"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Poder Aéreo Argentino na Guerra das Malvinas/Falklands #




Uma Visão Operacional



Dr. James S. Corum

A Guerra das Malvinas/Falklands de 1982 é, ainda hoje, especialmente notável para os homens de Força Aérea. A batalha decisiva, que na ocasião selou o destino daquelas ilhas, foi travada em pleno espaço aéreo. De fato, a guerra no solo foi tão somente um ato complementar. Se a Marinha Inglesa não tivesse sido capaz de neutralizar os ataques aéreos argentinos e de proteger a sua própria Esquadra, o desembarque de tropas inglesas nas Malvinas/Falklands teria sido impossível. Sem o controle do espaço aéreo, os argentinos, inevitavelmente, iriam ter suas tropas (que dependiam do transporte aéreo entre o continente e as ilhas) isoladas e obrigadas a se render.

Esta guerra colocou frente a frente duas forças aéreas, modernas e competentes, e duas forças aeronavais sendo empregadas uma contra a outra. Realmente, na ocasião, a Força Aérea Argentina era considerada a melhor, dentre as demais, na América do Sul. Era a primeira guerra da Argentina após mais de um século de paz e seria a sua grande oportunidade para que viesse a ser considerada, internacionalmente, uma importante potência militar. É notável que o maior peso dos combates, durante seis semanas da guerra, tenha recaído sobre suas unidades aéreas, as quais infligiram sérios danos e perdas às forças britânicas, muito embora, em terra, as baixas inglesas tivessem sido bem inferiores ao enfrentar as tropas argentinas, muito mais numerosas.

Este artigo tecerá considerações sobre o desempenho e a eficiência tática e operacional das unidades aéreas argentinas durante o conflito. Diversos aspectos serão abordados, incluindo os efeitos que as decisões estratégicas da Junta Argentina causaram nas operações aéreas, os problemas de comando no nível operacional e, ainda, como o treinamento, os equipamentos empregados e a forma de organização adotada influenciaram na condução das operações de combate.



Primeira fase: a Argentina  ocupa as ilhas Malvinas/ Falklands.  A Força Aérea Argentina entra em prontidão  para a guerra. Período: 2 a 30 de abril de 1982

O ato de enviar uma força militar para ocupar as ilhas Malvinas/Falklands, no dia 1º de abril de 1982, foi decorrente, aparentemente, de uma decisão intempestiva tomada pela Junta Militar que governava o país. As Malvinas/Falklands haviam se tornado um problema sensível desde 1830, quando a Inglaterra ocupou-as de uma forma evidentemente ilegal.

Negociações entre os dois países estavam em curso, contudo a Junta temia que os ingleses enviassem forças militares para as ilhas depois da ocorrência de um incidente com um barco pesqueiro argentino nas, também disputadas, ilhas Geórgia do Sul. Antevendo a oportunidade de agir antes que os ingleses enviassem suas forças, em março de 1982 a Junta Argentina determinou a invasão e a ocupação das ilhas.

A 1º de abril, uma tropa argentina composta por 500 homens desembarcou e rapidamente capturou os 84 militares da guarnição de Fuzileiros Navais (Royal Marines) destacados em Port Stanley, passando a ser denominado Puerto Argentino pelos invasores. Naquela ocasião, a Junta esperava abrir negociações que permitissem aos ingleses uma oportunidade para que a soberania das ilhas voltasse a ser transferida para a Argentina. As Malvinas/Falklands resumiam-se, em termos de habitantes, a uma pequena colônia com uma população aproximada de duas mil pessoas, composta por simples e rudes pastores de ovelhas e suas famílias. 

Na realidade, o domínio das ilhas representava um interesse de caráter estratégico para a Inglaterra, muito embora a manutenção de sua colônia acarretasse um peso a mais na carga tributária do contribuinte inglês. Mesmo assim, para surpresa da Junta, a Grã-Bretanha respondeu com um ultimato para que a Argentina se retirasse imediatamente das ilhas, em tom de uma clara ameaça de guerra. Quando a Argentina rejeitou as exigências da Primeira-Ministra Margareth Thatcher, o governo britânico anunciou que as ilhas seriam retomadas à força e iniciou uma mobilização, em grande escala, para organizar uma força-tarefa naval e uma força terrestre com a missão de invadi-las.

O Governo Argentino, embora dirigido por militares profissionais, acreditava que a ocupação das Malvinas/Falklands seria interpretada, pela Inglaterra, apenas como um fato político, ou mesmo, como um recurso diplomático de última instância, e nunca como um ato de guerra. Em verdade, a Junta estava tão certa de que a Inglaterra aceitaria o evento como um assunto encerrado, que nenhum plano a priori foi elaborado e que nenhuma medida especial foi tomada com o propósito de defender as ilhas e de repelir um possível ataque de uma força-tarefa britânica.

Assim, diante do fato de que uma poderosa força-tarefa estava sendo mobilizada pelos ingleses, devendo chegar às Malvinas/ Falklands em três ou quatro semanas, as Forças Armadas Argentinas viram-se obrigadas a alinhavar uma força improvisada e criar um plano de emergência para defender as ilhas. Seria, em verdade, uma guerra sem preparo antecipado, para a qual os combatentes seriam chamados por uma convocação do tipo “apresente-se como estiver”.




Organização do Comando

Diante de uma guerra iminente, a Junta estabeleceu uma complicada estrutura de comando para dirigir as operações de combate. Foi criado um Comando do Teatro de Operações do Atlântico Sul (TOAS), confiado ao Vice-Almirante Juan Lombardo, sob o qual foram subordinadas as guarnições militares nas Malvinas/Falklands e as unidades navais da Marinha Argentina. As unidades do Exército, da Força Aérea e da Marinha, que foram desdobradas para as Malvinas/ Falklands (cerca de 10.000 homens no final de abril), passaram ao comando do General-de-Brigada Mario Benjamin Menendez. 

No dia 5 de abril, o Quartel-General de Operações da Força Aérea (que pertencia ao Comando Aéreo Estratégico do TOAS) criou uma força especial denominada Fuerza Aérea Sur (FAS) a ser comandada pelo Brigadeiro (da Força Aérea) Ernesto Horacio Crespo, a quem foi confiada a nata das forças de ataque aéreo argentinas com a principal missão de atacar a Esquadra Britânica. O Brigadeiro Crespo, até então Comandante da 4ª Brigada Aérea, possuía uma elevada experiência, tanto como piloto quanto como comandante. A FAS foi subordinada diretamente à Junta Militar, fora da cadeia de comando do TOAS, embora fosse prevista uma coordenação de esforços com os demais comandos, o que não vinha a ser, necessariamente, uma estrutura de comando eficaz para conduzir tanto a estratégia de emprego quanto as próprias operações em si.



A Força Aérea Argentina e a Força Aeronaval da Marinha Argentina

Os argentinos possuíam, considerando-se os padrões de potência de nível intermediário, uma força aérea grande, relativamente moderna e eficiente. A Fuerza Aérea Argentina (FAA) era dotada de alguns aviões de primeira linha em âmbito mundial, incluindo os interceptadores Mirage III. A Força Aeronaval da Marinha (FAM) encontrava-se em processo de aquisição, da França, de um esquadrão de caças Super Étendard. 

Na década anterior, a FAA havia adquirido o Mirage 5, fabricado por Israel (denominado Dagger), um avião supersônico mach 2, eficiente tanto nas missões ar-ar, quanto nas missões de ataque a alvos de superfície.

A principal aeronave de ataque da FAA e da Marinha Argentina era o A-4 Skyhawk (somando algumas dezenas), adquiridos como excedentes de inventário da Marinha Americana. Os A-4 eram antigos (construídos na década de 60), mas ainda em bom estado de conservação e em boas condições operacionais. Em 1982 eles ainda eram empregados por muitas forças aéreas no mundo. Naquela época, as unidades aéreas dos Fuzileiros Navais Americanos (USMC) ainda os possuíam em seus inventários, sendo muito apreciados por sua agilidade, resistência e precisão nas missões de bombardeio picado.

É importante realçar que a FAA, diferentemente da Royal Air Force (RAF) e da Força Aeronaval Britânica, não possuía bombas de precisão com sistemas de autodireção (“precision-guided bombs”). Todas as bombas empregadas pelos argentinos eram do tipo convencional (“dumb bombs”), que dependiam, essencialmente, da habilidade do piloto, no momento do lançamento, para atingir o respectivo alvo.

A FAA possuía, ainda, 8 velhos bombardeiros Canberra, uma pequena força de transporte e vários esquadrões de IA-58 Pucará. O Pucará era o orgulho da indústria aeronáutica argentina, projetado e fabricado no país. Era um avião de ataque leve, bimotor turbohélice, para ser empregado em missões contra insurgentes. Era capaz de receber um canhão de 30mm e diversos tipos de bombas. Vagaroso mas robusto, possuía a vantagem de operar em pistas curtas e não preparadas. 

A Força Aeronaval da Marinha (FAM) contava com alguns jatos de treinamento Aeromacchi 339, que poderiam receber a configuração de caça leve de ataque a alvos na superfície. Tanto a FAA quanto a FAM possuíam, em suas bases, uma boa infra-estrutura de manutenção de aeronaves, contando também com pilotos muito bem treinados.

No papel, a FAA parecia formidável. Contudo, possuir uma força aérea moderna, atualmente, significa tomar uma decisão que envolve gastos e recursos extremamente elevados. Assim, os países menores, por limitações econômicas, procuram dimensionar o tamanho de suas forças em função das prováveis ameaças. No caso particular da Argentina, o provável inimigo, na ocasião, seria seu antigo rival, o Chile (que também possuía uma força aérea moderna e respeitável). 




Estas duas nações disputavam a posse do Canal de Beagle, no extremo sul do continente, e por várias vezes estiveram na iminência de uma guerra. Em 1978, o aumento das tensões levou a Argentina a entrar em pleno estado de alerta militar. Por décadas, a FAA vinha preparando-se para uma guerra contra o Chile, na qual, a maioria das missões consistiria em vôos de pequeno alcance, partindo de bases próximas à longa linha de fronteira entre os dois países. Assim, suas unidades de ataque estavam treinadas para prestar apoio aéreo aproximado às tropas que estariam lutando no solo.

A FAA nunca havia imaginado a possibilidade de se engajar em um conflito aeronaval no qual tivesse que combater o inimigo a distâncias tão grandes de suas bases aéreas, e mais, que este inimigo viesse a ser uma potência da OTAN, dona de meios e de uma tecnologia muito superior. A FAA contava apenas com duas aeronaves de reabastecimento em vôo (KC-130 Hércules) para apoiar a própria FAA e também a FAM. Enquanto os A-4 Skyhawk eram equipados com sistema de reabastecimento em vôo, os Mirage III e os Dagger não possuíam esta capacidade, limitando-os drasticamente nas missões de ataque a alvos de superfície e em missões de cobertura. Outro problema era a falta de reconhecimento a longa distância. As únicas aeronaves capazes de cumprir esta missão eram dois velhos P-2 Netuno, com motores a hélice, da FAM.

A FAA encontrava-se, também, muito atrasada em certas áreas fundamentais como, por exemplo, sistemas de navegação. Havia a previsão de que os A-4 recebessem o Sistema Ômega 8, de navegação a longa distância, mas, em abril de 1982, somente um terço da frota havia sido modificada. 

A maior deficiência na Força Aérea, entretanto, recaía em seus armamentos. A sua principal arma para o combate ar-ar era o míssil francês Matra-530 de autodireção infravermelha. Para a época, era ainda bem adequado, possuindo um alcance de 6 milhas.Entretanto, sendo ainda um míssil ar-ar de primeira geração, ele possuía um estreito campo de “visão” (de 30 a 40 graus) e o seu sensor infravermelho, por limitação de capacidade (em termos de campo de visão e de sensibilidade), só conseguia “adquirir e locar-se” em um alvo designado se o caça que o levava se aproximasse diretamente por trás do inimigo. 

Já os caças Harrier da Marinha Inglesa e da RAF, que a FAA teria de enfrentar, eram armados, cada qual, com 4 mísseis americanos AIM-9L Sidewinder, infravermelhos, de uma inteira geração acima dos Matra, possuindo um largo campo de “visão” (de 90 a 120 graus) e dotados de um sensor (infravermelho) de calor muito mais sensível, que permitia “locar-se” até em uma fonte de calor gerada pela fricção do ar com a superfície frontal do avião inimigo em vôo. Em resumo, o piloto do Harrier não precisaria estar diretamente atrás do oponente para executar um lançamento mortal, podendo até mesmo obter sucesso lançando o Sidewinder numa situação de combate face a face com o inimigo.

O Brigadeiro Crespo começou, imediatamente, a organizar e a preparar sua força de ataque. Com poucas semanas disponíveis ele passou a treiná-la incansavelmente. A Marinha Argentina colocou à disposição da FAA, para treinamento dos Dagger e A-4, um destróier moderno, da Classe 42, com um sistema atual de mísseis contra alvos aéreos e um sistema de radares similares aos usados pelos navios da Marinha Inglesa. Os Skyhawk e Dagger simulavam corridas de bombardeio contra o destróier, enquanto este simulava uma defesa com mísseis e executava manobras evasivas. Os resultados não foram animadores. A Marinha estimou que os pilotos da FAA teriam uma probabilidade de 50% de serem abatidos nos ataques aos navios britânicos.

Ainda durante os treinamentos, a Fuerza Aérea Sur (FAS) desdobrou seus aviões para quatro bases aéreas, das quais eles podiam atacar o inimigo próximo às ilhas Malvinas/ Falklands. Eram elas, de sul para norte, com respectivas aeronaves:


Río Grande
–– 437 milhas náuticas (nm) de Port Stanley-: 10 Dagger (6º Gp de Caça) – 4 Super Étendard (2º Esqd de Caça da Marinha) / 8 A-4Q Skyhawk (3º Esqd. de Caça da Marinha).

Río Gallegos –– 500 nm de Port Stanley-: 24 A-4B (5º Gp de Caça) / 10 Mirage III (8º Gp de Caça)
San Julian–– 10 Dagger (6º Gp de Caça) / 15 A-4C (4º Gp de Caça)
Comodoro Rivadavia –– 500 nm de Port Stanley-: 1 Dest de Mirage III do 8º Gp de Caça / 20 Pucará (4º Gp de Ataque).
Base Aeronaval de Trelew–– 8 Canberra (2º Gp de Bombardeiros) que podiam alcançar as Malvinas/ Falklands.


