"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Como uma brigada blindada conquistou Bagdá


Alex Alexandre de Mesquita


ANTECEDENTES

A conquista de Bagdá foi a última etapa da Operação Iraq Freedom conduzida pelos EUA durante o primeiro semestre de 2003, operação esta que tinha por objetivo depor Saddam Hussein do governo e embora já se tenham passado quase cinco anos de seu término, os eventos daquele dias de 2003 ainda suscitam estudos e reflexões.

A Operação Iraq Freedom iniciou-se em 20 de março com uma ação ofensiva terrestre a partir do Kuwait, conduzida por uma coalizão entre EUA e Inglaterra, principalmente. Sincronizada com a ofensiva terrestre, ocorreram  uma série de ataques aéreos com mísseis e bombas a Bagdá e arredores. 

Os efetivos, assim como os meios materiais do exército iraquiano, haviam sofrido forte deterioração, desde a Guerra do Golfo (1991), e Saddam contava agora com 17 divisões do exército regular (contra as 40 que possuía na guerra de 1991), além das seis divisões da Guarda Republicana.

Diferentemente de 1991, em março de 2003 as forças  da coalisão eram bem menores em número total de homens e meios, porém eram ainda mais qualificadas e acabaram enfrentanto um exército iraquiano degradado pelo isolamento de suas fontes estrangeiras de suprimento, sem lideranças expressivas e com o moral depreciado.

O Exército Iraquiano era formado pela Guarda Republicana (constituída pela Divisão Mecanizada Adnan, Divisão de Infantaria Bagdá, Divisão de Infantaria Abed, Divisão Blindada Medina, Divisão de Infantaria Nabucodonossor e a Divisão Mecanizada Hamurabe), pelo Exército Regular (constituído por cinco corpos de exército que incluíam Div Mec, Div Inf e Div Bld) e por unidades especiais como a Unidade 999, o Serviço de Segurança Militar e o Exército do Povo. 

A Força Aérea Iraquiana (FAI) e a Marinha eram pouco expressivas e apresentavam um baixo índice de disponibilidade, o que reduzia o poder de combate daquele país.

Além das chamadas forças regulares, Saddam Hussein contava ainda com um efetivo de tropas irregulares, combatentes muito mais dedicados do que aqueles que integravam as forças regulares. Conhecidos como fedayins  (mártires), esse combatentes eram na sua maioria oriundos de outros  países árabes disposto a combater a guerra santa contra os EUA. Por conta da sua organização e pela permeabilidade que possuíam para entrar e sair do país, era muito difícil identificar e calcular o efetivo total desses mártires.

Por outro lado, as forças da Coalizão contavam com um poder de combate cujo principal ponto de desequilíbrio estava na qualidade dos militares e na tecnologia envolvida. Coube ao Comando Central (CENTCOM) a condução da ação militar, enquadrando forças norte-americanas da Marinha, dos fuzileiros Navais, do Exército e da Força Aérea. As forças terrestres do CENTCOM estavam subdivididas em duas grandes estruturas, sendo uma delas constituída exclusivamente por organizações do Exército enquadradas pelo 5º Corpo de Exército, e a outra liderada pela 1ª Força Expedicionária de Fuzileiros que enquadrou a 1ª Divisão Blindada inglesa, entre outros grupamentos de forças.

No dia 20 de março de 2003 iniciou-se a ofensiva terrestre com o 1º Batalhão do 7º Regimento de Fuzileiros Navais a partir do Kwait. Além do 1º /7º Regimento, mais de cinqüenta unidades valor batalhão também romperam a linha de partida com o objetivo de conquistar os campos petrolíferos iraquianos para que não fossem destruídos, o que poderia causar um grande desastre ambiental.



Estimava-se que o inimigo combateria as forças de coalizão com oito divisões, mas já se tinha a informação de que boa parte de suas forças havia desertado e retornado à vida civil. Isso aconteceu  principalmente em função da violenta ofensiva a partir do Kwait, da campanha aérea contra Bagdá e das ações de operações psicológicas conduzidas antes da ação bélica propriamente dita.

Até a conquista da capital iraquiana havia a necessidade de assegurar a uma importante passagem sobre o rio Eufrates próximo à pequena cidade de Nasiriyah e o corredor de Karbala, por onde passava a Rodovia 8, porta de entrada dos subúrbios da cidade. Em Bagdá, outro objetivo era o Aeroporto Internacional de Bagdá, que tinha grande valor simbólico para o regime e alto valor militar para a coalisão, pois permitiria a ligação aérea com o exterior.

Em 2 de abril, a 3ª Divisão de Infantaria começou a se preparar para cruzar o rio Eufrates, cujas pontes não haviam sido destruídas, como muitas outras no decorrer dos combates. Nessa mesma data carros de combate norte-americanos começaram a cruzar o rio e tropas iraquianas tentaram impedí-los, mas sem sucesso. Estavam criadas as condições para o investimento a Bagdá pela 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada, investimento esse que se  iniciou com a conquista do Aeroporto Sadam Hussein em e do centro de Bagdá pela a “2nd Brigade Combat Team”. 

A seguir, será analisada a ação dessa brigada investindo em Bagdá, realizando o que ficou conhecido como “Thunder  Run”



A AÇÃO NORTE-AMERICANA

Até a chegada aos subúrbios de Bagdá a ofensiva da coalizão estava sendo conduzida com uma extraordinária velocidade e os comandantes não pretendiam interromper ou reduzir esse ímpeto, agora que estavam prestes a investir contra a capital iraquiana. Entretanto, as lembranças dos combates em Mogadíscio ainda estavam vivas na memória de todos os combatentes desdobrados no Iraque.

O general Tommy Franks, comandante do V Exército Norte Americano, estava convencido de que os oponentes haviam perdido os meios para uma defesa organizada em Bagdá e desta forma deu liberdade para que ações de reconhecimento em força fossem realizadas pelos seus elementos subordinados.

Sua intenção era a levantar o dispositivo, a composição e valor do inimigo que possivelmente estivesse no interior da cidade. Essa autorização está relacionada às estimativas referentes ao valor do inimigo. Era possível conceber que incursões relâmpago ao centro da cidade pudessem ser bem sucedidas, pois funcionariam como  demonstrações de força e ação de choque.

Isso fez com que em 5 de abril a 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada realizasse uma operação de reconhecimento em força que ficou conhecida como Thunder Run.

Para cumprir essa missão, foi designado o 1º Batalhão do 64º Regimento Blindado, que a partir das suas posições localizadas nos subúrbios de Bagdá seguiu rumo à região do Distrito Governamental, onde se localizava o Palácio Presidencial e os ministérios. Sabia-se que o centro da cidade estava repleto de  fedayins,  de elementos remanescentes da Guarda Republicana, de remanescentes do Exército regular e de fanáticos estrangeiros e o avanço do 1º/64º Regimento Blindado acabou por levantar importantes informações a esse respeito. 

O sucesso dessa operação contribuiu para assegurar  que os iraquianos estavam realmente debilitados e não tinham condições de conduzir uma defesa organizada. Na realidade o que se apresentava era uma resistência descontínua, onde não havia unidade de comando, por conta da campanha aérea ter reduzido a um mínimo a capacidade de comando e controle de Saddam e de seus generais.

Em 7 de abril o comandante de 3ª Divisão de Infantaria, general Blount concluiu que poderia mais uma vez se valer da ação  de choque de seus meios blindados para, de uma forma decisiva, conquistar o centro da capital do Iraque.

Para isso, ele decidiu empregar a 2ª Brigada, então comandada pelo coronel Perkins, para realizar um segundo Thunder Run, agora com a missão de conquistar e manter a região dos palácios, que foi designada como objetivo DIANE.

A 2ª Brigada estava composta pelas unidades:
  • 3º Batalhão do 15º Regimento de Infantaria, dotado de VBC Fuz Bradley;
  • 1º e 4º Batalhões do 64º Regimento Blindado, dotados de CC Abrams
  • Esquadrão E do 9º Regimento de Cavalaria Blindado, dotado de CC Abrams e VBC Fuz Bradley 
  • 1º Batalhão do 9º Regimento de Artilharia de Campanha, com VBC Obus M 109. 
Com essa organização, é possível identificar que a brigada tinha forte componente de carros de combate.

O acompanhamento de inteligência identificou e informou que a missão não seria tão fácil quanto a executada no dia 5 de abril. As forças inimigas começaram a estabelecer posições de bloqueio na região dos entroncamentos principais da cidade, empregando áreas minadas e construindo obstáculos com escombros para impedir qualquer movimento. A rodovia 8, principal via de acesso em direção à cidade estava toda minada.



A operação foi planejada de modo que a FT 1º/64º Regimento Blindado conquistasse e mantivesse o objetivo DIANE, enquanto a FT 4º/64º Regimento Blindado  conquistaria dois outros palácios próximos ao rio  Tigre, objetivos designados como WOOD WEST e WOOD EAST. Desataca-se que ambas as FT eram fortes em carros de combate e dessa forma pouco aptas a manter o terreno.

A terceira unidade, a FT 3ª/15 Regimento de Infantaria , forte em fuzileiros, ficou com a missão de manter a posição inicial da brigada, objetivo SAINTS, com parte de seu efetivo, estabelecer uma linha de comunicação e suprimento desse ponto até os objetivos WOOD e bloquear a rodovia 8, devendo conquistar e manteras três maiores interseções ao longo da rodovia. Esses objetivos receberam os nomes de a CURLEY, LARRY e MOE.

O Cel Perkins já havia percebido que a principal tática dos iraquianos era atacar as forças norte-americanas quando estas estavam estacionadas, por isso foi tomada a decisão de manter a brigada sempre em movimento. A FT 1º/64º Regimento Blindado, que liderou o movimento não deveria parar sob hipótese alguma, qualquer viatura danificada deveria ser ultrapassada, seus integrantes socorridos e no menor espaço de tempo dever-se-ia destruí-la ou inutilizá-la.  O ataque iniciou às 05h38min, mas teve que inicialmente vencer uma área minada, o que levou cerca de vinte minutos e às 06h00min a brigada iniciava o seu Thunder Run. 

Por volta das 06h11min a subunidade testa estabeleceu contato com o inimigo, sofrendo fogos de armas automáticas, RPG e morteiros, danificando um CC que foi deixado para trás e sua guarnição socorrida, como havia determinado o coronel Perkins.

Contudo essa resistência, mais uma vez desorganizada não foi suficiente para deter o avanço da brigada. Verificava-se que embora os iraquianos tivessem tido tempo de preparar posições defensivas eficientes isso não ocorreu. Não havia integração entre o fogo e a manobra, as posições e  as áreas de obstáculos não eram batidas por fogos. Na verdade, mais e mais se  confirmava que o inimigo conduzia uma resistência descontínua.

Às 07h56min a FT 4º/64º Regimento Blindado informou que havia conquistado seus objetivos e os mesmos já haviam sido vasculhados, entretanto essa informação não reduziu um sério problema ocorrido às 07h00min, quando o Centro de Operações Táticas (COT) da brigada foi atingido por um míssil ou foguete.

Esse fato retirou do comandante a capacidade de coordenar a manobra e o apoio de fogo, o que poderia comprometer toda a missão. Somente às 09h00min é que o COT voltou a funcionar em plenas condições.

O combate continuou intenso até o dia 8, mas a maioria do inimigo era formada por  fedayins, que embora não possuíssem formação militar de combate mostravam-se bastante determinados em cumprir a sua missão pela causa árabe. Assim, eles desfechavam ataques suicidas com carros bombas e homens bombas, além de disparos a curta distância com RPG. O único local em que se apresentaram elementos da Guarda Republicana foi próximo ao centro de Bagdá. Próximo ao objetivo MOE onde os iraquianos atacaram com uma FT de T-72 e BMP-1 e empregaram também armas antiaéreas realizando o fogo direto.

