"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa
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sexta-feira, 29 de maio de 2020

A Batalha de Kalinin, a maior batalha por Moscou *




Francis Pulham

Um dos contra-ataques mais discutidos já realizados pelo Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial foi o ataque da 21ª Brigada de Tanques à cidade de Kalinin, hoje Tver/Rússia, que figura na história russa como um dos momentos decisivos da “Grande Guerra Patriótica”. No entanto, mesmo fontes russas falham em capturar verdadeiramente o escopo da batalha e a bravura dos homens que se conduziram nela contra uma força de combate alemã numericamente superior.

Em 17 de outubro de 1941, a 21ª Brigada de Tanques, sem o apoio de outras unidades, poder aéreo ou mesmo artilharia, conseguiu avançar rapidamente até a cidade de Kalinin e quase capturou a cidade. No entanto, o custo foi enorme e a unidade sofreu com muitas baixas, incluindo 2 homens que haviam sido premiados anteriormente com a distinção Herói da União Soviética por suas ações.



Em 22 de junho de 1941, a Wehrmacht e seus aliados, invadiram a URSS na Operação Barbarossa, e de junho a outubro, avançaram por quase 1000 km, destruindo quase 15.000 tanques do Exército Vermelho. Além disso, morreram ou foram capturados cerca de 3.000.000 de soldados do exército defensor, ocupando o coração soviético da Bielorrússia, Ucrânia e grande parte do leste da Rússia. A Operação Barbarossa era o codinome alemão para a invasão da URSS e, em 2 de outubro de 1941, após a destruição do bolsão de Smolensk, a ordem foi dada por Hitler para iniciar a Operação Typhoon ou seja o avanço até Moscou. As primeiras vitórias incluíram o cerco em Vyazma e a captura de Orel e Bryansk. Essas vitórias foram rápidas e deixaram o caminho livre para Moscou. A próxima grande cidade no caminho dos alemães era Kalinin. Ela ficava ao noroeste de Moscou, a apenas 170 km da capital. Foi tomada com pouca resistência nos dias 13 e 14 de outubro de 1941. Sua captura deixou a rota para a capital russa perigosamente exposta, e o Alto Comando Soviético decidiu por conta das circunstâncias, que a cidade deveria ser retomada.
  
Kalinin era uma cidade importante desde os anos 1300 e era a capital do Oblast de Kalinin. Originalmente chamado Novgorodian, foi nomeada Tver nos anos 1300. Foi então renomeada como Kalinin em 1931 para homenagear um membro do partido comunista, Mikhail Kalinin. Em 1991, a cidade foi novamente renomeada para Tver. A topografia da cidade é dividida por 3 rios. O rio Volga flui de oeste para leste, com a maioria da cidade à margem sul do rio. O rio Tversta divide a margem norte em 2/4. Na margem sul, o rio Tmaka divide a margem sul em quartos desiguais. No centro da cidade haviam palácios históricos e outros edifícios típicos de tijolos russos da década de 1700, com o resto da cidade sendo composto por edificações de madeira pequenas e médias, o que é muito típico das vilas e cidades russas.

Em 12 de outubro de 1941, a 21ª Brigada de Tanques recebeu a ordem de defender a cidade de Kalinin. O comandante da brigada era o Coronel Nikolai Stepanovich Skvortsov, e o vice-Comandante era Alexander Sergeevich Sergeyev. A brigada foi formada na escola militar de Vladimir, situada ao leste de Moscou. Recebeu seus novos blindados T-34 no dia 5 de outubro entregues pela Fábrica 183 e pela Fábrica 112. Sua ordem de batalha era de 10 T-34 equipados com canhões de 76 mm entregues em Kharkov, 7  T-34 igualmente com canhões de 76 mm entregues por Krasnoye Sormovo, 10 T-34 com canhões de 57 mm também de Kharkov, 2 T-34 adicionais com canhões de 76 mm equipados com lança-chamas no casco também de Kharkov, 2 HT-26, 5  BT-2, 15 BT-5 e BT-7, 10 T-60 e 4 Zis-30. Estava organizada em 3 batalhões, que consistiam principalmente no 21º Regimento de Tanques, juntamente com algumas outras unidades. O primeiro batalhão compreendia todos os T-34, o segundo recebeu os tanques leves, incluindo os ZiS-30. Pensa-se que a unidade tenha sido a primeira a receber o tanque T-60 da fábrica nº 37.

Um terceiro era um batalhão de armas motorizadas. Estima-se que esta unidade tenha sido composta por 700 homens, com uma companhia anticarro, uma companhia de morteiros de 82 mm com 12 peças, juntamente com um pelotão de metralhadoras, um pelotão de sapadores e um pelotão de comando. A unidade era única no Exército Vermelho por ser composta principalmente por veteranos. Devido ao nascimento da unidade na Escola de Tanques em Vladimir, tanquistas experientes estavam disponíveis. Infelizmente, devido às graves perdas no início da guerra, muitos veteranos foram mortos em ação. Os comandantes de tanques eram geralmente petroleiros experientes que haviam lutado em conflitos como as batalhas de Khalkhin-Gol de 1939, a Guerra de Inverno e os estágios iniciais da "Grande Guerra Patriótica" (Segunda Guerra Mundial).



Planejamento

A ordem de operações foi dada à 21ª Brigada de Tanques do Tenente General Rokossovsky. Seu escopo dizia: "Dirija-se de imediato na direção de Pushkino, Ivantsevo e Kalinin, com o objetivo de desarticular o flanco e a retaguarda do inimigo, a fim de apoiar nossas tropas na destruição do grupo de tropas invasoras em Kalinin". Isso foi reforçado por ordens do general K. Zhukov: "... para tomar posse de Turginovo, e posteriormente avançar na direção de Ilinskoe, Tsvetkovo, Negotino com a tarefa de destruir o agrupamento inimigo na região de Kalinin". Esse ataque a Kalinin não foi apoiado por artilharia ou aviação, e toda a tarefa de libertar a cidade foi colocada sobre os ombros da brigada. Essa era uma tarefa extremamente difícil ou impossível, e a ordem foi dada porque o Alto Comando Soviético tinha pouca informação a respeito dos efetivos alemães em Kalinin e estimava que a maior parte das forças da Wehrmacht na área estavam mais ao norte.

Apesar da composição de 3 batalhões; eles foram reorganizados em três agrupamentos de combate para o ataque a Kalinin. O primeiro grupo foi comandado por Mikhail Pavlovich Agibalov, o segundo grupo por Mikhail Alekseevich Lukin e o terceiro por Iosif Isaakovich Makovsky.

O capitão Mikhail Pavlovich Agibalov era um soldado experiente e subiu rapidamente nas fileiras do Exército Vermelho após ingressar em 1932. Sua experiência de combate incluiu a guerra com o Japão em 1939 e a Guerra de Inverno com a Finlândia em 1939. Por seu serviço nas batalhas de Khalkhin-Gol, recebeu a Ordem de Lenin (o maior prêmio da URSS) e também recebeu o título de "Herói da União Soviética". O ataque a Kalinin foi concebido como uma manobra dupla. Da área de preparação de Turginovo, o agrupamento 1 e o agrupamento 2 se posicionariam em direção a oeste para capturar Pushkino, depois se deslocariam para o norte ao longo da rodovia Volokolamansk para entrar em Kalinin no lado leste da cidade e atacariam o aeroporto e a estação principal. Isso também envolveria a destruição do posto de comando avançado das forças alemãs na área de Pushkino. Uma vez em Kalinin, os grupos se separariam, com o primeiro atacando o campo de aviação, depois se mudando para a cidade para ajudar na sua libertação. O segundo grupo se deslocaria para o centro da cidade para capturar a estação, eles se mudariam para a área central até o rio Tver. Os tanques do primeiro grupo foram pintados com números brancos em seus cascos para ajudar na identificação.

O Major Mikhail Alekseevich Lukin, assim como Agibalov, era um soldado veterano que combateu  nas batalhas de Khalkhin-Gol, ele liderou com sucesso um ataque a um grande depósito de suprimentos japonês sendo totalmente destruído, juntamente com um grande número de caminhões e veículos. Ele também recebeu o título de "Herói da União Soviética" e a Ordem de Lenin. Lukin era também o comandante do 21º Regimento e, portanto, estava no controle geral da batalha. O segundo grupo também deveria avançar para a rodovia Volokolamansk, mas entrar na rodovia ao sul de Pushkino em Panigino. Ali avançaria para o norte em alta velocidade, ligando-se ao grupo 1, e atacaria Kalinin. Lukin comandou um T-34 com um canhão ZiS-4 de 57 mm. Esta máquina foi pintada com um número branco '20' nas laterais do casco da máquina. Seu segundo em comando do 2º grupo foi equipado com um T-34/76 com um número branco '21' pintado no lado direito do casco e na parte traseira da torre. Estima-se que poderiam haver tanques numerados 20 a 25 neste grupo.

O tenente sênior Iosif Isaakovich Makovsky ostentava tantas condecorações quanto seus camaradas. Ele havia recebido o título de "Herói da União Soviética" e uma Ordem de Lenin por suas ações durante a Guerra de Inverno. O terceiro grupo deveria se mover diretamente para o norte ao longo da rodovia Turginovskoye e entrar na cidade em um local próximo ao primeiro e segundo grupos, já que as duas principais estradas quase se ligavam em Kalinin. A rodovia Turginovskoye entrava em Kalinin, a leste do aeródromo, e o terceiro grupo poderia ir para o sul do campo no microdistrito de Yuzhny ou seguir para o norte e entrar na cidade ao norte da estação. Aqui eles se reuniriam ao primeiro e ao segundo grupos para capturar mais objetivos-chave na própria cidade. O plano foi flexibilizado para permitir que tanques diferentes atacassem áreas diferentes se um dos grupos sofresse grandes perdas. O terceiro grupo, ao que parece, não adotou o sistema de numeração em seus tanques. No entanto, nenhuma imagem destes blindados está disponível; portanto, é possível que existam tanques numerados como '31'. O terceiro grupo também foi chamado de 'Makovsky Shock Group'. Há também evidências fotográficas de que alguns tanques dos 3 grupos não foram pintados com nenhum número.

Enquanto o ataque principal estivesse ocorrendo, o 3º batalhão deveria avançar pela estrada Turginovskoye e ajudar a ocupar as aldeias ao sul de Kalinin. Estimava-se que eles originalmente entrariam na cidade após a sua recuperação, no entanto, o curso dos eventos fez com que isso nunca acontecesse. No total, 27 tanques T-34 e 8 T-60 estavam disponíveis. Esses tanques foram divididos em seus respectivos grupos e preparados para ação. Em teoria, isso poderia significar que havia 9 T-34s por grupo, 2 grupos equipados com 3 T-60s com um terceiro com 2 T-60s. Atualmente, não se sabe ao certo sobre estes números.