Ao todo, a FAS possuía aproximadamente 110 aeronaves de combate baseadas no continente, incluindo os Pucará, além de mais 12 aeronaves de ataque da Força Aeronaval.

Durante a campanha, a Junta tomou decisões estratégicas e operacionais sobre a defesa das ilhas sem consultar os Comandantes das Forças Armadas ou, aparentemente, sem realizar um sério Exame de Situação. À época da invasão, ficou bem claro que os ingleses iriam entrar em combate e, em conseqüência, a Junta começou a reforçar as guarnições militares nas Malvinas/ Falklands. 

No dia 9 de abril, o Presidente e Comandante do Exército, General Leopoldo Galtieri, sem qualquer consulta aos Estados-Maiores das Forças Armadas ou aos oficiais responsáveis pela defesa das ilhas, determinou que toda a 10ª Brigada Mecanizada fosse para lá desdobrada. No dia 22 de abril, após visitar as Malvinas/Falklands, Galtieri ordenou que a 3ª Brigada do Exército fosse também desdobrada. 

No final de abril, cerca de 10.000 militares argentinos estavam distribuídos pelas ilhas, estando o grosso da força (7.000 homens) concentrado em seu lado leste (chamada de Soledad, pelos argentinos), nas vizinhanças de Port Stanley. O reforço da ilha tornara-se um problema complicado, diante do bloqueio naval imposto pela Grã Bretanha, empregando 3 submarinos nucleares de ataque da Marinha Inglesa, desdobrados para o Atlântico Sul. A Argentina não mais ousaria enviar, por mar, nenhum tipo de reforço ou de suprimento diante de tal ameaça. Assim, desde o início, as forças argentinas nas ilhas tornaram-se dependentes do transporte aéreo prestado pela FAA.

Com relação a este aspecto, o primeiro problema recaía no comprimento da pista de pouso do aeródromo de Port Stanley, a única, nas ilhas, que possuía um piso com compactação adequada. Ela era relativamente curta (1.350 metros), própria para aviões turbohélice de transporte civil e para aeronaves como o C-130 Hércules, com capacidade para pouso em pistas curtas. De qualquer forma, nenhum jato civil de grande porte ou aeronave militar de alta performance, poderia operar de Port Stanley. Assim, todo o esforço argentino, relativo a ressuprimento logístico ou a qualquer outro tipo de reforço ou evacuação, passou a depender de uma única e pequena pista.

A FAA possuía uma pequena força de transporte composta por 7 C-130 e uns poucos Fokker F-27, bimotores de transporte leve. Cada aeronave, de companhia aérea nacional, que fosse capaz de pousar em Port Stanley, foi requisitada para transportar as tropas e os equipamentos que o Gen Galtieri havia, irrefletidamente, decidido enviar para as ilhas. A força de transporte da FAA, dentro de suas limitações, atuou extremamente bem.

O esforço de transporte da FAA em apoio às forças nas ilhas permaneceu até o último dia da campanha. Entretanto, uma pequena força de transporte, limitada por uma única e curta pista de pouso, restringiu drasticamente as forças que poderiam ter sido levadas para as ilhas. A 10ª Brigada Mecanizada foi enviada para as Malvinas/Falklands sem o seu grupo de artilharia e sem as suas viaturas. Em verdade, todas as unidades do Exército desdobradas (após a invasão, todas foram transportadas por aviões) puderam levar, tão somente, armas e veículos leves. A maioria dos equipamentos foram deixados para trás, em suas bases de origem.

Meios aéreos consideráveis foram também desdobrados para as Malvinas/Falklands e colocados sob o comando do Gen Menendez, e não sob o comando da FAS. Deles constavam 19 helicópteros, das 3 Forças Armadas, a maioria para cumprir missões de reconhecimento e de transporte de tropas; 24 Pucará do 3º Grupo de Ataque, levados em abril; 6 aviões de ataque leve, Aeromachi 339, e 6 T-34B Mentor. O Aeromachi, por ser a reação, foi colocado em Port Stanley, único aeródromo a possuir uma pista pavimentada. Os Pucará, construídos para operar em campos não preparados, foram, em sua maioria, enviados para uma pequena pista de grama em Goose Green –– um lugar sem recursos, que se transformava em pântano após qualquer chuva. Alguns Pucará, usados para transporte leve, e 6 T-34, foram colocados na ilha Pebble, em uma pista pequena, suja e de operação cuidadosa.

Segunda fase: o início dos  combates. Período: 1º a 20 de maio de 1982



Operações Aéreas: o primeiro dia

Os primeiros disparos da guerra ocorreram a 1º de maio. O primeiro escalão da força de invasão britânica chegou às águas das Malvinas/ Falklands, posicionando-se a, aproximadamente, 70 milhas a leste de Port Stanley. A Força-Tarefa Britânica (British Task Force –– BTF), sob o comando do Almirante John Woodward, era composta por dois navios-aeródromos leves (NAeL) denominados HMS Hermes e HMS Invincible, cerca de 20 destróiers e fragatas e, ainda, navios de transporte de tropas e de apoio, tendo a bordo uma brigada de infantaria completamente equipada. Cada NAeL transportava aviões Harrier e helicópteros. 

Ao todo, o primeiro escalão da BTF era composto por 65 navios protegidos por um conjunto de modernos radares e sistemas de mísseis antiaéreos, incluindo o novo Sea Dart (eficiente para longo alcance e elevada altitude), o Sea Wolf (contra ameaças a baixa altitude) e um conjunto de artilharia de cano, de 20 e 40 mm, para defesa a curta distância. 

Contudo, a principal arma britânica, tanto de ataque quanto de defesa, durante a maior parte da campanha, consistiu na força de 21 aeronaves Harrier. A pequena força de caças Harrier da Real Marinha Inglesa, que equipavam a BTF, seria em breve reforçada com 14 Harrier da Royal Air Force (RAF), que chegariam transportados por dois grandes navios cargueiros, o Atlantic Conveyor e o Atlantic Causeway, em cada qual havia sido instalado um convés de vôo para operações de decolagens e pousos verticais. Mais tarde, 4 Harrier voaram direto da Ilha Ascensão até a Esquadra, realizando vários reabastecimentos em vôo, sendo este o último reforço recebido na campanha. O Harrier era um avião bem mais moderno do que qualquer outro voado pela FAA e, embora possuísse um curto raio de ação, ele era capaz de sobrevoar a Esquadra por 40 a 60 minutos, realizando missões de Patrulha Aérea de Combate (PAC), o que representava uma significativa vantagem sobre os aviões de ataque argentinos que dispunham, na melhor situação, de poucos minutos para identificar os alvos e combater o inimigo.




Durante o dia, a Marinha Britânica procurava manter uma PAC de 2 Harrier sobre a Esquadra, equipados com os letais AIM9-L. Porém, o pequeno número de Harrier disponíveis dificultava a missão de defender a Esquadra. Enquanto isto, os argentinos torciam por coincidir o momento em que seus aviões atacavam os navios, com o momento em que os Harrier executavam missões diversionárias ou se encontravam pousados nos decks para reabastecimento.

Voltando aos acontecimentos de 1º de maio, os combates tiveram início quando um bombardeiro Vulcan de longo alcance decolou da Ilha Ascensão, a milhares de milhas distante e, antes da alvorada, bombardeou o aeródromo de Port Stanley, abrindo crateras na pista e danificando algumas instalações de apoio. Pouco tempo depois, após as 8 horas da manhã, 10 aviões Harrier, empregando bombas e canhões, atacaram os aeródromos de Goose Green e de Port Stanley, em bombardeio a baixa altitude. Uma bomba atingiu um Pucará no solo, matando o piloto e a equipe de pista que o apoiava. Dois outros mais, pelo menos, foram também danificados e ambos os aeroportos foram moderadamente atingidos. 

A artilharia antiaérea argentina (AAA) foi intensa e as tropas animaram-se com as declarações de que, no mínimo, 4 Harrier (que haviam atacado Port Stanley), teriam sido atingidos e caído no mar. Na realidade, apenas um deles fora atingido, sem gravidade, por um projetil de 20 mm, havendo sido reparado em aproximadamente duas horas após o pouso. O bombardeio a Port Stanley foi reforçado por 3 navios de guerra que, posicionados a 6 milhas da costa, atiraram com seus canhões nas instalações do aeródromo.

A Fuerza Aérea Sur (FAS), ciente da Esquadra Britânica em águas das Malvinas/ Falklands, passou a enviar sucessivas formações de aviões de ataque, protegidos por interceptadores, para atacar os navios ingleses. A FAS possuía limitações que lhe negavam a opção de lançar uma grande força de ataque, que lhe permitisse usar a vantagem numérica de aeronaves, para sobrepujar as defesas inglesas. Para levar uma tonelada de bombas (4 bombas de 500 kg ou 2 bombas de 1000 kg) a 600 milhas, o A-4 Skyhawk necessitava ser reabastecido em vôo. Com apenas dois aviões tanques disponíveis para apoiar todas as forças, a FAS ficou restrita a enviar pequenas formações por vez, usualmente uma esquadrilha de 4 aviões. Cada missão deveria ser cuidadosamente planejada e programada para realizar, com precisão, o indispensável rendezvous.




Embora os Skyhawk e os 4 Super Étendard da Marinha fossem dotados de sistemas de reabastecimento em vôo, os Dagger e os Mirage não possuíam esta capacidade. Mesmo equipados com dois tanques alijáveis, de 1700 litros, tanto um quanto o outro, estavam sendo empregados no limite absoluto de seus raios de ação. Os caças enviados para dar combate às PAC de Harrier e dar cobertura aos aviões de ataque dispunham de não mais do que cinco minutos sobre o objetivo (enquanto isto, os Harrier podiam permanecer na área, por aproximadamente uma hora de vôo, e serem reabastecidos pelos navios da Esquadra próxima). 

Para os argentinos, o fator alcance tornou-se ainda mais complicado pela tática inglesa de manter sua Esquadra de 70 a 100 milhas a leste ou a nordeste das ilhas. Isto significava um aumento de 150 a 200 milhas na distância a ser voada pelos aviões de ataque argentinos no trecho continente –– armada inglesa –– continente

Além disso, os Dagger e Mirage, aviões supersônicos (mach-2), ficaram impossibilitados de usar os seus sistemas de “pós-combustão” (PC) e tirar a enorme vantagem de velocidade que possuíam sobre os subsônicos Harrier (o elevado consumo de combustível no uso da PC restringiria a autonomia das aeronaves, não permitindo que, no regresso, alcançassem o continente).

No dia 1º de maio, quase todas as forças de ataque da FAS foram colocadas em ação. As duas primeiras esquadrilhas de caça voaram a média altitude, não encontraram a Força Britânica e tiveram que regressar. No meio da tarde, a terceira esquadrilha de 4 Mirage, enviada com a missão de dar combate aos Harrier, encontrou a sua presa. Um elemento de Harrier (dois aviões) que voavam PAC evoluíram enganando os Mirage e rapidamente abateram dois deles, empregando os mísseis Sidewinder. Um terceiro Mirage gastou mais combustível do que deveria e tentou um pouso de emergência na pista de Port Stanley. A AAA confundiu o próprio avião com o inimigo e o abateu, matando o piloto.

Os três navios de guerra (1 destróier e 2 fragatas) que estavam bombardeando Port Stanley foram atacados por uma esquadrilha de Dagger com bombas e canhões, resultando em pequenos danos em um dos navios. Entretanto, os exultantes pilotos argentinos relataram que um navio havia sido seriamente danificado e que dois outros haviam sofrido danos em diferentes graus.




Ao final da tarde, uma esquadrilha de bombardeiros Canberra, decolados da Base Aérea de Trelew, tentaram atacar os mesmos navios que bombardeavam Port Stanley. Eles se aproximaram, voando a média altitude, foram detectados pelo radar inglês e interceptados pela PAC de Harrier. Quando os velhos e vagarosos Canberra faziam meia volta e fugiam, um deles foi abatido por um Sidewinder e o outro, mesmo seriamente danificado por um míssil Sea Dart, conseguiu retornar à sua base.

O primeiro dia de batalha marcou o ritmo das ações que iriam persistir durante a campanha. Os argentinos afirmaram terem sido vitoriosos no dia por haverem danificado 3 navios e abatido, pelo menos, 5 Harrier. Alegaram também haver rechaçado uma tentativa de desembarque inglês, quando vários helicópteros da Marinha Real voaram em direção à ilha leste e, antes de alcançarem a costa, fizeram 180 graus e regressaram à Esquadra. Encorajada pelo aparente sucesso, apesar de haver perdido 5 aviões e sofrido outros danos, a FAS preparava-se para realizar novos ataques.

Em termos práticos, o dia havia sido muito bom para os ingleses. A Força-Tarefa não havia perdido nenhuma aeronave e apenas sofrido pequenas avarias em um único navio. A “força de invasão helitransportada”, que havia sido rechaçada, era, na verdade, um grupo de helicópteros anti-submarino, buscando localizar possíveis submarinos argentinos nas águas das ilhas.

Durante toda a campanha, os argentinos lutaram amplamente no escuro, ou seja, a FAS não possuía meios para processar uma avaliação de danos confiável resultante de seus ataques e dependia, basicamente, dos relatórios notoriamente imprecisos emitidos por seus pilotos e operadores da artilharia antiaérea que superestimavam consistentemente os próprios resultados, tanto da defesa antiaérea quanto dos ataques aéreos. Por outro lado, os Harrier podiam realizar, com plena liberdade, o reconhecimento foto das forças argentinas desdobradas nas ilhas. Pode-se imaginar, também, que os Estados Unidos forneciam, aos seus aliados ingleses, fotografias das bases argentinas no continente, tiradas por satélites, permitindo aos ingleses contar e identificar as aeronaves inimigas ainda no solo.

Um dos problemas mais sérios para a FAS, durante toda a campanha, consistiu na falta de meios para o reconhecimento a longa distância. A menos que a Armada Britânica se deixasse notar, navegando próxima à costa para ataques a alvos em terra, os argentinos possuíam muito poucos recursos para localizar os navios inimigos. Os meios disponíveis pela FAS para reconhecimento a longa distância consistiam em dois velhos aviões P-2 Netuno, cujo radar podia detectar navios a uma distância superior a 50 milhas. 