No dia 8 de abril, pela manhã a 2ª Brigada sofreu um contra-ataque vindo de leste do rio Tigre. Os iraquianos formavam pequenos grupos de 10 a 20 homens com RPG e armas automáticas. Muitos usavam roupas civis, mas alguns foram identificados como integrantes da Guarda Republicana. A ação foi rechaçada e enfim a posição da 2ª Brigada se estabilizou e a linha de comunicação e suprimento havia sido estabelecida.

Isso permitiu que a 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada determinasse que a 3ª Brigada atacasse Bagdá pela Rodovia Nr1 em 9 de  abril, ligando-se com a 2ª Brigada. No dia seguinte a 1ª Brigada realizou a limpeza da Rodovia Nr 8, desde o aeroporto, vindo por fim a ligar-se com 2ª Brigada no centro de Bagdá. Não foram contabilizadas todas as perdas iraquianas, mas com certeza chegaram à casa do milhar e mais de cem veículos foram destruídos. Não houve prisioneiros de guerra, aqueles que se rendiam eram desuniformizados e liberados, pois os únicos iraquianos que os norte-americanos queriam prender eram os assessores de Sadam e o próprio presidente.  

O emprego de meios predominantemente blindados na conquista de Bagdá surpreendeu muitos especialistas militares que previam uma derrota fragorosa da coalizão combatendo em ambiente urbano. Entretanto a lembrança de Mogadíscio, onde tropas leves foram cercadas e quase destruídas por somalis ainda persistia na mente dos comandantes norte-americanos, como registra Zucchino : “Blout e Perkins não queriam repetir Mogadísico. [...] A coluna blindada tem distintas vantagens sobre as forças leves de Rangers e Delta Forces que conduziram o ataque em Mogadíscio”.

Além disso, era senso comum que os blindados dentro de Bagdá seriam alvos fáceis para os iraquianos e que, assim como em Grozny, o resultado seria desfavorável ao atacante. Os próprios comandantes norte-americanos temiam pelo sucesso da missão, mas ao final tudo se transformou em sucesso.


A MISSÃO

A missão da  2nd Brigade Combat Team era conquistar a região do distrito governamental onde se localizava o Palácio Presidencial e os demais edifícios ministeriais do governo iraquiano, de modo a contribuir com a missão da 3ª Divisão de Infantaria de conquistar Bagdá. O comando da 3ª Divisão, ouvido o comandante da 2ª  Brigada, resolveu empregar a sua grande unidade com maior quantidade em carros de combate e veículos blindados. 

Isso foi decorrente do fato de que a missão compreendia a conquista de objetivos específicos, que não demandariam, obrigatoriamente, a necessidade de vasculhamento. Isso justifica emprego de uma Bda Bld e a utilização da técnica de investimento seletivo. Tanto o coronel Perkins, comandante da brigada como o general Blount, comandante da divisão não aceitavam o consenso convencional de que empregar blindados em ambiente urbano é uma desvantagem. Para eles, os blindados não só podiam combater em ambiente urbano, como também prevalecer.


O INIMIGO

Após os combates conduzidos desde o dia 20 de março as forças terrestres iraquianas estavam desorganizadas, com efetivos incompletos por baixas e deserções e com equipamento e armamento parcialmente destruído ou obsoleto, Saddam Hussein ainda comandava seu exército e determinou que a defesa de Bagdá fosse realizada a todo custo. O centro de Bagdá ainda estava repleto de combatentes da Guarda Republicana, do Exército Regular e dos fedayins. Segundo fontes do sistema de inteligência norte-americano, Saddam dispunha em Bagdá de duas brigadas da Guarda Republicana e 15.000 fedayins. 

Dessa forma ainda havia em Bagdá carros de combate em número ignorado, viaturas blindadas de diversos tipos, artilharia de campanha e antiaérea, dentre outros componentes dos diversos sistemas operacionais.

Próximas ao centro de Bagdá estavam concentradas as forças regulares iraquianas que incluíam uma combinação de elementos a pé e mecanizados pertencentes à Guarda Republicana.

Esse inimigo em particular tinha condições de atacar com CC T-72 e VBC Fuz BMP-1 (Foto 3) e armamento antiaéreo empregado para o fogo direto. Havia somente uma posição defensiva organizada com trincheiras e tocas e outras posições preparadas nos edifícios que dominavam os entroncamentos rodoviários.

Nesse momento, as forças convencionais ainda atuavam enquadradas por comando superiores. Particularmente a Guarda Republicana e o comando geral estavam sob responsabilidade dos filhos do presidente, que nada conheciam a respeito do emprego rápido de forças militares e não dispunham de meios de comando e controle para coordenarem suas ações. Esses fatores contribuíram para que a resistência iraquiana não respondesse de forma rápida e eficaz a investida das tropas da coalizão.

As forças militares iraquianas apresentavam uma vulnerabilidade peculiar, que era o seu sistema de informações públicas. O ministro da Informação Ali Mohamed Said al-Sahhf insistia em repetir que o combate estava sendo vencido pelas forças do Iraque e que os norte-americanos estavam sofrendo pesadas baixas, o que não era verdade. Essa prática foi determinante para que as forças iraquianas em Bagdá não esperassem o investimento dos norte-americanos, não se preparando para a defesa efetiva da cidade. Isso contribuiu para reduzir o seu poder de combate.

Em verdade somente os fedayns continuavam lutando tenazmente, mas por conta de suas múltiplas origens e procedências esses combatentes não possuíam uma unidade de comando convencional. Os  fedayins também não estavam habilitados a operar os equipamentos militares mais complexos, como os carros de combate de origem russa. Assim, a resistência iraquiana ficou reduzida a grupos armados com armas automáticas e RPG que não chegaram a causar danos consideráveis aos blindados das forças dos EUA e nem baixas aos soldados. Ao concentrar o poder em suas mãos e centralizar todas as decisões Saddam Hussein pode ter contribuído para que houvesse reduzida resistência em Bagdá. 

Os seus comandantes subordinados, nos diversos níveis, não puderam se valer da iniciativa para tomar decisões que poderiam contribuir para a defesa da cidade, como por exemplo, preparar as edificações como posições defensivas, preparar túneis para auxiliar na movimentação entre os edifícios ou preparar destruições em obras de arte diversas.

Outra característica importante é que não havia um sistema de defesa organizado na cidade, embora Saddam tenha dito que um anel de aço protegia Bagdá. Isso pode ter sido resultado do desgaste sofrido durante a campanha no deserto desde a fronteira com o Kwait. Como até a chegada a Bagdá havia predominado o combate convencional e muitas das forças em Bagdá eram compostas por militares que haviam se retirado do deserto, não houve tempo nem coordenação para a execução de uma defesa eficiente.

Ao se observar as ações dos fedaiyns é possível identificar o início de um combate irregular, principalmente por meio da utilização de técnicas de emboscada. Também começava a ficar difícil identificar o inimigo, pois este começou a atuar desuniformizado  e empregando até mesmo veículos civis, como, por exemplo, o que os norte-americanos chamam techinicall. Essa mudança de atitude começou a configurar um combate assimétrico e os valores numéricos relativos ao poder de combate do inimigo, já não representavam fielmente as possibilidades do inimigo.



Foram empregados também muitos dispositivos explosivos improvisados e também se registrou a ocorrência de homens-bomba, mas em algumas regiões de Bagdá predominaram as minas terrestres em ruas e avenidas. As minas tinham o objetivo de reduzir a velocidade de progressão dos  militares norte-americanos, enquanto que os dispositivos explosivos e homens bombas eram empregados para causarem baixas.

Ainda sobre os fedayins, a sua principal motivação para o combate vinha da crença e fanatismo religioso. A crença de que tinham a missão de derrotar o grande Satã e de que estavam lutando uma guerra santa. Isso era um fator moral positivo para os defensores de Bagdá, mas nem todos agiam ou pensavam como eles.

O fato de Saddam Hussein ter sido um ditador violento e vingativo fez com que as diversas etnias por ele perseguidas e rivais entre si não apoiassem as ações em Bagdá, recusando-se a combater, elevando o número de deserções e dificultando o homizio dos combatentes no seio da população. Os militares do
exército do Iraque simplesmente despiam seus uniformes e se transformavam em cidadãos normais, não contribuindo mais para o esforço de guerra.

Resumindo, o inimigo enfrentado pelos norte-americanos em Bagdá não tinha condições de defender a cidade de forma organizada, mas tão somente apresentar resistências descontínuas. Esse fato muito se deve à aversão que a população iraquiana sentia por Saddam Hussein, negando-se a combater e perder a vida por um ditador violento, vingativo e sanguinário. Embora o ambiente urbano pudesse contribuir para desequilibrar o poder de combate em favor dos iraquianos, não houve uma preparação prévia de posições defensivas, linhas de comunicações e suprimento ou  mesmo delegação de competência para que os pequenos grupos adotassem ações que impedissem o avanço da coalizão.

Somente os  fedayins se mostraram resistentes, passando a empregar técnicas de guerra irregular contra as forças da 3ª Divisão de Infantaria. Entretanto essas ações se aproximaram mais do martírio advindo do fanatismo religioso do que propriamente uma resistência militarmente organizada.

Por fim, ao passar de um combate tipicamente convencional em largas frentes e profundidades, como no deserto, para um combate assimétrico em ambiente urbano os iraquianos não souberam se adaptar para tirar o máximo proveito da cidade de Bagdá, das suas características e das limitações que ela poderia apresentar ao emprego de grandes formações  blindadas e motorizadas norte-americanas.

Foi graças a esse inimigo e a esse modus operandi que a 2ª Brigada pôde realizar o seu  Thuder Run, não se preocupando em vasculhar as regiões ultrapassadas, mas somente progredir de forma rápida e potente para o seu objetivo. E foi essa agressividade, somente possível por meio do emprego de meios blindados, que causou a surpresa ao inimigo e a sua conseqüente derrota.



O TERRENO

A capital iraquiana possui uma área de aproximadamente 400 km2 e em 2002 abrigava uma população de cerca de 5.000.000 de habitantes, mas que se reduziu com o conflito em 2003, não havendo dados disponíveis a respeito. A cidade é cortada de sudeste para sudoeste pelo rio Tigre, pelo Canal do Exército e pelo rio Diyala. Além disso, havia pelo menos cinco importantes ramais ferroviários e diversas rodovias e auto-estradas que chegam à cidade.

Isso fazia com que a cidade fosse dividida em setores segmentados. Essa segmentação era interligada por pontes, viadutos, passagens de nível e nós rodos-ferroviários que passaram a ter grande importância para as operações, pois permitiam controlar cada setor. Essa configuração segmentada dificultou o apoio mútuo entre os elementos de manobra da 2ª Brigada. Embora seja uma das cidades mais antigas do mundo, Bagdá passou por uma grande modernização. Essa modernização lhe conferiu uma configuração bastante regular no que se refere à disposição das ruas, com largas avenidas, em quarteirões organizados e grandes espaços abertos, como a região dos palácios.

Essa organização facilitava a marcação de limites e o emprego de meios blindados, mecanizados e motorizados em grandes formações de combate. A observação e os campos de tiro também foram favorecidos pelos espaços amplos e as largas avenidas principalmente no Distrito Governamental.

As edificações em Bagdá seguiam o seguinte padrão: nos subúrbios casas e prédios de pequena a média altura. As casas normalmente construídas em tijolos e os prédios em concreto. Havia também grandes áreas industriais, principalmente petroquímicas próximas ao leito do rio Tigre. No centro da cidade já predominavam os prédios de grande altura, com mais de 15 andares, como hotéis e prédios governamentais, construídos em concreto. Além disso, havia a região dos palácios, com uma arquitetura toda peculiar. 

Por ser a capital do Iraque, Bagdá possuía uma boa infra-estrutura. Havia o Aeroporto Sadam Hussein, a Estação Ferroviária Central, hospitais, a sede administrativa do governo. Havia ainda estações de  rádio e televisão, estações elétricas e uma rede de transporte estruturada. Logicamente, após campanha aérea houve muitos danos a essa infra-estrutura, mesmo com a política de redução de danos e o emprego maciço de armas inteligentes.

