1 de maio a 14 de junho, 304 homens e 70 toneladas. Um total de 514 pessoas e 264 feridos foram evacuados de Porto Argentino, por ar, durante a luta.

Durante os meses de abril e maio, por determinação do Alto Comando, as forças nas Ilhas foram reforçadas com o envio das Brigadas de Infantaria X e III, sem que a estrutura logística existente fosse reforçada substancialmente, aumentando as dificuldades para a prestação do apoio. Do quadro de composição dos meios, é possível verificar-se a exigüidade dos meios de apoio presentes nas Malvinas.



Um problema adicional ao comando da GMM era o abastecimento da população local, que passaria a ser executado pelos militares. Uma das maiores preocupações dos argentinos era a de evitar privações entre os "kelpers", o que limitava o aproveitamento de recursos locais, já normalmente escassos. 
  
Em meados do mês de maio, um relatório do comando da GMM antevia sérias limitações no tocante ao apoio logístico. A tropa desdobrada fora de Porto Argentino não possuía abrigos adequados, expondo os soldados a um frio intenso; em função das chuvas, os abrigos individuais se inundavam, causando sérios problemas de saúde. Os níveis de estoque, inicialmente estabelecidos como equivalentes a 30 dias de suprimento, estavam se deteriorando, ante a incapacidade da ponte aérea de repor os itens consumidos, em especial rações, combustível, uniforme e peças de reposição, que totalizavam necessidades de cerca de 15 a 17 toneladas diárias. Começavam a aparecer casos de desnutrição entre os soldados.

Alguns recursos locais foram aproveitados para atender às tropas acantonadas em Porto Argentino, como uma pequena padaria e instalações de banho, que assegurava um banho a cada semana. Tentou-se, sem sucesso, implementar-se um programa de pesca. Uma outra deficiência que afetava significativamente o moral era a ausência de correspondências vindas do continente; como paliativo, foi instalado um programa de ligações telefônicas controladas. Um centro de repouso foi constituído junto às instalações do Hospital Militar.

As dificuldades de movimentação por terra nas Ilhas representou um sério óbice para a distribuição de suprimentos às tropas. O uso de helicópteros para este fim minorava ligeiramente o problema, especialmente depois que os britânicos obtiveram a superioridade aérea local, abatendo diversos helicópteros. Além disto, um mau uso destes, transportando tropas para suas posições, que poderiam ter sido alcançadas a pé, diminuiu o número de horas de vôo disponíveis para outra missões.

Em abril, o Hospital Militar de Comodoro Rivadavia recebera ordens de transladar-se para Porto Argentino. Lá, ocupou as instalações de um hotel, ainda não habitado. O hospital chegou a contar com 45 médicos, além de farmacêuticos, enfermeiros e bioquímicos, com uma capacidade de 70 leitos. As evacuações dos feridos da frente de combate eram complicadas, ante a dificuldade de deslocamento de viaturas através campo e pela pouca disponibilidade de aeronaves para a realização de EvAem. Mais de 80% dos atendimentos se referiam a perdas fora de combate, devido a problemas como pé-de-trincheira,  congelamento de dedos, infecções na pele e desnutrição. Dos  feridos em combate, 70% foram causados por projetis de baixa velocidade (estilhaços de granadas e bombas). Dentre os atendidos, 75% eram conscritos. 

Estas limitações do apoio logístico, nascidas basicamente da falta de planejamento, ocasionaram a falta de itens críticos para as forças em combate, especialmente rações, com o óbvio efeito negativo sobre o moral da tropa.

Uma semana antes da rendição, a situação logística argentina tornara-se crítica. Os estoques estavam no fim. Víveres, uniformes, peças de reposição, combustível e munições (em especial 155 mm) constituíam os principais problemas. O gado local (especialmente ovelhas) começou a ser empregado como fonte de alimentação para a tropa.



O maior fracasso logístico argentino, no entanto, deveu-se à sua dependência de fontes externas para a obtenção de importantes peças de reposição, necessárias à manutenção de equipamentos e sistemas em condições operacionais. Fontes britânicas afiançam, por exemplo, que os mísseis antiaéreos Roland da Argentina foram se tornando inoperantes ao longo do conflito por falta de peças de reposição simples, impedidas de serem obtidas pelo embargo econômico imposto aos argentinos.

Há notícias, não confirmadas, de que os argentinos teriam adquirido secretamente algum material de emprego militar, em especial mísseis antiaéreos na Líbia. Este fato não é confirmado, embora haja informações de cinco vôos extraordinários de aeronaves das Aerolineas Argentinas para Trípoli no mês de maio de 1982.

Conclusões

Após a capitulação argentina, uma comissão da alto nível das Forças Armadas argentinas realizou uma avaliação das causas da derrota no conflito. O resultado deste trabalho, conhecido como "Relatório Rattenbach", representou um estudo profundo e minucioso. São transcritas, abaixo, algumas de suas conclusões.

 "(...) a concepção estratégica inicial,  baseada no emprego decisivo do poder naval, transformou-se na resistência possível e com limitados apoios do elemento terrestre.