Outro importante meio de inteligência dos argentinos consistia em um moderno radar Westinghouse AN/TPS-43F e um radar de vigilância tática Cardion AN/TPS-44, instalados em Port Stanley e operados por equipes da FAA. O radar Westinghouse era um verdadeiro estado da arte, com um longo alcance que lhe permitia “ver” além do horizonte. Os competentes operadores deste radar, freqüentemente, conseguiam identificar a PAC de Harrier até a 40 milhas de distância e, plotando seus padrões de vôo, eram capazes de determinar, aproximadamente, a localização da Armada e dos navios-aeródromos ingleses.

De qualquer forma, a ausência de meios de reconhecimento somada ao freqüente mau tempo reinante no Atlântico Sul no final do outono, fizeram com que, durante a campanha, pelo menos um terço das aeronaves argentinas, enviadas para atacar os ingleses, tivessem retornado às suas bases sem realizar qualquer contato com os navios inimigos.

O ponto mais fraco dos britânicos consistiu na falta de uma aeronave de Alarme Aéreo Antecipado (AEW), de longo alcance, que pudesse identificar aeronaves inimigas aproximando-se a baixa altura. Quando os argentinos voavam a meia ou alta altitude, como ocorreu no primeiro dia, eles demonstraram ser presas fáceis para os radares de bordo dos Harrier. Contudo, o radar do Harrier não era capaz de, facilmente, identificar as aeronaves inimigas voando a baixo nível. 

Durante o resto da campanha, a FAS passaria a explorar o ponto fraco dos ingleses, realizando aproximações a baixa altura (a nível de topo das ondas do mar) na realização dos ataques, tornando suas aeronaves difíceis de serem detectadas. Isto significava que os argentinos voariam em altitudes normais (de 20 a 30 mil pés) mar adentro e desceriam a nível das ondas (de 100 a 200 pés) para voar as últimas 100 milhas ao encontro do alvo. Estas foram algumas das mais estressantes e perigosas missões da história da guerra aérea.

O primeiro ataque com míssil Exocet 

Quando os argentinos desembarcaram nas Malvinas/Falklands, a Força Aeronaval Argentina estava ativando seu 2º Esquadrão, equipado com 14 Super Étendard, que era um caça leve de ataque, de fabricação francesa, desenvolvido nos anos 60 e que em breve deixaria de ser produzido.

O Étendard tornou-se importante por possuir uma configuração que lhe permitia transportar e empregar o míssil Exocet, que era, na ocasião, o estado da arte dos mísseis antinavio. O Exocet era de grande porte, guiado por radar, podendo ser lançado de uma longa distância, aproximadamente 30 milhas, transportando uma carga explosiva de 950 libras. Ele cruzava a uma velocidade que se aproximava de mach 1, a um nível muito baixo (quase no topo das ondas). Uma vez feita a aquisição do seu alvo, tornava-se muito difícil de ser abatido. Os resultados de seu impacto eram por demais devastadores. Sua capacidade de alcance tornava-o uma arma standoff ideal, permitindo que a aeronave de ataque não necessitasse aproximar-se da PAC inimiga. A melhor defesa contra o Exocet consistia no lançamento de uma grande quantidade de chaff (pequenas tiras de metal que criam uma falsa imagem no radar) sobre o mar e distante dos demais navios, gerando um alvo fictício.

Os pilotos do 2º Esquadrão foram treinados na França em 1980–81, e se encontravam plenamente qualificados na aeronave. Entretanto, quando o conflito das Malvinas/ Falklands começou, apenas 5 Super Étendard e 5 Exocet haviam chegado da França. As nações do Mercado Comum Europeu e da OTAN determinaram um imediato embargo ao fornecimento de armas para a Argentina. Em conseqüência, o envio das aeronaves e dos mísseis foram suspensos pela França. O governo argentino tentou desesperadamente, durante todo o conflito, conseguir mais mísseis Exocet no mercado mundial, sem que obtivesse sucesso. A Argentina teria que fazer a guerra com apenas 5 Étendard e 5 Exocet. Uma vez que o suprimento para os Étendard havia sido cortado pela OTAN, a FAA decidiu manter uma das 5 aeronaves como reserva, e usá-la como fonte de suprimento para as demais.

O Exocet era um armamento complicado que exigia muita atenção, a par de que os argentinos não possuíam prévia experiência com mísseis antinavios. Em novembro de 1981, a Dassault Aviation, construtora do Super Étendard, e uma corporação do Governo Francês enviaram uma equipe de 9 técnicos à Marinha Argentina que, com alguns especialistas da Aerospatiale, tinham por missão supervisionar a implantação dos Étendard e dos Exocet nas Forças Argentinas. Os argentinos tiveram muitos problemas na adaptação do sistema de lançamento do Exocet aos trilhos instalados sob os pilones do Super Étendard. 

Embora a França tivesse aderido ao embargo de armamentos imposto à Argentina pela OTAN e Mercado Comum, a equipe técnica francesa, que se encontrava na Argentina, não foi retirada. De fato, os técnicos franceses, aparentemente, continuaram a trabalhar nos Exocet, conseguindo reparar os problemas que existiam nos sistemas de lançamento. Sem a ajuda dos técnicos e a conivência do governo francês (“aliado” da OTAN/Inglaterra) teria sido improvável que a Argentina fosse capaz de empregar, contra as forças britânicas, o seu armamento de maior capacidade de destruição.

As ações dos dias 2 e 3 de maio 

No dia 2 de maio, a ação naval decisiva da guerra ocorreu quando o submarino nuclear HMS Conqueror afundou o cruzador argentino General Belgrano, fora das 200 milhas da zona de exclusão, declarada pela Grã-Bretanha, em torno das Malvinas/Falklands. O General Belgrano estava equipado com mísseis Exocet, e a possibilidade de realizar um ataque contra a Força-Tarefa britânica foi levada suficientemente a sério, a ponto de que decidissem torpedear o cruzador, causando uma significativa perda de vidas.

A partir deste evento, os argentinos deixaram de considerar qualquer tentativa de ataque, empregando meios navais, e mantiveram o seu navio-aeródromo em segurança no porto. Todas as esperanças de ressuprir as guarnições nas ilhas, por navios, foram descartadas, deixando-as totalmente dependentes do transporte aéreo.

No dia 2 de maio, as más condições atmosféricas não permitiram qualquer tipo de atividade. No dia 4, entretanto, um Netuno de reconhecimento identificou o que eles acreditaram ser o navio-aeródromo HMS Hermes, a leste de Port Stanley. Dois aviões Super Étendard, do 2º Esquadrão, cada qual armado com um Exocet, decolaram para um longo vôo. A uma razoável distância, os Étendard receberam um plot (um sinal na tela do radar), não do Hermes, mas do destróier HMS Sheffield (do tipo 42, equipado com o novo míssil antiaéreo Sea Dart ), posicionado bem à frente da Esquadra, para defesa avançada e ou alarme aéreo antecipado.

Os aviões lançaram os dois Exocet de uma boa distância (algumas fontes afirmam que foram disparados de 30 milhas, outras de 7 milhas). Logo após o lançamento, as duas aeronaves, prudentemente, se afastaram da cena a baixa altura. Um Exocet desviou-se, mas o outro atingiu o alvo e avariou o Sheffield, causando severas baixas. O Sheffield foi posteriormente abandonado e, seis dias depois, afundou quando era rebocado. Ironicamente, os argentinos não puderam avaliar, de imediato, o resultado deste ataque por falta de meios de reconhecimento. 

Entretanto, a política dos britânicos, de manter a sua imprensa e o público inglês informados sobre a perda de vidas que viessem a ocorrer durante a campanha, levou estas informações, indiretamente, ao conhecimento do inimigo. Assim, o Alto-Comando Argentino soube, dentro de poucas horas, através da mídia inglesa, que o Sheffield havia sido atingido por um Exocet. Se esta perda não houvesse sido publicamente anunciada, provavelmente os argentinos teriam concluído que seus Exocet continuavam, ainda, com os mesmos problemas técnicos apresentados, e poderiam ter decidido suspender o emprego daquele míssil em futuros ataques.

Amaciando as Malvinas/Falklands

Durante o período de 1º a 20 de maio, a FTB levou a termo uma sistemática campanha de bombardear as forças e as instalações argentinas nas ilhas. As aeronaves inglesas colocaram a pique duas pequenas embarcações, enquanto Port Stanley permanecia sob intenso bombardeio naval. Os aviões ingleses realizavam reconhecimento aéreo e os helicópteros infiltravam equipes de operações especiais (SAS) à retaguarda das linhas inimigas, para reconhecimento do terreno.

O primeiro Harrier perdido na campanha foi abatido pelo fogo da antiaérea argentina no dia 4 de maio, durante um ataque ao aeródromo de Goose Green. Ambos os lados sofreram perdas devido ao mau tempo. No dia 6 de maio, os ingleses perderam dois Harrier do HMS Invincible, que colidiram em pleno vôo por causa do nevoeiro na área. No dia 15, uma surpreendente e ousada incursão realizada por uma unidade SAS, em um pequeno campo de pouso na ilha Pebble, destruiu 6 Pucará, 6 T-34 Mentor e um avião de transporte Skyvan.

Sempre que as condições climáticas melhoravam, a FAS enviava suas esquadrilhas para atacar a Força-Tarefa. Neste ínterim, no dia 10 de maio, os meios de reconhecimento de longo alcance dos argentinos foram reduzidos a zero, quando os dois Netunos, usados para esta missão, ficaram indisponibilizados para reparos. Em conseqüência, a FAS passou a depender de que os navios ingleses se deixassem notar (navegando próximos às ilhas para bombardear alvos na costa), permitindo que suas posições fossem identificadas e se tornassem potenciais alvos para novos ataques argentinos.

Considerando que a defesa aérea britânica, constituída por mísseis e canhões antiaéreos (sem mencionar os Harrier), era portentosa, o Brigadeiro Crespo, Comandante da FAS, tentou usar uma variedade de táticas inusitadas para atingir a Esquadra Britânica. Após o insucesso dos ataques realizados a grande altitude, no dia 1º de maio, as missões contra os navios, que se seguiram, foram realizadas a uma altura extremamente baixa, com o propósito de esquivar os aviões incursores das Patrulhas Aéreas de Combate, realizadas pelos Harrier. Os ataques, em sua maioria, eram realizados ao final da tarde, quando as aeronaves argentinas, na aproximação final para o bombardeio, ficavam protegidas pela posição do sol em suas caudas, dificultando a visão das tripulações inglesas a bordo dos navios. 

Outra tática empregada pelo Brigadeiro Crespo, com algum sucesso, foi a criação de um esquadrão improvisado composto por aeronaves Learjet, militares e civis. O Esquadrão Fênix, como era chamado, tinha como sede a Base Aérea de Trelew, a mesma dos bombardeiros Canberra. Os Learjet, desarmados, voavam a grande altitude, geralmente em direção à Esquadra Britânica com o propósito de simular uma incursão de aviões Canberra. A uma distância segura da Armada Britânica, os Learjet faziam meia volta retornando à base. O Brigadeiro Crespo esperava, na melhor das hipóteses, que os Learjet desviassem a PAC inglesa em sua direção, enquanto os Skyhawk e Dagger penetravam a baixa altura em direção à Esquadra Inglesa.




Na pior das hipóteses, o Esquadrão Fênix obrigaria os ingleses a, constantemente, manter e decolar em alerta os seus caças Harrier, aumentando o esforço aéreo e, em conseqüência, a tensão e a fadiga de seus pilotos.

No dia 12 de maio, 12 Skyhawk da FAS atacaram o HMS Glasgow e o HMS Brilliant no momento em que eles bombardeavam Port Stanley. Dois deles foram abatidos por mísseis Sea Wolf, disparados pelo Brilliant, e um terceiro colidiu com o mar quando executava manobras evasivas. Outro deles lançou uma bomba de 1.000 libras que se alojou a bordo do Glasgow. Felizmente para os ingleses, a bomba não explodiu, mas o navio ficou seriamente avariado e, em conseqüência dos danos, foi retirado do Teatro de Operações.

Muitas das bombas lançadas pelos argentinos durante a guerra não explodiram ao atingirem os navios ingleses, provavelmente por terem sido lançadas de um nível tão baixo e de distância tão próxima que, diminuindo consideravelmente o tempo entre o lançamento e o impacto, não permitiam que as respectivas espoletas fossem aerodinamicamente armadas.

No dia 18 de maio, o segundo escalão da Força de Invasão chegou ao Teatro de Operações, reforçando a Armada Britânica com mais navios; com a 2ª Brigada de Infantaria; e com mais 14 Harrier da RAF, transportados a bordo do Atlantic Conveyor. Mesmo com as baixas sofridas, os ingleses possuíam, naquela data, mais de 30 Harrier disponíveis para a proteção da Esquadra, para ataques a alvos na superfície e para prestar apoio ao planejado desembarque da força terrestre na ilha leste.

Terceira fase: o desembarque na Baía de São Carlos. Período: 21 a 26 de maio de 1982

Os ingleses escolheram, para desembarque, uma enseada chamada Baía de São Carlos, localizada no extremo oposto a Port Stanley, na ilha Falkland Leste. Ela foi escolhida por causa de suas ribanceiras e das altas colinas que a cercavam, podendo esconder os navios de desembarque dos radares dos mísseis Exocet. Em verdade, o Exocet era o único sistema de armas que os britânicos realmente temiam e a possibilidade de seu emprego orientou a integral conduta das operações britânicas.

Na manhã do dia 21 de maio, os ingleses bombardearam, intensamente, com ataques aéreos, os aeródromos e as instalações em poder dos argentinos. Nesta ocasião, a artilharia antiaérea abateu um avião Harrier e dois helicópteros Gazelle da Marinha Britânica. Os argentinos, já a par do desembarque inglês, empregavam todo o esforço aéreo da FAS (aproximadamente 75 aeronaves) para atacar os navios durante o dia. Voando em esquadrilhas de 4 aeronaves, os Skyhawk e Dagger, ao chegarem a 100 milhas de distância, aproximando-se em direção à Baía de São Carlos, desciam para uma altura de 100 pés acima do nível do mar. Embora as colinas protegessem os navios ingleses dos radares dos mísseis Exocet, elas protegiam, também, até o último momento, os aviões argentinos dos radares ingleses. 