Forças Alemãs

Enfrentando os soviéticos estavam os elementos da 1ª Divisão Panzer, que recebeu ordens de se mudar para o norte para ajudar no setor de Leningrado; e a 36ª Divisão Motorizada, além de uma mistura de outras unidades alemãs. Aproximadamente 10.000 soldados estavam estacionados na cidade recém-capturada. Sabe-se que um dia antes, no dia 16 de outubro, 2 Batalhões Panzer estavam estacionados na cidade, no entanto, não se sabe quais.

A 660ª Bateria de Armas de Assalto foi formada antes da Batalha da França e recebeu seus primeiros 6 Sturmgeschutz III Ausf. antes desta invasão. Estima-se que a 660º recebera o StuG III Ausf B e C em 1940 e 1941. Ela era conhecida por ter utilizado vários Sd.Kfz 252, que eram a variante portadora de munição do meia-lagarta.

Sabe-se que a 36ª Divisão Motorizada utilizou armas pesadas de 105 mm na vila de Troyanovo, ao sul de Kalinin, e os caminhões que transportavam o pessoal também provavelmente eram dessa divisão. Essa força de alemães não estava preparada ou esperava um contra-ataque soviético logo após tomar Kalinin. No entanto, foram feitas fortificações na estação de trem, e o aeroporto já foi requisitado pela Luftwaffe, que tinha aviões de transporte Ju-52 estacionados no campo.

Infelizmente, faltam muitos dos registros alemães a respeito do contra-ataque soviético, com apenas um pequeno relatório de combate da 36ª Divisão Motorizada mencionando o ataque. Portanto, a única documentação a se referir é a de origem soviética. A documentação soviética parece ser bastante precisa, embora com alguns detalhes característicos de época da guerra.



Os T-34 da 21ª Brigada

A 21ª Brigada recebeu tanques T-34 novos da fábrica de Kharkov, Krasnoye Sormovo e T-60s da Fábrica Número 37. Os T-34s eram de modelos diversos. Blindados equipados com canhões de 76 mm vieram da fábrica 183. Algumas máquinas receberam pontos para a montagem de tanques de combustível externos, embora a maioria não estivesse assim configurada. Todos receberam a escotilha do motorista recém-implementada com dois periscópios virados para a frente, protegidos por tampas blindadas. Os ganchos de reboque também eram de um tipo recém-implementado, dispensando o tipo de 'pino' mais antigo. As torretas instaladas nestes tanques eram uma mistura de torres fundidas e torres 'simplificadas de 8 parafusos soldadas'.

Os tanques foram construídos com especificações diversas. A lagarta padrão de 550 mm de largura era comum, embora vários tanques tenham sido construídos com a lagarta 'tipo V' (também conhecida como 'tipo A'). Ainda não havia sido introduzida a lagarta comum de 500 mm de largura com padrão de waffle. Aproximadamente 10 T-34 portavam canhões ZiS-4 de 57 mm. Essas armas anticarro especialmente projetadas, foram instaladas em um T-34 padrão, e sabe-se que os únicos 2 exemplares conhecidos não tinham pontos para tanques de combustível externos. 2 desses T-34 com canhões de 57 mm hoje conhecidos foram designados com o número '20', comandado por Lukin, e uma segunda máquina foi comandada por Sergey Mikhailovich Kireev, que estava no primeiro grupo. Pensa-se que este tanque tenha sido pintado com o número '2'; no entanto, os danos são muito expressivos para serem identificados adequadamente com base nas evidências fotográficas conhecidas.



O Engajamento

A unidade recebeu seus tanques de Kharkov totalmente reabastecidos com munição e combustível, e a brigada chegou à estação Kursky em Moscou em 14 de outubro de 1941. Em 13 de outubro de 1941, a Brigada foi anexada ao 16º Exército na frente ocidental, e ao chegar à frente em 17 de outubro, a brigada foi transferida para o 30º Exército. De Kursky, a unidade recebeu ordem de se mudar para a estação de Klin e, a partir dali, deveria se mudar para Kalinin. No entanto, a Brigada foi forçada a descarregar em Zavidovo e Reshetnikovo devido à captura da estação de Kalinin. Após o descarregamento, a Brigada seguiu em direção à vila de Turginovo, capturando a vila com a perda de um tanque devido a um acidente ao cruzar uma ponte de pontão. O comandante desse tanque era Issac Okrane, e sua tripulação foi morta no acidente.

Na manhã de 17 de outubro de 1941, o ataque começou. Da vila de Turginovo, o primeiro e o segundo grupo avançaram para o oeste e depois para o norte. O grupo 1 mudou-se para capturar a vila de Panigino. Neste momento tinha a estrada principal de Volokolamansk para Kalinin à frente. O ataque foi sinalizado por 3 flares vermelhos disparados no ar e, imediatamente após seu início, as equipes do grupo 2 atacaram por acaso uma grande coluna de caminhões e veículos de transporte alemães que avançava para o norte em direção a Kalinin, e não haviam notado os tanques soviéticos a sua retaguarda. Lukin ordenou que sua unidade não abrisse fogo até que fossem descobertos ou até que chegasse a hora certa. A mesma sorte não favoreceu o primeiro grupo. A coluna avançava em direção a Pushkino e deveria chegar à estrada na vila de Emelyantsevo. Nessa vila, eles foram vistos e armas antitanque alemãs abriram fogo. O blindado de comando foi comandado pelo tenente Kireev (supostamente Sergey Mikhailovich Kireev), que foi atingido, matando a tripulação. Estima-se que o tanque dele era o número '2'. O segundo tanque na coluna da frente era o tanque '3' comandado por S.Kh. Gorobets. Mais tarde, esse tanque se tornaria muito famoso nessa batalha por atacar um Panzer III e escapar ileso. No momento, porém, ele se envolveu e engajou com os alemães, liderando o primeiro grupo até a rodovia Volokolamansk e se ligando ao grupo dois.

A próxima grande vila ao norte foi Pushkino, que servia temporariamente como quartel-general das forças alemãs locais. Quando a coluna passou pela vila, a ordem de ataque foi dada, e os soviéticos rapidamente engajaram em combate com vantagem, destruindo muitos veículos alemães. A vila foi tomada e a sede foi destruída. Os grupos avançaram para o norte, tomando Kvakshino antes de atingir a vila de Troyanovo. A essa altura, o comando alemão já sabia que os soviéticos estavam avançando pela estrada, e os bombardeiros Ju-87 foram enviados para contrapô-los. A coluna foi atacada pelo ar, no entanto, não há relatos se algum tanque foi perdido devido ao bombardeio.

Troyanovo foi mais fortemente defendida pelas forças alemãs, e os 2 grupos enfrentaram um forte muro de fogo anticarro alemão. Sabe-se que os canhões de 105 mm do Pelotão de Artilharia Pesada 611 envolveram a força soviética aqui. O blindado do major M. Lukin ficou avariado e inoperante, porém os relatórios não são claros sobre se seu veículo simplesmente quebrou ou foi alvejado. Seja qual for o caso, a lagarta esquerda quebrou e o veículo terminou em uma vala à esquerda da estrada, presa no rio Kamenka. Mais tarde, foi declarado por sua tripulação que Lukin, sozinho, cobriu a fuga de sua tripulação, operando o canhão de 57 mm de seu veículo. Ele foi morto, porém nenhum dano foi observado no veículo nas evidências fotográficas além da lagarta quebrada.

Os grupos seguiram em direção a Kalinin, agora sob o comando do líder do primeiro grupo, capitão Mikhail Pavlovich Agibalov. A coluna chegou à aldeia de Naprudnoe, a 16 km de Kalinin. Foi aqui que Agibalov também foi morto. O relatório de combate conta uma história semelhante à de Lukin. O tanque de Agibalov partiu da estrada para a direita. Aqui, ele alvejou um caminhão de combustível alemão que explodiu. Seu tanque, agora fora da estrada e isolado, pegou fogo. A arma principal de seu tanque parecia ter parado de disparar, embora as metralhadoras ainda estivessem ativas. Alega-se que sua tripulação escapou e, para cobri-los, Agibalov ficou no tanque. Os registros de M.Ya. Maistrovsky afirmam que, depois que a metralhadora ficou em silêncio, ele foi encontrado em seu tanque com a pistola sacada, aparentemente tendo tirado a própria vida.

Ao chegar a Kalinin, o primeiro e o segundo grupos atacaram o aeroporto local e a estação de trem, que também estava sendo ocupada pelo grupo 3. O grupo que atacou a Estação Kalinin foi comandado pelo tenente sênior Iosif Isaakovich Makovsky (subcomandante da Brigada), que estava no comando do 3º grupo, e recebeu ajuda dos remanescentes dos outros 2 grupos. Estima-se que o aeroporto tenha sido atacado principalmente pelo 1º grupo. Este grupo teve um pouco mais de sucesso do que os que atacaram a estação. Um tanque comandado pelo comissário político sênior GM Gnyry dirigiu pela estrada Volokolamansk com o grupo principal de tanques e destruiu alguns veículos. Ele então invadiu o aeroporto de Kalinin, à direita da rodovia Volokolamansk, dentro dos limites da cidade. Com o apoio de outros blindados, alvejou com sucesso aeronaves inimigas no campo, em número de aproximadamente 50 que estavam lá estacionadas. Dizem que seu tanque era o número '31', no entanto, isso o colocaria no grupo 3 (se a teoria do sistema de numeração estiver correta). É provável que sua máquina tenha vindo do sul do aeroporto e entrado na estrada de Volokolamansk. Um dos tanques que o apoiava foi comandado pelo sargento SE Rybakov. Seu tanque entrou no microdistrito de Yuzhny (nome moderno para esse local) e apoiou Gnyry. Esta estrada sul liga as 2 rodovias ao sul do aeroporto, que foi cercado e capturado por forças inimigas. Mais tarde, ele escapou. Gnyry não teve a mesma sorte. Alguns relatos afirmam que seu tanque foi perdido quando aeronaves que conseguiram decolar do campo atacaram seu veículo, embora ele também pudesse ter sido atacado por armas AA alemãs posicionadas sobre o campo de pouso. Seu tanque ficou inoperante e ele foi forçado a abandoná-lo. O campo de pouso em Kalinin ao leste foi atacado por tanques do 1º e do 3º grupo. Um segundo aeródromo que estava situado a oeste não foi atacado. No aeródromo a leste, sabe-se que pelo menos 16 aeronaves foram atingidas ou atropeladas por Gnyry.

Enquanto os T-34 do 1º grupo atacavam o campo de pouso de Kalinin, a unidade foi inesperadamente engajada por armas de assalto alemãs da 660ª bateria de armas de assalto. Durante este contato, o tanque número '4' engajou um Sturmgeschütz III Ausf A comandado pelo tenente Tachinsky, com o T-34 provavelmente comandado pelo tenente DG Lutsenko. Lutsenko, depois de sofrer danos no cano da arma, revidou contra o StuG de Tachinsky. Isso fez com que o StuG explodisse e caísse por sobre o T-34. O ataque ocorreu na própria estrada de Volokolamansk, e isso permitiu a retirada dos T-34 restantes. Depois que o T-34 bateu o StuG, os tanques soviéticos aparentemente escaparam, embora o número '4' permanecesse em sua posição com a tripulação se recusando a recuar. A tripulação foi removida à força do tanque pelos alemães. Algumas fontes afirmam que o comandante foi baleado, embora não haja confirmação para isso.

