"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa
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domingo, 20 de janeiro de 2019

Controle do Espaço Aéreo (Parte 1) #





Parte 2 - em breve

Operações militares são freqüentemente executadas envolvendo um grande número de aeronaves. Da utilização eficiente do espaço aéreo sobre a área de operações pode depender o seu sucesso, onde sistemas aéreos com envelopes operacionais que se sobrepõem, devem operar sem interferência mútua. Este espaço deve ser coordenado de forma a maximizar a eficácia da força sem inibir o poder de combate de qualquer um de seus componentes em particular.

Um sistema integrado de controle de espaço aéreo é peça fundamental nas operações que envolvam aeronaves, assegurando a sincronização necessária para que os meios de todas as forças utilizem esta terceira dimensão, dispondo de organização, instalações, pessoal e procedimentos dedicados. O espaço aéreo poderá ser setorizado, tanto em território como em diversos níveis de altitude, e cada setor entregue a um centro de controle próprio, que atuará em sinergia com o controle dos espaços adjacentes e sob a égide de um controle central. Além de otimizar o tráfego, uma coordenação eficiente possibilitará o envolvimento oportuno de ameaças e a minimização do fratricídio.



Operando no século XXI

Operar na guerra moderna significa desenvolver operações simultâneas e intensas, cujas demandas devem ser respondidas com agilidade e sincronização, sem espaço para rotinas burocráticas retardadoras. As diversas unidades são destacadas para missões em toda a profundidade do espaço de batalha não mais obedecendo a um “front” definido como outrora se operou.

O primeiro e mais importante aspecto que envolve o controle do espaço aéreo é a sincronização, que consiste na aplicação do poder de combate em lugar e tempo específicos, potencializando o poder de cada unidade pela sinergia. Aeronaves dos sistemas logísticos, comando e controle (C2), do alerta aéreo, sistema de inteligência e de ataque à superfície devem operar simultaneamente a manobra de terra ou mar, sem interferirem umas com as outras. Soma-se a estes os sistemas de apoio de fogo e de artilharia antiaérea, que também utilizam a terceira dimensão.

Os comandantes táticos terrestres devem ter a liberdade de usar o espaço aéreo sobre suas forças, dispondo de flexibilidade para empregar seus meios orgânicos com restrições mínimas.

O elemento geográfico básico para setorizar um espaço aéreo é a área de operações de uma determinada força, cujo controle deverá ser do comandante desta força através de seu órgão de controle de espaço aéreo, até um determinado nível, acima do qual o controle será exercido pelo controle central ou quem este designar, e normalmente é onde operarão as aeronaves da força aérea que não em apoio a esta força. Sobre o mar as áreas são maiores e o controle aéreo tende a ser mais fácil e tranqüilo, mesmo com grande quantidade de aeronaves.

O controle do espaço aéreo envolve quatro atividades funcionais básicas - comando e controle (C2), a defesa aérea, aspectos da coordenação do apoio de fogo e o controle de tráfego aéreo. Unidades que possuem um único elemento aéreo normalmente designam o comandante desse elemento como responsável pelo controle aéreo de seu setor, e se possuir mais que um o comando designará as responsabilidades.

A tarefa básica do órgão controlador do espaço aéreo é agilizar a realização da missão tática e operacional, fornecendo os procedimentos e diretivas necessárias para cumprir a missão de seu escalão, minimizando os riscos potenciais devido à defesa aérea amiga, os fogos de apoio, as diversas aeronaves do exército e de vôo baixo, os veículos aéreos não tripulados e as operações aéreas táticas.

A precisão e a letalidade dos sistemas inimigos de defesa, forçarão muitos usuários do espaço aéreo a buscar proteção operando em altitudes muito baixas, mesmo unidades da força aérea, quando estiverem próximos destas áreas.



As armas de defesa aérea devem estar livres para envolver todas as aeronaves hostis dentro das regras prescritas de engajamento, evitando acidentes com aeronaves amigas. O controle do espaço aéreo deve facilitar a identificação das aeronaves através de procedimentos padrão facilmente executados pelos pilotos e identificados pelo sistema de defesa aérea. As operações de defesa aérea não devem causar atrasos no suporte aéreo, criando uma estrutura de rotas aéreas complicada ou demorada. Os sistemas de armas de suporte de fogo baseados no solo devem estar livres para disparar, sem representar perigo operacional para operações de aeronaves amigas.

O comandante da defesa aérea deve ter a capacidade de garantir que aeronaves amigas possam entrar, sair ou se mover dentro das áreas defendidas, sem restrições indevidas sobre seus movimentos e com o menor impacto adverso sobre as capacidades ofensivas e defensivas do comando. O comandante do comando unificado, do teatro ou da força-tarefa conjunta estabelece as prioridades gerais e as restrições, com o devido respeito aos requisitos de todos os usuários do espaço aéreo. Padronização de procedimentos e normas claras são a chave de todo o sistema operacional de controle aéreo. Todo um sistema disciplinado e coordenado de nada valem se apresentar elementos retardadores, que permitam ao inimigo causar danos por exploração de deficiências.



Coordenação Tática do Espaço Aéreo

Mesmo setorizado, o espaço aéreo tende a apresentar uma alta densidade de utilização, ficando cada vez mais restrito a medida que nos aproximamos das áreas mais “quentes” de operação.

Em uma área de operação o tráfego aéreo civil poderá ou não estar suspenso, dependendo da intensidade do conflito. O natural é que companhias aéreas não queiram se ariscar a voar neste espaço, ou o comando militar o feche para otimizar as operações, ou mesmo como medida de segurança a suas forças. Tudo depende da natureza e intensidade do conflito.

A implantação dos Centros de Controle de Utilização do Espaço Aéreo ficará a cargo do comandante da operação, podendo haver um controle central que coordenará e integrará os centros de cada setor ou um centro único, dependendo da magnitude das forças e da operação. É natural que o controle de espaço aéreo de baixa altura acima dos setores de operação de cada unidade fique a cargo das mesmas, possibilitando-lhes liberdade para emprego de seus sistemas, ficando os níveis mais altos sob responsabilidade da força aérea, para o tráfego logístico e de defesa aérea.

Os seguintes sistemas farão uso do espaço aéreo: aviação de defesa aérea, tráfego logístico-administrativo de alto escalão, aeronaves de missão de guerra eletrônica e reconhecimento, aviação de transporte intrateatro, sistemas de armas diversos (mísseis de cruzeiro por exemplo), sistemas de apoio de fogo, sistemas de artilharia antiaérea, aviação do exército, aviação operada remotamente (UAVs), Aviação de bombardeio tático e apoio a tropas em terra, transportadores de paraquedistas e outros helicópteros e aeronaves da força aérea em missão tática.



As unidades de aviação do exército são organizadas para realizar manobras de combate, ataque aéreo, reconhecimento, inteligência e logística, cada qual com requisitos específicos de espaço aéreo. A mobilidade destas forças em virtude de sua independência às restrições do terreno, permite que sejam altamente responsivas em todo o campo de batalha nesta ampla variedade de funções. No entanto, para valer-se da proteção do terreno, o movimento e a manobra do ar são adaptados ao terreno da mesma maneira que as forças terrestres, mas podem, sempre que necessário, desvincular-se dele. Nas áreas de operações avançadas, onde são realizadas operações próximas e profundas, os requisitos de espaço aéreo são normalmente regidos pela ameaça. Quando operando nestas áreas, as aeronaves devem se comunicar e coordenar com o comandante local, pois ou o estão apoiando, ou utilizando seu espaço aéreo. Unidades de aviação manobram sobre o campo de batalha, operando abaixo da altitude de coordenação, usando técnicas de vôo em conformidade com o terreno e movimento padronizado. Helicópteros de ataque e cavalaria aérea, e elementos de aviação envolvidos em operações de ataque aéreo, normalmente conduzem operações de combate como uma formação tática (unidade) e respondem às direções táticas de um sistema de comando e controle da aviação.

Unidades de aviação em área avançada empregam medidas de controle de procedimento. Batalhões de helicópteros de ataque e unidades de cavalaria aérea exercitam controle processual sobre as forças através do seu sistema de comando e controle. Elas usam técnicas como atribuição de objetivos e uso de setores ou zonas, eixo de avanço, linhas de fase, limites, posições de batalha, áreas de montagem, pontos de reabastecimento e armamento, posições de ataque e outros procedimentos operacionais padrão. Na área de operações de retaguarda, o tráfego aéreo normalmente transita ao longo dos eixos perpendiculares, entre áreas de apoio de divisão, instalações de comando de apoio, aeródromos e pontos de comando e controle. O movimento é geralmente previsível, segue rotas que proporcionam facilidade de navegação, mascaramento de ameaças, evitam áreas restritas e outros perigos, e estão em altitudes de vôo maiores. As operações são gerenciadas principalmente por meio de medidas de controle padrão do espaço aéreo. A adesão aos procedimentos do IFF, os requisitos de acompanhamento de voo e o monitoramento de instalações de serviços de tráfego aéreo tem maior ênfase nessa área.

O fogo de morteiros, obuseiros e foguetes de artilharia e mísseis guiados representam um perigo potencial para o tráfego aéreo. A maior probabilidade de interferência entre aeronaves e fogo de armas indiretas de superfície a superfície ocorre em altitudes relativamente baixas na vizinhança imediata de locais de bateria de tiro e áreas de impacto. A artilharia de campo faz seu rápido engajamento de alvos e, ao mesmo tempo, fornece salvaguardas para forças amigas usando medidas de coordenação de apoio de fogo e elementos de ligação. Medidas de coordenação de apoio de fogo permitem que se discriminem os fogos amigáveis dos inimigos em todos os limites e coordenem o envolvimento conjunto dos alvos. Para se reduzir os potenciais conflitos entre fogos indiretos de superfície e aeronaves, são fornecidas informações relativas ao local das baterias e aos planos e atividades de suporte de fogo ao elemento de controle de tráfego.



Os fogos da artilharia antiaérea são outro limitador do uso do espaço aéreo. Estes fogos fazem parte do sistema integrado de defesa aérea e dependem da correta identificação das aeronaves (IFF) voando e seu espaço para evitar engajar aeronaves amigas, obedecem regras de engajamento específicas e são dependentes da tecnologia empregada no quesito identificação. Além destas regras são observadas as áreas de operações de defesa aérea, a zona de engajamento de armas, a zona de controle do espaço aéreo de alta densidade e as restrições temporárias do espaço aéreo. Em cenários onde nem todas as aeronaves contam com transponders de identificação (IFF) deve-se adotar medidas adicionais para evitar fratricídio, como restringir que estas aeronaves voem nas áreas de engajamento, o que pode ser muito complicado, principalmente nas proximidade das bases.

