"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sábado, 27 de outubro de 2012

Defesa Antimísseis de Teatro de Operações #


Um Conceito de Operações Combinadas:

Tratamento de Guerra Anti-Submarino para a
Defesa Antimísseis de Teatro de Operações

JAMES J. WIRTZ

O presente artigo descreve de modo resumido como a filosofia que orienta as operações de guerra anti-submarino (ASW) da Marinha dos EUA pode ser utilizada para organizar uma campanha de defesa antimísseis de teatro de operações (TMD). Trata a TMD como uma operação fundamentalmente combinada e descreve como essa filosofia de ASW pode integrar capacidades das respectivas forças singulares em uma defesa extremamente eficaz contra a ameaça dos mísseis balísticos. 

Para sustentar este argumento, o artigo apresenta, em rápidas pinceladas, os fundamentos das operações ASW e os aplica ao problema de localizar e destruir mísseis móveis antes que eles possam ser lançados. Em seguida, explica por que cada uma das Forças deve desempenhar um papel em uma estratégia TMD inspirada pela ASW. Sugere, também, qual comandante-em-chefe (CINC) deve assumir a responsabilidade, ao menos em tempo de paz, pela promoção do esforço TMD. O artigo se conclui com algumas observações sobre o papel de idéias na guerra combinada.

Durante a Guerra do Golfo, tornou-se crescentemente evidente que as forças dos EUA não haviam conseguido destruir os Scuds iraquianos em terra antes que eles pudessem ser lançados contra alvos em Israel e na Arábia Saudita. A despeito do grande número de surtidas dedicadas à eliminação da ameaça imposta pelos Scud, o “datum flamejante” utilizado para atacar lançadores móveis de mísseis provou-se ineficaz. Embora as aeronaves penetrassem a área de uma plataforma de mísseis apenas poucos minutos depois de um míssil ter sido lançado, as guarnições dos Scud dispunham de tempo suficiente para evadir-se apressadamente para áreas de ocultamento predeterminadas, antes da chegada de aeronaves americanas ao local.




Desde o conflito do Golfo, continua uma prioridade aprimorar a capacidade das unidades americanas de defenderem-se contra mísseis balísticos. A política de contra-proliferação da administração Clinton enfatizou a defesa antimísseis de teatro, especialmente a defesa contra mísseis armados com armas de destruição de massa (WMD). A administração tem-se concentrado no desenvolvimento de defesas ativas como, por exemplo, o aperfeiçoamento do sistema de mísseis Patriot do Exército e o aprimoramento do sistema de comando, controle, comunicações e inteligência (C3I) para enfrentar a ameaça de mísseis regionais. 

Ainda assim, defesas ativas aperfeiçoadas e C3I são apenas duas facetas de uma TMD eficaz. Para ter êxito, a TMD exige tanto defesas passivas quanto a capacidade de ataque a objetivos militares. De algum modo, as forças singulares devem melhorar o desempenho haurido contra os Scuds iraquianos durante a Guerra do Golfo, mediante a integração dos quatro elementos principais da TMD — C3I, defesas ativas, defesas passivas e ataque a objetivos militares — em uma estratégia de campanha geral.


Existe um método comprovado de destruir alvos que dependam de mobilidade e stealth para melhorar sua capacidade de sobrevivência: a guerra anti-submarino (ASW).






Muitas questões políticas complicam a contraproliferação e a TMD. Projetar um tratamento combinado de C3I e de operações de ar, terra e mar multiforças singulares, contudo, apresenta seu próprio conjunto especial de problemas militares. Em termos de organização e doutrina, a TMD é difícil por se tratar de “uma missão intrinsecamente combinada”. Como assinalam os autores do JP3-01.5, Doctrine for Joint Theater Missile Defense, “Os componentes da força combinada que apóiam os CINC e as capacidades TMD de uma força multinacional têm de ser integrados com vistas à consecução do objetivo comum de neutralizar ou destruir a capacidade dos mísseis de TO inimigos.” A obtenção dessa integração, no entanto, não é tarefa pequena. Hardware software novos, ou uma nova arma isolada, não irão solucionar milagrosamente o problema da TMD. 

O que é preciso é uma “idéia melhor” para organizar C3I multiforças singulares, defesas ativas, defesa passiva e capacidade de ataque a objetivos militares em uma estratégia de TMD eficaz. Caso se disponha a buscar esse princípio organizador em lugares inesperados, então já existe um método comprovado de destruir alvos que dependam de mobilidade e stealth para melhorar sua capacidade de sobrevivência: a guerra anti-submarino (ASW). 

Por mais estranho que isso possa soar, uma arquitetura de TMD baseada em uma filosofia de ASW propicia uma maneira de integrar as diversas capacidades das Forças em um plano coerente para impedir que mísseis balísticos inimigos alcancem seus alvos. Aplicar princípios ASW à TMD também representa um desenvolvimento inédito na guerra combinada. Pode-se obter estratégia combinada mediante o uso do tratamento que uma força singular dedica à solução de um problema específico como princípio integrador em uma operação multiforças. Neste caso, um tratamento de ASW permite que cada uma das Forças integrem o que melhor fazem a uma campanha combinada geral.

Para apoiar este argumento, o presente artigo esboça ligeiramente os fundamentos das operações ASW e os aplica ao problema de localizar e destruir mísseis móveis antes que possam ser lançados. Explica, em seguida, por que cada uma das forças singulares deve desempenhar um papel em uma estratégia TMD inspirada na ASW. Também sugere qual dos CINCs deve assumir, ao menos em tempo de paz, a responsabilidade pela promoção do esforço TMD. E conclui com algumas observações sobre o papel das idéias na guerra combinada.



Guerra Anti-Submarino



À primeira vista, parece mais fácil achar uma agulha em um palheiro do que localizar um submarino nas vastas extensões do oceano. Mas a Marinha dos EUA pode detectar, rastrear, selecionar como alvo e destruir submarinos em operação em oceano aberto. Em teoria, a mesma filosofia de ASW utilizada para organizar e conduzir ataques contra submarinos deveria mostrar-se eficaz contra lançadores de mísseis que também dependem de mobilidade e stealth para melhorar sua capacidade de sobrevivência antes e após o lançamento.

Os procedimentos da ASW são com freqüência divididos em cinco categorias: 
  1. Coleta e análise contínuas de informações;
  2. Monitoramento contínuo de prováveis áreas de lançamento;
  3. Emissão de alerta quando plataformas específicas se deslocam para uma posição de lançamento;
  4. Localização de sistemas específicos e
  5. Ataque.
Organizadas sequencialmente, cada uma destas categorias representa uma fase do esforço de busca e ataque na ASW. À medida que se desloca da primeira fase para a quinta fase, não apenas se torna cada vez mais restrita a área de busca, mas torna-se mais limitado o tempo disponível para completar a tarefa prestes a ser desempenhada. Estas cinco fases bem poderiam formar os elementos centrais de um tratamento de ASW multiforças e multimissão para ataques contra mísseis balísticos de teatro de operações.


Já que uma estratégia inspirada na ASW não depende do “datum flamejante” —o real disparo de um míssil — para localizar uma arma oponente, ela se torna provavelmente o tratamento mais eficaz contra forças militares.






Coleta de Informações

As informações, elemento crítico de todo o esforço contra forças militares, podem ser obtidas através das coleta e análise ininterruptas de dados sobre todos os mísseis móveis conhecidos — a primeira fase do processo ASW.

Quando se rastreiam submarinos, o equipamento inimigo é acompanhado pelo número do casco [hull number]. Esforços similares teriam de ser envidados para rastrear transportadores-elevadores-lançadores (TEL) de mísseis. Os centros de produção, armazenamento e reparo de mísseis teriam de ser monitorados para levar a efeito a coleta dessas informações sobre o dispositivo de batalha.

Esse trabalho fundamental de informações provavelmente forneceria o benefício adicional de desmascarar instalações clandestinas na infra-estrutura de mísseis fixos inimiga. Isto deveria produzir informações sobre o efetivo, a prontidão no dia-a-dia e a capacidade máxima de emprego (emissão de alerta) dos sistemas inimigos. Ciclos de treinamento, exercícios, atividades de viaturas de apoio, entrada e saída de bases e o movimento por “pontos de estrangulamento” (estradas bem cuidadas, pontes de alta resistência, terminais ferroviários) também seriam monitorados. 

Tais esforços devem produzir uma estimativa útil da localização geral dos mísseis móveis do oponente, criando uma linha-mestra para avaliar desvios nos procedimentos operacionais padronizados do adversário. Com efeito, a fase um cria uma linha-mestra de indicadores e alerta.


À diferença de seus homólogos da Força Aérea, os aviadores navais não tendem a pensar em termos de bombardeio estratégico, mas sim em termos de destruir alvos militares específicos.







Vigilância e Monitoramento

A vigilância de todas as prováveis áreas de lançamento, o segundo passo no processo ASW, depende das informações coletadas sobre a capacidade geral dos mísseis inimigos: indicações de quando e onde buscar mísseis móveis são produzidas nas análises da primeira fase. 

Nas operações da segunda fase, sinais visuais de áreas de interesse seriam comparados regularmente, em busca de mudanças (danos a plantas, marcas deixadas por pneus ou a presença dos próprios sistemas de armas).

Similarmente, sinais acústicos, sísmicos, de radar e comunicações poderiam ser comparados ao longo do tempo. De especial importância seriam as “atividades de apoio à vida”, a cauda logística que poderia conduzir diretamente a um TEL no campo. Especial atenção seria dada a prováveis áreas de operações, e a busca de informações negativas (indicadores de que as características do terreno tornam certas áreas impróprias para operações Scud) seria utilizada para desenvolver um histórico operacional dos TELs inimigos. 

Estas informações poderiam permitir que o “rastreio” em tempo real dos TELs desdobrados fosse monitorado pelo maior tempo possível; assim, poder-se-ia ter conhecimento operacional da localização de todos os TELs em áreas de lançamento ou próximos a elas.