Sabe-se que elementos do primeiro grupo ajudaram no ataque a posição central de Kalinin. Isso foi comandado pelo sargento Stepan Khristoforovich Gorobets, que comandou o terceiro tanque no primeiro grupo. Os registros dão conta que 8 tanques entraram na cidade após o campo de aviação nos subúrbios. Enquanto alguns tanques se dirigiam para a estação, o tanque '3' do primeiro grupo, comandado pelo sargento-chefe S. Kh. Gorobets dirigiu com pressa para o oeste, passando pela estação. Ele então foi para o norte, cruzando as linhas ferroviárias muito a oeste da ação, quase chegando ao rio Tver. Seu tanque virou para o leste e, com velocidade, ele dirigiu por toda a extensão de Kalinin. Ao longo do caminho, ele neutralizou armas e tanques e um Panzer III, saindo ileso. Outros tanques tiveram menos sucesso, com 7 máquinas sendo perdidas com suas equipes lutando na cidade. A maioria das equipes que chegaram à cidade perdeu-se lutando na estação. Um dos tanques que foi perdido ao lado da estação é o número do tanque '21'. Ele caiu em uma vala em algum lugar ao redor da estação, mas sua localização exata não foi especificada.

O tanque de Shpak é conhecido por ter se dirigido para a estação, e acredita-se que sua máquina tenha sido destruída. Outras tripulações mortas em Kalinin foram as de Vorobyov e Maleev. O ataque acabou sendo interrompido e os tanques do 1º e do 2º grupos foram forçados a fugir pela estrada Volokolamansk e até pela estrada Turginovskoye, a estrada que o terceiro grupo avançou, não se sabendo em que momento a fuga se deu. Enquanto o 1º e o 2º grupos avançavam pela estrada Volokolamansk, o 3º grupo avançou com velocidade pela estrada Turginovskoye. Comandado por Iosif Isaakovich Makovsky, o grupo parece ter encontrado pouca resistência até a vila de Pokrovskoe, onde a situação ficou mais difícil. No entanto, o grupo derrotou os alemães e continuou para o norte para entrar em Kalinin.

Uma vez em Kalinin, o 3º grupo tentou atacar a estação ferroviária principal. Sabe-se que alguns tanques ajudaram na destruição do aeródromo entre as rodovias Volokolamansk e Turginovskoe. Não se sabe de que direção o 3º grupo atacou a estação, mas provavelmente foi do nordeste, quando a rodovia Turginovskoe cruza as linhas ferroviárias leste-oeste. A estação de trem nunca foi recapturada com sucesso, pois o local estava fortificado pelos alemães. Presume-se que o 3º grupo tenha recebido ajuda dos remanescentes do 1º e do 2º grupos, já que alguns de seus veículos foram perdidos perto da estação. Aqui o 3º grupo não mais avançou. Muitos tanques foram perdidos e os remanescentes do 3º grupo foram forçados a recuar na estrada Turginovskoye.



A Retirada

Quando ficou claro que a batalha estava a favor das unidades alemãs, o comandante do Regimento GI Zakalyukin organizou e conduziu a retirada das forças soviéticas da área de Kalinin, na estrada Turginovskoye. Eles estabeleceram posições na vila de Grishkino. Aqui, o Batalhão de Infantaria Motorizado da 21ª Brigada de Tanques, com tanques leves, estava disponível para apoio. Nos 2 dias seguintes, houve um grande choque entre unidades alemãs em avanço e os soviéticos que sobreviveram ao ataque a Kalinin. O próprio Makovsky ficou gravemente ferido no dia 19 de outubro, quando assumira o comando da unidade motorizada.

Toda a área foi recapturada pelos alemães, e os combates envolvendo a 21ª Brigada de Tanques nesse setor terminaram em 19 de outubro de 1941. Troyanovo, onde estava o corpo do major-general Lukin, provavelmente foi recapturado no dia 17 de outubro; mas as lutas continuaram ao leste. O corpo de Lukin permaneceu no tanque e os soldados alemães saquearam a Ordem de Lenin que ele havia recebido durante as batalhas de Khalkin Gol em 1939. Seu corpo foi recuperado por 4 meninos da vila de Troyanovo e enterrado em uma pequena área arborizada. Seu corpo foi posteriormente enterrado em Kalinin em 1942.

No total, a brigada perdeu 21 tanques T-34, 3 tanques BT e um único tanque T-60. Os registros de combate da 21ª Brigada de Tanques listam as baixas inimigas como 38 tanques, 200 veículos a motor, 82 motocicletas, 70 armas e morteiros, 12 caminhões de combustível e um grande número de soldados. A 21ª Brigada de Tanques continuou a lutar durante os meses de inverno, e mais tarde foi colocada em reserva em 5 de janeiro de 1942.

Kalinin foi recapturada durante o maciço contra-ataque soviético em dezembro de 1941. Durante a ocupação alemã, sepulturas de guerra foram erguidas do lado de fora da igreja principal. Os 2 campos de pouso foram ocupados pelos soviéticos. Grande parte da cidade foi destruída e Kalinin foi a primeira grande cidade libertada dos alemães. Ela deu o nome à frente soviética de Kalinin, que esteve ativa de 17 de outubro de 1941 até meados de 1943, quando as forças alemãs foram empurradas para longe de Moscou.



Conclusão

Desde o início, os relatos foram direcionados contra os homens da 21ª Brigada de Tanques. Muitas pessoas afirmaram que a União Soviética perdeu desnecessariamente dois comandantes de tanques experientes e os "Heróis da União Soviética", e o ataque ocupou unidades que poderiam ter sido usadas em outros lugares. Também é verdade que as unidades atacadas foram severamente abaladas pelo incidente. É bem possível que, por números absolutos, esse tenha sido um dos contra-ataques soviéticos de maior sucesso realizados até aquele momento  da guerra. Pela primeira vez na "Grande Guerra Patriótica", um ataque de brigada coerente foi conduzido onde equipes de tanquistas experientes assaltaram posições alemãs. Eles não apenas destruíram mais veículos do que os perdidos, mas também exploraram efetivamente áreas fracas e usaram o trabalho em equipe para derrotar o inimigo. Não se deve esquecer, no entanto, que o objetivo principal nunca foi cumprido, e o saldo foi apenas de desgaste às forças da Wehrmacht. O Alto Comando Soviético não havia informado corretamente as tripulações sobre o tamanho da força em Kalinin e subestimado o número de tropas inimigas ali presentes, com o ataque conduzido com o mínimo de apoio de infantaria. Algumas fontes afirmam que ciclistas estavam presentes em uma via cheia de veículos em Pushkino, mas não há evidências concretas disso. Pode-se também afirmar que os T-34 com canhões de 57 mm não foram utilizados em um papel eficaz. A arma de 57 mm foi projetada especialmente para a caça de tanques e, durante esta batalha, as equipes soviéticas lutavam principalmente contra armas e caminhões, muito mais adequados para o baixo calibre, como a munição de 76,2 mm das armas F-34 dos T-34 regulares. O ataque foi um fracasso em relação ao seu objetivo original, embora as escolas tenham o nome de membros da 21ª Brigada de Tanques e estátuas erguidas em sua homenagem. Não foi tanto uma vitória física, mas certamente foi uma vitória para o moral e as lendas.


terça-feira, 28 de abril de 2020

Operação Overlord - O Pré-Desembarque *




https://www.dday-overlord.com/

Os Primórdios da Operação Overlord

Winston Churchill, primeiro-ministro britânico precisava afastar de uma vez por todas a ameaça dos nazistas pisarem no solo das ilhas de Sua Majestade, com o primeiro passo dado pela vitória na Batalha da Inglaterra, uma disputa entre a RAF e a Luftwaffe pela supremacia aérea no espaço sobre o Canal da Mancha e as ilhas ao norte. Ele sabia que os alemães deveriam ser derrotados em solo francês, de onde partiria o golpe final até Berlim a consequente derrocada das forças de Hitler. Mesmo beneficiado pelo atrito que a Wehrmacht vinha sofrendo no front oriental, sabia que a empreitada não seria fácil e a abertura deste segundo front para as forças alemães deveria ser um golpe poderoso e bem planejado, não dando chance para uma aventura frustrada, pois uma nova tentativa não seria possível em prazo aceitável, uma vez que a ameaça de Stalin podia se configurar no domínio total da Europa ou uma eventual reação nazista os colocaria muito fortes.

Partiu-se então para o fortalecimento do Royal Army, extremamente enfraquecido pela desastrosa campanha do início do conflito, quando tiveram que ser evacuados das praias francesas por milhares de embarcações civis e militares. Eram necessários novo treinamento e equipamentos, e para tal voltou-se o olhar para o extraordinário potencial do poder industrial dos EUA. Em 1939, a experiência em operações anfíbias era extremamente débil em quase todas as forças do mundo, para não dizer inexistente. Não existiam equipamentos adequados e nem doutrina, bem como a percepção das singularidades táticas e estratégicas de uma operação de desembarque, notadamente do vulto da operação necessária. Este conhecimento começou a ser forjado com a criação de uma organização chamada “Combined Operations” que passou a realizar incursões anfíbias em pequena escala atacando pontos sensíveis de natureza tática e estratégica. Foram criadas unidades conhecidas hoje como “comandos”, especializadas nestas empreitadas de assalto em condições especiais, com a primeira missão acontecendo na ilha de Guernesey, localizada a oeste da península de Cotentin cerca de 50 km.

No front leste prosseguia a campanha dos alemães em território russo, com estes solicitando aos aliados a abertura de uma segunda frente. Norte-americanos e ingleses passaram a enviar equipamentos, combustível e munições para eles, porém Stalin não estava nada satisfeito em enfrentar sozinho a máquina de guerra germânica. Em 1942 a vitória em Stalingrado marcou a virada nos rumos desta campanha, e o Exército Vermelho começou a reconquistar territórios antes cedidos às tropas invasoras, porém a situação era extremamente difícil e os apelos do líder soviético por decisões militares decisivas era constante.

Os norte-americanos súditos de Sua Majestade, fizeram uma operação anfíbia na cidade de Dieppe na costa norte francesa denominada operação “Jubilee” em agosto de 1942, de forma a demonstrar a Stalin seu comprometimento. Este ataque teve por objetivo fornecer informações sobre a “Muralha do Atlântico”, e a reação dos defensores, sem ter por objetivo ocupar a França ou vencer a guerra. Rendeu milhares de relatórios de inteligência com uma amostra valiosa do potencial de defesa da Wehrmacht neste setor. Foi liderado pela 2ª Divisão Canadense e apoiada por blindados “Churchill” de 40 toneladas que fixaram o inimigo em sua linha frontal, com os “Comandos” atacando pelas laterais as baterias costeiras instaladas nos penhascos. A Royal Navy, temerária quanto a colocar sua frota no canal, não ofereceu fogo de preparação. Aos atacantes foi desejada sorte, pois reforços não foram enviados por tratar-se de um teste, com apurada observação e cronometragem, para servir de subsídio a um ataque posterior em escala real.