Veículos pilotados remotamente (RPVs) podem fazer parte de unidades avançadas e unidades regulares de operação aérea, sendo que os primeiros operam em altitudes menores, exercendo missões de observação avançada, aquisição de alvos, reconhecimento e inteligência eletrônica. Devido ao seu pequeno tamanho, agilidade e capacidade limitada de ver e evitar outras aeronaves, os RPVs representam um risco operacional limitado para as aeronaves tripuladas operando dentro da mesma área geral. Aviação do exército e aeronaves de apoio aéreo de baixa altitude (CAS) geralmente operam em altitudes abaixo do perfil de voo dos RPVs. Há situações em que o CAS, a interdição aérea do campo de batalha e aeronaves de reconhecimento tático podem estar operando na mesma altitude e dentro da mesma área que os RPVs. A otimização deste espaço aéreo deve ser realizada para evitar conflitos operacionais, e medidas processuais ou positivas empregadas.

O transporte aéreo intrateatro compreende toda a movimentação logística de todas as forças, excluídas daí as missões que envolvem o movimento de forças de combate para contato em uma área objetiva. O teatro de operações normalmente tem bases operacionais principais e intermediárias (aeródromos) capazes de aceitar grandes aeronaves do Comando Aéreo logístico Militar da Força Aérea. Enquanto a Força Aérea controla os terminais aéreos, a aviação do Exército e da Marinha também podem usar esses aeródromos para suas operações de transporte aéreo. As equipes de controle de combate da Força Aérea apoiam a condução de operações de transporte aéreo profundas. A missão destas equipes é estabelecer zonas pouso de assalto e zonas de extração em ambientes austeros e de alta ameaça.

O sistema de controle aéreo tático naval contém os operadores navais de comando, controle e comunicações responsáveis pelas funções de controle do espaço aéreo durante operações anfíbias, que podem incluir centros de controle aéreo tático, centros de coordenação de armas de apoio, seções de controle de suporte aéreo e seções de guerra antiaérea. À medida que a situação tática se desenvolve, o comando e controle da força-tarefa anfíbia são estabelecidas em terra, o controle de armas de fogo passa para o comandante da força de desembarque. O controle das operações aéreas na área objetiva anfíbia passa também para um comandante do ar em terra, subordinado ao comando da força de desembarque.



Sistemas Integrados de Controle do Espaço Aéreo

Sistemas integrados de controle do espaço aéreo dentro de uma força conjunta são estruturados em torno do sistema de controle aéreo tático da força aérea e incluem o sistema de comando e controle do espaço aéreo do exército, dos fuzileiros navais e da marinha se estes operarem em separado, sistemas de outras agências e estes sistemas deverão ser integrados.

Os centros táticos de controle aéreo são os elementos sênior das operações aéreas. Dentre suas funções estão o planejamento centralizado, direcionamento, controle e coordenação de operações aéreas. Eles coordenam o uso do grande espaço aéreo e garantem que os planos de controle deste espaço sejam compatíveis com os requisitos e capacidades operacionais. Eles compreendem um centro de controle de espaço aéreo operado pela força aérea que é o cérebro do sistema, centros de controle radar, centros de transmissão de dados táticos, centros de ligação e gestão, controladores aéreos avançados(FACS) e equipes de controle de campo de batalha.

Os centros de controle radar com postos fixos e móveis (incluindo aeronaves AEW), estão relacionados com a execução descentralizada das funções de defesa aérea e de controle do espaço aéreo. Dentro de sua área de responsabilidade, estes direcionam a defesa aérea da região ou setor; fornecem alertas de ameaça para aeronaves amigas; fornecem orientação ou monitoramento de aeronaves para missões ofensivas e defensivas; coordenam a missão das aeronaves em tráfego logístico e as missões com elementos subordinados de outras forças e procedem a  identificação positiva de aeronaves. Eles detectam e identificam aeronaves hostis, recomendam mudanças nas condições de alerta de defesa aérea, especificam status de armas e coordenam aeronaves com capacidade de defesa aérea. Elementos de radar móvel podem ser instalados em áreas avançadas para estender a cobertura de radar e fornecer controle de operações aéreas, alerta antecipado e serviço para preenchimento de lacunas. Por causa de seu design compacto e móvel, estes radares podem se mover rapidamente para fornecer a cobertura de radar necessária na mudança de situações táticas. Elementos aéreos (AEW) consistem em centros de controle de comando no campo de batalha que fornece a capacidade de controlar e coordenar a execução de operações aéreas táticas em áreas de batalha avançadas, normalmente para estender o controle além do alcance de elementos baseados em terra. Também podem funcionar como um centro de operações de apoio aéreo aerotransportado limitado durante os estágios iniciais de uma contingência até que o centro em terra assuma.

O AEW é um elemento de controle aerotransportado que fornece mobilidade e um alto grau de flexibilidade de comando e controle. Pode ser usado durante as fases de implantação, emprego ou redistribuição de operações aéreas táticas, e estende a cobertura de radar e rádio além daquela alcançável pelos elementos de terra. Isso permite o alerta de defesa aérea, assistência de navegação de controle de aeronaves, coordenação de esforços de resgate aéreo e mudanças em missões táticas em distâncias além do alcance do controle em terra. Além disso, pode executar funções de controle do espaço aéreo até que as instalações baseadas em terra sejam posicionadas ou durante operações degradadas. Também pode ser usado em operações de curta duração que não garantem o uso de elementos terrestres ou quando a situação tática, política ou geográfica nega acesso a áreas de terra seguras.



O Controlador Aéreo Avançado (FAC) controla aeronaves de apoio aéreo próximo e integra ataques aéreos com fogo e manobra de forças terrestres apoiadas. Ele pode operar a partir de posições aéreas ou terrestres. O FAC manterá contato com aeronaves de ataque, outros elementos e com o coordenador apropriado de apoio de fogo ou com o comandante terrestre. Suas funções no espaço aéreo incluem coordenação de ataques aéreos com artilharia de campo, área de defesa avançada e elementos de aviação apropriados da força apoiada na área alvo.

A equipe de controle de combate fornece serviços de controle do espaço aéreo em zonas remotas de assalto (como zonas de salto e aterragem). Ele também se posiciona clandestinamente à frente das principais forças de assalto, fornecendo uma variedade de serviços como observações meteorológicas, relatórios de reconhecimento e inteligência, correções de rota e comunicações. Além disso, ele se move com a força terrestre principal para fornecer assistência terminal às forças de transporte aéreo envolvidas em operações de reabastecimento ou extração. Quando atribuído às forças de operações especiais da força aérea, realiza outras missões exclusivas de guerra não convencional. Podem não estar disponíveis para apoiar todas as missões de transporte aéreo em áreas de divisão, e elementos de controle tático do exército ou precursores podem ser necessários para fornecer serviços de controle de espaço aéreo conforme necessário.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Mísseis Ar-Ar (AAM) #



Descrição

O propósito de um míssil ar-ar (AAM) é atingir uma aeronave em voo, um alvo extremamente fugaz, sendo disparado de outra aeronave em voo. São a principal arma do combate aéreo moderno e guarnecem aeronaves, tanto na função de autodefesa como na função de caças-interceptadores. Tomaram o lugar das metralhadoras aéreas da Segunda Guerra Mundial como arma principal do combate aéreo, porém não as substituíram, e hoje dividem com os modernos canhões de tiro rápido aeromontados o espaço nas asas e fuselagem das aeronaves de combate modernas. São divididos em três grupos principais:


  • SRAAM (short range air-to-air missile): São modelos de curto alcance (até cerca de 30/40 km nas gerações mais recentes), projetados para atingir o adversário dentro do alcance visual do piloto, e que se orientam através de radiação infravermelha (Calor) emitida pelo alvo.
  • BVRAAM (Beyond visual range air-to-air missile): São modelos de médio e longo alcance, projetados para atingir o inimigo além do alcance visual do piloto, com sistemas de guiagem que podem ser múltiplos e mais sofisticados.
  • AAM de defesa. São pequenos mísseis ar-ar usados para autodefesa por aeronaves pequenas como helicópteros, normalmente derivados de SAMs portáteis de infantaria, orientados a infravermelho ou laser.

O sistema de orientação por infravermelho (IR e IIR) rivaliza atualmente em importância com o radar. A radiação infravermelha (calor) assemelha-se a ondas de rádio ou de radar, com a diferença que seu comprimento de onda é sensivelmente mais curto (próxima ao comprimento de onda da luz visível), o que possibilita que a cabeça do rastreador seja menor que a antenas dos radares montados em outro mísseis. A diferença mais importante porém, é que a iluminação a partir da aeronave lançadora torna-se desnecessária, pois o alvo sempre gera sua própria radiação infravermelha, seja através dos gases de escape do motor ou do atrito da fuselagem com a atmosfera.



Os primeiros mísseis IR tinham a tendência de se dirigir para o sol, ou para seus reflexos na superfície de lagos ou estufas com vidraças quando o disparo tinha estes cenários como fundo. O desenvolvimento da tecnologia permitiu que cabeças de busca mais sensíveis fossem capazes de distinguir estes falsos alvos dos verdadeiros. Os modelos mais modernos possuem rastreadores de excepcional sensibilidade mesmo a grandes distâncias e travam em seus alvos em qualquer posição da aeronave lançadora em relação a aeronave–alvo. Os modelos mais antigos, devido a baixa sensibilidade, obrigavam a aeronave lançadora a posicionar-se atrás do alvo, procurando os gases quentes da saída do motor. Isso significava que o alvo tinha que realizar uma pequena curva para ficar fora do campo de visão do míssil e este perder a visada.

Outra forma que vem se desenvolvendo é a guiagem eletro-ótica, que não depende de sensores termais. O míssil/sensor IRST do caça faz uma varredura ótica do alvo a trava em um ponto vital da aeronave, que pode ser o cockpit, por exemplo. Como não depende somente dos sinais infravermelhos, pode ser usado contra UAVs e mísseis de cruzeiro. Nuvens podem atrapalhar este engajamento. O israelense Python V possui estas capacidades além de seus sensores IIR.