O Alerta

O alerta, o terceiro passo no processo ASW, é caracterizado por esforços intensivos voltados à execução de um rastreio mais preciso e detalhado de um sistema de armas específico. Ele ocorre tipicamente quando um TEL é detectado em uma área de lançamento, ou quando mudanças nas atividades ou nos níveis de atividade indicam estarem em andamento preparativos para o lançamento de um míssil. 

Essas informações poderiam emanar de uma variedade de fontes. As análises da primeira fase poderiam produzir indicadores de mudanças na atividade ou na localização geral de um sistema específico. A vigilância da segunda fase também poderia detectar sinais acústicos, de comunicações ou de radiação quando os TELs são colocados em condições de disparo. 

O alerta, no entanto, deve ser visto como um passo de transição nos esforços de ataque a mísseis móveis; relaciona-se com a decisão, seja das autoridades dos EUA, seja das do inimigo, de se colocarem em pé de guerra. O alerta destina-se a produzir o rastreamento detalhado de um alvo potencial, informação que permitiria a rápida condução de um ataque.





Localização de Sistemas Específicos

A decisão de se empenhar na localização (identificação do local exato do alvo) dos TELs indicados pelo alerta, que constitui a quarta fase da operação contra forças militares, será provavelmente tomada pelas Autoridades do Comando Nacional. Embora as atividades de busca relacionadas com o alerta possam exigir sobrevôos no território inimigo, a localização exigirá que aeronaves armadas ou veículos aéreos não-tripulados adentrem o espaço aéreo do oponente, o que é um ato de guerra. 

Aeronaves pilotadas que atuem na localização de TELs inimigos devem possuir meios de supressão de defesas. A localização começa de um ponto de partida identificado pelas informações coletadas e analisadas nas três fases precedentes do processo ASW; pode-se então utilizar uma ampla variedade de sensores para gerar rastreamentos oportunos e detalhados do alvo por causa dos curtos alcances envolvidos. 

A coordenação das plataformas envolvidas e a fusão (recebimento, análise e exposição) dos dados produzidos por uma variedade de sensores desempenha um papel crucial na localização do alvo.

Ao longo dos anos, a Marinha também descobriu que a prática facilita os esforços de localização. A Marinha teve sorte porque os soviéticos por muitos anos haviam oferecido oportunidades de localizar alvos reais no oceano aberto. Em outras palavras, oficiais e formuladores de política não podem esperar que as habilidades, a experiência, o hardware e as arquiteturas de comunicação (fusão) necessários à localização de um alvo possam ser improvisados instantaneamente.





O Ataque - Neutralizando dos Lançadores

O passo final no processo ASW é atacar o alvo. O ideal seria que o sistema de armas atacante tivesse seu próprio sensor de localização. A Marinha jamais executou esse último passo durante a guerra fria, mas os exercícios revelaram que a coordenação e a prática aumentavam a probabilidade de ataques bem sucedidos.

Seria também importante comprovar, após um ataque, que o sistema de armas inimigo foi, de fato, destruído. Os sistemas danificados poderiam ser reparados e subseqüentemente disparados. Isto seria especialmente importante se os mísseis móveis atacados estivessem armados com WMD.

Forças terrestres teriam de ser infiltradas em profundidade à retaguarda das linhas inimigas para inspecionar plataformas danificadas ou veículos de lançamento. Tais forças deveriam ser instruídas a localizar e remover ogivas de mísseis intactas, ou avaliar a extensão dos riscos de contaminação nuclear, biológica, ou química criados por ataques bem sucedidos a forças militares inimigas. 

Embora ogivas e sistemas de lançamento danificados não tenham valor militar, os materiais nocivos que eles contêm seriam, ainda assim, de algum valor para terroristas ou para criminosos aventureiros, interessados em lucros inesperados no mercado negro. De fato, dada a extrema sensibilidade política criada pela ameaça de ataque com WMD, os líderes políticos americanos irão provavelmente exigir certeza total quando se trata da avaliação de danos a plataformas de WMD — um tipo de certeza que historicamente exigiu a presença de forças terrestres.


Em resumo, diversos aspectos do tratamento de ASW ao ataque a forças militares inimigas tornam-no atrativo como uma moldura para a destruição de TELs antes do lançamento de mísseis. 

Um tratamento de ASW exige o monitoramento contínuo da situação e das atividades das forças militares oponentes. Isto não só produziria informações sobre a ordem de batalha e a infra-estrutura, mas também forneceria a base para indicadores e estimativas de alerta. Um tratamento de ASW também aumenta o problema defensivo a que faz frente o inimigo. Em vez de contar com a capacidade de “fogo e manobra”, os adversários devem considerar que suas forças estão sendo caçadas. 

Em uma situação em que qualquer emissão eletrônica, sísmica ou acústica perdida pode ser usada para atacar um TEL, as guarnições de mísseis se concentrariam na tarefa defensiva de proteger os seus mísseis. Talvez não poderiam ser capazes de disparar com os “caçadores” em seu rastro. Além disso, já que uma estratégia inspirada na ASW não depende do “datum flamejante” — o real disparo de um míssil — para localizar uma arma oponente, ela se torna provavelmente o tratamento mais eficaz contra forças militares. É a única estratégia que sugere ser possível localizar e destruir mísseis após terem sido eles deslocados para o campo, mas antes de que possam ser disparados.


TMD como Guerra Combinada


É improvável que qualquer uma das forças singulares possa empreender, com êxito, todos os quatro elementos — C3I, defesas ativas, defesa passiva e ataque a forças militares inimigas — incorporados na defesa antimísseis de teatro de operações. 

Para ser bem sucedido, um tratamento de ASW para a TMD teria de recorrer aos recursos disponíveis dentro de toda a comunidade de defesa e de inteligência dos EUA. De fato, o tratamento de ASW para o ataque a forças militares ressalta o fato de que a TMD é primariamente um exercício de coleta e análise de informações em tempo de paz.

A doutrina combinada existente também reconhece o importante papel desempenhado pelos meios nacionais utilizados pelo Comando Espacial dos EUA (USSPACECOM), por exemplo, em uma campanha TMD combinada.

Um tratamento de ASW poderia ajudar, contudo, a conduzir tal coleta e análise em tempo de paz mediante o desenvolvimento de um conjunto altamente específico de exigências de informações. Novos sensores também poderiam ser desenvolvidos para facilitar o monitoramento dia após dia de operações de mísseis móveis de oponentes em potencial. 

O mais importante é que o trabalho poderia começar a melhorar o C3I entre os meios nacionais de informações e os componentes das Forças que necessitarão de informações em tempo real para engajar-se na caçada aos mísseis móveis.


Ocasionalmente, [durante a guerra fria] um força singular endossava uma idéia por outro promovida, para capitalizar interesses políticos em uma estratégia ou capacidade vitoriosa — mas essa tática freqüentemente saiu pela culatra. O relutante reconhecimento pela Marinha da importância do bombardeio estratégico durante o debate sobre os B-36... não salvou o seu supernavio-aeródromo.






O Papel das Forças Singulares


Cada uma das forças singulares também tem um papel específico a desempenhar no tratamento de ASW para a TMD. Aos oficiais da Força Aérea, pela sua especialização na condução de bombardeio estratégico, deve ser atribuída a responsabilidade de identificar e selecionar como alvo a infra-estrutura que apóia as operações de mísseis móveis de um oponente. 

Para eliminar a possibilidade de operações sustentadas, a Força Aérea deve trabalhar no sentido de destruir a cauda logística e industrial que apóia a força de mísseis desdobrada pelo inimigo. A experiência da Força Aérea no gerenciamento de uma campanha aérea como um todo sugeriria ser ela a Força de escolha para lidar com os problemas associados ao C3I e à alocação de meios inerentes a um esforço de TMD maciço.

Oficiais da Marinha têm mais do que apenas especialização em operações ASW para contribuir com a TMD. À diferença de seus homólogos da Força Aérea, os aviadores navais não tendem a pensar em termos de bombardeio estratégico, mas sim em termos de destruir alvos militares específicos. Deve-se atribuir à Marinha a missão de destruir mísseis já desdobrados. 

Um grupo de batalha de navio-aeródromo da Marinha poderia também servir como um tipo de força anti-TMD de “emergência” porque o sistema Aegis da Marinha em breve apresentará capacidades limitadas contra mísseis balísticos. A aviação naval poderia conduzir ataques contra alguns sistemas militares ofensivos particularmente ameaçadores, enquanto navios equipados com o sistema Aegis protegeriam alvos altamente compensadores na costa.

Como Força que opera a única defesa ativa comprovada — o sistema de mísseis Patriot — contra mísseis balísticos, o Exército tem um papel óbvio a desempenhar na TMD. Outros têm-se apressado em identificar o sistema de Mísseis Táticos do Exército, com um alcance de 40 quilômetros e submunições antipessoal/antimaterial, bem como o helicóptero de ataque Apache, com um alcance superior a 200 quilômetros, como armas ideais de ataque a forças militares.

Menos óbvio, contudo, é o importante papel que as forças terrestres desempenham no tratamento de ASW para a TMD. As forças terrestres, notadamente as forças especiais, prefeririam exercer sua capacidade de atacar e destruir instalações e armas em profundidade à retaguarda das linhas inimigas. Mas sua maior contribuição ao esforço de TMD irá assumir provavelmente a forma menos glamourosa de “policiar o campo de batalha”.

Em outras palavras, as forças terrestres provavelmente terão de conduzir um grande número de operações após terem o que se suspeita serem plataformas de mísseis sido submetidas a ataque. Pequenos grupos podem garantir que os lançadores e mísseis danificados por ataques aéreos não tenham sido apenas temporariamente tornados inoperantes, mas antes que tenham sido destruídos de fato. 

Abrigos de armazenamento rudimentares, difíceis de serem identificados do ar, poderiam também ser localizados pelas forças terrestres que rapidamente inspecionassem uma plataforma de mísseis danificada. O que é mais importante, será preciso assegurar a posse das ogivas de WMD — sejam as já instaladas sejam as desdobradas à frente, junto às plataformas de mísseis. 

Mesmo se lançadores ou mísseis houverem sido destruídos por ataque aéreo, ogivas de mísseis operáveis podem ser ainda utilizadas por um oponente, ou podem encontrar o caminho até o mercado negro. As forças dos EUA seriam também beneficiadas por uma avaliação rápida do risco radioativo ou químico criado pelas ogivas danificadas em seguimento a um ataque bem sucedido contra forças militares inimigas.