Em 28 de novembro de 1943 os líderes aliados incluindo Stalin se reuniram em Teerã e decidiram pela abertura da segunda frente. Churchill queria que o desembarque se desse nos Bálcãs, porém a logística deveria partir da Inglaterra, e o ponto de desembarque deveria ficar mais próximo. As costas atlânticas foram consideradas distantes e perigosas pela presença dos U-Boots, o mesmo valendo para as costas da Bretanha. As praias belgas possuem correntes muito fortes e são arriscadas e as praias da Holanda possuem excesso de terreno inundado com vias de acesso restritas, impossibilitando a instalação da cabeça de praia.

Um novo comando chamado de COSSAC foi criado para a coordenação de operações combinadas. Ao COSSAC coube escolher os locais dos desembarques, reunir toda a inteligência possível utilizando a experiência das operações combinadas anteriores e viabilizar as forças de transporte que apoiaram a invasão. As costas da Normandia foram escolhidas pela similaridade das praias com as costas inglesas, apresentando a areia com a mesma resistência, além é claro da localização próxima. Outro local possível seria Pas-de-Calais, porém por ser o ponto mais próximo da Inglaterra foi onde os alemães concentraram sua defesa mais potente.

Em 1942, os primeiros navios transportando equipamentos e tropas que participariam da invasão da França deixam as terras americanas rumo ao Reino Unido. A Batalha do Atlântico visando tornar a travessia segura se intensifica, pois os submarinos alemães passam a assediar os comboios que transportam tropas e suprimentos para as ilhas britânicas, com os aliados vencendo em 1943 e tornando este oceano mais seguro. Soldados são instalados em bases dispersas ondem refinam seu treinamento e grande quantidade de equipamento e suprimento armazenado longe das vistas. O fornecimento de todo este suprimento foi negociado com os ingleses em troca do uso de bases pelo mundo inteiro. A aviação de reconhecimento aliada entra em atividade frenética visando produzir inteligência para os planos de invasão. As ilhas britânicas se tornam uma grande base militar, onde soldados treinam, equipamento é armazenado, unidades de preparação operam incessantemente e navios começam a se acumular ao largo de toda a costa britânica em seus diversos portos, além dos ataques aéreos à costa francesa que se intensificam em todos os pontos, a fim de não revelar o local da invasão.

Como ocultar tamanha movimentação é muito difícil, e os alemães entendem rapidamente que algo grande está em preparação, com agentes sendo infiltrados em território britânico. Esta situação não fora negligenciada pelo comando aliado, que para confundir os espiões pos em prática a operação “Fortitude” que montou um exército fantasma com blindados infláveis, armas de madeira, unidades falsas e outros artifícios, tudo posicionado na área de Dover, próxima a Pas-de-Calais. Aeronaves de reconhecimento alemães passam a observar este dispositivo falso comandando por um general de verdade de grande credibilidade, o General Patton. O 15º Exército Alemão recebe ordens para desdobrar-se nesta região da França e preparar-se para repelir a invasão, coroando a operação “Fortitude” de sucesso.

A resistência francesa participou da coleta de informações de inteligência, que recebe mensagens da BBC codificadas durante a transmissão francesa. O desembarque denominado operação “Overlord”, deverá contar com o apoio dos partisans franceses antes e durante a invasão. Mensagens improváveis como um poema francês transmitido pela BBC avisaram a data do desembarque, quando os partisans intensificaram seus atos de sabotagem, destruindo ferrovias e linhas telefônicas, instalando minas e outros.



A Resistência Francesa

Os “Partisans” franceses desempenharam papel vital para viabilizar a operação “Overlord”. Segundo o General Willian Donovan, chefe da inteligência dos EUA, a maior parte das informações úteis durante o desembarque foram fornecidas por eles, embora seja difícil quantificar uma organização que trabalhava na clandestinidade e sem arquivos, e talvez por este motivo muitas vezes esquecida. A Resistência Francesa começou tão logo os nazistas ocuparam a França, em 1940. Em 22 de junho deste ano o cabo telefônico entre o aeródromo de Boos e o comando alemão em Rouen foi destruído, inaugurando as ações desta organização, ainda que de forma individualizada. Com o tempo as redes foram surgindo e se adaptando às necessidades, como a evacuação de aviadores abatidos e sabotagem das linhas de comunicação eletrônica e ferroviárias.

Desprovida de refúgios adequados como platôs e montanhas, a Normandia não era o melhor lugar para uma rede subterrânea atuar, dispondo apenas das florestas da região. A França de Vichy obrigou vários franceses a prestarem trabalho aos nazistas, empurrado muitos voluntários às fileiras da resistência, que atingiu mais de 10 mil indivíduos, só na Normandia. A Gestapo reagiu com prisões e execuções. A falta de um comando central que agregasse os esforços de várias células não permitiu que todo o potencial desta organização fosse explorado. Comunistas, Gaulistas e grupos pró-britânicos não conversavam entre si, embora buscassem o mesmo propósito. Em fevereiro de 1944 organizaram-se as FFIs, Forças Francesas do Interior, com a agregação de várias redes e movimentos.

Quando da Conferência de Teerã em novembro de 1943, os Aliados ainda não tinham muita noção do potencial desta organização, ignorando-a inicialmente em seus planejamentos iniciais e capacidade de executar ações táticas. O próprio General De Gaulle não estava a parte das minúcias dos preparativos da invasão. O tempo veio a aproximar os “Partisans” e os serviços de inteligência Aliados com uma série de operações clandestinas coordenadas a partir do “Dia D”, principalmente envolvendo sabotagem. As comunicações receberam especial atenção com mensagens enviadas para Londres por pombos-correio e transmissões de rádio fornecidos pelos aliados, com a BBC passando instruções e informações gerais de forma ostensiva ou codificada. Por causa da natureza clandestina da organização, os combatentes da resistência careciam de meios antitanque e metralhadoras pesadas, que os Aliados buscaram preencher com o suprimento pelo ar de armas e equipamentos.

Agentes especializados em transmissão, demolição e armamento também foram enviados à França, através do SOE (Special Operations Executive). Esse comando de operações especiais britânico, criado por Winston Churchill, também operou em países neutros como a Espanha. Apelidados de “Jedburghs” e organizados em equipes de 3, esses agentes tinham a missão de apoiar e aconselhar a Resistência na Europa continental: eles foram responsáveis ??por informações sobre as ações dos Aliados, preparavam armas, munições e outros materiais e instalaram um sistema de comunicação viável. Os Jedburghs podiam, se necessário, assumir o comando das unidades de resistência locais. Os Aliados não limitaram seus preparativos apenas à Normandia: eles também planejaram ações em toda a França para retardar o progresso dos reforços alemães. Eles também procuraram evitar a sabotagem indiscriminada, de forma a preservar certas infraestruturas que poderiam ser úteis para os exércitos de libertação. Para esse fim, instruções precisas foram transmitidas de Londres. Os principais feitos da resistência normanda antes do início da Operação “Overlord”, foram essencialmente a aquisição de inteligência. Os Aliados fizeram milhões de fotos de praias e zonas de desembarque, concatenando-as às muitas informações sobre o terreno, infraestrutura, equipamento e moral do ocupante fornecidas pelos locais.

Desde o início de 1942, os alemães começaram a construção do “Muro do Atlântico” contra a possibilidade de um ataque anfíbio vindo da Inglaterra. Eles montaram milhares de estruturas defensivas, contando principalmente com a força de trabalho local: na Normandia, os combatentes da resistência se envolvem em vários destes projetos para estabelecer secretamente planos para essas instalações; alguns aproveitam a oportunidade para colocar cubos de açúcar em misturadores de concreto para reduzir a resistência dos bunkers de concreto construídos ao longo da costa. Cópias desses planos chegaram à Inglaterra, onde foram analisadas pelos serviços de inteligência. As informações obtidas pela resistência também permitiram aos Aliados refinar seu grau de conhecimento sobre as unidades alemãs presentes na Normandia: as ordens de batalha e a história das várias divisões presentes foram detalhadas até o nível de companhia, permitindo uma estimativa de seu valor de combate. Assim, se informou Londres da chegada da 352ª divisão de infantaria alemã a partir de 15 de março de 1944, uma unidade forjada por longos meses de luta na frente russa que representariam um formidável oponente às forças aliadas. Para aumentar as chances de sucesso da operação Overlord, as redes francesas recebem uma sucessão de ordens para entrar em ação, essencialmente através das “mensagens pessoais” da BBC. Cada frase codificada foi enviada a uma rede específica, que conhecia seu significado e data de execução, a fim de iniciar as ações de sabotagem e interromper as forças alemãs. Assim, de 1 a 3 de junho de 1944, a primeira parte do verso de “Verlaine” é transmitida nas ondas radiofônicas. Em 5 de junho de 1944, às 21h15, foram transmitidas as seguintes mensagens: “... feriram meu coração com uma lentidão monótona”: os resistentes tinham, neste caso, 48 horas para realizar uma ação de sabotagem específica. Por inferência, algumas redes provavelmente estabeleceram que a Operação Overlord ocorreria nas próximas 48 horas.

Na madrugada de terça-feira, 6 de junho de 1944, após os primeiros atritos, os membros das redes de resistência foram espontaneamente ao encontro das forças aliadas, às vezes para servir de batedores. Seu excelente conhecimento do terreno tinha um valor agregado inegável para tropas e unidades aéreas. No entanto, os Aliados estavam cautelosos com as informações que podiam obter da população francesa e procuraram primeiro garantir que seus interlocutores não fossem colaboradores que pudessem operar como agentes duplos. Vários normandos que se aproximaram dos soldados aliados foram, portanto, mortos por engano. Os riscos incorridos durante essas ações foram particularmente altos: um grande número deles possuía muito pouco conhecimento militar e se opunham a um treinamento por um exército experiente e melhor equipado. Na noite de 6 de junho de 1944, as perdas da resistência são estimadas em 124 mortos, feridos, desaparecidos ou feitos prisioneiros. No entanto, a natureza repentina e maciça dessas sabotagens surpreendeu profundamente e ajudou a abalar as forças alemãs.

No dia D, dezenas de combatentes franceses da resistência estavam custodiados pelos alemães na prisão de Caen. À medida que os bombardeios aéreos aumentavam, e com o medo de ver as forças aliadas chegarem à capital da Baixa Normandia, os alemães não queriam correr o risco dos prisioneiros fugirem para se juntar aos agressores. Inicialmente, eles planejaram transferi-los de trem para uma instituição penitenciária na região de Paris. Mas as linhas ferroviárias sofreram tanta degradação que qualquer movimento por esse meio era impossível. Os alemães então receberam ordens da Gestapo de Rouen: eles deveriam atirar nos prisioneiros. 87 foram mortos no pátio da prisão. Essas práticas repetiram-se, várias vezes, com os corpos jogados em valas comuns.