Os mísseis BVR, como aqueles que se orientam na faixa do IR, são lançados na direção do alvo através de dados fornecidos pelo radar da aeronave. Naqueles o vínculo cessa no instante do lançamento, porém nos modelos de longo alcance (BVR), o míssil pode depender da aeronave por mais tempo. Os primeiros mísseis BVR utilizavan-se de orientação por radar semi-ativo (SARH – semi-active radar homing), onde o míssil recebe a reflexão dos sinais de radar vindas do alvo e emitidos pela aeronave lançadora, obrigando o caça a se manter na condição de "iluminador" do alvo, tornando-o vulnerável pois não pode realizar manobras evasivas. Um caça emitindo radiação continuamente tem “visibilidade” semelhante a uma lanterna acesa no meio da escuridão. O míssil ao ser disparado segue a reflexão destes sinais e seu sensível receptor-radar faz com que se direcione continuamente até o alvo. Os modelos de geração mais recente com radar ativo emitem sua própria radiação e são independentes da aeronave lançadora, assumindo uma status “dispare e esqueça”, liberando o caça para manobras evasivas. Estes mísseis de longo alcance (BVR) são disparados em direção a uma posição futura provável quando lá chegarem da aeronave alvo e geralmente utilizam uma sistema de guiagem de meio curso que pode ser orientação inercial - INS, GPS ou outra, sendo que o radar assuma a orientação no curso final.

Uma forma primitiva de guiagem destes mísseis é a beam-riding, onde o míssil se mantém dentro de um estreito feixe de radar que ilumina o alvo. Embora simples em conceito, era de difícil implementação devido a fugacidade dos alvos. Quanto maior a distância, maior o cone formado por este feixe com consequente aumento da imprecisão da trajetória. Este sistema ainda é usado com eficiência em mísseis anticarro.

História



Os primeiros modelos foram desenvolvidos durante a II Guerra Mundial. Eram comandados por rádio ou cabos muito finos, ligados a aeronave lançadora. Nos anos 50, essa tecnologia evoluiu para sistemas de orientação mais avançados, que os permitiu dirigirem-se a seus alvos por seus próprios meios.

Os mísseis ar-ar surgiram a partir dos foguetes ar-ar sem orientação utilizados durante a Primeira Grande Guerra Lê Prieur, disparados eletricamente dos biplanos contra balões de observação. Durante a Segunda Guerra os alemães desenvolveram o foguete R4M não guiado e posteriormente primeiro projétil que pode ser considerado um AAM designado Ruhrstahl X-4. A pesquisa do pós-guerra levou a RAF a inroduzir em serviço o Fairey Fireflash, com resultados medíocres. Em 1956  os americanos introduziram em serviço o AIM-4 Falcon guiado a radar na USAF e o AIM-7 Sparrow (BVRAAM) e AIM-9 Sidewinder (SRAAM). Em 1957 os soviéticos introduziram em serviço o Kaliningrad K-5 (AA-1 Alkali). Nos anos 60 a fé neste engenhos foi tanta que os primeiros F-4 Phanton II americanos foram armados apenas com eles, preterindo os tradicionais canhões e metralhadoras aeromontados, o que revelou-se um erro constatado na experiência do Vietnam, logo corrigido com a reintrodução dos canhões e prática das táticas de dogfighting tradicionais, porém o míssil acabou se firmando como arma principal no combate aéreo. Na Guerra das Falklands/Malvinas, os britânicos impuseram pesadas perdas aos Mirage III argentinos com seus Harrier usando a versão L (all aspect) do AIM-9 Sidewinder americano.



Os modelos de primeira geração de mísseis de curto alcance como os Sidewinder AIM-9B e Vympel K-13 (AA-2 Atoll) tinham sensores infravermelhos de campo estreito (30 graus) e exigiam que o atacante se posiciona-se atrás do alvo. Isso significava que o alvo tinha que realizar uma pequena curva para ficar fora do campo de visão do míssil e este perder a visada. Os mísseis de segunda geração utilizavam buscadores mais eficazes com visão melhorada de 45 graus. A terceira geração introduziu os mísseis “all aspect” (AIM-9L por exemplo), permitindo o disparo de qualquer ângulo. A quarta geração entrou em serviço em 1985 com o Vympel R-73 (AA-11 Archer). Agregam muita resistência a contra-medidas infravermelhas e visada de 60 graus para cada lado alem de empuxo vetorado. A quinta geração começou a empregar imagem eletro-ótica e infravermelho com formação de imagem (IIR) que permitem que vejam pontos específicos da aeronave e não apenas pontos quentes, com processamento digital de sinais, permitindo-os distinguirem aeronaves de contra-medidas infravermelhas (Flares), além de atingir alvos pequenos como UAVs.

Contramedidas



As contramedidas mais usadas para impedir o impacto destes projéteis, além das manobras evasivas, são os flares, iscas muito quentes lançadas para despistar os mísseis IR e os Chaff, partículas de alumínio muito leves que ficam em suspensão no ar e criam uma “barreira” eletrônica confundindo o radar-guia. Filtros eletrônicos especiais em modelos mais recentes são capazes de ignorar os falsos alvos que não estejam dentro de uma temperatura específica, para mísseis IR.



Propulsão

O motor dos mísseis, na maioria dos casos é de combustível sólido com tempo de combustão longo nos modelos BVR a fim de manter a alta velocidade. Os motores Ramjet usados no MBDA Meteor estão emergindo como um tipo de propulsão que permitirá futuros mísseis de médio alcance a manter sua velocidade média superior em toda a sua trajetória. Já os AAM de curto alcance parte de acelerações muito altas no início que lhe permitem impulso para percorrer o resto de sua trajetória. A medida que a velocidade vai diminuindo, depois de cessar o empuxo do motor, sua capacidade de manobra fica prejudicada, com conseqüente eficiência diminuindo em alcances-limite.

Desempenho

Os AAM podem ser transportados por aeronaves de ataque ou aviões maiores como os patrulheiros oceânicos para autodefesa, mas são os pequenos caças de combate aéreo que os utilizam com maior eficácia. São também utilizados em caças de maior porte denominados interceptadores capazes de detectar e destruir  seus alvos a grandes distâncias. O Tornado F.2 da RAF, por exemplo, tem a missão de proteger o espaço aéreo do Mar Báltico até a Islândia, não importando as condições meteorológicas. O Míssil Phoenix da US Navy, que armava os hoje aposentados F-14 podiam destruir seus alvos a distância de até 160 km. Estes mísseis de alto desempenho precisam voar muito rápido, em torno de mach 4, o que exige estruturas de aço inoxidável e aerodinâmica especial hipersônica.



A tarefa de um AAM é relativamente fácil, pois seu alvo se destaca facilmente contra o grande espaço aéreo. Porém se tiver que ser disparado contra aeronaves de ataque voando baixo e tendo o terreno como pano de fundo, que gera um grande retorno, a situação se complica. Os modelos mais modernos conseguem cumprir este desafio com maior confiabilidade.

O alcance dos mísseis é muito relativo. Ele depende de uma gama da fatores como altitude, velocidade da aeronave, posição, e orientação da aeronave alvo. Por exemplo, o russo Vympel R-77 é anunciado com um alcance de 100 km. Isso só é possível para um alvo em alta altitude. Em baixa altitude, o alcance efetivo é reduzido em até 75-80% a 20-25 km. Se o alvo tomar medidas evasivas, ou estiver em fuga o alcance efetivo é ainda mais reduzido. O alcance efetivo de um míssil ar-ar é conhecido como a "zona de não escape", que é a distância em que o alvo não pode superar o míssil uma vez lançado. Pilotos mal treinados são conhecidos por disparar seus mísseis em alcance máximo com maus resultados. No 1998-2000 na Guerra da Eritreia-Etiópia, ambos os lados dispararam mais de uma dúzia de R-27 de médio alcance com pouco efeito. Mas, depois de uma melhor formação, os SU-27 etíopes em perseguição atacaram com seus R-73 (AA-11 Archer) com resultados mortais para as aeronaves da Eritreia.



Um míssil também está sujeito a ângulo de disparo mínimo, diante do qual não pode manobrar de forma eficaz. Para manobrar eficazmente a partir de ângulos de lançamento muito fechados a distâncias muito curtas alguns mísseis usam empuxo vetorado, que o permite posicionar-se convenientemente antes de seu motor acelerá-lo até as altas velocidades.