 (...) O poder de combate utilizado utilizado pelo inimigo em sua reocupação das ilhas foi significativamente maior no que se refere a : 

1) Capacidade profissional 
2) Capacidade técnica 
3) Experiência de combate 
4) Apoios de todos os tipos


Um aspecto sumamente importante relacionado com o exercício de comando (...) é o que se refere à carência absoluta de adequados apoios que permitissem aos elementos do Exército destacados um melhor desenvolvimento de suas capacidades e, por conseguinte, a obtenção de melhores resultados. Assim, por exemplo, as Forças Terrestres tiveram de lutar contra o inimigo e as condições de meio ambiente, COM UMA LOGÍSTICA ABSOLUTAMENTE DEFICIENTE, COM SÉRIAS LIMITAÇÕES DE APOIO DE FOGO, COM ABSOLUTAS LIMITAÇÕES PARA O TRANSPORTE DE EFETIVOS DEVIDO À ESCASSEZ DE HELICÓPTEROS DE TRANSPORTE E COM INSUFICIENTE APOIO AÉREO DIRETO E APOIO NAVAL." [o grifo é do relatório]

Obviamente, a derrota argentina não se explica somente pela deficiência do apoio logístico. Outros fatores, de ordem tática, podem ser alinhados entre as causas do resultado:


  • Emprego de tropas inadequadas e mal preparadas. Embora possuísse tropas profissionais e melhor ambientadas às condições inóspitas do extremo sul, o Alto Comando argentino decidiu mantê-las em reserva no continente, fazendo face a outras possíveis ameaças, como o Chile ou um ataque britânico. As forças empregadas não eram adestradas, sendo constituídas, em sua maioria, por conscritos prestando serviço militar inicial. Além disso, provinham de áreas de clima sub-tropical, não tendo tempo para ambientar-se. 
  • Falta de coordenação entre as Forças Armadas, em especial Exército e Força Aérea, dificultando o apoio aéreo aproximado à operações. 
  • Deficiência de informações estratégicas e de combate. 
  • Postura defensiva adotada, com pouca flexibilidade e agressividade, entregando toda a iniciativa ao oponente. Em pelo menos duas ocasiões, os argentinos deixaram de aproveitar oportunidades de impedir ou, pelo menos dificultar, o avanço britânico: logo após o desembarque, antes de consolidarem a cabeça-de-praia, e após o afundamento dos navios de transporte em Fitzroy. 
  • Desdobramento prematuro das forças, sem condições de sobrevivência adequada. As tropas ficaram por muito tempo em posições desabrigadas, sem contarem com as condições de abrigo adequadas. Este tempo foi pouco aproveitado na preparação do dispositivo defensivo e somente serviu para depreciar a capacidade combativa das tropas. As tropas desdobradas na Ilha Gran Malvina ficaram isoladas durante todo o conflito, não tendo qualquer participação significativa no seu desenrolar.

Do ponto de vista britânico, o apoio logístico foi um sucesso. Apesar da grande distância que separava as forças de suas bases, não foram sentidos grandes faltas de equipamentos essenciais, exceto aqueles perdidos no próprio combate, como a carga do Atlantic Conveyor. Nos poucos casos em que o material não estava disponível, a improvisação e engenho conseguiram substitutos razoáveis.

A Força Tarefa foi aprestou-se em um prazo bastante curto, demonstrando o elevado grau de prontidão e adestramento.

O conflito das  Falklands/Malvinas  traz uma série de ensinamentos do ponto de vista logístico. Entre elas, destacam-se:


  • A importância da mobilização dos recursos civis para a logística militar. A Grã-Bretanha empregou diversos navios civis mobilizados durante o conflito. Sem eles, não teria capacidade de transporte e apoio logístico à Força Tarefa. Aeronaves civis transportaram grandes quantidades de suprimento para a Ilha de Ascensão, que se constituía em uma Base Logística avançada. Diversos técnicos civis participaram do aprestamento da Força. Esta capacidade de rápida mobilização dos recursos civis é cada vez mais importante para a logística, ante a incapacidade econômica dos países em manter meios militares capazes de atender a todas as suas necessidades.
  • A importância de uma estimativa logística bem conduzida. Um  dos grandes problemas britânicos foi a alta taxa de consumo de munição,  bastante acima do previsto. Embora não tivesse impedido o sucesso da operação, os estoques de munição foram aquém do ideal. Tal fato demonstra a necessidade de informações gerenciais corretas e precisas no que se refere ao planejamento do apoio logístico.
  • O valor do helicóptero no transporte de suprimentos. Este conflito demonstrou, mais uma vez, a importância do helicóptero de carga na distribuição de suprimentos e na movimentação de tropas, especialmente em terrenos pouco favoráveis ao trânsito de viaturas.
  • A vulnerabilidade da logística nacional ante equipamentos importados. Contratos existentes entre a Argentina e países fornecedores de materiais de emprego militar, como no caso da França, tiveram suas entregas atrasadas deliberadamente, diante do embargo econômico da Comunidade Européia. Há fontes que afirmam que segredos militares sobre o desempenho de equipamentos, como os mísseis Exocet e as aeronaves "Super Etendard" forma passados aos britânicos durante o conflito, permitindo-lhes que melhorassem suas medidas defensivas.
  • Necessidade da integração entre os planejadores táticos e logísticos. Esta talvez tenha sido uma das maiores lições do conflito, para ambos os lados. Das deficiências logísticas argentinas, muito já foi dito. Basicamente, nasceram da falta do elemento logístico junto ao tático. Providências importantíssimas, como o pré-posicionamento de suprimentos, melhoria das condições das pistas de pouso, construção de abrigos para as tropas, fornecimento de uniformes mais adaptados para as condições climáticas, etc., poderiam ter possibilitado melhores resultados para os combates. 
  • Do lado britânico, esta necessidade de integração também ficou patente. As dificuldades surgidas após o desembarque para o prosseguimento rumo a Porto Argentino, a falta de proteção antiaérea da AApLog na Baía Ajax e, posteriormente, em Fitzroy, a chegada da 5ª Brigada de Infantaria sem os adequados meios para a prestação do apoio logístico foram exemplos típicos desta dificuldade de trabalho conjunto.
   