O tamanho da cidade facilitava em muito a instalação de um sistema defensivo eficiente, permitia a observação do alto  dos principais edifícios e a utilização da infra-estrutura que ainda estivesse intacta para apoiar as operações militares. Para os norte-americanos, o fato de investir contra uma metrópole com cerca de 5.000.000 de habitantes era um desafio extremamente difícil e complexo.  Assim como em outros conflitos em ambiente urbano,  a existência de prédios altos dificultava a realização de fogos indiretos, pois as granadas de artilharia e morteiro encontravam altos edifícios em suas trajetórias não atingindo o alvo selecionado. 

Isso além de reduzir a eficiência do tiro ia de encontro à política de redução de danos e por vezes contra as regras de engajamento. Mesmo utilizando munições inteligentes, os norte-americanos causaram muitos danos às obras de arte em geral e dessa forma algumas ruas ficaram cobertas de escombros. Para o inimigo isso foi favorável por que limitava o movimento dos veículos e tropas do oponente. Além disso, esses mesmos escombros eram utilizados na construção da proteção das posições defensivas. 

A existência de túneis diversos, como os de esgoto, facilitava a progressão, aumentando a mobilidade tática dos iraquianos, principalmente dos  fedayins. Entretanto não houve uma preparação minuciosa da cidade, com a construção de túneis de interligação entre as diversas posições defensivas e dessa forma essa vantagem não pode ser explorada na plenitude.

Em resumo, essas eram as principais características do terreno em que os norte-americanos da 2ª Brigada combateram as forças iraquianas em Bagdá. Por haver muitas áreas abertas, permitindo a observação e o emprego do armamento principal do CC foi possível o emprego de carros de combate e de viaturas blindadas de combate de fuzileiro. Soma-se a isso o fato de que a cidade não havia sido preparada defensivamente para a ofensiva dos Estados Unidos.



OS MEIOS BLINDADOS

A 2nd Brigade Combat Team é na verdade uma grande unidade blindada com CC Abrams, artilharia auto-propulsada e fuzileiros embarcados em VBC Fuz Bradley.

O carro de combate M1A1 Abrams é uma modernização do seu original o M1, cujo desenvolvimento é da década de 1980. Essa  versão recebeu um novo canhão de 120 mm, sistemas de proteção químicos, biológicos e nucleares e um pacote de robustecimento da blindagem. O carro é dotado dos seguintes armamentos, além do canhão: uma metralhadora coaxial de 7,62 milímetros, duas metralhadoras antiaéreas de .50 polegadas e 7,62 mm e seis lançadores de granadas fumígenas.

Como todo carro de combate, o M1A1 foi desenvolvido para o combate em ambientes com amplas frentes e grandes profundidades, seu canhão tem a capacidade de engajar alvos a até 4.000 metros com munição cinética e graças aos seus sistemas de direção e controle de tiro a identificação desses alvos é de quase 100% de certeza, evitando o risco de fratricídio. Além da munição cinética o canhão também tem condições de disparar munições químicas  explosivas e de cabeça esmagável. Essas características tornam o Abrams um dos melhores CC do mundo. A sua guarnição é de quarto militares, como a maioria dos CC em operação no mundo, com o comandante do carro, o atirador, o  auxiliar do atirador e o motorista. 

O comandante do carro conta com seis periscópios que permitem observar o ambiente externo, mas o seu principal instrumento ótico é o visor termal independente que proporciona uma visão de 360º, estabilizada, dia e noite, com busca e travamento de alvo selecionado que envia a  informação diretamente ao atirador. Além disso, o comandante, por meio de um  punho de prioridade de tiro pode engajar o alvo desabilitando o atirador. Essas peculiaridades permitem um engajamento rápido e preciso do inimigo.



O carro conta ainda com um computador digital que processa as diversas variáveis envolvidas no tiro, quer sejam ambientais (vento, temperatura, etc), situacionais (velocidade do carro, posição do carro em aclive ou declive, inclinação lateral, tipo de munição, etc) e do alvo (distância, medida por telemetria laser, velocidade do alvo, etc). O motorista, cuja posição é no centro do carro, tem periscópios que permitem monitorar o ambiente em um ângulo de 120º. Um desses equipamentos é um intensificador de luz que garante a condução do carro à noite, ou com reduzida luminosidade.

A composição da blindagem é confidencial, mas há evidência de que contenha urânio empobrecido, tornando-a bastante resistente, no seu arco frontal, a armas anticarro portáteis do tipo AT-4 e algumas versões de RPG, além do tiro de munições explosivas de outros carros de combate. Essa característica garante uma quase invulnerabilidade.

Como todo CC, a maior proteção está no arco frontal e vai decrescendo para a retaguarda. A parte superior da torre também é bastante vulnerável, bem como a parte inferior do CC, com destaque para as lagartas.

Durante a operação Liberdade do Iraque o Abrams se  apresentou muito bem, progredindo pelo deserto, como já havia acontecido na Guerra do Golfo. Entretanto, havia a preocupação relativa ao seu emprego em ambiente urbano. Essa preocupação era pelo fato de que os sistemas de armas ficariam comprometidos pela diminuição da largura e profundidade dos campos de tiro, dificuldade de engajamento de alvos em locais altos ou muito baixos, por conta da elevação e depressão do canhão, existência de espaços estreitos, escombros e pelo uso de armas anticarro pelo inimigo.

Apesar disso, o Abrams mostrou-se extremamente eficiente, resistindo aos fogos anticarro do inimigo, graças à sua blindagem; engajando alvos a grandes distâncias, em função da topografia de Bagdá e da configuração das ruas e quarteirões, causando a ação de choque desejável ao combate, por meio do seu poder de fogo e mobilidade. O resultado é que nenhum carro foi destruído e uns poucos foram postos fora de ação, sendo que nenhuma guarnição foi perdida. Essas características foram determinantes para o emprego do carro dentro da localidade.

Isto é, a sua capacidade de sobrevivência era compatível com a ameaça inimiga. Para que fosse formado o binômio carro/fuzileiro  havia disponível na 2ª Brigada as VBC Fuz Bradley. A missão do Bradley é proporcionar transporte protegido e poder de fogo às frações de fuzileiros ou às frações de cavalaria, tais como os exploradores.

Para isso, o carro possui uma grande mobilidade através campo, por ser um veículo sobre lagarta. A sua blindagem em grande parte de alumínio, com reforço em determinadas partes do carro como arco frontal onde também possui blindagem em aço, protege os ocupantes contra fogos de artilharia, algumas armas anticarro, fogos de .50 e de armamento leve de todo o tipo.

O seu armamento principal é um canhão de 25 mm, que pode disparar munições cinéticas e explosivas a uma distância de até 2000 m. Coaxial ao canhão, há ainda uma metralhadora de 7,62mm. Sua torre é estabilizada com sistemas de condução de tiro computadorizado e com capacidade de atuação de dia e de noite, graças ao seu sistema de imagem termal.  O canhão permite ainda a realização de rajadas de até 200 tiros por minuto.

Com esse armamento o Bradley tem a capacidade de derrotar ou causar danos na maioria das viaturas blindadas existentes, incluindo alguns CC mais antigos.  Outro armamento de relevo no Bradley é o míssil TOW, montado na lateral do carro em dois lançadores, que ficam prontos para serem empregados, entretanto o carro necessita parar para efetuar os disparos. 

O TOW é um míssil guiado, com alcance aproximado de 4.000 m, sendo capaz de destruir qualquer blindado existente na atualidade ou destruir posições fortificadas. O Bradley tem uma grande capacidade de sobrevivência no campo de batalha graças ao seu armamento e a sua proteção blindada, transportando a guarnição de três homens e um grupo de combate de seis militares com grande segurança. Durante o investimento a Bgadá o Bradley mostrou-se extremamente eficiente na proteção aproximada dos Abrams realizando fogos com seu canhão nos andares mais altos dos edifícios, onde os CC não podiam atirar, por conta da deficiência em elevação. Graças à sua capacidade de sobrevivência não houve a perda de nenhum grupo de combate ou guarnição, possibilitando a progressão embarcada, mesmo quando recebendo fogos de RPG.

Não resta dúvida de que a vantagem proporcionada por essas duas viaturas foi determinante para que se decidisse combater com esses meios blindados no interior de Bagdá. A sua capacidade de sobrevivência aliada à ação de choque foi o diferencial para o sucesso da conquista da região dos palácios na capital do Iraque, possibilitando a conquista de objetivos específicos sem a realização de ações de vasculhamento.



ENSINAMENTOS

A Operação Iraq Freedom demonstrou, sem sombra de dúvida, o poder militar dos Estados Unidos, não só em termos tecnológicos, como também na qualidade de seus recursos humanos. Isso ficou provado nos combates na ampla planície desértica e principalmente nas confinadas ruas de Bagdá.

Nesse contexto, o feito da  2nd Brigade Combate Team registrou-se na história militar como uma decisão audaciosa e surpreendente, quando cerca de  mil militares receberam a missão de capturar uma cidade de 5 milhões de habitantes.  Não há registro da proporção exata de forças envolvidas nessa batalha, principalmente por que do lado iraquiano houve muitas deserções e o combate foi conduzido por remanescente, guerrilheiros estrangeiros e os aguerridos  fedayins. 

Contudo, o fato de Bagdá possuir cerca de esta população indicava que pela doutrina tradicional haveria a necessidade de  um grande efetivo com uma grande quantidade de fuzileiros para realizar o investimento e o vasculhamento. Entretanto o Exército dos EUA identificou que era importante se entender o componente humano, a sociedade iraquiana, de modo a atuar em suas fraquezas para que a ação militar fosse um sucesso. Uma dessas vulnerabilidades era o fato de que nem todos apoiavam Saddam Hussein e dessa forma contribuíram para a ofensiva da coalizão. Poucos foram aqueles que apoiaram os soldados iraquianos e muitos informaram sobre locais de homizio das forças e lideranças.

Essa relativa afeição também foi fruto da preocupação com a redução de danos durante o início dos combates e do bombardeio da capital. Isso foi possível por conta do uso de armas inteligentes. A redução de danos também contribuiu para que as ruas ficassem menos restritas ao movimento dos veículos, pois foram reduzidas as ocorrências de escombros.

Os norte-americanos exploraram ao máximo seus conceitos ofensivos de ataques preventivos, velocidade das ações, manobra, exploração das vantagens técnicas e superioridade de comando e controle, emprego de armas combinadas, liderança, exploração da surpresa. Tudo isso foi alcançado quando a 2ª Brigada penetrou de forma veloz e poderosa rumo ao coração da cidade . Por isso é que mesmo atuando em ambiente urbano, onde as ações são mais próprias para elementos a pé, o Exército manteve o foco no emprego de meios blindados.



Essa técnica se mostrou eficiente principalmente por que os meios blindados norte-americanos eram muitos superiores aos iraquianos e às armas anticarro em presença. Esse pode ser apontado como  um dos fatores mais importantes que contribuíram para o sucesso do “Thunder Run”. A capacidade de sobrevivência e a potência de fogo dos Abrams e dos Bradleys permitiram que o combate fosse conduzido embarcado todo o tempo, sendo que nenhum carro foi destruído. Mesmo assim, após a guerra modificações foram propostas para que o Abrams se tornasse mais eficiente em localidade, surgindo um protótipo denominado.

As atividades logísticas poderiam ter comprometido  toda a missão, pois o consumo de munição e combustível foi muito grande apesar da brigada percorrer somente 20 quilômetros e o inimigo ser relativamente fraco. Assim, deve ser prevista a limpeza da futura Estrada Principal de Suprimento (EPS) o mais rápido possível de modo a garantir o ressuprimento e a evacuação de pessoal e material.

Em termos de comando e controle, a principal dificuldade ocorreu quando o COT da brigada foi bombardeado, mas a missão não foi comprometida, pois os comandos subordinados sabiam qual era a intenção do comandante e assim mantiveram a impulsão do ataque conquistando objetivos importantes com WOODY EAST e WOODY WEST.