Os Dagger e Skyhawk aproximavam-se em vôo rasante sobre o mar e, bem próximos, por trás das colinas, executavam o seu pop up, subindo e surgindo por sobre as elevações do terreno já alinhados e em vôo direto, numa curta e rápida corrida final para bombardear os navios ingleses. Embora os britânicos possuíssem dezenas de mísseis de defesa antiaérea (Sea Wolf, Sea Dart, Sea Slug, Sea Cat e o Rapier montado em terra), bem como uma grande quantidade de metralhadoras e canhões antiaéreos para a defesa de seus navios, o curto espaço de tempo em que os caças atacantes permaneciam expostos fazia com que as defesas inglesas dispusessem de não mais do que 20 a 30 segundos para plotar, locar e lançar seus armamentos para abater a aeronave inimiga, antes que ela lançasse suas bombas no alvo e curvasse em direção à sua proa de regresso. Estes poucos segundos disponíveis reduziram muito a eficiência do sistema de defesa britânico.

Este havia sido mesmo um terrível dia de combate: A fragata HMS Ardent foi danificada durante um primeiro ataque e, no final do dia, submergiu em conseqüência de um segundo ataque. Outros 4 navios foram atingidos pelas bombas argentinas, algumas das quais, milagrosamente, não explodiram (foram danificados: seriamente –– HMS Antrim; moderadamente –– HMS Brilliant, Argonaut Broadsword). Neste dia 21 de maio, os argentinos pagaram um alto preço por seu êxito moderado. Os ingleses abateram 9 aviões de caça da Força Aérea Argentina (5 Dagger e 4 Skyhawk). As unidades aéreas baseadas nas ilhas perderam 2 Pucará e 2 helicópteros. 

Com a continuação do desembarque britânico, a FAS planejou novos ataques. No dia 23 de maio, a fragata HMS Antelope foi afundada pelas bombas de aeronaves Skyhawk decoladas de Rio Gallegos. No dia 24, quatro Dagger engajaram-se com dois Harrier, resultando na destruição de 3 deles, abatidos por mísseis Sidewinder. No mesmo dia, um outro Dagger foi perdido. Os navios de desembarque Sir Galahad e Sir Lancelot foram danificados por bombas que não explodiram e o Sir Bedivere atingido e levemente danificado.

No dia 25 de maio, data da Independência Argentina (o mais importante feriado nacional), um grande esforço de combate foi planejado pela FAS. Um segundo ataque foi preparado pelo 2º Esquadrão e realizado às 16:30, tendo como alvo o navio-aeródromo HMS Invincible, localizado ao norte do local de desembarque nas ilhas. Como acontecido anteriormente, um Exocet lançado foi perdido, possivelmente abatido por fogo antiaéreo. O radar do segundo Exocet estava inicialmente direcionado para o Invincible mas foi desviado por uma grande quantidade de chaff lançada, e o seu radar passou a locar-se em um plot refletido pelo navio de transporte de carga Atlantic Conveyor (que não estava protegido por chaff). 




Atlantic Conveyor foi atingido, imobilizado e, em conseqüência, vindo mais tarde a afundar. O ataque a este navio causou 12 mortes e a perda de 10 helicópteros, que se encontravam a bordo. A destruição dos helicópteros, dentre os quais se encontrava um Chinook para transporte pesado, veio a dificultar bastante o apoio logístico necessário ao Exército em suas operações nas ilhas por possuírem poucas estradas e um terreno pantanoso. Torna-se oportuno ressaltar que o ressuprimento de suas tropas dependia essencialmente do transporte realizado por helicópteros.

Ainda neste dia, a FAS perdeu 3 aeronaves na tentativa de atingir a Armada Britânica e, à tarde, os Skyhawk lançaram 3 bombas no destróier HMS Coventry, que afundou em 30 minutos. O dia 25 de maio de 1982 fora o pior dia para os ingleses durante toda a campanha. Contudo, a esta altura, as duas brigadas da força terrestre (em sua maior parte) já se encontravam em terra, com seus equipamentos e suprimentos, prontas para montar a ofensiva final contra as forças argentinas.

Quarta fase. Período: 26 de maio a 14 de junho de 1982

No dia 26 de maio as forças britânicas estavam baseadas em terra firme na área da Baía de São Carlos e prontas para avançar sobre as posições do Exército Argentino. Nesta altura da campanha, havia muito pouco a ser feito pela Força Aérea Argentina para evitar a vitória dos ingleses. Mesmo que a FAS tivesse retirado de combate um dos navios-aeródromos, os ingleses poderiam ter (e de fato o fizeram) operado seus aviões Harrier, de decolagem vertical, de pistas não preparadas localizadas nas próprias ilhas. 

O General Menendez havia disposto suas forças ao longo de uma longa linha de defesa, ocupando posições nos pontos mais altos do terreno, de lado a lado, no extremo leste da ilha com o propósito de defender Port Stanley. Nenhum dos postos de defesa, tanto dos grupos quanto dos regimentos, foram dispostos em posições que pudessem prestar um apoio de defesa mútua. 

Embora as unidades de transporte aéreo da Força Aérea Argentina tivessem sido bastante eficazes ao levar 10.000 soldados para guarnecer as Malvinas/Falklands, elas haviam sido usadas para transportar apenas um pequeno número de veículos e de armas pesadas. As forças nas ilhas, sob o comando do General Menendez, possuíam somente 10 viaturas blindadas leves e um total de 159 veículos de todos os tipos. A maioria das peças de artilharia havia sido deixada para trás, no continente, e as tropas contavam com uma reserva muito baixa de munições. No dia 28 de maio, as duas brigadas britânicas, muito bem armadas, iniciaram sua ofensiva, cercando e isolando a guarnição argentina que se encontrava em Darwin, obrigando-a a se render. Daí por diante, os ingleses, metodicamente, tomaram posição após posição, passando por cima do Exército Argentino até que, no dia 8 de junho, as últimas forças foram encurraladas em um perímetro em torno de Port Stanley.

Embora os acontecimentos tivessem sido bastante ruins para as forças argentinas e as suas unidades aéreas tivessem sofrido pesadas baixas, o moral e a combatividade de seus pilotos, que voavam contra a Armada Britânica, permaneciam bastante elevados. Uma das razões para que o moral se mantivesse tão elevado, em uma ocasião tão difícil como aquela, devia-se ao fato de que as forças argentinas, continuamente, superestimaram os danos e as baixas que eles haviam infligido às forças inglesas. 

O Alto-Comando Argentino anunciava, e aparentemente acreditava, que até o dia 25 de maio eles haviam afundado ou neutralizado 19 navios e abatido 14 Harrier. Na realidade, os britânicos tiveram 5 navios afundados e 3 seriamente danificados (menos da metade dos danos que os argentinos anunciavam). Esta falsa impressão tem origem na ausência de meios precisos para que uma confiável Avaliação de Danos de Batalha (BDA) pudesse ter sido feita. Em vez disso, dos 14 Harrier que as equipagens da artilharia antiaérea haviam considerado haver abatido, somente 4 foram realmente perdidos. De posse de falsas informações como estas, poderia ter parecido à Força Aérea Argentina que a Marinha Real teria, em breve, que retroceder diante de um índice de atrito tão elevado.




No dia 30 de maio, o 2º Esquadrão realizou o seu último ataque com o Exocet, seguido por uma esquadrilha de Skyhawk, contra o navio-aeródromo Invincible. No que se refere ao alvo, as forças argentinas afirmam até hoje haver atingido e neutralizado o Invincible tanto com o Exocet quanto com as bombas lançadas pelos Skyhawk. Aparentemente, o Exocet foi abatido pelo fogo da artilharia antiaérea dos navios, e o casco do Atlantic Conveyor foi confundido com o do Invincible e atacado pelos Skyhawk. Apesar das declarações dos argentinos, nenhum dano foi causado pelo último ataque com o Exocet.

A esta altura da campanha, os Harrier realizavam numerosas missões de apoio aéreo aproximado em benefício de suas tropas terrestres. Os 24 Pucará, com base nas Malvinas/Falklands, vinham sendo sistematicamente diminuídos pelos ataques ingleses ao aeródromo de Port Stanley e em combates ar-ar. Contudo, poucas aeronaves permaneciam em condições de vôo naquele aeródromo. 

Mesmo assim, as poucas disponíveis, atacavam incansavelmente as tropas do Exército Inglês. Os Pucará eram, de uma maneira geral, ineficazes contra o inimigo e vários foram abatidos pela artilharia antiaérea de cano (metralhadoras e canhões), pelos mísseis antiaéreos portáteis (Blowpipe) e pelos caças Harrier. Entretanto, foi um Pucará que conseguiu a única vitória argentina em um combate ar-ar, durante toda a guerra, quando abateu, com seus canhões, um helicóptero de patrulha inglês. A FAS, embora tivesse sofrido severas baixas, continuava ainda com disposição para lutar e pronta para atacar a Esquadra Britânica, sempre que as condições climáticas fossem favoráveis. 

No dia 8 de junho, os navios de transporte de tropa Sir Galahad e Sir Tristram estavam desembarcando tropas da Guarda Escocesa no porto de Fitzroy, próximo a Porto Stanley, quando 5 Dagger do 6º Grupo e 5 Skyhawk do 5º Grupo apareceram sobre as Malvinas/ Falklands. A fragata HMS Plymouth dava cobertura aos navios de transporte, quando os caças argentinos roncaram próximos. O Plymouth foi danificado por fogo de canhão e atingido por 4 bombas que não explodiram. Ao mesmo tempo, os Skyhawk bombardearam o Sir Galahade o Sir Tristram, que pegaram fogo e foram abandonados, resultando na morte de 50 homens que se encontravam a bordo do Sir Galahad. No final daquela tarde, 4 Skyhawk do 4º Grupo atacaram o navio de desembarque LCU F4 quando navegava de Goose Green para Fitzroy, transportando veículos. O navio foi rapidamente afundado, resultando em seis baixas. Entretanto, a PAC de Harrier alcançou os Skyhawk, abatendo 3 deles com mísseis Sidewinder.

A FAS lutou agressivamente até o fim. À medida que a resistência das forças terrestres entrava em colapso na área de Port Stanley, os Skyhawk do 5º Grupo e os Canberra de Trelew tentavam prestar apoio aéreo aproximado ao Exército Argentino engajado na batalha. Estes ataques não foram eficazes e, em um deles, um Canberra foi abatido, provavelmente por um míssil Sea Dart. No dia 14 de junho de 1982, com sua artilharia restante muito pequena e sem mais nenhuma esperança de obtenção de reforços, o General Menendez se rendeu, com 8.000 homens, em Port Stanley. A Inglaterra havia vencido a guerra.

Conclusão


A Guerra das Malvinas/Falklands oferece algumas importantes lições para a condução de uma moderna guerra aérea. Os ingleses aprenderam quão importante é um sistema de alarme aéreo antecipado de longo alcance para proteger a Armada. 

Os ataques realizados com Exocet alertaram todas as marinhas do mundo para o perigo que os mísseis antinavios representam. 

As 20 vitórias ar-ar conquistadas pelos aviões Harrier, empregando os mísseis AIM-9L Sidewinder, realçam a importância de se manter uma superioridade tecnológica sobre o oponente nas áreas de tecnologia de mísseis e de sistemas de direção. Mesmo uma pequena vantagem (e os Sidewinder possuíam muito mais do que uma simples vantagem sobre os Matra 530) poderá significar uma decisiva superioridade aérea sobre o inimigo.




Para os argentinos, o fato de haver aprendido uma lição foi bem mais fácil de aceitar do que o de conviver com a humilhação de uma derrota. Os altos líderes militares foram culpados por tomarem uma série de decisões erradas que resultaram nas mortes de muitos bravos e dedicados argentinos, soldados, aviadores e marinheiros, homens que mereciam ter tido líderes muito melhores do que os que realmente tiveram. O General Galtieri e a Junta Militar cometeram o imperdoável erro de haver levado a Argentina a uma guerra sem que houvesse sido feito um prévio planejamento e preparo e, mesmo, sem a existência de uma minuciosa avaliação estratégica. 

Desde o início, o estratagema da Junta em ordenar a invasão das Malvinas/ Falklands foi um engano. Imediatamente após a ocupação das Malvinas/Falklands pela Argentina e a posição britânica de retomá-las através de uma campanha militar, os militares argentinos solicitaram, aos Estados Unidos, um pleno apoio de inteligência no caso de um conflito com a Inglaterra. Quando as autoridades americanas negaram tal pedido, afirmando que dariam total apoio à Inglaterra, sua antiga aliada, as autoridades argentinas ficaram, inexplicavelmente, surpresas com uma posição que seria bastante óbvia e previsível.

Os argentinos estavam tão convencidos da nobreza de sua causa que, simplesmente, supunham que os Estados Unidos e o resto do mundo apoiariam suas ambições nacionais. A Junta Militar ficou magoada com a posição americana e, incorrendo em um grosseiro erro de avaliação, não levou em conta que os Estados Unidos jamais tomariam o partido de uma ditadura que estivesse em conflito com a Grã-Bretanha, historicamente sua maior aliada.

O General Galtieri demonstrou uma notável ausência de conhecimento de modernas operações militares, quando insistiu em que as Malvinas/Falklands deveriam ser defendidas por uma grande força terrestre composta, em grande parte, por conscritos, pouco treinados, com pouco armamento pesado, e mais, sem que pudesse contar com uma linha de suprimento por mar, tornando-se totalmente dependente de uma tênue capacidade de transporte aéreo. 

Galtieri e a maioria de seus chefes militares de alta hierarquia demonstraram também possuir pouco conhecimento sobre o uso de tecnologia moderna na guerra. Um exemplo desta falta de visão consistiu no fato de que o Exército Argentino e a Força Aérea poderiam ter aumentado o comprimento da pista de pouso, em Port Stanley, em 2.000 pés e desdobrado seus Skyhawk e Dagger para as ilhas. Os argentinos possuíam, no continente, engenheiros, equipamentos e placas de aço, que lhes permitiriam ter realizado este aumento em cerca de uma semana. Porém, para transportar os engenheiros, o material e os equipamentos para Port Stanley seria necessário utilizar a maioria da capacidade de transporte aéreo disponível. 

Como a decisão do General Galtieri foi defender a ilha com uma grande força terrestre, a possibilidade de desdobrar os caças para as ilhas tornou-se impraticável. Simplesmente não foi deixada uma suficiente disponibilidade de transporte aéreo para que esta opção pudesse ter sido considerada, muito embora vários entendidos de força aérea e de marinha, nos Estados Unidos e na Europa, pensassem (em abril de 1982) que, obviamente, esta seria a correta linha de ação a ser tomada.