sábado, 22 de setembro de 2012

O Desastre de Bluff Cove

Ilhas Falklands/Malvinas 1982


Robert S Bolia


Considerando-se a localização das Ilhas Malvinas, poderia supor-se que os planos de invadir ou defendê-las exigiriam operações combinadas. Esta expectativa foi certamente confirmada quando argentina invadiu as Ilhas em 1982 e, quando uma semana depois, o Reino Unido deslocou uma força-tarefa combinada para retomá-las.

A guerra em si constou de uma série de operações combinadas por parte da força-tarefa britânica, muitas das quais foram bem-sucedidas, incluindo desembarques anfíbios, fogo de apoio naval as operações de infantaria e a infiltração de Forças Especiais através de helicópteros e navios. O objetivo deste estudo é discutir uma das operações combinadas da guerra que teve menos êxito — o desembarque anfíbio dos Welsh Guards em 8 de junho de 1992 em Fitzroy — e avaliar até que ponto os fracassos nas “operações combinadas” por parte das forças britânicas, foi o motivo do desastre subseqüente.

As relações entre a Marinha Real e o Exército britânico — representadas pelos soldados da recém formada 5ª Brigada — eram tensas. Uma razão para isto era a percepção que o Exército havia se infiltrado na guerra somente para acumular mais glória, apesar de estar mal preparado para enfrentar o tempo de inverno do Atlântico Sul e a natureza das operações anfíbias. O Comodoro Michael Clapp, o qual tinha supervisionado os desembarques quase perfeitos executados pela 3ª Brigada de Comandos foi especialmente crítico: 

" O que não apreciei ... foi a falta de entendimento das operações combinadas por parte da Brigada do Exército nem as praticamente inexistentes comunicações que converter-se-iam em um constante problema para essa Brigada. O General Tony Wilson (Comandante da 5ª Bda) e seu estado-maior não deveriam ser os únicos culpados pela ineficiência. Em primeiro lugar, a demora no envio dos reforços, baseando-se na pressuposição que qualquer plano para voltar a capturar as Ilhas Malvinas fracassaria, sugere que o EM do Exército não desejava ser parte desse suposto desastre. Em segundo lugar, quando a Brigada foi deslocada, duas de suas três maiores unidades de manobra não a acompanharam; não tinha nenhum apoio logístico e muito pouco treinamento e, certamente, nenhum treinamento em operações combinadas Marinha/Exército ou anfíbias. O fato de que deviam combater sem estabelecer uma guarnição militar em uma das operações militares mais complicados em um inverno subantártico deveria ter sido uma surpresa desagradável para o EM do Exército." 
     
É possível que o ponto de vista de Clapp tenha sido influenciado pelo comportamento dos soldados da 5ª Brigada a bordo dos transportes nas águas de San Carlos, onde adquiriram notoriedade devido à sua falta de ordem e disciplina, além de sua inclinação para roubar os pertences pessoais dos marinheiros.

Um oficial do Exército escreve: 

" A Marinha estava acostumada a ter a bordo os membros do Real Corpo de Fuzileiros Navais e outros boinas verdes integrantes das Forças de Comandos. Portanto, eles presumiram que os Welsh Guards seriam iguais — ou pelo menos similares. Logo ficou claro que, para os marinheiros com maior experiência, os Welsh Guards não estavam tão bem preparados como precisavam estar. Depois de confusões e dificuldades, os soldados no navio Intrepid desembarcaram, porém o navio teve de voltar pouco tempo depois para recolhê-los. Esta situação foi muito trabalhosa porque empregou embarcações de desembarque mecanizadas para transportar as tropas novamente a bordo, para um navio que era difícil de operar em condições normais. Os marinheiros ficaram assombrados com a condição dos Welsh Guards após somente uma noite no terreno. Eles estavam molhados, sujos, miseráveis e obviamente ineficazes. Os marinheiros compararam os Guards com o Real Corpo de Fuzileiros Navais, que mesmo depois de árduos exercícios regressam a bordo em ordem e em boas condições físicas, embora as marcas de suas botas deixem rastros de lama no navio limpo."


A falta de disciplina e de adestramento anfíbio da Brigada do Exército associada com a escassez de comunicações causaram baixas devidas ao fogo amigo. O primeiro incidente dessa natureza ocorreu na noite de 5 de junho, quando o navio HMS Cardiff abateu, por engano, um dos helicópteros Gazelle da 5ª Bda. Pelo menos quatro fatores contribuíram para o acidente: 

  • a 5ª Bda não estava acostumada a operar com a Marinha Real, e não dispunha de um oficial de ligação naval; 
  • a 5ª Bda deixou de enviar informações sobre o vôo para o QG do General Moore para que a Marinha Real fosse informada; 
  • o Contra-almirante Woodward não informou nem as Forças Terrestres (Moore) nem ao Comandante da Força-Tarefa Anfíbia (Clapp) que o Cardiff  havia preparado uma emboscada para aeronaves de transporte argentino C-130 que haviam estado realizando vôos noturnos de ida e volta até o continente; e
  • o sistema de identificação, amigo ou inimigo, do Gazelle estava desligado, porque estava interferindo nos outros instrumentos eletrônicos a bordo do mesmo. 


