"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Raid Aéreo Israelense na Guerra dos 6 Dias #




Roy Reis Friede

Guerra dos 6 dias, 1967. Israel executa uma impressionante operação de bombardeio contra as bases aéreas egípcias e destrói em menos de 3 horas, em uma das mais espetaculares ações militares já vistas, a quase totalidade da força aérea daquele país ainda no solo.

Às 07:45 h da manhã de segunda-feira. 5 de junho, houve o primeiro ataque aéreo israelense. Foi dirigido contra 10 aeroportos, dos quais 9 foram atingidos, precisamente ao mesmo tempo. O décimo, foi atacado poucos minutos mais tarde, pois ainda estava semi-encoberto pela neblina matinal sobre o canal.

Os aparelhos tinham levantado voo a intervalos cuidadosamente cronometrados, a fim de atingirem o alvo ao mesmo tempo, tirando assim, partido de um máximo de surpresa.

Cada ataque foi levado a cabo por 4 aeronaves voando aos pares, os quais chegaram aos seus objetivos e executaram suas missões exatamente de acordo com as instruções e todas as bombas explodiram. Os 10 aeroportos atacados foram: El Arish, Gebel Lbni, Bir Gifgafa, Bir Thamada, Abu Sueir, Kabrit, Inchas, Cairo Oeste, Beni Sueif e Fayid.

A maior parte da Força Aérea Egípcia foi surpreendida no solo, com exceção de 4 aeronaves que, no momento do ataque compunham uma esquadrilha em treinamento desarmadas, pilotados por 1 instrutor e 3 alunos.

A Escolha do Horário

4 razões fizeram que este horário (07:45- hora de Israel) fosse escolhido:

  1. O estado de alerta do Egito estava em nível máximo. Era fácil presumir que desde que os egípcios iniciaram sua concentração de tropas no Sinai, há 3 semanas, haviam várias esquadrilhas de Migs-21 esperando na cabeceira da pista prontos para decolar em 5 minutos, todas as manhãs. 1 ou 2 patrulhas provavelmente estariam no ar àquela hora, propícia a um ataque inimigo, porém seria pouco provável que a prontidão fosse mantida indefinidamente. Ao constatar que nenhum ataque ocorrera dentro de 2 ou 3 horas após a alvorada, o estado de alerta foi relaxado desligando alguns de seus radares. Os israelenses estimaram em 07:30 h (08:30 no Cairo) para esta condição.
  2. Ataques aéreos são feitos ao alvorecer. Como os pilotos tem que estar prontos 3 horas antes da decolagem, significa que precisam levantar-se por volta da meia-noite, ou simplesmente não dormirem. Ao anoitecer do primeiro dia de guerra eles teriam estado de vigília durante 36 horas, com toda a noite e possivelmente o dia seguinte de ação a sua frente. Efetuando o ataque às 07:45 eles poderiam dormir até perto das 4 horas.
  3. Nesse período do ano, uma neblina matinal cobre o Nilo, o Delta e o Canal de Suez. Por volta das 07:30 h ela geralmente se dispersa e, às 08:00 h o tempo costuma estar ótimo e a visibilidade atinge o máximo, devido ao âgulo do sol, o ar fica parado, fator importante para a pontaria dos bombardeiros sobre as pistas-alvo.
  4. 07:45 (hora de Israel) equivale às 08:45 no Cairo. Por que 07:45 em vez de 08:45? Os egípcios começam a trabalhar às 09:00. Um ataque 15 minutos antes surpreenderia os generais e comandantes da Força Aérea Egípcia a caminho dos seus gabinetes,e os pilotos e o pessoal de terra dirigindo-se para seus cursos de treinamento e outras atividades.
O General Hod estava em seu QG quando a última patrulha matinal egípcia levantou voo e mostrou-se nos radares israelenses. Olhou para seu cronômetro. Sabia perfeitamente quanto tempo eles permaneceriam no ar. Às 07:45 as patrulhas estariam quase sem combustível e preparando-se para aterrizar.




Os Migs em voo

Os objetivos principais do primeiro ataque eram tornar as pistas inutilizáveis e destruir o maior número de Migs-21 possível, pois eram os únicos caças egípcios que poderiam frustar os planos da aviação israelense de destruir a forças de bombardeiros egípcios de longo alcance, maior ameaça a população civil de israel. 8 formações de Migs-21 foram destruídas quando estavam rolando  à extremidades das pistas.

Antigamente os israelenses tinha conseguido persuadir os egípcios a remover 20 dos seus caças de primeira linha, 12 Migs-21 e 8 Migs-19 da área ao redor do Cairo e do Canal de Suez (onde estão concentradas as principais bases egípcias) para Hurghada, mais ao sul, onde estavam praticamente fora de combate.

Os israelenses tinham conseguido isso alguns dias antes, enviando aeronaves de reconhecimento para sobrevoar o Golfo de Ácaba, fazendo-os pensar que o ataque seria a leste, na extremidade da península do Sinai ao invés de um envolvimento pelo oeste vindo do mediterrâneo. Em Hurghada eles ficaram efetivamente afastados das áreas de atuação da aviação israelense. Após o ataque, estas aeronaves não mais se dirigiram para o sul rumo a Luxor e outras bases no Egito Superior, às quais lhes dariam proteção, dirigiram-se para o norte, para as bases próximas ao Canal, onde constataram que suas pistas estavam destruídas e caíram em mãos inimigas.

Além destes, apenas 2 esquadrilhas de 4 Migs-21 puderam levantar voo, e conseguiram abater 2 caças israelenses, os quais posteriormente foram abatidos.


O Ataque

A aviação israelense, em esquadrilhas de 4 aeronaves, avançou por diversas rotas, algumas por uma curta rota circular a direita por sobre o mar, rumo às bases ao redor do Cairo, do Canal e do Sinai. Outras avançaram diretamente para as bases no Egito Superior. Voando extremamente baixo, não mais que 10 metros da superfície, mantiveram-se fora das telas dos radares egípcios. Os israelenses também não queriam aparecer nas telas dos radares russos, ingleses e americanos que também estavam presentes e monitoravam a situação.

O uso do radar já era intenso àquela época. Os egípcios tinham 16 unidades só no Sinai, e outros países também queriam saber o que se passava. Haviam navio russos ancorados na área e a Sexta Frota americana fazia voar suas patrulhas-radar baseadas em porta-aviões, além de seus radares de superfície e do navio de elint USS Liberty. Os ingleses possuiam um radar baseado em Chipre, no alto do monte Trudos.

Os sistemas de ECM vinham sendo aperfeiçoados desde a II Guerra, a fim de interromper, confundir ou despistar por meio de artimanhas eletrônicas, os radares inimigos. Os israelenses não estavam alheios a estas práticas, nem tampouco eram novatos nela. Durante a II Guerra os ingleses utilizaram-se de  transmissores-rádio de alta potência, com controladores de fala alemã, para transmitir informações falsas aos pilotos do Reich, nas frequências que se sabia que utilizavam. Eram todos recrutados entre judeus que haviam fugido da Alemanha antes da eclosão da guerra. Os israelense estavam na vanguarda da utilização destes sistemas, atividades ECM e similares.

Embora 23 estações-radar egípcias tivessem sido postas foram de ação, dentre elas as 16 do Sinai, iso não foi feito antes da tarde de segunda-feira. As ECM não foram usadas antes 07:45 h  para não alertar os egípcios de algo estava para acontecer. Mas não ha dúvidas de que depois disso os israelenses  interferiram pesadamente não só contra os radares egípcios, mas também contra os observadores indesejados.

Quando a primeira vaga atingiam seus alvos, a segunda já estava a caminho e a terceira acabava de levantar voo, com partidas a intervalos de 10 minutos. Cada esquadrilhas de 4 aeronaves tinham 7 minutos para atingir seus alvos, o bastante para 3 ou 4 passagens. Mais 3 minutos foram acrescentados para compensar erros de navegação ou outra passagem sobre o alvo. Os israelenses operavam com incrível rapidez. O tempo de rotação concedido às aeronaves atacantes era o seguinte:

  • tempo até o alvo: aprox 22 1/2 minutos
  • tempo sobre o alvo: aprox 7 1/2 minutos
  • tempo para regresso: aprox 20 minutos
  • tempo de reabastecimento: aprox 7 1/2 minutos
Isto quer dizer que as aeronaves podiam sobrevoar seus alvos pela segunda vez a menos de 1 horado ataque inicial.

Para defender Israel e suas bases a Força Aérea Israelense deixou apenas 12 caças. 8 voando em cobertura e 4 em alerta na extremidade da pista. Israel jogou alto. Era ganhar ou perder, mas os riscos haviam sido cuidadosamente calculados e os planejadores israelense jogaram com confiança e decisão.




Discutindo o bombardeio dos aeroportos egípcios, o Gen Weizmann disse: " Nós podíamos ter sobrevoado os objetivos apenas 1 vez, mas os nossos rapazes não são de poupar esforços". Os pilotos atacantes sobrevoaram várias vezes seus alvos para conseguir melhor pontaria e consequentemente  inflingir maiores danos. Utilizaram-se em grande escala e com máxima eficiência o bombardeio de mergulho. "É por isso que não nos interessam os bombardeiros estratégicos. não temos interesse de atacar a população civil. Para destruir aeroportos e aparelhos os nossos caças são mais que eficientes" comentou Weizmann.


As bombas Israelenses

A quase total destruição da aviação egípcia em terra não se deveu apenas à surpresa, mas em parte também a uma bomba que os israelenses desenvolveram e aperfeiçoaram especificamente para destruir pistas. Assim que a bomba deixa seu vetor, um foguete de retroação é disparado e fim de deter-lhe o impulso, diminuindo sua velocidade. A seguir um foguete propulsor a acelera em direção a pista. Mal ela penetra no concreto uma espoleta de tempo a detona, podendo ser instantaneamente ou de ação retardada. Normalmente as pistas são fáceis de consertar, mas a situação se complica se  as bombas continuam a explodir.

O objetivo dessa bomba especial é permitir que os caças atinjam as pistas em voo rasante  em alta velocidade. Uma bomba comum, lançada desta maneira, rebateria e causaria danos superficiais. O engenho israelense afasta a necessidade de voar até junto às bocas da antiaérea inimiga num taque de mergulho. Nem todos os caças atacantes possuíam estas bombas, e muitos valeram-se de bombas comuns de 200 e 500 kg, lançados em mergulho de 2000 metros de altura. Os caças egípcios, tanto em terra quanto no ar, foram quase todos destruídos por fogo de canhão.




A Antiaérea Egípcia

O fogo antiaéreo egípcio foi bem mais leve que os israelenses esperavam, e não muito certeiro. Embora os egípcios lançassem vários dos seus SA-2 da fabricação soviética nem um só aparelho israelense foi atingido por eles. A altitude em que os israelenses os operavam, provaram ser totalmente ineficazes. Demoram muito para adquirir velocidade, sendo inúteis abaixo dos 1500 m de altitude. Em certo momento um piloto israelense viu o que parecia ser outra aeronave aproximando-se calmamente, como se para juntar-se ao dele em formação. Tornou a olhar e percebeu que se tratava de um míssil. Voava na mesma direção que sua aeronave e aproximava-se dele pelo lado. O piloto chegou-se para ele e deixou-o passar por baixo. O míssil continuou a voar até perder-se de vista. Estes mísseis foram por muito tempo a principal arma de defesa russa. Sua inutilidade, além do fato de vários deles caírem em mãos ocidentais foi de muita preocupação para os planejadores soviéticos.

