"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Defesa contra mísseis antinavio



Francesco Sartorello, artigo original da Revista Segurança & Defesa número 22, atualizado por www.Informar.com.br.

Introdução:

A defesa de um navio de combate contra a ameaça aérea através de sistemas sofisticados, com guiagem de precisão, ou com sistemas simples, não guiados, vem se tornando uma tarefa mais e mais complexa e difícil. Uma prova disso é o contínuo e crescente uso de sistemas especializados e  dedicados à função anti-aérea e anti-míssil nos navios, mesmo quando foram construídos para  funções diversas, como no caso das escoltas ASW (anti-submarino).

É claro que a maneira mais rápida e simples de eliminar a ameaça do míssil a partir de um navio é evitar que a plataforma de lançamento, tanto aérea como flutuante, chegue à distância de lançamento. Até a década de 70, isso era relativamente fácil de conseguir, pois a ameaça anti-navio de então consistia em mísseis de grandes dimensões, um tanto lentos, com trajetórias do tipo "planeio" e alcance de algumas dezenas de milhas. Atualmente, os acontecimentos do passado recente e, infelizmente, do dia-a-dia, demonstraram que é muito grande a ameaça de mísseis contra navios de combate modernos, que não tenham sido originalmente concebidos com capacidade de defesa ativa contra mísseis.

Partindo do princípio de que reforçar a blindagem dos navios não parece ser conveniente, em função das dimensões das cabeças de combate(ogivas) e considerando o elevado peso que seria necessário para se obter proteção, mesmo usando materiais compostos, este estudo se limitará a um exame sintético dos sistemas de defesa ativa.

O moderno navio de combate é caracterizado por dimensões e elementos físicos que o tomam um excelente refletor de radiações de radar em todas as bandas, imerso em um meio não-refletor — a superfície do mar.

Uma larga variedade de emissões no espectro eletromagnético a partir do centro do navio é inevitável, a menos que o navio se prive do uso de seus próprios sistemas de busca, o que o torna um alvo detectável a alcances de dezenas e centenas de milhas. Além disso, assinaturas óticas e eletrônicas, impossíveis de serem eliminadas, contribuem para fazer o navio mais e mais detectável.

A ameaça do míssil:

Como uma conseqüência do que foi dito acima, a ameaça assumirá várias configurações: aos já tradicionais mísseis sea-skimmer com guiagem ativa de radar, com ou sem manobra terminal, deverão ser acrescentados os mísseis anti-radiação e drones, e mísseis com guiagem passiva de TV, IR ou IIR. Em outras palavras, a quase totalidade do armamento de precisão do presente e do futuro pode conseguir um alto nível de letalidade contra alvos de ponto com as características acima.




Pode-se, portanto, prever o uso coordenado de mais mísseis de tipos e trajetórias diferentes, dirigidos para pontos diversos, alguns dos quais ativos e outros passivos, acompanhados por engodos e contra-medidas ofensivas, tudo isso com a intenção de saturar o alvo.

Em presença desse cenário ofensivo, é difícil não comparar o navio, cuja velocidade máxima é enormemente menor do que a de um míssil lento e que só pode se movimentar em um plano, a uma bola brilhante flutuando em uma piscina contra a qual se pode atirar com um rifle calibre 22.

Defesa anti-míssil:

Essa condição desconfortável deve ser atenuada por um sistema de defesa anti-míssil, conceitualmente dividido em dois componentes, operando em conjunto e de maneira coordenada, devido a possíveis e fortes interações. Ter-se-ia então:
  • o componente devotado à soft kill (tomar o míssil ineficaz confundindo ou embaralhando seus sensores);
  • o componente devotado à hard kill (destruição física do míssil).
O primeiro tipo de defesa está fora do escopo do presente artigo, e enseja o estudo da necessidade de definir a compatibilidade eletromagnética entre chaff, emissões embaralhadoras e outros sistemas, e também a operatividade exigida dos sensores e outros equipamentos eletromagnéticos ou eletrônicos a bordo. Através da análise precisa da ameaça e das bandas dentro das quais é mais conveniente executar a "cegueira" ou a "sedução" do míssil pode-se limitar a um mínimo a redução no desempenho dos sistemas do navio.



No que concerne aos sistemas de hard kill, não é fácil tornar o assunto claro, devido ao número e variedade de sistemas anti-míssil em desenvolvimento ou em serviço e à grande quantidade de material e dados, geralmente originários da indústria, em comparação à escassez de elementos objetivos sobre o real desempenho desses sistemas.

A função anti-míssil assume, portanto, uma notável complexidade em comparação com a ameaça descrita anteriormente, e freqüentemente se comete o erro de restringi-la ao clássico míssil sea-skimmer com guiagem terminal por radar. Ë possível que alguns aspectos particulares do problema, se não receberem a devida ênfase, dêem origem a conclusões inaceitáveis.

Os sistemas de hard kill são divididos em três categorias homogêneas, a saber:
  • mísseis;
  • canhões de médio calibre (usando munição com espoleta de proximidade).
  • canhões de pequeno calibre (usando munição com espoleta de impacto).
Em analogia ao que já se sabe tradicionalmente da artilharia anti-aérea e anti-míssil terrestre, pode-se resumir as vantagens e as desvantagens das soluções "míssil" e "canhão".

Deixando de lado a óbvia diversidade entre o alcance máximo do míssil em relação ao canhão (à qual, entretanto, não se deve atribuir uma grande importância devido ao reduzido horizonte do radar de bordo), a diferença mais significante está nos índices benefício / custo.
  • MÍSSIL
    • Alta SSKP* contra alvos manobráveis e não-manobráveis;
    • Alto custo por disparo.
Razão benefício/custo = SSKP*/custo = Média contra qualquer tipo de alvo
  • CANHÃO
    • Alta SSKP* contra alvos não-manobráveis;
    • Baixa SSKP* contra alvos manobráveis;
Custo muito baixo por tiro. Razão benefício/custo=muito alta contra alvos não-manobráveis; baixa contra alvos manobráveis.
*SSKP (probabilidade de impacto no primeiro disparo).

O Canhão:

Neste ponto é evidente que os dois diferentes sistemas de defesa se complementam entre si e podem facilmente coexistir, utilizando em comum grande parte dos Sistemas de Direção de Tiro existentes a bordo, mesmo em plataformas de tonelagem reduzida.

Inevitavelmente surge a questão de se saber se é possível usar versões modernizadas de tradicionais canhões médios navais na função anti-míssil ou, tendo como certa a necessidade da presença destes, se é necessário usar uma arma anti-míssil especializada (CIWS), que porém seria inútil para outras funções.

Considerando como aceita a necessidade de um componente "míssil" para a cobertura das camadas externas do volume a ser defendido, e com capacidade de engajar alvos de alta capacidade de manobra, deve-se definir a configuração mais conveniente benefício/custo do componente "canhão".

As duas direções a serem seguidas devem ser examinadas em detalhe para que se consiga, de uma maneira geral, conclusões aceitáveis.