O Cardiff detectou a presença do Gazelle por meio do radar e baseado em sua velocidade e direção supôs que era um dos C-130. Como o comandante não esperava encontrar aeronaves amigas em sua área, abateu o helicóptero empregando o sistema de mísseis antiaéreo Sea Dart do Cardiff.



A falta de coordenação e cooperação apropriadas entre o Exército britânico e a Marinha Real também foi a responsável pelas baixas infringidas pelo inimigo que, de outra maneira, poderiam ter sido evitadas. Esse fato foi mais evidente nos eventos que resultaram no bombardeamento dos navios de desembarque logísticos Sir Galahad e Sir Tristam pelos argentinos. 

Os problemas começaram antes que a 5ª Bda chegasse às Malvinas. Enquanto se encontravam em rota, a 3ª Brigada de Comandos havia desembarcado em San Carlos e consolidado ali suas posições. Uma semana depois o 3º Batalhão Paraquedista e a 45º Batalhão de Comandos começaram sua marcha em direção a Porto Argentino enquanto o 2º Batalhão Paraquedista marchou para o sul para assaltar as posições em Pradera del Ganso.

Ao aproximar-se o dia 31 de maio — um dia antes da 5ª Bda desembarcar em San Carlos — três batalhões da 3ª Bda de Comandos estavam em Monte Kent, uns 25 quilômetros da capital. Dos dois batalhões restantes o 2º Batalhão Paraquedista ainda se encontrava na Pradera del Ganso, executando operações de limpeza depois de derrotar e capturar a força argentina naquele local; o 40º Batalhão de Comandos estava entrincheirado em San Carlos, pronto para defender a cabeça de praia caso fosse necessário. 

Isso deixou o General Jeremy Moore, Comandante das Forças Terrestres nas Ilhas Malvinas com uma decisão a tomar. Deveria trasladar as unidades restantes da 3ª Bda de Comandos para frente, deixando a 5ª Bda para proteger a cabeça de praia e atuar como reserva, ou deveria abrir o eixo de progressão ao longo da costa sul da Ilha de Soledad, enviando a 5ª Bda para assumir posições no flanco direito, antes de executar a impulsão final contra Porto Argentino? 




Existiam sólidas razões militares para justificar a primeira opção. A 3ª Bda de Comandos era uma unidade com muita experiência, tendo treinado em conjunto durante muitos anos. Os membros da unidade estavam melhor adaptados às condições climáticas das Malvinas devido tanto à sua estadia mais prolongada no teatro como também aos anos de adestramento na Noruega. 

Estavam, além disso, posicionados à frente e prontos para combater — na verdade, o 2º Batalhão Paraquedista já havia demonstrado sua capacidade de combate em Pradera del Ganso. Embora houvesse razões militares legítimas para abrir o eixo de progressão sul, a decisão de Moore parece ter sido, em grande parte, política. O  Brigadier Tony Wilson, comandante da 5ª Bda, havia pressionado Moore para que considerasse a passagem pelo sul. Segundo um oficial do EM do Real Corpo de Fuzileiros Navais, Wilson “estava obcecado com a idéia de que Julian Thompson (Comandante da 3ª Bda de Comandos) venceria a guerra antes que seus homens pudessem fazer alguma coisa”.


Enquanto qualquer comandante de brigada teria um desejo natural de demonstrar a eficácia de sua brigada em combate, o desejo de Wilson neste caso, se debruçava mais do que o necessário sobre Moore. Como General do Real Corpo de Fuzileiros Navais, Moore sentia profundamente que não deveria demonstrar um favoritismo indevido aos fuzileiros. Ao dar a Wilson seu eixo sul, Moore talvez tivesse a esperança de que estivesse dando ao Exército uma mesma oportunidade de glória.


Quando Moore aprovou o ataque pelo sul, ele esperava que a 5ª Bda desembarcasse em San Carlos, marchasse em direção sul até a Pradera del Ganso dali avançando rapidamente em um terreno acidentado através da costa sul da Ilha de Soledad, tomando sua posição de combate, sobre o flanco direito da 3ª Bda de Comandos nas colinas fora de Porto Argentino. Ao invés disso, o 2º Batalhão Paraquedista, novamente sob o controle operacional da 5ª Bda, se apoderou de um helicóptero Chinook deslocando-se para Fitzroy e Bluff Cove, sem antes notificar a Moore, mas com a aprovação do Brigadier Wilson, que apresentou a Moore o fato consumado.


