"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Arma Guiada Anticarro (ATGM/ATGW) #



Os ATGM (Anti-tank guided missile – Míssil guiado Anticarro) ou ATGW (Anti-tank guided weapon – Arma guiada Anticarro) são sistemas de armas destinados prover a infantaria de fogo anticarro a médias e longas distâncias, onde armas não guiadas leves não teriam efetividade, e vieram para ocupar o lugar dos canhões anticarro da II Guerra Mundial. 

São concebidas em tamanhos diversos, podendo ser lançadas do ombro de um soldado como FGM-148 Javelin norte-americano com alcance de 2.500 metros a sistemas mais pesados como o AGM-114 Hellfire II com alcance de 8.000 metros, que são lançados de reparos mais pesados ou montados em veículos e aeronaves. 

Estas armas, juntamente com suas pares não guiadas, deram a infantaria a capacidade de enfrentar carros blindados a distâncias maiores. Os carros de combate principais modernos (MBTs), possuem blindagens poderosas e são imunes a estas armas, porém suas lagartas ainda se mostram vulneráveis.

A II Guerra Mundial viu o nascimento desta arma de forma muito limitada, na forma do X-7 Rotkappchen alemão que podia alcançar seu alvo a cerca de 1.200 metros transportando um ogiva HEAT de 2,5 kg de HE e capaz de perfurar uma armadura de até 205 mm. Era lançado pela infantaria a partir de um trenó, guiado por fio (MCLOS) e controlado por um joystick. Pesava 9 kg e viu combate no final de 1944, em pequena escala. Sua precisão em intervalos mais longos era prejudicada pela incapacidade do operador de saber se o míssil tinha passado ou não do alvo, pelas limitações da visão humana. Girava enquanto voava e foi efetivo quanto aos número de blindados atingidos. 

Surpreendentemente não houve desenvolvimentos pelo aliados no pós guerra, sendo o primeiro míssil deste período o SS.10 francês de 1955, adotado pelos US Army. Pesava 15 kg, foi desenvolvido a partir do aprendizado com o X-7 e estabeleceu o padrão para os desenvolvimento subsequentes. Girava enquanto voava, era igualmente guiado por fios e controlado por joystick, e podia atingir seus alvos a cerca de 1.600 m. Sua ogiva de 5 kg HEAT podia perfurar armaduras de até 400 mm. Eram difíceis de operar e foram usados de forma eficaz contra os blindados egípcios pelo exército judeu.

Como o SS.10 da Nord-Aviation era um programa privado, o exército francês desenvolveu o Entac, uma arma que podia alcançar alvos a 2 km e perfurar armaduras de 650 mm, sendo menor e mais leve que seu conterrâneo. Possuia asas enflechadas, o que lhe proporcionava mais fluidez em meio a folhagem que que o SS.10 de asas de ponta cega, que se enredava nos obstáculos de voo. Foi adotado por 14 países no período de 1958 e 1974, entre eles os EUA que o utilizou como MGM-32.

Em 1951 os EUA desenvolveram o Dart de 45 kg, pesado e ineficiente foi um fracasso. Em 1958 ingleses e australianos desenvolveram o Malkara, um engenho ainda maior de 94 kg, tinha uma ogiva de 26 kg HESH desnecessária. Serviu no British Army e foi aposentado na década de 60. Em contrapartida os suecos desenvolveram o Bantam, um míssil de 8 kg, com asas dobráveis de ogiva de 2 kg HEAT. Foi um sucesso junto a infantaria, sendo adotado também pelo exército suíço.



Esta primeira geração de mísseis usavam a orientação nominada de MCLOS (Manual Command to Line of Sight – Comando manual para linha de visada). O operador deve guiar manualmente o míssil através de um controle Joystick até o mesmo atingir encontrar seu alvo, observando-o através de um conjunto ótico e visando um flare existente a retaguarda do projétil, que facilita seu acompanhamento visual. São difíceis de operar e não permitem qualquer distração sob pena de perder o míssil, sua é precisão relativa ditada pela habilidade do operador e as limitações do acompanhamento visual. 

Integram ainda esta geração de mísseis o Cobra e o Mamba Alemães, o KAM-3D japonês e o inglês Vigilant, leve e poderoso, um projeto efetivo que substituiu o Malkara no British Army, com uma ogiva HEAT de 6 kg, alcance de 1.370 m e capacidade de penetração de 576 mm de armadura.

Os russos desenvolveram o 3M6 shMet (AT-1 Snapper) MCLOS de 22 kg e ogiva HEAT de 6+ kg, alcançava 2 km e podia penetrar armaduras de 530 mm (não os 350 mm subestimados pela OTAN). O 3M11 Falanja (AT-2 Swatter-A), que foi produzido em 3 versões. Comandado por rádio MCLOS é disparado de veículos e helicópteros até o alcance de 2,2 km, pesa 25 kg e pode penetrar armaduras de 500 mm. Era complexo e de baixa confiabilidade. Foi sucedido pelo 9M17 F (Swatter B) de segunda geração com 3,5 km de alcance.


O melhor míssil dessa geração, no entanto, foi o SS.11 francês. Pesado demais para a infantaria foi feito para uso montado em veículos e helicópteros, podendo ser operado por infantes em equipes de 4. Pesava 30 kg, voava duas vezes mais rápido que o SS.10 e tinha apenas 50 cm de envergadura com asas enflechadas. Foi adotado por 35 países e chamado de M22 nos EUA.


A Nord-Aviation saiu na frente novamente e deu o passo para a geração seguinte de ATGW. Procurando superar a dificuldades de operação do sistema MCLOS, que era agravada pelo estresse de combate, foi desenvolvido um sistema onde o operador tinha apenas que manter o alvo dentro do aparelho de pontaria do lançador, alinhado em sua linha de visada. Um sensor mede a os sinais IR do míssil, calcula seu desvio em relação a visada e corrige sua trajetória, mantendo-a em direção ao alvo.


O sistema SACLOS (Semi-Automatic Command to Line of Sight – Comando Semi-automático para linha de visada) caracteriza a segunda geração dos sistemas de guiagem de mísseis. Neste sistema todas as correções de direção vertical e horizontal são calculadas automaticamente pelo processador instalado no reparo de lançamento, cabendo ao operador a bem mais simples tarefa de manter o alvo dentro do retículo de mira.

Este sistema se apresentou de 4 forma distintas: a primeira manteve a guiagem por fio (fibra ótica) que é imune a interferências eletromagnéticas mas apresenta restrições para operação em áreas restritas como florestas. pode ainda ser guiado por rádio, que livra a operação de fios que podem enroscar ou romper, mas está suscetível a interferência. 

Existe ainda a guiagem por laser onde um operador ilumina o alvo designando-o, com um feixe de laser que é buscado pela cabeça do míssil, e pode ser bloqueado por fumígenos de bloqueamento específico. Outra forma mais eficaz deste tipo de guiagem e a beam rider, onde o feixe de laser é dirigido a um receptor no míssil, que transmite as informações de correção de trajetória, sendo imune a contramedidas. A guiagem por radar também é usada em alguns modelos, onde um radar de ondas milimétricas ilumina o alvo e o míssil monta este feixe e se dirige até o alvo.