A Artilharia Balística Egípcia

Havia bastante apreensão por parte da população civil israelense quanto aos tão apregoados mísseis superfície-superfície que Nasser proclamara poderem alcançar Tel-Aviv. Havia anos que sabia=se que uma equipe de cientistas alemães e da Europa Oriental trabalhavam num centro de pesquisas, criado por Nasser nos arredores do Cairo e que os mísseis haviam sido os astros das paradas comemorativas do dia da revolução, na capital egípcia. Mas este tipo de míssil não foi utilizado, e pareceu que não passava de um mito. A aviação israelense não aproveitou a oportunidade que teve de destruir este centro de pesquisas, provavelmente responsável pela fabricação do gás venenoso que as tropas egípcias usaram no Iemem. Lamentou um oficial da Força Aérea Israelense: "Acho que ainda vamos nos arrepender de não termos tomado essa decisão".

O ataque continua

Durante 80 minutos sem trégua, a Força Aérea Israelense, castigou os aeroportos egípcios, seguindo-se após 10 minutos de intervalo 80 minutos de ataques. Nessas 2 horas e 50 minutos, os israelenses destruíram o potencial ofensivo da aviação egípcia, arrasando-a como força de combate.

Ao todo, 19 aeroportos egípcios foram atingidos no primeiro dia de guerra. Além dos 10 anteriores mencionados mais Mansura, Helwan, El Minya, Almaza,  Luxor, Deversoir, Hurghada, Ras Banas e Cairo Internacional foram também atacados nessa manhã.

a Força Aérea Israelense calculou que nesses 170 minutos destruiu 300 das 340 aeronaves de combate egípcias, inclusive todos os 30 bombardeiros TU-16 de longo alcance.

O grande aeroporto de El Arish, no Sinai, foi a única das bases atacadas cujas pistas não foram postas fora de ação, já que os planos israelenses eram de utilizá-lo como base de abastecimento e evacuação de baixas. Na terça-feira ã noite ele já estava sendo utilizado para esse fim.

Em mais de uma das bases egípcias a aviação israelense destruiu todas as aeronaves, ma deixou intactos os falsos aparelhos, sob a sua cobertura de camuflagem. Quando lhe perguntaram se isso se devia a má imitação ou ã capacidade da inteligência israelense, um oficial respondeu que a ambos, acrescentando porém que em Abu Sueir, perto de Ismaília, tinham feito também explodir algumas contrafações, além de atingir todos os aviões de verdade. Disse que nos aeroportos do Sinai, em que a inteligência israelense funcionou ainda melhor do que nos principais aeroportos egípcios, não houve tais enganos.




A resposta da comunidade árabe

Assim como os israelenses haviam calculado não terem as aeronaves soviéticas no Mediterrâneo ligação direta com o alto comando egípcio e serem capazes de transmitir informações do seu radar aos egípcios, no espaço de 10 minutos, igualmente o General Hod contava ter um avanço de umas 2 horas para lidar com a Força Aérea Egípcia, antes da intervenção síria e jordaniana. Na realidade teve 4 horas. Só ao meio-dia é que os sírios e jordanianos envolveram-se no combate. A esta altura os israelenses já haviam destruído a maior parte das aeronaves inimigas e podiam voltar-se contra os novos adversários. "Podemos ter de enfrentar a Síria e a Jordânia em 25 minutos", comentou Hod laconicamente.

Pouco antes do meio-dia da segunda-feira, a Força Aérea Síria lançou suas bombas perto da refinaria de petróleo da baía de Haifa e atacou o aeroporto de Megido, onde destruíram alguma aeronaves de imitação. Os Israelenses reagiram atacando uma base síria perto de damasco.

Após um ataque jordaniano ao meio dia contra a base de satélites israelense de Kefer Sirkin, em que destruiu no solo uma aeronave de transporte Noratlas, a aviação israelense bombardeou os aeroportos de Mafraq e Amã, na Jordânia,  pondo-os fora de ação, e a instalação de radar de Ajlun.


Antes do anoitecer da segunda-feira os israelenses fizeram novas incursões a maioria dos 23 aeroportos que haviam atacado no decorrer do dia. Além de utilizar bombas comuns, empregaram as de ação retardada pra que explodissem periodicamente durante a noite, impedindo qualquer tentativa de reparar as pistas.Como se isso não bastasse, prosseguiram ainda com seus ataques contra estas bases durante a maior parte da noite.

Quando na manhã seguinte, a Força Aérea Iraquiana atacou a cidade de Natanya, os israelense imediatamente revidaram atacando a base aérea H3, a mais ocidental do Iraque, próxima da fronteira com a Jordânia.

Após fazer uma demonstração um pouco ao norte do mar da Galiléia, com um par de caças Hawk, um dos quais foi abatido, os libaneses retiraram-se honrosamente da guerra.

O saldo das ações

Até o cair da noite do segundo dia da guerra, os israelense haviam destruídos 416 aeronaves, sendo 393 em terra. Haviam feito mais de 1000 incursões, sendo que alguns pilotos participaram de 8 por dia. Ao anoitecer da terça-feira  um total de 26 caças israelenses haviam sido abatidos, incluindo 6 Fouga Magister de treinamento, equipados com foguetes de 68/80 mm de ação anticarro. 

Foram perdidos 21 pilotos, sendo cerca da metade feitas prisioneiros da Síria e do Egito. O Iraque devolveu 2 aviadores, assim como a Jordânia. Um piloto foi dado como linchado no Egito, e outro voltou a salvo para Israel. Houveram negociações para devolução de 2 outros prisioneiros dos egípcios. Pelo menos 2 dos pilotos atingidos sobre a Síria, preferiram não observar a orientação de seus comandos e se lançar de paraquedas, optando por estatelar-se com suas aeronaves a cair em mãos sírias.

Os danos contra a Força Aérea Egípcia, foram calculados nesses dois dias em cerca de 500 milhões de Dólares, perdendo-se não somente aeronaves, mas também equipamentos de solo, incluindo 23 estações de radar, além de vários parques de lançamento de mísseis superfície-superfície, sendo 16 deles no Sinai.

Porém o equipamento não é tudo e talvez sejam precisos muitos anos para restaurar o moral e o espírito da Força Aérea Egípcia. Calcula-se que cerca de 100 de seus 350 pilotos tenham perecido nos ataques. Em vista da grande quantidade de Migs-21 destruídos rolando pela pista, este números provavelmente incluem uma grande proporção dos mais experientes profissionais da caça egípcia.

Nasser sabia perfeitamente que, pelo menos pelos padrões egípcios, o israelenses não tinham uma grande força aérea. Possuíam um total de cerca de 300 aeronaves, dos quais 50 ou 60 Fouga Magister de treinamento, equipados com foguetes anticarro. Entretando tinha-lhe chegado a noticia de leva após leva de elementos israelenses atacando 19 de suas bases aéreas, a intervalo de 10 minutos, durante 2 horas e 50 minutos, quase ininterruptamente.

No seu discurso de renúncia, a 9 de junho, Nasser declarou: "Se agora dissemos que o golpe foi muito mais forte do que esperávamos, devemos também dizer, ao mesmo tempo e com certeza, que ele foi muito mais forte do que os seus recursos permitiam... O inimigo atacou de uma só vez todos os aeroportos civis e militares da República Árabe Unida. Isso significa que Israel contava com algo mais do que a sua força normal para proteger seus céus de qualquer revide de nossa parte... Pode-se dizer, sem medo de exagerar, que o inimigo contava com uma força aérea 3 vezes mais potente do que a sua normal".


Esta referência de uma força 3 vezes superior é significativa. Sem dúvida ele se baseou no tempo de reabastecimento de sua própria aviação. Os israelense ficaram sabendo, através de planos secretos da Força Aérea Egípcia, apreendidos em El Arish, que os egípcios baseavam seus planos no fato de suas aeronaves voltarem a sobrevoar os alvos de 3 em 3 horas, em vez de em 1 hora ou menos, como neste ataque. E isso, apesar de muitas das aeronaves egípcias terem um distância muito menor a percorrer, para alcançar as principais bases israelenses desde os seus aeroporto no Sinai, do que os israelense para chegar as bases ao redor do Cairo e do Canal de Suez. Comparando com o tempo de abastecimento, que é de 7 a 10 minutos para os israelenses, o dos egípcios era superior a duas horas.

Enquanto os egípcios calculavam 2 incursões diárias para cada aparelho, muitos dos pilotos israelenses fizeram 8 e alguns até mais, na segunda-feira da guerra.

A disparidade destes números fala por si e nela, sem dúvida, reside a principal causa da vitória de Israel.

Pensa-se que Nasser imaginava uma grande batalha de confronto a maneira britânica na península do Sinai, entre suas forças aéreas centrada em duelos aéreos a maneira antiga. Mas mesmo supondo que os israelenses não tivessem dado o golpe decisivo, pegando quase todas as aeronaves egípcias em terra, há poucas razoes pra crer que o resultado final fosse outro. Segundo os israelenses, em 64 lutas de aparelho contra aparelho, 50 Migs egípcios foram abatidos, contra nenhum Mirage israelense. Até mesmo os subsônicos Vautours e Mysteres puderam derrubar os Migs-21.

As aeronaves israelenses destruídas foram atingidas por fogo antiaéreo nos deslocamentos ou quando efetuavam os ataques. O General Hod foi conclusivo: "Em combates entre aparelhos, o escore foi de 50 x 0. Abatemos 50 Migs sem nenhuma perda".

As razões do sucesso

Como conseguiram obter um sucesso tão absoluto em tão pouco tempo? Eis as razões apresentadas pelo General Hod:


  1. 16 anos de planejamento estavam por trás desses 80 minutos iniciais. "Vivíamos com o plano, dormíamos com o plano, comíamos o plano. Estávamos sempre a aperfeiçoá-lo".
  2. Conhecimento dos movimentos e atividades do inimigo e da situação e dos pormenores  das suas bases aéreas: da concentração de suas aeronaves, da localização de seus radares e mísseis antiaéreos.
  3. O controle operacional: capacidade de absorver e integrar nos planos existentes as novas informações que vão chegando e transmiti-las aos pilotos no ar, desempenhou papel vital para o sucesso da operação.
  4. A execução do plano pelo pilotos (cuja idade média era de 23 anos) foi o quarto elo vital para o sucesso. Refletiu anos de treino de voo, de navegação e de precisão de bombardeio. "Normalmente esperamos que os resultados na guerra sejam cerca de 25% inferiores aos dos exercícios em tempo de paz, devido a excitação e ao fogo antiaéreo. Na realidade porém,  os resultados foram ainda melhores que os dos exercícios, talvez porquê os pilotos estavam tensos e procurando concentrar todos seus esforços em obter um máximo de precisão e eficiência. Talvez também por não terem de observar os regulamentos de segurança aérea vigentes em tempos de paz. Ficaríamos satisfeitos se cada aeronave destruísse 1 aparelho inimigo em cada missão. Na realidade os números foram muito superiores". Numa ocasião, 2 aeronaves israelenses destruíram 16 bombardeiros egípcios em terra, num espaço de 4 minutos.
Há anos que os israelenses vinham praticando esse tipo de ataque. No Neguev Meridional há 4 ou 5 alvos várias vezes atingidos por milhares de bombas, em exercícios de ataque. Pelo menos uma vez por ano são efetuados ataques a estes alvos e, assim, nenhuma aeronave deixou de atingir o objetivo no momento exato, embora navegando apenas com base na estimativa.