Uma maneira muito pragmática para a seleção de um sistema anti-míssil poderia ser a seguinte: assumindo que o navio deve ser armado com, pelo menos, um canhão de calibre médio com função anti-navio e de apoio de fogo, por que não selecionar um canhão capaz também de bom desempenho na função anti-míssil? Mais ainda, se esse desempenho for muito bom, por que não deixar de fora os sistemas CIWS especializados?



Canhões de pequeno calibre(CIWS)
PhalanxMerokaSeaguardGoalkeeper
Calibre em mm20202530
TipoGatlingMultiarmaMultiarmaGatling
Cadência de tiro real(tpm) 3.0003.6003.2004.200
Velocidade Inicial(m/s)1.1001.1001.4701.020
Dispersão Balística(m. radial)1.132.21.2
Alcance Eficaz(metros)1.0001.0001.2001.500

Os sistemas de armas acima relacionados estão em serviços em diversas Marinhas, e se encontram praticamente nivelados, através de suas performances gerais e pelo uso de munição com espoleta de impacto.





Considerando a reduzida seção transversal dos mísseis atuais (ver figura acima) a precisão do Sistema de Direção de Tiro e a dispersão balística do sistema terão uma importância determinante, maior do que a cadência de tiro relativamente alta.

Os sistemas de canos rotativos, do tipo Gatling, tem em geral algumas vantagens devido à dispersão intrinsecamente menor com respeito a qualquer outra solução com armas múltiplas.
Todos esses sistemas têm em comum a necessidade de conseguir a detonação da cabeça de combate (ogiva)devido ao reduzido alcance das armas de pequeno calibre. A doutrina da NATO para Defesa Contra Mísseis Anti-navio considera suficiente a Control Kill, definida como incapacitação do sistema de controle do míssil, se obtida a distâncias superiores a mil metros, mas em alcances menores estipula a destruição do míssil.


A probabilidade de conseguir a detonação da cabeça de combate (ogiva) com o impacto de munição de pequeno calibre é ainda uma área pouco estudada por conta de dados insuficientes para um cálculo razoavelmente preciso.

Assumindo que seja tecnicamente possível acertar repetidamente um alvo muito pequeno usando sistemas de impacto, ainda assim, se compararmos o projétil com o escudo de proteção da cabeça de combate (ogiva) de um míssil anti-navio (que é do tipo perfurante, conseqüentemente blindada), o resultado será desfavorável ao primeiro. O tipo de material, a espessura e a forma do nariz da cabeça de combate (ogiva), além de aumentarem a penetração no alvo, evitam em grande parte que tiros do CIWS atinjam a cabeça de guerra propriamente dita, fazendo-a detonar. Mesmo deixando de lado os recentes progressos no campo da anti-detonação, calcula-se que, para penetrar 50 mm de aço inclinado a 65 graus, é necessário uma energia de aproximadamente 5.000 kgm/cm2. Esse valor sobe para 8.000 a 10.000 kgm/cmse desejar detonar a cabeça de combate (ogiva). Estes são valores muito altos, que somente podem ser atingidos usando um calibre de 30mm, e cuja aplicação tão transitória origina grandes incertezas, do tipo químico/físico.

Além disso, não está claro qual é o efeito cumulativo de mais acertos no mesmo local da cabeça, ou em locais diferentes, e nesse meio-tempo foi demonstrada a conveniência de proteções adicionais de cerâmica/Kevlar na parte frontal da cabeça de combate(ogiva). Em outras palavras, além de ser difícil de atingir, a cabeça dos mísseis fica mais protegida ainda, e isso vem ocorrendo mais rapidamente do que o aumento de energia nos projéteis de CIWS.  Principalmente após o banimento da munição de urânio exaurido.  Assim, baseado nessas e em outras considerações, não parece possível que a segunda barreira anti-míssil (última linha de defesa) possa ser entregue a sistemas CIWS de pequeno calibre e impacto, cuja eficácia não foi testada em condições de combate.

As pequenas distâncias de interceptação devido ao pequeno calibre evitam engajamentos de diferentes mísseis pelo mesmo CIWS, com a conseqüente e fácil saturação dos sistemas de defesa. Como conseqüência da reduzida eficácia e dos custos, não se considera possível que qualquer CIWS existente ou em desenvolvimento possa ser uma solução aceitável em termos de razão benefício/custo.

Tal fato parece estar sendo comprovado pela a adoção do míssil RAM no mesmo reparo do canhão Phalanx para ser usado como CIWS, pelas Marinhas da Alemanha, EUA e Inglesa (substituindo oGoalkeeper), bem como o CIWS baseado no míssil Mistral da Marinha Francesa.



Canhões Médios usando munição com espoleta de proximidade
Trinity(Bofors)Bofors 5776 Super Rápido
Calibre em mm405776
Cadência de tiro real(tpm) 330220120
Dispersão Balística(m. radial)10,90,5
Velocidade Inicial(m/s)1.1001.025914
Alcance Eficaz(metros)3.0004.0005.000
Peso do Projétil(Kgs)1,12,36,2
Média do total de estilhaços(estilhaços de tungstênio-Balins)2.200(1.100)3.450(1.300)5.680(3.300)
Peso do estilhaços de tungstênio(grs)0,300,300,6
Número de Estilhaços capazes de penetrar em 8 mm de Dural a 03 metros de distância1.1901.8004.250

Os sistemas de armas relacionados acima fazem uso de munição pré-fragmentada com espoleta de proximidade, e seu alcance útil é maior do que os do CIWS. A combinação desses elementos torna possível interceptar o míssil anti-navio, fora do raio de 1.000m, onde a control kill é suficiente e conseguí-la usando a munição pré-fragmentada é relativamente fácil.
Dependendo do calibre e portanto do peso do projétil, o raio letal de cada um varia de maneira diferente, proporcionalmente ao número e energia dos estilhaços mostrados na tabela. As interceptações são obtidas em alcances relativamente altos (sendo 5.000 m o valor máximo) e portanto é possível, diferentemente do CIWS dedicado, que uma arma engaje mais alvos sucessivamente.

Um parâmetro interessante para avaliar comparativamente os sistemas relacionados é a carga útil disparada por unidade de tempo, calculada com a função do peso do projétil. Obtém-se então os seguintes valores:
  • 6,05 kg/s para o Trinity;
  • 8,28 kg/s para o 57;
  • 12 ,4 kg/s para o 76 SR.
A outra vantagem evidente do Super Rápido é dada pelo maior alcance, que permite ganhos operacionais de um ponto de vista global, e não somente através da avaliação numérica.

O uso coordenado de SAM (mísseis anti-aéreos) e de canhões de pequeno calibre na função anti-aeronave/anti-míssil normalmente confere ao canhão um papel secundário e de última linha de defesa, para a complementação de uma zona de não-intervenção, pois há uma pequena ou nula superposição do volume de intervenção dos dois sistemas.