O Vice-Almirante Lombardo, Comandante do Teatro de Operações, não se sai muito melhor do que o General Galtieri como comandante operacional e estrategista. Sua decisão de desdobrar 24 Pucará, 6 Aeromacchi 339 e 6 Mentor para as Malvinas/Falklands torna-se difícil para a compreensão de um profissional militar. O que se esperava de uma força composta por aviões leves, (construídos para emprego em missões de contra-insurgência), operando em um ambiente aéreo repleto de Harrier armados com Sidewinder, navios equipados com os mais modernos mísseis antiaéreos e tropas terrestres com mísseis antiaéreos Rapier e Blowpipe? Este seria um ambiente por demais letal para aquele tipo de aeronave. 

Muitas das operações realizadas pelas unidades aéreas argentinas baseadas nas Malvinas/Falklands assemelhavam-se, curiosamente, a uma “carga de infantaria ligeira” enfrentando uma força de blindados. Os T-34 Mentor eram aeronaves de treinamento, armadas com uma pequena metralhadora e alguns foguetes usados para marcação de alvos para a artilharia. Os Aeromacchi também eram levemente armados e inadequados para ataques a navios. Contudo, isto não evitou que um deles realizasse um ousado passe atirando com seu canhão contra a Armada, danificando levemente um navio. De fato, este foi o total de danos que 36 aviões e 19 helicópteros baseados nas Malvinas/Falklands infligiram à Armada Britânica. Os T-34 voaram poucas missões de reconhecimento administrando a sua própria sobrevivência escondendo-se dentro das nuvens. Os Pucará lutaram valentemente mas foram ineficazes e quase todos foram destruídos ou indisponibilizados ao final da batalha.

Outra “grande” decisão do Almirante Lombardo foi a de enviar o velho cruzador General Belgrano (já com 43 anos de uso e poucas defesas anti-submarino), contra a Armada Britânica. O afundamento doGeneral Belgrano foi o evento que causou a maior perda de vidas na guerra, sem que nenhum resultado positivo tivesse sido alcançado, exceto determinar que a Marinha Argentina permanecesse em segurança nos portos pelo resto da guerra.




O General Menendez, comandante das guarnições baseadas nas Malvinas/Falklands, demonstrou um entendimento extraordinariamente limitado dos princípios básicos da arte operacional. Ele desdobrou suas unidades de infantaria, mal treinadas e mal armadas, distribuindo-as em uma linha de defesa distendida e mal situada. Os ingleses facilmente invadiram as posições de Menendez uma por uma. Na realidade, as péssimas condições atmosféricas e os problemas logísticos causaram às brigadas do Exército Inglês e aos fuzileiros navais mais problemas do que o próprio Exército Argentino. 

Nestas considerações, não se pode deixar de lembrar-se novamente do Presidente da Junta e Comandante do Exército Argentino: como o General Galtieri foi capaz de acreditar que uma tropa de soldados mal treinados e mal armados poderia enfrentar a melhor infantaria do mundo, composta pelos Gurkas, o Regimento de Pára-quedistas Britânicos e os Reais Fuzileiros Navais? Aparentemente Galtieri e a Junta acreditavam que o patriotismo e o heroísmo poderiam superar todas as limitações e adversidades militares.

Sem dúvida, o único Comandante Argentino de de alta hierarquia que demonstrou verdadeira competência e profissionalismo na guerra foi o Brigadeiro Crespo, Comandante da Fuerza Aérea Sur. Considerando a inferioridade tecnológica da Força Aérea Argentina e da Força Aeronaval, os problemas de raio de ação, a falta de um número suficiente de aeronaves de reabastecimento em vôo, assim como a ausência de meios de reconhecimento, o Brigadeiro Crespo realizou um magnífico trabalho com as forças que lhe foram subordinadas. Ele teve apenas três semanas para organizar e treinar uma força de ataque para entrar em combate em uma campanha aeronaval (um tipo de operação para as quais somente duas pequenas unidades aeronavais haviam sido treinadas). 

Crespo soube tirar lições de seus próprios erros, aparentemente o único Comandante Argentino, de alta hierarquia, capaz disto. Após o dia 1º de maio ele declinou dos ataques a grande altitude, passando a empregar a melhor tática de aproximação a baixa altura. O seu improvisado Esquadrão Fênix foi uma maneira criativa para iludir a PAC inglesa. A habilidade do seu Estado-Maior em programar o apoio de reabastecimento em vôo e planejar inúmeros ataques aéreos em operações de longo alcance demonstra o alto nível de profissionalismo e competência de um sólido trabalho de equipe.

Os registros da FAS na Guerra das Malvinas/Falklands são bastante impressionantes. Os pilotos dos Esquadrões de Skyhawk, Dagger, Mirage e Étendard demonstraram notáveis habilidades de pilotagem e navegação durante as seis semanas de campanha. Os ataques realizados a baixa altura eram excepcionalmente perigosos e estressantes. Uma esquadrilha de Skyhawk voou a tão baixa altura para atingir a Armada Britânica que, no retorno, seus aviões tiveram que realizar uma aproximação por instrumentos, porque os pára-brisas tornaram-se por demais embaçados pelo sal da maresia. 

Embora os historiadores argentinos continuem a declarar que os danos à Armada Britânica foram muito superiores aos oficialmente admitidos pelos ingleses, os registros documentados pelos próprios ingleses sobre suas perdas são ainda bastante impressionantes quanto ao desempenho dos pilotos argentinos, considerando que a FAA não havia sido treinada para operações de ataque a navios. 




Os destróiers Sheffield e Coventry, as fragatas Ardent, Antelope, o navio de apoio Atlantic Conveyor, o navio de desembarque Sir Galahad e o barco de desembarque LCU F4 foram todos afundados por bombas e mísseis Exocet argentinos. Os destróiers Glasgow e Antrim, as fragatas Argonaut e Plymouth e o navio de desembarque Sir Tristram foram todos seriamente danificados, além de outros seis navios danificados em menor grau. 

Em resumo, pode-se afirmar que as maiores baixas e danos sofridos pela Força-Tarefa Britânica foram causados pela Fuerza Aérea Sur. Por estes feitos a FAS pagou um alto preço: a força de Skyhawk (4º e 5º Grupos da FAA) perdeu 19 aviões. O pequeno esquadrão aeronaval de Skyhawk perdeu 3 aviões. O 8º Grupo perdeu 2 Mirage. O 6º Grupo da FAA perdeu 11 dos seus 30 Dagger. O 2º Esquadrão de Bombardeiros perdeu 2 Canberra. No total, no decorrer das operações, a FAS perdeu 41% de suas aeronaves em combate e em acidentes operacionais. Esta é uma espantosa razão de atrito para qualquer Força Aérea; no entanto, o moral e o espírito de combate de suas equipagens nunca deixaram de existir em elevado grau.

O Comando de Transporte da Força Aérea Argentina desempenhou-se também de forma admirável. Durante o mês de abril, a pequena força de transporte mobilizou tudo aquilo que podia voar para transportar quase 8.000 soldados e 5.037 toneladas de suprimentos, armas, veículos e combustível, para as Malvinas/Falklands. Mesmo após a chegada da Armada Britânica e a declaração do pleno bloqueio aéreo das ilhas pelos britânicos, as aeronaves mantiveram-se voando para Port Stanley, à noite, transportando suprimentos e evacuando feridos. 

Até o último dia da campanha, os aviões de transporte da FAA voaram escondendo-se dos ingleses. Estas também foram operações altamente perigosas, culminando com a perda de um C-130 Hércules, abatido por um Sidewinder lançado por um Harrier.

Os artilheiros da antiaérea e os operadores de radar da FAA cumpriram suas missões com bravura e elevada competência durante toda a campanha. Sete aeronaves inglesas, incluindo 4 Harrier, foram abatidas pelas baterias de defesas antiaéreas. Os operadores de radar da FAA em Port Stanley constituíam-se no único meio para a localização dos navios e aeronaves ingleses. Durante os ataques dos Skyhawk e Dagger, os operadores de radar de Port Stanley monitoravam os movimentos dos Harrier e alertavam as aeronaves argentinas de suas aproximações. Várias vidas e aeronaves da FAS foram salvas graças ao excelente trabalho de vigilância aérea realizado pelos operadores de radar em Port Stanley.

Pode-se concluir que a Força Aérea Argentina enfrentou inúmeras dificuldades e surpreendentemente desempenhou-se de maneira admirável. Palavras muitas vezes consideradas fora de moda, como coragem, bravura e honra, são as únicas que podem bem traduzir o desempenho em combate dos militares argentinos que lutaram na guerra, tanto da Força Aérea quanto da Força Aeronaval da Marinha. Enquanto a Junta e a maioria dos Altos Líderes Militares Argentinos apresentaram um modelo de como não iniciar uma guerra, os soldados do ar tornaram-se exemplos vivos de uma impressionante competência profissional nos níveis tático e operacional da guerra.


domingo, 23 de setembro de 2012

Apoio Logístico na Guerra do Golfo #



INTRODUÇÃO 

O teatro de Operações (TO) do Golfo Pérsico englobava o Iraque, o Kuwait e o norte da Arábia Saudita - cerca de 1,5 milhões de km2 - equivalente ao Estado do Amazonas, com sua maior parte sendo de deserto desabitado. Os extremos climáticos da área tornam a região inóspita para a tropa e equipamentos, ampliando em grande escala a problemática da logística exigida para operações de grande porte. 

A Arábia Saudita ocupa uma posição central na região, possuindo diversos portos e aeroportos, utilizados para o desembarque das tropas norte-americanas. Embora os portos e aeroportos fossem modernos, os sauditas não possuíam um sistema rodoviário nem infra-estrutura logística necessários ao apoio às tropas dos E.U.A. Além disso, existiam poucas ferrovias e nenhuma que pudesse ser utilizada para levar suprimentos para as posições avançadas.

O deslocamento rápido e antecipado das tropas para o interior do território saudita significava a necessidade de coordenar simultaneamente a recepção e o apoio das unidades recém-chegadas - desde bases localizadas nos EUA, Europa e outras localidades ao redor do mundo para a Arábia Saudita - estabelecendo bases logísticas além dos terminais de desembarque. 

Na solução desta problemática foi criado um comando Logístico no Teatro de Operações, centralizando a coordenação das ações logísticas, preparando o recebimento de quantidades maciças de tropas e equipamento que chegavam no sudeste da Ásia e apoiando o deslocamento das forças na região. 


CRIAÇÃO DO 22 COMANDO LOGÍSTICO (COLOG)

No dia 10 de agosto de 1990 foi ativado o 22 COLOG, em Dhahran, assumindo a responsabilidade logística do Teatro de Operações. Sua missão abrangia a coordenação da chegada das principais unidades e o apoio logístico a ser fornecido pelos aliados e pela nação anfitriã. 

A criação do 22 COLOG reduziu a necessidade de transferir diversas unidades do Exército Norte-Americano, estabelecendo a infra-estrutura logística necessária para alimentar, alojar e suprir o grande número de tropas que chegavam à Arábia Saudita. 

As missões do 22 COLOG durante as fases iniciais da Operação Escudo do Deserto foram: 
  1. Coordenar e organizar o apoio prestado pelo país anfitrião no recebimento e deslocamento das tropas que chegavam no TO;
  2. Auxiliar no melhoramento da infra-estrutura de apoio da Arábia Saudita;
  3. Coordenar a contratação de serviços e mão-de-obra civis, diminuindo os efetivos de militares, particularmente os especializados ;
  4. Desenvolver a base do COLOG, utilizando as unidades e pessoal recém-chegados, em conjunto com elementos sauditas, para formar a estrutura de apoio “Estados Unidos - Arábia Saudita”. 
  5. Estender o apoio logístico por todo o Teatro de Operações, englobando a recepção, desdobramento e manutenção das forças aliadas. 
Ao final de agosto de 1990, os mecanismos já estavam ajustados, fornecendo a logística necessária para receber o XVIII Corpo de Exército com seu equipamento pesado. 

Nos fins de setembro de 1990, 72.000 homens tinham sido apoiados; no dia 30 de outubro do mesmo ano já haviam chegado 97.000 homens do XVIII Corpo de Exército. 

A partir de novembro, com o deslocamento do VII Corpo de Exército, sediado na Europa, foi iniciado o planejamento logístico para as operações ofensivas. Isso exigiu uma restruturação das unidades e das provisões do 22 COLOG para o recebimento do VII Corpo e de seu material.

PLANEJAMENTO LOGÍSTICO PARA AS OPERAÇÕES TERRESTRES 

O 22 COLOG formulou um planejamento logístico com o objetivo de apoiar as unidades deslocadas dos XVIII e VII Corpos de Exército durante a Operação Escudo do Deserto e, simultaneamente, preparar-se logisticamente para as futuras operações de combate - Operação Tempestade no Deserto. Este plano foi implementado em seis fases.



AS FASES DA GUERRA


1a FASE - PREPARAÇÃO E PRÉ-POSICIONAMENTO 

Nesta fase um grande sistema de bases de apoio foi estabelecido ao longo das principais estradas fornecendo suprimento contínuo de água, ração, combustível, munição e outros itens essenciais para o desdobramento. Isso exigiu o pré-posicionamento de estoques e suprimentos desde as imediações de Dahahran e Jubail até as bases logísticas avançadas, ao longo da principal estrada, Estrada Principal de Suprimentos (EPS) Dodge e da estrada norte-sul EPS Nash ou Sultan. Simultaneamente, o 22 COLOG recebia e deslocava o VII Corpo de Exército para sua área de concentração.


Para obter melhor coordenação e controle o 22 COLOG foi dividido, destacando um COLOG avançado para a Cidade Militar Rei Khaled. Suas missões eram idênticas, exceto quanto aos pedidos formais, elaborados em Dhahran. 

As bases logísticas estabelecidas foram denominadas de Alfa, Bravo, Charlie, Delta e Echo. Nelas foram armazenadas todas as classes de suprimentos para apoiar o deslocamento dos XVIII e VII Corpos de Exército. 

Esta fase perdurou até o início dos combates, em 17 de janeiro de 1991.




2a FASE - DESLOCAMENTO DOS XVIII E VII CORPOS DE EXÉRCITO 

Nesta fase o apoio logístico no TO envolvia a coordenação do transporte pesado e o estabelecimento das principais bases logísticas avançadas - Charlie e Echo, para o XVIII e VII Corpo de Exército, respectivamente.

Para não comprometer a segurança operacional os deslocamentos deveriam ser executados com maior intensidade à noite, após o início do bombardeio aéreo. A movimentação dos Corpos de Exércitos foi executada ininterruptamente, de 17 de janeiro a 03 de fevereiro de 1991, das bases iniciais para próximo das respectivas aéreas de atuação.