A boa qualidade humana e o alto nível de treino não desempenharam seu papel apenas nos ares. Foram igualmente importantes em terra. Abastecer modernas aeronaves de combate em 7 ou 10 minutos e conservar uma força aérea que faz mais de 500 incursões diárias, requer enorme capacidade e coordenação. Observou o General Hod após o término da guerra:

"Às 07:45 h da manhã de segunda-feira a disponibilidade das nossas aeronaves era superior a 99% e mantivemos esse nível durante toda a semana de operações. Embora possa ter levado 1 hora remendando buracos em 1 ou 2 aparelhos, nunca nenhum dos nossos caças ficou fora de combate, excluindo os que perdemos. Jamais tivemos pilotos à espera de aeronaves".

E o General Weizmann recordou: "3 ou 4 meses antes da guerra, um grande contingente de americanos provenientes de escolas de estado-maior da aeronáutica, visitou Israel. Tinham estado no Cairo e ficaram impressionados com o que haviam visto. O mesmo aconteceu na Jordânia, em face do que Hussein lhes dissera. Quando me competiu falar-lhes tive a impressão de que achavam que estávamos fritos. Contei-lhes o que costumávamos dizer durante a II Guerra Mundial: Os alemães voltaram a cercar-nos , pobres-diabos! Pareceu-me que eles nos achavam muito pretenciosos. Não se enganavam, mas tínhamos boas razões para isso".

Às 10:35 h (hora de Israel) da manhã de segunda-feira, a Força Aérea do Egito fora destruída. Não mais constituía uma força de combate ativa e não podia dar cobertura ou apoio ao seu exército no Sinai.

O tempo agora era vital para os israelenses. A maioria do gabinete estava apavorada ante a perspectiva de um cessar-fogo premturo. Tinham recordações desagradáveis vividas em  1956, quando a pressão dos EUA levara a ignominia e a derrota a ingleses, franceses com a vitória já à vista. Todo o plano israelense fora concebido pensando-se que haveria pouco tempo e que a vitória teria de ser a mais rápida e decisiva possível. Seu plano era ousado. Alguns diriam mesmo que arriscado. Mas ao contrário dos ingleses e franceses, no seu ridículo fiasco de 1956, os israelenses possuíam uma ideia precisa do inimigo e da sua capacidade. Esse seria o segredo do seu sucesso.

48 horas era tudo precisavam para desmoralizar o exército de 100.000 homens que Nasser tinha no Sinai. Teriam também que alcançar o Canal de Suez, capturar Sharm El Sheikh e tomar Jerusalém e a maior parte da margem ocidental do Jordão. Mas dispunham dessas 48 horas? Dayan estava ansioso. Se Nasser tivesse sido informado pelos comandantes da sua força aérea da verdadeira situação dessa força e considerasse, acima de tudo, os interesses do seu povo, poderia ter exigido uma sessão de emergência do Conselho de Segurança e pedido um imediato e incondicional cessar-fogo. Se Nasser tivesse feito isso, Israel ficaria numa posição difícil. Foi por esse motivo que Dayan exortou os comandantes israelenses a avançarem com o máximo de velocidade, mas poucos precisavam ser exortados.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Poder Aéreo Argentino na Guerra das Malvinas/Falklands #




Uma Visão Operacional



Dr. James S. Corum

A Guerra das Malvinas/Falklands de 1982 é, ainda hoje, especialmente notável para os homens de Força Aérea. A batalha decisiva, que na ocasião selou o destino daquelas ilhas, foi travada em pleno espaço aéreo. De fato, a guerra no solo foi tão somente um ato complementar. Se a Marinha Inglesa não tivesse sido capaz de neutralizar os ataques aéreos argentinos e de proteger a sua própria Esquadra, o desembarque de tropas inglesas nas Malvinas/Falklands teria sido impossível. Sem o controle do espaço aéreo, os argentinos, inevitavelmente, iriam ter suas tropas (que dependiam do transporte aéreo entre o continente e as ilhas) isoladas e obrigadas a se render.

Esta guerra colocou frente a frente duas forças aéreas, modernas e competentes, e duas forças aeronavais sendo empregadas uma contra a outra. Realmente, na ocasião, a Força Aérea Argentina era considerada a melhor, dentre as demais, na América do Sul. Era a primeira guerra da Argentina após mais de um século de paz e seria a sua grande oportunidade para que viesse a ser considerada, internacionalmente, uma importante potência militar. É notável que o maior peso dos combates, durante seis semanas da guerra, tenha recaído sobre suas unidades aéreas, as quais infligiram sérios danos e perdas às forças britânicas, muito embora, em terra, as baixas inglesas tivessem sido bem inferiores ao enfrentar as tropas argentinas, muito mais numerosas.

Este artigo tecerá considerações sobre o desempenho e a eficiência tática e operacional das unidades aéreas argentinas durante o conflito. Diversos aspectos serão abordados, incluindo os efeitos que as decisões estratégicas da Junta Argentina causaram nas operações aéreas, os problemas de comando no nível operacional e, ainda, como o treinamento, os equipamentos empregados e a forma de organização adotada influenciaram na condução das operações de combate.



Primeira fase: a Argentina  ocupa as ilhas Malvinas/ Falklands.  A Força Aérea Argentina entra em prontidão  para a guerra. Período: 2 a 30 de abril de 1982

O ato de enviar uma força militar para ocupar as ilhas Malvinas/Falklands, no dia 1º de abril de 1982, foi decorrente, aparentemente, de uma decisão intempestiva tomada pela Junta Militar que governava o país. As Malvinas/Falklands haviam se tornado um problema sensível desde 1830, quando a Inglaterra ocupou-as de uma forma evidentemente ilegal.

Negociações entre os dois países estavam em curso, contudo a Junta temia que os ingleses enviassem forças militares para as ilhas depois da ocorrência de um incidente com um barco pesqueiro argentino nas, também disputadas, ilhas Geórgia do Sul. Antevendo a oportunidade de agir antes que os ingleses enviassem suas forças, em março de 1982 a Junta Argentina determinou a invasão e a ocupação das ilhas.

A 1º de abril, uma tropa argentina composta por 500 homens desembarcou e rapidamente capturou os 84 militares da guarnição de Fuzileiros Navais (Royal Marines) destacados em Port Stanley, passando a ser denominado Puerto Argentino pelos invasores. Naquela ocasião, a Junta esperava abrir negociações que permitissem aos ingleses uma oportunidade para que a soberania das ilhas voltasse a ser transferida para a Argentina. As Malvinas/Falklands resumiam-se, em termos de habitantes, a uma pequena colônia com uma população aproximada de duas mil pessoas, composta por simples e rudes pastores de ovelhas e suas famílias. 

Na realidade, o domínio das ilhas representava um interesse de caráter estratégico para a Inglaterra, muito embora a manutenção de sua colônia acarretasse um peso a mais na carga tributária do contribuinte inglês. Mesmo assim, para surpresa da Junta, a Grã-Bretanha respondeu com um ultimato para que a Argentina se retirasse imediatamente das ilhas, em tom de uma clara ameaça de guerra. Quando a Argentina rejeitou as exigências da Primeira-Ministra Margareth Thatcher, o governo britânico anunciou que as ilhas seriam retomadas à força e iniciou uma mobilização, em grande escala, para organizar uma força-tarefa naval e uma força terrestre com a missão de invadi-las.

O Governo Argentino, embora dirigido por militares profissionais, acreditava que a ocupação das Malvinas/Falklands seria interpretada, pela Inglaterra, apenas como um fato político, ou mesmo, como um recurso diplomático de última instância, e nunca como um ato de guerra. Em verdade, a Junta estava tão certa de que a Inglaterra aceitaria o evento como um assunto encerrado, que nenhum plano a priori foi elaborado e que nenhuma medida especial foi tomada com o propósito de defender as ilhas e de repelir um possível ataque de uma força-tarefa britânica.

Assim, diante do fato de que uma poderosa força-tarefa estava sendo mobilizada pelos ingleses, devendo chegar às Malvinas/ Falklands em três ou quatro semanas, as Forças Armadas Argentinas viram-se obrigadas a alinhavar uma força improvisada e criar um plano de emergência para defender as ilhas. Seria, em verdade, uma guerra sem preparo antecipado, para a qual os combatentes seriam chamados por uma convocação do tipo “apresente-se como estiver”.




Organização do Comando

Diante de uma guerra iminente, a Junta estabeleceu uma complicada estrutura de comando para dirigir as operações de combate. Foi criado um Comando do Teatro de Operações do Atlântico Sul (TOAS), confiado ao Vice-Almirante Juan Lombardo, sob o qual foram subordinadas as guarnições militares nas Malvinas/Falklands e as unidades navais da Marinha Argentina. As unidades do Exército, da Força Aérea e da Marinha, que foram desdobradas para as Malvinas/ Falklands (cerca de 10.000 homens no final de abril), passaram ao comando do General-de-Brigada Mario Benjamin Menendez. 

No dia 5 de abril, o Quartel-General de Operações da Força Aérea (que pertencia ao Comando Aéreo Estratégico do TOAS) criou uma força especial denominada Fuerza Aérea Sur (FAS) a ser comandada pelo Brigadeiro (da Força Aérea) Ernesto Horacio Crespo, a quem foi confiada a nata das forças de ataque aéreo argentinas com a principal missão de atacar a Esquadra Britânica. O Brigadeiro Crespo, até então Comandante da 4ª Brigada Aérea, possuía uma elevada experiência, tanto como piloto quanto como comandante. A FAS foi subordinada diretamente à Junta Militar, fora da cadeia de comando do TOAS, embora fosse prevista uma coordenação de esforços com os demais comandos, o que não vinha a ser, necessariamente, uma estrutura de comando eficaz para conduzir tanto a estratégia de emprego quanto as próprias operações em si.



A Força Aérea Argentina e a Força Aeronaval da Marinha Argentina

Os argentinos possuíam, considerando-se os padrões de potência de nível intermediário, uma força aérea grande, relativamente moderna e eficiente. A Fuerza Aérea Argentina (FAA) era dotada de alguns aviões de primeira linha em âmbito mundial, incluindo os interceptadores Mirage III. A Força Aeronaval da Marinha (FAM) encontrava-se em processo de aquisição, da França, de um esquadrão de caças Super Étendard. 

Na década anterior, a FAA havia adquirido o Mirage 5, fabricado por Israel (denominado Dagger), um avião supersônico mach 2, eficiente tanto nas missões ar-ar, quanto nas missões de ataque a alvos de superfície.

A principal aeronave de ataque da FAA e da Marinha Argentina era o A-4 Skyhawk (somando algumas dezenas), adquiridos como excedentes de inventário da Marinha Americana. Os A-4 eram antigos (construídos na década de 60), mas ainda em bom estado de conservação e em boas condições operacionais. Em 1982 eles ainda eram empregados por muitas forças aéreas no mundo. Naquela época, as unidades aéreas dos Fuzileiros Navais Americanos (USMC) ainda os possuíam em seus inventários, sendo muito apreciados por sua agilidade, resistência e precisão nas missões de bombardeio picado.

É importante realçar que a FAA, diferentemente da Royal Air Force (RAF) e da Força Aeronaval Britânica, não possuía bombas de precisão com sistemas de autodireção (“precision-guided bombs”). Todas as bombas empregadas pelos argentinos eram do tipo convencional (“dumb bombs”), que dependiam, essencialmente, da habilidade do piloto, no momento do lançamento, para atingir o respectivo alvo.

A FAA possuía, ainda, 8 velhos bombardeiros Canberra, uma pequena força de transporte e vários esquadrões de IA-58 Pucará. O Pucará era o orgulho da indústria aeronáutica argentina, projetado e fabricado no país. Era um avião de ataque leve, bimotor turbohélice, para ser empregado em missões contra insurgentes. Era capaz de receber um canhão de 30mm e diversos tipos de bombas. Vagaroso mas robusto, possuía a vantagem de operar em pistas curtas e não preparadas. 