Embora o avanço apressado do 2º Btl Paraquedista tivesse sido audaz e bem-sucedido, não foi sensato do ponto de vista militar. O batalhão havia avançado uns 55 km adiante da unidade mais próxima da 5ª Bda, sem artilharia ou apoio aéreo e também sem meios de reforço imediatos. Estavam isolados e qualquer tentativa argentina de se aproveitar desse isolamento poderia ter sido desastrosa para os paraquedistas. De fato, seu desembarque em Fitzroy quase causou um incidente entre forças amigas, ao serem descobertos por um posto de observação do Grupo de Guerra Ártica e de Montanha. Segundo o Cabo de 2ª Classe Steve Nicoll do 7º Esquadrão de Contra-Insurreição:

" Ao calcular as coordenadas para uma missão de fogo contra as tropas que estavam concentradas em campo aberto, abri as vias de comunicações empregando linguagem clara, procurando confirmação do movimento das forças amigas para evitar qualquer perda de tempo de informação. O QG da Unidade na Enseada Teal junto com o QG da 3ª Bda de Comandos confirmou que não deveria haver tropas amigas à nossa frente. Após várias perguntas e respostas para confirmar detalhes, a missão de fogo foi aceita... Estávamos esperando receber a ordem executiva consistente de ‘três tiros de eficácia’,...Precisamente nesse momento as nuvens se dissiparam possibilitando a visão de uma figura facilmente reconhecível de um helicóptero Scout com marcas britânicas. Tudo aconteceu em breves segundos, o rádio já estava preparado e o comando “check, check, check” confirmava a detecção de um helicóptero Scout”...Ainda não estava claro se toda a atividade podia ser atribuída aos britânicos, mas era evidente que havíamos estado muito perto de disparar contra nossas próprias forças." 

O deslocamento à frente pelo 2º Batalhão Paraquedista deixou Moore exasperado. Ele não podia chamar de volta o batalhão sem arriscar parecer, por um lado, estar favorecendo o Real Corpo de Fuzileiros Navais e por outro ser lento no processo de progressão. Ao mesmo tempo, não podia reforçar facilmente o batalhão paraquedista. Não havia suficientes helicópteros para aerotransportar o resto da brigada e seu equipamento e as unidades do Exército não estavam preparadas para se deslocar nas Malvinas (os Welsh Guards haviam tentado se deslocar para a Pradera del Ganso, mas haviam sido trazidos de volta quando seu deslocamento foi frustrado pela lama e pela falta de transporte adequado). A única opção era de deslocá-los por mar.



O transporte marítimo era, provavelmente, a forma mais rápida de movimentar a Brigada de San Carlos para Fitzroy, porém devido à proximidade a Porto Argentino e a falta de uma defesa aérea apropriada, estava longe de ser o mais seguro. A maneira mais fácil de realizar tal movimento teria sido através do emprego de dois navios de desembarque, o Fearless ou o Intrepid, mas o QG da Esquadra em Northwood, Reino Unido, havia proibido estritamente o emprego destes meios de grande valor para esse deslocamento. O movimento dos Scots Guards foi efetuado fazendo com que o Intrepid navegasse até o meio do caminho entre os dois pontos e colocasse as tropas nas embarcações de desembarque e para serem transportados o resto do caminho. Isso permitiu que o Intrepid regressasse sob a proteção da defesa aérea em San Carlos antes do amanhecer. 

Embora o movimento dos Scots Guards tivesse sido razoavelmente bom, ainda existiam problemas de comunicações entre a 5ª Bda e a Marinha Real, e entre a Força de Porta-aviões e a Força-Tarefa Anfíbia. Esta falha quase causou mais incidentes entre as próprias forças amigas. Um deles ocorreu quando uma das embarcações de desembarque quase foi atingida pelos navios da Armada Real, o  HMS Cardiff  e o HMS Yarmouth, os quais não tinham sido informados da presença de forças amigas na área. O outro incidente resultou do fato de o 2º Batalhão Paraquedista não ter sido informado que os Scots Guards estavam chegando. Quando apareceram em suas embarcações de desembarque no dia 6 de junho, os homens da 29ª Bateria pensavam que os referidos guardas fossem argentinos tentando uma operação anfíbia e apontaram suas armas contra eles, dispostos a abrir fogo.

O plano era empregar a mesma tática para deslocar os Welsh Guards para Bluff Cove empregando o Fearless no lugar do Intrepid. Desta vez, duas das embarcações de desembarque do Fearless seriam carregadas, com antecipação, com o equipamento pesado pertencente aos Welsh Guards, assim estariam prontos para navegar quando atingissem a Ilha Elephant. Lá deveriam reunir-se com duas das embarcações de desembarque pertencentes ao Intrepid, que haviam ficado em Bluff Cove depois de haverem deixado ali, na noite anterior, os Scots Guards. As duas companhias de fuzileiros dos Welsh Guards embarcariam nestas embarcações de desembarque e seguiriam os outros para Bluff Cove. Entretanto, quando o Fearless chegou ao ponto de reunião, não encontrou nenhuma das embarcações de desembarque.



Um helicóptero Lynx foi designado para procurá-las, mas sem nenhum sucesso. As comunicações entre o Fearless e a 5ª Bda eram tão deficientes que era impossível verificar o que havia acontecido com os referidos transportes — ocorreu que eles haviam sido tomados por um Major do 2º Batalhão de Paraquedistas e levados para Fitzroy— contudo era necessário tomar uma decisão sobre o que fazer com as tropas e o equipamento que estavam embarcados nas embarcações de desembarque do Fearless. Depois de uma discussão ficou decidido resgatar imediatamente essas embarcações e regressar à noite seguinte para desembarcar as duas restantes companhias de fuzileiros.