O primeiro míssil russo de 2 geração foi o 9M17P (At-2 Swatter C), que era uma versão SACLOS radar do Swatter B e podia alcançar 4 km. O 9M14 Malyutka (AT-3 Sagger) pesava 11,3 kg foi produzido em versões MCLOS e SACLOS e foi o míssil russo mais produzido de todos os tempos, causando grandes perdas aos blindados israelenses na Guerra do Yom Kippur em 1973. O 9K111 Fagot (AT-4 Spigot) alcança 2 km, pesa 12,5 kg com uma ogiva HEAT de 1,7 kg. O 9M113 Konkurs (AT-5 Spandrel) entrou em serviço em 1974, possuia uma ogiva de 2,7 kg HEAT e penetrava 680 mm de armadura. O Irã produziu uma versão chamada Tosan. O 9K114 Shturm (AT-6 Spiral) é um míssil grande de 31 kg e ogiva HEAT de 5,3 kg e penetra até 560 mm, existindo uma versão termobárica, orientação SACLOS rádio, e alcance de 5 a 7 km, feito para se usado no helicóptero Mi-24.


O primeiro ATGW desenvolvido pelo US Army foi o MGM-51 Shillelagh disparado do canhão de 152 mm do M551 Sheridan e pesava 27 kg. Possuia guiagem SACLOS e também foi usado pelo M60A2. Para a infantaria os americanos desenvolveram o M47 Dragon de 6 kg e guiagem SACLOS. O míssil definitivo para os norte-americanos foi o TOW BGM-51 um míssil de 21 kg e 3,7 km de alcance. Possui uma ogiva de 3,9 HEAT, considerada suficiente  para penetrar os blindados dos anos 80. Existem ainda o Swingfire inglês de 27 kg e 4 km de alcance; o RBS56 Bil sueco que perfura a blindagem mais fina da parte superior dos blindados, o HOT de 27 kg e o Milan de 7 kg, ambos da euromissile.

O ATGW mais importante dos EUA na atualidade é o AGM-114 Hellfire de 43 kg, feito para ser lançado dos helicópteros Apache.  Possui ogiva HEAT de 9 kg em tandem, orientação SACLOS laser e alcança 8 km, podendo calçar várias ogivas. Existem ainda outros modelos pelo mundo de desempenho semelhante.


A guiagem ACLOS (Automatic Command to Line of Sight – Comando automático para linha de visada) é considera a características de terceira geração de sistemas de guiagem de mísseis, sendo o próprio míssil encarregado de todo o procedimento pós-disparo, caracterizando os dispare e esqueça. Normalmente utilizan-se de caçeas IR e podem ser interferidos. São sistemas mais caros que os sistemas SACLOS e apresentam a vantagem do operador poder abandonar a posição após o disparo, evitando fogo de retaliação. Temos atualmente valendo-se da orientação ACLOS o FGM-148 Javelim dos EUA. O 9M123 Khrizantema russo (AT-15 Spinger) pode ser guiado pela forma SACLOS e ACLOS radar, atinge 6km, e perfura blindagens de 1200 mm ERA e possui ogiva termobárcia. Pesa 54 kg. O 9K121 Vikhr (AT-16 Acallion) é o mais novo sistema ATGW russo com 10 km de alcance, guiagem SACLOS beam rider e ogiva HEAT em tandem.
Sistemas russos (Plano Brasil)



Sistemas ATGW
  • Argentina 
    • Mathogo
    • MARA
  • Belarus
    • Shershen
  • Brasil
    • MSS-1.2
  • China
    • HJ-10
    • HJ-8
    • HJ-9
    • HJ-12
    • HJ-73
    • Tipo 98 anti-tanque de foguete
    • Tipo 78/65
  • Croácia
    • RL90 M95
  • Canadá 
    • Eryx
  • França
    • Entac
    • Eryx
    • SS.10
    • SS.11
    • MILAN
    • HOT
  • Alemanha
    • Cobra
    • Cobra 2000
    • Mamba
    • MILAN
    • HOT
    • PARS 3
  • Hungria
    • 44M húngaro
  • Índia 
    • DRDO
    • Nag
  • Irã
    • RAAD (com base na AT-3B Sagger)
    • Toophan
    • Toophan 2
    • Toophan 5
    • Saeghe 1-2
    • Towsan
    • Dehlavie
  • Israel [editar]
    • (atualizado BGM-71 TOW-2)
    • MAPATS
    • Lahat - disparadp p/ tubo do Merkava
    • Espigão
    • Nimrod
  • Itália 
    • Mosquito
  • Japão
    • Type 64 MAT
    • Type 79 Jyu-MAT
    • Type Chu-MAT
    • Type 96 MPMS
    • míssile Multi-Purpose
    • Type 01 LMAT
  • Paquistão
    • Baktar Shikan
  • Sérvia
    • Bumbar
    • ALAS (míssil)
  • África do Sul
    • ZT3 Ingwe
    • Mokopa
  • União Soviética e Rússia
    • Drakon, usado com o IT-1 tanque míssil que viu muito pouco serviço.
    • Taifun, um míssil protótipo que nunca viu a produção.
    • AT-1 Snapper (3M6 Shmel)
    • AT-2 Swatter (3M11 Falanga)
    • AT-3 Sagger (9M14 Malyutka)
    • AT-4 Spigot (9M111 Fagot)
    • AT-5 Spandrel (9M113 Konkurs)
    • AT-6 Spiral (9M114 Shturm) --lançado do ar
    • AT-7 Saxhorn (9M115 Metis)
    • AT-8 Songster (9M112 Kobra) - disparado p/ tubo doT-64 e T-72
    • AT-9 Spiral-2 (9M120 Ataka) - ar-lançado
    • AT-10 Stabber (9M117 Bastion) - disparado p/ tubo raiado do T-55
    • AT-11 Sniper (9M119M Svir / Refleks) - disparado p/ tubo do T-64, T-72 / T-80, T-84 e T-90 
    • AT-12 Swinger (9M118 Sheksna) - disparado p/ tubo do T-62
    • AT-13 Saxhorn-2 (9M131 Metis-H)
    • AT-14 Spriggan (9M133 Kornet)
    • AT-15 Springer (9M123 Khrizantema)
    • AT-16 Scallion (9A1472 Vikhr / Vikhr-M?)
  • Suécia
    • Brigão
    • BILL 1
    • BILL 2
    • MBT LEI
  • Turquia
    • Cirit (Laser Guided mísseis anti-tanque) [1]
    • Mizrak-O (Medium Faixa de mísseis anti-tanque) [2]
    • Mizrak-U (Long Range mísseis anti-tanque) [3]
  • Reino Unido
    • Malkara
    • Red Planet
    • Swingfire
    • Brimstone (lançado do ar)
    • Vickers Vigilant
  • Estados Unidos
    • M47 Dragão (já não está em serviço)
    • Javelin (em serviço)
    • SRAW (em serviço)
    • BGM-71 TOW (em serviço)
    • AGM-114 Hellfire (em serviço)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - parte 2 - As máquinas


Por Reinaldo V. Theodoro

Os alemães depositaram grandes esperanças em suas novas máquinas. A principal delas, sem dúvida, era o Panzer VI Ausf.E “Tigre”, o tanque pesado que havia sido peça fundamental no contra-ataque de Manstein poucos meses antes. O“Tigre” I que participou da batalha de Kursk pesava 56 toneladas, tinha blindagem de até 100 mm e era armado com o canhão KwK 36 L/56 de 88 mm, além de duas metralhadoras de 7,92 mm.