Após o desembarque, a Resistência continuou a fornecer inteligência aos Aliados durante toda a Batalha. No início de julho de 1944, quando a frente estagnou, a aquisição de informações sobre posições e dispositivos alemães permaneceu limitada; os Aliados pediram à resistência, via SOE, para obter mais informações para poderem vencer o impasse. A fim de limitar a chegada de futuros reforços alemães à Normandia após o desembarque, comandos franceses foram lançados de paraquedas sobre a Bretanha. Essas operações paralelas ocorreram em junho e agosto de 1944, com a participação de 538 paraquedistas do Serviço Aéreo Especial (SAS). Eles coordenaram as várias redes de resistência para lutar efetivamente contra o ocupante. Sua fraqueza estrutural e falta de recursos paradoxalmente, ajudaram de forma involuntária a resistência francesa, porque os alemães gastaram uma energia cansativa para entender sua organização e o esboço exato de seus muitos dispositivos, sem nunca conseguir pôr um fim às suas atividades. O general Eisenhower, comandante-chefe dos exércitos aliados na Europa, teve que escolher entre coordenar as ações da resistência francesa ou favorecer ações excessivas durante o surto da Operação Overlord. Por estar lutando para esconder suas preocupações com o sucesso desse ataque ousado, ele finalmente fez a escolha da sabotagem em massa, correndo o risco de danificar a infraestrutura potencialmente útil como resultado da guerra.

O impacto preciso da resistência na condução dos desembarques da Normandia não é quantificável, mas não há dúvida de que ela desempenhou um papel de liderança no sucesso dos exércitos aliados. Segundo Eisenhower, a resistência francesa foi inestimável durante a libertação da Europa em 1944: sem a sua grande ajuda, os combates na França teriam durado muito mais tempo e teriam causado mais baixas nas fileiras dos combatentes.



A Muralha do Atlântico

Apesar do foco da Wehrmacht estar no front oriental, a ocupação da França no ano anterior demandou que algumas divisões ficassem ali estacionadas, pois os alemães tinham o desembarque ali, vindo das ilhas britânicas como uma certeza, só não sabiam quanto aconteceria. Esta região também serviria para o descanso e recuperação de divisões que estavam já desgastadas pelo atrito na Rússia, e poderiam ali retomar o fôlego.

Criado por Fritz Todt, ministro do armamento e munição do Reich, a Organização Todt (OT) era um grupo paramilitar especializado em construções militares, como casamatas e estradas para suportar veículo blindados. Em 1941, começaram os trabalhos nas costas do canal da Mancha e do mar do Norte, depois que a invasão alemã contra a Inglaterra (Operação Leão Marinho) foi cancelada. Fortificações de concreto armado forram construídas da Noruega ao País Basco espanhol e também no Mediterrâneo, com campos minados, milhares de quilômetros de arame farpado, casamatas e bunkers de artilharia, obstáculos de praia, valas anti-tanque, etc... Esta fortificação, chamada de “Muro do Atlântico”, foi muito reforçada em áreas “sensíveis”, como as mais próximas da Inglaterra, por exemplo, em Pas-de-Calais, onde um desembarque era mais do que provável, segundo os generais alemães. Baterias costeiras armadas com armas de grande calibre foram construídas em locais importantes da costa para proteger portos e áreas mais prováveis.

Em agosto de 1942, os Aliados empreenderam um ataque na área de Dieppe, que fracassou, mas cuja intenção era ganhar experiência junto a estas fortificações e na desconhecida arte do desembarque anfíbio. Os oficiais do Estado Maior Alemão estacionaram o forte 15º exército em Pas-de-Calais, com cerca de 150.000 homens. Em janeiro de 1944 um dos mais conceituados generais do Reich, Erwin Rommel foi designado para comandar este setor sensível, sob às ordens de von Rundstedt.

Ele acreditava que o dispositivo defensivo deste setor não era suficiente, e decidiu inundar as áreas baixas para dificultar as manobras de paraquedistas. Instalou campos minados nas praias e obstáculos para o pouso de planadores e a chegada de lanchões. Sua experiência em lutar no norte da África foi de grande valia, pois tinha consciência de que se os Aliados conseguissem desembarcar nas costas francesas, ficaria muito difícil repeli-los de volta ao mar. Assim, o trabalho se intensifica principalmente nas costas do norte da França até a Holanda. Mas a Alemanha ainda está em campanha na Rússia e na Itália, e estas duas frentes exigiam uma quantidade muito grande de matérias-primas e meios militares, o que o atrapalhou em suas requisições. A Organização Todt lançou várias operações em toda a Europa para reunir a quantidade máxima de material que pode durante a criação desse gigantesco “Muro do Atlântico”.

Na Normandia, e como em outros lugares, os alemães construíram baterias de artilharia costeiras, poderosamente armadas e protegidas em seu entorno. Entre Barfleur e Le Havre, existiam pelo menos 6 baterias: as de Merville, Longues-sur-Mer, Pointe du Hoc, Maisy, Azeville e Crisbecq. Elas eram capazes de disparar até 30 km e foram uma grande preocupação para os planejadores Aliados. O “Muro do Atlântico” não foi apenas um dispositivo de obstáculos, casamatas e campos minados. Inúmeras estações de radar foram disponibilizadas ao longo da costa, da Noruega à Espanha, além de estações de escuta. Entre Cherbourg, Vire e Le Havre, existiam 1 radar de identificação, 2 radares do tipo "Freya", 5 radares de vigilância costeira de longo alcance, 7 radares de vigilância costeira e 14 radares gigantes Wurzburg. Frequentemente, esses radares eram associados à armas antiaéreas (canhões FLAK de 88 mm), muito eficazes tanto no fogo antiaéreo como no fogo de apoio terrestre.

Para contra-atacar no caso de um desembarque, as forças alemãs tinham 3 divisões “panzer” e um regimento de “Fallschirmjäger” (paraquedistas), além das divisões de infantaria clássicas posicionadas ao longo da costa e guarnecendo as fortificações, sendo muitas deslas, unidades retiradas da frente oriental e colocadas na Normandia para que pudessem descansar. Sua rotina era a vigilância, principalmente contra os atentados da resistência e bombardeios aliados, que atingiam regularmente alvos costeiros e os lembravam que a guerra não havia acabado.



Forças Alemãs na Normandia

Apesar de todo o dispositivo conhecido como “Muro do Atlântico” desdobrado na costa norte francesa, os alemães sabiam que essas estruturas eram limitadas e não poderiam repelir um ataque anfíbio dos Aliados. O exército alemão guarneceu a região com unidades militares experientes e poderosas, e garantiu que fosse observada uma disciplina rigorosa nos territórios ocupados: essa força de ocupação deveria evitar qualquer desvio de conduta que desse munição à resistência francesa. Longe de Berlim e das zonas de combate do Mediterrâneo e da Rússia, os generais alemães não encontravam muitas ocasiões para mostrar serviço e obter os favores do Führer; outros, muito felizes por estarem distantes da frente, se aproveitaram dessa situação e viviam em magníficas residências requisitadas, onde se interessavam cada vez menos pela guerra.

Essas unidades pertenciam à Wehrmacht , às SS , à Kriegsmarine e à Luftwaffe . Em 1944, as tropas alemãs já lutavam há cerca de 6 anos e o moral vinha caindo desde o início de 1942. As diferentes forças mantinham rivalidades, principalmente porque seus meios eram muito desiguais: as divisões SS eram duas vezes mais numerosas do que as da Wehrmacht, a Kriegsmarine tinha poucos navios de guerra e a Luftwaffe estava completamente desgastada desde o final da Batalha da Grã-Bretanha, e pelos contínuos bombardeios realizados pelos aliados. A multiplicidade de autoridades militares e a competição contraproducente entre estas forças (particularmente forte entre a Wehrmacht e as SS) eram particularmente prejudiciais para o Reich, com as decisões não sendo necessariamente tomadas no interesse geral da Alemanha, mas, às vezes, no de uma unidade comparada com outra.

O alto comando alemão tinha poder de decisão limitado: deveria necessariamente ter o apoio de Hitler para tomar decisões. Esse detalhe foi importante no decorrer dos eventos. Obviamente, essa fragilidade estrutural das forças alemãs afetava tanto as unidades no oeste quanto as que lutavam no leste e no Mediterrâneo. As forças terrestres alemãs do grupo do exército ocidental foram colocadas sob o comando do Marechal von Rundstedt, cujo posto de comando estava localizado em Saint-Germain-en-Laye. A costa do norte da França estava sob a responsabilidade do grupo B do exército comandado pela “raposa do deserto”, Marechal Rommel (instalado no castelo de La Roche-Guyon). Dois exércitos compartilhavam este setor: o 7º exército do General von Salmuth , instalado ao longo da costa da Bretanha até a foz do Sena, e o 15º exército do General Dollmann, instalado ao longo das costas de Le Havre ao Soma.

As forças marítimas alemãs posicionadas ao longo da costa do Canal da Mancha respondiam ao almirante Friedrich Rieve, cujo posto de comando estava localizado em Rouen. A marinha alemã, Kriegsmarine, controlava as unidades de superfície e submarinas do 3º Reich, bem como as baterias de artilharia costeira. Na primavera de 1944, o Kriegsmarine, na Normandia, estava sob o comando de 2 comandos diferentes: no oeste, o setor do almirante Walter Hennecke com sede em Cherbourg, abrangendo a baía de Mont-Saint-Michel até na foz do Orne, a leste, o setor do contra-almirante Henning von Tresckow com sede em Le Havre, que se estende da foz do Orne ao Somme. Já bastante enfraquecida pelos anos de guerra anteriores, a marinha alemã possuía apenas 163 caça- minas nesta área (Raumboote), 57 barcos de patrulha (Vorpostenboote), 42 barcaças de artilharia (Artilharia-Träger), 34 lanchas-torpedeiras (S-Boote) e 5 barcos de torpedos (Torpedoboote). Meios muito escassos em comparação com o poder dos 6.000 navios de diferentes classes da armada Aliada, que estavam concentrados no Canal da Mancha de junho a agosto de 1944.

A parte da Luftwaffe no oeste pertencia à 3ª Luftflotte, sob o comando do Marechal Speerle. Equipada com menos de 1.000 aeronaves para controlar todo o espaço aéreo francês, estas unidades foram continuamente bombardeadas pelos Aliados e não foram capazes de ocupar os aeródromos localizados ao longo da costa do Canal da Mancha. Na Normandia, em 6 de junho de 1944, apenas os esquadrões I / Jagdgeschwader (JG) 2 (Richthofen), I / JG 26 e III / JG 26 ( Schlageter ) e a Stab estavam presentes no local.

Von Rundstedt e Rommel não concordavam quanto a estratégia de defesa costeira: o primeiro considerava que deveriam deixar seus adversários adentrarem ao interior e depois contra-atacá-los durante a fase de aceleração, enquanto ainda estão em uma condição semi-vulnerável. O segundo pensava, ao contrário, que era importante, acima de tudo, não deixar os Aliados ganharem posição, caso contrário eles não seriam capazes de repeli-los. Os dois generais concordavam em uma coisa, no entanto: eram as formações “panzer” que fariam a diferença. Mas Rommel queria colocá-las imediatamente atrás das praias, enquanto von Rundstedt preferiam posiciona-los longe da costa, capazes de lançar um ataque blindado nas profundezas das linhas inimigas.