Modelos de mísseis ar-ar SRAAM e BVRAAM
  • Brasil
    • MAA-1A Piranha - IR de curto alcance.
    • MAA-1B Piranha - desenvolvimento da versão A.
    • A-Darter -IR de curto alcance de 5a geração (com a África do Sul ).
  • França
    • AA.20 , AA.25
    • Matra R550 Magic - de curto alcance, guiado IR.
    • Matra Magic II - IR de curto alcance.
    • Matra R530 - de médio alcance, IR ou radar-guiado.
    • Matra Super 530F / Super 530D - de médio alcance, radar-guiado.
    • MBDA MICA - de médio alcance, guiado por IR ou radar ativo.
  • Alemanha
    • Henschel Hs 298 - II Guerra Mundial, MCLOS , não entrou em serviço.
    • Ruhrstahl X-4 - II Guerra Mundial, primeiro míssil ar-ar prático, MCLOS , nunca viu o serviço ativo.
    • RZ 65 projeto do míssil desenvolvido pela Rheinmetall-Borsig em 1941. Depois de cerca de 3000 testes, revelou-se insatisfatório devido a uma precisão de apenas 15%. O projeto foi finalizado no fim da guerra.
  • Europeu
    • MBDA Meteor - de longo alcance, radar ativo ; concebido para complementar AMRAAM e MICA.
    • IRIS-T - de curto alcance a infravermelho ; substituto para o AIM-9 Sidewinder;
  • Índia
    • Astra Mk.I - de longo alcance e guiagem a radar.
    • Astra Mk.II.
  • Irã
    • Fatter - cópia de US AIM-9 Sidewinder.
    • Sedjil - cópia de US MIM-23 Hawk, convertido para ser transportado por aeronaves.
  • Iraque
    • Al Humurrabi - de longo alcance, radar semi ativo.
  • Israel
    • Rafael Shafrir - primeiro AAM israelense.
    • Rafael Shafrir 2 - melhoramento do míssil Shafrir.
    • Rafael Python 3 - míssil de médio alcance IR- all aspect.
    • Rafael Python 4 - de médio alcance IR, HMS.
    • Rafael Python 5 - melhoramento do Python 4 com buscador de imagens electro-óptico.
    • Rafael Derby - Míssil BVR- radar ativo.
  • Itália
    • Alenia Aspide - versão italiana do AIM-7 Sparrow , com base no AIM-7E.
  • Japão
    • AAM-1 - curto alcance. cópia do US AIM-9B Sidewinder.
    • AAM-2 - curto alcance. semelhante ao AIM-4D.
    • AAM-3 - curto alcance.
    • AAM-4 - médio alcance.
    • AAM-5 - curto alcance. semelhante ao IRIS-T.
  • República Popular da China
    • PL-1 - versão do Soviético Kaliningrad K-5 (AA-1 Alkali), aposentado.
    • PL-2 - versão do Soviético Vympel K-13 (AA-2 Atoll), que foi baseado no AIM-9B Sidewinder aposentado e substituído pelo PL-5 em serviço.
    • PL-3 - versão atualizada do PL-2, não entrou em serviço.
    • PL-5 - versão atualizada do PL-2, versões conhecidas incluem:
      • PL-5A - radar semi-ativo. destinou-se a substituir o PL-2, não entrou em serviço. Assemelha-se a AIM-9G na aparência.
      • PL-5B - versão IR , entrou em serviço em 1990 para substituir o PL-2 SRAAM.
      • PL-5C - Versão melhorada comparável ao AIM-9H ou AIM-9L no desempenho.
      • PL-5E - All aspect, se assemelha ao AIM-9P na aparência.
    • PL-7 - versão do francês R550 Magic, não entrou em serviço.
    • PL-8 - versão do israelense Rafael Python 3
    • PL-9 - curto alcance, comercializado para exportação.
    • PL-10 - radar semi-ativo baseado na HQ-61 SAM, muitas vezes confundida com PL-11. Não entrou em serviço.
    • PL-10 / PL-ASR - IR míssil guiado de curto alcance
    • PL-11 - de médio alcance, baseado na HQ-61C & Italian Aspide tecnologia (AIM-7). Serviço limitado com J-8-B / D / H . As versões conhecidas incluem:
      • PL-11 - radar semi-ativo, baseado no HQ-61C tecnologia SAM e Aspide, exportado como FD-60.
      • PL-11A - Melhoramento do PL-11 com maior alcance, ogiva mais eficaz.
      • PL-11B - Também conhecido como PL-11 AMR, melhoramento do PL-11.
      • LY-60 - PL-11 adotado para navios da Marinha para a defesa aérea, vendido para o Paquistão, mas não parece estar em serviço com a Marinha chinesa.
    • PL-12 (SD-10) - de médio alcance radar ativo  antimíssil.
    • TY-90 - IR projetado para helicópteros.
  • Rússia / URSS
    • Kaliningrad K-5 ( NATO AA-1 'Alkali') - beam-riding
    • Vympel K-13 (NATO AA-2 'Atoll') - IR de curto alcance ou SARH
    • Kaliningrad K-8 (NATO AA-3 'Anab') - IR ou SARH
    • Raduga K-9 (NATO AA-4) - IR ou SARH
    • Bisnovat R-4 (OTAN AA-5 'Ash') - IR ou SARH
    • Bisnovat R-40 (NATO AA-6 Acrid) - IR de longo alcance ou SARH
    • Vympel R-23 (AA-7 'Apex' NATO) - de médio alcance SARH ou IR
    • Molniya R-60 (NATO AA-8 'Aphid') - IR de curto alcance 
    • Vympel R-33 (NATO AA-9 'Amos') - de longo alcance do radar ativo
    • Vympel R-27 (NATO AA-10  'Alamo') - SARH de médio alcance ou IR
    • Vympel R-73 (NATO AA-11 "Archer ') - de curto alcance IR
    • Vympel R-77 (NATO AA-12  'Adder' ) - de médio alcance radar ativo
    • Vympel R-37 (NATO AA-13  'Arrow') - SARH longo alcance ou radar ativo
    • Novator KS-172 AAM-L - de longo alcance extremo, INS com radar ativo.
  • África do Sul 
    • A-Darter - IR (com Brasil )
    • V3 Kukri - de curto alcance IR
    • R-Darter - (BVR) míssil guiado por radar ativo
  • República da China (Taiwan) 
    • Sky Espada I (TC-1)
    • Sky Espada II (TC-2)
  • Reino Unido  
    • Fireflash - de curto alcance beam-riding
    • Firestreak - de curto alcance IR
    • Red Top - de curto alcance IR
    • Taildog / SRAAM - de curto alcance IR
    • Skyflash - de médio alcance de mísseis guiados por radar baseado no AIM-7E2.
    • AIM-132 ASRAAM - de curto alcance IR
  • Estados Unidos 
    • AIM-4 Falcon - radar (mais tarde IR) guiada
    • AIM-7 Sparrow - de médio alcance radar semi-ativo
    • AIM-9 Sidewinder - de curto alcance IR (5 gerações)
    • AIM-54 Phoenix - de longo alcance, radar semi-ativo e ativo
    • AIM-120 AMRAAM - de médio alcance, radar ativo; substitui o AIM-7 Sparrow.


domingo, 30 de setembro de 2012

Perdendo a Superioridade Aérea


Um estudo de caso da Segunda Guerra Mundial


Dr. Richard R. Muller

O que ocorre quando uma força aérea perde a capacidade de conquistar e manter a superioridade aérea? Como pode uma força aérea capaz e engenhosa lidar com essa situação? 

À medida que os Estados Unidos preparam-se para enfrentar os adversários do Século XXI, é altamente improvável que eles encontrem uma força aérea que possa igualar-se à Força Aérea dos EUA em termos de tecnologia, adestramento, efetivo e poder de combate. Entretanto, os Estados Unidos podem vir a ter de lidar com oponentes que empreguem estratégias assimétricas para tentar travar uma “guerra aérea de pobres.”

Um estudo dos esforços da Luftwaffe em lidar com a perda da superioridade aérea diurna em 1944-45 é mais do que de interesse histórico. Serve como um estudo de caso de como uma organização militar, diante da neutralização de grande parte de seu arsenal e da crescente inadequação de sua doutrina, pode tentar prolongar sua vida útil. 

Uma vez que os Estados Unidos podem vir no futuro a enfrentar um adversário deste feitio, um exame de como um inimigo do passado lidou com esse estado de coisas pode servir de subsídio aos planejadores aéreos e espaciais contemporâneos.



A perda da superioridade aérea sobre o território nacional

Quando o bombardeio ofensivo anglo-americano começou a ameaçar seriamente o controle, pela Alemanha, de seu espaço aéreo, a liderança da Luftwaffe respondeu vigorosamente. 

O Gen Günther Korten, Chefe de Estado-Maior da Luftwaffe, deu início à tarefa de criação de uma “cobertura de aeronaves de caça sobre o Reich”. Korten pertencia ao “círculo dos defensivos”, que incluía o Cel Adolf Galland – inspetor geral das aeronaves de caça – e o Marechal de Campo Erhard Milch – chefe do armamento aéreo. Korten robusteceu a organização da defesa aérea do território nacional por meio da criação da Esquadra Aérea do Reich – equivalente a uma força aérea numerada — a qual centralizou todo o armamento antiaéreo, aeronaves de caça e funções de comando e controle.

Ao mesmo tempo, e em conformidade com a doutrina básica da Luftwaffe, a reforma de Korten também preconizou poderosas forças de bombardeiros para os teatros de operações leste e oeste a fim de permitir à Luftwaffe desempenhar suas operações estratégicas. Desta forma, o programa de Korten trouxe um incremento ao poder e à eficácia das defesas aéreas alemãs.

As reformas organizacionais de Korten foram igualadas por Milch na produção de caças. Em parceria com Albert Speer, o ministro de armamentos, Milch minimizou a ineficiência da indústria aeronáutica alemã. Por meio de ações rigorosas ele foi capaz de incrementar a produção de aeronaves, sem aumentar o consumo de matérias-primas.

Em junho de 1943, as fábricas alemãs estavam produzindo mais de 1.100 caças por mês. Em março de 1944, Milch e Speer estabeleceram um “Estado-Maior de Caça” combinado, com ampla autoridade sobre a produção, dispersão das indústrias, construção de fábricas resistentes a bombardeios, matéria-prima e recursos humanos. A despeito de meses de ataques aéreos dos Aliados, em setembro de 1944, a produção alemã de aeronaves atingiu o máximo de pouco mais de 3.700 unidades.

Esse esforço de produção reflete a tensão subjacente entre a necessidade de reforçar as forças de defesa do território nacional e o anseio de manter uma capacidade ofensiva, já que entre 1943 e 1944 os alemães também produziram milhares de bombardeiros (cuja produção consumiu muito mais matéria-prima e capacidade industrial do que a produção das aeronaves de caça). A busca do poder ofensivo contribuiu para a perda definitiva da superioridade aérea.

A resposta operacional da Luftwaffe a essa crise não foi menos vigorosa, pautada na capacidade de seus interceptadores, o Messerschmitt (Me) Bf 109G e o Focke-Wulf Fw 190A. Essas aeronaves, inicialmente, careciam do armamento necessário para ações contra os bombardeiros pesados aliados.

Versões posteriores, entretanto, foram dotadas de metralhadoras de 13 mm e canhões de 30 mm em substituição aos de 7.9 mm e 20 mm, respectivamente. Ambas aeronaves podiam, ainda, ser armadas com foguetes de 21 cm dotados com ogiva similar a um morteiro com o propósito de desestruturar formações de bombardeiros inimigas — esses foguetes podiam ser lançados de fora do perímetro defensivo dessas formações. Com isso, os caças alemães podiam, então, atacar livremente as aeronaves dispersas.

A despeito dessas inovações introduzidas, as modificações acabaram por acelerar a perda da superioridade aérea quando os caças de escolta de longo alcance americanos entraram em cena. As aeronaves 109 e 190, excessivamente pesadas, enfrentaram grande desvantagem em combate contra as aeronaves americanas, mais leves – um problema que o comando da Luftwaffe nunca resolveu. Uma tentativa de remediar essa situação compreendeu o desenvolvimento de caças desprovidos de armamento pesado com vistas à obtenção tanto de desempenho superior a elevadas altitudes quanto de maior capacidade de combate ar-ar. 