O Panzer V Ausf.D “Pantera” chegou a Kursk mais como uma promessa do que como uma ameaça real, pois ele ainda sofria de sérios problemas mecânicos. Ele equipou um batalhão da Grossdeutschland e a 10ª Brigada Panzer (a 2ª Divisão SS Das Reich também recebeu algumas unidades dele). Era armado com um canhão KwK 42 L/70 de 75 mm e 2 metralhadoras de 7,92 mm. Seu peso era de 45,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 100 mm.

O cavalo-de-batalha da arma blindada alemã, porém, continuava sendo o Panzer IV, então nos modelos G e H. Este era armado com um canhão KwK 40 L/48 de 75 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 23,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 80 mm, além de placas verticais de 5 mm fixadas nas laterais do chassi e da torre, para evitar armas anti-tanques de carga oca.


Apesar de obsoleto, mais de 460 Panzer III ainda estavam em serviço como tanques de 1ª linha, nas versões J, L e M, armados com o canhão de 50 mm longo. De fato, a batalha de Kursk marcou o último emprego do Panzer III como tanque de batalha, sendo relegado depois apenas para a função de apoio, tendo uma versão, a N, especialmente produzida para essa função. Era armado com um canhão KwK 39 L/60 de 50 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 22,3 toneladas e sua blindagem máxima era de 50 mm, tendo recebido também placas verticais extras de 5 mm no chassi e na torre. A sua versão de lança-chamas (Flammpanzer) também participou da batalha.


O canhão autopropulsado “Ferdinand”, baseado no protótipo recusado da Porsche para o “Tigre”, pesava 65 toneladas e sua blindagem chegava a 200 mm. Era armado com o devastador canhão Pak 43/2 L/71 de 88 mm, que podia penetrar 226 mm de blindagem a 30º à distância de 450 metros. Porém, ele não tinha armamento secundário, o que fazia dele uma presa apetitosa para os grupos de destruidores de tanques soviéticos.


O Sturmpanzer “Brummbär” era um canhão de assalto pesadamente blindado destinado à destruição de fortificações. Era armado com um obuseiro StuH 43 L/12 de 150 mm, pesava 28,2 toneladas e sua blindagem chegava a 100 mm.


Também participaram da batalha de Kursk os canhões autopropulsados de campanha “Wespe” e “Hummel”, presentes em bons números pela primeira vez, o estreante caça-tanques “Hornisse”, ao lado de modelos mais antigos como o Marder II, e o canhão de assalto StuG III.


Os aviões alemães ainda eram os mesmos tipos que participaram da “Barbarossa” dois anos antes, embora em modelos mais recentes. Os caças alemães eram principalmente o Fw 190A-5 e o Me 109G-6 “Gustav”. Entre os aviões de ataque ao solo, enquanto o novo Henschel Hs 129B, avião anti-tanque, fazia a sua estréia em bons números, o veterano Ju 87 Stuka (nas versões D e G) fazia a sua despedida da função de bombardeiro de mergulho, pois ele só podia sobreviver onde a Luftwaffe tinha a supremacia aérea, o que já estava se tornando coisa do passado. Os bombardeiros de nível ainda eram o He 111 e o Ju 88, nas versões H-16 e A-4, respectivamente.


Do lado soviético, o T-34 foi o tanque onipresente em toda a batalha. Em Kursk, o Modelo 1942, de torre hexagonal soldada, já se fazia presente em grandes números. Ele pesava 27,8 T e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 2 metralhadoras de 7,62 mm. Sua blindagem máxima, na torre, era de 65 mm.


Apesar de menos numeroso (cerca de 200 unidades em Kursk), o KV-1 ainda estava em serviço em meados de 1943, embora já estivessem em vias de produção o KV-85 (um KV com uma nova torre e um canhão de 85 mm) e seu sucessor definitivo, o JS. Ele pesava 42,5 toneladas, tinha blindagem máxima de 82 mm e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 3 metralhadoras de 7,62 mm.


Os soviéticos depositaram uma grande parcela da tarefa de deter os alemães às suas armas antitanques. Embora fossem utilizados calibres de 45 e 57 mm, o canhão anti-tanque mais importante dos soviéticos nessa ocasião era o ZiS-3 de 76,2 mm, que participou da batalha em carreta de campanha ou na versão autopropulsada, o SU-76. Este pesava 11,2 toneladas e sua blindagem máxima era de 35 mm. Equipava os regimentos de canhões AT autopropulsados e podia atuar como antitanque ou como apoio de infantaria. Lançado em janeiro de 1943, o SU-122 era um canhão de assalto baseado no chassi do T-34. Inicialmente, equipou com pequenos números os regimentos de SU-76. Era excelente contra pontos-fortes, mas não tinha bom desempenho como antitanque. Ele era armado com 1 canhão M-30S de 122 mm, tinha blindagem máxima de 45 mm e pesava 30 toneladas.


Kursk também marcou a estréia do SU-152, um SU-122 armado com canhão de 152 mm, que esteve presente em pequena quantidade. Os soviéticos contavam também com tanques leves T-70 (inúteis contra tanques) e alguns modelos fornecidos pelos aliados ocidentais, em particular o tanque médio M3 “Lee” americano e o tanque pesado Churchill britânico. Considerados muito inferiores aos seus próprios modelos, foram mesmo assim lançados em batalhas importantes como em Stalingrado e Kursk, às vezes em unidades de Guardas.


A aviação soviética finalmente começava a apresentar aparelhos tão bons quanto seu inimigo. Entre os caças, o Yak-3 fazia a sua estréia, combatendo ao lado de aparelhos como o Yak-1M, o Yak-9D e o La-5FN. O Il-2m3 “Shturmovik” era então considerado o melhor avião de ataque ao solo do mundo, armado com dois canhões antitanques de 37 mm e bombas. O versátil Pe-2 era o bombardeiro leve padrão da Força Aérea Vermelha e o Pe-8 e o DB-3F, bombardeiros de nível da Força Aérea Estratégica, também deram sua contribuição.