Quem deveria ser encarregado de uma campanha TMD influenciada por uma filosofia de ASW? Várias considerações dão forma à resposta a essa questão. 

  • Primeira, a TMD é, em sua maior parte, uma atividade de inteligência de tempo de paz. 
  • Segunda, a TMD exige a coordenação contínua de capacidades ofensivas e defensivas que todas as forças singulares possuem. 
  • Terceira, a exigência de TMD não se confina a uma região específica do globo. Os CINCs regionais têm de planejar a TMD, mas pode ser mais eficiente se um comando independente preparar dispositivos de TMD constituídos de capacidades multiforças singulares C3I, de defesa ativa, de defesa passiva e de ataque a meios militares para infiltração em determinada região.
Diante de tais considerações, o Comando Estratégico dos EUA (STRATCOM) seria uma boa escolha para dirigir uma campanha TMD. O Projeto Livro de Prata (Project Silver Book) do STRATCOM, um esforço em tempo de paz no sentido de compilar uma lista de alvos militares para a TMD, poderia servir como um passo inicial em uma estratégia de TMD inspirada na ASW.

Em sua encarnação anterior como o Comando Aéreo Estratégico, o STRATCOM também tem muita experiência no planejamento de maciças campanhas aéreas multiforças que contam em parte com a coleta e a análise de informações em tempo real e em nível nacional.

Comandado alternadamente por oficiais da Força Aérea e da Marinha, o STRATCOM também reúne uma combinação única de talentos necessários para tornar realidade uma estratégia de TMD baseada em princípios ASW: 
  • histórico de planejamento de ataques combinados a forças militares inimigas; 
  • ênfase em operações aéreas de grande vulto; 
  • grande familiaridade com a ASW; 
  • coleta sustentada de informações e coleta e avaliação de informações em tempo real; 
  • familiaridade com operações de forças especiais contra alvos WMD; e 
  • tradição como o comando principal de operações nucleares dos EUA.





As Idéias e a Guerra Combinada


Quando aplicada ao problema da defesa contra mísseis de teatro de operações, uma filosofia de ASW oferece uma idéia unificadora que identifica metas e tarefas específicas. Propicia, também, a todos os interessados uma imagem de todo o processo, baseada na extensa experiência da Marinha, experiência que pode ser utilizada para avaliar o quanto iniciativas específicas de uma única Força Singular podem contribuir para uma campanha TMD global. 

Para os que se interessam em desempenhar o grande número de tarefas inter-relacionadas identificadas na Doutrina de Defesa Combinada Antimísseis de Teatro de Operações, o conceito de ASW pode oferecer um “ponto de partida”: ele especifica como se pode começar a organizar uma TMD multiforças eficaz, com as capacidades existentes. Em certo sentido, uma filosofia de ASW poderia servir como um paradigma — aqui tomamos emprestado um termo da filosofia da ciência — para a TMD:
  • ela identifica problemas-chave que estão carentes de solução,
  • especifica como se deve prosseguir no sentido de superar esses obstáculos-chave, 
  • aloca responsabilidades para resolução de partes específicas do problema e 
  • explica de que modo o desempenho de pequenas tarefas específicas pode produzir uma sinergia que supere um problema extraordinariamente complexo.
Como um paradigma para a TMD, porém, a guerra anti-submarino apresenta uma grande desvantagem: o termo se encontra para sempre ligado à Marinha como uma de suas áreas de missões tradicionais e muito importantes. 

Durante a guerra fria, uma sugestão de que uma única força singular detinha a chave da segurança americana iria provavelmente provocar a explosão de rivalidade interforças. Ocasionalmente, um força singular endossava uma idéia promovida por outra, para capitalizar interesses políticos em uma estratégia ou capacidade vitoriosa — mas essa tática freqüentemente saiu pela culatra. 

O relutante reconhecimento pela Marinha da importância do bombardeio estratégico durante o debate sobre os B-36, por exemplo, não salvou o seu supernavio-aeródromo. Assim sendo, um tratamento de ASW para a TMD poderia ser mal interpretado como um esforço de desenvolvimento de uma estratégia para uma única força singular, uma estratégia que parece permitir que uma só Força ganhe sozinha a próxima guerra.



O fato de uma idéia originar-se justamente em uma força singular não significa que deva ela ser banida para sempre do esforço de promoção de uma estratégia combinada.



Diferentemente das doutrinas de cada Força, contudo, uma filosofia de ASW não é um paradigma excludente. De modo muito similar ao que a antiga estratégia marítima usava para organizar todas as forças disponíveis à Marinha em uma campanha coerente, no caso de uma guerra ao longo do Central Front, uma filosofia de ASW também permite que cada uma das Forças contribua com o que faz de melhor para resolver o problema de uma defesa antimísseis de teatro de operações.

Em seu âmago, um tratamento de ASW para a TMD é uma estratégia combinada: seu postulado central é o de que somente se trabalharem em conjunto poderão as forças singulares defender os aliados dos EUA ou forças dos EUA baseadas no exterior da ameaça imposta por mísseis móveis.

Acresce ainda que seria um erro subestimar o impacto da rivalidade interforças e intraforça, a despeito da renovada ênfase que o Congresso faz incidir no estímulo a respostas combinadas a ameaças contra a segurança. O Projeto Livro de Prata do STRATCOM, por exemplo, foi substituído por uma nova iniciativa, o Documento de Apoio ao Planejamento de Teatro de Operações.

O Projeto Livro de Prata foi abandonado, aparentemente depois de outros CINCs objetarem ao que entendiam ser um esforço por parte do STRATCOM de monopolizar o planejamento de ataques a forças militares em apoio da TMD. Numa época de orçamentos estáveis ou minguantes, qualquer esforço no sentido de despender um esforço combinado e, neste caso, potencialmente integrado, irá provavelmente enfrentar grande resistência oriunda de alguma parte do setor de defesa.

Conclusão


Ao adotarem um paradigma de ASW para a TMD, as forças singulares estariam iniciando uma nova forma de guerra combinada. Ao invés de reinventar a roda, uma idéia usada com eficácia por uma Força poderia ser tomada emprestada para tratar de um problema complexo multiforças. 

De fato, romper o tabu contra tomar emprestadas idéias por outros utilizadas abre um inteiro domínio de possibilidades. Sempre existe o perigo de que alguns possam escolher imitar de modo cego as capacidades hauridas por outras forças singulares, mesmo sendo provável que o tamanho dos orçamentos de defesa pós-guerra fria reduziria enormemente a eficácia dessa tática orçamentária. 

Mas o fato de uma idéia originar-se justamente em uma força singular não significa que deva ela ser banida para sempre do esforço de promoção de uma estratégia combinada.


domingo, 21 de outubro de 2012

Batalha de Latakia: Nova Fronteira na Guerra Eletrônica



CC NILSON AUGUSTUS GONÇALVES DE SOUZA

Poucas batalhas navais mudaram o rumo da guerra no mar. Entre aquelas que conseguiram, um grupo muito seleto tornou-se reconhecido. Ou essas batalhas alteraram a balança do poder no mundo, como ocorreu em Trafalgar, ou esses feitos testemunharam a introdução de um conceito totalmente novo na condução da Guerra Naval, como o ocorrido em Midway.

A Batalha de Latakia, cidade Síria cuja importância estratégica deve-se à posse do único porto bem protegido da sua costa, logrou contemplar as duas situações, provando ao mundo que a Marinha Israelense estava no mesmo nível das demais forças singulares. Destacou-se por ser a primeira batalha naval na História em que foram empregados os mísseis e a tática do jamming, Medida de Ataque Eletrônico (MAE) que visa inserir no receptor radar inimigo um sinal de interferência, de forma a despistá-lo. Essa batalha demonstrou o poder de um ataque realizado com rapidez e a efetividade das técnicas evasivas contra mísseis.


O pequeno combate, ocorrido em sete de outubro de 1973, na costa da Síria, durante os primeiros momentos da Guerra do Yom Kippur, travada entre Israel e uma coalizão de países árabes, durante o feriado judeu  que leva o mesmo nome, foi um sinal de como se deu a evolução na Guerra Naval e da mudança na tática de engajamento de Forças Navais.

Durante o primeiro dia das hostilidades, a ForçaTarefa Israelense foi enviada com a tarefa de atrair os navios-patrulha sírios, de modo a afastá-los do porto e, então, engajá-los. Vários acontecimentos concorreram para tornar difícil esta tarefa. Os mísseis superfície-superfície (MSS) subsônicos Gabriel, com alcance de 11 milhas náuticas (MN) e guiagem semi-ativa, que equipavam os navios israelenses, ainda não haviam sido empregados contra alvos reais e, por isso, não tinha sua eficácia conhecida. Além disso, eles possuíam aproximadamente a metade do alcance do MSS SS-N-2 Styx sírio, de fabricação soviética, que, em 21 de outubro de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, havia afundado o Destróier Eilat, também israelense, quando foi lançado de um navio-patulha rápido egípcio da classe Komar, marcando a primeira ocorrência de afundamento de um navio por míssil.

As defesas israelenses contra o  Styx consistiam de MAE, que, até aquele momento, também não haviam sido empregadas. Esses desafios, contudo, foram enfrentados pela Força-Tarefa Israelense operando em duas colunas paralelas de três navios-patrulha, na direção do porto sírio da Latakia. Naquela ocasião, foi detectado pelos radares um contato de superfície ao norte da posição em que se encontravam. Sem terem o quadro tático completamente compilado, os israelenses fizeram fogo com seus canhões de 76 mm, e,  rapidamente, foram respondidos por salvas de canhões de 40mm sírios. O contato havia sido estabelecido. 

O Oficial em Comando Tático da Força-Tarefa Israelense, Almirante Michael Barkai, ordenou ao Hanit destacar-se da coluna e engajar o navio-patrulha sírio, nesse momento, já identificado. O navio foi facilmente afundado, atingido no alcance máximo do canhão do Hanit. Sem saber se o navio-patrulha sírio havia denunciado a posição da Força-Tarefa, os israelenses apressaram-se em fechar distância de terra.