Tais desenvolvimentos incluíram os caças Bf 109G e K com supercarregadores especiais e injeção com óxido nitroso e metanol, assim como o Fw 190D “de nariz longo” e o Ta 152. Esses interceptadores amplamente aperfeiçoados foram produzidos em pequeno número; a coordenação entre aeronaves “leves” e “pesadas” mostrou-se extremamente difícil e, na prática, taticamente ineficaz.

Outra proposta que tem atraído atenção no período pós-Guerra foi a sugestão de Galland de concentrar de 2.000 a 3.000 caças alemães para um golpe decisivo. Seu propósito era engajar essas forças contra as formações de bombardeiros americanos, a fim de “derrubar um total aproximado de 400 a 500 bombardeiros quadrimotores, contra uma perda estimada de cerca de 400 aeronaves e aproximadamente 100 a 150 pilotos”. Uma vitória nessa escala levaria os americanos a cessarem suas incursões diurnas, restabelecendo, em um único golpe, a superioridade aérea. Na visão de Galland, Hitler descartou essa ação potencialmente decisiva ao alocar sua zelosamente preservada reserva de caças ao apoio à contraofensiva nas Ardenas, em dezembro de 1944.

Há razões para duvidar da potencial eficácia desse “Grande Golpe”. Enquanto a operação estava em seus estágios de planejamento, considerável parcela da reserva de caças travou combate com formações americanas; mesmo em condições favoráveis, contudo, os alemães não conseguiram abater um número significativo de aeronaves americanas. No outono de 1944, os padrões de treinamento dos pilotos de caça alemães estavam tão baixos que o grosso dos mais de 2.000 pilotos que participariam da operação proposta seriam incapazes de operar efetivamente. Além disso, a tarefa de agrupar e controlar tão grande número de aeronaves, em uma única operação, estava, provavelmente, muito além da capacidade da Luftwaffe no final daquele ano.



Com as táticas convencionais alemãs evidenciando-se cada vez mais ineficazes, surgiram expedientes desesperados. No verão de 1944, o comando da Luftwaffe criou os “grupos de caças de assalto”. Aeronaves Fw 190 modificadas, dotadas de revestimento blindado reforçado e armamento pesado, compuseram “cunhas voadoras “ de 48 unidades cada. Essa força maciça potencial, fortemente escoltada por caças convencionais, aproximar-se-ia de uma formação de combate composta por B-17 diretamente pela retaguarda. 

A lógica era simples: assegurar o maior número possível de aeronaves abatidas, abalar o moral inimigo e quebrar a disciplina da formação. Conforme um dos pilotos desse grupo recorda, “nós nos posicionávamos cerca de 100 jardas à retaguarda dos bombardeiros antes de abrir fogo. Nós dificilmente errávamos dessa distância e quando os projetis explosivos de 30 mm atingiam o alvo, podíamos ver os bombardeiros inimigos literalmente destroçando-se à nossa frente”.

Caso tudo mais falhasse, os pilotos desse grupo deveriam colidir com seus alvos. De acordo com as instruções oficiais do Alto-Comando da Luftwaffe, “a diretriz de ação para o grupo de caças de assalto é: a certeza de uma aeronave destruída para cada caça de assalto que entrar em combate com o inimigo.” Essas unidades especiais alcançaram algum sucesso digno de reconhecimento, mas o custo total acabou sendo elevado – especialmente quando os caças de escolta americanos engajavam a formação ainda na fase de reunião.

A inovação tecnológica alemã objeto da maior parte da análise levada a efeito no período pós-Guerra foi o desenvolvimento dos interceptadores turbojato e propulsiona-dos por foguete. Não causa surpresa que o estudo das “armas maravilha” alemãs tenha se transformado em objeto de crescente interesse porque o poder aéreo e a superioridade aérea vêm-se tornando crescentemente dependentes da tecnologia desde 1945.

Muitos especialistas consideram que a gestão indevida do potencial dessas armas foi uma das razões fundamentais da derrota da Luftwaffe. Sem dúvida, o Me 262, com velocidade máxima de 540 nós e fortemente armado com quatro canhões de 3 cm (e, ao final, lançadores de foguetes ar-ar) era uma arma impressionante. Galland, e muitos outros autores lhe fazem eco no que a isso se refere, atribui o atraso da estréia dessa aeronave à inapropriada intromissão de Hitler em assuntos da força aérea. O Führer, de acordo com o argumento, teria determinado que o Me 262 fosse configurado como um bombardeiro de alta velocidade; essa decisão evitou que essa aeronave fosse alocada a unidades operacionais em tempo hábil para mudar o curso dos acontecimentos.

A percepção do Me 262 como uma “arma maravilha” potencialmente decisiva é um dos mitos mais duradouros na história do poder aéreo. A freqüentemente citada ordem de Hitler proibindo o emprego dessa aeronave como caça data de maio de 1944, época em que nenhum Me 262 estava em serviço. Uma vez que falhas de projeto e técnicas ainda persistiam nessa aeronave, seu emprego em qualquer tipo de missão — bem como o treinamento de um número suficiente de pilotos, muitos dos quais achavam difícil dominar o interceptador “temperamental” — teria de aguardar a solução delas. 

É improvável que esse jato pudesse ter entrado em combate muito antes do que o fez, mesmo sem a interferência de Hitler. O 262, embora uma aeronave mortífera nas mãos do piloto certo, permaneceu, essencialmente, um protótipo colocado em operação de forma apressada. Ao longo de sua curta vida em serviço, essa aeronave foi objeto de uma taxa enormemente elevada de acidentes e alcançou somente um número muito reduzido de vitórias em combate.

No último ano da Guerra, a indústria alemã produziu outras armas avançadas menos importantes. Embora essas armas causassem alguma preocupação ao Serviço de Inteligência Aliada, nenhuma delas teve um impacto notável no combate pela superioridade aérea. Durante os anos vitoriosos de 1939-41, a indústria aeronáutica alemã deixou de impor um ritmo acelerado ao desenvolvimento dos sucessores dos tipos básicos de aeronaves com que a Alemanha tinha iniciado a Guerra. Uma estratégia de produção mais racional teria poupado a Luftwaffe do dilema de ter de combater em 1944 com aeronaves ou obsoletas ou de fabricação incompleta.

Um indício inequívoco da decrescente eficácia dos caças foi o ressurgimento das unidades de artilharia antiaérea como o principal elemento de defesa antiaérea territorial. A concentração de unidades antiaéreas alemãs ao redor de alvos chaves aumentou de forma dramática. A espinha dorsal dessa força era o canhão antiaéreo 36 de 88 mm; por volta de 1944, outros canhões aperfeiçoados de 105 e 128 mm foram incorporados. Embora as unidades antiaéreas tivessem sido de fato mais eficazes do que muitas análises pós-Guerra nos levariam a crer, o colapso da defesa aérea levou a uma dependência maior – e, em 1945, completa — das unidades antiaéreas.

Antes de janeiro de 1944, os caças reivindicaram para si a responsabilidade pelos bombardeiros da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos [US Army Air Forces – AAF] abatidos; entretanto, só no mês de junho de 1944, a antiaérea derrubou 201 aeronaves pesadas da Oitava Força Aérea – enquanto os caças abateram apenas 80. As instruções para as unidades antiaéreas enfatizavam que elas estavam autorizadas a abrir fogo em todas as altitudes do espaço aéreo, sem levar em consideração a possibilidade da existência de aeronaves de caça amigas na área. 

O princípio da doutrina do poder aéreo alemão do período anterior à Guerra, o qual atribuía aos canhões antiaéreos o papel dominante na defesa antiaérea, acabou por ser posto em execução tendo em vista o fato de os caças não terem atendido às expectativas.

Mesmo que a engenhosidade alemã fosse capaz de prover à Luftwaffe um grande número de aeronaves, ela não ofereceu uma solução ao problema da formação de um número suficiente de pilotos qualificados para essas aeronaves. Em 1939, a Luftwaffe detinha o que provavelmente seriam os mais altos padrões de treinamento de tripulações de aeronaves da Europa. Como resultado da experiência auferida em combates na Espanha em 1936-39, os pilotos alemães, em 1940, eram os melhores do mundo. Não obstante, a começar com a Batalha da Inglaterra, o aumento nas perdas de tripulações trouxe consigo um declínio no período e no rigor dos programas de formação.

Os instrutores das escolas de aviação eram constantemente convocados para servirem como pilotos de combate. Em julho de 1944, quando a crise geral de combustível atingiu a Alemanha, os pilotos de caça em formação alemães estavam voando menos de 25 horas em aeronaves de caça, em comparação com as mais de 150 horas que os pilotos americanos voavam.

Em termos claros, em meados de 1944, o piloto de caça mediano alemão era muito mais uma preocupação do que uma vantagem, demasiadamente propenso a acidentar-se em sua primeira surtida. Qualificações especiais, tais como vôo noturno ou em condições atmosféricas adversas e navegação em longa distância inexistiam na Luftwaffe naquele período. 

Na tentativa de dar uma solução a essa problemática, o comando da Luftwaffe tomou diversas decisões drásticas em termos de políticas de pessoal. As escolas de formação de pilotos, já com efetivo incompleto, foram obrigadas a abrir mão de mais instrutores, e todos os pilotos de caça fisicamente capazes, servindo em postos de estado-maior, foram convocados para missões de combate. 

Galland vasculhou unidades de combate noturno, de ataque ao solo e a frente russa em busca de pilotos treinados. O curso da guerra aérea sobre o Reich impôs enormes exigências a uma organização já sobrecarregada.

Em abril e maio de 1944, a seção de operações do estado-maior observou um alarmante aumento de perdas de aeronaves de treinamento, correio e transporte que operavam em áreas consideradas seguras nas regiões leste e sul da Alemanha. Operando livremente sobre todo o território do Reich, os caças aliados reduziram drasticamente a capacidade da Luftwaffe de treinar novos pilotos para substituir as baixas sofridas nos meses anteriores. 