A Força Aeronaval da Marinha (FAM) contava com alguns jatos de treinamento Aeromacchi 339, que poderiam receber a configuração de caça leve de ataque a alvos na superfície. Tanto a FAA quanto a FAM possuíam, em suas bases, uma boa infra-estrutura de manutenção de aeronaves, contando também com pilotos muito bem treinados.

No papel, a FAA parecia formidável. Contudo, possuir uma força aérea moderna, atualmente, significa tomar uma decisão que envolve gastos e recursos extremamente elevados. Assim, os países menores, por limitações econômicas, procuram dimensionar o tamanho de suas forças em função das prováveis ameaças. No caso particular da Argentina, o provável inimigo, na ocasião, seria seu antigo rival, o Chile (que também possuía uma força aérea moderna e respeitável). 




Estas duas nações disputavam a posse do Canal de Beagle, no extremo sul do continente, e por várias vezes estiveram na iminência de uma guerra. Em 1978, o aumento das tensões levou a Argentina a entrar em pleno estado de alerta militar. Por décadas, a FAA vinha preparando-se para uma guerra contra o Chile, na qual, a maioria das missões consistiria em vôos de pequeno alcance, partindo de bases próximas à longa linha de fronteira entre os dois países. Assim, suas unidades de ataque estavam treinadas para prestar apoio aéreo aproximado às tropas que estariam lutando no solo.

A FAA nunca havia imaginado a possibilidade de se engajar em um conflito aeronaval no qual tivesse que combater o inimigo a distâncias tão grandes de suas bases aéreas, e mais, que este inimigo viesse a ser uma potência da OTAN, dona de meios e de uma tecnologia muito superior. A FAA contava apenas com duas aeronaves de reabastecimento em vôo (KC-130 Hércules) para apoiar a própria FAA e também a FAM. Enquanto os A-4 Skyhawk eram equipados com sistema de reabastecimento em vôo, os Mirage III e os Dagger não possuíam esta capacidade, limitando-os drasticamente nas missões de ataque a alvos de superfície e em missões de cobertura. Outro problema era a falta de reconhecimento a longa distância. As únicas aeronaves capazes de cumprir esta missão eram dois velhos P-2 Netuno, com motores a hélice, da FAM.

A FAA encontrava-se, também, muito atrasada em certas áreas fundamentais como, por exemplo, sistemas de navegação. Havia a previsão de que os A-4 recebessem o Sistema Ômega 8, de navegação a longa distância, mas, em abril de 1982, somente um terço da frota havia sido modificada. 

A maior deficiência na Força Aérea, entretanto, recaía em seus armamentos. A sua principal arma para o combate ar-ar era o míssil francês Matra-530 de autodireção infravermelha. Para a época, era ainda bem adequado, possuindo um alcance de 6 milhas.Entretanto, sendo ainda um míssil ar-ar de primeira geração, ele possuía um estreito campo de “visão” (de 30 a 40 graus) e o seu sensor infravermelho, por limitação de capacidade (em termos de campo de visão e de sensibilidade), só conseguia “adquirir e locar-se” em um alvo designado se o caça que o levava se aproximasse diretamente por trás do inimigo. 

Já os caças Harrier da Marinha Inglesa e da RAF, que a FAA teria de enfrentar, eram armados, cada qual, com 4 mísseis americanos AIM-9L Sidewinder, infravermelhos, de uma inteira geração acima dos Matra, possuindo um largo campo de “visão” (de 90 a 120 graus) e dotados de um sensor (infravermelho) de calor muito mais sensível, que permitia “locar-se” até em uma fonte de calor gerada pela fricção do ar com a superfície frontal do avião inimigo em vôo. Em resumo, o piloto do Harrier não precisaria estar diretamente atrás do oponente para executar um lançamento mortal, podendo até mesmo obter sucesso lançando o Sidewinder numa situação de combate face a face com o inimigo.

O Brigadeiro Crespo começou, imediatamente, a organizar e a preparar sua força de ataque. Com poucas semanas disponíveis ele passou a treiná-la incansavelmente. A Marinha Argentina colocou à disposição da FAA, para treinamento dos Dagger e A-4, um destróier moderno, da Classe 42, com um sistema atual de mísseis contra alvos aéreos e um sistema de radares similares aos usados pelos navios da Marinha Inglesa. Os Skyhawk e Dagger simulavam corridas de bombardeio contra o destróier, enquanto este simulava uma defesa com mísseis e executava manobras evasivas. Os resultados não foram animadores. A Marinha estimou que os pilotos da FAA teriam uma probabilidade de 50% de serem abatidos nos ataques aos navios britânicos.

Ainda durante os treinamentos, a Fuerza Aérea Sur (FAS) desdobrou seus aviões para quatro bases aéreas, das quais eles podiam atacar o inimigo próximo às ilhas Malvinas/ Falklands. Eram elas, de sul para norte, com respectivas aeronaves:


Río Grande
–– 437 milhas náuticas (nm) de Port Stanley-: 10 Dagger (6º Gp de Caça) – 4 Super Étendard (2º Esqd de Caça da Marinha) / 8 A-4Q Skyhawk (3º Esqd. de Caça da Marinha).

Río Gallegos –– 500 nm de Port Stanley-: 24 A-4B (5º Gp de Caça) / 10 Mirage III (8º Gp de Caça)
San Julian–– 10 Dagger (6º Gp de Caça) / 15 A-4C (4º Gp de Caça)
Comodoro Rivadavia –– 500 nm de Port Stanley-: 1 Dest de Mirage III do 8º Gp de Caça / 20 Pucará (4º Gp de Ataque).
Base Aeronaval de Trelew–– 8 Canberra (2º Gp de Bombardeiros) que podiam alcançar as Malvinas/ Falklands.


Ao todo, a FAS possuía aproximadamente 110 aeronaves de combate baseadas no continente, incluindo os Pucará, além de mais 12 aeronaves de ataque da Força Aeronaval.

Durante a campanha, a Junta tomou decisões estratégicas e operacionais sobre a defesa das ilhas sem consultar os Comandantes das Forças Armadas ou, aparentemente, sem realizar um sério Exame de Situação. À época da invasão, ficou bem claro que os ingleses iriam entrar em combate e, em conseqüência, a Junta começou a reforçar as guarnições militares nas Malvinas/ Falklands. 

No dia 9 de abril, o Presidente e Comandante do Exército, General Leopoldo Galtieri, sem qualquer consulta aos Estados-Maiores das Forças Armadas ou aos oficiais responsáveis pela defesa das ilhas, determinou que toda a 10ª Brigada Mecanizada fosse para lá desdobrada. No dia 22 de abril, após visitar as Malvinas/Falklands, Galtieri ordenou que a 3ª Brigada do Exército fosse também desdobrada. 

No final de abril, cerca de 10.000 militares argentinos estavam distribuídos pelas ilhas, estando o grosso da força (7.000 homens) concentrado em seu lado leste (chamada de Soledad, pelos argentinos), nas vizinhanças de Port Stanley. O reforço da ilha tornara-se um problema complicado, diante do bloqueio naval imposto pela Grã Bretanha, empregando 3 submarinos nucleares de ataque da Marinha Inglesa, desdobrados para o Atlântico Sul. A Argentina não mais ousaria enviar, por mar, nenhum tipo de reforço ou de suprimento diante de tal ameaça. Assim, desde o início, as forças argentinas nas ilhas tornaram-se dependentes do transporte aéreo prestado pela FAA.

Com relação a este aspecto, o primeiro problema recaía no comprimento da pista de pouso do aeródromo de Port Stanley, a única, nas ilhas, que possuía um piso com compactação adequada. Ela era relativamente curta (1.350 metros), própria para aviões turbohélice de transporte civil e para aeronaves como o C-130 Hércules, com capacidade para pouso em pistas curtas. De qualquer forma, nenhum jato civil de grande porte ou aeronave militar de alta performance, poderia operar de Port Stanley. Assim, todo o esforço argentino, relativo a ressuprimento logístico ou a qualquer outro tipo de reforço ou evacuação, passou a depender de uma única e pequena pista.

A FAA possuía uma pequena força de transporte composta por 7 C-130 e uns poucos Fokker F-27, bimotores de transporte leve. Cada aeronave, de companhia aérea nacional, que fosse capaz de pousar em Port Stanley, foi requisitada para transportar as tropas e os equipamentos que o Gen Galtieri havia, irrefletidamente, decidido enviar para as ilhas. A força de transporte da FAA, dentro de suas limitações, atuou extremamente bem.

O esforço de transporte da FAA em apoio às forças nas ilhas permaneceu até o último dia da campanha. Entretanto, uma pequena força de transporte, limitada por uma única e curta pista de pouso, restringiu drasticamente as forças que poderiam ter sido levadas para as ilhas. A 10ª Brigada Mecanizada foi enviada para as Malvinas/Falklands sem o seu grupo de artilharia e sem as suas viaturas. Em verdade, todas as unidades do Exército desdobradas (após a invasão, todas foram transportadas por aviões) puderam levar, tão somente, armas e veículos leves. A maioria dos equipamentos foram deixados para trás, em suas bases de origem.

Meios aéreos consideráveis foram também desdobrados para as Malvinas/Falklands e colocados sob o comando do Gen Menendez, e não sob o comando da FAS. Deles constavam 19 helicópteros, das 3 Forças Armadas, a maioria para cumprir missões de reconhecimento e de transporte de tropas; 24 Pucará do 3º Grupo de Ataque, levados em abril; 6 aviões de ataque leve, Aeromachi 339, e 6 T-34B Mentor. O Aeromachi, por ser a reação, foi colocado em Port Stanley, único aeródromo a possuir uma pista pavimentada. Os Pucará, construídos para operar em campos não preparados, foram, em sua maioria, enviados para uma pequena pista de grama em Goose Green –– um lugar sem recursos, que se transformava em pântano após qualquer chuva. Alguns Pucará, usados para transporte leve, e 6 T-34, foram colocados na ilha Pebble, em uma pista pequena, suja e de operação cuidadosa.

Segunda fase: o início dos  combates. Período: 1º a 20 de maio de 1982



Operações Aéreas: o primeiro dia

Os primeiros disparos da guerra ocorreram a 1º de maio. O primeiro escalão da força de invasão britânica chegou às águas das Malvinas/ Falklands, posicionando-se a, aproximadamente, 70 milhas a leste de Port Stanley. A Força-Tarefa Britânica (British Task Force –– BTF), sob o comando do Almirante John Woodward, era composta por dois navios-aeródromos leves (NAeL) denominados HMS Hermes e HMS Invincible, cerca de 20 destróiers e fragatas e, ainda, navios de transporte de tropas e de apoio, tendo a bordo uma brigada de infantaria completamente equipada. Cada NAeL transportava aviões Harrier e helicópteros. 

Ao todo, o primeiro escalão da BTF era composto por 65 navios protegidos por um conjunto de modernos radares e sistemas de mísseis antiaéreos, incluindo o novo Sea Dart (eficiente para longo alcance e elevada altitude), o Sea Wolf (contra ameaças a baixa altitude) e um conjunto de artilharia de cano, de 20 e 40 mm, para defesa a curta distância. 