Combinando o SAM com o 76 (ou outro calibre médio) ter-se-á um maior volume onde os dois sistemas são eficazes, com a conseqüente maior flexibilidade do sistema de combate, utilize esse ou não a função humana no Loop decisório. Será possível, portanto, selecionar os meios mais convenientes de intervenção com respeito às prioridades definidas na doutrina de tiro. Ter à disposição outras kills, utilizáveis em alcances médios, confere ao sistema de defesa uma maior capacidade de engajamento múltiplo.

Para esse propósito, a potencialidade de um único 76/62 Super Rápido pode ser evidenciada pelo seguinte cenário operacional:
A ameaça consiste de:
  •  primeiro par de mísseis anti-navio:
    • velocidade Mach 1
    • altitude 30m
    • RCS = 0,2m(área frontal)

  • segundo par: igual ao primeiro, separado dele 90 graus e espaçado de dez segundos.
O 76/62 engaja o primeiro míssil e troca de alvo ao atingir uma Probabilidade Cumulativa de Destruição superior a 0,9, pré-calculada como função da distância da primeira interceptação, que ocorre a 3.000 m, enquanto a última, do segundo míssil do primeiro par, ainda é feita além de 1.000m. Tal capacidade também existe por parte dos canhões da Bofors (40 mm e 57 mm), ou outro canhão naval médio com semelhante performance.

O engajamento do segundo par ocorre em condições similares ao anterior, e ao fim de uma ação que durou 16 segundos, 24 tiros foram disparados, com uma capacidade residual de 56 outros no sistema de carregamento da arma.

Em situações operacionais reais, caracterizadas pela saturação com mísseis e com qualquer tipo de engajamento e contra-medidas, será problemático para o comandante decidir se lança o primeiro par de SAM contra um dos muito alvos aparentemente hostis mas ainda não classificados como tais. A disponibilidade de um sistema adicional de engajamento em alcances médios, como o 76/62 SR, dá ao responsável pela defesa um maior grau de liberdade: alguém que esteja em dúvida sobre lançar um par de SAM contra um possível drone ou RPV não terá nenhuma hesitação em derrubá-los com uma rajada do 76 antes que os intrusos possam representar uma ameaça real.

O Míssil:

A utilização de mísseis para a função de CIWS nos levará a uma análise dos diversos sistemas de mísseis, para à seleção do mais apropriado. As características principais aqui identificadas (alta eficácia na faixa até 6km, principalmente anti-míssil sea-skimmer; alta manobrabilidade a curtas distâncias, viabilizando interceptações laterais; precisão; sistema diretor ágil e eficiente) não levam a um grande leque de opções. Acrescentada a preferência por lançadores verticais(ou vários lançadores múltiplos), reduz-se mais o conjunto dos selecionáveis. A especialização na defesa de ponto propriamente dita, com máxima eficácia na pequena área de local AAé (Guerra Antiaérea Local); a quantidade de testes já realizados com resultados convincentes; e o número de instalações já efetivamente realizadas, contribuem para estreitar as opções.



É oportuno, no contexto da seleção do sistema, considerar as técnicas de orientação e guiagem. Na aplicação desejada, sobressaem os de orientação ou guiagem infra-vermelho (IR), beam rider, semi-ativa e command-to-line-ofsight(CLOS). Quanto aos IR, como o RAM e o  Mistral, deveram possuir tecnologias suficientemente avançadas para interceptações laterais ou frontais (como a existente nas ogivas dos mísseis ar-ar Sidewinder 9L), não limitando assim seu emprego à perseguição. Já no caso dos beam riders, como o RBS-70, embora satisfatórios para interceptações radiais, sofrem do problema das enormes acelerações requeridas na fase final das interceptações laterais de alvos com geometria de engajamento não radial. Tais considerações reduzem o espectro a comparações entre os méritos da guiagem do tipo command-to-line-of-sight (Crotale, Sea-wolf, Barak) e IR em relação à guiagern semi-ativa (Standard, Sea Sparrow, Sea Dart, Aspide, etc.). As técnicas de guiagem CLOS/IR reúne as vantagens sintetizadas abaixo sobre a guiagem Semi-Ativa:

1-não tendo um seeker com antena orientável na ogiva, não sofre das limitações do ângulo de lançamento e ângulo de tracking (seeker look angle) peculiares aos sistemas semi-ativos, capazes de reduzir a probabilidade de lançamentos e de aquisições de alvo bem sucedidas;

2-dispensando um seeker no míssil, independe-se de sua confiabilidade e desempenho para adquirir o alvo;

3-inexistjndo o seeker, reduz-se consideravelmente a vulnerabilidade às contramedidas eletrônicas, inclusive porque a antena de recepção de comandos, nos CLOS/IR, fica à ré do míssil ou é desnecessária;

4-a técnica CLOS/IR dispensa variações de doppler para adquirir e manter a aquisição dos alvos;

5-a técnica CLOS/IR não é sujeita aos problemas de clutter (sombras e alvos falsos pela interferência da superfície terrestre) de imagem que afetam os semi-ativos, mormente em baixas altitudes (caso dos sea skimmers).

Parece preferível, pois, a adoção do command-to-line-of-sight ou IR, o que de resto é confirmado pelas opções feitas por diversos fabricantes no projeto de seus engenhos de concepção mais recente para a função anti-míssil. Quando em comparação a guiagem semi-ativa dos mísseis StandardAspide e Sea Sparrow.

Somam-se ao sistema de guiagem (CLOS ou IR) as seguintes características do sistema de mísseis para a função CIWS:

1-velocidade máxima de Mach 3(+);
2-ativação por proximidade ou impacto;
3-distâncias mínimas de utilização de 700m (para destruir mísseis sea-skimmer);
4-alta manobrabilidade, assegurada por elevado limite de aceleração lateral;
5-lançamento vertical ou múltiplos lançadores;
6- Comprovação em combate, ou muitos lançamentos bem sucedidos.
No leque de sistemas disponíveis no mercado ocidental existem 03 mísseis de guiagem CLOS (Sea-Wolf, Barak Crotale) com sistemas desenvolvidos para o ambiente naval, e 02 mísseis de guiagem IR (Mistral e RAM). Desses modelos o míssil Sea-Wolf parecer ser o que supri a maioria dos requisitos desejados.

Conclusão

Das análises feitas, podemos concluir que, a melhor defesa anti-míssil é a escalonada, utilizando uma combinação de canhões e mísseis devidamente compatibilizados em um único sistema bélico. Preferivelmente, flexível com capacidade de enfretamento a múltiplas ameaças. Portanto, devem ser evitados os sistemas dedicados para uma única função por apresentarem baixa relação custo benefício.

Com cruzamento de dados e características técnicas, o míssil Sea-Wolf se destaca entre os demais sistemas para a função anti-míssil, da mesma forma que os canhões de médio calibre(40mm até 76mm) com o uso de espoletas de proximidade. Sendo que o canhão de Super Rápido de 76 mm da Oto Melara o melhor deles.