Muitos filmes gravados pelas câmaras acopladas às metralhadoras dos Mustangs e Thunderbolts da AAF mostram ataques efetuados a aeronaves, com freqüência equivocadamente identificadas como “Me-109”, que são, de fato, aeronaves de treinamento Arado 96 – normalmente com um atordoado piloto em formação no controle. Para fazer frente a essa situação, a Seção de Treinamento emitiu novas instruções enfatizando vigilância redobrada por parte dos pilotos (“sonhar acordado leva à morte”).



Os vôos que não envolvessem o combate deveriam ser realizados tão somente ao amanhecer e ao anoitecer. A Luftwaffe expandiu seu sistema de alerta contra aeronaves incursoras e concebeu uma série de códigos visuais e rádio. Mesmo as aeronaves dedicadas a missões de correio foram armadas. Se atacadas, as aeronaves deveriam adotar medidas evasivas de defesa e mergulhar rapidamente para o nível mais próximo do solo. Se necessário, a tripulação deveria executar um pouso sem trem (pouso de barriga) e buscar cobertura para evitar ser metralhada.

O início desse tipo de “guerra de guerrilha aérea” pelos caças de escolta da AAF implicava que não somente as instalações de treinamento, mas toda a infraestrutura de apoio da Luftwaffe estava correndo perigo. Os caças de escolta americanos, de início isoladamente, porém depois atuando em conjunto, começaram a metralhar pistas de pouso e instalações terrestres quando retornavam a suas respectivas bases.

Os comandantes das bases da Luftwaffe adotaram diversas medidas de defesa passiva, incluindo a construção de barreiras de proteção e o aumento do uso de camuflagem visual e cortinas de fumaça, além de enterrar cabos elétricos e de comunicação importantes que atendiam aos postos de comando e instalações radar. Trincheiras estreitas e profundas foram construídas nos aeródromos e o combustível e a munição armazenados em túneis. Postos adicionais de vigilância visual e uma reorganização do serviço de informações sobre aeronaves incursoras propiciaram uma capacidade crucial de alerta antecipado. No último mês da guerra, algumas unidades aéreas operaram a partir de trechos das vias expressas alemãs, abrigando suas aeronaves sob viadutos.

A contramedida mais efetiva levada a efeito pela Luftwaffe foi equipar os aeródromos com proteção antiaérea adicional. As diretrizes operacionais da Luftwaffe salientavam que o fogo concentrado de todo o armamento disponível – até mesmo metralhadoras e canhões removidos de aeronaves estacionadas – poderia tornar os aeródromos verdadeiras “armadilhas antiaéreas” contra aeronaves voando a baixa altura. 

A seção de operações do estado-maior da Luftwaffe observou, com satisfação, o depoimento de pilotos da AAF capturados sobre os perigos associados ao metralhamento de alvos. De fato, em 1944 a AAF perdeu 1.293 caças no teatro de operações europeu em ação contra caças inimigos, tendo perdido 1.611 face à artilharia antiaérea – em sua maioria durante missões a baixa altura.

Durante os últimos cinco meses da guerra, os abates de caças da AAF pelo fogo antiaéreo excederam, a uma razão de quase quatro contra um, os provocados por caças da Luftwaffe.

A última alternativa para o dilema da superioridade aérea merece menção: o emprego de pilotos voluntários em missões suicidas. A literatura popular está repleta de referências wagnerianas às tentativas de última hora de emular as táticas dos kamikazes japoneses. Embora a realidade seja de alguma maneira menos dramática (somente em raras ocasiões tais ataques realmente tiveram lugar), essa opção permanece de interesse: esses expedientes raramente ocorrem de forma organizada em guerras entre estados, embora atores não-estatais, tais como grupos terroristas, não se esquivem de empregá-las.

A situação militar desesperadora em 1944-45 é responsável pela consideração desses esforços extraordinários. Conforme observado pelo historiador Omer Bartov em seu estudo sobre motivações para o combate na Frente Oriental, os reveses militares dos últimos anos da guerra, conjugados com a intensificação do doutrinamento nazista, geraram um novo nível de fanatismo entre os soldados alemães. 

Publicações oficiais da Luftwaffe, incluindo periódicos de ciência militar e mesmo diretrizes operacionais, as quais, até 1944, possuíam relativamente pouco conteúdo político explícito, começaram a referir-se à luta em termos ideológicos. Algumas diretrizes afirmavam que somente “a cosmovisão nacional socialista” poderia prover a “força interior” necessária para vencer o inimigo. As fontes primárias dessas “armas espirituais” foram a Divisão Militar da Liderança Nacional Socialista, que contava com “oficiais políticos” (semelhantes aos comissários do Exército Vermelho) nas unidades da Luftwaffe e do exército, e a Seção de Ciência Militar do Estado-Maior Geral da Luftwaffe

Embora essa seção tenha produzido análises operacionais valiosas e estudos históricos tradicionais de campanhas recentes, em 1944, ela estava mais preocupada em inculcar na oficialidade da Luftwaffe uma apropriada postura nacional socialista. Tomaram-se as medidas mais extremadas para retomar dos Aliados a superioridade aérea nesse ambiente ideologicamente carregado.
Os programas da Luftwaffe nessa direção encaixaram-se em duas amplas categorias. A primeira compreendia missões de risco extremamente elevado (embora teoricamente com possibilidade de sobrevivência) contra alvos aéreos e terrestres inimigos. As táticas dos grupos de caças de assalto enquadram-se nessa categoria, já que mesmo ataques de colisão contra aeronaves inimigas não impediam o piloto de ejetar-se. Mais desesperada ainda foi a proposta de rapidamente treinar rapazes integrantes da Juventude Hitlerista no uso de planadores e, imediatamente, enviá-los para combate nos “caças populares” Heinkel 162– uma versão aérea da Volkssturm, a “milícia popular”, com a qual a Alemanha esperava criar uma versão nazista do “levee en masse.” Somente o final da Guerra poupou adolescentes de pilotarem essas aeronaves perigosas e destituídas de confiabilidade.

A segunda (e muito mais rara) categoria eram as chamadas missões de Compromisso Total, explicitamente caracterizadas como operações suicidas. Com as batalhas aéreas sobre o Reich sendo consideradas a maior ameaça contra a sobrevivência nacional alemã, surgiram diversas propostas no final de 1944 para o uso de pilotos voluntários em ataques suicidas contra formações de bombardeiros americanos ou contra outros alvos compensadores. Korten determinou a formação do Esquadrão Leônidas, que deveria operar velhos bombardeiros, planadores de ataque e bombas voadoras tripuladas dentro desse conceito. 

A unidade foi finalmente dispersa depois de extenso treinamento e doutrinamento político. Não obstante, as propostas e os programas para ataques de colisão contra formações de bombardeiros persistiram durante toda a guerra, culminando em um desesperado ataque de colisão em massa pela unidade Schulungslehrgang Elbe, rapidamente formada, em 7 de abril de 1945. Cento e vinte Bf-109 engajaram uma formação da AAF, destruindo, no máximo, 13 bombardeiros a um custo de 53 caças alemães. Muitos dos pilotos alemães insuficientemente treinados nunca chegaram a engajar a formação da AAF.

A despeito desse desperdício de sangue e recursos financeiros, a Luftwaffe nunca foi capaz de retomar a superioridade aérea sobre o Reich. A despeito dos indícios de um “golpe final” tecnológico de última hora, a Luftwaffe de 1944-45 era uma força ineficaz, incapaz de controlar a dinâmica temporal das operações ou mesmo de causar uma inconveniência mais do que ocasional à AAF. A partir de junho de 1944, a maioria dos seus pilotos eram mais um perigo para si mesmos do que para seus inimigos, e suas unidades operacionais, que já se achavam sobrecarregadas, empregavam aeronaves obsoletas e mal fabricadas. 

Durante o último ano da guerra na Europa, os caças alemães de emprego diurno destruíram 703 bombardeiros pesados da AAF; de junho de 1943 a maio de 1944, uma força muito menor havia destruído 1.579 aeronaves. Todas as medidas vigorosas estabelecidas pelo comando da Luftwaffe para combater a ofensiva de bombardeio diurno fracassaram. 




Lidando com a superioridade aérea aliada: as frentes de combate

A despeito do enorme número de perdas sofridas por suas unidades de caça nos primeiros meses de 1944, o comando da Luftwaffe acreditava que seria capaz de prover uma resposta aérea bem-sucedida à iminente invasão aliada da Europa Ocidental: “A defesa contra essa tentativa de desembarque é decisiva para o desfecho da guerra”.

Luftwaffe desenvolveu um complexo esquema para reforçar o setor de invasão assim que os Aliados iniciassem a Operação Overlord. Ao receber a frase-código Drohende Gefahr West (Perigo Iminente a Oeste), esquadrões das forças de defesa do Reich deveriam deslocar-se para aeródromos previamente identificados no norte da França. O maior número possível de aeronaves de combate deveriam ser dotadas de pilones para bombas de modo a poderem participar diretamente na batalha terrestre.

Luftwaffe aproveitou-se de sua experiência adquirida nos meses que precederam a invasão para preparar-se para o combate. No início de 1944, unidades posicionadas na França relataram um aumento dos ataques por caças e caças-bombardeiros inimigos – incrementados por ataques conduzidos por bombardeiros médios e pesados – contra aeródromos, centros de transporte, malha ferroviária, e instalações radar e de comunicações.

As unidades de terra desenvolveram técnicas sofisticadas de camuflagem, dissimulação, dispersão e mobilidade como meios de redução de perdas de material e pessoal por ataques aéreos. Baseada em sua experiência no território alemão, a Luftwaffe deslocou baterias antiaéreas móveis, em especial o canhão quádruplo antiaéreo de 20 mm. Essa arma útil, freqüentemente montada em reboques, caminhões, meia-lagartas ou mesmo chassis de carro de combate, prestaram apoio de fogo concentrado e altamente flexível a alvos importantes, incluindo aeródromos, pontes e ferrovias.

Para proteger as unidades terrestres, os alemães concentraram suas baterias antiaéreas, com suas armas aprestadas, à frente e à retaguarda das colunas. Os comandantes alemães conceberam procedimentos de resposta rápida a alarmes aéreos; quando uma aeronave inimiga era avistada, a coluna interrompia seu avanço e as viaturas portadoras das armas antiaéreas eram dispostas nas laterais das rodovias, provendo fogo antiaéreo concentrado contra as aeronaves aliadas “Jabos” que voavam a baixa altura.