Em 6 de junho de 1944, Rommel não estava na Normandia: ele estava na Alemanha para comemorar o aniversário de sua esposa e com intenção de uma audiência com o Führer. Tentaria vender sua visão de que as unidades blindadas fossem posicionadas ao longo da Muralha do Atlântico, mas era tarde demais: os Aliados desembarcariam em seguida ...



domingo, 24 de novembro de 2019

Fortificações de Campanha - Doutrina Alemã de 1943 *


Parte 1


DOUTRINA ALEMÃ DA FRENTE ESTABILIZADA PREPARADA 
PELO DEPARTAMENTO DE GUERRA WASHINGTON 25
15 DE AGOSTO DE 1943 

A política alemã preconiza o emprego de forças altamente móveis e os sucessos militares da Alemanha foram obtidos em guerras de manobra. Durante os últimos 25 anos, o Alto Comando Alemão tornou-se completamente convencido da solidez das teorias Schlieffen de movimento, envolvimento e aniquilação, especialmente pela localização central da Alemanha na Europa, que lhe dá a vantagem de linhas internas de comunicação, considerada estratégica decisiva em uma guerra de manobra. Doutrinados e treinados nas teorias de Schlieffen, as tropas alemãs foram bem sucedidos na Guerra Franco-Prussiana, na Primeira Guerra Mundial (até que se envolveram na guerra de trincheiras de atrito), e nas campanhas polonesas, norueguesas e europeias ocidentais da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a posição central da Alemanha deixa de ser uma vantagem quando seus inimigos a envolvem em uma guerra de duas frentes. Sua logística disponível não é suficiente para assegurar uma vitória decisiva nos dois lados ao mesmo tempo. Para escapar a esta perspectiva, o Alto Comando Alemão chegou à conclusão de que pelo menos um dos lados deveria ser guarnecido com um grande sistema fortificado.

Uma doutrina de fortificações permanentes, de âmbito exaustivo, foi formulada sob o título "A Frente Estabilizada" (Die Standige Front). O conceito clássico de fortificações - cidades fortificadas isoladas em uma linha de pontos fortes contíguos foi abandonado como obsoleto. O Alto Comando alemão desenvolveu novos princípios à luz da guerra moderna, das armas da atualidade e do poder aéreo que exigia a construção de fortificações permanentes em sistemas de zonas, organizados em grande profundidade. Por "frente estabilizada" significavam não apenas posições fixas que os exércitos de campo poderiam ser obrigados a estabelecer durante uma campanha, mas também as "zonas profundas" de obras fortificadas que seriam construídas em tempo de paz.

A principal missão das fortificações no ocidente era servir no momento adequado como um trampolim para um contra-ataque; entretanto, até que a hora de seu emprego chegasse, eram proteger o flanco ocidental da Alemanha quando empreendeu a guerra ofensiva no leste. Assim, o Muro Oeste foi concebido como uma grande barreira contra a França e os Países Baixos. Mas é essencial perceber que a concepção do Muro Ocidental, longe de comprometer o alto comando alemão a uma atitude passivamente defensiva, deu maior alcance ao caráter ofensivo de sua doutrina. Todo o Exército alemão, incluindo as unidades atribuídas ao Muro Oeste, foi doutrinado com o espírito ofensivo e completamente treinado para uma guerra de movimento.

O papel das fortificações na estratégia alemã foi resumido na seguinte declaração do General von Brauchitsch, então comandante-em-chefe alemão, em setembro de 1939:

"A construção do Muro Ocidental, a mais forte barreira do mundo, nos permitiu destruir o exército polonês no menor tempo possível sem nos obrigar a dividir a massa de nossas forças em várias frentes, como foi o caso em 1914. Agora que não temos inimigo na retaguarda, podemos esperar calmamente o desenvolvimento futuro de eventos sem ter que enfrentar o perigo de uma guerra de duas frentes ".

Este estudo não se propõe a julgar a solidez do conceito alemão de fortificações. Contudo, pode-se ressaltar que, ao formular sua doutrina, o alto comando alemão não prevê que o muro ocidental e as grandes defesas costeiras nos países ocupados protegem as indústrias de guerra vitais contra-ataques maciços e destrutivos do ar. O objetivo deste estudo é fornecer uma síntese dos princípios alemães sobre fortificações modernas e as informações disponíveis sobre as diversas linhas de fortificações permanentes e de campo que a Alemanha construiu dentro e fora de suas fronteiras.





Doutrina Alemã para a Construção de Fortificações

Princípios Estratégicos 

Os alemães consideram a economia de forças como a regra fundamental a ser observada no planejamento de zonas de fortificações permanentes. Seu objetivo é conseguir uma defesa eficaz com um mínimo de mão-de-obra para que a maior parte dos exércitos de campo seja deixada móvel e livre para ação ofensiva em outro lugar. Em outras palavras, uma parcela muito pequena da força militar da nação ou de seu esforço de treinamento é alocada especificamente para as defesas permanentes e até mesmo as tropas que são atribuídas às fortificações, recebem o mesmo treinamento tático que as tropas dos exércitos de campo.

Uma zona permanentemente fortificada, tal como os alemães a concebem, deve servir a dois propósitos: sobretudo serve de base para operações ofensivas e, secundariamente, destina-se a proteger alguma área vital ou interesse do defensor.

O valor de uma tal zona defensiva depende do comprimento e da natureza geográfica das fronteiras nacionais, dos fundos disponíveis para a sua construção e da força potencial do inimigo. De acordo com a doutrina alemã, não há valor militar real em uma zona fortificada que possa ser estrategicamente desviada; Nem há qualquer razão para tais fortificações quando as forças opostas são muito mais fracas ou muito mais forte do que o defensor. Da mesma forma, o custo de um sistema de fortificações não deve ser tão grande a ponto de privar os exércitos de campo de meios adequados para treinamento e equipamento, mas o suficiente deve ser gasto para torná-lo tão forte quanto necessário. A doutrina alemã também pressupõe que o progresso natural da tecnologia produzirá armas que limitarão o valor de quaisquer defesas específicas a um período de anos. Portanto, os alemães constroem suas fortificações para resolver um problema estratégico definido e não para evitar os problemas futuros.

Para fins de ofensiva estratégica, os alemães colocam uma zona fortificada suficientemente perto da fronteira para servir como base de operações militares contra a nação vizinha. Para fins de defesa estratégica, eles o constroem suficientemente longe da fronteira para privar um ataque de força inimigo antes que ele possa alcançar as defesas principais. Em ambos os casos, a zona fortificada é geralmente localizada o suficiente dentro da fronteira para tornar impossível para o inimigo bombardeá-lo com baterias pesadas colocadas em seu próprio solo. No entanto, em casos excepcionais - onde, por exemplo, as indústrias pesadas devem ser protegidas - os alemães podem construir uma zona defensiva imediatamente adjacente à fronteira inimiga.

Neste sistema fortificado, os flancos são afastados tanto quanto possível, a menos que possam ser apoiados em obstáculos naturais inexpugnáveis ou nas fronteiras de países amigos que sejam capazes de manter a sua neutralidade.

Quando esta zona fortificada se encontra ao longo de uma margem de rio, o sistema inclui uma série de pontes, de modo que os defensores possam realizar contra-ataques. Como sempre, a doutrina defensiva alemã se vale do princípio de que a ação ofensiva é, em última análise, a melhor proteção.

Concebida para permitir o livre movimento lateral das tropas, e proporcionar espaço e meios para um contra-ataque eficaz, na ofensiva, os alemães sustentam que uma zona de fortificações artificiais tem vantagens definitivas sobre obstáculos naturais, como montanhas ou rios, porque permite que tropas desembarquem para contra-atacar em qualquer ponto desejado, e da mesma forma as forças em combate podem desengajar-se mais facilmente quando for conveniente.

Fortificações isoladas como uma cidade-fortaleza, mesmo aquelas providas de proteção total, são consideradas obsoletas, onde a população civil é um fardo para os defensores, e além disso, que tal cidade é vulnerável a bombardeios aéreos incendiários.




Princípios Táticos

A Função das Tropas

Espírito ofensivo

A doutrina alemã sustenta que a infantaria deve ser o fator decisivo no combate dentro de zonas fortificadas, bem como em uma guerra de movimento. A resistência tenaz da infantaria, mesmo sob o fogo mais pesado, e sua capacidade em fazer contra-ataques, são a medida da força da defesa. As ações decisivas são geralmente desencadeadas no terreno entre os "bunkers" pelo soldado de infantaria em combate corpo-a-corpo com seu rifle, baioneta e granada de mão. Não menos determinada deve ser a defesa de qualquer instalação permanente, onde a doutrina afirma que a principal posição fortificada deve ser mantida contra todos os ataques, e que cada elo em suas obras deve ser defendido até o último esforço. Dever-se envidar empenho para imbuir cada soldado com a vontade de destruir o atacante. Cada soldado também é ensinado a continuar a luta, mesmo que a maré da batalha flua ao longo e ao redor dele.

Fortificações permanentes, nunca devem ser entregues, mesmo quando todas as armas estiverem fora de ação por falta de munição ou redução da posição. A razão deste princípio é que a perseverança da guarnição, mesmo sem luta ativa, impede o avanço do inimigo e facilita o contra-ataque. Aqui reside uma diferença básica entre a visão alemã dos combates defensivos em frentes fortificadas permanentes e da defesa na guerra de movimento: neste último a perda de uma posição individual não é considerada crítica.

As armas pesadas da infantaria e da artilharia são a espinha dorsal da defesa em uma posição permanente. Durante o bombardeio pesado e prolongado, as instalações permanentes, com suas fortificações de concreto e aço, protegem as armas e suas guarnições, e mantêm as tropas desengajadas da luta em condições de realizar um contra-ataque eventual. Somente neste sentido, os alemães consideram zonas fortificadas taticamente defensivas. "Bunkers" individuais podem ser tomados por um atacante determinado, mas, por causa de seu grande número e dispersão, uma resistência organizada pelos trabalhos restantes pode continuar até que forças móveis sejam trazidas para repelir o inimigo.



Contra-ataque

É indispensável manter pequenas reservas de infantaria em posições fortificadas. Estas reservas são protegidas por reforços que podem ser deslocados rapidamente por meio de túneis para a área onde são necessários para o contra-ataque. Assim que o atacante dominar qualquer parte da zona fortificada, essas reservas são enviadas para a ação antes que o inimigo possa organizar-se e aproveitar seu êxito. Para o contra-ataque, o defensor tem a vantagem de um sistema coordenado e completo de observação e comunicação. Além disso, o defensor deve dispor de reservas protegidas, descansadas e íntegras, sem as baixas que sofrem quando passam pelo assédio da artilharia, e sem a perda de tempo envolvido em traze-las da retaguarda.