Parte 1      Parte 3

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - Parte 1




Por Reinaldo V. Theodoro


INTRODUÇÃO: 

A 2ª Guerra Mundial foi uma hecatombe sem paralelo na história da Humanidade. Ela representou uma violenta ruptura entre o mundo colonialista pós-revolução industrial e o atual, não apenas nos campos social, político, técnico e geográfico, mas, não menos importante, no militar. 

Neste, o grande conflito deixou claro que a máquina havia se tornado o senhor do campo de batalha. Movendo-se no solo ou sobrevoando-o, atacando ou defendendo, a máquina de guerra tornou-se o fator determinante na definição do vencedor. E a vitória sorriria certamente para o lado que soubesse dispor melhor de suas máquinas em função de sua qualidade, quantidade e organização. E embora os combates corpo-a-corpo, idênticos aos travados durante séculos, ainda acontecessem, as batalhas decisivas foram feridas entre homens que não viam os rostos dos homens que estavam matando. 

Nesse aspecto, a batalha de Kursk é um clássico. Poucas vezes na História, dois exércitos se lançaram com todos os seus meios materiais numa batalha de “tudo ou nada” como essa. Uma batalha em que o primordial não era conquistar ou matar, mas simplesmente destruir as máquinas inimigas. Mais de 10.000 engenhos blindados (entre tanques, canhões autopropulsados e transportes blindados) se chocaram numa orgia de destruição sem precedentes. Do desfecho dessa batalha, dependia o resultado da luta no front russo. Do resultado da luta no front russo, dependia a vitória ou a derrota na guerra. 

A vitória ou a derrota na guerra definiria como a Europa – e o mundo – viveriam as décadas seguintes. Neste aspecto, Kursk pode mesmo ser considerada uma batalha mais importante que Stalingrado ou que toda a campanha do Mediterrâneo. E, no entanto, sem que ninguém soubesse, já estava decidida desde o primeiro disparo. 



PRIMÓRDIOS:

No verão de 1943, parecia que a Alemanha havia se recuperado do desastre de Stalingrado. Durante fevereiro e março de 1943, a brilhante contra-ofensiva de Manstein havia recuperado Kharkov, detido a ofensiva de inverno soviética e estabilizado a linha alemã. O Alto Comando alemão decidiu então manter a iniciativa, realizando uma nova ofensiva. 

Em 13/03/43, a diretiva para a campanha de verão foi emitida. Ela mencionava que os soviéticos certamente atacariam durante os meses de verão e, portanto, a Alemanha teria que realizar uma ofensiva preventiva. O ponto escolhido era o saliente de Kursk, um bolsão com 175 km de extensão em sua base por 135 km de profundidade. Por vários aspectos, a decisão de atacar ali é bastante compreensível. O saliente de Kursk era um trampolim perfeito para o lançamento de futuras operações dos soviéticos, mas estes só recentemente haviam ocupado a região e ainda estavam consolidando o seu perímetro de 580 km. 

Além disso, o ataque, que recebeu o nome código de Fall Zitadelle (“Operação Cidadela”), não foi planejado originalmente para ser um ataque decisivo. Ele seria apenas um de uma série de ataques locais ao longo do front russo.

Contudo, com o passar do tempo, “Cidadela” recebeu cada vez mais prioridade, sendo destinados a ela mais e mais recursos. Tendo em vista a resistência esperada, considerou-se essencial a concentração do maior número possível dos novos blindados, ainda saindo das fábricas. Isso provocou meses de atraso. Se realizada na primavera, ela teria boas condições de sucesso. Mas, quando foi desencadeada, em julho, a situação no bolsão de Kursk havia mudado drasticamente.

A “Cidadela” foi controversa desde a sua concepção. O General Heinz Guderian, Inspetor-Geral das Tropas Blindadas, não queria nenhuma ofensiva em 1943, visando a plena recuperação da arma blindada alemã; o General Alfred Jodl, Chefe do Estado-Maior do Alto Comando alemão (OKW), queria manter suas reservas à mão para responder aos possíveis movimentos dos aliados ocidentais no Mediterrâneo. Do outro lado, o General Kurt Zeitzler, Chefe do Estado-Maior do Exército (OKH) e os Marechais Erich von Manstein e Günther von Kluge, comandantes, respectivamente, do Grupo-de-Exércitos Sul e do Grupo-de-Exércitos Centro, eram favoráveis a ela. Em face da divergência de seus conselheiros, Hitler adiou a decisão. Ele mesmo chegou a admitir que toda vez que pensava no assunto sentia o estômago embrulhado. O mês de abril passou e nada aconteceu. Após mais alguns adiamentos, a decisão foi tomada a 01/07/43, quando Hitler deu a ordem para iniciar a operação a 05/07/43.


Os soviéticos aproveitaram muito bem a indecisão alemã. Eles haviam recebido informes precisos das intenções inimigas de diversas fontes:  “Lucy”, um espião que agia na Suíça e que recebia informações diretamente de oficiais antinazistas nos altos escalões alemães; o Primeiro-Ministro inglês Winston Churchill, que retransmitia os informes da “Ultra” para os soviéticos (embora sem mencionar a fonte); e do próprio serviço de inteligência soviético, que, por sua vez, capturara máquinas de criptografia “Enigma”.

A questão passou então a se decidir entre esperar o ataque alemão e detê-lo ou atacar primeiro e esvaziá-lo. Os soviéticos decidiram pela primeira opção. Reforçaram e fortificaram o saliente como nunca antes se fizera no front russo. O plano prescrevia que os atacantes seriam desgastados ao máximo e então reservas frescas seriam lançadas numa ofensiva própria, que teria todas as probabilidades de sucesso, uma vez que as reservas alemãs estariam então empenhadas ou destruídas. Mas o sucesso desse plano dependia do Exército Vermelho ser capaz ou não de absorver o impacto da ofensiva alemã. 



OS ATACANTES:

O plano alemão era o tradicional (e manjado) ataque de pinças na base do bolsão, simultaneamente ao norte e ao sul dele. O ataque ao norte seria desfechado pelo 9º Exército, do General Walther Model, parte do Grupo-de-Exércitos Centro. Ele contava com 6 Divisões Panzer, 1 Panzergrenadier e 15 de infantaria, além de um regimento com 90 dos novos canhões autopropulsados “Ferdinand” (656º), um batalhão de “Tigres” (505º) e um batalhão do novo canhão de assalto “Brummbär” (216º). 

Ao todo, ele contava com 1.079 blindados de todos os tipos (excluindo transportes e carros blindados). O 9º Exército tinha ainda 3 companhias de veículos de demolição Borgward B.IV e 2 de “Goliaths” (usados para abrir passagem nos campos minados). Encarregado do ataque ao ombro meridional do bolsão, o Grupo-de-Exércitos Sul, do Marechal Manstein, empregaria o 4º Exército Panzer do General Hermann Hoth e o “Destacamento Kempf”, do General Werner Kempf. Essas forças englobavam 5 Divisões Panzer, 4 Panzergrenadier  e 11 de infantaria, além de uma brigada com 200 dos novos tanques “Pantera” (10ª), um batalhão de “Tigres” (503º) e um batalhão de destruidores de tanques “Hornisse” (560º), totalizando 1.581 tanques e canhões de assalto (incluindo 30 tanques lança-chamas Panzer III “Flammpanzer”).