O efeito da superioridade aérea aliada foi muito pior do que até mesmo os mais pessimistas planejadores da Luftwaffe haviam previsto. Um oficial da Luftwaffe declarou que a atividade aérea inimiga tornou impossível o tráfego de comboios durante o dia, com exceção de unidades totalmente blindadas.

As comunicações por cabos terrestres na zona de invasão foram desorganizadas do dia-D em diante em virtude tanto dos ataques aéreos quanto das atividades da Resistência Francesa. Os alemães responderam por meio do aumento de comunicações via rádio, se bem que, por serem tão dependentes da máquina de cifrar Enigma, tais medidas tornassem as intenções alemãs ainda mais transparentes à inteligência Aliada.

A superioridade aérea aliada tornou a transferência organizada de unidades da Luftwaffe para o teatro de operações uma empreitada extremamente difícil.

A resposta imediata da Luftwaffe aos desembarques foi “quase que imperceptível.” De fato, o esforço aéreo alemão durante as primeiras 24 horas somaram apenas 319 surtidas, frustrando, assim, a expectativa inicial de deter a invasão durante as primeiras horas cruciais. Mesmo assim, o desdobramento das unidades de caça defensivas do Reich tiveram algum sucesso com a chegada de 200 aeronaves nas primeiras 36 horas. No dia-D+7, mais de 1.000 aeronaves alemãs estavam diretamente fazendo frente ao desembarque. Além de terem de prover suas próprias defesas, elas tinham ainda de escoltar trimotores de transporte lentos que conduziam pessoal e peças de reposição.

Os verdadeiros problemas para essas aeronaves iniciavam com sua chegada à cena de ação, já que os ataques aéreos aliados tinham danificado muitos de seus aeródromos. A força de caça alemã foi atraída para uma batalha perdida para manter seus índices de disponibilidade em face de intensa atividade aérea inimiga.

Os comandantes alemães logo perceberam que seus métodos destinados a confrontar a superioridade aérea aliada não se revelaram à altura das tarefas que tiveram à frente na Normandia. As organizações de terra tinham de lidar com condições muito mais difíceis do que as enfrentadas no território do Reich. Como resultado, o Alto-Comando da Luftwaffe enfatizou que “as forças de ar e as organizações de terra são uma única arma” e buscou incutir o “comportamento guerreiro” até mesmo entre o pessoal de apoio que operava os aeródromos.

Os alemães reforçaram fortemente seus sistemas de alarme contra incursões aéreas, já que os ataques levados a efeito pelos caças-bombardeiros aliados freqüentemente ocorriam com pouco ou sem aviso. Camuflagem e dispersão tornaram-se quase que uma arte, com as aeronaves sendo descobertas imediatamente antes de uma surtida e rapidamente cobertas depois que suas hélices paravam de girar. As forças antiaéreas eram subordinadas a um comandante da defesa da base, responsável por treinar, implementar novas medidas defensivas e, com efeito, dirigir as operações no caso de a base ser atacada. 

Os comandantes de artilharia antiaérea tomaram proveito do fato de os caças-bombardeiros aliados atacarem tudo que se movia nas estradas da Normandia e criaram engenhosas “armadilhas para aeronaves que voassem a baixa altura”. Desdobraram simulacros de lona móveis equipados com painéis de vidro para simularem o reflexo de pára-brisas de veículos. Quando os caças-bombardeiros mergulhavam para atacar, um conjunto emassado de canhões de artilharia antiaérea (AAA), costumeiramente camuflados como arbustos, abriam fogo.

Nos estágios iniciais da invasão de verão, os alemães experimentaram deslocar aeronaves para longe dos aeródromos ameaçados e dispersá-las em pistas de pouso de emergência. Os “vôos de evacuação” logo cessaram. Em primeiro lugar, esses deslocamentos consumiam os parcos estoques de combustível de aviação; em segundo lugar, o espaço aéreo sobre a Normandia revelou-se muito mais perigoso do que seu terreno. 

No início de agosto de 1944, a Luftwaffe teve que retirar suas unidades de caça dos aeródromos avançados, já que, como relembra um comandante, seus caças estavam “presos ao solo” pelas aeronaves aliadas. Essas novas bases – localizadas a sudoeste de Paris – embora um pouco menos vulneráveis a ataques diretos pela aviação aliada, obrigavam a Luftwafe a percorrer grandes distâncias, utilizando, dessa forma, combustível precioso e diminuindo o tempo sobre os alvos. A esperança de utilizar caças em “tarefas-alternadas” de aeronaves de ataque ao solo mostrou-se fútil: os pilones para bombas eram rapidamente alijados à medida que os caças se concentravam sobre unidades alemãs selecionadas para proverem um mínimo de cobertura aérea.

Eles também tentaram abater aeronaves de observação aérea aliadas, as quais corrigiam o tiro de artilharia convencional e naval contra as forças terrestres alemãs sob grande pressão.

Claramente, a força de caça não podia criar um impacto apreciável, e as forças de ataque ao solo achavam-se em situação ainda mais precária. Aeronaves Fw 190s carregadas de bombas eram ainda menos capazes do que os caças alemães de penetrarem as formações avançadas de caças aliados. 



Luftwaffe limitou suas missões de ataque ao solo ao amanhecer e ao anoitecer – ou às condições atmosféricas adversas. O Estado-Maior Geral da Luftwaffe concluiu que “aeronaves de ataque ao solo . . . não mais prestavam qualquer apoio decisivo às forças de terra, e as pesadas perdas sofridas elevaram-se, ao final, a um nível desproporcional aos êxitos alcançados”.

Luftwaffe pelo menos tinha poucas ilusões de que sua força de bombardeiros, uma vez considerada seu principal vetor ofensivo, teria um papel significativo a desempenhar nos combates diurnos da Normandia.

Afastada até mesmo dos céus noturnos da Europa Ocidental, a força ofensiva da Luftwaffe dependia cada vez mais de armas sem pilotos – as “bombas voadoras” Fieseler Fi 103 (V-1). Como um substituto para a capacidade de bombardeio convencional, as V-1 tinham várias deficiências, especialmente sua falta de precisão. 

Não obstante, o bombardeio levado a efeito por essas bombas voadoras, iniciado em 13 de junho de 1944, comprometeu o emprego de um grande número de aeronaves de caça aliadas e baterias antiaéreas aliadas que, de outra forma, teriam sido empregadas na Normandia.

O estado-maior da Luftwaffe chamou a atenção especialmente para esse benefício colateral em seus memorandos táticos. Mais tarde, na invasão de verão, os mísseis balísticos A-4 (V-2) do Exército entraram em cena. Embora há muito alardeado pelo Programa de Armamentos de Foguetes do Exército como um potencial substituto para o bombardeio estratégico, os V-2 possuíam ainda menos precisão do que as V-1 e (já que nenhuma defesa era possível) não causaram qualquer remanejamento de forças de caça ou antiaéreas aliadas.

Foi somente na área de apoio ao reconhecimento que as contramedidas da Luftwaffe efetivamente produziram alguma melhora significativa. A incapacidade da Luftwaffe em conduzir até mesmo o reconhecimento aéreo mais básico tornava as forças alemãs praticamente cegas, uma situação que contribuiu enormemente para a operação de despistamento Aliada (Fortitude) anterior à invasão, assim como propiciou um nível sem precedentes de liberdade operacional às formações aliadas combatendo na Normandia.

Embora a superioridade aérea aliada parecesse ter condenado as forças de reconhecimento da Luftwaffe à mesma irrelevância de suas unidades de combate, neste caso novas tecnologias radicais fizeram surgir uma melhora notável. Embora o interceptador a jato ME 262 não tivesse alterado de forma apreciável o equilíbrio na luta pela superioridade aérea sobre a Alemanha, seu equivalente menos festejado – o bombardeiro/aeronave de reconhecimento a jato Arado Ar 234 – aumentou dramaticamente as possibilidades de sucesso das operações de reconhecimento. 



No final de julho e início de agosto de 1944, dois protótipos do Ar 234 chegaram na área costeira da invasão. O Ar 234 não era armado, levava apenas duas câmeras panorâmicas de alta resolução e confiava em sua tremenda velocidade e capacidade de operação em elevadas altitudes para evadir-se de interceptações.

Durante uma única missão, em 2 de agosto, um piloto de Ar 234, voando a única aeronave operacional, “alcançou o que havia estado além do alcance de toda a força de reconhecimento da Luftwaffe no decorrer das oito semanas precedentes: ele fotografou quase toda a área de ocupação dos Aliados na Normandia.” De fato, no restante da guerra, unidades de reconhecimento equipadas com Ar 234 puderam operar praticamente sem interferência a oeste, na Itália, e mesmo sobre as Ilhas Britânicas. Embora as forças armadas alemãs não mais dispusessem da capacidade para tomar ações efetivas baseadas em um melhor fluxo de dados de inteligência, a carreira operacional do Ar 234 indica as possibilidades conferidas por um simples item de nova tecnologia até mesmo a uma força aérea irremediavelmente inferiorizada.

À exceção de pequenos êxitos, as contramedidas da Luftwaffe à superioridade aérea aliada na Normandia não prolongaram significativamente o embate. O apoio aéreo às contra-ofensivas alemãs como o ataque a Mortain em agosto foi deficiente, e as organizações de terra da Luftwaffe foram apanhadas na retirada generalizada que se seguiu na França. Comentava-se na Alemanha que o prefixo “WL” nas placas dos veículos da Luftwaffe, de fato, significavam “estamos de saída [we´re leaving!]”. 

O apoio tático prestado pela Luftwaffe às operações terrestres permaneceu esporádico e ineficaz durante o resto da campanha. Mesmo os raros ataques em massa desencadeados pelos caças da Luftwaffe, como ocorreu na Operação Bodenplatte – o ataque surpresa a bases aéreas aliadas no dia de Ano Novo de 1945 — dificilmente compensaram as perdas sofridas.

A perda da superioridade aérea na frente russa, embora não tão extensa, nem tão dramática como no oeste, também gerou problemas consideráveis. Embora a Luftwaffe pudesse concentrar suas forças e arrebatar a superioridade aérea local da Força Aérea Vermelha até mesmo no início do último ano da guerra, ela ainda tinha de lidar com o fato de que podia formar uma resistência aérea tão somente bastante limitada ou inexistente sobre largos setores da frente de combate.