O XVIII Corpo de Exército deslocou-se pela EPS Dodge ao norte e pela EPS Nash ao sul, em distâncias superiores a 800 km, o VII Corpo de Exército deslocou-se pelas EPS Dodge ao norte, cobrindo distâncias acima de 550 km.

O apoio para esse deslocamento abrangia o embarque e transporte de milhares de viaturas sobre largatas (SL) e o controle de dezenas de milhares de viaturas sobre rodas (SR). Apenas o VII Corpo de Exército tinha cerca de 7.000 viaturas SL e mais de 40.000 viaturas SR. De acordo com o planejamento, o controle do deslocamento foi coordenado pela 318 Agência de Controle de Movimento.

O principal problema no processo do deslocamento era a insuficiência de viaturas de transporte de equipamento pesado (“Heavy Equipment Transporter” - HET) no Exército Norte-Americano, para transportar o equipamento, principalmente blindados, da área dos terminais de desembarque até as áreas de concentração no deserto. Como consequência, houve um grande acúmulo de equipamento nos terminais de desembarque.

Os meios orgânicos dos Corpos de Exército e das Divisões não satisfizeram as necessidades deste deslocamento maciço. Uma Divisão Blindada (que possui 350 carros de combate M1A1) do Exército Norte-Americano possuia apenas 24 HET orgânicos. Uma Companhia de Viaturas Pesadas, que atende a mais de uma Divisão do Corpo do Exército possuia apenas 36 HET. 

A necessidade de HET para o deslocamento foi tão grande que a evacuação e reposição de viaturas de combate danificadas passou a ser uma missão secundária.

Para compensar esse limitado número de HET os governos dos países da colisão anti-Saddam e integrantes do Pacto de Varsóvia (a Tchecoslováquia e diversos integrantes menores do Pacto de Varsóvia tinham centenas de HET disponíveis, uma vez que não eram mais necessárias para a União Soviética na Europa) forneceram centenas destas viaturas, mediante contrato, satisfazendo as necessidades de apoio ao deslocamento. Estes veículos foram operados, na maioria, por motoristas contratados do Paquistão, Bangladeshi e de outros países pequenos, próximos ao TO.

O emprego das HET no transporte de blindados comprovou sua eficácia, pela redução de panes por falhas mecânicas nos blindados e assegurando a chegada das guarnições nas posições de ataque, descansadas e prontas para as operações. 


3a FASE - OFENSIVA TERRESTRE

Enquanto as forças aéreas da Coalizão bombardeavam implacavelmente as forças iraquianas, os XVIII e VII Corpos de Exército deslocavam-se para suas respectivas posições de ataque, ocupando-as no dia 20 de fevereiro de 1991.

A 3a fase correspondeu ao apoio prestado pela estrutura logística do TO à ofensiva terrestre, regulando o fluxo logístico de todas as classes de suprimento, principalmente os de classe I, III e V (munição), bem como os serviços técnicos. Teve início em 24 de fevereiro de 1991 (Dia G).

Como inovação, antecipando-se aos elementos de combate, foi realizada uma manobra logística, instalando-se bases à frente, no interior do território iraquiano - Oscar, Romeo, November, Hotel e Cobra.

Esta fase encerrou-se ao final da ofensiva terrestre, 100 horas após o início dos combates.


4a FASE - DEFESA DO KUWAIT 

 A defesa do Kuwait teve início logo após sua libertação pelas forças aliadas. 

Não obstante a vitória e o final abrupto da guerra terrestre, o esforço logístico, com exceção da grande redução no consumo de munição, continuou inalterado. O enfoque logístico foi transferido para o suporte das forças de combate encarregadas de remover o inimigo do Kuwait; foram intensificadas atividades relacionadas com o campo de assuntos civis, particularmente as áreas de serviço público e economia. 


5a FASE - RETORNO DA TROPA 

Esta fase do planejamento detalhou as atividades logísticas necessárias ao retorno progressivo das tropas norte-americanas. 

O processo começou com o XVIII Corpo de Exército, seguido pelo VII. A operação envolvia o retorno do pessoal e de seu equipamento para os portos e aeroportos de embarque e o deslocamento para suas sedes de origem, principalmente nos E.U. A e Europa. 

Durante a preparação foram estabelecidas áreas de estacionamento e de limpeza, inclusive do equipamento, em Dammam, Dhahran, Jubail e Cidade Militar Rei Khaled. 

Artigos para recreação, bem-estar e conforto da tropa foram providenciados nestas localidades. 

O deslocamento de volta às sedes começou no dia 10 de março, dia R (Retorno). No final de maio, a maioria do pessoal dos XVIII e VII Corpos de Exército, cerca de 365.000 soldados, havia sido evacuado do TO. Em torno de 5.000 soldados foram embarcados diariamente, num prazo de menos de 80 dias.


6a FASE - RECONSTRUÇÃO DO KUWAIT 

Esta foi a fase final do planejamento do 22 COLOG, abrangendo os esforços para a restauração dos serviços no Kuwait liberado, concomitantemente com a defesa e retorno das tropas às suas sedes. 

Operações de auxílio e de reconstrução foram iniciadas, sendo designados elementos do 22 COLOG para a Força-Tarefa Freedom (FT Liberdade) com a missão de coordenar os trabalhos. 

O envio humanitário de alimentos foi aumentado, envolvendo os campos de refugiados no sul do Iraque e em apoio aos Curdos do norte do Iraque e Turquia. Foi também prestada assistência aos 60.000 prisioneiros de guerra, mantidos em 04 campos, que após processados foram postos sob controle saudita. 




OFENSIVA TERRESTRE 

APOIO LOGÍSTICO NA OFENSIVA TERRESTRE 

Em 13 de fevereiro de 1991 os Corpos de Exército completaram a ocupação de suas posições iniciais de ataque, ainda em território saudita. A 24 de fevereiro, a Coalizão iniciou a ofensiva terrestre às 0400h, hora local. Vale ressaltar que o ataque foi extremamente facilitado quando os aliados obtiveram a superioridade aérea no TO. 

O estabelecimento contínuo de bases logísticas comprovou ser muito adequado no apoio às operações terrestres. As principais bases logísticas nesta fase foram a Charlie e a Echo, apoiando o XVIII e VII Corpos de Exército, respectivamente. 

O apoio logístico foi realizado pelo processo de distribuição na unidade, das bases logísticas na Arábia Saudita até as bases logísticas avançadas dentro do território iraquiano. Estas últimas foram sendo estabelecidas à medida que as unidades de combate progrediam. O helitransporte de suprimentos foi largamente empregado no apoio à batalha terrestre, antecipando-se por diversas vezes às tropas de combate e permitindo o deslocamento ininterrupto. 

Em virtude da ofensiva terrestre ter sido muito profunda, rápida e de curta duração (100 horas), essas bases logísticas avançadas não foram completamente instaladas. As EPS se estenderam em vez de diminuírem e havia premência para entrega de suprimentos nas unidades mais avançadas.

O avanço dos suprimentos para as principais bases logísticas no território saudita e o movimento até as bases avançadas - Oscar, Romeo, Hotel, November e Cobra - na área de cada corpo de Exército, pode ser bem entendida na esquematização da figura a seguir.

Uma grande preocupação na ofensiva terrestre foi o suprimento Classe III - Combustível. As distâncias de apoio ficaram alongadas, com tendência a aumentar à medida que as tropas avançavam. Devido a previsão de alto consumo e da urgência de transporte de grandes volumes foi decidido construir a Linha de Oleodutos no Deserto, “Pipe Line Over the Desert” - PLOD. Este oleoduto cobriu uma distância de 100 km, fornecendo 130.000 litros por hora. Cerca de 900 caminhões - cisternas, com capacidade de 18.000 litros, distribuíam diariamente 16,2 milhões de litros de combustível.

Outro problema sério foram as altas demandas de transporte de suprimento Classe V - munição, devido às necessidades diárias exigirem um adicional de 11 Companhias de Transporte. 

Caso a operação terrestre se prolongasse, o baixo estoque de suprimentos nas bases logísticas torna-se-ia crítico. A tabela abaixo indica o estoque de suprimento no dia da Ofensiva terrestre.


TABELA: Estoque de Suprimentos no Dia da Ofensiva Terrestre


SUPRIMENTO                             SUPRIMENTO EM ESTOQUE (em dias) 
Classe I (comida e água)                                           29,0 
Classe III (combustível)                                              5,2 
Classe V (munição)                                                   45,0


A manutenção desses níveis de suprimento por um período longo era impossível, pela dificuldade de reabastecer as bases avançadas com rapidez suficiente a partir dos distantes portos da Arábia Saudita (Jubail e Dhahran). Previu-se a construção de estradas à retaguarda dos Corpos de Exército e o uso dos portos do Kuwait. A curta duração da ofensiva terrestre dispensou a execução destes planos.



ESTABELECIMENTO DA BASE LOGÍSTICA COBRA 

O XVIII Corpo de Exército realizava seu ataque pelo norte do Iraque, numa manobra de grande envergadura e rapidez. Havia, portanto, necessidade de um apoio logístico contínuo e eficaz, para que o Grande Comando prosseguisse seu movimento com o máximo de impulsão. Foi então estabelecida a Base Logística Cobra no interior do Iraque, antecipando-se ao avanço da tropa combatente. 

A instalação desta base foi precedida por uma Operação Aeromóvel realizada pela 101 Divisão Paraquedista. Quatro Batalhões de Infantaria realizaram um deslocamento helitransportado, entricheiraram-se numa área circular de 32 km de diâmetro, recebendo um setor de defesa. 

Uma grande estrutura logística foi montada no interior desta área, onde toneladas de combustível, ração, água, munição e outros suprimentos foram armazenados para apoiar o ataque do XVIII Corpo de Exército.

Este fato marcou a Guerra do Golfo, pois pela primeira vez na história a “logística” precedeu a “tática” no campo de batalha.


PRINCIPAIS UNIDADES DE APOIO LOGÍSTICO 

As unidades de manobra foram apoiadas por unidades de serviço ao combate, além de uma estrutura logística envolvendo as unidades das Divisões de Exército, dos Corpos de Exército e do Comando do TO.

No escalão Divisão de Exército, as necessidades imediatas de manutenção, de suprimento e de apoio logístico foram atendidas pelos seus comandos orgânicos.

No escalão Corpo de Exército um Comando de Apoio Administrativo de Corpo de Exército (CAACEx) fornecia um Grupamento Logístico Avançado em apoio direto a cada Divisão de Exército. Cada Grupamento Logístico Avançado era composto de um Batalhão de Manutenção, um Batalhão de Suprimento e Serviço e de um Batalhão de Transporte. Além disso, cada Corpo do Exército recebia o apoio de um Grupamento Logístico Recuado.

As unidades de logística das Divisões e dos Corpos de Exército foram sucessivamente apoiados pelos Grupamentos Logísticos de COLOG e organizações funcionais do escalão TO, fornecendo munição, combustível, peças sobressalentes e transporte.

O apoio logístico nos escalões TO e o Corpo de Exército enfatizava a armazenagem suficiente de suprimentos, particularmente água, ração, combustível e munição, para garantir a sustentação das operações de combate, durante o tempo que fosse necessário.

INTERRUPÇÃO DO APOIO LOGÍSTICO IRAQUIANO 

O indiscutível êxito alcançado pelas Forças Aliadas ao derrotarem as Forças do Iraque só foi possível porque conseguiram, com maior sucesso ainda, imobilizar a estrutura de apoio logístico iraquiano.

O embargo internacional impediu a continuidade de apoio (reposição e manutenção) do material importado utilizado no Iraque. Para piorar ainda mais a situação, os técnicos estrangeiros que prestavam serviço no território iraquiano evadiram-se com o agravamento da situação e o início do conflito.

A atuação da Força Aérea Aliada praticamente impediu que o fluxo logístico inimigo fosse mantido, concorrendo para o acentuado declínio do poder de combate das unidades iraquianas de primeiro escalão, com reflexos desastrosos sobre o moral de seus soldados.



O APOIO LOGÍSTICO 

A LOGÍSTICA 

A Guerra do Golfo Pérsico representou o maior desdobramento de tropas e suprimentos desde a II Guerra Mundial. O recente conflito trouxe uma fonte imensamente rica de ensinamentos de suma importância e profunda reflexão, no campo da logística, a partir de então a Logística ganhou espaço de destaque nas preocupações dos especialistas e pensadores militares, particularmente pela pouca atenção que recebe nos exercícios no terreno, em detrimento da estratégica e da tática. 

No dia 06 de agosto de 1990 os E.U.A desencadearam uma verdadeira máquina logística para o Golfo Pérsico, foram cerca de 2,5 milhões de toneladas de carga para o Teatro de Operações do Oriente Médio, distante cerca de 12.000 km dos E.U.A, num período de aproximadamente 6 meses. Este foi um marco histórico de um desdobramento militar complexo, para uma área operacional com características extremamente difíceis. 

Os aspectos estratégicos do apoio logístico exigiram a preparação e o deslocamento do pessoal e material dos E.U.A , da Europa e de outras bases mundiais para a Arábia Saudita Operação Escudo do Deserto - além do apoio ao XVIII e VII Corpos de Exército na Batalha Terrestre - Operação Tempestade do Deserto. 

O exército norte americano realizou um desdobramento de grandes proporções, deslocando pessoal, equipamento e suprimento cinco vezes mais rápido do que a primeira grande fase da escalada do Vietnã. O apoio logístico montado para operação Tempestade no Deserto envolveu toda a previsão e provisão de meios materiais e serviços necessários não somente aos E.U.A, mas ao conjunto das Forças Aliadas. Para assegurar o desdobramento Logístico maciço foram necessários todos os recursos do Exército, componentes da reserva e da ativa e civis do Exército. 

Torna-se oportuno, na presente exposição, citar as cinco atividades da logística, quais sejam: 
  1. Transporte 
  2. Suprimento 
  3. Saúde 
  4. Manutenção 
  5. Pessoal
Dentro de cada uma delas assinala-se o que de mais importante foi desenvolvido. 




ATIVIDADE LOGÍSTICA DE TRANSPORTE 

A atividade de transporte foi bastante desenvolvida e explorada e correspondeu a um fator decisivo para o eficiente desdobramento das tropas em território Saudita, bem como também no envio de reforço, ocasionando a correta e constante manutenção do poder de fogo aliado. 