O estudo de situação de inteligência foi primordial para o sucesso da operação. Ciente das fraquezas do inimigo, o Cel Perkins foi capaz de organizar a sua brigada e investir de forma rápida e agressiva  contra pequenos e desorganizados efetivos inimigos. O sucesso do  Thunder Run também está diretamente ligado à fragilidade do inimigo, que em momento algum apresentou uma defesa organizada que impusesse obstáculos expressivos ao movimento dos blindados da 2ª Brigada.

Além disso, foram selecionados objetivos específicos, o distrito governamental e os três entroncamentos. As ações foram direcionadas para a conquista desses objetivos, sem a preocupação de realizar a limpeza da área ultrapassada, buscando aproveitar a velocidade proporcionada pela ação de choque dos blindados. A limpeza foi realizada posteriormente por outra tropa, a 1ª Brigada. Dessa maneira a 3ª Divisão de Infantaria compôs uma força com a missão específica de atacar e conquistar os objetivos e outra com a missão específica de limpar o terreno ultrapassado.

A 2ª Brigada também privilegiou organização de FT valor batalhão com meios suficientes para que estas organizassem subunidades autônomas, principalmente com apoio de engenharia. O reforço de engenharia se mostrou extremamente eficaz no interior da cidade, onde os obstáculos foram superados com facilidade. 



Além disso, na fase da manutenção foi possível se aproveitar de escombros e áreas destruídas para as ações de contramobilidade e proteção. Ainda no que se refere à organização para o combate, o comandante da brigada e seu estado-maior levaram em consideração  primordialmente as informações sobre o inimigo. Não foi feita nenhuma  consideração a respeito da proporção entre quantidade de quarteirões a serem conquistados e pelotões disponíveis, mas sim, qual o valor do inimigo, suas características possibilidades e limitações.

Somente assim foi possível conceber que a ação de uma brigada blindada, forte em carros de combate, poderia conquistar Bagdá. Ficou evidenciado que a 2ª Brigada valorizou os princípios de guerra do objetivo, pois estava perfeitamente definido que a missão era conquistar o distrito governamental; da ofensiva por meio da execução do  próprio  Thunder Run; da manobra, ao empregar seus batalhões para conquistar diversos objetivos simultaneamente, negando ao inimigo uma reação organizada e colocando-o em posição desvantajosa.

Ao par disso, no que se refere aos fundamentos das operações ofensivas, a todo o momento era buscado o contato com inimigo, quer seja pela ação de tropas, quer seja pelo monitoramento por outros meios e exploração das suas vulnerabilidades, dois fundamentos importantes das  operações ofensivas. 

conquista dos objetivos  LARRY, MOE e CURLY,  importantes entroncamentos rodoviários contribuíram para evidenciar outro importante fundamento das operações ofensivas que é o controle de acidentes capitais, neutralizando a capacidade de reação do inimigo.

Ao empregar unidades blindadas foi possível manter  a impulsão, principalmente por conta da conjunção do fogo e do  movimento, concentrando o poder de combate no momento e local desejados. Todas essas considerações também vão ao encontro dos fundamentos das operações ofensivas.

Pode-se dizer que a organização de elementos de combate fortes em CC contribuiu para o sucesso do ataque da 2ª Brigada.  Isso por que os CC proporcionaram ação de choque e efeito psicológico. Soma-se a isso a sua capacidade de manter a velocidade e o ritmo do combate; a proteção blindada que oferecem, em função da sua blindagem ter sido modernizada para suportar as principais armas anticarros portáteis existentes e os sistemas de armas embarcados que garantem apoio de fogo imediato e preciso, de dia e de noite, e com uma grande variedade de calibres.


CONCLUSÃO 

A ação da 2ª Brigada foi inovadora por que mostrou que não só é possível empregar meios blindados em localidade, como também eles serão responsáveis por desequilibrar o poder de combate em favor de quem os emprega. 

Mais ainda, na operação quem liderava o movimento eram batalhões de carros de combate. Os seus elementos testa eram FT subunidades de carros de combate, tudo isso vai de encontro ao consenso geral de que quem deve liderar o movimento são os fuzileiros embarcados. Os fuzileiros das FT, pelo contrário, permaneciam embarcados, somente deixando a proteção de seus veículos quando o fogo inimigo se tornava intenso ou quando necessitavam manter o terreno conquistado.

Outro fator importante refere-se ao componente humano: militares adestrados, conhecedores do equipamento e do armamento e das suas interações com o do ambiente, confiantes no seu conhecimento e em suas capacidades. Esse fator, reunido sob o comando de lideranças bem preparadas e sistemas de informação eficientes, torna qualquer sistema bélico eficaz, diferentemente do Exército do Iraque.

O sucesso norte-americano se deveu também à débil resistência inimiga, indicando que ações rápidas levam a surpresa ao inimigo. Isso é possível com a conquista de objetivos específicos sem a preocupação de realizar a limpeza do terreno ultrapassado, a não ser para a sua própria segurança. A técnica do  Thunder Run se apresentou como bastante eficiente, entretanto para a realização de ações dessa natureza é importante comando e controle bem estruturado, comunicações amplas e flexíveis, constante adestramento, iniciativa e liderança em todos os níveis, flexibilidade na organização dos elementos de combate formando conjuntos de armas combinadas e material de emprego militar compatível com o ambiente urbano. 

Por fim, as Forças Armadas Brasileiras, em especial o Exército, devem considerar o modus operandi dos norte-americanos, analisando de forma bastante atenta o desencadear das ações, as condições ambientais, materiais, pessoais, de preparo e adestramento e principalmente os ensinamentos advindos da prática nos campos de batalha do Iraque para que aprimoremos a  nossa instrução, nosso preparo e o nosso emprego.

sábado, 6 de outubro de 2012

Operação Black Buck



Na operação de bombardeio estratégico mais longa até então, a RAF superou suas deficiências e demonstrou uma espetacular capacidade de adaptação ao imprevisto e competência profissional.




Isto significava uma viagem de ida e volta de 6.760 mn, se não houvesse desvios de rota, por problemas táticos ou operacionais. Seria a missão de bombardeio mais longa,jamais tentada até aquela época.

No início de sua vida operacional, o bombardeiro de asa em delta Vulcan, dispunha de capacidade de reabastecimento em voo, mas por mais de uma década este sistema já não era mais operado. Em 1982, nenhum dos pilotos dos esquadrões de Vulcan conhecia tal sistema, e apenas alguns pilotos remanescentes daquela época, ainda estavam na RAF. 

O sistema de reabastecimento em voo da aeronave, foi então reativado, embora fosse claro para todos que mesmo a operação com um único Vulcan exigiria um enorme suporte operacional de aeronaves-tanque. Não menos que dez aeronaves Victor seriam necessárias para a realização da missão, de modo a reabastecer o bombardeio e também às demais aeronaves-tanque.

Um outro problema existente era o inadequado sistema de navegação do Vulcan, para a missão que se propunha. O bombardeiro, pertencente à geração de 1950, era equipado com um radar de mapeamento terrestre adequado para áreas onde existiam pontos geográficos bem definidos, mas o voo seria realizado sob a vastidão do Atlântico Sul, onde tais pontos eram poucos e muito afastados uns dos outros. Em sua jornada de retorno, o bombardeiro estaria com pouquíssimo combustível e precisaria realizar um rápido e certeiro encontro com a aeronave-tanque. Assim sendo, as aeronaves selecionadas para a missão, tanto os Vulcans como os Victors, foram modificadas para poderem carregar um sistema de navegação inercial denominado Carousel.

A força da caça argentina, bem como as defesas antiaéreas SAM e AAA eram desconhecidas, mas a ameaça potencial teve que ser levada em conta, e por essa razão, o Vulcan atacaria à noite. Quando os diversos fatores operacionais foram colocados e analisados em conjunto, uma grande questão surgiu:


  • Será que um único Vulcan, lançando 21 bombas de mil libras cada seria suficiente para garantir o sucesso da operação?
  • Qual a relação custo/benefício?

De fato, as forças armadas britânicas não dispunham de nenhuma arma capaz de atacar imediatamente as Ilhas Falklands/Malvinas, e a menos que algo completamente imprevisto e de dificuldade insuperável acontecesse, a Operação Black Buck seria realizada. Ao mesmo tempo em que se discutiam todos esses detalhes, as tripulações selecionadas começaram um intensivo treinamento.



O mês de abril de 1982 terminava, sem sinal diplomático da solução da crise entre a Grã-Bretanha e a Argentina. A única opção possível foi a guerra. Enquanto que uma força-tarefa dirigia-se para o Atlântico Sul, as defesas argentinas na ilha aumentavam.

Dois Vulcans especialmente preparados, voaram para o aeródromo de Wide-Awake na Ilha de Ascensão, cada uma carregando 21 bombas. Antes de decolarem de sua base em Waddington, as tripulações participaram de uma reunião, onde a pista de pouso do aeroporto de Port Stanley foi indicada como sendo o alvo principal da missão. Após terem chegado à Ilha de Ascensão, eles foram informados que o ataque aconteceria nas primeiras horas do dia 1º de março. Um dos Vulcans foi indicado como sendo a aeronave principal e o outro ficou como reserva em voo, para o caso de acontecer algo com o primeiro.
 
Na tarde do dia 30 de abril, exatamente às 22:50 hora local (19:50 hora das Falklands/Malvinas), as 11 aeronaves-tanque Victor (10 mais uma de reserva) começaram a decolar em intervalos de um minuto, para em seguida os Vulcans se fazerem ao ar. Assim que as aeronaves se dirigiram para o sul, as luzes anti-colisão começaram a brilhar no escuro, e o valor da reserva em voo se fez presente. A cabine do Vulcan principal não conseguia ser pressurizada, ao mesmo tempo em que um dos Victors apresentou problemas num de seus sistemas. Ambas as aeronaves abandonaram a missão e retornaram para Wide-Awake. A força, agora sem reserva alguma, continuou seu voo em direção ao sul.
 
O tenente Martin Withers era o comandante do Vulcan reserva. Quando a tripulação recebeu a notícia que a aeronave primária estava abortando a missão, um longo e pensativo silêncio se fez nos intercomunicadores da tripulação. Logo em seguida, Whiters falou: Parece que temos um trabalho pela frente, pessoal. Nenhum outro comentário adicional foi necessário, já que a tripulação reserva havia sido tão bem treinada quanto à da aeronave principal.

Pela próxima hora e quarenta e cinco minutos, a bússola dos jatos apontou a direção sul. Então, a cerca de 730 mn da Ilha de Ascensão, quatro Victors transferiram combustível para outros quatro e retornaram. Um dos Victors transferiu combustível para o Vulcan.



Neste estágio inicial da missão um problema se desenvolveu, que causaria aumento das dificuldades conforme a operação progredia. Voando numa formação livre, o Vulcan e os Victors, estavam em velocidade que não era a ótima para ambas as aeronaves, assim como a altitude de 31mil pés, altitude máxima para permitir transferência de combustível, que era bem abaixo da altitude ótima de consumo de ambos os modelos de aeronaves. Como resultado, tanto o Vulcan como os Victors, consumiram mais combustível do que o planejado. Os quatro Victors da primeira transferência, tiveram que entrar em suas reservas para poderem transferir a quantidade requerida pelos que continuavam rumo sul.

Duas horas e meia após a decolagem, a cerca de mil milhas da Ilha de Ascensão, a segunda transferência de combustível começou. Um dos Victors encheu completamente os tanques do Vulcan e retornou para a Ilha de Ascensão. Logo em seguida, dois Victors transferiram combustível para os três outros remanescentes, e também retornaram para a Ilha de Ascensão.

Quatro horas após o início da missão, cenas de tensão ocorreram em Wide-Awake, quando os quatro Victors do primeiro reabastecimento chegaram quase que simultaneamente ao aeroporto. Todos estavam com muito pouco combustível. A única pista de pouso da ilha, corre de leste para oeste, no meio de montes rochosos, só podendo ser decolada ou pousada de seu lado oeste. Mas eles não estavam com sorte, pois o vento correia para leste, e isto significava que cada Victor, ao pousar, deveria ir até o fim da extremidade leste da pista, lado sem saída da pista.