Com a aproximação de terra da Força-Tarefa Israelense, um novo contato radar surgiu, dessa vez a 12MN a nordeste de sua posição. Um dos navios lançou um míssil  Gabriel, mas, como o contato estava fora do alcance, o armamento foi perdido na água. A perseguição continuou até entrar no alcance do  armamento do NavioPatrulha Reshef , da coluna de boreste, que disparou outro MSS Gabriel a 9MN, afundando um navio varredor sírio de 560 toneladas. 

Os israelenses sabiam que o verdadeiro desafio eram os Styx e mantiveram o rumo até as proximidades do porto sírio de Latakia. Três contatos surgiram nos seus radares, próximos à costa. Eram navios-patrulha sírios, um da classe Osa 3 e dois  Komars, que lançaram mísseis a uma distância superior ao alcance dos Gabriel. Contudo, os israelenses lançaram foguetes chaff e usaram  jamming para enviar sinais falsos contra os mísseis, numa tentativa de confundir seus radares.

Cabe destacar que a tecnologia e os procedimentos supracitados, desenvolvidos pelos próprios israelenses, apesar de terem sido usados em combate pela primeira vez, tiveram logo constatada suas validades. Os mísseis foram desviados com sucesso, perdendo-se no mar. Os israelenses continuaram a aproximação, confiantes na sua tática, até então inovadora, que empregava uma forma furtiva de aproximação, levando seus oponentes a lançarem seu armamento no alcance máximo, combinada com a utilização de chaff  e jamming. Somente um dos navios sírios ainda possuía mísseis – o Osa. 

Os israelenses fecharam distância em velocidade máxima, lançaram uma salva devastadora de mísseis Gabriel e efetuaram jamming  contra outros dois mísseis Styx, logrando mais uma vez êxito na tática empregada. Os 150kg da cabeça de combate dos MSS  Gabriel foram mais do que suficiente para garantir a destruição dos navios-patrulha sírios, que afundaram rapidamente. Após os engajamentos de Latakia, a Marinha Síria foi contida em seus portos. O combate encerrou-se com um total de cinco unidades de superfície sírias afundadas. 

As perdas israelenses nesse episódio foram nulas. Chegouse a um ponto decisivo na Guerra Naval. As inovações introduzidas pelo uso do chaff e jamming radar forjaram os procedimentos evasivos básicos empregados até hoje. De fato, até as marinhas dos países árabes atualmente empregam a mesma tática que a Marinha Israelense tornou conhecida em Latakia.

O míssil Gabriel atuou com perfeição, sendo capaz de detectar alvos de pequeno porte e, apesar de seu limitado alcance, angariou fama nos anais da Guerra Naval. Atualmente, ele é também empregado pelas Marinhas do Chile, Equador, Quênia, Taiwan, Singapura, África do Sul e Tailândia. 

O desenvolvimento  tecnológico alcançado pelos israelenses na construção do equipamento de MAE, bem como as informações de inteligência sobre o míssil Styx, que muito pouco tempo antes havia afundado o destróier Eilat, demonstra a importância do aprestamento de sua Força Naval. Tendo sido testada e aprovada, com sucesso, no mar, contribuiu na imposição de uma derrota de caráter tático e moral ao seu inimigo.

A análise dessa experiência mostra a importância que a Guerra Eletrônica possui na atualidade. Contudo, em se tratando de garantir para si a capacidade de interagir no espectro eletromagnético com vantagem, o domínio do conhecimento da Atividade de Guerra Eletrônica (AGE) pela nossa Marinha mostra-se  fundamental, pois congrega duas vertentes - inteligência (Reconhecimento Eletrônico – RETRON) e pesquisa, capacitação de recursos humanos e logística (Aprestamento Eletrônico – APEL), basilares para qualquer marinha que almeja fazer frente a este desafiante cenário de múltiplas ameaças.

domingo, 14 de outubro de 2012

Características dos Conflitos Modernos #

baseado nas IP 100-1 do EB Doutrina Delta

Os conflitos modernos apresentam características que devem ser observadas por políticos e comandantes militares, sob pena de fracasso nas operações e mau estar político perante a comunidade internacional, como experimentaram nas últimas décadas àqueles que se envolveram em ações militares mau ou pouco preparadas, sejam do ponto de vista logístico ou doutrinário, sejam sob a ótica do politicamente correto. Exemplos deste último é a sucessiva queda de ditadores que ainda insistem em manter-se em seus "Reinos Encantados", como ocorreu no Iraque, Líbia e Egito.



A Opinião Pública

Com o avanço da tecnologia e o advento da globalização, tudo o que acontece no mundo tende a ser amplamente divulgado, e por pressão dessa visibilidade os governos democráticos veem-se cada vez mais obrigados a manterem sua vigilância sobre o mundo como um todo, coibindo de forma ou outra o abuso de direitos humanos e a repressão dos povos, mesmo que sob esse discurso estejam camuflados interesses menos nobres. Mesmo realidades de países de pouca expressão tendem a ter repercussão mundial, gerando ações militares difíceis de serem previstas pelos estrategistas dos países mais fortes.


A Tecnologia

Novos sistemas de armas, cada vez mais sofisticados e letais, surgem a todo momento. Redes de inteligência altamente competentes e dotadas de tecnologia de ponta tornam cada vez mais difícil a negação de informações aos sistemas inimigos. Sistemas de localização e identificação de alvos cada vez mais capazes demandam contra-medidas operacionais de ordem tecnológíca e doutrinária mais sofisiticadas. Sistemas com alcance cada vez maiores, engajando alvos a grandes distâncias com precisão estão tornando a vida dos defensores mais difícil. A permanente atualização das unidades militares para fazer frente as novas ameaças, sejam tecnológicas ou não, deve ser uma constante sob pena de invalidar a utilidade desta unidade.




Novas Dimensões do Campo de Batalha

A superioridade aérea é hoje condição fundamental a condução de qualquer campanha militar, e sua obtenção é condição definitiva de desequilíbrio em qualquer contenda, valorizando sobremaneira a presença dos meios aéreos e antiaéreos. Helicópteros capazes de desdobrar forças em qualquer lugar do campo de batalha, estão acabando com a antiga forma de combate linear e dando as forças terrestres significativo aumento na mobilidade tática, e permitindo a estas ações em profundidade até então impossíveis ou suicidas. Meios eletrônicos capazes de monitorar e interferir no espaço eletromagnético proporcionam um multiplicador de combate valioso e que não pode ser negligenciado por qualquer força. A informação é o fator decisivo na guerra moderna e quem a domina conta com significativa vantagem em qualquer disputa.



Fluidez das Operações

Operações militares modernas tendem a ser o mais intensas e breves possíveis, com a busca dos objetivos estratégicos em tempo reduzido, resultando em menores custos humanos e materiais. Ações decisivas devem ser implementadas sempre que possíveis a fim de atender pressões de toda ordem. Destruir ou neutralizar o inimigo o mais rápido possível se faz necessário em busca dos tão desejados anseios pela paz, ou pelo menos pelo arrefecimento das operações com violência de grande escala.




Eficiência Total no Comando e Controle das Operações

Todos os meios de combate envolvidos devem ser tempestivamente sincronizados no tempo e no espaço, procurando total sinergia entre as suas capacidades, exigindo processos  de comando e controle altamente eficientes e meios tecnológicos adequados. Estes sistemas tem de ser confiáveis, seguros, abrangentes e flexíveis, capazes de se adaptarem rapidamente a um dinâmico quadro de situação. Sistemas de guerra eletrônica, comunicações e busca de inteligência fazem parte da base de qualquer sistema de comando e controle moderno. Não existe mais espaço na atualidade para generais que disputam prestígio e poder através das operações, como se viu na Segunda Guerra Mundial entre Patton e Montgomery na corrida para Berlim.




Objetividade e Iniciativa

Objetivos claros e bem definidos sendo buscado por uma manobra estratégica clara e bem planejada, com meios suficientemente alocados e plena consciência do todo por todos os níveis de comando. Manobras tática-operacionais implementadas eficazmente por comandantes sintonizados com a manobra estratégica, tendo esta como objetivo final. Fomento da liderança e da iniciativa junto aos comandantes dos escalões inferiores, para que estes possam alterar a manobra planejada diante de fatores novos e não previstos, sempre que identificarem maneiras mais eficientes de atingirem os objetivos previamente definidos.



Operações Combinadas

Integração entre as forças armadas do país e de paises aliados, além de agências civis e forças policiais é fator multiplicador do poder de combate. Esta integração deve ser planejada e praticada em tempos de paz, para ser eficientemente explorada em tempos de guerra e deve envolver doutrina, sistemas informatizados capazes de comunicar-se de forma natural, comandos unificados e formas de pensar comuns.

Todos estes fatores são condicionantes do sucesso nos conflitos modernos e não devem ser negligenciados, sob pena de se cair em um "buraco-negro" político-operacional que poderá resultar no fracasso de qualquer operação.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Como uma brigada blindada conquistou Bagdá


Alex Alexandre de Mesquita


ANTECEDENTES

A conquista de Bagdá foi a última etapa da Operação Iraq Freedom conduzida pelos EUA durante o primeiro semestre de 2003, operação esta que tinha por objetivo depor Saddam Hussein do governo e embora já se tenham passado quase cinco anos de seu término, os eventos daquele dias de 2003 ainda suscitam estudos e reflexões.

A Operação Iraq Freedom iniciou-se em 20 de março com uma ação ofensiva terrestre a partir do Kuwait, conduzida por uma coalizão entre EUA e Inglaterra, principalmente. Sincronizada com a ofensiva terrestre, ocorreram  uma série de ataques aéreos com mísseis e bombas a Bagdá e arredores. 

Os efetivos, assim como os meios materiais do exército iraquiano, haviam sofrido forte deterioração, desde a Guerra do Golfo (1991), e Saddam contava agora com 17 divisões do exército regular (contra as 40 que possuía na guerra de 1991), além das seis divisões da Guarda Republicana.