Quando se analisa o sistema bélico AAé em conjunto, chegamos a conclusão que o canhão de 76 mm SR continua se apresentando a melhor opção, em face sua ampla gama de utilização, contra aviões e alvos de superfície.  Já a análise dos mísseis nos revela o seguinte: os sistemas com guiagem IR demonstram uma baixa flexibilidade operacional, os sistemas de guiagem CLOS (como o Sea-Wolf) apresentam uma maior flexibilidade operacional, no entanto, são os mísseis com o sistema de guiagem semi-ativa que demostram claramente uma maior gama de uso operacional. Esse fato leva o utilizador destes sistemas(AAé baseados em mísseis), a uma difícil escolha entre estes 03 tipos de guiagem. Devendo pesar detidamente o sistema bélico em seu conjunto para determinar qual ou quais sistemas de mísseis serão adotados.

Submarinos Nucleares


RMB, maio 1988

O público-alvo deste editorial é a sociedade civil (politicos, cientistas, professores, industriais, funcionários e a opinião pública em geral), os militares de outras Forças e a oficialidade naval jovem, que algum dia conduzirá uma Marinha coerente com o futuro do Brasil. Esse público-alvo, não necessariamente bem familiarizado com a estratégia naval, inspirou tanto as considerações iniciais sobre o papel do submarino como o uso de um vocabulário moderadamente especializado.

O que o justifica? Como chegar a ele?
O que quer a Marinha com ele a para o quê?


O submarino e o seu emprego

Para que submarino?

A estratégia naval emprega navios, submarinos a aeronaves fundamentalmente para:
- controlar área marítima, para usá-la em proveito próprio;
- impedir ou dificultar (no linguajar profissional, negar) o uso, pelo adversário, de área marítima, cujo controle ou não pode ser exercido (por falta de capacidade) ou não precisa sê-lo (por ausência de interesse); e
- projetar poder sobre terra, realizando bombardeio naval a aeronaval e o desembarque anfíbio.
A essas formas tradicionais de projeção foi acrescido o lançamento, por submarinos, de mísseis balisticos com ogivas nucleares; este artigo não o aborda porque ele não tem significado para o Brasil.

A literatura militar moderna costuma citar uma quarta tarefa naval: a presença em áreas de alto interesse, para dissuadir atitudes hostis e estimular as favoráveis. Essa tarefa (hoje tão presente no Golfo Pérsico) sempre foi praticada na História e não há razão para considerá-la separadamente porque a capacidade de executá-la é corolário natural da capacidade de executar as três tarefas clássicas.
Como se insere o submarino nesse quadro?

A principal característica do submarino é sua discrição ou capacidade de operar escondido. Essa característica é o fator que mais influencia a adequabilidade do submarino, como instrumento das tarefas citadas acima.

O controle de área marítima pressupõe superioridade e, para assegurá-la, a contribuição do submarino é coadjutória ou complementar à dos navios, aviões e helicópteros (voando de terra ou embarcados). Ela se manifesta através do emprego do submarino contra navios (quando há disputa pelo controle) e na proteção contra submarinos que tentem perturbar o controle(Nota 1); ambos esses empregos são ajudados pela discrição do submarino.

Sob certas circunstâncias, o papel do submarino no controle de área pode crescer, sem prescindir dos navios e das aeronaves, principalmente se o adversário dispuser de aviação (contra a qual o submarino é útil apenas para detecção e alarme). No conflito das Malvinas, em 1982, os submarinos ingleses alijaram do cenário os navios de superfície argentinos (após o afundamento do Cruzador Belgrano, episódio de disputa pelo controle); entretanto, a supremacia naval assim obtida não teria bastado: o que permitiu a retomada das ilhas foi a capacidade da força de superfície e aeronaval inglesa de operar na área, a despeito do esforço aéreo argentino.

Abstraindo-nos do lançamento de mísseis nucleares, para a projeção sobre terra, o submarino é útil como vetor de pequenas incursões (obviamente facilitadas por sua discrição) e como instrumento coadjutório ou complementar para o controle da área onde deve ocorrer a projeção. Novamente o conflito das Malvinas oferece exemplo adequado: o sucesso inglês, definido, em última análise, pelos navios, aeronaves e tropa terrestre, teria sido mais difícil sem a contribuição dos submarinos para o controle do teatro.

Consideremos agora a tarefa de impedir ou dificultar o uso de área marítima pelo adversário, em que a discrição do submarino o torna instrumento privilegiado, compartilhando essa posição com a aviação baseada em terra apenas quando a área está próxima de bases aéreas(Nota 2). Essa utilidade do submarino não agrada às maiores potências navais, que não desejam ser ameaçadas por arma eficaz mesmo quando a serviço de potências secundárias. Já no século passado, um primeiro-ministro inglês advertia que a Inglaterra não devia contribuir para o desenvolvimento do submarino, que poderia vir a pôr em risco a predominância inglesa nos mares - como pôs nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais. No entender das grandes potências, aos países de menor expressão caberia apenas uma estratégia naval defensiva e costeira e, como os submarinos são úteis para finalidades mais amplas, podendo até comprometer o tranqüilo predomínio naval dos poderosos, é natural que esses sintam relutância por vê-los prestigiados nos programas navais dos menos poderosos.

Voltando ao exemplo do conflito das Malvinas: a Inglaterra teria enfrentado graves dificuldades se a Argentina dispusesse de uns poucos submarinos modernos que, com a aviação voando do continente, haveriam de criar severa ameaça para os navios-aeródromos e transportes de tropa no teatro próximo às ilhas. A preponderância inglesa talvez acabasse por prevalecer, pois a Argentina não poderia disputar o controle da área em virtude da ameaça dos submarinos ingleses, mas o patamar de risco e o custo do sucesso teriam sido mais altos.


Por que nuclear?

Cabe agora analisar, no quadro geral do uso do submarino, a adequabilidade da propulsão convencional e nuclear. A comparação abrange três características operacionais:

1ª) a discrição ou capacidade de operar escondido. O submarino convencional é muito discreto quando propulsado pela energia de suas baterias, mas essa discrição é comprometida quando ele navega na superfície ou próximo dela, de modo a aspirar da atmosfera e nela descarregar pela tubulação esnórque1(Nota 3), para recarregar as baterias e poupar sua energia para as situações táticas de interação com o adversário. Assim, embora o submarino convencional possa ser mais discreto por curtos períodos, o nuclear é mais discreto no cômputo geral, porque independe da atmosfera;

2ª) a distância que o submarino pode navegar e a velocidade com que pode fazê-lo. É flagrante a superioridade do submarino de propulsão nuclear, capaz de alcançar área distante com rapidez e nela executar patrulha extensa, graças à boa velocidade que pode manter por longos períodos(Nota 4). Essa vantagem também existe no cenário tático, pois o nuclear assume posição de ataque e se evade da reação com maior rapidez do que o convencional, que está sujeito às limitações das baterias. Foi a mobilidade dos submarinos nucleares que permitiu aos ingleses a rápida implementação e a eficiente manutenção da zona de exclusão no teatro das Malvinas, com poucos submarinos; e

3ª) a possibilidade de o submarino nuclear operar por longo tempo, já que o combustível é inesgotável, sob a perspectiva prática operacional. Sua autonomia (tempo fora da base) é limitada apenas pela resistência das tripulações e pela capacidade de transportar gêneros (ou pelo consumo das armas), mas a do convencional é condicionada pela capacidade e pelo consumo de combustível(Nota 5).