A grande maioria da tropa foi transportada para o território saudita por meio aéreo, e normalmente, chegavam em 48 horas. 

Os equipamentos e suprimentos do Exército foram transportados para o Golfo Pérsico, na sua maioria, por via marítima. A grande tonelagem e a rapidez do deslocamento refletem os enormes avanços nas capacidades de transporte aéreo e marítimo, bem como, no planejamento e preparação. 

Na tabela a seguir, visualiza-se as contribuições referentes ao transporte do pessoal e da carga para a Arábia Saudita, na Operação Escudo do Deserto.


TABELA: Transporte Aéreo e Marítimo do Pessoal e da Carga


 MEIO DE TRANSPORTE  PESSOAL      CARGA 
 QTIDADE  %    TONELADAS  %
 Aéreo     293.000        99,05           175.000           7,68
 Marítimo       2.800           0,95         2.105.000        92,32
 Total   295.800      100,00       2.280.000      100,00

Diversos contratos de transporte aéreos e navais - tanto com estrangeiros, quanto com norte-americanos - foram efetuados, para completar as necessidades do Comando Militar de Transporte Aéreo (“Military Airlift Command” - MAC) e do Comando Militar de Transporte Marítimo (“Military Sealift Command” - MSC).




1. Transporte Aéreo

Durante a concentração das forças foram empregados os meios de transporte da Força Aérea e as aeronaves da Frota Aérea da Reserva Civil (CRAF).

A CRAF fazia parte de um programa em que as linhas aéreas comerciais participavam do transporte com suas aeronaves disponíveis, por solicitação do MAC.

No dia 18 de agosto de 1990 o MAC ativou a 1a etapa da CRAF, quando as necessidades de transporte aéreo militar e transporte aéreo civil voluntário. Esta etapa envolveu 38 aeronaves de grande capacidade de carga e de passageiros, disponíveis 24 horas após sua ativação. 

No dia 17 de janeiro de 1991, a Secretaria da Defesa dos E.U.A ativou a 2a etapa da CRAF, colocando a disposição do MAC mais 187 aeronaves. A combinação da CRAF e das aeronaves militares possibilitou o transporte aéreo de 5.000 homens por dia.

As aeronaves civis e militares realizaram 15.400 vôos, sob coordenação do MAC nas operações Escudo do Deserto e Tempestade no Deserto. Foram transportados mais de 484.000 homens e mais de 524.000 toneladas de carga. Da costa leste dos E.U.A as aeronaves voaram cerca de 12.000 km até os aeroportos sauditas. A partir da costa oeste a rota aérea aumentava em cerca de 4.000 km.

A CRAF e o transporte aéreo civil voluntário transportaram 22% da carga aérea e 69% dos passageiros, enquanto que as aeronaves do MAC encarregaram-se do restante. A tabela  a seguir descreve como foi realizado o transporte aéreo.

Números do transporte aéreo:

  • Pessoal
    • Inicial
      •  186.179
    • Reforço
      • 283.510
    • Média de Saídas Diárias:
      • 15 C - 5, 30 C - 141 e 10 Aeronaves Civis 
  • Carga (ton)
    • Inicial
      • 155.481
    • Reforço
      • 275.430
    • Média de Saídas Diárias:
      • 15 C-5, 30 C-141 e 06 Aeronaves Civis 

2. Transporte Marítimo 

O equivalente a oito divisões, em equipamentos, foram embarcados para o Golfo Pérsico, sendo 86 % dessa carga transportada pelo mar, empenhando cerca de 500 navios. 

Foram utilizados no transporte marítimo os navios pré-posicionados, os de transporte rápido, os da Força da Reserva de Prontidão e os navios comerciais contratados. 


(1) Navios Pré-Posicionados 

 Os navios pré-posicionados foram estabelecidos há muitos anos pelos E.U.A, inseridos numa estratégia de intervenção oportuna em qualquer parte do mundo onde haja ameaça dos interesses norte-americanos. 

Estas embarcações foram as primeiras a chegarem ao TO. Quatro destes, provenientes de Diego Garcia, no Oceano Indico e de GUAM, no Oceano Pacífico, chegaram dez dias após o alerta, ressaltando-se a importância deste recurso no apoio inicial às operações. Um dos navios enviados o “American Cormorant”, continha containeres, barcaças, rebocadores, guindastes, pás carregadeiras e outros equipamentos para apoiar as operações de desembarque. 

Outros três navios pré-posicionados, à disposição do Exército, funcionavam como depósitos flutuantes e continham suprimentos necessários para apoiar a tropa, até que a cadeia de suprimento fosse estabelecida. Os itens a bordo incluíam rações, produtos embalados, arame farpado para obstáculos, munições e material de saúde. 

(2) Navios de Transporte Rápido (“Fast Sealight Ships” - FSS) 

Os FSS eram embarcações que permitiam transportar rapidamente materiais pesados quatro dias após o recebimento da ordem de deslocamento, operando a uma velocidade de 30 nós. A velocidade combinada a facilidade de descarga pelo uso de rampas de rolamento tipo RO/RO (possui rapidez na carga e descarga), permitia a chegada aos portos sauditas entre 12 a 15 dias após a saída dos E.U.A .

Oito FSS partiram de diversos portos norte-americanos em 22 de agosto de 1990, levando pessoal e equipamento de apoio ao combate. Devido a problemas técnicos, apenas sete FSS chegaram ao destino. Apesar disso, os FSS confirmaram o seu grande valor, transportando quase 13% do equipamento do Exército Norte-Americano, principalmente os blindados.

(3 ) Navios da Força da Reserva Imediata (“Readly Reserve Force” - RRF) 

A RRF fazia parte da frota que devia ser mantida em condições de entrar rapidamente em operação, quando acionada. 

A falta de FSS para atender às crescentes necessidades forçou a mobilização dos navios da RRF. Embora com alta taxa de confiabilidade, carregavam bastante menos carga que os RO/RO da FSS, desenvolvendo velocidades mais baixas e levando mais tempo nas operações de carga e descarga. Foram postos à disposição navios-tanques e graneleiros, considerados muito seguros dentro de suas classes. 

Existiam 96 navios da RRF, com uma média de 20 anos de uso, mantidos em regime de prontidão para 5,10 ou 20 dias de ativação. 79 deles foram usados para completar o transporte de carga dos navios comerciais e os dos navios da Marinha dos E.U.A, responsabilizando-se por 28 % da carga norte-americana.

(4) Navios Comerciais Contratados

Os navios comerciais contratados, norte-americanos e estrangeiros, transportaram 37% de todo o equipamento das unidades (15% pelos navios norte-americanos e os 22 % restantes pelos navios estrangeiros). Grande parte da Frota Mercante Norte-Americana respondeu voluntariamente, com navios disponíveis para afretamento. Apesar disto, grande parte destes navios não possuíam a capacidade RO/RO, obrigando o frete de navios estrangeiros com esta finalidade.

(5) Algumas deficiências observadas 

Caso não tivessem sido utilizados os navios mercantes e os recursos do MSC não conseguissem um bom desempenho, grande parte das forças de combate e respectivos apoios poderiam ter chegado após o início dos combates, se o Iraque tivesse decidido atacar logo nos primeiros dias do conflito (seu exército chegou a ficar posicionado ao longo da fronteira saudita em condições de invadi-la). Além disso, se o CENTCOM decidisse desdobrar, simultaneamente, unidades logísticas e de combate, seria necessário um maior número de navios RO/RO para o transporte. 

O planejamento do transporte do equipamento operacional foi realizado segundo normas administrativas civis, em desacordo com o conceito tático de carregamento militar de material de combate. Sob esse prisma, foi permitido desmonte de parte do equipamento, para maximizar o uso do espaço. O carregamento em moldes militares do material de combate asseguraria que os itens de primeira necessidade teriam prioridade no carregamento e na descarga, em condições de emprego imediato no local de destino. 

Ocorreram acréscimos de carga além do planejado, particularmente de combustível, munições e peças de reposição, julgados necessários para o uso logo após o desembarque por algumas unidades do exército. Em termos práticos, isto representava para um carro de combate M1A1, de 60 toneladas, um acréscimo de mais de 11 toneladas. Os planejadores não levaram em conta esta carga residual, o que aumentou as necessidades de transporte. 

De fato, foi o maior desdobramento do exército americano já realizado. A tabela  a seguir apresenta uma retrospectiva histórica de guerras anteriores. 

Pode-se afirmar ainda que: 

As forças foram deslocadas cinco vezes mais rápido do que a primeira escalada do Vietnã, observe a retrospectiva histórica dada na tabela abaixo.

Foi deslocado o equivalente à cidade brasileira de São José dos Campos, com todos os seus habitantes, alimentos, veículos, água e bens domésticos.

3. Principais Lições Aprendidas 

Não deve deixar de ser mencionado as principais lições aprendidas sobre o deslocamento, que são descritas a seguir: 

  • o êxito se deve principalmente ao programa de exercícios do Estado Maior das Forças Conjuntas;
  • as atividades de simulação durante estes exercícios antes citados originaram um expectativa por demais otimista na hipóteses de planejamento;
  • as propostas retromencionadas terão que ser revisadas e validadas com base na experiência atual da “Escudo/Tempestade no Deserto”; 
  • os exercícios futuros deverão incluir o mínimo possível de atividades de simulação;
  • o número de aviões para deslocar e sustentar é insuficiente para responde rapidamente pela projeção do poder global;
  • o Exército pode preparar mais unidades, equipamentos e suprimentos para deslocar que o Comando de Transporte pode movimentar; 
  • as forças preposicionadas no mar (principalmente os Fuzileiros Navais) são importantíssimas; 
  • o conceito de uma frota de reserva pronta foi válida, mas tem que ser revista as condições dos barcos, como idade, os tipos, disponibilidade da tripulação e treinamento;
  • existe a necessidade de procedimentos que possibilitem o aumento dos meios de embarque dos E.U.A. com os meios dos aliados e planejar para as necessidades dos aliados, usando os meios americanos; 
  • Barcos e aviões têm que ser carregados de maneira que permitam as unidades chegarem preparadas para combater; 
  • as normas de preparação para deslocamento extracontinental reforçarão a necessidade de ter atualizado:
    • os testamentos e procurações 
    • equipamentos e suprimentos apropriados ao meio (uniformes para combate no deserto). 
  • a força deslocada não foi a força programada;
  • a sequência das unidades mudaram por causa da ameaça e necessidades do Combate do Teatro; 
  • o apoio da nação anfitriã foi diferente do planejado;
  • deslocamento de Teatros diferentes causou muitos ajustes de transporte aéreo e marítimo;
  • as ideias sobre misto de unidades ativa/reserva não foram válidas; 
  • a substituição de brigadas da ativa por brigadas da reserva aumentou a demanda de transporte aéreo; 
  • os transportes de equipamentos pesados foram deslocados de todo o mundo, e com isto usou mais meios de transporte aéreo que o planejado; 
  • as decisões de conduta feitas pelos comandantes operacionais trouxeram prejuízo na utilização do transporte aéreo e marítimo 
Cumpre salientar que o transporte de tropas foi uma atividade bastante desenvolvida no conflito, principalmente a realização de rodízio  das tropas nos postos avançados, face aos fortes desgastes físico e emocional. 

 c. Os helicópteros utilizados pelo Iraque em missões de transporte aéreo, deslocamento de tropas e suprimento aéreo foram os do tipo Mi-8, Mi-17, Mi-24, Frelon, Super Puma e Bell 214, de fabricação alemã, francesa e russa.


ATIVIDADE LOGÍSTICA DE SUPRIMENTO

Na ofensiva terrestre as grandes distâncias de apoio projetavam que a capacidade de reposição dos estoques seria inferior às necessidades de consumo. Para reduzir os efeitos de uma possível interrupção do fluxo adotou-se os procedimentos a seguir: 

  • Suprimentos de classe I (Gêneros), II (Material de Intendência), V (munição) e X (água) foram transportados por meio aéreo e colocados à frente dos Corpos de Exército, em locais previamente selecionados, ao longo dos eixos de progressão. Estes locais transformar-se-iam em Bases Logísticas Avançadas - Oscar, Romeo, Hotel, Novembrer e Cobra. 
  • A Previsão de construção de estradas à retaguarda dos Corpos de Exército e o uso de portos do Kuwait, entretanto, pela rapidez da ofensiva, não foram necessários. 
  • O transporte de suprimentos foi realizado durante as 24 horas do dia contrariando a norma de executá-lo preferencialmente à noite. 
  • A cadeia de apoio logístico operou em distâncias muito superiores às previstas nos manuais, devido ao avanço rápido e ininterrupto das forças combatentes. 
  • O Pré-posicionamento de suprimentos, garantindo a sustentação das Forças Aliadas nas ações iniciais e quando do seu deslocamento para as áreas de concentração 
  • Estabelecimento de Postos de Suprimentos Avançados, à frente das tropas de combate, em território inimigo, destinados a permitir o avanço ininterrupto dos dois Corpos de Exército. 
A seguir, serão apresentados os suprimentos que se destacaram na sustentação das forças da coalizão no TO do Oriente Médio. 

1. Classe I - Gêneros Alimentícios

O Exército norte-americano  dedicou muitos recursos para a pesquisa e desenvolvimento, visando melhorar o fornecimento dos artigos de subsistência, particularmente a ração. 

A ração MRE (“Meal Ready to Eat” - Ração Pronta para Consumo), que substituiu a ração da era Vietnã, foi uma ração de combate altamente eficiente, comprovando sua eficácia pelo seu tamanho, forma, peso, auto-conservação e qualidade. A ração T, que necessitava apenas o aquecimento antes de ser substituta do antigo conceito de cozinha de campanha, porém, devido às dificuldades da indústria em atender as solicitações da demanda, surgiu o novo conceito ração T-MRE. Caso as missões se prolongassem por um período mais longo era distribuída a ração de equipagem ou de guarnição, muito empregada na maioria das bases norte-americanas. Cerca de 94 milhões de refeições foram servidas na Guerra do Golfo. 

O nível de suprimento de ração no dia “G” - 24 de fevereiro de 1991 - era de 29 dias, considerado compatível para as operações no Conflito do Golfo e crítico, caso a batalha terrestre viesse a se prolongar. 

2. Classe II - Material de Intendência 

No final de 1990, as Forças Armadas Norte-Americanas haviam encomendado 1,5 milhões de protetores labiais, 5,2 milhões de uniformes para o deserto, 250 mil pares de óculos de proteção contra o sol, 1,4 milhões de coturnos para o deserto e 130 mil coletes à prova de bala. 