Contudo, a principal arma britânica, tanto de ataque quanto de defesa, durante a maior parte da campanha, consistiu na força de 21 aeronaves Harrier. A pequena força de caças Harrier da Real Marinha Inglesa, que equipavam a BTF, seria em breve reforçada com 14 Harrier da Royal Air Force (RAF), que chegariam transportados por dois grandes navios cargueiros, o Atlantic Conveyor e o Atlantic Causeway, em cada qual havia sido instalado um convés de vôo para operações de decolagens e pousos verticais. Mais tarde, 4 Harrier voaram direto da Ilha Ascensão até a Esquadra, realizando vários reabastecimentos em vôo, sendo este o último reforço recebido na campanha. O Harrier era um avião bem mais moderno do que qualquer outro voado pela FAA e, embora possuísse um curto raio de ação, ele era capaz de sobrevoar a Esquadra por 40 a 60 minutos, realizando missões de Patrulha Aérea de Combate (PAC), o que representava uma significativa vantagem sobre os aviões de ataque argentinos que dispunham, na melhor situação, de poucos minutos para identificar os alvos e combater o inimigo.




Durante o dia, a Marinha Britânica procurava manter uma PAC de 2 Harrier sobre a Esquadra, equipados com os letais AIM9-L. Porém, o pequeno número de Harrier disponíveis dificultava a missão de defender a Esquadra. Enquanto isto, os argentinos torciam por coincidir o momento em que seus aviões atacavam os navios, com o momento em que os Harrier executavam missões diversionárias ou se encontravam pousados nos decks para reabastecimento.

Voltando aos acontecimentos de 1º de maio, os combates tiveram início quando um bombardeiro Vulcan de longo alcance decolou da Ilha Ascensão, a milhares de milhas distante e, antes da alvorada, bombardeou o aeródromo de Port Stanley, abrindo crateras na pista e danificando algumas instalações de apoio. Pouco tempo depois, após as 8 horas da manhã, 10 aviões Harrier, empregando bombas e canhões, atacaram os aeródromos de Goose Green e de Port Stanley, em bombardeio a baixa altitude. Uma bomba atingiu um Pucará no solo, matando o piloto e a equipe de pista que o apoiava. Dois outros mais, pelo menos, foram também danificados e ambos os aeroportos foram moderadamente atingidos. 

A artilharia antiaérea argentina (AAA) foi intensa e as tropas animaram-se com as declarações de que, no mínimo, 4 Harrier (que haviam atacado Port Stanley), teriam sido atingidos e caído no mar. Na realidade, apenas um deles fora atingido, sem gravidade, por um projetil de 20 mm, havendo sido reparado em aproximadamente duas horas após o pouso. O bombardeio a Port Stanley foi reforçado por 3 navios de guerra que, posicionados a 6 milhas da costa, atiraram com seus canhões nas instalações do aeródromo.

A Fuerza Aérea Sur (FAS), ciente da Esquadra Britânica em águas das Malvinas/ Falklands, passou a enviar sucessivas formações de aviões de ataque, protegidos por interceptadores, para atacar os navios ingleses. A FAS possuía limitações que lhe negavam a opção de lançar uma grande força de ataque, que lhe permitisse usar a vantagem numérica de aeronaves, para sobrepujar as defesas inglesas. Para levar uma tonelada de bombas (4 bombas de 500 kg ou 2 bombas de 1000 kg) a 600 milhas, o A-4 Skyhawk necessitava ser reabastecido em vôo. Com apenas dois aviões tanques disponíveis para apoiar todas as forças, a FAS ficou restrita a enviar pequenas formações por vez, usualmente uma esquadrilha de 4 aviões. Cada missão deveria ser cuidadosamente planejada e programada para realizar, com precisão, o indispensável rendezvous.




Embora os Skyhawk e os 4 Super Étendard da Marinha fossem dotados de sistemas de reabastecimento em vôo, os Dagger e os Mirage não possuíam esta capacidade. Mesmo equipados com dois tanques alijáveis, de 1700 litros, tanto um quanto o outro, estavam sendo empregados no limite absoluto de seus raios de ação. Os caças enviados para dar combate às PAC de Harrier e dar cobertura aos aviões de ataque dispunham de não mais do que cinco minutos sobre o objetivo (enquanto isto, os Harrier podiam permanecer na área, por aproximadamente uma hora de vôo, e serem reabastecidos pelos navios da Esquadra próxima). 

Para os argentinos, o fator alcance tornou-se ainda mais complicado pela tática inglesa de manter sua Esquadra de 70 a 100 milhas a leste ou a nordeste das ilhas. Isto significava um aumento de 150 a 200 milhas na distância a ser voada pelos aviões de ataque argentinos no trecho continente –– armada inglesa –– continente

Além disso, os Dagger e Mirage, aviões supersônicos (mach-2), ficaram impossibilitados de usar os seus sistemas de “pós-combustão” (PC) e tirar a enorme vantagem de velocidade que possuíam sobre os subsônicos Harrier (o elevado consumo de combustível no uso da PC restringiria a autonomia das aeronaves, não permitindo que, no regresso, alcançassem o continente).

No dia 1º de maio, quase todas as forças de ataque da FAS foram colocadas em ação. As duas primeiras esquadrilhas de caça voaram a média altitude, não encontraram a Força Britânica e tiveram que regressar. No meio da tarde, a terceira esquadrilha de 4 Mirage, enviada com a missão de dar combate aos Harrier, encontrou a sua presa. Um elemento de Harrier (dois aviões) que voavam PAC evoluíram enganando os Mirage e rapidamente abateram dois deles, empregando os mísseis Sidewinder. Um terceiro Mirage gastou mais combustível do que deveria e tentou um pouso de emergência na pista de Port Stanley. A AAA confundiu o próprio avião com o inimigo e o abateu, matando o piloto.

Os três navios de guerra (1 destróier e 2 fragatas) que estavam bombardeando Port Stanley foram atacados por uma esquadrilha de Dagger com bombas e canhões, resultando em pequenos danos em um dos navios. Entretanto, os exultantes pilotos argentinos relataram que um navio havia sido seriamente danificado e que dois outros haviam sofrido danos em diferentes graus.




Ao final da tarde, uma esquadrilha de bombardeiros Canberra, decolados da Base Aérea de Trelew, tentaram atacar os mesmos navios que bombardeavam Port Stanley. Eles se aproximaram, voando a média altitude, foram detectados pelo radar inglês e interceptados pela PAC de Harrier. Quando os velhos e vagarosos Canberra faziam meia volta e fugiam, um deles foi abatido por um Sidewinder e o outro, mesmo seriamente danificado por um míssil Sea Dart, conseguiu retornar à sua base.

O primeiro dia de batalha marcou o ritmo das ações que iriam persistir durante a campanha. Os argentinos afirmaram terem sido vitoriosos no dia por haverem danificado 3 navios e abatido, pelo menos, 5 Harrier. Alegaram também haver rechaçado uma tentativa de desembarque inglês, quando vários helicópteros da Marinha Real voaram em direção à ilha leste e, antes de alcançarem a costa, fizeram 180 graus e regressaram à Esquadra. Encorajada pelo aparente sucesso, apesar de haver perdido 5 aviões e sofrido outros danos, a FAS preparava-se para realizar novos ataques.

Em termos práticos, o dia havia sido muito bom para os ingleses. A Força-Tarefa não havia perdido nenhuma aeronave e apenas sofrido pequenas avarias em um único navio. A “força de invasão helitransportada”, que havia sido rechaçada, era, na verdade, um grupo de helicópteros anti-submarino, buscando localizar possíveis submarinos argentinos nas águas das ilhas.

Durante toda a campanha, os argentinos lutaram amplamente no escuro, ou seja, a FAS não possuía meios para processar uma avaliação de danos confiável resultante de seus ataques e dependia, basicamente, dos relatórios notoriamente imprecisos emitidos por seus pilotos e operadores da artilharia antiaérea que superestimavam consistentemente os próprios resultados, tanto da defesa antiaérea quanto dos ataques aéreos. Por outro lado, os Harrier podiam realizar, com plena liberdade, o reconhecimento foto das forças argentinas desdobradas nas ilhas. Pode-se imaginar, também, que os Estados Unidos forneciam, aos seus aliados ingleses, fotografias das bases argentinas no continente, tiradas por satélites, permitindo aos ingleses contar e identificar as aeronaves inimigas ainda no solo.

Um dos problemas mais sérios para a FAS, durante toda a campanha, consistiu na falta de meios para o reconhecimento a longa distância. A menos que a Armada Britânica se deixasse notar, navegando próxima à costa para ataques a alvos em terra, os argentinos possuíam muito poucos recursos para localizar os navios inimigos. Os meios disponíveis pela FAS para reconhecimento a longa distância consistiam em dois velhos aviões P-2 Netuno, cujo radar podia detectar navios a uma distância superior a 50 milhas. 

Outro importante meio de inteligência dos argentinos consistia em um moderno radar Westinghouse AN/TPS-43F e um radar de vigilância tática Cardion AN/TPS-44, instalados em Port Stanley e operados por equipes da FAA. O radar Westinghouse era um verdadeiro estado da arte, com um longo alcance que lhe permitia “ver” além do horizonte. Os competentes operadores deste radar, freqüentemente, conseguiam identificar a PAC de Harrier até a 40 milhas de distância e, plotando seus padrões de vôo, eram capazes de determinar, aproximadamente, a localização da Armada e dos navios-aeródromos ingleses.

De qualquer forma, a ausência de meios de reconhecimento somada ao freqüente mau tempo reinante no Atlântico Sul no final do outono, fizeram com que, durante a campanha, pelo menos um terço das aeronaves argentinas, enviadas para atacar os ingleses, tivessem retornado às suas bases sem realizar qualquer contato com os navios inimigos.

O ponto mais fraco dos britânicos consistiu na falta de uma aeronave de Alarme Aéreo Antecipado (AEW), de longo alcance, que pudesse identificar aeronaves inimigas aproximando-se a baixa altura. Quando os argentinos voavam a meia ou alta altitude, como ocorreu no primeiro dia, eles demonstraram ser presas fáceis para os radares de bordo dos Harrier. Contudo, o radar do Harrier não era capaz de, facilmente, identificar as aeronaves inimigas voando a baixo nível. 

Durante o resto da campanha, a FAS passaria a explorar o ponto fraco dos ingleses, realizando aproximações a baixa altura (a nível de topo das ondas do mar) na realização dos ataques, tornando suas aeronaves difíceis de serem detectadas. Isto significava que os argentinos voariam em altitudes normais (de 20 a 30 mil pés) mar adentro e desceriam a nível das ondas (de 100 a 200 pés) para voar as últimas 100 milhas ao encontro do alvo. Estas foram algumas das mais estressantes e perigosas missões da história da guerra aérea.

O primeiro ataque com míssil Exocet 

Quando os argentinos desembarcaram nas Malvinas/Falklands, a Força Aeronaval Argentina estava ativando seu 2º Esquadrão, equipado com 14 Super Étendard, que era um caça leve de ataque, de fabricação francesa, desenvolvido nos anos 60 e que em breve deixaria de ser produzido.

O Étendard tornou-se importante por possuir uma configuração que lhe permitia transportar e empregar o míssil Exocet, que era, na ocasião, o estado da arte dos mísseis antinavio. O Exocet era de grande porte, guiado por radar, podendo ser lançado de uma longa distância, aproximadamente 30 milhas, transportando uma carga explosiva de 950 libras. Ele cruzava a uma velocidade que se aproximava de mach 1, a um nível muito baixo (quase no topo das ondas). Uma vez feita a aquisição do seu alvo, tornava-se muito difícil de ser abatido. Os resultados de seu impacto eram por demais devastadores. Sua capacidade de alcance tornava-o uma arma standoff ideal, permitindo que a aeronave de ataque não necessitasse aproximar-se da PAC inimiga. A melhor defesa contra o Exocet consistia no lançamento de uma grande quantidade de chaff (pequenas tiras de metal que criam uma falsa imagem no radar) sobre o mar e distante dos demais navios, gerando um alvo fictício.