O poderio das divisões blindadas alemãs então variava muito. Enquanto  a 18ª Divisão Panzer somava míseros 75 tanques (dos quais 43 obsoletos), a 3ª Panzergrenadier SS Totenkopf contava com 183 máquinas, incluindo uma companhia com 15 “Tigres".

Ao todo, seriam 900.000 homens, 2.700 tanques e canhões de assalto (63% de todos os blindados  alemães no front russo) e 10.000 canhões. A Luftwaffe tinha então cerca de 1.830 aparelhos em operação na área, divididos entre a Fliegerdivision 1, ao norte, e a Luftflotte IV, ao sul.


OS DEFENSORES:

Poucas vezes na história das guerras, um exército teve tanta antecipação dos planos inimigos e se preparou tanto e tão detalhadamente quanto o soviético para a Batalha de Kursk. Cerca de 300.000 civis foram convocados para trabalhar nas posições defensivas, cavando mais de 5.000 km de trincheiras. As linhas soviéticas foram preparadas com profundidades de dezenas de quilômetros em alguns pontos. Foram organizados vários cinturões de defesa, que consistiam de pontos fortes pesadamente protegidos, com canhões anti-tanques, morteiros e artilharia. 

Diante desses pontos, extensos campos de minas impediam qualquer tentativa de manobra. Dentro do bolsão, o flanco norte era responsabilidade da Frente Central, do General K. R. Rokossovsky, que contava com cinco exércitos de fuzileiros  (13º, 48º, 60º, 65º e 70º), um de tanques (2º) e um aéreo (16º), além de dois corpos de tanques. 

A Frente Central contava com 1.647 veículos blindados de combate de todos os tipos, dos quais 1.155 eram tanques médios e pesados. A aviação contava com 455 caças, 241 aviões de ataque ao solo e 260 bombardeiros diurnos. O flanco sul era defendido pela Frente de Voronezh, do General Nikolai Vatutin, também composto por cinco exércitos de fuzileiros (38º, 40º, 69º, 6º de Guardas e 7º de Guardas), um de tanques (1º) e um aéreo (2º), além de dois corpos de tanques de guardas, totalizando 1.843 blindados de todos os tipos, dos quais 1.621 eram tanques médios e pesados. 

A sua aviação contava com 389 caças, 276 aviões de ataque ao solo e 172 bombardeiros diurnos. Além disso, as duas frentes teriam o apoio do 17º Exército Aéreo da Frente Sudoeste e da Força Aérea Estratégica.

Atrás dessa formidável defesa, estavam as forças da Frente da Estepe, do Coronel-General Ivan S. Konev, destinadas a contra-atacar qualquer penetração que os alemães conseguissem ou lançar uma ofensiva própria, conforme as circunstâncias.

Era composta por cinco Exércitos de fuzileiros (27º, 47º, 53º, 4º de Guardas e 5º de Guardas), um de tanques (5º de Guardas) e um aéreo (5º), além de um corpo de cavalaria. A Frente da Estepe tinha ao todo 1.701 veículos blindados, dos quais 1.380 eram tanques médios e pesados.

Toda a batalha estaria sob o controle direto do Marechal Georgi K. Zhukov, provavelmente o militar de folha de serviços mais brilhante da 2ª Guerra Mundial, sem ter uma única derrota em seu rol a partir da batalha de Khalkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Ao todo, estariam diante dos alemães, somente dentro do bolsão de Kursk, cerca de 1.340.000 homens, 3.300 tanques e canhões de assalto, 2.650 aviões, 13.000 canhões de campanha e morteiros, 6.000 canhões anti-tanque e 920 lançadores de foguetes (o famoso “Katyusha”).



AS TÁTICAS:

A tática favorita dos comandantes de blindados alemães era a “Panzerkeil” (Cunha Blindada), uma formação de vários “V” sucessivos, onde os blindados mais pesados avançavam no “V” da vanguarda, com o vértice apontado para a frente, permitindo que os tanques dotados de blindagens mais pesadas – e que suportariam melhor os golpes das defesas – proporcionariam a ruptura da linha inimiga, permitindo então que os blindados mais leves e a infantaria, vindo atrás, aproveitassem para efetuar a consolidação do terreno e a exploração. 

Esta foi a tática adotada pelo Grupo-de-Exércitos Sul. As divisões blindadas de Manstein tinham frentes de apenas cerca de 3 km, o que lhes permitia uma concentração de 30 a 40 carros por quilômetro. Além disso, como a velocidade era essencial, ele deu ordens para não parar nem mesmo para socorrer tripulações de tanques imobilizados (o que se revelou uma sentença de morte para muitas delas). 


Já o 9º Exército, ao contrário, estava bastante ciente de que teria pela frente fortes defesas antitanques. Model apostou suas fichas no trabalho das equipes infantaria-tanques, no emprego maciço de artilharia e no metódico trabalho de eliminação dos pontos-fortes, para só então lançar suas reservas blindadas. Ele tinha menos blindados que seus compatriotas no sul e havia recebido os mais novos canhões de assalto de apoio à infantaria (o “Ferdinand” e o “Brummbär”). Desse modo, a abertura do ataque se faria com nove divisões, reforçadas com canhões de assalto, das quais somente uma era Panzer (a 20ª). As tropas alemãs de todas as armas foram submetidas a intenso treinamento nas semanas que precederam a batalha, utilizando, inclusive, tiro real e campos minados soviéticos reais. 


Os soviéticos, por sua vez, consideravam que toda defesa era, primordialmente, anti-tanque. Eles desenvolveram a técnica defensiva usada pelos alemães conhecida como “Pakfront” (Frente de Canhões Anti-Tanques). Cerca de dez canhões anti-tanques, normalmente de 76,2 mm, eram agrupados em posições fortificadas, cobrindo a frente de vários ângulos diferentes, mutuamente apoiados e perfeitamente camuflados. 

No apoio a eles havia infantaria, morteiros e artilharia de campanha. E, à frente e em volta deles, havia extensos campos minados (ao todo, foram instaladas 503.663 minas anti-tanques e 439.348 minas anti-pessoal ao longo do bolsão). A densidade dos campos minados chegava, em alguns pontos, a 1.700 minas anti-pessoal e 1.500 antitanque por quilômetro de frente. Além disso, havia destacamentos de engenharia que implantariam campos minados novos à frente de unidades inimigas que penetrassem a linha principal. 


A primeira tarefa dos alemães, portanto, era abrir caminho nos campos minados. Mas os sapadores alemães tinham dificuldades extras. Eles não podiam utilizar detetores de metal, pois os soviéticos utilizavam muitas minas de madeira e papelão. Para piorar as coisas, a região de Kursk é rica em magnetita, a tal ponto que as bússolas não funcionavam direito ali. Com isso, os detetores de minas também não funcionavam, de forma que os alemães teriam que remover as minas literalmente “à unha”.