Deve-se tentam impedir que as reservas locais cedam a um ataque organizando e reservas adicionais tenham que ser deslocadas a partir da retaguarda, seja por túneis ou por estradas pouco visadas. Todo o esforço é feito para dar a essas reservas apoio de artilharia e para familiarizá-las com o terreno. As reservas setoriais e as unidades da zona intermediária podem iniciar o contra-ataque sem ordens específicas. As unidades com missões de segurança não participam no contra-ataque.

O momento mais favorável para um ataque em larga escala é quando a artilharia inimiga e suas armas antitanque estarão trocando para novas posições. Desde que a situação o permita, a tarde é considerada preferível à manhã, porque após o objetivo ser alcançado, O terreno recuperado pode ser consolidado durante as horas de escuridão.

Como regra geral, as tropas mantidas em prontidão para um contra-ataque geral são empregadas como uma unidade. É vantajoso anexá-las a uma divisão em linha por causa da conduta uniforme da batalha. Se a situação demandar que partes de uma divisão sejam destacadas para o apoio de outras unidades, deve-se subordina-las ao comandante do setor de batalha correspondente.

Se o inimigo conseguir penetrar na posição fortificada principal em vários pontos, as outras posições atacadas devem continuar a batalha sem levar em conta a situação nos pontos de penetração. As rupturas inimigas serão  tratadas por pontos fortes na retaguarda, pontos de proteção de flanco, e as armas da infantaria pesada não empregadas de outra maneira, que dirigem seu fogo de encontro aos pontos da penetração e contrapõem o inimigo antes que consolide seu êxito. 

Satura-se constantemente com fogo de barragem de artilharia além dos pontos de penetração do inimigo, a fim de atrasá-lo e tornar difícil a chegada de reforços. Posições de contato isoladas, onde o inimigo está lutando em combate próximo, serão apoiadas por fogo controlado de armas de infantaria pesada e de artilharia leve. No entanto, as armas de infantaria pesada não serão empregadas quando as guarnições dentro dos “bunkers” possam vir a ser ameaçadas. Ao dirigir seu fogo contra os pontos de penetração, procura-se destruir o inimigo antes de consolidar seu êxito.

Suporte tático

Outra função essencial das reservas é regularmente substituir as tropas empregadas em uma zona fortificada para que sua força de combate possa ser mantida ou restaurada. Por causa das missões especiais das tropas permanentes, sua substituição pode ser completamente prevista, e é realizada sem interromper a continuidade da defesa. A amplitude da substituição depende da condição dos homens, bem como das forças disponíveis. O movimento é efetuado de modo que as unidades substitutas cheguem depois do anoitecer e, em qualquer setor que esteja sujeito à observação do solo, as unidades substituídas se movam antes do amanhecer. Os destacamentos avançados preparam a substituição; guias e destacamentos de orientação dirigem a manobra. A prontidão completa para a defesa é mantida.




Fortificações Permanentes e de Campo

Comparação de Trabalhos Permanentes e de Campo

Embora as fortificações permanentes se conservem ao longo do tempo, exigem muitos recursos e mão-de-obra antes das hostilidades. Fortificações de campo consomem muito menos em trabalho e recursos, mas exigem esforço para sua defesa. Tanto os blindados modernos quanto morteiros pesados são tão móveis que o atacante sempre pode trazê-los dentro do alcance de qualquer zona defensiva. O fogo destas armas, bem como o bombardeio aéreo, é eficaz contra fortificações de campo, mas nem tanto contra obras defensivas permanentes. A solução ideal do problema em um sistema defensivo moderno, é traçar fortificações permanentes e de campo para que se complementem e aproveitem plenamente o terreno.

Outro princípio é que o terreno mais vulnerável deve ser dotado das melhores obras defensivas permanentes, organizadas em grande profundidade, mas obedecendo a critérios rigorosos. A zona defendida é em toda parte transformada quanto os recursos disponíveis permitem, e nenhum terreno deve ser deixado sem a devida cobertura de fogo.

Características das Obras Individuais

Pontos dispersos são geralmente unidos por trincheiras de conexão para formar sistemas defensivos. As fortificações são construídas para a defesa total de áreas de defesa de pelotão ou companhia; Elas podem ser combinadas em áreas de defesa de batalhão estreitamente organizadas ou escalonadas em largura e profundidade. A força, tamanho, guarnição, armamento e equipamento de tais obras dependem da missão das fortificações. Devem ser localizadas de modo a permitir um sistema de defesas de zona. O fogo de tais posições é especialmente eficaz porque mesmo sob bombardeio inimigo, o objetivo e o controle de fogo pode ser mantido. As grandes fortificações permanentes isoladas e não apoiadas pelo fogo de outras fortificações são consideradas obsoletas.

Devido à relativa dispersão dos pontos fortes e à minuciosidade das defesas antiaéreas, o bombardeio aéreo não é eficaz em destruir um sistema de fortificação moderno. Portanto, emprega-se em maior proporção a defesa aérea no apoio geral, bem como no apoio local de grandes contra-ataques.

Onde a resistência decisiva deve ser mantida, emprega-se concreto e aço siderúrgico forte o suficiente para fornecer proteção moral e física contra o fogo indireto mais pesado do inimigo. Um estudo cuidadoso é feito da artilharia inimiga - seu poder, alcance e mobilidade - e um reforço especial é feito nas áreas que podem ser alcançadas por armas de longo alcance. A espessura da cobertura de concreto necessária para resistir ao fogo de artilharia é aproximadamente 10 vezes o calibre máximo que pode disparar sobre ele. Quando se decide que é necessária uma fortificação permanente, especifica-se que ela deve ser construída de acordo com esses requisitos básicos.

As armas de infantaria são geralmente colocadas em obras permanentes. Artilharia e outros meios de apoio são colocados principalmente em posições abertas, com a sua proteção de campo normal, a fim de manter a mobilidade. Em pontos críticos onde o fogo contínuo é essencial, alguma artilharia pode ser colocada de forma permanente.

Os "bunkers" de concreto são geralmente usados para flanquear o fogo em posições que são protegidas da observação direta pelo inimigo. As torres de aço são usadas em todas as obras que disparam frontalmente e que consequentemente são construídas com silhuetas baixas para um bom desenfiamento; Elas também são consideradas essenciais para flanquear fogo em terreno plano.

Fortificações de Campo

As obras permanentes são amplamente complementadas por fortificações de campo e locais de substituição de armas cujas missões de fogo incluem a proteção de portos, rotas de comunicação e áreas afins. As fortificações de campo também permitem que as guarnições continuem a luta quando suas posições permanentes foram neutralizadas e oferecem posições de tiro para reservas no contra-ataque.

De acordo com a doutrina alemã, fortificações de campo são construídas em tempos de tensão ou guerra para reforçar frentes estabilizadas. A construção destas obras é realizada de acordo com planos preparados em tempos de paz por unidades de construção ou por unidades de tropa atribuídas às fortificações. Equipamentos e ferramentas disponíveis e, em certa medida, materiais de construção preparados em tempo de paz são utilizados para este fim.

Com um conflito iminente ou já iniciado, a construção abrange as obras listadas abaixo, sendo o número e o escopo em cada setor dependentes da força das fortificações que foram concluídas em tempo de paz:

  1. Obstáculos na área de posto avançado,
  2. Reforço dos obstáculos na posição avançada e na posição de batalha principal,
  3. Espaldões abertos para armas de infantaria leve e pesada no terreno entre instalações permanentes, e na profundidade da posição de batalha principal,
  4. Calhas à prova d'água nas proximidades dos espaldões,
  5. Postos de observação, posições de artilharia e cobertura para as guarnições,
  6. Postos de comando e instalações de todos os tipos,
  7. Trincheiras de todos os tipos - trincheiras de comunicação rasas e normais, trincheiras de fogo, trincheiras de aproximação e trincheiras de fio telefônico,
  8. Instalações simuladas e camuflagem,
  9. Abrigos profundos no setor traseiro da posição de batalha principal, e também atrás da posição de batalha, se o terreno for adequado,
  10. Obstáculos flanqueadores e posições de retaguarda.

O valor das fortificações de campo reside, em seu pequeno tamanho, seu grande número e suas pequenas exigências de camuflagem. Elas obrigam o inimigo a dispersar seu fogo.

Posições temporárias para armas de infantaria pesada e artilharia são empregadas para atacar o inimigo que se aproxima nas posições avançadas sem trair a localização das instalações permanentes. Elas também podem ser usadas como posições alternativas. A construção, bem como a manutenção e reparação de fortificações de campo, é implementada pelas tropas durante o combate.

Profundidade

As zonas fortificadas devem ser colocadas suficientemente profundas para obrigar a artilharia atacante e o seu serviço de remuniciamento a mudar de posição durante o ataque. O objetivo é privar o atacante do efeito surpresa, e fazer com que ele perca tempo valioso, que pode ser usado pelo defensor na organização de um contra-ataque.

Se uma limitação de espaço não permitir a construção de uma zona de densidade uniforme que satisfaça a exigência de profundidade, constroem-se 2 corredores fortificados paralelos de força máxima, separados por essa distância que assegurará máxima desorganização e embaraço à artilharia atacante. O terreno intermediário entre estes corredores é dotado de obras permanentes, as quais, embora sem densidade, estão situadas de forma que tornem o progresso lento e difícil. Fortificações de campo também são construídas na área intermediária, e deles metralhadoras, canhões antitanque e outras armas de infantaria complementam e reforçam o fogo defensivo. Obstáculos de todos os tipos são empregados extensivamente em toda uma zona para atrasar e forçar o inimigo a avançar em uma área particular que é mais adequada para a defesa.

A área de posto avançado, que inclui fortificações de todos os tipos possíveis, também é calculada para dar profundidade a uma zona fortificada, e para ajudar a absorver qualquer ataque surpresa que é dirigido contra a posição principal. A missão das tropas nessa área é impedir que o inimigo utilize fogo de artilharia observada na posição de batalha principal, adiar sua aproximação e causar baixas.



Controle de Fogo

Fogo sem lacunas

A base para a defesa de uma posição principal em um sistema fortificado é um plano de fogo sem lacunas. O campo efetivo de fogo das armas de infantaria pesada de suas posições fixas é determinado pelos limites de suas lacunas. As armas de infantaria colocadas em fortificações de campo complementam este fogo. As armas de infantaria pesadas também participam de fogos assediados, destrutivos e de barragem de acordo com seu alcance efetivo, mas sua principal missão é a defesa contra ataques. Quando o inimigo começa a atacar as fortificações, das posições fixas faz-se um fogo defensivo com base em dados previamente preparados e incluídos no plano de fogo.

O plano de fogo regula a coordenação e a distribuição do fogo das armas instaladas nas fortificações permanentes e de campo para que todas as áreas em que um ataque possa ocorrer sejam batidas por uma ou mais armas e assim controladas. O fogo das fortificações permanentes é limitado nos flancos, de forma que se fornece suporte a estes setores, em especial com metralhadoras, dos trabalhos de campo.