Os pilotos do 2º Esquadrão foram treinados na França em 1980–81, e se encontravam plenamente qualificados na aeronave. Entretanto, quando o conflito das Malvinas/ Falklands começou, apenas 5 Super Étendard e 5 Exocet haviam chegado da França. As nações do Mercado Comum Europeu e da OTAN determinaram um imediato embargo ao fornecimento de armas para a Argentina. Em conseqüência, o envio das aeronaves e dos mísseis foram suspensos pela França. O governo argentino tentou desesperadamente, durante todo o conflito, conseguir mais mísseis Exocet no mercado mundial, sem que obtivesse sucesso. A Argentina teria que fazer a guerra com apenas 5 Étendard e 5 Exocet. Uma vez que o suprimento para os Étendard havia sido cortado pela OTAN, a FAA decidiu manter uma das 5 aeronaves como reserva, e usá-la como fonte de suprimento para as demais.

O Exocet era um armamento complicado que exigia muita atenção, a par de que os argentinos não possuíam prévia experiência com mísseis antinavios. Em novembro de 1981, a Dassault Aviation, construtora do Super Étendard, e uma corporação do Governo Francês enviaram uma equipe de 9 técnicos à Marinha Argentina que, com alguns especialistas da Aerospatiale, tinham por missão supervisionar a implantação dos Étendard e dos Exocet nas Forças Argentinas. Os argentinos tiveram muitos problemas na adaptação do sistema de lançamento do Exocet aos trilhos instalados sob os pilones do Super Étendard. 

Embora a França tivesse aderido ao embargo de armamentos imposto à Argentina pela OTAN e Mercado Comum, a equipe técnica francesa, que se encontrava na Argentina, não foi retirada. De fato, os técnicos franceses, aparentemente, continuaram a trabalhar nos Exocet, conseguindo reparar os problemas que existiam nos sistemas de lançamento. Sem a ajuda dos técnicos e a conivência do governo francês (“aliado” da OTAN/Inglaterra) teria sido improvável que a Argentina fosse capaz de empregar, contra as forças britânicas, o seu armamento de maior capacidade de destruição.

As ações dos dias 2 e 3 de maio 

No dia 2 de maio, a ação naval decisiva da guerra ocorreu quando o submarino nuclear HMS Conqueror afundou o cruzador argentino General Belgrano, fora das 200 milhas da zona de exclusão, declarada pela Grã-Bretanha, em torno das Malvinas/Falklands. O General Belgrano estava equipado com mísseis Exocet, e a possibilidade de realizar um ataque contra a Força-Tarefa britânica foi levada suficientemente a sério, a ponto de que decidissem torpedear o cruzador, causando uma significativa perda de vidas.

A partir deste evento, os argentinos deixaram de considerar qualquer tentativa de ataque, empregando meios navais, e mantiveram o seu navio-aeródromo em segurança no porto. Todas as esperanças de ressuprir as guarnições nas ilhas, por navios, foram descartadas, deixando-as totalmente dependentes do transporte aéreo.

No dia 2 de maio, as más condições atmosféricas não permitiram qualquer tipo de atividade. No dia 4, entretanto, um Netuno de reconhecimento identificou o que eles acreditaram ser o navio-aeródromo HMS Hermes, a leste de Port Stanley. Dois aviões Super Étendard, do 2º Esquadrão, cada qual armado com um Exocet, decolaram para um longo vôo. A uma razoável distância, os Étendard receberam um plot (um sinal na tela do radar), não do Hermes, mas do destróier HMS Sheffield (do tipo 42, equipado com o novo míssil antiaéreo Sea Dart ), posicionado bem à frente da Esquadra, para defesa avançada e ou alarme aéreo antecipado.

Os aviões lançaram os dois Exocet de uma boa distância (algumas fontes afirmam que foram disparados de 30 milhas, outras de 7 milhas). Logo após o lançamento, as duas aeronaves, prudentemente, se afastaram da cena a baixa altura. Um Exocet desviou-se, mas o outro atingiu o alvo e avariou o Sheffield, causando severas baixas. O Sheffield foi posteriormente abandonado e, seis dias depois, afundou quando era rebocado. Ironicamente, os argentinos não puderam avaliar, de imediato, o resultado deste ataque por falta de meios de reconhecimento. 

Entretanto, a política dos britânicos, de manter a sua imprensa e o público inglês informados sobre a perda de vidas que viessem a ocorrer durante a campanha, levou estas informações, indiretamente, ao conhecimento do inimigo. Assim, o Alto-Comando Argentino soube, dentro de poucas horas, através da mídia inglesa, que o Sheffield havia sido atingido por um Exocet. Se esta perda não houvesse sido publicamente anunciada, provavelmente os argentinos teriam concluído que seus Exocet continuavam, ainda, com os mesmos problemas técnicos apresentados, e poderiam ter decidido suspender o emprego daquele míssil em futuros ataques.

Amaciando as Malvinas/Falklands

Durante o período de 1º a 20 de maio, a FTB levou a termo uma sistemática campanha de bombardear as forças e as instalações argentinas nas ilhas. As aeronaves inglesas colocaram a pique duas pequenas embarcações, enquanto Port Stanley permanecia sob intenso bombardeio naval. Os aviões ingleses realizavam reconhecimento aéreo e os helicópteros infiltravam equipes de operações especiais (SAS) à retaguarda das linhas inimigas, para reconhecimento do terreno.

O primeiro Harrier perdido na campanha foi abatido pelo fogo da antiaérea argentina no dia 4 de maio, durante um ataque ao aeródromo de Goose Green. Ambos os lados sofreram perdas devido ao mau tempo. No dia 6 de maio, os ingleses perderam dois Harrier do HMS Invincible, que colidiram em pleno vôo por causa do nevoeiro na área. No dia 15, uma surpreendente e ousada incursão realizada por uma unidade SAS, em um pequeno campo de pouso na ilha Pebble, destruiu 6 Pucará, 6 T-34 Mentor e um avião de transporte Skyvan.

Sempre que as condições climáticas melhoravam, a FAS enviava suas esquadrilhas para atacar a Força-Tarefa. Neste ínterim, no dia 10 de maio, os meios de reconhecimento de longo alcance dos argentinos foram reduzidos a zero, quando os dois Netunos, usados para esta missão, ficaram indisponibilizados para reparos. Em conseqüência, a FAS passou a depender de que os navios ingleses se deixassem notar (navegando próximos às ilhas para bombardear alvos na costa), permitindo que suas posições fossem identificadas e se tornassem potenciais alvos para novos ataques argentinos.

Considerando que a defesa aérea britânica, constituída por mísseis e canhões antiaéreos (sem mencionar os Harrier), era portentosa, o Brigadeiro Crespo, Comandante da FAS, tentou usar uma variedade de táticas inusitadas para atingir a Esquadra Britânica. Após o insucesso dos ataques realizados a grande altitude, no dia 1º de maio, as missões contra os navios, que se seguiram, foram realizadas a uma altura extremamente baixa, com o propósito de esquivar os aviões incursores das Patrulhas Aéreas de Combate, realizadas pelos Harrier. Os ataques, em sua maioria, eram realizados ao final da tarde, quando as aeronaves argentinas, na aproximação final para o bombardeio, ficavam protegidas pela posição do sol em suas caudas, dificultando a visão das tripulações inglesas a bordo dos navios. 

Outra tática empregada pelo Brigadeiro Crespo, com algum sucesso, foi a criação de um esquadrão improvisado composto por aeronaves Learjet, militares e civis. O Esquadrão Fênix, como era chamado, tinha como sede a Base Aérea de Trelew, a mesma dos bombardeiros Canberra. Os Learjet, desarmados, voavam a grande altitude, geralmente em direção à Esquadra Britânica com o propósito de simular uma incursão de aviões Canberra. A uma distância segura da Armada Britânica, os Learjet faziam meia volta retornando à base. O Brigadeiro Crespo esperava, na melhor das hipóteses, que os Learjet desviassem a PAC inglesa em sua direção, enquanto os Skyhawk e Dagger penetravam a baixa altura em direção à Esquadra Inglesa.




Na pior das hipóteses, o Esquadrão Fênix obrigaria os ingleses a, constantemente, manter e decolar em alerta os seus caças Harrier, aumentando o esforço aéreo e, em conseqüência, a tensão e a fadiga de seus pilotos.

No dia 12 de maio, 12 Skyhawk da FAS atacaram o HMS Glasgow e o HMS Brilliant no momento em que eles bombardeavam Port Stanley. Dois deles foram abatidos por mísseis Sea Wolf, disparados pelo Brilliant, e um terceiro colidiu com o mar quando executava manobras evasivas. Outro deles lançou uma bomba de 1.000 libras que se alojou a bordo do Glasgow. Felizmente para os ingleses, a bomba não explodiu, mas o navio ficou seriamente avariado e, em conseqüência dos danos, foi retirado do Teatro de Operações.

Muitas das bombas lançadas pelos argentinos durante a guerra não explodiram ao atingirem os navios ingleses, provavelmente por terem sido lançadas de um nível tão baixo e de distância tão próxima que, diminuindo consideravelmente o tempo entre o lançamento e o impacto, não permitiam que as respectivas espoletas fossem aerodinamicamente armadas.

No dia 18 de maio, o segundo escalão da Força de Invasão chegou ao Teatro de Operações, reforçando a Armada Britânica com mais navios; com a 2ª Brigada de Infantaria; e com mais 14 Harrier da RAF, transportados a bordo do Atlantic Conveyor. Mesmo com as baixas sofridas, os ingleses possuíam, naquela data, mais de 30 Harrier disponíveis para a proteção da Esquadra, para ataques a alvos na superfície e para prestar apoio ao planejado desembarque da força terrestre na ilha leste.

Terceira fase: o desembarque na Baía de São Carlos. Período: 21 a 26 de maio de 1982

Os ingleses escolheram, para desembarque, uma enseada chamada Baía de São Carlos, localizada no extremo oposto a Port Stanley, na ilha Falkland Leste. Ela foi escolhida por causa de suas ribanceiras e das altas colinas que a cercavam, podendo esconder os navios de desembarque dos radares dos mísseis Exocet. Em verdade, o Exocet era o único sistema de armas que os britânicos realmente temiam e a possibilidade de seu emprego orientou a integral conduta das operações britânicas.

Na manhã do dia 21 de maio, os ingleses bombardearam, intensamente, com ataques aéreos, os aeródromos e as instalações em poder dos argentinos. Nesta ocasião, a artilharia antiaérea abateu um avião Harrier e dois helicópteros Gazelle da Marinha Britânica. Os argentinos, já a par do desembarque inglês, empregavam todo o esforço aéreo da FAS (aproximadamente 75 aeronaves) para atacar os navios durante o dia. Voando em esquadrilhas de 4 aeronaves, os Skyhawk e Dagger, ao chegarem a 100 milhas de distância, aproximando-se em direção à Baía de São Carlos, desciam para uma altura de 100 pés acima do nível do mar. Embora as colinas protegessem os navios ingleses dos radares dos mísseis Exocet, elas protegiam, também, até o último momento, os aviões argentinos dos radares ingleses. 