 O desembarque do equipamento pesado foi realizado sem incidentes, mas uma nova ordem proveniente do QG da Esquadra em  Northwood proibiu o emprego das embarcações de desembarque sem uma grande escolta.

Era necessário um novo plano. Logo foi decidido que os Welsh Guards seriam levados a bordo do navio de desembarque logístico Sir Galahad, o qual deveria transportar para Fitzroy uma bateria de mísseis superfície-ar Rapier e um hospital de campanha, o que não deveria ser nenhum problema. Havia bastante espaço para os Welsh Guards e, se o Sir Galahad tivesse saído de San Carlos ao anoitecer, poderia ter descarregado os Rapiers  e o hospital de campanha em Fiztroy e os Welsh Guards em Bluff Cove, podendo ainda ter regressado para San Carlos antes do amanhecer. Infelizmente, devido à uma série de problemas de comunicações, o hospital de campanha levou seis horas para ser embarcado e o navio de desembarque logístico não pôde zarpar até cinco horas após o anoitecer. O comandante solicitou permissão para adiar a viagem até a próxima noite, mas seus superiores ordenaram sua partida imediatamente. A única concessão feita foi que ele deveria ir somente até Fiztroy e não para Bluff Cove. Nenhuma informação foi recebida sobre o que fazer com os Welsh Guards e nem lhes foi avisado que o navio no qual haviam embarcado não iria a Bluff Cove.



A mudança de destino não foi notada até que o navio chegou a Fitzroy às 0650 da manhã seguinte e o Major Ewen Southby-Tailyour, do Real Corpo de Fuzileiros Navais anunciou: “Ninguém está indo para Bluff Cove a não ser que eles caminhem até lá”.

Os Welsh Guards desembarcaram em Fiztroy e marcharam 8 quilômetros até Bluff Cove. Os majores que comandavam as duas companhias se recusaram. Southby-Tailyour, que era de maior hierarquia que ambos, ordenou que desembarcassem, e eles mais uma vez se recusaram. Outra solução viável era embarcar tantos guardas quanto possível na embarcação disponível e zarpar para Bluff Cove o quanto antes. A opção foi aceita, mas sua execução foi adiada porque a rampa de embarque havia sido avariada. Quando os Scots Guards estavam prontos para desembarcarem o Sir Galahad e outro navio de desembarque logístico, o Sir Tristan, haviam ancorado em Port Pleasant, fora de Fitzroy por cinco horas. Não é preciso dizer que os argentinos, nas colinas ao redor de Porto Argentino já haviam percebido a presença deles.

Isto não teria sido um grande problema no dia anterior; as Malvinas tinham sido acossadas durante vários dias pelo mau tempo, impedindo a Força Aérea Argentina de voar. Entretanto, no oitavo dia o tempo começou a limpar e, embora houvesse previsão de algumas tormentas esparsas, ainda era possível arriscar uma incursão.



Assim que um posto de observação avançado informou a presença de navios britânicos em Port Pleasant, a Força Aérea Argentina emitiu ordens para atacá-los. O plano de ataque constava de três partes. Oito aviões  A-4B Skyhawks, quatro de cada esquadrão “Dogos” e “Mastines” — voariam de Rio Gallego, portando três bombas de 250 kg. Seis caça-bombardeiros M-5 Daggers — três “Perros” e três “Gatos” — decolariam da base aérea de Rio Grande igualmente carregados e liderados por um Learjet o qual forneceria informação precisa de navegação. As quatorze aeronaves de ataque — número este que foi reduzido para dez quando três Skyhawk e um Dagger apresentaram problemas mecânicos ou de reabastecimento — foram precedidas por quatro Mirages provenientes de Rio Gallegos a fim de atrair a patrulha aérea de combate dos aviões Harrier, permitindo aos Skyhawks e Daggers atacar os navios ancorados em Bahia Agradável até então imperturbados.

Para acompanhar o  Learjet mais lento, os cinco Daggers trocavam seus ângulos de direção ziguezagueando através do céu entre o Rio Grande e as Malvinas. À medida que se aproximavam às ilhas o grupo descendeu até um ponto exatamente acima do nível do mar, evitando assim a detecção pelo radar britânico, e o Learjet retornou à base. Cabia agora aos “Perros” e “Gatos” encontrar e atacar seus alvos. Os  Daggers nunca chegaram à Bahia Agradável. À medida que se aproximavam à baia detectaram e decidiram atacar a fragata  HMS Plymouth, a qual havia saído de San Carlos para bombardear as posições argentinas nas colinas nos arredores de Porto Argentino. Quatro bombas atingiram a fragata, mas sendo lançadas à baixa altura elas não explodiram. Mesmo assim foi um ataque bem-sucedido — a fragata sofreu danos significativos e quatro tripulantes foram feridos — e todos os Daggers retornaram salvos à base.



Apesar de os britânicos indicarem que o Plymouth sobreviveu à guerra, pelo menos uma fonte argentina, escreveu muito tempo depois da guerra, que a fragata havia afundado. Ainda outro relatório argentino sugere que foi o HMS Yarmouth o que foi afundado pelos Dagger e que o Plymouth afundou no mesmo dia no Estreito de San Carlos por um ataque acidental de uma aeronave Harrier. Estes erros refletem não apenas a confusão da guerra, mas também a crença de que o governo britânico tentaria ocultar a perda de uma ou mais embarcações para evitar uma manifestação pública que poderia levar à finalização mais cedo da guerra.