Diferentemente de 1991, em março de 2003 as forças  da coalisão eram bem menores em número total de homens e meios, porém eram ainda mais qualificadas e acabaram enfrentanto um exército iraquiano degradado pelo isolamento de suas fontes estrangeiras de suprimento, sem lideranças expressivas e com o moral depreciado.

O Exército Iraquiano era formado pela Guarda Republicana (constituída pela Divisão Mecanizada Adnan, Divisão de Infantaria Bagdá, Divisão de Infantaria Abed, Divisão Blindada Medina, Divisão de Infantaria Nabucodonossor e a Divisão Mecanizada Hamurabe), pelo Exército Regular (constituído por cinco corpos de exército que incluíam Div Mec, Div Inf e Div Bld) e por unidades especiais como a Unidade 999, o Serviço de Segurança Militar e o Exército do Povo. 

A Força Aérea Iraquiana (FAI) e a Marinha eram pouco expressivas e apresentavam um baixo índice de disponibilidade, o que reduzia o poder de combate daquele país.

Além das chamadas forças regulares, Saddam Hussein contava ainda com um efetivo de tropas irregulares, combatentes muito mais dedicados do que aqueles que integravam as forças regulares. Conhecidos como fedayins  (mártires), esse combatentes eram na sua maioria oriundos de outros  países árabes disposto a combater a guerra santa contra os EUA. Por conta da sua organização e pela permeabilidade que possuíam para entrar e sair do país, era muito difícil identificar e calcular o efetivo total desses mártires.

Por outro lado, as forças da Coalizão contavam com um poder de combate cujo principal ponto de desequilíbrio estava na qualidade dos militares e na tecnologia envolvida. Coube ao Comando Central (CENTCOM) a condução da ação militar, enquadrando forças norte-americanas da Marinha, dos fuzileiros Navais, do Exército e da Força Aérea. As forças terrestres do CENTCOM estavam subdivididas em duas grandes estruturas, sendo uma delas constituída exclusivamente por organizações do Exército enquadradas pelo 5º Corpo de Exército, e a outra liderada pela 1ª Força Expedicionária de Fuzileiros que enquadrou a 1ª Divisão Blindada inglesa, entre outros grupamentos de forças.

No dia 20 de março de 2003 iniciou-se a ofensiva terrestre com o 1º Batalhão do 7º Regimento de Fuzileiros Navais a partir do Kwait. Além do 1º /7º Regimento, mais de cinqüenta unidades valor batalhão também romperam a linha de partida com o objetivo de conquistar os campos petrolíferos iraquianos para que não fossem destruídos, o que poderia causar um grande desastre ambiental.



Estimava-se que o inimigo combateria as forças de coalizão com oito divisões, mas já se tinha a informação de que boa parte de suas forças havia desertado e retornado à vida civil. Isso aconteceu  principalmente em função da violenta ofensiva a partir do Kwait, da campanha aérea contra Bagdá e das ações de operações psicológicas conduzidas antes da ação bélica propriamente dita.

Até a conquista da capital iraquiana havia a necessidade de assegurar a uma importante passagem sobre o rio Eufrates próximo à pequena cidade de Nasiriyah e o corredor de Karbala, por onde passava a Rodovia 8, porta de entrada dos subúrbios da cidade. Em Bagdá, outro objetivo era o Aeroporto Internacional de Bagdá, que tinha grande valor simbólico para o regime e alto valor militar para a coalisão, pois permitiria a ligação aérea com o exterior.

Em 2 de abril, a 3ª Divisão de Infantaria começou a se preparar para cruzar o rio Eufrates, cujas pontes não haviam sido destruídas, como muitas outras no decorrer dos combates. Nessa mesma data carros de combate norte-americanos começaram a cruzar o rio e tropas iraquianas tentaram impedí-los, mas sem sucesso. Estavam criadas as condições para o investimento a Bagdá pela 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada, investimento esse que se  iniciou com a conquista do Aeroporto Sadam Hussein em e do centro de Bagdá pela a “2nd Brigade Combat Team”. 

A seguir, será analisada a ação dessa brigada investindo em Bagdá, realizando o que ficou conhecido como “Thunder  Run”



A AÇÃO NORTE-AMERICANA

Até a chegada aos subúrbios de Bagdá a ofensiva da coalizão estava sendo conduzida com uma extraordinária velocidade e os comandantes não pretendiam interromper ou reduzir esse ímpeto, agora que estavam prestes a investir contra a capital iraquiana. Entretanto, as lembranças dos combates em Mogadíscio ainda estavam vivas na memória de todos os combatentes desdobrados no Iraque.

O general Tommy Franks, comandante do V Exército Norte Americano, estava convencido de que os oponentes haviam perdido os meios para uma defesa organizada em Bagdá e desta forma deu liberdade para que ações de reconhecimento em força fossem realizadas pelos seus elementos subordinados.

Sua intenção era a levantar o dispositivo, a composição e valor do inimigo que possivelmente estivesse no interior da cidade. Essa autorização está relacionada às estimativas referentes ao valor do inimigo. Era possível conceber que incursões relâmpago ao centro da cidade pudessem ser bem sucedidas, pois funcionariam como  demonstrações de força e ação de choque.

Isso fez com que em 5 de abril a 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada realizasse uma operação de reconhecimento em força que ficou conhecida como Thunder Run.

Para cumprir essa missão, foi designado o 1º Batalhão do 64º Regimento Blindado, que a partir das suas posições localizadas nos subúrbios de Bagdá seguiu rumo à região do Distrito Governamental, onde se localizava o Palácio Presidencial e os ministérios. Sabia-se que o centro da cidade estava repleto de  fedayins,  de elementos remanescentes da Guarda Republicana, de remanescentes do Exército regular e de fanáticos estrangeiros e o avanço do 1º/64º Regimento Blindado acabou por levantar importantes informações a esse respeito. 

O sucesso dessa operação contribuiu para assegurar  que os iraquianos estavam realmente debilitados e não tinham condições de conduzir uma defesa organizada. Na realidade o que se apresentava era uma resistência descontínua, onde não havia unidade de comando, por conta da campanha aérea ter reduzido a um mínimo a capacidade de comando e controle de Saddam e de seus generais.

Em 7 de abril o comandante de 3ª Divisão de Infantaria, general Blount concluiu que poderia mais uma vez se valer da ação  de choque de seus meios blindados para, de uma forma decisiva, conquistar o centro da capital do Iraque.

Para isso, ele decidiu empregar a 2ª Brigada, então comandada pelo coronel Perkins, para realizar um segundo Thunder Run, agora com a missão de conquistar e manter a região dos palácios, que foi designada como objetivo DIANE.

A 2ª Brigada estava composta pelas unidades:
  • 3º Batalhão do 15º Regimento de Infantaria, dotado de VBC Fuz Bradley;
  • 1º e 4º Batalhões do 64º Regimento Blindado, dotados de CC Abrams
  • Esquadrão E do 9º Regimento de Cavalaria Blindado, dotado de CC Abrams e VBC Fuz Bradley 
  • 1º Batalhão do 9º Regimento de Artilharia de Campanha, com VBC Obus M 109. 
Com essa organização, é possível identificar que a brigada tinha forte componente de carros de combate.

O acompanhamento de inteligência identificou e informou que a missão não seria tão fácil quanto a executada no dia 5 de abril. As forças inimigas começaram a estabelecer posições de bloqueio na região dos entroncamentos principais da cidade, empregando áreas minadas e construindo obstáculos com escombros para impedir qualquer movimento. A rodovia 8, principal via de acesso em direção à cidade estava toda minada.



A operação foi planejada de modo que a FT 1º/64º Regimento Blindado conquistasse e mantivesse o objetivo DIANE, enquanto a FT 4º/64º Regimento Blindado  conquistaria dois outros palácios próximos ao rio  Tigre, objetivos designados como WOOD WEST e WOOD EAST. Desataca-se que ambas as FT eram fortes em carros de combate e dessa forma pouco aptas a manter o terreno.

A terceira unidade, a FT 3ª/15 Regimento de Infantaria , forte em fuzileiros, ficou com a missão de manter a posição inicial da brigada, objetivo SAINTS, com parte de seu efetivo, estabelecer uma linha de comunicação e suprimento desse ponto até os objetivos WOOD e bloquear a rodovia 8, devendo conquistar e manteras três maiores interseções ao longo da rodovia. Esses objetivos receberam os nomes de a CURLEY, LARRY e MOE.

O Cel Perkins já havia percebido que a principal tática dos iraquianos era atacar as forças norte-americanas quando estas estavam estacionadas, por isso foi tomada a decisão de manter a brigada sempre em movimento. A FT 1º/64º Regimento Blindado, que liderou o movimento não deveria parar sob hipótese alguma, qualquer viatura danificada deveria ser ultrapassada, seus integrantes socorridos e no menor espaço de tempo dever-se-ia destruí-la ou inutilizá-la.  O ataque iniciou às 05h38min, mas teve que inicialmente vencer uma área minada, o que levou cerca de vinte minutos e às 06h00min a brigada iniciava o seu Thunder Run. 

Por volta das 06h11min a subunidade testa estabeleceu contato com o inimigo, sofrendo fogos de armas automáticas, RPG e morteiros, danificando um CC que foi deixado para trás e sua guarnição socorrida, como havia determinado o coronel Perkins.

Contudo essa resistência, mais uma vez desorganizada não foi suficiente para deter o avanço da brigada. Verificava-se que embora os iraquianos tivessem tido tempo de preparar posições defensivas eficientes isso não ocorreu. Não havia integração entre o fogo e a manobra, as posições e  as áreas de obstáculos não eram batidas por fogos. Na verdade, mais e mais se  confirmava que o inimigo conduzia uma resistência descontínua.

Às 07h56min a FT 4º/64º Regimento Blindado informou que havia conquistado seus objetivos e os mesmos já haviam sido vasculhados, entretanto essa informação não reduziu um sério problema ocorrido às 07h00min, quando o Centro de Operações Táticas (COT) da brigada foi atingido por um míssil ou foguete.

Esse fato retirou do comandante a capacidade de coordenar a manobra e o apoio de fogo, o que poderia comprometer toda a missão. Somente às 09h00min é que o COT voltou a funcionar em plenas condições.