Em circunstâncias normais, cada aeronave pousaria, taxiaria até um alargamento da pista, faria a volta, taxiaria até o ponto de saída e limparia a pista para a próxima aeronave. Entretanto, as circunstâncias agora não eram normais. Se os Victors utilizassem o procedimento padrão, uma, ou talvez duas aeronaves do fim da fila, ficariam sem combustível antes do pouso.

A alternativa a ser utilizada, estava longe da ideal, mas era a única viável. O primeiro Victor a pousar, iria até o final da pista e estacionaria. A segunda aeronave, faria o mesmo procedimento, estacionando o mais próximo possível do primeiro, e assim sucessivamente, mas também reduzindo cada vez mais o comprimento da pista. Quando o lider de esquadrão Martin Todd fez sua aproximação, nos controles do quarto Victor, a situação estava pronta para um belo espetáculo aeronáutico de empilhamento de aviões.

Se uma avaliação errada ocorresse por parte do piloto, ou uma falha mecânica acontecesse com a aeronave, a RAF perderia um quarto de sua força de aeronaves-tanque disponível no Atlântico Sul. E mais, dois desses Victors deveriam levar combustível para uma das aeronaves que estaria voltando em menos de duas horas. Se algo prejudicasse os planos, todos os Victors e o Vulcan, que estavam à caminho das Falklands/Malvinas, deveriam abortar imediatamente a missão.

Todd pousou firmemente seu Victor na pista, e abriu-se o paraquedas-freio, sentindo imediatamente uma enorme pressão em seu peito, assim que o vento encheu os velames do paraquedas, desacelerando rapidamente a aeronave. À sua frente ele via os três outros Victors estacionados, com suas luzes anti-colisão brilhando na escuridão.

Mas não houve falha alguma e Todd conseguiu parar a aeronave bem longe das outras três, fez um semicírculo com o Victor e taxiou até a saída da pista. Como uma procissão religiosa, os três outros tanques o acompanharam.



Enquanto isso, a terceira transferência de combustível acontecia, à 1.650 mn ao sul da Ilha de Ascensão. O Tenente Alan Skelton transferiu combustível para os dois outros Victors e retornou, mas logo em seguida descobriu que sua aeronave estava com um vazamento de combustível. Embora a quantidade perdida não fosse muita, em condições normais não seria um problema, mas ele estava bem longe da Ilha dissensão e havia entrado muito em suas reservas, quando transferiu combustível para as demais aeronaves. Imediatamente chamou a Ilha de Ascensão, solicitando uma aeronave-tanque.

A força que prosseguia para o sul, era agora composta de dois Victors e do Vulcan. Cinco horas e meia após a decolagem e 2.340 mn voadas, uma terceira operação de transferência ocorreu. Desta vez um problema ocorreu. Uma tempestade tropical, exatamente no ponto de reabastecimento, com muita atividade elétrica acontecia.

Após várias tentativas, e uma tremenda pilotagem, o Tenente Steve Biglands, num dos Victors, conseguiu posicionar seu tubo de reabastecimento na cesta da aeronave do lider de esquadrão Bob Tuxford, do outro Victor. A transferência de combustível começou, mas a alegria da tripulação durou pouco, pois Biglands falou pelo rádio que o tubo de reabastecimento havia se quebrado. A situação estragaria completamente a missão, visto que a aeronave não poderia receber mais combustível, e ela era a indicada a acompanhar o Vulcan mais para o sul. A única opção seria os Victors trocarem de missão, com a aeronave de Biglands transferindo combustível para a de Tuxford. E assim foi feito.



Após a transferência, enquanto Biglands voltava com seu Victor para o norte, uma ameaça ainda pairava sobre a operação. Será que o tubo de reabastecimento quebrado, havia danificado a cesta da aeronave de Tuxford, impedindo-o de transferir combustível para o Vulcan? Para tirar a dúvida que pairava no ar, Withers aproximou sua aeronave a cerca de dois metros da cesta, e o Tenente Dick Russel, especialista em reabastecimento aéreo, que se encontrava no Vulcan, como sexto tripulante, agora sentado no assento do co-piloto, com uma lanterna poderosa, iluminou a cesta. Ela parecia em ordem. Para ter certeza, Withers avançou o tubo de reabastecimento em direção à cesta, e transferiria um pouco de combustível. O sistema funcionou perfeitamente.

Ao final da transferência, as duas aeronaves estavam a mais de 2.600 mn ao sul da Ilha de Ascensão e o Vulcan a pouco mais de uma hora de voo de seu alvo. No Victor havia uma intensa discussão se era possível ou não a continuidade da missão. O nível de combustível estava consideravelmente mais baixo do que o previsto, e haviam duas alternativas: continuar a missão,transferir combustível para o Vulcan, conforme planejado, retornar e ter que realizar uma amerissagem, ou, abortar completamente a missão. A decisão foi unânime: prosseguir com a missão.



Como deveriam manter silêncio rádio, com exceção de alguma emergência mortal, naquela região do Atlântico Sul, no Vulcan ninguém sabia do drama que ocorria dentro do Victor. As duas aeronaves alinharam-se para a transferência final, antes do ataque, a um ponto à cerca de 350 mn a nordeste de Port Stanley. Tudo transcorria normalmente, mas quando o Vulcan ainda necessitava de mais 6 mil libras de combustível, Martin Withers, piloto do bombardeio, ficou desconcertado ao observar luzes vermelhas brilhando sob o Victor, indicando, fim da transferência.

Imediatamente quebrou o silêncio rádio, solicitando mais combustível, mas recebeu uma curta resposta de Tuxford, que era tudo que ele podia transferir.
A tripulação do Victor começou então a viver seu drama. A menos que fossem reabastecidos, em sua jornada de retorno, cairiam à cerca de 350mn ao sul da Ilha de Ascensão. O sucesso da missão agora, dependia das forças argentinas, terem ou não descoberto a força atacante. Isto significava também, que a tripulação do Victor não poderia utilizar seu rádio de alta freqüência, para informar a Ilha de Ascensão de seu drama, até que o Vulcan tivesse completado seu ataque. Withers possuía menos combustível do que o planejado, mas o suficiente para continuar com a próxima fase da operação, bem como sabia que um Victor estava programado para encontrá-lo durante a viagem de retorno e encher o tanque de sua aeronave.

A cerca de 250 mn de Port Stanley, Withers puxou a manete dos motores, reduzindo a potência, e o Vulcan começou uma lenta descida, de modo a permanecer abaixo do horizonte do sistema de radar antecipado dos argentinos. Ao alcançar 2 mil pés, nivelou a prosseguiu em direção ao alvo.

Nessa hora, o Tenente Bob Wright, operador de radar, ligou rapidamente seu equipamento, para observar os sinais de retorno do Monte Usborne, o ponto mais alto da Falklands/Malvinas Leste. A indicação recebida,confirmava o bom funcionamento do sistema de navegação inercial Carousel. O bombardeio estava em sua rota correta.



Pouco antes das 04:00 horas (hora local), a 40 mn do alvo, Withers empurrou as manetes de potência, fazendo com que os quatro grandes motores Olympus do Vulcan, desenvolvessem potência máxima. Com o aumento da velocidade, ele facilmente colocou o bombardeio numa ascendente forte, até 10 mil pés, altitude na qual o ataque seria realizado.Uma vez nivelada a aeronave, ele deixou a velocidade aumentar até 350 nós, a máxima permitida, quando então reduziu as manetes e manteve a velocidade, ao mesmo tempo em que o operador de radar ligava seu equipamento e a tripulação preparava-se para a corrida de bombardeio.

O ponto visado era o meio da pista, com o Vulcan atacando-a num ângulo de 30° em relação ao alinhamento da mesma. Mesmo com o antiquado sistema de ataque, a probabilidade de o Vulcan atingir a pista, com pelo menos uma bomba, era elevada. Um ataque ao longo do comprimento da pista, com certeza, produziria vários acertos, mas um pequeno erro, faria com que todas as bombas errassem o alvo.

Durante a corrida de bombardeio, Withers não viu absolutamente nada do alvo, que estava imerso na escuridão. Sua tarefa era a de seguir o mais precisamente possível, os sinais gerados pelo sistema de ataque da aeronave. Mas a noite estava calma, os sinais mantinham-se firmes e tudo parecia contribuir para o sucesso da missão. A 10 mn do alvo, as portas do compartimento de bombas se abriram automaticamente. Não havia sinal de anti-aérea, nem de mísseis. O oficial de contra-medidas eletrônicas permanecia calmo. O piloto apenas mantinha a aeronave no rumo adequado.

Na realidade, as defesas argentinas estavam se preparando para atacar a aeronave britânica, mas o Tenente Hugh Prior, oficial de contra-medidas eletrônicas, havia detectado os sinais do radar argentino tentando focar o Vulcan, mas conseguiu neutralizar a ação, com o equipamento ALQ-101, localizado sob a asa esquerda da aeronave.



No ponto preciso de lançamento das bombas, o computador de ataque entrou em funcionamento, lançando as 21 bombas a exatos intervalos de ¼ de segundo. Quando a última bomba foi lançada, Withers acionou o mecanismo de fechamento da porta das bombas e empurrou as manetes de potência, ao mesmo tempo em que comandava uma curva ascendente, saindo o mais rapidamente possível da área. Vinte segundos após o lançamento da primeira bomba, elas começaram a atingir e explodir no solo.

Do lado direito da cabine, em seu assento, o co-piloto, Tenente Peter Taylor podia observar ao longe, as luzes das ruas de Port Stanley. Então, mais próximo ele viu uma série de explosões em rápida sucessão, abaixo de uma fina camada de nuvens que cobria o aeródromo. Tudo parecia como se alguém tivesse ligado e apagado rapidamente as luzes de um lugar.Quando a última bomba explodiu, a escuridão voltou a dominar sua vista. Os demais tripulantes não sentiram nem viram absolutamente nada.

Todos os que estavam em Port Stanley, jamais vão esquecer o barulho das detonações. Declarações de moradores afirmam que parecia estar acontecendo um terremoto. Para os britânicos, aquele ataque teve um enorme efeito moral. Após os eventos acontecidos nas quatro semanas anteriores, eles sabiam que a libertação estava a caminho. Houve uma enorme onda de felicidade e júbilo em Port Stanley.

Quando as baterias antiaéreas começaram a atirar, o Vulcan já estava longe. Os artilheiros, ainda insistiram por alguns minutos, mas um a um foram silenciando suas armas. Na cabine do bombardeio não houve o mesmo sentimento de júbilo que tiveram os moradores de Port Stanley. A excitação nervosa, das oito horas de missão, havia drenado a energia emocional dos tripulantes. Os tripulantes permaneceram silenciosos. Eles haviam iniciado uma guerra.


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As bombas caíram enfileiradas, atravessando o meio da pista de pouso. A primeira atingiu exatamente o ponto médio da pista, penetrando na pavimentação e abrindo um enorme buraco. A segunda, caiu no limite lateral da pista, do lado sul. Uma outra atingiu um ponto entre um hangar e uma aeronave de ataque Pucará, que estava estacionado ao lado, danificando ambos. Uma outra caiu próxima a torre de controle, quebrando os vidros e danificando o prédio. O ataque matou três militares argentinos e feriu diversos outros. Considerando a idade e a limitação do sistema de ataque do Vulcan, o resultado pode ser considerado muito bom.

Uma vez longe das Falklands/Malvinas, Hugh Prior transmitiu a palavra código Superfuse, anunciando que o ataque fora realizado com aparente sucesso. Após essa transmissão, Bob Tuxford pode transmitir, informando a base que ele estava com combustível insuficiente para alcançar a Ilha de Ascensão e que necessitava urgentemente da presença de uma aeronave-tanque, senão ele cairia. Enquanto voavam e aguardavam a aeronave-tanque, a tripulação discutia uma série de aspectos práticos de como saltar de um Victor sobre o mar, pois uma amerissagem seria impossível, visto que não havia navio alguma na área. Felizmente, tanto Tuxford como Alan Skelton,cujo Victor estava com vazamento de combustível, conseguiram ser reabastecidos e pousar em Ascensão.