Nessas regiões, os alemães lançaram mão de algumas das mesmas práticas de camuflagem, dissimulação e técnicas antiaéreas utilizadas no oeste, mas muitas das contramedidas foram de emprego exclusivo no teatro de operações oriental. Uma dessas “soluções de baixa tecnologia” mais interessantes e de uso mais generalizado para o problema da superioridade aérea foi o emprego de aeronaves em missões noturnas de inquietação.

Desde os primeiros dias da campanha no oriente, mesmo quando os alemães ainda dispunham de uma superioridade aérea geral, as unidades da frente de combate do Exército tornavam-se inquietas com o surgimento de biplanos obsoletos soviéticos, operando à noite e freqüentemente pilotados por mulheres (as chamadas Feiticeiras da Noite). Embora o efeito material desses ataques fosse mínimo, ataques noturnos com bombas de fragmentação erodiam o moral da tropa, privavam os soldados do sono, ocasionalmente destruíam depósitos de suprimentos e infligiam baixas.

Os comandantes aéreos alemães inspiraram-se nesses acontecimentos. Nas áreas de retaguarda da Luftwaffe havia uma multiplicidade de aeronaves de treinamento e reconhecimento obsoletas, assim como muitas aeronaves capturadas. Essas aeronaves desempenharam papel limitado nas operações aéreas de envergadura, mas – dada a dimensão do TO e a dispersão das alas aéreas de bombardeiros e caças da Luftwaffe – muitos comandantes aderiram à filosofia de que “uma aeronave não utilizada está auxiliando o inimigo.” 

Luftwaffe explorou extensamente essas aeronaves obsoletas, agrupando-as em unidades de ataque noturno e de ataque ao solo. Virtualmente não detectáveis por radar ou outros meios, essas aeronaves atacaram depósitos de suprimentos soviéticos, acampamentos de tropas irregulares, aeródromos inimigos e outros alvos vulneráveis com bombas leves de fragmentação e o fogo de metralhadoras.

Não é de causar surpresa que essas simples aeronaves pudessem operar de forma tão efetiva; mesmo 60 anos depois, em certas circunstâncias, aeronaves leves podem penetrar até mesmo sofisticados sistemas de defesa antiaérea. No outono de 1944, mais de 500 dessas aeronaves estavam em operação, a maioria na Rússia; entretanto, os Aliados também depararam-se com unidades de ataque ao solo de emprego noturno equipadas com aeronaves mais modernas na frente italiana e na frente ocidental.

Tal como muitas improvisações observadas ao largo da história militar alemã, esse expediente de baixo custo surgiu dos escalões inferiores da Força. Foi somente no início de 1944 que uma doutrina oficial sobre o uso desse tipo de arma foi publicada; e a maior parte do trabalho de desenvolvimento e experimentação do conceito ocorreu no escalão unidade. A fixação da seção de operações do Estado-Maior da Luftwaffe pela retomada da superioridade aérea, por meios convencionais, provavelmente impediu uma dependência mais ampla em tais improvisos de baixa tecnologia.


 

Conclusão

O poder aéreo fez sua maior contribuição à vitória aliada na Segunda Guerra Mundial ao destruir a Luftwaffe e conquistar a superioridade aérea sobre toda a área de combate. A Força Aérea alemã respondeu a essa ameaça com engenhosidade e determinação. Muitas das medidas por ela tomadas conduziram a um sucesso temporário; outras não tiveram um efeito identificável sobre o rumo dos eventos.

É possível avaliar a eficácia dessas medidas em vários níveis. Ao criar uma organização para a defesa do território nacional, diante de muitos compromissos onerosos em três frentes de combate amplamente separadas, o Alto-Comando da Luftwaffe fez, realmente, um trabalho digno de crédito; de fato, no final de 1943, ele estivera prestes a tornar demasiado cara a continuação das operações de incursão em profundidade da AAF. A indústria aeronáutica alemã certamente elevou-se à dimensão do desafio ao aumentar significativamente a produção de caças – tanto que até o final a Luftwaffe não sofreu da carência de aeronaves desse tipo.

Mesmo sob intensos ataques por bombardeio, os dirigentes da indústria de armamentos da Alemanha Nazista conseguiram operar “um milagre de produção.” O êxito dessas medidas sublinha o nível de resiliência de um estado moderno, mesmo diante das circunstâncias mais adversas.

A despeito de notáveis desenvolvimentos tecnológicos, tal como o interceptador Me 262, as soluções de alta tecnologia alemãs para o problema da superioridade aérea, em larga medida, fracassaram. Por mais convincente que possa ter sido a visão de novas tecnologias confrontando a superioridade numérica aliada, os desenvolvimentos alemães no final da guerra não podiam justificar as exageradas expectativas a seu respeito. É um fato que as tripulações e o pessoal de terra da Luftwaffe obtiveram seus poucos êxitos defensivos já próximo do final da guerra por meio do emprego de armas convencionais ou mesmo em estado de obsolescência.

Que lições o empenho da Luftwaffe em reconquistar a superioridade aérea sugere? Claramente, com a vantagem da perspectiva auferida pelos conhecimentos no início do século XXI, muitos aspectos tornam os eventos ocorridos apenas de interesse histórico. O ritmo das operações de combate na Segunda Guerra Mundial foi bastante lento e incremental. A ofensiva aérea aliada levou anos para desenvolver-se, somente provocando danos reais à economia alemã no último ano da guerra.

Mesmo após os desembarques na Normandia, a estratégia de “frente ampla” dos Aliados Ocidentais permitiu que as forças alemãs – a despeito da derrota decisiva sofrida na França – se reorganizassem e não só derrotassem a Operação Arnhem, em setembro de 1944 mas, também, lançassem uma grande ofensiva nas Ardenas. É improvável que conflitos futuros propiciem a um adversário pausa semelhante para se recompor, durante a qual os alemães implementaram reformas organizacionais e na produção de aeronaves.

Tampouco pode um futuro adversário fiar-se em dispor de tempo para aprestar novas tecnologias, mesmo para limitadas ações de combate. Além do mais, as contramedidas alemãs foram projetadas para infligir uma derrota decisiva às forças aéreas de seus inimigos. Por mais vã que aquela esperança tenha sido, é ainda mais improvável que, no futuro previsível, um adversário venha a engajar a Força Aérea dos EUA em combate semelhante pela superioridade aérea.

A despeito do evidente hiato entre a experiência da Luftwaffe e qualquer cenário futuro, esse estudo de caso histórico apresenta lições relevantes. Uma das conclusões mais notáveis refere-se à relutância por parte das forças aéreas de efetuarem amplas mudanças em suas doutrinas operacionais.

Sugerir que a fixação da Luftwaffe por operações ofensivas foi a única – ou principal – causa de sua derrota é simplificar em demasia a situação; contudo, sua aderência a princípios, que lhe eram caros, relativos ao emprego apropriado do poder aéreo certamente retardou e prejudicou sua resposta à perda da superioridade aérea. Os custos de manutenção de uma capacidade ofensiva mostraram-se enormes e, para a Luftwaffe, isso foi, em grande medida, um ferimento infligido a si mesma.

Nada obstante, em certa medida a Luftwaffe libertou-se dos grilhões da doutrina anterior à guerra, e as medidas resultantes por ela tomadas são de enorme interesse para os atuais profissionais do poder aéreo. Embora o desempenho passivo da Força Aérea iraquiana em 1991 e 2003 frente ao domínio do ar por parte da Coalizão seja reconfortante, a experiência da Luftwaffe – assim como o desempenho da aviação argentina durante a Guerra das Malvinas em 1982 – sugere que uma força aérea bem adestrada continuará a operar mesmo diante de desvantagens esmagadoras.

Além disso, os mais relevantes, embora transitórios, êxitos defensivos alemães resultaram do emprego astuto e determinado de aeronaves convencionais, a despeito da fixação por “armas maravilha” no período pós-Guerra. 

Ironicamente, a lição mais importante da experiência da Luftwaffe pode ser o emprego de biplanos obsoletos de baixa detectabilidade por radar em missões noturnas de inquietação, do que a incorporação tardia do caça mais rápido do mundo. Recentes experiências de combate americanas ao redor do globo sugerem várias possibilidades de emprego de armamentos menos sofisticados.

A dependência em defesas baseadas em terra também oferece um grande número de lições. Em meados de 1944, as unidades antiaéreas alemãs podiam reivindicar para si a responsabilidade pela maioria das aeronaves aliadas destruídas pelas forças alemãs. Embora a concentração de canhões AAA pesados em torno de alvos importantes possa parecer uma ação ineficaz em relação ao custo, a proteção de alvos táticos com armas de pequeno calibre concentradas mostrou ser outra história.

Uma vez que as aeronaves aliadas atacavam imediatamente qualquer veículo em movimento, tornou-se fácil atraí-las para armadilhas anti-aéreas bem dissimuladas. Mesmo medidas mais simples como camuflagem, dissimulação, cortinas de fumaça, construção de abrigos antiaéreos e evacuação de áreas críticas não devem passar desapercebidas. Seu efeito cumulativo complicou enormemente a tarefa dos planejadores aéreos aliados. Conforme Milch sumarizou, “Se a última guerra nos ensinou a a cavar trincheiras, essa guerra nos tem ensinado a camuflar.” Baratos e exigindo pouco treinamento e preparação, tais métodos prestam-se rapidamente ao repertório de qualquer nação que venha a confrontar um inimigo que mantenha o domínio do ar.

Além disso, dissimulação e mobilidade podem evidenciar-se como contramedidas efetivas diante de munições guiadas de precisão, já que esses armamentos freqüentemente possuem uma pequena ogiva e dependem de precisão para serem eficazes. Um futuro adversário bem faria em estudar o exemplo alemão.

Ao falhar em deter os Aliados, até mesmo as mais astutas contramedidas alemãs assumiram um ar de total futilidade. Era improvável que o aumento no número de baixas infligidas por algumas dessas medidas demovesse os Aliados do seu objetivo enunciado de rendição incondicional. Não obstante, em um contexto político-social diferente, a capacidade de prolongar um conflito ou de aumentar o número de baixas pode ser suficiente para forçar uma potência a repensar seus comprometimentos. Por mais infrutíferas que tenham sido as medidas alemãs em uma guerra total entre estados-nação, a capacidade de infligir baixas inesperadas à Força Aérea dos EUA, a seus parceiros de coalizão, ou populações amigas, pode render lucros desproporcionais a futuros adversários.