Os Dagger e Skyhawk aproximavam-se em vôo rasante sobre o mar e, bem próximos, por trás das colinas, executavam o seu pop up, subindo e surgindo por sobre as elevações do terreno já alinhados e em vôo direto, numa curta e rápida corrida final para bombardear os navios ingleses. Embora os britânicos possuíssem dezenas de mísseis de defesa antiaérea (Sea Wolf, Sea Dart, Sea Slug, Sea Cat e o Rapier montado em terra), bem como uma grande quantidade de metralhadoras e canhões antiaéreos para a defesa de seus navios, o curto espaço de tempo em que os caças atacantes permaneciam expostos fazia com que as defesas inglesas dispusessem de não mais do que 20 a 30 segundos para plotar, locar e lançar seus armamentos para abater a aeronave inimiga, antes que ela lançasse suas bombas no alvo e curvasse em direção à sua proa de regresso. Estes poucos segundos disponíveis reduziram muito a eficiência do sistema de defesa britânico.

Este havia sido mesmo um terrível dia de combate: A fragata HMS Ardent foi danificada durante um primeiro ataque e, no final do dia, submergiu em conseqüência de um segundo ataque. Outros 4 navios foram atingidos pelas bombas argentinas, algumas das quais, milagrosamente, não explodiram (foram danificados: seriamente –– HMS Antrim; moderadamente –– HMS Brilliant, Argonaut Broadsword). Neste dia 21 de maio, os argentinos pagaram um alto preço por seu êxito moderado. Os ingleses abateram 9 aviões de caça da Força Aérea Argentina (5 Dagger e 4 Skyhawk). As unidades aéreas baseadas nas ilhas perderam 2 Pucará e 2 helicópteros. 

Com a continuação do desembarque britânico, a FAS planejou novos ataques. No dia 23 de maio, a fragata HMS Antelope foi afundada pelas bombas de aeronaves Skyhawk decoladas de Rio Gallegos. No dia 24, quatro Dagger engajaram-se com dois Harrier, resultando na destruição de 3 deles, abatidos por mísseis Sidewinder. No mesmo dia, um outro Dagger foi perdido. Os navios de desembarque Sir Galahad e Sir Lancelot foram danificados por bombas que não explodiram e o Sir Bedivere atingido e levemente danificado.

No dia 25 de maio, data da Independência Argentina (o mais importante feriado nacional), um grande esforço de combate foi planejado pela FAS. Um segundo ataque foi preparado pelo 2º Esquadrão e realizado às 16:30, tendo como alvo o navio-aeródromo HMS Invincible, localizado ao norte do local de desembarque nas ilhas. Como acontecido anteriormente, um Exocet lançado foi perdido, possivelmente abatido por fogo antiaéreo. O radar do segundo Exocet estava inicialmente direcionado para o Invincible mas foi desviado por uma grande quantidade de chaff lançada, e o seu radar passou a locar-se em um plot refletido pelo navio de transporte de carga Atlantic Conveyor (que não estava protegido por chaff). 




Atlantic Conveyor foi atingido, imobilizado e, em conseqüência, vindo mais tarde a afundar. O ataque a este navio causou 12 mortes e a perda de 10 helicópteros, que se encontravam a bordo. A destruição dos helicópteros, dentre os quais se encontrava um Chinook para transporte pesado, veio a dificultar bastante o apoio logístico necessário ao Exército em suas operações nas ilhas por possuírem poucas estradas e um terreno pantanoso. Torna-se oportuno ressaltar que o ressuprimento de suas tropas dependia essencialmente do transporte realizado por helicópteros.

Ainda neste dia, a FAS perdeu 3 aeronaves na tentativa de atingir a Armada Britânica e, à tarde, os Skyhawk lançaram 3 bombas no destróier HMS Coventry, que afundou em 30 minutos. O dia 25 de maio de 1982 fora o pior dia para os ingleses durante toda a campanha. Contudo, a esta altura, as duas brigadas da força terrestre (em sua maior parte) já se encontravam em terra, com seus equipamentos e suprimentos, prontas para montar a ofensiva final contra as forças argentinas.

Quarta fase. Período: 26 de maio a 14 de junho de 1982

No dia 26 de maio as forças britânicas estavam baseadas em terra firme na área da Baía de São Carlos e prontas para avançar sobre as posições do Exército Argentino. Nesta altura da campanha, havia muito pouco a ser feito pela Força Aérea Argentina para evitar a vitória dos ingleses. Mesmo que a FAS tivesse retirado de combate um dos navios-aeródromos, os ingleses poderiam ter (e de fato o fizeram) operado seus aviões Harrier, de decolagem vertical, de pistas não preparadas localizadas nas próprias ilhas. 

O General Menendez havia disposto suas forças ao longo de uma longa linha de defesa, ocupando posições nos pontos mais altos do terreno, de lado a lado, no extremo leste da ilha com o propósito de defender Port Stanley. Nenhum dos postos de defesa, tanto dos grupos quanto dos regimentos, foram dispostos em posições que pudessem prestar um apoio de defesa mútua. 

Embora as unidades de transporte aéreo da Força Aérea Argentina tivessem sido bastante eficazes ao levar 10.000 soldados para guarnecer as Malvinas/Falklands, elas haviam sido usadas para transportar apenas um pequeno número de veículos e de armas pesadas. As forças nas ilhas, sob o comando do General Menendez, possuíam somente 10 viaturas blindadas leves e um total de 159 veículos de todos os tipos. A maioria das peças de artilharia havia sido deixada para trás, no continente, e as tropas contavam com uma reserva muito baixa de munições. No dia 28 de maio, as duas brigadas britânicas, muito bem armadas, iniciaram sua ofensiva, cercando e isolando a guarnição argentina que se encontrava em Darwin, obrigando-a a se render. Daí por diante, os ingleses, metodicamente, tomaram posição após posição, passando por cima do Exército Argentino até que, no dia 8 de junho, as últimas forças foram encurraladas em um perímetro em torno de Port Stanley.

Embora os acontecimentos tivessem sido bastante ruins para as forças argentinas e as suas unidades aéreas tivessem sofrido pesadas baixas, o moral e a combatividade de seus pilotos, que voavam contra a Armada Britânica, permaneciam bastante elevados. Uma das razões para que o moral se mantivesse tão elevado, em uma ocasião tão difícil como aquela, devia-se ao fato de que as forças argentinas, continuamente, superestimaram os danos e as baixas que eles haviam infligido às forças inglesas. 

O Alto-Comando Argentino anunciava, e aparentemente acreditava, que até o dia 25 de maio eles haviam afundado ou neutralizado 19 navios e abatido 14 Harrier. Na realidade, os britânicos tiveram 5 navios afundados e 3 seriamente danificados (menos da metade dos danos que os argentinos anunciavam). Esta falsa impressão tem origem na ausência de meios precisos para que uma confiável Avaliação de Danos de Batalha (BDA) pudesse ter sido feita. Em vez disso, dos 14 Harrier que as equipagens da artilharia antiaérea haviam considerado haver abatido, somente 4 foram realmente perdidos. De posse de falsas informações como estas, poderia ter parecido à Força Aérea Argentina que a Marinha Real teria, em breve, que retroceder diante de um índice de atrito tão elevado.




No dia 30 de maio, o 2º Esquadrão realizou o seu último ataque com o Exocet, seguido por uma esquadrilha de Skyhawk, contra o navio-aeródromo Invincible. No que se refere ao alvo, as forças argentinas afirmam até hoje haver atingido e neutralizado o Invincible tanto com o Exocet quanto com as bombas lançadas pelos Skyhawk. Aparentemente, o Exocet foi abatido pelo fogo da artilharia antiaérea dos navios, e o casco do Atlantic Conveyor foi confundido com o do Invincible e atacado pelos Skyhawk. Apesar das declarações dos argentinos, nenhum dano foi causado pelo último ataque com o Exocet.

A esta altura da campanha, os Harrier realizavam numerosas missões de apoio aéreo aproximado em benefício de suas tropas terrestres. Os 24 Pucará, com base nas Malvinas/Falklands, vinham sendo sistematicamente diminuídos pelos ataques ingleses ao aeródromo de Port Stanley e em combates ar-ar. Contudo, poucas aeronaves permaneciam em condições de vôo naquele aeródromo. 

Mesmo assim, as poucas disponíveis, atacavam incansavelmente as tropas do Exército Inglês. Os Pucará eram, de uma maneira geral, ineficazes contra o inimigo e vários foram abatidos pela artilharia antiaérea de cano (metralhadoras e canhões), pelos mísseis antiaéreos portáteis (Blowpipe) e pelos caças Harrier. Entretanto, foi um Pucará que conseguiu a única vitória argentina em um combate ar-ar, durante toda a guerra, quando abateu, com seus canhões, um helicóptero de patrulha inglês. A FAS, embora tivesse sofrido severas baixas, continuava ainda com disposição para lutar e pronta para atacar a Esquadra Britânica, sempre que as condições climáticas fossem favoráveis. 

No dia 8 de junho, os navios de transporte de tropa Sir Galahad e Sir Tristram estavam desembarcando tropas da Guarda Escocesa no porto de Fitzroy, próximo a Porto Stanley, quando 5 Dagger do 6º Grupo e 5 Skyhawk do 5º Grupo apareceram sobre as Malvinas/ Falklands. A fragata HMS Plymouth dava cobertura aos navios de transporte, quando os caças argentinos roncaram próximos. O Plymouth foi danificado por fogo de canhão e atingido por 4 bombas que não explodiram. Ao mesmo tempo, os Skyhawk bombardearam o Sir Galahade o Sir Tristram, que pegaram fogo e foram abandonados, resultando na morte de 50 homens que se encontravam a bordo do Sir Galahad. No final daquela tarde, 4 Skyhawk do 4º Grupo atacaram o navio de desembarque LCU F4 quando navegava de Goose Green para Fitzroy, transportando veículos. O navio foi rapidamente afundado, resultando em seis baixas. Entretanto, a PAC de Harrier alcançou os Skyhawk, abatendo 3 deles com mísseis Sidewinder.

A FAS lutou agressivamente até o fim. À medida que a resistência das forças terrestres entrava em colapso na área de Port Stanley, os Skyhawk do 5º Grupo e os Canberra de Trelew tentavam prestar apoio aéreo aproximado ao Exército Argentino engajado na batalha. Estes ataques não foram eficazes e, em um deles, um Canberra foi abatido, provavelmente por um míssil Sea Dart. No dia 14 de junho de 1982, com sua artilharia restante muito pequena e sem mais nenhuma esperança de obtenção de reforços, o General Menendez se rendeu, com 8.000 homens, em Port Stanley. A Inglaterra havia vencido a guerra.

Conclusão


A Guerra das Malvinas/Falklands oferece algumas importantes lições para a condução de uma moderna guerra aérea. Os ingleses aprenderam quão importante é um sistema de alarme aéreo antecipado de longo alcance para proteger a Armada. 

Os ataques realizados com Exocet alertaram todas as marinhas do mundo para o perigo que os mísseis antinavios representam. 

As 20 vitórias ar-ar conquistadas pelos aviões Harrier, empregando os mísseis AIM-9L Sidewinder, realçam a importância de se manter uma superioridade tecnológica sobre o oponente nas áreas de tecnologia de mísseis e de sistemas de direção. Mesmo uma pequena vantagem (e os Sidewinder possuíam muito mais do que uma simples vantagem sobre os Matra 530) poderá significar uma decisiva superioridade aérea sobre o inimigo.




Para os argentinos, o fato de haver aprendido uma lição foi bem mais fácil de aceitar do que o de conviver com a humilhação de uma derrota. Os altos líderes militares foram culpados por tomarem uma série de decisões erradas que resultaram nas mortes de muitos bravos e dedicados argentinos, soldados, aviadores e marinheiros, homens que mereciam ter tido líderes muito melhores do que os que realmente tiveram. O General Galtieri e a Junta Militar cometeram o imperdoável erro de haver levado a Argentina a uma guerra sem que houvesse sido feito um prévio planejamento e preparo e, mesmo, sem a existência de uma minuciosa avaliação estratégica. 