Quatro horas após o ataque, o Vulcan alcançou o ponto previsto de reabastecimento, ao largo da costa do Brasil. Mas agora já era dia e o Sol brilhava no céu. A tripulação fez contato rádio com o Victor que se aproximava e logo a fuselagem inferior branca da aeronave-tanque era vista da cabine.Foi a visão mais bonita que a tripulação jamais viu.

Mas o drama da missão ainda não havia acabado. Com Dick Russell uma vez mais no assento do co-piloto, Withers avançou lentamente o bombardeio em direção ao Victor. Ele posicionou o tubo de reabastecimento dentro da cesta e inicialmente tudo transcorria como esperado. 

Mas, quando a pressão começou a subir, o combustível vazou da conexão, cobrindo o pára-brisa. Os limpadores foram imediatamente acionados em sua velocidade máxima, mas não conseguiam limpar absolutamente nada. A visão que tinham era de um carro sendo lavado numa dessas máquinas automáticas.



Numa missão de treinamento normal, Dick Russell teria quebrado o contato, diminuindo a velocidade do Vulcan e tentado uma nova transferência. Mas o Vulcan estava com muito pouco combustível e havia ainda a possibilidade de que ou o tubo de reabastecimento ou a cesta terem sofrido algum dano. Se o Vulcan quebrasse o contato, Withers não tinha certeza de conseguir engatar de novo. Embora algum combustível tivesses sido perdido, a maior parte havia entrado nos tanques do Vulcan e a cada minuto de transferência, uma tonelada de combustível era recebida.

Quem auxiliou o piloto a manter posição relativa em relação ao Victor foi Bob Wright, o navegador, que da posição em que estava, entre os pilotos,tinha acesso a uma janela que não estava suja e por ela obtinha ótima visão da cesta, do Victor e do tubo de reabastecimento.

Após 10 minutos de operação, o Vulcan recebeu o combustível necessário. Russell então, quebrou contato com o Victor. Com a desconexão da cesta, a válvula de transferência se fechou e imediatamente o fluxo de ar limpou o pára-brisa do Vulcan.

O Vulcan pousou em Wide-Awake após pouco mais de 16 horas de voo. Martin Wither recebeu a Medalha DFC (Distinguished Flying Cross) pela liderança demonstrada durante o ataque e Bob Tuxford recebeu a Medalha AFC (Air Force Cross) pelo desprendimento em arriscar sua vida e da tripulação em prol da missão.

Assim terminou a primeira missão de um Vulcan às Ilhas Falklands/Malvinas. A operação utilizou a capacidade do bombardeio, das aeronaves-tanque e das tripulações envolvidas no seu limite. Como retrospecto, o esforço despendido para montar e realizar a operação foi fora de proporção, para o resultado obtido.


Entretanto, como é freqüente na guerra aérea, o ataque ao aeroporto de Port Stanley teve um efeito psicológico enorme nos argentinos, muito mais que os danos físicos causados. O ataque demonstrou ao Alto Comando da Força Aérea Argentina que a RAF possuía capacidade de atacar alvos em pleno território argentino, se assim decidisse. 

No dia seguinte, o único esquadrão exclusivo de interceptação da Força Aérea Argentina, o Grupo 8, equipado com caças Mirage III, foi transferido de Rio Gallegos, no sul do país, de onde poderiam realizar operações sobre as Ilhas Falklands/Malvinas, para Comodoro Rivadavia, bem mais ao norte, onde poderiam defender com mais eficiência, um possível ataque britânico a capital Buenos Aires. Com exceção de um único combate, quase ao final do conflito, o Grupo 8 não participaria da luta.

Assim, a Força Aérea Argentina, concedeu aos britânicos, sem luta, a superioridade aérea sobre as Falklands/Malvinas, significando que, pelo resto do conflito, os Harriers da Royal Navy teriam total liberdade de atacar e derrubar os caça bombardeiros e as aeronaves de ataque argentinas, sem interferência de caças dedicados. Este foi sem sombra de dúvidas, o grande resultado obtido com a primeira missão Black Buck, justificando certamente o esforço despendido. Um total de sete missões desse tipo foram realizadas, sendo que na quarta, o Vulcan teve problemas de reabastecimento não resolvidos e acabou tendo que pousar no Rio de janeiro. Quatro missões foram de bombardeio e três de ataques a estações de radares.


A defesa antiaérea de uma Força-Tarefa Naval


As tarefas básicas do poder naval são a de negar o uso do mar ao inimigo, efetuar o controle de áreas marítimas e projetar o poder naval sobre terra. Basicamente as forças navais são compostas por navios de escolta, cuja função é garantir a segurança dos navios capitais, estes os encarregados de cumprirem a missão principal da força-tarefa.

As escoltas também podem ser os navios capitais da força naval, quando a missão for a negação do uso do mar, por exemplo. Escoltas navais geralmente são navios multifunção, dotadas de sistemas antissubmarino, antissuperfície e antiaéreos. Em alguns modelos é dada ênfase a uma das funções, sendo os sistemas destinados às outras menos expressivos, em outros este balanceamento de capacidades é equilibrado. Estes navios, dependendo do seu nível de sofisticação podem ainda abrigar outros sistemas como por exemplo mísseis de cruzeiro e canhões navais, que lhes permite projetar poder sobre terra.



Algumas poucas marinhas do mundo possuem navios porta-aeronaves (porta-aviões), naves estas dotadas de grande poder ofensivo devido a ala aérea que transportam, capazes de cumprir um grande número de missões ofensivas, tanto sobre o mar como sobre a terra, assim como exercer o controle sobre o espaço aéreo adjacente, se dotados de aeronaves capazes de desempenhar missões de superioridade aérea. Estas belonaves constituem-se, pelo seu próprio poder alvos prioritários da aviação inimiga e devem ser cuidadosamente defendidas, pois geralmente as missões de combate são centradas nelas.

Nas forças- tarefas, cuja missão é projetar poder sobre terra, comumente temos como navios capitais um grupamento de navios de guerra anfíbios, que transportam e são capazes de lançar grupamentos de infantaria naval em missões anfíbias. Temos ainda em todas as forças tarefas os imprescindíveis navios de apoio logístico, suportes operacionais de toda a frota, e sem os quais as operações navais ficam limitadas em alcance e ressuprimento de munição e outros insumos.

A aviação, cada vez mais tem se tornado a principal arma da todas as campanhas, sejam elas de cunho naval ou terrestre, e a ameaça que representa não pode ser negligenciada. Sistemas antiaéreos eficientes são cada vez mais necessários a manutenção da integridade de uma força naval, pois mesmo que disponha de aviação orgânica para defesa da frota, ainda assim, não se pode preterir dos cada vez mais necessários mísseis para defesa de área e de ponto, e canhões de tiro rápido, pois além das aeronaves de ataque existem os cada vez mais ameaçadores mísseis antinavio, alguns com capacidade supersônica e que exigem pronta resposta dos sistemas defensivos.



A perda de uma escolta enfraquece o moral dos marinheiros e a força como um todo, diminuindo sua capacidade de fazer frente às ameaças, porém a perda dos navios capitais pode inviabilizar todas a missão da força-tarefa. Uma força naval tem em suas navios capitais o núcleo operativo de sua missão, e estes devem ser defendidos a todo custo, mesmo que para tal seja necessário colocar em risco as escoltas da força, afinal é para isto que elas existem e estão ali. Porta-aviões, porta-helicópteros, cruzadores, navios de guerra anfíbia, navios de transporte, navios tanque e outros de apoio logístico possuem alto valor operacional e são os alvos prioritários da aviação de ataque inimiga, bem como das foras submarinas.
O espaço aéreo de interesse de uma força naval é segmentado em camadas de proteção, promovendo uma forma de defesa escalonada e amplamente aceita na atualidade. A camada mais externa é chamada de Área de Defesa Expandida e seus limites são àqueles que estão mais distantes de todos, estendendo-se a até 120 milhas náuticas do núcleo da força-tarefa, sendo que a esta distância some caças de defesa da frota, baseados em navios porta-aeronaves ou em terra se as distâncias assim o permitirem, podem atuar.


Uma segunda camada, chamada de Área de Defesa Estendida ou Externa, prolongando-se a até 60 milhas náuticas do núcleo é coberta por mísseis antiaéreos de defesa de área (longo alcance), geralmente disponíveis apenas em navios especializados em guerra antiaérea. Sào utilizados mísseis como o Aster 30 e o Standard.

Sukhoi Su-34 Russian Fighter Bomber Aircraft


A terceira camada, chamada de Área de Defesa Interna ou Curta, prolonga-se a até 25 milhas naúticas do núcleo, e é atendida por mísseis de curto alcance como os Aster 15 e Aspide, entre outros.
A quarta e última camada denominada Ponto, é reservada para aqueles que conseguiram vencer as anteriores e última chance para a frota impedir um impacto que pode ser mortal ao seu alvo, e é atendida pelos mísseis de defesa de ponto como o Mistral-Simbad e Sea Wolf, entre outros, e pelo canhões de tiro rápido como os Phalanx, goalkeeper e trinity, com calibres de 20 a 40 mm e munição com espoleta de proximidade.

Uma tática de ataque antinavio muito eficiente e difícil de enfrentar é o ataque de saturação, onde vários bombardeios dotados de mísseis antinavio que podem ser supersônicos, disparam seus engenhos mortais ao mesmo tempo, procurando saturar a capacidade de defesa de uma frota. Uma vez dado o alerta todos os sistema antinavio, interligados por data-link e sob comando único, disparam suas armas dentro de seus resspectivos alcances, procurando neutralizar a ameaça o maior longe possível. Quantos mais mísseis forem disparados simultaneamente, mais difícil fica para os sistemas diretores alocarem suas armas nos alvos, que por serem muitos, impedem a concentração das armas e reduzem a possibilidade de interceptação. Neste caso um número maior de escoltas garante uma defesa mais eficiente.

Veja: A defesa contra mísseis antinavio

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Raid Aéreo Israelense na Guerra dos 6 Dias #




Roy Reis Friede

Guerra dos 6 dias, 1967. Israel executa uma impressionante operação de bombardeio contra as bases aéreas egípcias e destrói em menos de 3 horas, em uma das mais espetaculares ações militares já vistas, a quase totalidade da força aérea daquele país ainda no solo.

Às 07:45 h da manhã de segunda-feira. 5 de junho, houve o primeiro ataque aéreo israelense. Foi dirigido contra 10 aeroportos, dos quais 9 foram atingidos, precisamente ao mesmo tempo. O décimo, foi atacado poucos minutos mais tarde, pois ainda estava semi-encoberto pela neblina matinal sobre o canal.

Os aparelhos tinham levantado voo a intervalos cuidadosamente cronometrados, a fim de atingirem o alvo ao mesmo tempo, tirando assim, partido de um máximo de surpresa.

Cada ataque foi levado a cabo por 4 aeronaves voando aos pares, os quais chegaram aos seus objetivos e executaram suas missões exatamente de acordo com as instruções e todas as bombas explodiram. Os 10 aeroportos atacados foram: El Arish, Gebel Lbni, Bir Gifgafa, Bir Thamada, Abu Sueir, Kabrit, Inchas, Cairo Oeste, Beni Sueif e Fayid.

A maior parte da Força Aérea Egípcia foi surpreendida no solo, com exceção de 4 aeronaves que, no momento do ataque compunham uma esquadrilha em treinamento desarmadas, pilotados por 1 instrutor e 3 alunos.