O combate continuou intenso até o dia 8, mas a maioria do inimigo era formada por  fedayins, que embora não possuíssem formação militar de combate mostravam-se bastante determinados em cumprir a sua missão pela causa árabe. Assim, eles desfechavam ataques suicidas com carros bombas e homens bombas, além de disparos a curta distância com RPG. O único local em que se apresentaram elementos da Guarda Republicana foi próximo ao centro de Bagdá. Próximo ao objetivo MOE onde os iraquianos atacaram com uma FT de T-72 e BMP-1 e empregaram também armas antiaéreas realizando o fogo direto.

No dia 8 de abril, pela manhã a 2ª Brigada sofreu um contra-ataque vindo de leste do rio Tigre. Os iraquianos formavam pequenos grupos de 10 a 20 homens com RPG e armas automáticas. Muitos usavam roupas civis, mas alguns foram identificados como integrantes da Guarda Republicana. A ação foi rechaçada e enfim a posição da 2ª Brigada se estabilizou e a linha de comunicação e suprimento havia sido estabelecida.

Isso permitiu que a 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada determinasse que a 3ª Brigada atacasse Bagdá pela Rodovia Nr1 em 9 de  abril, ligando-se com a 2ª Brigada. No dia seguinte a 1ª Brigada realizou a limpeza da Rodovia Nr 8, desde o aeroporto, vindo por fim a ligar-se com 2ª Brigada no centro de Bagdá. Não foram contabilizadas todas as perdas iraquianas, mas com certeza chegaram à casa do milhar e mais de cem veículos foram destruídos. Não houve prisioneiros de guerra, aqueles que se rendiam eram desuniformizados e liberados, pois os únicos iraquianos que os norte-americanos queriam prender eram os assessores de Sadam e o próprio presidente.  

O emprego de meios predominantemente blindados na conquista de Bagdá surpreendeu muitos especialistas militares que previam uma derrota fragorosa da coalizão combatendo em ambiente urbano. Entretanto a lembrança de Mogadíscio, onde tropas leves foram cercadas e quase destruídas por somalis ainda persistia na mente dos comandantes norte-americanos, como registra Zucchino : “Blout e Perkins não queriam repetir Mogadísico. [...] A coluna blindada tem distintas vantagens sobre as forças leves de Rangers e Delta Forces que conduziram o ataque em Mogadíscio”.

Além disso, era senso comum que os blindados dentro de Bagdá seriam alvos fáceis para os iraquianos e que, assim como em Grozny, o resultado seria desfavorável ao atacante. Os próprios comandantes norte-americanos temiam pelo sucesso da missão, mas ao final tudo se transformou em sucesso.


A MISSÃO

A missão da  2nd Brigade Combat Team era conquistar a região do distrito governamental onde se localizava o Palácio Presidencial e os demais edifícios ministeriais do governo iraquiano, de modo a contribuir com a missão da 3ª Divisão de Infantaria de conquistar Bagdá. O comando da 3ª Divisão, ouvido o comandante da 2ª  Brigada, resolveu empregar a sua grande unidade com maior quantidade em carros de combate e veículos blindados. 

Isso foi decorrente do fato de que a missão compreendia a conquista de objetivos específicos, que não demandariam, obrigatoriamente, a necessidade de vasculhamento. Isso justifica emprego de uma Bda Bld e a utilização da técnica de investimento seletivo. Tanto o coronel Perkins, comandante da brigada como o general Blount, comandante da divisão não aceitavam o consenso convencional de que empregar blindados em ambiente urbano é uma desvantagem. Para eles, os blindados não só podiam combater em ambiente urbano, como também prevalecer.


O INIMIGO

Após os combates conduzidos desde o dia 20 de março as forças terrestres iraquianas estavam desorganizadas, com efetivos incompletos por baixas e deserções e com equipamento e armamento parcialmente destruído ou obsoleto, Saddam Hussein ainda comandava seu exército e determinou que a defesa de Bagdá fosse realizada a todo custo. O centro de Bagdá ainda estava repleto de combatentes da Guarda Republicana, do Exército Regular e dos fedayins. Segundo fontes do sistema de inteligência norte-americano, Saddam dispunha em Bagdá de duas brigadas da Guarda Republicana e 15.000 fedayins. 

Dessa forma ainda havia em Bagdá carros de combate em número ignorado, viaturas blindadas de diversos tipos, artilharia de campanha e antiaérea, dentre outros componentes dos diversos sistemas operacionais.

Próximas ao centro de Bagdá estavam concentradas as forças regulares iraquianas que incluíam uma combinação de elementos a pé e mecanizados pertencentes à Guarda Republicana.

Esse inimigo em particular tinha condições de atacar com CC T-72 e VBC Fuz BMP-1 (Foto 3) e armamento antiaéreo empregado para o fogo direto. Havia somente uma posição defensiva organizada com trincheiras e tocas e outras posições preparadas nos edifícios que dominavam os entroncamentos rodoviários.

Nesse momento, as forças convencionais ainda atuavam enquadradas por comando superiores. Particularmente a Guarda Republicana e o comando geral estavam sob responsabilidade dos filhos do presidente, que nada conheciam a respeito do emprego rápido de forças militares e não dispunham de meios de comando e controle para coordenarem suas ações. Esses fatores contribuíram para que a resistência iraquiana não respondesse de forma rápida e eficaz a investida das tropas da coalizão.

As forças militares iraquianas apresentavam uma vulnerabilidade peculiar, que era o seu sistema de informações públicas. O ministro da Informação Ali Mohamed Said al-Sahhf insistia em repetir que o combate estava sendo vencido pelas forças do Iraque e que os norte-americanos estavam sofrendo pesadas baixas, o que não era verdade. Essa prática foi determinante para que as forças iraquianas em Bagdá não esperassem o investimento dos norte-americanos, não se preparando para a defesa efetiva da cidade. Isso contribuiu para reduzir o seu poder de combate.

Em verdade somente os fedayns continuavam lutando tenazmente, mas por conta de suas múltiplas origens e procedências esses combatentes não possuíam uma unidade de comando convencional. Os  fedayins também não estavam habilitados a operar os equipamentos militares mais complexos, como os carros de combate de origem russa. Assim, a resistência iraquiana ficou reduzida a grupos armados com armas automáticas e RPG que não chegaram a causar danos consideráveis aos blindados das forças dos EUA e nem baixas aos soldados. Ao concentrar o poder em suas mãos e centralizar todas as decisões Saddam Hussein pode ter contribuído para que houvesse reduzida resistência em Bagdá. 

Os seus comandantes subordinados, nos diversos níveis, não puderam se valer da iniciativa para tomar decisões que poderiam contribuir para a defesa da cidade, como por exemplo, preparar as edificações como posições defensivas, preparar túneis para auxiliar na movimentação entre os edifícios ou preparar destruições em obras de arte diversas.

Outra característica importante é que não havia um sistema de defesa organizado na cidade, embora Saddam tenha dito que um anel de aço protegia Bagdá. Isso pode ter sido resultado do desgaste sofrido durante a campanha no deserto desde a fronteira com o Kwait. Como até a chegada a Bagdá havia predominado o combate convencional e muitas das forças em Bagdá eram compostas por militares que haviam se retirado do deserto, não houve tempo nem coordenação para a execução de uma defesa eficiente.

Ao se observar as ações dos fedaiyns é possível identificar o início de um combate irregular, principalmente por meio da utilização de técnicas de emboscada. Também começava a ficar difícil identificar o inimigo, pois este começou a atuar desuniformizado  e empregando até mesmo veículos civis, como, por exemplo, o que os norte-americanos chamam techinicall. Essa mudança de atitude começou a configurar um combate assimétrico e os valores numéricos relativos ao poder de combate do inimigo, já não representavam fielmente as possibilidades do inimigo.



Foram empregados também muitos dispositivos explosivos improvisados e também se registrou a ocorrência de homens-bomba, mas em algumas regiões de Bagdá predominaram as minas terrestres em ruas e avenidas. As minas tinham o objetivo de reduzir a velocidade de progressão dos  militares norte-americanos, enquanto que os dispositivos explosivos e homens bombas eram empregados para causarem baixas.

Ainda sobre os fedayins, a sua principal motivação para o combate vinha da crença e fanatismo religioso. A crença de que tinham a missão de derrotar o grande Satã e de que estavam lutando uma guerra santa. Isso era um fator moral positivo para os defensores de Bagdá, mas nem todos agiam ou pensavam como eles.

O fato de Saddam Hussein ter sido um ditador violento e vingativo fez com que as diversas etnias por ele perseguidas e rivais entre si não apoiassem as ações em Bagdá, recusando-se a combater, elevando o número de deserções e dificultando o homizio dos combatentes no seio da população. Os militares do
exército do Iraque simplesmente despiam seus uniformes e se transformavam em cidadãos normais, não contribuindo mais para o esforço de guerra.

Resumindo, o inimigo enfrentado pelos norte-americanos em Bagdá não tinha condições de defender a cidade de forma organizada, mas tão somente apresentar resistências descontínuas. Esse fato muito se deve à aversão que a população iraquiana sentia por Saddam Hussein, negando-se a combater e perder a vida por um ditador violento, vingativo e sanguinário. Embora o ambiente urbano pudesse contribuir para desequilibrar o poder de combate em favor dos iraquianos, não houve uma preparação prévia de posições defensivas, linhas de comunicações e suprimento ou  mesmo delegação de competência para que os pequenos grupos adotassem ações que impedissem o avanço da coalizão.

Somente os  fedayins se mostraram resistentes, passando a empregar técnicas de guerra irregular contra as forças da 3ª Divisão de Infantaria. Entretanto essas ações se aproximaram mais do martírio advindo do fanatismo religioso do que propriamente uma resistência militarmente organizada.

Por fim, ao passar de um combate tipicamente convencional em largas frentes e profundidades, como no deserto, para um combate assimétrico em ambiente urbano os iraquianos não souberam se adaptar para tirar o máximo proveito da cidade de Bagdá, das suas características e das limitações que ela poderia apresentar ao emprego de grandes formações  blindadas e motorizadas norte-americanas.