Desde o início, o estratagema da Junta em ordenar a invasão das Malvinas/ Falklands foi um engano. Imediatamente após a ocupação das Malvinas/Falklands pela Argentina e a posição britânica de retomá-las através de uma campanha militar, os militares argentinos solicitaram, aos Estados Unidos, um pleno apoio de inteligência no caso de um conflito com a Inglaterra. Quando as autoridades americanas negaram tal pedido, afirmando que dariam total apoio à Inglaterra, sua antiga aliada, as autoridades argentinas ficaram, inexplicavelmente, surpresas com uma posição que seria bastante óbvia e previsível.

Os argentinos estavam tão convencidos da nobreza de sua causa que, simplesmente, supunham que os Estados Unidos e o resto do mundo apoiariam suas ambições nacionais. A Junta Militar ficou magoada com a posição americana e, incorrendo em um grosseiro erro de avaliação, não levou em conta que os Estados Unidos jamais tomariam o partido de uma ditadura que estivesse em conflito com a Grã-Bretanha, historicamente sua maior aliada.

O General Galtieri demonstrou uma notável ausência de conhecimento de modernas operações militares, quando insistiu em que as Malvinas/Falklands deveriam ser defendidas por uma grande força terrestre composta, em grande parte, por conscritos, pouco treinados, com pouco armamento pesado, e mais, sem que pudesse contar com uma linha de suprimento por mar, tornando-se totalmente dependente de uma tênue capacidade de transporte aéreo. 

Galtieri e a maioria de seus chefes militares de alta hierarquia demonstraram também possuir pouco conhecimento sobre o uso de tecnologia moderna na guerra. Um exemplo desta falta de visão consistiu no fato de que o Exército Argentino e a Força Aérea poderiam ter aumentado o comprimento da pista de pouso, em Port Stanley, em 2.000 pés e desdobrado seus Skyhawk e Dagger para as ilhas. Os argentinos possuíam, no continente, engenheiros, equipamentos e placas de aço, que lhes permitiriam ter realizado este aumento em cerca de uma semana. Porém, para transportar os engenheiros, o material e os equipamentos para Port Stanley seria necessário utilizar a maioria da capacidade de transporte aéreo disponível. 

Como a decisão do General Galtieri foi defender a ilha com uma grande força terrestre, a possibilidade de desdobrar os caças para as ilhas tornou-se impraticável. Simplesmente não foi deixada uma suficiente disponibilidade de transporte aéreo para que esta opção pudesse ter sido considerada, muito embora vários entendidos de força aérea e de marinha, nos Estados Unidos e na Europa, pensassem (em abril de 1982) que, obviamente, esta seria a correta linha de ação a ser tomada.

O Vice-Almirante Lombardo, Comandante do Teatro de Operações, não se sai muito melhor do que o General Galtieri como comandante operacional e estrategista. Sua decisão de desdobrar 24 Pucará, 6 Aeromacchi 339 e 6 Mentor para as Malvinas/Falklands torna-se difícil para a compreensão de um profissional militar. O que se esperava de uma força composta por aviões leves, (construídos para emprego em missões de contra-insurgência), operando em um ambiente aéreo repleto de Harrier armados com Sidewinder, navios equipados com os mais modernos mísseis antiaéreos e tropas terrestres com mísseis antiaéreos Rapier e Blowpipe? Este seria um ambiente por demais letal para aquele tipo de aeronave. 

Muitas das operações realizadas pelas unidades aéreas argentinas baseadas nas Malvinas/Falklands assemelhavam-se, curiosamente, a uma “carga de infantaria ligeira” enfrentando uma força de blindados. Os T-34 Mentor eram aeronaves de treinamento, armadas com uma pequena metralhadora e alguns foguetes usados para marcação de alvos para a artilharia. Os Aeromacchi também eram levemente armados e inadequados para ataques a navios. Contudo, isto não evitou que um deles realizasse um ousado passe atirando com seu canhão contra a Armada, danificando levemente um navio. De fato, este foi o total de danos que 36 aviões e 19 helicópteros baseados nas Malvinas/Falklands infligiram à Armada Britânica. Os T-34 voaram poucas missões de reconhecimento administrando a sua própria sobrevivência escondendo-se dentro das nuvens. Os Pucará lutaram valentemente mas foram ineficazes e quase todos foram destruídos ou indisponibilizados ao final da batalha.

Outra “grande” decisão do Almirante Lombardo foi a de enviar o velho cruzador General Belgrano (já com 43 anos de uso e poucas defesas anti-submarino), contra a Armada Britânica. O afundamento doGeneral Belgrano foi o evento que causou a maior perda de vidas na guerra, sem que nenhum resultado positivo tivesse sido alcançado, exceto determinar que a Marinha Argentina permanecesse em segurança nos portos pelo resto da guerra.




O General Menendez, comandante das guarnições baseadas nas Malvinas/Falklands, demonstrou um entendimento extraordinariamente limitado dos princípios básicos da arte operacional. Ele desdobrou suas unidades de infantaria, mal treinadas e mal armadas, distribuindo-as em uma linha de defesa distendida e mal situada. Os ingleses facilmente invadiram as posições de Menendez uma por uma. Na realidade, as péssimas condições atmosféricas e os problemas logísticos causaram às brigadas do Exército Inglês e aos fuzileiros navais mais problemas do que o próprio Exército Argentino. 

Nestas considerações, não se pode deixar de lembrar-se novamente do Presidente da Junta e Comandante do Exército Argentino: como o General Galtieri foi capaz de acreditar que uma tropa de soldados mal treinados e mal armados poderia enfrentar a melhor infantaria do mundo, composta pelos Gurkas, o Regimento de Pára-quedistas Britânicos e os Reais Fuzileiros Navais? Aparentemente Galtieri e a Junta acreditavam que o patriotismo e o heroísmo poderiam superar todas as limitações e adversidades militares.

Sem dúvida, o único Comandante Argentino de de alta hierarquia que demonstrou verdadeira competência e profissionalismo na guerra foi o Brigadeiro Crespo, Comandante da Fuerza Aérea Sur. Considerando a inferioridade tecnológica da Força Aérea Argentina e da Força Aeronaval, os problemas de raio de ação, a falta de um número suficiente de aeronaves de reabastecimento em vôo, assim como a ausência de meios de reconhecimento, o Brigadeiro Crespo realizou um magnífico trabalho com as forças que lhe foram subordinadas. Ele teve apenas três semanas para organizar e treinar uma força de ataque para entrar em combate em uma campanha aeronaval (um tipo de operação para as quais somente duas pequenas unidades aeronavais haviam sido treinadas). 

Crespo soube tirar lições de seus próprios erros, aparentemente o único Comandante Argentino, de alta hierarquia, capaz disto. Após o dia 1º de maio ele declinou dos ataques a grande altitude, passando a empregar a melhor tática de aproximação a baixa altura. O seu improvisado Esquadrão Fênix foi uma maneira criativa para iludir a PAC inglesa. A habilidade do seu Estado-Maior em programar o apoio de reabastecimento em vôo e planejar inúmeros ataques aéreos em operações de longo alcance demonstra o alto nível de profissionalismo e competência de um sólido trabalho de equipe.

Os registros da FAS na Guerra das Malvinas/Falklands são bastante impressionantes. Os pilotos dos Esquadrões de Skyhawk, Dagger, Mirage e Étendard demonstraram notáveis habilidades de pilotagem e navegação durante as seis semanas de campanha. Os ataques realizados a baixa altura eram excepcionalmente perigosos e estressantes. Uma esquadrilha de Skyhawk voou a tão baixa altura para atingir a Armada Britânica que, no retorno, seus aviões tiveram que realizar uma aproximação por instrumentos, porque os pára-brisas tornaram-se por demais embaçados pelo sal da maresia. 

Embora os historiadores argentinos continuem a declarar que os danos à Armada Britânica foram muito superiores aos oficialmente admitidos pelos ingleses, os registros documentados pelos próprios ingleses sobre suas perdas são ainda bastante impressionantes quanto ao desempenho dos pilotos argentinos, considerando que a FAA não havia sido treinada para operações de ataque a navios. 




Os destróiers Sheffield e Coventry, as fragatas Ardent, Antelope, o navio de apoio Atlantic Conveyor, o navio de desembarque Sir Galahad e o barco de desembarque LCU F4 foram todos afundados por bombas e mísseis Exocet argentinos. Os destróiers Glasgow e Antrim, as fragatas Argonaut e Plymouth e o navio de desembarque Sir Tristram foram todos seriamente danificados, além de outros seis navios danificados em menor grau. 

Em resumo, pode-se afirmar que as maiores baixas e danos sofridos pela Força-Tarefa Britânica foram causados pela Fuerza Aérea Sur. Por estes feitos a FAS pagou um alto preço: a força de Skyhawk (4º e 5º Grupos da FAA) perdeu 19 aviões. O pequeno esquadrão aeronaval de Skyhawk perdeu 3 aviões. O 8º Grupo perdeu 2 Mirage. O 6º Grupo da FAA perdeu 11 dos seus 30 Dagger. O 2º Esquadrão de Bombardeiros perdeu 2 Canberra. No total, no decorrer das operações, a FAS perdeu 41% de suas aeronaves em combate e em acidentes operacionais. Esta é uma espantosa razão de atrito para qualquer Força Aérea; no entanto, o moral e o espírito de combate de suas equipagens nunca deixaram de existir em elevado grau.

O Comando de Transporte da Força Aérea Argentina desempenhou-se também de forma admirável. Durante o mês de abril, a pequena força de transporte mobilizou tudo aquilo que podia voar para transportar quase 8.000 soldados e 5.037 toneladas de suprimentos, armas, veículos e combustível, para as Malvinas/Falklands. Mesmo após a chegada da Armada Britânica e a declaração do pleno bloqueio aéreo das ilhas pelos britânicos, as aeronaves mantiveram-se voando para Port Stanley, à noite, transportando suprimentos e evacuando feridos. 

Até o último dia da campanha, os aviões de transporte da FAA voaram escondendo-se dos ingleses. Estas também foram operações altamente perigosas, culminando com a perda de um C-130 Hércules, abatido por um Sidewinder lançado por um Harrier.

Os artilheiros da antiaérea e os operadores de radar da FAA cumpriram suas missões com bravura e elevada competência durante toda a campanha. Sete aeronaves inglesas, incluindo 4 Harrier, foram abatidas pelas baterias de defesas antiaéreas. Os operadores de radar da FAA em Port Stanley constituíam-se no único meio para a localização dos navios e aeronaves ingleses. Durante os ataques dos Skyhawk e Dagger, os operadores de radar de Port Stanley monitoravam os movimentos dos Harrier e alertavam as aeronaves argentinas de suas aproximações. Várias vidas e aeronaves da FAS foram salvas graças ao excelente trabalho de vigilância aérea realizado pelos operadores de radar em Port Stanley.

Pode-se concluir que a Força Aérea Argentina enfrentou inúmeras dificuldades e surpreendentemente desempenhou-se de maneira admirável. Palavras muitas vezes consideradas fora de moda, como coragem, bravura e honra, são as únicas que podem bem traduzir o desempenho em combate dos militares argentinos que lutaram na guerra, tanto da Força Aérea quanto da Força Aeronaval da Marinha. Enquanto a Junta e a maioria dos Altos Líderes Militares Argentinos apresentaram um modelo de como não iniciar uma guerra, os soldados do ar tornaram-se exemplos vivos de uma impressionante competência profissional nos níveis tático e operacional da guerra.