Havia também os grupos de destruidores de tanques, equipados com fuzis anti-tanques (já obsoletos, mas ainda úteis contra blindados mais leves), minas magnéticas, “coquetéis Molotov” e cargas explosivas. Enquanto os morteiros, as metralhadoras e a artilharia de campanha mantinham a infantaria longe dos seus tanques de apoio, esses grupos aproximavam-se pelos seus ângulos mortos e usavam todos os seus recursos para incapacitar o blindado inimigo. 

Como os alemães, as tropas soviéticas também foram submetidas a treinamento, incluindo as unidades que mantinham a linha de frente, através do rodízio de pequenas unidades. A ênfase de todo o treinamento era a destruição de blindados, a ponto de Krushchev, futuro premier soviético, mas então membro do Soviet Militar da Frente Central, ter declarado que todo soldado devia saber os pontos fracos do tanque “Tigre” tão bem como sabia o “Pai Nosso”.

Os soviéticos também realizaram um prodigioso trabalho de camuflagem, tanto escondendo instalações reais quanto criando posições falsas. Diversos relatos da batalha dão conta de que os atacantes só descobriam estar num campo minado ou próximo a um ponto forte depois que o primeiro tanque explodia.

Os soviéticos, porém, cometeram um pequeno equívoco: concluíram que o esforço principal alemão seria no norte, tendo aí concentrado mais meios que no sul. Mas, em vista das maciças concentrações de recursos em todo o bolsão, esse erro foi quase insignificante. 

Em ambos os ombros do saliente de Kursk, os soviéticos desfrutavam de superioridade numérica em todos os aspectos. No norte, os defensores tinham uma superioridade de 2:1 em artilharia e de 3:2 em blindados. No sul, a superioridade era de 7:3 em artilharia e de quase igualdade em tanques (sem contar com a Frente da Estepe).

Havia ainda a agravante de que a maioria dos tanques soviéticos era o famoso T-34, em contraste com a maioria de Panzer III e IV dos alemães. E embora os novos blindados dessem aos germânicos a superioridade técnica sobre os soviéticos pela primeira vez desde o começo da guerra, não havia número suficiente deles para compensar as massas de T-34 que logo seriam jogadas contra eles. 

Parte 2 - As Máquinas

Ogivas Militares (Warheads) - Parte 1 #


Ogivas militares são a componente de qualquer tipo de munição que causam os efeitos no alvo, de acordo com a finalidade a que foi projetada. Também denominadas cabeças de guerra, podem ser o projétil de um cartucho de arma leve ou a ogiva termonuclear de um ICBM, e são a razão de ser das munições militares. Elas cumprem seus papéis montadas em diferentes níveis de sofisticação tecnológica e complexidade, obedecendo concepções variadas, cada qual cumprindo com sua finalidade específica. 

Armas Leves

As ogivas de armas leves são os tipos mais simples dentre todas. Causam seus efeitos através da transmissão de energia cinética do projétil ao alvo e sua potência é obtida pela razão da massa do projétil multiplicada pelo quadrado da sua velocidade no momento do impacto, com algumas variações.

Devido ao seu pequeno tamanho, geralmente carregam pouca sofisticação tecnológica consigo, sendo seu desenvolvimento geralmente agregado ao calibre a que pertencem, a carga de projeção que a impulsiona e as armas que a disparam, fatores estes externos a ogiva em si. Apesar de pequenas e simples, estas ogivas, denominadas projéteis, ainda assim são concebidas em tamanhos e constituições diferentes. 



A seguir estão listadas diversas configurações de projéteis de armas leves:

  • Projéteis de chumbo ou cobre: Os projéteis em geral são feitos de chumbo ou cobre por serem metais mais "moles" que o aço que constitui a alma do cano das armas que os disparam, provocando dessa forma pequeno desgaste nestes. Os projéteis de chumbo são mais toscos e baratos que os de cobre, sendo estes mais usados em munição militar por serem de maior qualidade. O estanho também é usado em armas civis. Os projéteis podem ainda ter núcleos de metal duro (carbeto de tungstênio ou aço) e revestidos de chumbo ou cobre (metais moles) a fim de não desgastar a alma do cano.
  • Projéteis de ponta oca: o mesmo que projéteis expansivos.
  • Projéteis expansivos: são projéteis de ponta oca que se fragmentam ao atingirem o alvo, produzindo maior dano. São proibidos pela legislação da Convenção de Genebra.
  • Projéteis encamisados: são projéteis cujo núcleo mais pesado é recoberto por uma camisa ou jaqueta de outro material como o cobre por exemplo. Este encamisamento visa submeter a almo do tubo/cano a um menor estresse (desgaste).
  • Projéteis perfurantes: Projéteis perfurantes são projéteis constituídos de material muito duro como o aço e o tungstênio e destinam-se a atravessar facilmente os alvos que atingem. Devido a dureza deste material são capsulados (encamisados) por materiais mais "moles" como o teflon a fim de provocarem pouco desgaste ao cano da arma.
  • Projéteis Traçantes: São projéteis construídos com uma pequena quantidade de fósforo na base ou na ponta do projétil, que se incendeia quando do disparo, seja pela combustão da pólvora ou o atrito com o ar, deixando um rastro luminoso ao longo de sua trajetória.
  • Projéteis Incendiários: Projéteis destinados a provocar a ignição de materiais presentes no alvo. Projéteis comuns de cobre ou chumbo não produzem efeitos incendiários porque estes metais não produzem faíscas. Estes projéteis podem conter pequenas quantidades de fósforo ou alumínio.
Existem ainda projéteis constituídos pela combinação de dois ou mais dos listados acima.


Granadas de Tubo

Denominamos granada a um invólucro recheado de material explosivo que o arrebenta quando de sua detonação. Granadas de tubo são as ogivas de todas as armas de grosso calibre que são detonadas quando de seu impacto junto ao alvo. Algumas das ogivas aqui listadas não são granadas verdadeiras, como as munições APFSDS, mas estão listadas por afinidade.

Uma granada de tubo é projetada em sua trajetória tal qual os projéteis das armas leves, porém são mais complexos que estes, pois carregam além de seu invólucro, explosivos e espoletas com diferentes níveis de sofisticação. A seguir estão listados diversas configurações de granadas de tubo:
  • Granadas de Fragmentação: Ogiva que causa seus efeitos pela fragmentação de seu invólucro de metal duro, ou pela dispersão de balins contidos nela.
  • Granadas Iluminativas: Granada usada na artilharia sem efeito letal, que destina-se a prover iluminação a frente de batalha. Arrebentam a certa altura acima das tropas e descem vagarosamente em pequenos paraquedas, queimando um material de pirotecnia que causa um efeito fantasmagórico, permitindo a visualização de silhuetas em noites escuras.