Embora os Daggers nunca tivessem chegado à Bahia Agradável, os Skyhawks  o fizeram. Como três deles — incluindo os dois líderes do vôo — não puderam se reabastecer e tiveram que retornar a Rio Gallegos, as restantes cinco aeronaves se agruparam num único esquadrão para o resto da missão. Voaram a baixa altura sobre a Ilha Soledad recebendo fogo das pequenas armas portadas pelos Scots Guards à medida que passaram por Fitzroy e Bluff Cove, retornando para atacar os navios de desembarque logísticos quando os mesmos se dirigiam para o mar. O Skyhawk líder lançou duas bombas sobre o Sir Galahad e ambas explodiram. As bombas do segundo avião foram muito longe, mas a terceira acertou o alvo, lançando outra bomba de 250 kg sobre a embarcação. Os outros dois aviões, vendo as explosões, lançaram suas bombas sobre o Sir Tristam que se encontrava nas proximidades. Os cinco Skyhawks puderam escapar e retornaram salvos. 

Onde se encontravam as defesas antiaéreas britânicas? Na realidade, não existiam. Enquanto as plataformas de desembarque Fearless e Intrepid — proibidas pelo QG da Esquadra em Northwood de participar da operação — portavam ambas quatro sistemas de mísseis superfície-ar Seacat além de duas armas Bofors de 40mm, os navios de desembarque logísticos estavam armados apenas com os Bofors. A patrulha aérea de combate dos Harriers, desviada pelos Mirages, não teve nenhuma oportunidade de interceptar ou perseguir os Skyhawks.



Além disso, a bateria do Rapier não estava funcionando adequadamente. O Rapier era um sistema de mísseis superfície-ar concebido para a defesa de ponto contra aeronaves voando a baixa altura e tinha sido eficaz contra os Skyhawks. Infelizmente, os lança-mísseis trazidos pelo Sir Galahad para Fitzroy, apesar de terem sido armados em tempo recorde, apresentavam defeitos e não puderam disparar. Antes de serem embarcados nos navios de desembarque já se sabia que dois dos três lança-projéteis estavam apresentando problemas, mas não havia muitos Rapiers disponíveis e a defesa do ancoradouro de San Carlos foi considerada mais importante que a defesa de Fitzroy. Como disse um dos encarregados da defesa antiaérea: “eu apertei o botão de disparo e nada aconteceu. Tive que ficar sentado e ver o Sir Galahad explodir como se estivesse vendo um filme, só que era real. Foi o momento mais deprimente de minha jovem vida.”



O alerta vermelho de aviso de incursão aérea foi transmitido pelo  HMS Exeter uns minutos antes do ataque, porém a referida alerta não foi recebida por nenhum dos navios de desembarque logísticos.

O único alerta recebido pelos marinheiros e Welsh Guards foi quando os soldados e marinheiros viram as aeronaves se aproximando e gritaram “abaixem-se” para seus companheiros. Então já era muito tarde para que se pudesse fazer qualquer coisa a fim de evitar o massacre. As explosões que sacudiram o Sir Galahad incendiaram os depósitos de combustíveis e munições 
criando um inferno que causou a morte de 48 pessoas, feriu outras centenas, muitas das quais sofreram queimaduras muito severas. 




As baixas no Sir Tristam, que estava quase vazio, foram menos que no Sir Galahad. Ambas as embarcações foram imediatamente evacuadas com a heróica ajuda de quatro helicópteros Sea King e um Wessex, os quais com sua presença evitaram uma maior perda de vidas. Sem dúvida, esse dia foi o de maior custo em vidas para os britânicos.O pesadelo ainda não havia acabado. Dado ao êxito dos ataques contra os navios de desembarque logísticos e o Plymouth, os argentinos enviaram mais duas surtidas com quatro Skyhawks cada uma. A primeira surtida não causou nenhuma baixa britânica, pois os quatro Skyhawks foram atingidos pelo fogo de pequenas armas tendo de regressar às suas bases. A segunda surtida teve mais êxito no seu ataque, mas não no seu retorno. As duas primeiras aeronaves atacaram uma embarcação de desembarque que transportavam o equipamento de comunicações da 5ª Bda através do Estreito de Choiseul, afundando-o, matando seis homens a bordo e destruindo os rádios da brigada. Duas aeronaves de combate Harrier detectaram as aeronaves argentinas abatendo três dos quatro Skyhawks com mísseis ar-ar Sidewinder.
     
Apesar da trágica perda de vidas, o desastre em Fitsroy foi mais uma advertência do que um obstáculo para as Forças britânicas. Quanto ao material, o incidente causou o naufrágio do Sir Galahad e a perda de uma embarcação de desembarque, bem como munições variadas e equipamento de comunicações. Também retardou uns dois dias o ataque sobre o Porto Argentino, sobretudo para que os Welsh Guards pudessem ser reforçados por duas companhias do 40º Batalhão de Comandos.



Tudo isso não afetou o resultado da guerra, na verdade o mais trágico aspecto deste evento poderia ter sido evitado. O clima foi um aspecto importante. Se as nuvens não tivessem se dispersado a Força Aérea Argentina nunca teria iniciado um ataque. Porém, esta é uma afirmação um tanto sem sentido. 