Deduz-se, pois, que embora o submarino convencional continue útil para negar o uso do mar, é evidente que o submarino nuclear é útil mais longe, em áreas maiores e por mais tempo(Nota 6). O submarino convencional supera o nuclear apenas na discrição, enquanto propulsado por suas baterias, mas isso só é possível por tempo relativamente curto, tão mais curto quanto maior tiver que ser a velocidade usada. É de se esperar que o aperfeiçoamento das máquinas do submarino nuclear irá reduzir até mesmo esta vantagem do convencional.

Aprofundemos a comparação, associando as considerações estratégicas do item 1 com a análise das características.

Caso 1: impedir que navios adversários se aproximem do litoral e águas costeiras (defesa da fronteira marítima). Trata-se de problema em área próxima e geralmente restrita; a melhor solução seria o controle da área por navios, aviões voando de terra e, complementarmente, por uns poucos submarinos convencionais. Entretanto, se for conveniente aprofundar a defesa até longe do litoral, começa a despontar a adequabilidade do submarino nuclear. Ele será tanto melhor do que o convencional para esse propósito, quanto mais distante (e mais extensa) for a área onde se deseja estabelecer a defesa distante, por submarinos.

Caso 2: dificultar a navegação adversária em águas distantes. Neste caso, é claro que caberiam melhor os nucleares, cuja excelente mobilidade lhe permitiria implementar patrulha distante e extensa, com um número de submarinos menor do que seria necessário para implementá-la com convencionais.

Note-se que em ambos os casos o submarino nuclear apresenta uma vantagem adicional à provida por sua mobilidade privilegiada: o fato de que sua movimentação para a área de patrulha e seus movimentos na área podem ser mantidos mais facilmente em sigilo, já que a propulsão nuclear lhe permite independer da atmosfera.

Complementemos essa análise com mais um exemplo relativo às Malvinas: como foi dito acima, com uns poucos bons submarinos convencionais, a Argentina poderia ter produzido graves dificuldades em torno das ilhas (área razoavelmente restrita e próxima). Entretanto, se a Argentina tivesse contado com dois ou três nucleares, o problema inglês seria maior porque a ameaça argentina se estenderia das proximidades da base de Ascensão às Malvinas (principalmente se a Argentina dispusesse de esclarecimento aéreo para orientar os submarinos). Esse exemplo elucida o valor do submarino nuclear como instrumento de defesa distante, num quadro de confronto com potências melhor preparadas.


Como se insere o Brasil nesse problema?

A dimensão estratégica

Este texto parte de uma premissa básica: o Brasil precisa dispor de um Poder Militar adequado ao cenário de segurança que lhe diz respeito.

Assim, convém que o Brasil seja capaz de dificultar a aproximação de forças navais/aeronavais hostis e de impedir o uso de suas áreas costeiras por eventual adversário (lembremo-nos do litígio franco-brasileiro em 1963, em torno da captura da lagosta em águas do Nordeste brasileiro). Isso implica capacidade de controlar as águas ao longo do litoral por navios (com seus heljcópteros), aviões voando de terra e, em papel coadjutório, submarinos, que poderão ser convencionais. É claro, porém, que os nucleares serão mais apropriados se a ação submarina tiver que ser realizada em área distante, ao longo do eixo-vetor da ameaça (algo similar à conjectura feita anteriormente, relativa ao conflito das Malvinas).

Em complemento à capacidade de defesa da fronteira marítima (defesa próxima e distante), precisamos ter condíções de exercer influência em áreas sul-atlânticas afastadas, de acordo com o interesse nacional. Isso implica controlar área selecionada e restrita, em cooperação internacional ou até mesmo autonomamente, mas, neste último caso, é preciso reconhecer que, sob condições adversas de ameaça real (sobretudo se aérea), no futuro hoje previsível, nossa estratégia terá que se alicerçar mais na discrição do submarino.

Se o problema se localizar em área relativamente pequena e moderadamente distante (por exemplo: proximidades de Ascensão ou até de Cabo Verde), o submarino convencional ainda atende a necessidade, embora o nuclear já comece a aparecer como mais apropriado. Entretanto, se a localização for muito distante (por exemplo: Golfo da Guiné ou o amplo contorno Sul da África - a 3.000 milhas de distância ou até mais), o submarino nuclear se imporia com facilidade sobre o convencional, pois seria possível realizar com ele uma patrulha mais eficiente com menos submarinos(Nota 7).

Deduz-se, assim, que convém ao Brasil tanto o submarino convencional como o nuclear. Enquanto a defesa da fronteira marítima (defesa próxima e afastada) merecer nossa atenção prioritária, o número de convencionais poderá ser maior do que o de nucleares. A prazo longo, o crescimento da projeção, das responsabilidades e dos interesses brasileiros no cenário internacional acabará por recomendar maior presença em águas distantes do Atlântico Sul e isso induzirá à conveniência de ser aumentada a participação relativa da propulsão nuclear. Note-se que a sempre importante defesa da fronteira marítima não será comprometida por essa evolução. Pelo contrário, o submarino nuclear faz bem, ou até melhor, o que o convencional faz e, como vimos, ele é adequado à defesa distante, o que lhe confere boas condições para tornar mais difícil o exercício de ameaça ao Brasil, pelo mar.

Este é o quadro estratégico que, no nosso entendimento, explica o empenho que nos levará algum dia, sem atropelos mas com firme e prudente perseverança, ao submarino de propulsão nuclear. A Marinha veria com satisfação essa sua convicção debatida e avalizada em foros nacionais adequados: o Congresso, instituições de estudos políticos e sociais (universitárias ou autônomas) e outras. Os que podem contribuir para tal análise devem fazê-lo, sem preconceitos nem idiossincrasias, para que às gerações futuras não venha assistir o direito de criticá-los por erro ou omissão, nas grandes questões da defesa nacional.

A dimensão técnica

Em países do nível tecnológico do Brasil, u'a meta tão complexa como o submarino de propulsão nuclear só pode vir a ser atingida com muito esforço próprio, pois nenhuma grande potência coopera com as menos desenvolvidas num projeto militar com potencial tanto para perturbar a tranqüila superioridade naval dos mais fortes, como para apoiar a prática de uma estratégia autônoma, a serviço de uma política independente(Nota 8).