  • Munição APFSDS: Esta munição atua através da transferência de grande quantidade de energia cinética ao alvo, através de um projétil não explosivo de altíssima densidade, ao qual é imprimida enorme aceleração. Também conhecida como munição tipo flecha, é a munição padrão anti-tanque usada atualmente. Seu disparo envolve pressões altíssimas e só pode ser feito por tubos especialmente projetados (não pode ser usada em armas portáteis).

  • Munição HE (alto-explosivo): É o tipo mais comum de granada de tubo. Constituída por um invólucro de aço pré-fragmentado (granada de fragmentação) preenchido com alto-explosivo de vários tipos. Pode se equipada com espoleta de impacto que detona ao contato, ou de retardo que detona após alguns segundos do impacto, ou ainda de tempo que detona no instante programado, estas últimas usada nas granadas de artilharia de campanha. Granadas usadas como munição antiaérea podem ser equipadas com espoletas de proximidade que não precisam atingir a aeronave para detonarem, bastando que passem próximas.


  • Munição HEAT: Munição que utiliza o efeito Munroe para causar seus efeitos, também conhecida como munição de carga oca e utilizada intensivamente nas armas anticarro portáteis, mas também presente em granadas anticarro de tubo. Compõe-se de um bloco de cobre moldado em forma cônica, com seu vértice apontando para atrás e rodeado de um explosivo. Ao impactar a espoleta contra o metal a determinada distância, o explosivo detona e funde o conteúdo de cobre (desde o centro do vértice orientado para atrás a sua base orientada à frente), em seu interior enviando um jato de metal quente contra a blindagem, que inverte o cone e direciona o jato em uma pequena área, que se rompe em partes diminutas; a qual se expande a grande velocidade, provocando um efeito de metralha. É especialmente efetiva contra blindagens de carros leves, sendo pouco efetiva contra MBTs e blindagens reativas.

  • Munição HESH (High Explosive Smashing Head): Alto Explosivo de Ogiva Deformável. Também conhecido como HEP (Alto Explosivo Plástico), este tipo de munição atinge as blindagens mas não chega a perfurá-las, espalhando-se na sua superfície e transmitindo uma onda de choque ao interior do veículo, que causa o desprendimento de partes do interior, causando danos pessoal e material. Este tipo de munição não é eficaz contra as blindagens modernas, sendo mais adequada ao emprego contra veículos de blindagem leve e infantaria. Não exige grandes velocidades iniciais de disparo, mas requer armas com alma raiada para sua estabilização
  • Ogivas Termobáricas: São ogivas que produzem um onda de choque significativamente maior que as explosões convencionais, por um tempo prolongado. Estes explosivos consomem o oxigênio da atmosfera, matando por asfixia e efeitos de subpressão mesmo quem estiver abrigado do efeito da explosão, enquanto que os explosivos convencionais trazem o seu próprio. Peso por peso são significativamente mais potentes e sua eficiência é potencializada em ambientes fechados como túneis, bunkers e cavernas. Também são conhecidos como FAE (fuel air explosives - explosivos combustíve;/ar). Não podem ser usados em ambientes submarinos, grande altitudes ou em condições atmosféricas adversas. Seu uso principal é antipessoal, mas causa danos também as estruturas.
Ogivas de Mísseis - Parte 2 - em breve

domingo, 20 de janeiro de 2013

Operações Aéreas em Conflitos de Baixa Intensidade #


O Caso da Chechênia

TIMOTHY L. THOMAS

CONFLITOS RECENTES na Chechênia e na Bósnia indicam que, no futuro imediato, conflitos de baixa intensidade (CBI) predominarão em vez de cenários de operações de grande intensidade do tipo da Operação Tempestade no Deserto. 

A triste realidade é que essas escaramuças, de acordo com o General R/R Charles Boyd, da Força Aérea dos EUA, “não podem produzir uma solução duradoura mediante força militar — de terra ou ar — mas apenas uma solução que dure até a força retirar-se” e que “depender exclusivamente do poder aéreo — a opção de ataque — nesse tipo de terreno, com tais tipos de alvos, jamais sustentou qualquer promessa real de resolução de conflito”.

Os comentários de Boyd parecem aplicar-se ao conflito de dezembro de 1994 a agosto de 1996 entre a Rússia e as forças rebeldes da Chechênia. Aqui, um dos combatentes era uma antiga superpotência e o outro uma flácida coleção de rebeldes munidos apenas de armas terrestres. 

Sem ter de fazer frente a qualquer outra ameaça aérea que não a antiquada artilharia antiaérea ZSU-23/4, a Força Aérea russa, embora eficaz, não foi capaz de causar um impacto significativo no curso e no resultado da luta. Como observou Ben Lambeth, analista da RAND,
A guerra da Rússia contra a Chechênia foi símbolo dos desafios relacionados com a segurança que a Força Aérea deverá mais provavelmente enfrentar na próxima década. A guerra foi regional, mas distante do centro da Rússia. Mostrou um inimigo tecnologicamente pouco sofisticado, mas ao extremo obstinado do ponto de vista étnico. Não apresentava qualquer ameaça ar-ar e oferecia um ambiente que lhe permitia atacar apenas aeronaves que voassem a baixa altura.… Finalmente, não consistiu em uma Força Aérea oponente ou em um conjunto de alvos e, consoantemente, não impôs grandes exigências à Força Aérea em termos de desempenho de alta tecnologia. No todo, a despeito do uso ocasional eficaz de armas dirigidas de precisão contra alvos-chave, a quantidade prevaleceu contra a qualidade nas operações da Força Aérea na Chechênia.
A breve avaliação aqui desenvolvida examina dois aspectos das operações aéreas na Chechênia. Primeiramente, concentra-se em quais táticas e operações funcionaram (dentro do contexto das Forças Armadas russas so-frendo severos reveses financeiros e relacionados com equipamento que muito limitam o treinamento para operações dessa natureza). Em segundo lugar, examina quais aeronaves apresentaram melhor desempenho no conflito — de asas rotativas ou de asa fixa.




A Ameaça Aérea

A Chechênia, república localizada no extremo sudoeste da Rússia, entre o Mar Cáspio e o Mar Negro (região do Cáucaso naquele país), na realidade começou a afastar-se da Rússia em 21 de agosto de 1991 (dois dias depois do Golpe de Agosto na antiga União Soviética) e declarou sua independência da Rússia em 6 de setembro de 1991. 

Dzhokhar Dudayev, antigo general da Força Aérea soviética, fora convidado a assumir o posto de presidente pelo Congresso Amalgamado do Povo Checheno da Estônia (onde alguns chechenos viviam em exílio). Mais tarde, ele foi eleito por voto popular, tornando-se defensor da libertação da Chechênia frente à Rússia. 

Muitos russos no regime então corrente consideraram as eleições ilegais e, portanto, caracterizaram como ilegítima a presidência de Dudayev. O Quinto Congresso Russo de Deputados do Povo não apenas decretou as eleições ilegais, mas também declarou que o regime de Dudayev era inconstitucional.