Afinal, nem o Exército britânico nem a Marinha Real podiam controlar o clima. Além disso, a invenção e a aplicação das munições guiadas por radar e por sistemas de posicionamento global (Global Positioning Systems — GPS) nas duas décadas depois da guerra das Malvinas fazem com que as condições meteorológicas sejam um assunto de menor importância. Por outro lado, o fato de Clapp não estar recebendo informações meteorológicas de Fitzroy foi, com certeza, importante — só um dos muitos problemas de comunicações realçados pelas operações de transporte. 

A falta de capacidade de alerta aéreo antecipado (airborne early warning — AEW) da Marinha Real era também um assunto principal. Aliás, a presença de aeronaves dotadas de sistemas de alerta antecipado no teatro talvez fosse suficiente para impedir que a Força Aérea argentina atacasse em primeiro lugar. Certamente poderia ter mudado o resultado não apenas em relação ao Sir Galahad, mas também para o Sheffield, Coventry e o Atlantic Conveyor. As comunicações continuavam sendo um problema importante. A falta de notificação dos planos de vôos causou a derrubada acidental do helicóptero Gazelle e as reduzidas capacidades das comunicações foram as responsáveis pela inabilidade de receber o alarme de incursão aérea deixando aqueles que estavam a bordo do Fearless sem conhecimento da localização das embarcações de desembarque na noite de 6 para 7 de junho. 

Este último fato tinha mais a ver com a decisão da 5ª Brigada de avançar todas as suas tropas de combate antes das unidades logísticas. Isto contribuiu não apenas para o próprio desastre, mas também para a falta de conhecimento nos QG da brigada e divisão, sobre a situação a bordo do Fearless após o bombardeiro. A limitada visão das diversas forças singulares contribuiu muito para os eventos de 8 de junho. Se o General Moore tivesse ordenado ao 2º Batalhão Paraquedista retornar para a Pradera del Ganso em primeiro lugar, a 5ª Bda teria se deslocado através da Ilha Soledad, da mesma forma que fizeram os integrantes do Real Corpo de Fuzileiros Navais, e o ataque jamais teria acontecido. Ainda mais, se os oficiais dos Welsh Guards tivessem escutado o conselho da Marinha no Sir Galahad, teriam desembarcado imediatamente em Fitzroy ao invés de esperar para ser transportados até Bluff Cove, espera esta que custou muitas vidas. 




Outro problema foi a falta de um comandante da força combinada localizado no teatro de operações. A força-tarefa foi oficialmente comandada pelo Almirante Sir John Fieldhouse, sediado no QG combinado da Esquadra em Northwood na Grã-Bretanha. Fieldhouse exercia esse comando através do General Jeremy Moore, comandante das Forças Terrestres nas Malvinas; do Contra-Almirante Sandy Woodward, Comandante da Força de Porta-Aviões e o Comodoro Michael Clapp, Comandante da Força-Tarefa Anfíbia. Entretanto, esta distribuição particular de comando conduziu a uma série de faltas de comunicações, desentendimentos e frustrações devidos, em parte, ao fato de que Clapp era um oficial-general de uma estrela, enquanto Moore e Woodward eram oficiais generais de duas estrelas, uma situação que às vezes levou Woodward a proceder como se considerasse Clapp seu subordinado. Ademais, a percepção no QG combinado da Esquadra em Northwood parecia estar sendo influenciada significativamente pela perspectiva de Woodward.

Outra das conseqüências da falta de um comandante da força combinada sediado no teatro de operações consistia na emissão de decisões dos comandos superiores — tal como a proibição do emprego dos navios de desembarque sem grandes escoltas — que talvez não tivesse existido se o comandante estivesse localizado na área e como tal podido discutir tais assuntos com o Comandante da Força-Tarefa Anfíbia. Realmente, A falta de alerta aéreo antecipado foi responsabilidade de um programa de emergência para modificar o helicóptero SH-3D Sea King para atender naquela capacidade. Já que os porta-aviões britânicos só puderam operar com helicópteros ou aviões de decolagem e pouso vertical, o  Hawkeye  não era uma opção. A capacidade de alerta aérea antecipada do Reino Unido foi posteriormente aumentada com a aquisição pela Real Força Aérea de sete Sistemas Aerotransportados de Detecção Longínqua E-3D (Airborne Warning and Control Systems — AWACS).

Tanto o Sea King como o AWACS têm servido muito bem o Reino Unido em numerosos conflitos desde a Guerra das Malvinas, inclusive nas operações Allied Force, Enduring Freedom e Iraqi Freedom. A integração combinada foi a mais difícil de solucionar, mas os britânicos responderam com a introdução de uma “Política de Defesa e um Estado-Maior Operacional totalmente unificados”.



 Isto foi ampliado pela mudança da Revista de Defesa de 1981, a qual tinha sugerido que (1) a Marinha Real não necessitava mais de porta-aviões, uma vez que a Real Força Aérea podia proporcionar a defesa da frota em qualquer lugar do mundo, e (2) que os navios de desembarque como o Fearless e o Intrepid eram desnecessários, porque as forças do Reino Unido jamais teriam que enfrentar o inimigo durante um desembarque anfíbio.

A decisão de operações combinadas tem rendido muitos dividendos, inclusive uma melhor colaboração na Operação Desert Storm e nas subseqüentes operações combinadas e de coalizão.