O esforço nacional em prol do submarino nuclear brasileiro processa-se em três áreas da tecnologia militar-naval:
- o submarino em si;
- o sistema de armas, que se restringe às armas de ataque a navios (torpedos e, talvez, mísseis táticos), pois, como foi dito no início do artigo, o submarino lançador de míssil balístico diz respeito à arma nuclear, que não é cogitada; e
- a propulsão nuclear.
O domínio da tecnologia do submarino nuclear passa por etapa prévia imprescindível: o domínio da tecnologia do submarino convencional. O atual programa de submarinos convencionais, iniciado com a construção de um submarino moderno na República Federal Alemã, a ser seguida pela construção de outros no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, vai nos proporcionar o aprendizado para o grande salto, o submarino nuclear, talvez nos últimos anos deste século.

Quanto ao sistema de armas, também estamos tentando desenvolver alguns equipamentos cuja tecnologia dificilmente nos seria transferida. O sistema de armas do submarino nacional convencional será, provavelmente, parecido com o do nuclear.

Chegamos assim à terceira área básica, a propulsão nuclear. Seu desenvolvimento, para o qual não contamos com apoio externo, ou, melhor dizendo, contamos com resistências, pressões e embaraços externos(Nota 9), engloba:
- o domínio do combustível, do tratamento do minério ao urânio enriquecido e preparado para o reator;
- o domínio da tecnologia do reator;
- o domínio da tecnologia dos equipamentos de máquinas (gerador de vapor, trocadores de calor, turbinas, bombas, motores elétricos e outros, tudo devidamente integrado); e
- o domínio da tecnologia do controle de um sistema nuclear de potência naval.
A Marinha vem contribuindo intensamente para o programa nuclear autônomo desde 1979, na condição de sócio principal do Instituto de Pesquisas de Energia Nuclear da Universidade de São Paulo (IPEN), com total e entusiasmado apoio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Esse empenho específico tem por objetivos o combustível e o reator; como vem sendo noticiado, ele caminha bem. Paralelamente, a Marinha vem promovendo o desenvolvimento das máquinas e do controle do sistema, em indústrias e instituições nacionais de pesquisa. Dentro de quatro a cinco anos, teremos chegado a uma instalação-protótipo, no Centro Experimental de Aramar, Iperó, São Paulo.

A propulsão e o submarino, meta de longo prazo da Marinha, vão demorar, mas chegaremos a eles com passos cuidadosos e coerentes com as possibilidades orçamentárias. Entretanto, os benefícios gerais, o início da independência tecnológica na área nuclear, já começaram: todo esse conjunto de pesquisas e desenvolvimento técnico-industrial está produzindo um imenso acervo de frutos tecnológicos de toda ordem para a sociedade brasileira, nos campos da energia, agricultura, saúde e outros. Olhando sem preconceito o que está sendo feito, concluiremos que a propulsão nuclear será, em última análise, um produto diluído em muitos outros aspectos positivos do programa nuclear autônomo e seus complementos técnico-industriais.


O Tratado de Tlatelolco, a zona de paz e a bomba 

Alguns adversários das atividades nucleares em que a Marinha está envolvida (muitos, honestamente bem-intencionados, embora nem sempre bem informados, mas outros preconceituosos ou até movidos por interesses pouco explícitos) apontam nessas atividades uma incoerência com o Tratado de Tlatelolco (não proliferação na América Latina) e com a Resolução da ONU sobre o Atlântico Sul - Zona de Paz, que preconiza a desnuclearização desse oceano.

Ora, a propulsão nuclear não é arma: é uma propulsão com algumas características que a valorizam perante a convencional (mobilidade, autonomia e independência da atmosfera), tanto assim que a Agência Internacional de Energia Atômica (Viena) entendeu que em 1982 a Inglaterra não feriu a desnuclearização sul-atlântica, pois eram convencionais as armas dos submarinos nucleares empregados. E quanto à zona de paz, a desnuclearização preconizada se refere aos submarinos lançadores de mísseis com ogivas nucleares, da URSS e dos EUA, cuja presença geraria um crescendo de atividades navais e aeronavais das superpotências, em detrimento da tranqüilidade sul-atlântica.

Outro tipo de objeções diz respeito à possibilidade de que o desenvolvimento nuclear em curso com a cooperação da Marinha visaria à arma atômica. Trata-se de suposição equivocada não por inviabilidade técnica, mas porque já existe uma decisão nacional, uma decisão política de não construí-la e esta decisão não seria alterada sem profunda análise pela sociedade em seu nível político, análise realizada com visão estadista e elevado respeito à vontade nacional. Os responsáveis pelas atividades que contam com a cooperação da Marinha respeitam a decisão em apreço com alto grau de patriotismo, civismo e acatamento às manifestações da alma nacional.

NOTAS:
Nota 1. Por ser o submarino um excelente instrumento anti-submarino, a doutrina das maiores potências inclui o uso de submarinos de ataque (armados com torpedos) contra os submarinos lançadores de mísseis balisticos com ogiva nuclear.
Nota 2. Esse seria o caso da defesa do litoral, tráfego e instalações costeiras, cuja importância exige, normalmente, mais do que a negação: exige o controle efetivo, que o submarino e o avião ajudam a estabelecer e manter.
Nota 3. Aportuguesamento da palavra snorkel, de origem holandesa. 
Nota 4. O submarino convencional moderno pode desenvolver boa velocidade em imersão, mas esse regime de marcha exaure rapidamente as baterias; se o faz com o esnórquel, é facilmente detectado. 
Nota 5. A discrição, a mobilidade e a autonomia foram consideradas apenas sob a perspectiva da propulsão nuclear e diesel-elétrica. Existem em desenvolvimento novos sistemas que prescindem do ar, mas este artigo não trata deles por serem insuficientes as informações. No que concerne à mobilidade e à autonomia, é improvável que tais sistemas possam superar a propulsão nuclear. 
Nota 6. Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha dificultou bastante o uso do Atlântico, com submarinos convencionais, mas isso foi conseguido graças ao emprego de elevado número de submarinos primitivos e baratos. A tecnologia moderna tornou proibitivas as grandes forças de submarinos, salvo para as duas superpotências. 
Nota 7. Ademais, vale insistir na lembrança de que o trajeto para a área e a permanência nela do submarino nuclear poderiam ser efetivados sob maior discrição. 
Nota 8. Como exceção à regra vale consignar que os indianos receberam o primeiro de três submarinos nucleares soviéticos. A notícia demonstra ser do interesse soviético que a Índia exerça papel saliente no Índico, em detrimento da dominação ocidental. Uma linha de ação como essa, inviável para o Brasil porque os EUA não a adotariam, não nos interessa, pois, quanto mais complexa a tecnologia, maior é a satelização logística e estratégica. 
Nota 9. A inexorável resistência externa foi a principal razão do sigilo que protegeu o programa nuclear autónomo até 1987, pois, se ele fosse conhecido, as dificuldades teriam sido maiores. O estágio atual do desenvolvimento já torna prescindível a proteção por sigilo (salvo o industrial). 