Foi graças a esse inimigo e a esse modus operandi que a 2ª Brigada pôde realizar o seu  Thuder Run, não se preocupando em vasculhar as regiões ultrapassadas, mas somente progredir de forma rápida e potente para o seu objetivo. E foi essa agressividade, somente possível por meio do emprego de meios blindados, que causou a surpresa ao inimigo e a sua conseqüente derrota.



O TERRENO

A capital iraquiana possui uma área de aproximadamente 400 km2 e em 2002 abrigava uma população de cerca de 5.000.000 de habitantes, mas que se reduziu com o conflito em 2003, não havendo dados disponíveis a respeito. A cidade é cortada de sudeste para sudoeste pelo rio Tigre, pelo Canal do Exército e pelo rio Diyala. Além disso, havia pelo menos cinco importantes ramais ferroviários e diversas rodovias e auto-estradas que chegam à cidade.

Isso fazia com que a cidade fosse dividida em setores segmentados. Essa segmentação era interligada por pontes, viadutos, passagens de nível e nós rodos-ferroviários que passaram a ter grande importância para as operações, pois permitiam controlar cada setor. Essa configuração segmentada dificultou o apoio mútuo entre os elementos de manobra da 2ª Brigada. Embora seja uma das cidades mais antigas do mundo, Bagdá passou por uma grande modernização. Essa modernização lhe conferiu uma configuração bastante regular no que se refere à disposição das ruas, com largas avenidas, em quarteirões organizados e grandes espaços abertos, como a região dos palácios.

Essa organização facilitava a marcação de limites e o emprego de meios blindados, mecanizados e motorizados em grandes formações de combate. A observação e os campos de tiro também foram favorecidos pelos espaços amplos e as largas avenidas principalmente no Distrito Governamental.

As edificações em Bagdá seguiam o seguinte padrão: nos subúrbios casas e prédios de pequena a média altura. As casas normalmente construídas em tijolos e os prédios em concreto. Havia também grandes áreas industriais, principalmente petroquímicas próximas ao leito do rio Tigre. No centro da cidade já predominavam os prédios de grande altura, com mais de 15 andares, como hotéis e prédios governamentais, construídos em concreto. Além disso, havia a região dos palácios, com uma arquitetura toda peculiar. 

Por ser a capital do Iraque, Bagdá possuía uma boa infra-estrutura. Havia o Aeroporto Sadam Hussein, a Estação Ferroviária Central, hospitais, a sede administrativa do governo. Havia ainda estações de  rádio e televisão, estações elétricas e uma rede de transporte estruturada. Logicamente, após campanha aérea houve muitos danos a essa infra-estrutura, mesmo com a política de redução de danos e o emprego maciço de armas inteligentes.

O tamanho da cidade facilitava em muito a instalação de um sistema defensivo eficiente, permitia a observação do alto  dos principais edifícios e a utilização da infra-estrutura que ainda estivesse intacta para apoiar as operações militares. Para os norte-americanos, o fato de investir contra uma metrópole com cerca de 5.000.000 de habitantes era um desafio extremamente difícil e complexo.  Assim como em outros conflitos em ambiente urbano,  a existência de prédios altos dificultava a realização de fogos indiretos, pois as granadas de artilharia e morteiro encontravam altos edifícios em suas trajetórias não atingindo o alvo selecionado. 

Isso além de reduzir a eficiência do tiro ia de encontro à política de redução de danos e por vezes contra as regras de engajamento. Mesmo utilizando munições inteligentes, os norte-americanos causaram muitos danos às obras de arte em geral e dessa forma algumas ruas ficaram cobertas de escombros. Para o inimigo isso foi favorável por que limitava o movimento dos veículos e tropas do oponente. Além disso, esses mesmos escombros eram utilizados na construção da proteção das posições defensivas. 

A existência de túneis diversos, como os de esgoto, facilitava a progressão, aumentando a mobilidade tática dos iraquianos, principalmente dos  fedayins. Entretanto não houve uma preparação minuciosa da cidade, com a construção de túneis de interligação entre as diversas posições defensivas e dessa forma essa vantagem não pode ser explorada na plenitude.

Em resumo, essas eram as principais características do terreno em que os norte-americanos da 2ª Brigada combateram as forças iraquianas em Bagdá. Por haver muitas áreas abertas, permitindo a observação e o emprego do armamento principal do CC foi possível o emprego de carros de combate e de viaturas blindadas de combate de fuzileiro. Soma-se a isso o fato de que a cidade não havia sido preparada defensivamente para a ofensiva dos Estados Unidos.



OS MEIOS BLINDADOS

A 2nd Brigade Combat Team é na verdade uma grande unidade blindada com CC Abrams, artilharia auto-propulsada e fuzileiros embarcados em VBC Fuz Bradley.

O carro de combate M1A1 Abrams é uma modernização do seu original o M1, cujo desenvolvimento é da década de 1980. Essa  versão recebeu um novo canhão de 120 mm, sistemas de proteção químicos, biológicos e nucleares e um pacote de robustecimento da blindagem. O carro é dotado dos seguintes armamentos, além do canhão: uma metralhadora coaxial de 7,62 milímetros, duas metralhadoras antiaéreas de .50 polegadas e 7,62 mm e seis lançadores de granadas fumígenas.

Como todo carro de combate, o M1A1 foi desenvolvido para o combate em ambientes com amplas frentes e grandes profundidades, seu canhão tem a capacidade de engajar alvos a até 4.000 metros com munição cinética e graças aos seus sistemas de direção e controle de tiro a identificação desses alvos é de quase 100% de certeza, evitando o risco de fratricídio. Além da munição cinética o canhão também tem condições de disparar munições químicas  explosivas e de cabeça esmagável. Essas características tornam o Abrams um dos melhores CC do mundo. A sua guarnição é de quarto militares, como a maioria dos CC em operação no mundo, com o comandante do carro, o atirador, o  auxiliar do atirador e o motorista. 

O comandante do carro conta com seis periscópios que permitem observar o ambiente externo, mas o seu principal instrumento ótico é o visor termal independente que proporciona uma visão de 360º, estabilizada, dia e noite, com busca e travamento de alvo selecionado que envia a  informação diretamente ao atirador. Além disso, o comandante, por meio de um  punho de prioridade de tiro pode engajar o alvo desabilitando o atirador. Essas peculiaridades permitem um engajamento rápido e preciso do inimigo.



O carro conta ainda com um computador digital que processa as diversas variáveis envolvidas no tiro, quer sejam ambientais (vento, temperatura, etc), situacionais (velocidade do carro, posição do carro em aclive ou declive, inclinação lateral, tipo de munição, etc) e do alvo (distância, medida por telemetria laser, velocidade do alvo, etc). O motorista, cuja posição é no centro do carro, tem periscópios que permitem monitorar o ambiente em um ângulo de 120º. Um desses equipamentos é um intensificador de luz que garante a condução do carro à noite, ou com reduzida luminosidade.

A composição da blindagem é confidencial, mas há evidência de que contenha urânio empobrecido, tornando-a bastante resistente, no seu arco frontal, a armas anticarro portáteis do tipo AT-4 e algumas versões de RPG, além do tiro de munições explosivas de outros carros de combate. Essa característica garante uma quase invulnerabilidade.

Como todo CC, a maior proteção está no arco frontal e vai decrescendo para a retaguarda. A parte superior da torre também é bastante vulnerável, bem como a parte inferior do CC, com destaque para as lagartas.

Durante a operação Liberdade do Iraque o Abrams se  apresentou muito bem, progredindo pelo deserto, como já havia acontecido na Guerra do Golfo. Entretanto, havia a preocupação relativa ao seu emprego em ambiente urbano. Essa preocupação era pelo fato de que os sistemas de armas ficariam comprometidos pela diminuição da largura e profundidade dos campos de tiro, dificuldade de engajamento de alvos em locais altos ou muito baixos, por conta da elevação e depressão do canhão, existência de espaços estreitos, escombros e pelo uso de armas anticarro pelo inimigo.

Apesar disso, o Abrams mostrou-se extremamente eficiente, resistindo aos fogos anticarro do inimigo, graças à sua blindagem; engajando alvos a grandes distâncias, em função da topografia de Bagdá e da configuração das ruas e quarteirões, causando a ação de choque desejável ao combate, por meio do seu poder de fogo e mobilidade. O resultado é que nenhum carro foi destruído e uns poucos foram postos fora de ação, sendo que nenhuma guarnição foi perdida. Essas características foram determinantes para o emprego do carro dentro da localidade.

Isto é, a sua capacidade de sobrevivência era compatível com a ameaça inimiga. Para que fosse formado o binômio carro/fuzileiro  havia disponível na 2ª Brigada as VBC Fuz Bradley. A missão do Bradley é proporcionar transporte protegido e poder de fogo às frações de fuzileiros ou às frações de cavalaria, tais como os exploradores.

Para isso, o carro possui uma grande mobilidade através campo, por ser um veículo sobre lagarta. A sua blindagem em grande parte de alumínio, com reforço em determinadas partes do carro como arco frontal onde também possui blindagem em aço, protege os ocupantes contra fogos de artilharia, algumas armas anticarro, fogos de .50 e de armamento leve de todo o tipo.

O seu armamento principal é um canhão de 25 mm, que pode disparar munições cinéticas e explosivas a uma distância de até 2000 m. Coaxial ao canhão, há ainda uma metralhadora de 7,62mm. Sua torre é estabilizada com sistemas de condução de tiro computadorizado e com capacidade de atuação de dia e de noite, graças ao seu sistema de imagem termal.  O canhão permite ainda a realização de rajadas de até 200 tiros por minuto.

Com esse armamento o Bradley tem a capacidade de derrotar ou causar danos na maioria das viaturas blindadas existentes, incluindo alguns CC mais antigos.  Outro armamento de relevo no Bradley é o míssil TOW, montado na lateral do carro em dois lançadores, que ficam prontos para serem empregados, entretanto o carro necessita parar para efetuar os disparos. 