A Escolha do Horário

4 razões fizeram que este horário (07:45- hora de Israel) fosse escolhido:

  1. O estado de alerta do Egito estava em nível máximo. Era fácil presumir que desde que os egípcios iniciaram sua concentração de tropas no Sinai, há 3 semanas, haviam várias esquadrilhas de Migs-21 esperando na cabeceira da pista prontos para decolar em 5 minutos, todas as manhãs. 1 ou 2 patrulhas provavelmente estariam no ar àquela hora, propícia a um ataque inimigo, porém seria pouco provável que a prontidão fosse mantida indefinidamente. Ao constatar que nenhum ataque ocorrera dentro de 2 ou 3 horas após a alvorada, o estado de alerta foi relaxado desligando alguns de seus radares. Os israelenses estimaram em 07:30 h (08:30 no Cairo) para esta condição.
  2. Ataques aéreos são feitos ao alvorecer. Como os pilotos tem que estar prontos 3 horas antes da decolagem, significa que precisam levantar-se por volta da meia-noite, ou simplesmente não dormirem. Ao anoitecer do primeiro dia de guerra eles teriam estado de vigília durante 36 horas, com toda a noite e possivelmente o dia seguinte de ação a sua frente. Efetuando o ataque às 07:45 eles poderiam dormir até perto das 4 horas.
  3. Nesse período do ano, uma neblina matinal cobre o Nilo, o Delta e o Canal de Suez. Por volta das 07:30 h ela geralmente se dispersa e, às 08:00 h o tempo costuma estar ótimo e a visibilidade atinge o máximo, devido ao âgulo do sol, o ar fica parado, fator importante para a pontaria dos bombardeiros sobre as pistas-alvo.
  4. 07:45 (hora de Israel) equivale às 08:45 no Cairo. Por que 07:45 em vez de 08:45? Os egípcios começam a trabalhar às 09:00. Um ataque 15 minutos antes surpreenderia os generais e comandantes da Força Aérea Egípcia a caminho dos seus gabinetes,e os pilotos e o pessoal de terra dirigindo-se para seus cursos de treinamento e outras atividades.
O General Hod estava em seu QG quando a última patrulha matinal egípcia levantou voo e mostrou-se nos radares israelenses. Olhou para seu cronômetro. Sabia perfeitamente quanto tempo eles permaneceriam no ar. Às 07:45 as patrulhas estariam quase sem combustível e preparando-se para aterrizar.




Os Migs em voo

Os objetivos principais do primeiro ataque eram tornar as pistas inutilizáveis e destruir o maior número de Migs-21 possível, pois eram os únicos caças egípcios que poderiam frustar os planos da aviação israelense de destruir a forças de bombardeiros egípcios de longo alcance, maior ameaça a população civil de israel. 8 formações de Migs-21 foram destruídas quando estavam rolando  à extremidades das pistas.

Antigamente os israelenses tinha conseguido persuadir os egípcios a remover 20 dos seus caças de primeira linha, 12 Migs-21 e 8 Migs-19 da área ao redor do Cairo e do Canal de Suez (onde estão concentradas as principais bases egípcias) para Hurghada, mais ao sul, onde estavam praticamente fora de combate.

Os israelenses tinham conseguido isso alguns dias antes, enviando aeronaves de reconhecimento para sobrevoar o Golfo de Ácaba, fazendo-os pensar que o ataque seria a leste, na extremidade da península do Sinai ao invés de um envolvimento pelo oeste vindo do mediterrâneo. Em Hurghada eles ficaram efetivamente afastados das áreas de atuação da aviação israelense. Após o ataque, estas aeronaves não mais se dirigiram para o sul rumo a Luxor e outras bases no Egito Superior, às quais lhes dariam proteção, dirigiram-se para o norte, para as bases próximas ao Canal, onde constataram que suas pistas estavam destruídas e caíram em mãos inimigas.

Além destes, apenas 2 esquadrilhas de 4 Migs-21 puderam levantar voo, e conseguiram abater 2 caças israelenses, os quais posteriormente foram abatidos.


O Ataque

A aviação israelense, em esquadrilhas de 4 aeronaves, avançou por diversas rotas, algumas por uma curta rota circular a direita por sobre o mar, rumo às bases ao redor do Cairo, do Canal e do Sinai. Outras avançaram diretamente para as bases no Egito Superior. Voando extremamente baixo, não mais que 10 metros da superfície, mantiveram-se fora das telas dos radares egípcios. Os israelenses também não queriam aparecer nas telas dos radares russos, ingleses e americanos que também estavam presentes e monitoravam a situação.

O uso do radar já era intenso àquela época. Os egípcios tinham 16 unidades só no Sinai, e outros países também queriam saber o que se passava. Haviam navio russos ancorados na área e a Sexta Frota americana fazia voar suas patrulhas-radar baseadas em porta-aviões, além de seus radares de superfície e do navio de elint USS Liberty. Os ingleses possuiam um radar baseado em Chipre, no alto do monte Trudos.

Os sistemas de ECM vinham sendo aperfeiçoados desde a II Guerra, a fim de interromper, confundir ou despistar por meio de artimanhas eletrônicas, os radares inimigos. Os israelenses não estavam alheios a estas práticas, nem tampouco eram novatos nela. Durante a II Guerra os ingleses utilizaram-se de  transmissores-rádio de alta potência, com controladores de fala alemã, para transmitir informações falsas aos pilotos do Reich, nas frequências que se sabia que utilizavam. Eram todos recrutados entre judeus que haviam fugido da Alemanha antes da eclosão da guerra. Os israelense estavam na vanguarda da utilização destes sistemas, atividades ECM e similares.

Embora 23 estações-radar egípcias tivessem sido postas foram de ação, dentre elas as 16 do Sinai, iso não foi feito antes da tarde de segunda-feira. As ECM não foram usadas antes 07:45 h  para não alertar os egípcios de algo estava para acontecer. Mas não ha dúvidas de que depois disso os israelenses  interferiram pesadamente não só contra os radares egípcios, mas também contra os observadores indesejados.

Quando a primeira vaga atingiam seus alvos, a segunda já estava a caminho e a terceira acabava de levantar voo, com partidas a intervalos de 10 minutos. Cada esquadrilhas de 4 aeronaves tinham 7 minutos para atingir seus alvos, o bastante para 3 ou 4 passagens. Mais 3 minutos foram acrescentados para compensar erros de navegação ou outra passagem sobre o alvo. Os israelenses operavam com incrível rapidez. O tempo de rotação concedido às aeronaves atacantes era o seguinte:

  • tempo até o alvo: aprox 22 1/2 minutos
  • tempo sobre o alvo: aprox 7 1/2 minutos
  • tempo para regresso: aprox 20 minutos
  • tempo de reabastecimento: aprox 7 1/2 minutos
Isto quer dizer que as aeronaves podiam sobrevoar seus alvos pela segunda vez a menos de 1 horado ataque inicial.

Para defender Israel e suas bases a Força Aérea Israelense deixou apenas 12 caças. 8 voando em cobertura e 4 em alerta na extremidade da pista. Israel jogou alto. Era ganhar ou perder, mas os riscos haviam sido cuidadosamente calculados e os planejadores israelense jogaram com confiança e decisão.




Discutindo o bombardeio dos aeroportos egípcios, o Gen Weizmann disse: " Nós podíamos ter sobrevoado os objetivos apenas 1 vez, mas os nossos rapazes não são de poupar esforços". Os pilotos atacantes sobrevoaram várias vezes seus alvos para conseguir melhor pontaria e consequentemente  inflingir maiores danos. Utilizaram-se em grande escala e com máxima eficiência o bombardeio de mergulho. "É por isso que não nos interessam os bombardeiros estratégicos. não temos interesse de atacar a população civil. Para destruir aeroportos e aparelhos os nossos caças são mais que eficientes" comentou Weizmann.


As bombas Israelenses

A quase total destruição da aviação egípcia em terra não se deveu apenas à surpresa, mas em parte também a uma bomba que os israelenses desenvolveram e aperfeiçoaram especificamente para destruir pistas. Assim que a bomba deixa seu vetor, um foguete de retroação é disparado e fim de deter-lhe o impulso, diminuindo sua velocidade. A seguir um foguete propulsor a acelera em direção a pista. Mal ela penetra no concreto uma espoleta de tempo a detona, podendo ser instantaneamente ou de ação retardada. Normalmente as pistas são fáceis de consertar, mas a situação se complica se  as bombas continuam a explodir.

O objetivo dessa bomba especial é permitir que os caças atinjam as pistas em voo rasante  em alta velocidade. Uma bomba comum, lançada desta maneira, rebateria e causaria danos superficiais. O engenho israelense afasta a necessidade de voar até junto às bocas da antiaérea inimiga num taque de mergulho. Nem todos os caças atacantes possuíam estas bombas, e muitos valeram-se de bombas comuns de 200 e 500 kg, lançados em mergulho de 2000 metros de altura. Os caças egípcios, tanto em terra quanto no ar, foram quase todos destruídos por fogo de canhão.




A Antiaérea Egípcia

O fogo antiaéreo egípcio foi bem mais leve que os israelenses esperavam, e não muito certeiro. Embora os egípcios lançassem vários dos seus SA-2 da fabricação soviética nem um só aparelho israelense foi atingido por eles. A altitude em que os israelenses os operavam, provaram ser totalmente ineficazes. Demoram muito para adquirir velocidade, sendo inúteis abaixo dos 1500 m de altitude. Em certo momento um piloto israelense viu o que parecia ser outra aeronave aproximando-se calmamente, como se para juntar-se ao dele em formação. Tornou a olhar e percebeu que se tratava de um míssil. Voava na mesma direção que sua aeronave e aproximava-se dele pelo lado. O piloto chegou-se para ele e deixou-o passar por baixo. O míssil continuou a voar até perder-se de vista. Estes mísseis foram por muito tempo a principal arma de defesa russa. Sua inutilidade, além do fato de vários deles caírem em mãos ocidentais foi de muita preocupação para os planejadores soviéticos.

A Artilharia Balística Egípcia

Havia bastante apreensão por parte da população civil israelense quanto aos tão apregoados mísseis superfície-superfície que Nasser proclamara poderem alcançar Tel-Aviv. Havia anos que sabia=se que uma equipe de cientistas alemães e da Europa Oriental trabalhavam num centro de pesquisas, criado por Nasser nos arredores do Cairo e que os mísseis haviam sido os astros das paradas comemorativas do dia da revolução, na capital egípcia. Mas este tipo de míssil não foi utilizado, e pareceu que não passava de um mito. A aviação israelense não aproveitou a oportunidade que teve de destruir este centro de pesquisas, provavelmente responsável pela fabricação do gás venenoso que as tropas egípcias usaram no Iemem. Lamentou um oficial da Força Aérea Israelense: "Acho que ainda vamos nos arrepender de não termos tomado essa decisão".

O ataque continua

Durante 80 minutos sem trégua, a Força Aérea Israelense, castigou os aeroportos egípcios, seguindo-se após 10 minutos de intervalo 80 minutos de ataques. Nessas 2 horas e 50 minutos, os israelenses destruíram o potencial ofensivo da aviação egípcia, arrasando-a como força de combate.

Ao todo, 19 aeroportos egípcios foram atingidos no primeiro dia de guerra. Além dos 10 anteriores mencionados mais Mansura, Helwan, El Minya, Almaza,  Luxor, Deversoir, Hurghada, Ras Banas e Cairo Internacional foram também atacados nessa manhã.

a Força Aérea Israelense calculou que nesses 170 minutos destruiu 300 das 340 aeronaves de combate egípcias, inclusive todos os 30 bombardeiros TU-16 de longo alcance.

O grande aeroporto de El Arish, no Sinai, foi a única das bases atacadas cujas pistas não foram postas fora de ação, já que os planos israelenses eram de utilizá-lo como base de abastecimento e evacuação de baixas. Na terça-feira ã noite ele já estava sendo utilizado para esse fim.

Em mais de uma das bases egípcias a aviação israelense destruiu todas as aeronaves, ma deixou intactos os falsos aparelhos, sob a sua cobertura de camuflagem. Quando lhe perguntaram se isso se devia a má imitação ou ã capacidade da inteligência israelense, um oficial respondeu que a ambos, acrescentando porém que em Abu Sueir, perto de Ismaília, tinham feito também explodir algumas contrafações, além de atingir todos os aviões de verdade. Disse que nos aeroportos do Sinai, em que a inteligência israelense funcionou ainda melhor do que nos principais aeroportos egípcios, não houve tais enganos.