Porta-aviões


Classe Nimitz


Porta-aviões ou navios-aeródromo são os maiores navios de guerra da atualidade e destinam-se a servir de bases aéreas móveis para a moderna guerra aeronaval. O advento destes navios no século XX tornou os principais navios de guerra de até então, os grandes couraçados, em personagens da história, uma vez que seu valor militar tornou-se duvidoso diante da presença da moderna ameaça aérea. O cenário bélico atual é dominado pela aviação de caça e qualquer força de superfície moderna, terrestre ou naval, deve ser planejada a levando em consideração. A segunda guerra mundial fez dos grande couraçados grandes alvos móveis, como experimentaram os britânicos no sudeste asiático. Um único navio deste tipo pode projetar seu poder a distância do alcance de suas aeronaves, algo em torno de 300 ou 500 km , mantendo-se sempre em uma posição segura a retaguarda da área de operações. São a peça central de qualquer esquadra que os possui, onde esta opera em função deles. Constituem ao lado dos submarinos de ataque os principais meios de dissuasão destas forças.

Admiral Kuznetsov Russo

A manutenção de um força destas naves é cara e uma única unidade pode custar mais que a marinha inteira dos países de menor expressão. Um porta-aviões moderno desloca entre 20 a 95 mil toneladas, em contraste com suas escoltas que deslocam entre 3 a 8 mil toneladas. Em média cada porta-aviões embarca uma aeronave para cada mil toneladas de deslocamento. Todas as marinhas do mundo com condições para manutenção destas naves as possuem em maior ou menor número, sendo que a  marinha russa opera ainda poucos exemplares, e a chinesa está despertando para este tipo de belonave. A marinha japonesa já os teve durante a segunda grande guerra e a alemã começou as construí-los também naquela época, e provavelmente em função de imposições do pós-guerra não mais os implementaram. Outro fator determinante do seu custo é o grupo aéreo, que tende e custar o mesmo que o navio.

Classe Invencible britânica

Um porta-aviões é um grande alvo naval e necessita ser bem defendido, pois será o primeiro objetivo em qualquer conflito. Assim como representa uma ameaça formidável aos seus oponentes, também oferece um alvo tentador, facilmente localizável e de alto valor militar. Sua segurança em um cenário de grande intensidade é altamente questionável, como ilustra o filme "A soma de todos os medos" que se inicia com um ataque de saturação de bombardeiros russos a uma nave dos EUA usando vários mísseis antinavio de grande velocidade. Alguns mísseis são prontamente abatidos, porém as defesas do navio não dão conta da quantidade lançada e alguns acabam por atingi-lo. Outro exemplo desta vulnerabilidade encontramos na Batalha de Midway na segunda guerra, onde 4 naves japonesas e 1 dos EUA foram abatidas em um único dia.

Apenas 9 países mantém estes navios na atualidade: Brasil, Estados Unidos, Espanha, França, Índia, Itália, Reino Unido, Rússia e Tailândia. A China esta testando sua primeira unidade e em breve comporá o grupo.

O novo navio chinês adquirido junto a Rússia (ex-Varyag)
Os porta aviões modernos são configurados de duas maneiras. A convencional possui convés plano com decolagem auxiliada por catapultas a vapor. a aeronaves acelera seus motores ao máximo e o navio o lança de 0 a 265 km/h em 2 segundos. O pouso se dá a 240 km/h com retenção através de 4 cabos instalados no deque, o que para a aeronave em cerca de 100 m. A aeronave pousa com motores ao máximo a se não houver enganchamento aremete para nova tentativa. O convés destes modelos é construído em ângulo.


Ficheiro:Cvnanim.gif


A maneira mais recente foi desenvolvida pela Royal Navy e tem um a rampa para decolagem da aeronaves STOL que decolam curto e pousam na vertical. Estas aeronaves são totalmente imdependentes do navio, porém possuem capacidades menores aos seus similares convencionais. Em qualquer uma das situações a navio pode navegar até 35 nós contra o vento, o que reduz o esforço da aeronave.Estes últimos apresentam custos de aquisição e operação significativamente menores, tanto do navio como das aeronaves, e provaram seu valor durante a Guerra das Malvinas. Existem ainda uma terceira configuração de operação mista para guerra anfíbia.

Nave italiana Cavour com rampa de decolagem para aerovanes V/STOL
São propulsados de modo convencional com motores diesel e turbinas à gás, sendo os modelos da marinha americana e francesa propulsados por energia nuclear.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Operações de Guerra Naval #

Estratégia Naval




As operações terrestres e navais destingem-se pelos seus objetivos e o meio físico onde se desenvolvem, ficando estas menos sujeitas às peculiaridades da área de operações. A influência de fatores como configuração geográfica (terreno), condições climáticas e meteorológicas não é significativa e em muitos casos inexiste. Excetua-se a operação anfíbia, que é fortemente afetada pelos fatores do meio físico marítimo, até a linha da praia, e terrestre, onde atua a força de desembarque.

A força naval que dispõe de maior poder de combate, procura prover a segurança de áreas consideradas vitais para o sucesso das operações, integridades de suas linhas de comunicação, ao mesmo tempo que, através de operações ofensivas, busca a destruição da armada oponente, a interrupção de suas linhas de comunicação, a penetração em áreas sob o controle inimigo, bem como a conquista e/ou neutralização de bases navais e terminais portuários existentes; normalmente essa força reúne reais possibilidades de conduzir operações anfíbias no litoral defendido.

A força naval de poder inferior procura, por meio de operações de desgaste, debilitar o poder de combate do atacante, dividindo-o e combatendo frações de suas forças separadamente, evitando que seja apresentada força que ameacem áreas vitais, obstruam suas linhas de comunicações, neutralizem suas bases e possa realizar uma operação de desembarque anfíbio.



AS TAREFAS BÁSICAS DO PODER NAVAL

A guerra naval consiste no emprego de meios de superfície e submarinos, aeronaves e anfíbios, utilizando-se inclusive, de força terrestre, com a finalidade de executar uma ou mais das seguintes tarefas básicas:
  • Controlar Áreas Marítimas: O controle de áreas marítimas normalmente acontece por tempo limitado, e assegura a utilização desta área com um certo grau de segurança por quem o exerce, ou impõem uma dificuldade de sua utilização pelo inimigo; e é obtido pela destruição ou neutralização das forças navais inimigas ou sua contenção, impedindo seu posicionamento nas áreas de interesse.
  • Negar o uso do mar ao inimigo: Negar o uso do mar ao inimigo consiste em dificultar-lhe o controle de suas áreas marítimas de interesse, ou evitar que explore o controle obtido em seu proveito. Essa tarefa é desempenhada quase sempre pelo poder naval que não reúne condições de estabelecer, ele próprio, o controle das áreas marítimas de interesse, e é conduzida por meio de ações de desgaste realizadas, principalmente por submarinos e minagem de áreas.
  • Projetar poder sobre terra: Projetar poder sobre terra consiste em executar uma ou mais das seguintes atividades:

    • Bombardeio a partir do mar em alvos na praia ou além desta
    • Executar operações de natureza anfíbia




OPERAÇÕES DE GUERRA NAVAL

Poder Naval se vale de diferentes tipos de operações navais, para cumprimento de suas tarefas básicas: 


  • Ataque ou proteção às comunicações marítimas
  • Bloqueio de vias marítimas
  • Projeção de poder sobre terra 
  • Defesa do litoral.