O TOW é um míssil guiado, com alcance aproximado de 4.000 m, sendo capaz de destruir qualquer blindado existente na atualidade ou destruir posições fortificadas. O Bradley tem uma grande capacidade de sobrevivência no campo de batalha graças ao seu armamento e a sua proteção blindada, transportando a guarnição de três homens e um grupo de combate de seis militares com grande segurança. Durante o investimento a Bgadá o Bradley mostrou-se extremamente eficiente na proteção aproximada dos Abrams realizando fogos com seu canhão nos andares mais altos dos edifícios, onde os CC não podiam atirar, por conta da deficiência em elevação. Graças à sua capacidade de sobrevivência não houve a perda de nenhum grupo de combate ou guarnição, possibilitando a progressão embarcada, mesmo quando recebendo fogos de RPG.

Não resta dúvida de que a vantagem proporcionada por essas duas viaturas foi determinante para que se decidisse combater com esses meios blindados no interior de Bagdá. A sua capacidade de sobrevivência aliada à ação de choque foi o diferencial para o sucesso da conquista da região dos palácios na capital do Iraque, possibilitando a conquista de objetivos específicos sem a realização de ações de vasculhamento.



ENSINAMENTOS

A Operação Iraq Freedom demonstrou, sem sombra de dúvida, o poder militar dos Estados Unidos, não só em termos tecnológicos, como também na qualidade de seus recursos humanos. Isso ficou provado nos combates na ampla planície desértica e principalmente nas confinadas ruas de Bagdá.

Nesse contexto, o feito da  2nd Brigade Combate Team registrou-se na história militar como uma decisão audaciosa e surpreendente, quando cerca de  mil militares receberam a missão de capturar uma cidade de 5 milhões de habitantes.  Não há registro da proporção exata de forças envolvidas nessa batalha, principalmente por que do lado iraquiano houve muitas deserções e o combate foi conduzido por remanescente, guerrilheiros estrangeiros e os aguerridos  fedayins. 

Contudo, o fato de Bagdá possuir cerca de esta população indicava que pela doutrina tradicional haveria a necessidade de  um grande efetivo com uma grande quantidade de fuzileiros para realizar o investimento e o vasculhamento. Entretanto o Exército dos EUA identificou que era importante se entender o componente humano, a sociedade iraquiana, de modo a atuar em suas fraquezas para que a ação militar fosse um sucesso. Uma dessas vulnerabilidades era o fato de que nem todos apoiavam Saddam Hussein e dessa forma contribuíram para a ofensiva da coalizão. Poucos foram aqueles que apoiaram os soldados iraquianos e muitos informaram sobre locais de homizio das forças e lideranças.

Essa relativa afeição também foi fruto da preocupação com a redução de danos durante o início dos combates e do bombardeio da capital. Isso foi possível por conta do uso de armas inteligentes. A redução de danos também contribuiu para que as ruas ficassem menos restritas ao movimento dos veículos, pois foram reduzidas as ocorrências de escombros.

Os norte-americanos exploraram ao máximo seus conceitos ofensivos de ataques preventivos, velocidade das ações, manobra, exploração das vantagens técnicas e superioridade de comando e controle, emprego de armas combinadas, liderança, exploração da surpresa. Tudo isso foi alcançado quando a 2ª Brigada penetrou de forma veloz e poderosa rumo ao coração da cidade . Por isso é que mesmo atuando em ambiente urbano, onde as ações são mais próprias para elementos a pé, o Exército manteve o foco no emprego de meios blindados.



Essa técnica se mostrou eficiente principalmente por que os meios blindados norte-americanos eram muitos superiores aos iraquianos e às armas anticarro em presença. Esse pode ser apontado como  um dos fatores mais importantes que contribuíram para o sucesso do “Thunder Run”. A capacidade de sobrevivência e a potência de fogo dos Abrams e dos Bradleys permitiram que o combate fosse conduzido embarcado todo o tempo, sendo que nenhum carro foi destruído. Mesmo assim, após a guerra modificações foram propostas para que o Abrams se tornasse mais eficiente em localidade, surgindo um protótipo denominado.

As atividades logísticas poderiam ter comprometido  toda a missão, pois o consumo de munição e combustível foi muito grande apesar da brigada percorrer somente 20 quilômetros e o inimigo ser relativamente fraco. Assim, deve ser prevista a limpeza da futura Estrada Principal de Suprimento (EPS) o mais rápido possível de modo a garantir o ressuprimento e a evacuação de pessoal e material.

Em termos de comando e controle, a principal dificuldade ocorreu quando o COT da brigada foi bombardeado, mas a missão não foi comprometida, pois os comandos subordinados sabiam qual era a intenção do comandante e assim mantiveram a impulsão do ataque conquistando objetivos importantes com WOODY EAST e WOODY WEST.

O estudo de situação de inteligência foi primordial para o sucesso da operação. Ciente das fraquezas do inimigo, o Cel Perkins foi capaz de organizar a sua brigada e investir de forma rápida e agressiva  contra pequenos e desorganizados efetivos inimigos. O sucesso do  Thunder Run também está diretamente ligado à fragilidade do inimigo, que em momento algum apresentou uma defesa organizada que impusesse obstáculos expressivos ao movimento dos blindados da 2ª Brigada.

Além disso, foram selecionados objetivos específicos, o distrito governamental e os três entroncamentos. As ações foram direcionadas para a conquista desses objetivos, sem a preocupação de realizar a limpeza da área ultrapassada, buscando aproveitar a velocidade proporcionada pela ação de choque dos blindados. A limpeza foi realizada posteriormente por outra tropa, a 1ª Brigada. Dessa maneira a 3ª Divisão de Infantaria compôs uma força com a missão específica de atacar e conquistar os objetivos e outra com a missão específica de limpar o terreno ultrapassado.

A 2ª Brigada também privilegiou organização de FT valor batalhão com meios suficientes para que estas organizassem subunidades autônomas, principalmente com apoio de engenharia. O reforço de engenharia se mostrou extremamente eficaz no interior da cidade, onde os obstáculos foram superados com facilidade. 



Além disso, na fase da manutenção foi possível se aproveitar de escombros e áreas destruídas para as ações de contramobilidade e proteção. Ainda no que se refere à organização para o combate, o comandante da brigada e seu estado-maior levaram em consideração  primordialmente as informações sobre o inimigo. Não foi feita nenhuma  consideração a respeito da proporção entre quantidade de quarteirões a serem conquistados e pelotões disponíveis, mas sim, qual o valor do inimigo, suas características possibilidades e limitações.

Somente assim foi possível conceber que a ação de uma brigada blindada, forte em carros de combate, poderia conquistar Bagdá. Ficou evidenciado que a 2ª Brigada valorizou os princípios de guerra do objetivo, pois estava perfeitamente definido que a missão era conquistar o distrito governamental; da ofensiva por meio da execução do  próprio  Thunder Run; da manobra, ao empregar seus batalhões para conquistar diversos objetivos simultaneamente, negando ao inimigo uma reação organizada e colocando-o em posição desvantajosa.

Ao par disso, no que se refere aos fundamentos das operações ofensivas, a todo o momento era buscado o contato com inimigo, quer seja pela ação de tropas, quer seja pelo monitoramento por outros meios e exploração das suas vulnerabilidades, dois fundamentos importantes das  operações ofensivas. 

conquista dos objetivos  LARRY, MOE e CURLY,  importantes entroncamentos rodoviários contribuíram para evidenciar outro importante fundamento das operações ofensivas que é o controle de acidentes capitais, neutralizando a capacidade de reação do inimigo.

Ao empregar unidades blindadas foi possível manter  a impulsão, principalmente por conta da conjunção do fogo e do  movimento, concentrando o poder de combate no momento e local desejados. Todas essas considerações também vão ao encontro dos fundamentos das operações ofensivas.

Pode-se dizer que a organização de elementos de combate fortes em CC contribuiu para o sucesso do ataque da 2ª Brigada.  Isso por que os CC proporcionaram ação de choque e efeito psicológico. Soma-se a isso a sua capacidade de manter a velocidade e o ritmo do combate; a proteção blindada que oferecem, em função da sua blindagem ter sido modernizada para suportar as principais armas anticarros portáteis existentes e os sistemas de armas embarcados que garantem apoio de fogo imediato e preciso, de dia e de noite, e com uma grande variedade de calibres.


CONCLUSÃO 

A ação da 2ª Brigada foi inovadora por que mostrou que não só é possível empregar meios blindados em localidade, como também eles serão responsáveis por desequilibrar o poder de combate em favor de quem os emprega. 

Mais ainda, na operação quem liderava o movimento eram batalhões de carros de combate. Os seus elementos testa eram FT subunidades de carros de combate, tudo isso vai de encontro ao consenso geral de que quem deve liderar o movimento são os fuzileiros embarcados. Os fuzileiros das FT, pelo contrário, permaneciam embarcados, somente deixando a proteção de seus veículos quando o fogo inimigo se tornava intenso ou quando necessitavam manter o terreno conquistado.

Outro fator importante refere-se ao componente humano: militares adestrados, conhecedores do equipamento e do armamento e das suas interações com o do ambiente, confiantes no seu conhecimento e em suas capacidades. Esse fator, reunido sob o comando de lideranças bem preparadas e sistemas de informação eficientes, torna qualquer sistema bélico eficaz, diferentemente do Exército do Iraque.

O sucesso norte-americano se deveu também à débil resistência inimiga, indicando que ações rápidas levam a surpresa ao inimigo. Isso é possível com a conquista de objetivos específicos sem a preocupação de realizar a limpeza do terreno ultrapassado, a não ser para a sua própria segurança. A técnica do  Thunder Run se apresentou como bastante eficiente, entretanto para a realização de ações dessa natureza é importante comando e controle bem estruturado, comunicações amplas e flexíveis, constante adestramento, iniciativa e liderança em todos os níveis, flexibilidade na organização dos elementos de combate formando conjuntos de armas combinadas e material de emprego militar compatível com o ambiente urbano. 

Por fim, as Forças Armadas Brasileiras, em especial o Exército, devem considerar o modus operandi dos norte-americanos, analisando de forma bastante atenta o desencadear das ações, as condições ambientais, materiais, pessoais, de preparo e adestramento e principalmente os ensinamentos advindos da prática nos campos de batalha do Iraque para que aprimoremos a  nossa instrução, nosso preparo e o nosso emprego.