A indústria dos Estados Unidos  forneceu os produtos dentro dos prazos, em regime de urgência, atendendo às necessidades das tropas norte-americanas. O fornecimento do material de classe II foi ágil e eficiente no apoio às operações terrestres. 

3. Classe III - Combustíveis e Lubrificantes 

O combustível foi um dos suprimentos mais críticos no prosseguimento da ofensiva terrestre. As necessidades diárias de combustível situam-se em cerca de 16,2 milhões de litros, distribuídos por 900 caminhões-cisterna. Dez Companhias de Transporte de combustível, óleo e lubrificantes do 22 SUPCOM forneceram o apoio ininterruptamente. 

O nível de suprimento do combustível no dia “G” era de 5,2 dias de suprimento, foi considerado baixo para a conduta da ofensiva e tornar-se-ia mais crítico caso a operação se prolongasse. 

4. Classe IV - Material de Construção 

A defesa no deserto pobre em obstáculos exigiu grande demanda de material para construção de obstáculos artificiais, particularmente na manutenção da integridade do território saudita, nas fases iniciais do conflito. Os obstáculos mais usados foram cercas de arame, estacas, campos minados, postes e sacos de areia. 

O material necessário para a construção dos obstáculos foi fornecido em grandes quantidades. Caso a ofensiva terrestre viesse a se prolongar, possivelmente este suprimento tornar-se-ia crítico, em especial nas situações mais defensivas do combate, como na manutenção de objetivos conquistados. 




5. Classe V - Munição 

As unidades que se deslocaram para o Golfo Pérsico transportaram sua munição orgânica, suficiente para a própria segurança e combates curtos, caso necessário. Posteriormente, os navios conduziram para a Arábia Saudita quantidades adequadas de munição para apoiar a Operação Tempestade no Deserto. Não houve falta de munição, particularmente porque os suprimentos foram embarcados dos E.U.A, de depósitos da Europa e de depósitos espalhados em vários locais estratégicos do mundo, estruturados durante a guerra fria.

Para simplificar e agilizar o reabastecimento, a munição foi organizada em Conjuntos de Carga de Combate Configurada (“Combat Configured Lood Sets”- CCLS), contendo quantidades específicas de cada tipo de munição, necessária para um determinado sistema de armas. O CCLS para um carro de combate M1A1, por exemplo, cartuchos para o canhão de 120mm, para as metralhadoras .50 e 7,62mm e para as granadas fumígenas. 

O nível de suprimento de munição do dia “G” era de 45 dias de suprimento, entretanto seria muito difícil a sua manutenção por um período maior, caso a ofensiva terrestre fosse prolongada. A industria de munição norte-americana não teria capacidade de aumentar a produção, se necessário. 

6. Classe VII - Material de Comunicações, Eletrônica e Informática 

Diversos equipamentos de comunicações e eletrônica de última geração foram usados em larga escala. Os principais foram: 

  • Sistemas de Conjuntos Aerotransportados de Radar de Vigilância e de Ataques de Alvos (Joint - Stars). 
  • Canal Simples Terrestre e Sistema Rádio Aerotransportado (SINCGARS) 
  • Ultra-Portátil Sistema de Localização e Recepção (GPS e SLGR). 
Os pedidos de suprimento das unidades eram remetidos para um computador central nos E.U.A, o qual consolidava e repassava as ordens de fornecimento para o depósito central de New Cumberland, em Harrisburg. Este último enviava o suprimento solicitado às unidades no TO, no máximo em 24 horas após o pedido. Isto comprova o excelente desempenho ao empregar material de informática no combate moderno. 

Para alguns componentes eletrônicos as únicas fontes eram japonesas, impondo que o departamento de Comércio dos E.U.A negociasse com os antigos parceiros comerciais asiáticos, para conseguir uma entrega rápida de componentes vitais.

7. Classe VIII - Material de Saúde 

Devido a sua importância para a preservação do potencial humano e a influência que a sua existência exerce sobre o moral da tropa, foi realizado um grande esforço para que os suprimentos de classe VIII estivessem sempre disponíveis, em qualidades e quantidades adequadas, nos locais e oportunidades onde fossem necessários. 

O sistema de saúde se preparou para um combate incluindo o tratamento de grande número de baixas causadas por armas químicas, devido a ameaça de uso deste armamento por parte do Iraque. Foram adquiridos um milhão de ampolas de atropina, um antídoto contra gás que atua no sistema nervoso. 


8. Classe IX - Material de Motomecanização e de Aviação 

Os suprimentos de classe IX caracterizam-se pelo grande número de artigos e pela dificuldade de controle, minimizado com o emprego racional da informática, agilizando o fornecimento dos artigos solicitados. 

A constatação de que motores, sistemas rotores para helicópteros, largatas para blindados, bem como um vasto conjunto de material pesado, desgartar-se-íam muito mais rapidamente no deserto do que nos TO europeu ou americano, implicou um consumo de itens de classe IX a um ritmo bem superior ao habitual. Tal situação obrigou um fluxo aéreo e marítimo constante e ágil, visando o rápido resuprimento dos itens mais graves. 

9. Classe X - Água 

O fornecimento de água foi de suma importância e de interesse para a logística e comandantes, neste ambiente particularmente áspero. Os soldados conduziam sua própria água em recipientes plásticos de alta resistência, com capacidade de 3,5 litros. A provisão de água foi realizada em grande quantidade, apesar do deserto constituir-se num obstáculo difícil no abastecimento da tropa. 

O nível de suprimento da água no dia “G” era de 29 dias, crítico caso o combate terrestre se prolongasse por um período mais longo. 



ATIVIDADE LOGÍSTICA DE SAÚDE 

Comprovadamente a atividade logística de saúde não foi empregada de forma expressiva por parte dos aliados. O número de baixas foi bastante pequeno e os profissionais de saúde não foram exigidos ao extremo.

Por parte do Iraque esta atividade foi muito extensa, porém não era encarada com o mesmo senso de profissionalismo dos americanos. Os aspectos religiosos, culturais e até mesmo a forma desumana de comando do ditador iraquiano fizeram com que o homem não fosse valorizado como deveria, vindo como consequência, a influenciar no número total de baixas no pós-guerra e na forma de atuação do Serviço de Saúde Iraquiano. 

Foi registrada a grande preocupação por parte do Serviço de Saúde Aliado em desenvolver algumas medidas preventivas com fins de se obter o menor índice de baixas. Como exemplos das medidas podemos citar: 

  • a tropa não podia beber e nem consumir alimentos que não tivessem controle de qualidade; 
  • o consumo de pelo menos ¼ l de água pela manhã, necessária para manter a performance fisiológica do combatente. 

No deserto, alguns problemas fisiológicos se tornaram muito frequentes, sendo que as afecções mais comuns foram as do aparelho digestivo, as relacionadas com a pele, amigdalite, disenteria e febres. 


ATIVIDADE LOGÍSTICA DE MANUTENÇÃO 

As características do Teatro de Operações provocaram, desde o início, um elevado desgaste dos sistemas de armas, atacando indistintamente os equipamentos em operação, tendendo a reduzir significativamente o tempo de vida útil dos materiais. Com isso, as atividades de manutenção tiveram de ser intensificadas por parte das tropas de apoio. O esforço suplementar de manutenção exigido, particularmente no caso dos helicópteros (pás e sistema de rotores), carro de combate e meios mecanizados (lagartas, sistemas de refrigeração e mecanismos de transmissão) e outros sistemas de tecnologia sofisticada, foi conseguido durante a operação terrestre. 

Contudo, devido à curtíssima duração dos combates terrestres, ficou por provar se aquele esforço acrescido, aliado à necessidade de estoques aumentados de sobressalentes, seria capaz de conseguir níveis de manutenção satisfatórios, em condições mais difíceis. 

No deserto os veículos têm os seus pneus constantemente estourados ou rasgados. Os motores, apesar de dotados de filtros de ar especiais, têm sua vida útil reduzida pela metade. Os freios sofrem desgaste anormal. Os blindados têm as suas lagartas constantemente quebradas. A vida útil das lagartas é reduzida pela ação abrasiva da areia e pelo contato com o solo duro e escaldante. 

Estes problemas foram minimizados com o uso de transportadores de equipamentos pesados (HET), para o transporte de forças pesadas dos E.U.A, comprovando que seu uso reduzia o número de panes por falhas mecânicas nos blindados e assegurou a chegada das equipes às posições de ataque. 

O armamento também sofre bastante. Tubos e canos ficam prematuramente desgastados. O raiamento é danificado, a poeira e o calor atacam os frágeis equipamentos de pontaria, os mecanismos de recuo dos canhões acabam super aquecendo, prejudicando, assim, a cadência de tiro. 

Equipamentos ópticos-eletrônicos delicados, como periscópios de visão noturna, computadores de tiro, dentre outros, são bastante prejudicados pelo excessivo calor e acabam reduzindo a performance do armamento. 

As turmas de manutenção hidráulica tiveram muitos problemas causados pelo excesso de areia que riscavam as paredes dos cilindros elevadores de trem de pouso, durante o taxiamento e decolagem das aeronaves. As equipes de manutenção de aeronaves enfrentaram reveses causados pelos estilhaços de artilharia antiaérea, que perfuravam a carenagem e entravam na turbina, causando perda de potência e, às vezes, até a parada de um dos motores das aeronaves, durante o vôo. 

No total da operação foram empregados , aproximadamente, 117.000 viaturas sobre rodas, 13.000 carros de combate, 1749 helicópteros e foram percorridos 102,5 milhões de quilômetros, fatores que implicaram em uma grande demanda de manutenção, peças e conjuntos de reparação. 

Em virtude da grande demanda para transporte e deficiente fiscalização do material em trânsito, alguns contêineres de peças de reparação nunca chegaram ao seu destino. A substituição e a canibalização controladas completaram um sistema de requisição e distribuição intensamente monitorado. Um plano indicava quem poderia tomar decisões tocantes à substituição e canibalização controladas e em que nível. 

Apesar das dificuldades encontradas, os norte-americanos conseguiram obter um índice de disponibilidade de 90% em média. 

No lado do Iraque, o embargo internacional impediu a continuidade de apoio (reposição e manutenção) do material importado utilizado naquele país. Para piorar ainda mais a situação, os técnicos estrangeiros que prestavam serviço no território iraquiano evadiram-se com o agravamento da situação e o início do conflito. 



ATIVIDADE LOGÍSTICA DE PESSOAL 


Um grupo de assistência ao pessoal, formado a nível Corpo de Exército, controlou os elementos designados para aquela atividade resultando em economia de tempo e de pessoal. Um grupo de finanças comandou e controlou as unidades encarregadas do setor financeiro do Corpo de Exército, bem como conceder verbas para efetuar compras locais, principalmente em teatros com infra-estrutura deficiente. Outras áreas do serviço de apoio de pessoal, tais como relações públicas, procurador geral de Justiça Militar, não sofreram, praticamente mudança alguma. As equipes de assistência religiosa (UMT) do Corpo de Capelães continuaram a ser parte dos escalões abaixo da divisão, no entanto, nesse nível, essas equipes foram reduzidas de quatro para duas pessoas. 

Artigos para recreação, bem-estar e moral dos soldados foram providenciados nestas áreas, o Comando Logístico fez todo o possível para colocar à disposição dos militares não apenas artigos de sobrevivência mas, também, aqueles que trouxessem algum conforto e levantassem o moral de seus homens. O mais apreciado pela tropa eram os trailers onde eram vendidos hambúrguer, sanduíches, entre outros produtos, localizados nas zonas de reunião.

1. Mobilização e Treinamento 

Foi oferecido assistência às brigadas de combate mobilizadas de apoio administrativo e, posteriormente, suplementando a experiência por elas adquiridas no Centro Nacional de Treinamento (NTC), em Fort Irwin, Califórnia, ao conduzir treinamentos realísticos no cruento palco do deserto. 

Treinar os soldados da ativa, tarefa básica do Comando de Instrução e Doutrina (TRADOC), constituiu-se num esforço contínuo durante todo este período. O CASCOM e o Comando de Armas Combinadas (CAC), comando integrador da Força, e suas escolas prepararam-se rapidamente para tirar o máximo partido do tempo de treinamento disponível e prover às nossas forças desdobradas no campo um fluxo constante de pessoal de apoio administrativo e aprestado. 

A atividade vital de contratação de pessoal da nação anfitriã e de meios durante situações de contingência também foi intensificada e irá desempenhar, sem dúvida, importante papel em qualquer operação de contingência no futuro. 

2. Componentes da Reserva 

O presidente Bush foi obrigado a convocar tropas da reserva, pois não havia forças suficientes na ativa para atender às necessidades. Os componentes da reserva - Guarda Nacional do Exército e Reserva do Exército - receberam diversos encargos, alguns como unidades de combate, a maioria como unidades de apoio logístico. Cerca de 70% dos apoios e serviços do Exército foram fornecidos pelos reservistas. 

Os reservistas convocados para o serviço ativo foram classificados e registrados, sendo submetidos a treinamento de reciclagem em áreas de aptidões gerais, sobrevivência e em técnicas diversas, tendo em vista sua atualização. 

O Exército em seu desdobramento no Golfo Pérsico não poderia ter funcionado efetivamente sem esse apoio em homens e unidades da reserva. As funções de apoio às tropas na Arábia Saudita incluíam unidades de Intendência, Manutenção, Transporte, Saúde, Assuntos Civis, Material Bélico, Finanças, Ajudância Geral, Auditoria de Guerra, História Militar, Operações de Portos e de Suprimentos.

A contribuição prestada pelos componentes da Reserva foi vital para o êxito da operação. Não obstante, deve-se enfatizar que, apesar da flexibilidade e da confiabilidade demonstrada, essas unidades ainda precisariam de mais tempo para treinamentos em suas guarnições de mobilização no CONUS (Base no Território Continental dos Estados Unidos da América).

Acredita-se que o Exército não pode se dar ao luxo de desviar mais elementos de Apoio Administrativo da Ativa para a Reserva e ainda esperar que essas unidades respondam eficazmente em cima da hora, prestando apoio a uma estrutura logística da Ativa. Transferências adicionais de elementos de apoio para os componentes da Reserva deverão basear-se em uma análise da missão e uma avaliação da ameaça realizada pelos escalões mais altos.


Fonte: APOIO LOGÍSTICO  NA GUERRA DO GOLFO, trabalho de pesquisa doutrinária de alunos do CMB/EsAO - 1997.