Para a execução das operações navais, os meios em um teatro de operações marítimo (TOM), são normalmente agrupados em forças-tarefa, cuja composição e organização dependem fundamentalmente da missão a ser cumprida, da situação existente e das tarefas atribuídas aos componentes da organização. As operações navais típicas são: 
  • Ataque à forças inimigas: Operações de Ataque são aquelas executadas por navios de superfície, submarinos, aeronaves e/ou fuzileiros navais, com as finalidades de destruir ou neutralizar forças navais, aéreas ou terrestres, bem como os meios empregados nas comunicações marítimas do inimigo. Estão aí incluídos o ataque à bases navais e portos, a interdição de comunicações terrestres, A debilitação de resistências em áreas terrestres, além da neutralização ou debilitação objetivos em terra e ao longo do litoral. 
  • Combate anti-submarino: O Combate anti-submarino é executado específica e diretamente contra os submarinos do inimigo, com o intuito de negar-lhe o uso eficaz desses meios, em face da ameaça que representam; podem visar aos submarinos em trânsito ou aos posicionados em áreas de interesse, constituindo-se em ameaça imediata ou não. 
  • Operações anfíbias: Operações anfíbias (Op Anf) são aquelas lançadas a partir do mar, por força naval e força de desembarque (força-tarefa anfíbia), sobre litoral hostil, defendido ou não, abrangendo também no seu conceito, a retirada de forças terrestres do litoral. Seus propósitos são conquistar posição para o lançamento de ofensiva terrestre, instalação de base naval ou aérea, ou ainda, negação do uso de uma área terrestre pelo inimigo. Em razão de sua complexidade, normalmente se constituem em operações de cunho estratégico. 
  • Minagem e contra-minagem: Minagem e contra-minagem consistem no lançamento de minas em áreas adequadas à destruição de embarcações inimigas; ou pela ameaça que representam, para conter, limitar, canalizar ou retardar seu trânsito. Podem ser executadas em águas controladas pelo inimigo (minagem ofensiva), ou em águas sob controle de quem a executa (minagem defensiva). Já as de contra-minagem consistem na execução de ações que objetivam a neutralização da ameaça proporcionada pelas minas lançadas pelo inimigo. 
  • Esclarecimento marítimo: O Esclarecimento marítimo visa a obtenção de informações úteis e oportunas, para orientar o emprego das forças disponíveis. 
  • Bloqueio: O Bloqueio assegura às forças que o executam certo grau de controle sobre sobre determinada área, com o propósito de impedir ou dificultar a passagem de naves não autorizadas. Por suas implicações com o tráfego marítimo de países neutros, em princípio, o bloqueio deve ser objeto de declaração formal ,e para que seja aceito internacionalmente, faz-se necessário que existam reais condições para torná-lo efetivo.
  • Operações especiais: Operações especiais são aquelas conduzidas por meios não convencionais como submarinos especiais, mergulhadores de combate, sabotadores, grupo de demolição, pára-quedistas, entre outros; que executam ações destinadas a destruir ou danificar objetivos importantes em áreas defendidas, capturar ou resgatar pessoal ou material, obter informações, despistar e produzir efeitos psicológicos. São de pequena envergadura e rápida execução.
  • Defesa de porto ou área marítima restrita:  A Defesa de porto ou área marítima restrita visa impedir ou neutralizar os ataques dirigidos aos portos e às áreas marítimas restritas, que contenham instalações importantes, realizados por meios convencionais ou especiais. 
  • Apoio logístico móvel: O Apoio logístico móvel visa prover, como o próprio nome diz, o necessário apoio logístico móvel às forças navais.
  • Defesa de plataforma de petróleo no mar: A Defesa de plataformas de petróleo visa assegurar a preservação e/ou a continuidade de funcionamento das plataformas de exploração de petróleo em mar aberto. 
Cada uma das operações típicas de guerra naval, comumente, incluem certas ações não estritamente vinculadas a uma operação específica, tais como ações de defesa antiaérea, de guerra eletrônica, de guerra química, entre outras. 



OPERAÇÕES ANFÍBIAS

As operações anfíbias são classificadas em quatro modalidades básicas:

  • Assalto Anfíbio (Ass Anf): O Assalto anfíbio é uma operação que envolve ações empreendidas por uma força de desembarque para o estabelecimento de uma cabeça-de-praia em litoral defendido ou não. É a principal das modalidades de operações anfíbias. Ele inicia-se com a chegada do Corpo Principal da força-tarefa anfíbia (FT Anf) na área de desembarque e se estende até a consolidação da cabeça-de-praia (C Pra). Compreende três etapas bem definidas, que são o transbordo da tropa dos navios para as embarcações de desembarque, o movimento navio-para-terra (MNT) e o assalto propriamente dito. A partir da execução do transbordo, a tropa ficará organizada em equipes de embarcações (EE), valendo-se dos carros sobre lagartas anfíbios (CL Anf) ou das embarcações de desembarque. Pode-se identificar o momento desse transbordo pelo movimento circular das embarcações de desembarque (ED), na denominada área de espera, próximo aos navios de transporte. Ao se afastar do costado do navio de transporte, cada embarcação de desembarque se direciona para a área de reunião. Nesta área, o comandante de cada vaga permanece aguardando ordem do comandante do grupo de embarcações, para então se dirigir até a linha de partida, afastada cerca de 4 km da praia, de onde sairão em alta velocidade até abicarem na praia prevista, sendo normalmente orientados por navios varredores. A Operação contará também, com o apoio de fogo naval e a ação da aviação embarcada, desde o seu início até mesmo precedendo o dia “D”. 


  • Demonstração Anfíbia (Dem Anf): Demonstração Anfíbia consiste na realização de demonstração de força, objetivando iludir o inimigo, induzindo-o a adotar linha de ação desfavorável, preferencialmente que contribua para a obtenção da surpresa tática, quanto ao verdadeiro local onde se pretende conduzir um assalto anfíbio ou outra operação. 
  • Incursão Anfíbia (Inc Anf): Incursão Anfíbia trata-se de desembarque de forças de pequeno efetivo, em costa hostil, que realizam rápida penetração em terra e cumprimento da missão, seguida de retirada.
  • Retirada Anfíbia (Rda Anf): A Retirada Anfíbia é a modalidade que consiste na retirada de forças de uma costa hostil, com a utilização dos meios navais e aeronavais.