A resposta da comunidade árabe

Assim como os israelenses haviam calculado não terem as aeronaves soviéticas no Mediterrâneo ligação direta com o alto comando egípcio e serem capazes de transmitir informações do seu radar aos egípcios, no espaço de 10 minutos, igualmente o General Hod contava ter um avanço de umas 2 horas para lidar com a Força Aérea Egípcia, antes da intervenção síria e jordaniana. Na realidade teve 4 horas. Só ao meio-dia é que os sírios e jordanianos envolveram-se no combate. A esta altura os israelenses já haviam destruído a maior parte das aeronaves inimigas e podiam voltar-se contra os novos adversários. "Podemos ter de enfrentar a Síria e a Jordânia em 25 minutos", comentou Hod laconicamente.

Pouco antes do meio-dia da segunda-feira, a Força Aérea Síria lançou suas bombas perto da refinaria de petróleo da baía de Haifa e atacou o aeroporto de Megido, onde destruíram alguma aeronaves de imitação. Os Israelenses reagiram atacando uma base síria perto de damasco.

Após um ataque jordaniano ao meio dia contra a base de satélites israelense de Kefer Sirkin, em que destruiu no solo uma aeronave de transporte Noratlas, a aviação israelense bombardeou os aeroportos de Mafraq e Amã, na Jordânia,  pondo-os fora de ação, e a instalação de radar de Ajlun.


Antes do anoitecer da segunda-feira os israelenses fizeram novas incursões a maioria dos 23 aeroportos que haviam atacado no decorrer do dia. Além de utilizar bombas comuns, empregaram as de ação retardada pra que explodissem periodicamente durante a noite, impedindo qualquer tentativa de reparar as pistas.Como se isso não bastasse, prosseguiram ainda com seus ataques contra estas bases durante a maior parte da noite.

Quando na manhã seguinte, a Força Aérea Iraquiana atacou a cidade de Natanya, os israelense imediatamente revidaram atacando a base aérea H3, a mais ocidental do Iraque, próxima da fronteira com a Jordânia.

Após fazer uma demonstração um pouco ao norte do mar da Galiléia, com um par de caças Hawk, um dos quais foi abatido, os libaneses retiraram-se honrosamente da guerra.

O saldo das ações

Até o cair da noite do segundo dia da guerra, os israelense haviam destruídos 416 aeronaves, sendo 393 em terra. Haviam feito mais de 1000 incursões, sendo que alguns pilotos participaram de 8 por dia. Ao anoitecer da terça-feira  um total de 26 caças israelenses haviam sido abatidos, incluindo 6 Fouga Magister de treinamento, equipados com foguetes de 68/80 mm de ação anticarro. 

Foram perdidos 21 pilotos, sendo cerca da metade feitas prisioneiros da Síria e do Egito. O Iraque devolveu 2 aviadores, assim como a Jordânia. Um piloto foi dado como linchado no Egito, e outro voltou a salvo para Israel. Houveram negociações para devolução de 2 outros prisioneiros dos egípcios. Pelo menos 2 dos pilotos atingidos sobre a Síria, preferiram não observar a orientação de seus comandos e se lançar de paraquedas, optando por estatelar-se com suas aeronaves a cair em mãos sírias.

Os danos contra a Força Aérea Egípcia, foram calculados nesses dois dias em cerca de 500 milhões de Dólares, perdendo-se não somente aeronaves, mas também equipamentos de solo, incluindo 23 estações de radar, além de vários parques de lançamento de mísseis superfície-superfície, sendo 16 deles no Sinai.

Porém o equipamento não é tudo e talvez sejam precisos muitos anos para restaurar o moral e o espírito da Força Aérea Egípcia. Calcula-se que cerca de 100 de seus 350 pilotos tenham perecido nos ataques. Em vista da grande quantidade de Migs-21 destruídos rolando pela pista, este números provavelmente incluem uma grande proporção dos mais experientes profissionais da caça egípcia.

Nasser sabia perfeitamente que, pelo menos pelos padrões egípcios, o israelenses não tinham uma grande força aérea. Possuíam um total de cerca de 300 aeronaves, dos quais 50 ou 60 Fouga Magister de treinamento, equipados com foguetes anticarro. Entretando tinha-lhe chegado a noticia de leva após leva de elementos israelenses atacando 19 de suas bases aéreas, a intervalo de 10 minutos, durante 2 horas e 50 minutos, quase ininterruptamente.

No seu discurso de renúncia, a 9 de junho, Nasser declarou: "Se agora dissemos que o golpe foi muito mais forte do que esperávamos, devemos também dizer, ao mesmo tempo e com certeza, que ele foi muito mais forte do que os seus recursos permitiam... O inimigo atacou de uma só vez todos os aeroportos civis e militares da República Árabe Unida. Isso significa que Israel contava com algo mais do que a sua força normal para proteger seus céus de qualquer revide de nossa parte... Pode-se dizer, sem medo de exagerar, que o inimigo contava com uma força aérea 3 vezes mais potente do que a sua normal".


Esta referência de uma força 3 vezes superior é significativa. Sem dúvida ele se baseou no tempo de reabastecimento de sua própria aviação. Os israelense ficaram sabendo, através de planos secretos da Força Aérea Egípcia, apreendidos em El Arish, que os egípcios baseavam seus planos no fato de suas aeronaves voltarem a sobrevoar os alvos de 3 em 3 horas, em vez de em 1 hora ou menos, como neste ataque. E isso, apesar de muitas das aeronaves egípcias terem um distância muito menor a percorrer, para alcançar as principais bases israelenses desde os seus aeroporto no Sinai, do que os israelense para chegar as bases ao redor do Cairo e do Canal de Suez. Comparando com o tempo de abastecimento, que é de 7 a 10 minutos para os israelenses, o dos egípcios era superior a duas horas.

Enquanto os egípcios calculavam 2 incursões diárias para cada aparelho, muitos dos pilotos israelenses fizeram 8 e alguns até mais, na segunda-feira da guerra.

A disparidade destes números fala por si e nela, sem dúvida, reside a principal causa da vitória de Israel.

Pensa-se que Nasser imaginava uma grande batalha de confronto a maneira britânica na península do Sinai, entre suas forças aéreas centrada em duelos aéreos a maneira antiga. Mas mesmo supondo que os israelenses não tivessem dado o golpe decisivo, pegando quase todas as aeronaves egípcias em terra, há poucas razoes pra crer que o resultado final fosse outro. Segundo os israelenses, em 64 lutas de aparelho contra aparelho, 50 Migs egípcios foram abatidos, contra nenhum Mirage israelense. Até mesmo os subsônicos Vautours e Mysteres puderam derrubar os Migs-21.

As aeronaves israelenses destruídas foram atingidas por fogo antiaéreo nos deslocamentos ou quando efetuavam os ataques. O General Hod foi conclusivo: "Em combates entre aparelhos, o escore foi de 50 x 0. Abatemos 50 Migs sem nenhuma perda".

As razões do sucesso

Como conseguiram obter um sucesso tão absoluto em tão pouco tempo? Eis as razões apresentadas pelo General Hod:


  1. 16 anos de planejamento estavam por trás desses 80 minutos iniciais. "Vivíamos com o plano, dormíamos com o plano, comíamos o plano. Estávamos sempre a aperfeiçoá-lo".
  2. Conhecimento dos movimentos e atividades do inimigo e da situação e dos pormenores  das suas bases aéreas: da concentração de suas aeronaves, da localização de seus radares e mísseis antiaéreos.
  3. O controle operacional: capacidade de absorver e integrar nos planos existentes as novas informações que vão chegando e transmiti-las aos pilotos no ar, desempenhou papel vital para o sucesso da operação.
  4. A execução do plano pelo pilotos (cuja idade média era de 23 anos) foi o quarto elo vital para o sucesso. Refletiu anos de treino de voo, de navegação e de precisão de bombardeio. "Normalmente esperamos que os resultados na guerra sejam cerca de 25% inferiores aos dos exercícios em tempo de paz, devido a excitação e ao fogo antiaéreo. Na realidade porém,  os resultados foram ainda melhores que os dos exercícios, talvez porquê os pilotos estavam tensos e procurando concentrar todos seus esforços em obter um máximo de precisão e eficiência. Talvez também por não terem de observar os regulamentos de segurança aérea vigentes em tempos de paz. Ficaríamos satisfeitos se cada aeronave destruísse 1 aparelho inimigo em cada missão. Na realidade os números foram muito superiores". Numa ocasião, 2 aeronaves israelenses destruíram 16 bombardeiros egípcios em terra, num espaço de 4 minutos.
Há anos que os israelenses vinham praticando esse tipo de ataque. No Neguev Meridional há 4 ou 5 alvos várias vezes atingidos por milhares de bombas, em exercícios de ataque. Pelo menos uma vez por ano são efetuados ataques a estes alvos e, assim, nenhuma aeronave deixou de atingir o objetivo no momento exato, embora navegando apenas com base na estimativa.




A boa qualidade humana e o alto nível de treino não desempenharam seu papel apenas nos ares. Foram igualmente importantes em terra. Abastecer modernas aeronaves de combate em 7 ou 10 minutos e conservar uma força aérea que faz mais de 500 incursões diárias, requer enorme capacidade e coordenação. Observou o General Hod após o término da guerra:

"Às 07:45 h da manhã de segunda-feira a disponibilidade das nossas aeronaves era superior a 99% e mantivemos esse nível durante toda a semana de operações. Embora possa ter levado 1 hora remendando buracos em 1 ou 2 aparelhos, nunca nenhum dos nossos caças ficou fora de combate, excluindo os que perdemos. Jamais tivemos pilotos à espera de aeronaves".

E o General Weizmann recordou: "3 ou 4 meses antes da guerra, um grande contingente de americanos provenientes de escolas de estado-maior da aeronáutica, visitou Israel. Tinham estado no Cairo e ficaram impressionados com o que haviam visto. O mesmo aconteceu na Jordânia, em face do que Hussein lhes dissera. Quando me competiu falar-lhes tive a impressão de que achavam que estávamos fritos. Contei-lhes o que costumávamos dizer durante a II Guerra Mundial: Os alemães voltaram a cercar-nos , pobres-diabos! Pareceu-me que eles nos achavam muito pretenciosos. Não se enganavam, mas tínhamos boas razões para isso".

Às 10:35 h (hora de Israel) da manhã de segunda-feira, a Força Aérea do Egito fora destruída. Não mais constituía uma força de combate ativa e não podia dar cobertura ou apoio ao seu exército no Sinai.

O tempo agora era vital para os israelenses. A maioria do gabinete estava apavorada ante a perspectiva de um cessar-fogo premturo. Tinham recordações desagradáveis vividas em  1956, quando a pressão dos EUA levara a ignominia e a derrota a ingleses, franceses com a vitória já à vista. Todo o plano israelense fora concebido pensando-se que haveria pouco tempo e que a vitória teria de ser a mais rápida e decisiva possível. Seu plano era ousado. Alguns diriam mesmo que arriscado. Mas ao contrário dos ingleses e franceses, no seu ridículo fiasco de 1956, os israelenses possuíam uma ideia precisa do inimigo e da sua capacidade. Esse seria o segredo do seu sucesso.

48 horas era tudo precisavam para desmoralizar o exército de 100.000 homens que Nasser tinha no Sinai. Teriam também que alcançar o Canal de Suez, capturar Sharm El Sheikh e tomar Jerusalém e a maior parte da margem ocidental do Jordão. Mas dispunham dessas 48 horas? Dayan estava ansioso. Se Nasser tivesse sido informado pelos comandantes da sua força aérea da verdadeira situação dessa força e considerasse, acima de tudo, os interesses do seu povo, poderia ter exigido uma sessão de emergência do Conselho de Segurança e pedido um imediato e incondicional cessar-fogo. Se Nasser tivesse feito isso, Israel ficaria numa posição difícil. Foi por esse motivo que Dayan exortou os comandantes israelenses a avançarem com o máximo de velocidade, mas poucos precisavam ser exortados.