A posição a partir da qual as armas inimigas podem abrir fogo contra brechas é estimada de antemão pelas tropas cobrindo cada lacuna. Minas também podem ser colocadas em pontos apropriados. O plano de fogo é confeccionado para garantir um cinturão contínuo de fogo, mesmo que as fortificações individuais sejam colocadas fora de ação. Os comandantes regimentais são responsáveis pela coordenação das cartas de fogo nos limites dos setores do batalhão.

Distribuição e Controle de Fogo

A decisão de abrir fogo é feita pelo comandante do batalhão, ou pelo comandante de uma fortificação ou grupo de fortificações. Os comandantes subordinados das obras podem abrir fogo de forma independente assim que tiverem recebido a ordem de "fogo à vontade" do batalhão ou do comandante da fortificação. Para parar o inimigo logo, prescreve-se que o fogo deve ser implementado no longo alcance de acordo com os dados no plano de fogo.

As armas de uma fortificação permanente tentam sempre atrasar a abordagem do atacante imediatamente, e especialmente para impedir que as armas inimigas individuais sejam posicionadas. As armas das obras concretas primeiro envolvem dos flancos os alvos mais perigosos que aparecem em seu setor de combate e, portanto, tais obras são fornecidas com proteção frontal por posições permanentes e de campo. Alvos nos setores de outras posições são engajados apenas por ordem de um comandante superior, mesmo que os alvos pareçam vale a pena.

Os setores de combate são subdivididos em setores de armas, porque, nas torres blindadas, as metralhadoras disparam, como regra, em alvos separados. Devido à possibilidade de falhas de cobertura, o fogo combinado de ambas as metralhadoras só pode ser empregado em casos excepcionais e, em seguida, apenas a intervalos médios e longos. O fogo é combinado se o alvo está no alcance de ambas as armas, e se um efeito decisivo pode ser alcançado.

Pela mudança freqüente e rápida dos alvos, pode-se fazer fogo em muitos alvos em um curto período de tempo, usando assim completamente o efeito do arco do fogo das armas. Se uma mudança de alvo necessita de uma mudança de cobertura, é realizada de forma escalonada pelas metralhadoras sucessivamente, para evitar a interrupção do efeito de fogo. Uma vez que os morteiros complementam o fogo defensivo das metralhadoras, especialmente em terreno acidentado, busca-se uma estreita cooperação com os canhões nos “bunkers”. Morteiros instalados no campo suportam o fogo das outras armas de infantaria pesada e a artilharia em lugares onde o efeito das duas últimas armas não é suficiente.

As armas de infantaria abrem fogo o mais rápido possível. Sua principal missão é engajar alvos problemáticos que não podem ser alcançados por outras armas. Ao empregar armas colocadas em “bunkers”, abre-se fogo assim que o inimigo se coloca dentro do alcance efetivo de suas armas flanqueadoras. Se uma posição é colocada fora de ação, as posições vizinhas assumem o seu setor de combate. Através do fogo flanqueador elas tentam impedir qualquer penetração inimiga através da lacuna resultante, na medida em que isso é permitido pelo alcance efetivo de suas armas e a necessidade de defender seu próprio setor frontal. As tropas devem saber que quando uma posição é perdida, o flanqueamento de fogo das posições vizinhas pode ser decisivo para repelir uma penetração do inimigo.

Controle de fogo das metralhadoras

As metralhadoras são a base de fogo da infantaria em posições de combate. Elas dirigem seu fogo de acordo com as ordens de combate e, em regra, ordenam a imposição direta na força de suas próprias observações.

Os alvos a serem engajados por metralhadoras em posições preparadas são designados pelos comandantes da fortificação de acordo com os dados fornecidos pelos observadores em torres de observação. Se os alvos designados não podem ser vistos de “bunkers”, ou se os alvos são designados por fumígenos, os observadores podem tomar para si o controle do fogo também.



Defesa Anticarro

Uma zona defensiva é protegida contra ataques de blindados por obstáculos naturais ou artificiais que são cobertos por armas anticarro adequadas de todos os tipos. Na área avançada, fortes unidades anticarro móveis são unidas às forças empregadas na área de posto avançado para lidar com as forças blindadas inimigas.

A missão principal dos canhões anticarro estáticos de todos os calibres e da artilharia especialmente designada em uma zona fortificada é destruir os blindados de apoio de infantaria, que poderiam atacar as lacunas de posicionamento em uma posição fortificada principal.

Se o inimigo conseguir penetrar na principal posição fortificada, os defensores solicitam que forças de reserva com poder anticarro apoiem a posição no ponto de penetração. Se as forças blindadas do inimigo tentarem uma penetração adicional da posição principal, as reservas móveis de unidades anticarro, os sapadores mantidos disponíveis e as reservas móveis de canhões antiaéreos são empregadas para engaja-los. Em casos de perigo imediato, direciona-se a artilharia antiaérea com prioridade à defesa anticarro, preterindo a ameaça aérea. Se for necessário o reforço das defesas anticarro fixas em uma zona fortificada, as companhias anticarro são empregadas para este fim em posições de campo entre as obras fortificadas. Em tal caso é subordinada ao comandante do setor, Como são as defesas fixas anticarro. No entanto, o uso destas unidades anticarro em apoio às defesas permanentes é considerado em caráter excepcional. A companhia anticarro fornece a profundidade necessária para a defesa anticarro do setor regimental. Somente em casos excepcionais, como em terreno absolutamente seguro contra ataque de blindados e bem protegido por obstáculos efetivos e com um número suficiente de canhões antitanque, é que as companhias anticarro devem ser usadas como uma reserva móvel. A sua disponibilidade depende da sua mobilidade e da sua capacidade de manobra em todo o setor.

As armas anticarro fixas são guarnecidas por unidades anticarro da fortificação. Unidades anticarro de infantaria engajam principalmente os blindados leves e médios. Os pesados são engajados por armas especiais, apoiadas por engenheiros e artilharia. As metralhadoras colocadas nas fortificações normalmente disparam contra a infantaria inimiga, e também disparam nas janelas de observação dos blindados.

Artilharia

A artilharia que apoia uma zona fortificada consiste em artilharia de posição, que é estacionária ou de mobilidade limitada, artilharia de divisão móvel e artilharia de exército, usada para reforço. A maior parte da artilharia de defesa é altamente móvel para que possa ser empregada concentrada nos pontos em que o inimigo tentar um ataque decisivo. As posições de artilharia são preparadas na área avançada de toda a zona fortificada, e à retaguarda desta zona para o número máximo de baterias de artilharia necessárias. Estas posições são dispostas tanto quanto possível perto de rotas de aproximação. As posições também incluem proteção para homens e munições, e têm comunicações subterrâneas para postos de observação previamente estabelecidos, que são usualmente localizados em torres blindadas. 

Na fase inicial do combate, a maior parte da artilharia de defesa leve e média é mantida nas posições avançadas para missões de contrabateria e contrapreparação. Se a artilharia de defesa é forçada a deslocar-se para cobrir um ataque que atinge a zona fortificada, deve-se concentrar fogo máximo sobre a infantaria inimiga, a fim de efetivamente preparar um contra-ataque. Para este propósito, um certo número de baterias na zona fortificada são colocadas atrás da proteção que pode suportar o fogo de artilharia inimiga mais pesado. Essas baterias são colocadas permanentemente.

No caso de o contra-ataque falhar e a artilharia divisória em defesa for forçada a abandonar sua posição nas áreas avançadas da zona fortificada, esta artilharia deverá concentrar todo o seu fogo na infantaria inimiga.

A doutrina estabelece de que a ligação mais estreita deve ser entre artilharia e infantaria e a interação da artilharia com todos os outros ramos do serviço em campanha são fatores decisivos na condução do combate de artilharia e no desfecho da defesa. Ela prescreve que esta cooperação deve ser estabelecida e mantida em todos os sentidos. Unidades de coordenação divisionárias de artilharia desempenham este papel. A artilharia é treinada para implementar constantemente as seguintes escaramuças:

  1. Mudanças repetidas de posições entre as missões de tiro,
  2. Atividade restrita na posição de tiro escolhida para a batalha decisiva,
  3. As missões individuais e os fogos de assédio são realizados principalmente através da rotatividade entre as baterias,
  4. Algumas baterias em repouso são mantidas na reserva de modo a estar disponível para missões especiais durante o ataque inimigo.




Observação, Reconhecimento e Relatórios

A constante observação do terreno é feita de todas as fortificações, antes da aproximação do inimigo e durante o ataque, e é considerada como de extrema importância. A observação é prejudicada durante as pausas no combate, particularmente durante a escuridão ou com neblina. Nos trabalhos que não têm instrumentos ópticos de campo, a observação é mantida através de lacunas. Em “bunkers”, torres blindadas e postos de observação, os instrumentos ópticos fixos padrão são usados para esta finalidade. Instrumentos suficientes devem ser dotação para permitir a observação extensiva, sem brechas de todo o terreno em combate.

Todas as observações úteis devem ser relatadas constantemente para o quartel-general e transmitidas aos comandantes de outras fortificações. Além disso, quando solicitados pelos escalão superior, os comandantes da fortificação fazem relatórios diários breves, incluindo:
  1. Conclusões extraídas das observações do inimigo,
  2. Engajamentos,
  3. Força em combate e perdas, 
  4. Condição das fortificações, armas e instrumentos, 
  5. Requisições para substituições e suprimentos. 

A missão principal da aviação de reconhecimento anexada às guarnições do corpo é assegurar a informação avançada sobre preparações inimigas para o ataque. Nos combates em larga escala, usam-se aviões de reconhecimento para esclarecer sua própria situação também. Durante as pausas, essas aeronaves supervisionam a camuflagem de instalações de combate concluídas, bem como aquelas em construção.



Comunicação e Controle

Todos os comandantes em uma zona fortificada são mantidos plenamente informados em todos os momentos da situação real dentro de sua área de comando. Em um esforço para assegurar um fluxo contínuo de informações, tenta-se manter um sistema de comunicação funcionando sem falhas sob o maior tempo possível sob fogo do inimigo. Normalmente, um sistema de cabo duplo, enterrado fora do alcance das bombas aéreas pesadas e dos impactos da artilharia. 


Com a finalidade de manter um comando e controle (C2) eficiente, os “bunkers” vizinhos ou as torres, são unidos em um grupo ou fortaleza por túneis. Desta forma, o exército tenta assegurar não só um maior controle tático, mas também uma maior força tática. Cada fortaleza forma uma área de defesa de batalhão na qual os fortes individuais são capazes de apoio mútuo. Os “bunkers” com máxima capacidade de observação e potência de fogo são os pontos focais do novo sistema, e são fornecidos com fogo de flanqueamento completo de fortificações dentro do grupo ou de “bunkers” adicionais construídos para este fim. Os obstáculos de arame cobertos por este fogo flanqueador são camuflados o mais cuidadosamente possível, a fim de não denunciar ao atacante as posições dos “bunkers” flanqueadores e as áreas de defesa do batalhão.



Parte 2 (breve)