Na segunda metade de 1993, desenvolveu-se uma oposição a Dudayev na Chechênia, que se transformou numa guerra de guerrilha em pequena escala. Na primavera de 1994, a oposição a Dudayev recorreu ao apoio da Rússia, para ajuda no estabelecimento da ordem constitucional. A Rússia assentiu. Em novembro de 1994, a força de oposição a Dudayev, apoiada pelos serviços de segurança russos, conduziu um ataque para depor Dudayev.

A operação fracassou de modo desolador e a Rússia decidiu intervir militarmente.

No início do conflito entre a Chechênia e a Rússia, o presidente checheno Dudayev dispunha de quase 265 aeronaves. Quase a metade da força tinha sido deixada pelo Exército russo quando evacuou a República Chechena em 1992. 

As aeronaves abandonadas incluíam 80 aeronaves de treinamento de combate Delfin L-29, 39 aeronaves de treinamento Albatross L-39, três caças MiG-17, dois MiG-15UTI, bem como seis An-2 e dois helicópteros Mi-8.

Apenas cerca de 40 porcento da força, contudo, encontrava-se disponível para o combate. De acordo com fontes russas, aeronaves de reconhecimento Su-24mr observaram a preparação ativa das aeronaves de Dudayev para o combate iminente, em novembro de 1994.

Isso fez com que a Rússia se antecipasse aos preparativos da Chechênia por meio de ataques preventivos a aeródromos na manhã de dezembro de 1994 com aeronaves Su-25 (alguns afirmam que também houve a participação de Su-27).

As aeronaves chechenas presumivelmente apresentavam uma ameaça tanto para as operações iminentes de unidades terrestres quanto para a população civil da Federação Russa por duas razões:

  1. sua capacidade potencial de conduzir ataques estilo Kamikaze contra usinas nucleares ou de energia russas (enchendo aeronaves de treinamento com explosivos e as lançando contra as estruturas; a presença de um assento de ejeção nessas aeronaves permitiria aos pilotos chechenos transformá-las em mísseis de cruzeiro de facto); 
  2. sua capacidade de lançar bombas sobre as forças russas que avançavam, desbaratando seu movimento. Para fazer face a esta ameaça, a Rússia tentou destruir os meios aéreos da Chechênia nas próprias pistas e, quando a guerra alastrou-se além de Grosny, usar a Força Aérea e a aviação do Exército em missões de apoio aéreo aproximado (ApAeAprx) e de interdição, incluindo o bombardeio de pequenas cidades. A Força Aérea também bombardeou Grosny em apoio à forças de combate lá presentes, transformando visualmente a cidade em uma segunda Stalingrado.
Os russos reuniram suas forças inicialmente em aeródromos situados no Distrito Militar do Norte do Cáucaso, com a maior parte das aeronaves fornecidas pelo Quarto Exército Aéreo. Empregaram aeronaves provenientes das aviações tática (de alto desempenho), do Exército e das forças internas.

Cada uma tinha seu próprio corredor aéreo, falando em sentido figurado, e realizava suas próprias missões. As aeronaves incluíam 140 aviões de combate (Su-25, Su-22M e Su-24), 55 helicópteros (Mi-24, Mi-8 e Mi-6) e aeronaves de transporte militar (An-12, An-22, An-124 e Il-76). O Ministério de Assuntos Internos (MVD) contribuiu com 12 helicópteros Mi-8MT.



As armas antiaéreas chechenas incluíam lançadores antiaéreos móveis ZU-23-2 montados em chassis KamAZ e metralhadoras DShK montadas em jipes Cherokee e veículos de trilha Toyota. Também se relatava disporem de canhões antiaéreos ZSU-23/4 e Strela-3, Igla-1, bem como sistemas de mísseis superfície-ar (SAM) Stinger. Os chechenos também utilizaram lançadores portáteis de granadas anticarro contra helicópteros e aeronaves em vôo a baixa altura.

Para impedir Dudayev de construir uma ponte aérea com um país como a Turquia, a Força Aérea russa utilizou aeronaves A-50 dotadas de sistema aerotransportado de controle e alerta antecipado (AWACS), de dois a seis MiG-31 e aeronaves Su-27 para conduzir patrulhas de combate e servir de cobertura aérea. Por tudo o que aparenta, não foram desafiados e obtiveram êxito.



A Operação Aérea

O desempenho das aeronaves de asas rotativas e de asa fixa na Chechênia situou-se abaixo das expectativas contra aquela força levemente armada. Os problemas comprometedores do desempenho das Forças Armadas incluíram terreno bravio, severas condições climáticas, falta de tempo de treinamento, equipamento velho e estoques de suprimentos insuficientes — todos os quais limitaram enormemente a eficácia das operações aéreas.

Os pilotos russos tentaram compensar tais limitações com iniciativa e ajustes após os estágios iniciais da luta. Novos métodos foram encontrados para a busca de alvos bem como para determinar a combinação correta de armas. Ajustes também foram feitos na tática e nas técnicas de vôo CBI contra alvos móveis que se ocultavam em meio à população civil. 

Isso foi de pouca valia para limitar baixas civis, contudo, já que as ofensivas terrestres ocorreram sem o processamento prévio dos alvos a serem atacados a partir do ar. Como resultado, a razão de mortes entre civis e “rebeldes” foi quase de oito por um, segundo Alexander Lebed, antigo chefe do Conselho de Segurança.

Um analista russo observou que a Força Aérea russa aparentemente aprendeu muito pouco das operações aéreas da Tempestade no Deserto. A concentração na força aérea de Dudayev desviou a atenção da destruição das instalações administrativas e de comando e controle (C2) militar, nós de comunicação e elementos-chave da infra-estrutura da Chechênia. A maior parte das pessoas acreditavam tratar-se isto de uma falha de planejamento e informações por parte do quartel-general do Distrito Militar.

Outra observação foi a de que tal ambiente CBI oferecia as mesmas oportunidades para o emprego de meios de guerra de informação que oferecem os conflitos de grande escala. Por exemplo, uma recomendação no início do conflito exigia o aumento apreciável do papel das unidades de guerra eletrônica (GE) e a criação de um total vácuo de informação em torno da Chechênia. 

Outra instava pelo uso de interferidores portáteis perto das bases dos guerrilheiros e a supressão de canais de comunicação por satélite. Os comandantes eram instados a treinar, equipar e lançar por ar grupos de incursão e reconhecimento na retaguarda dos chechenos para desagregar linhas de comunicação; além disso, deviam utilizar aeronaves ao máximo possível para conduzir ataques contra guerrilheiros que utilizavam armas autoguiadas (do tipo atirar e esquecer) ou armas guiadas de precisão.


Os chechenos, no entanto, conduziram as mais poderosas operações de informação através de meios de comunicação de massa, mobilizando a opinião local e ao mesmo tempo abatendo o moral da população russa. Como observou o chefe do Serviço Federal de Segurança da Rússia, “Sim, as autoridades russas perderam a guerra de informação.… O quão esplendidamente está operando o ministro de informação checheno, Movladi Udugov; o quão hábil e apto ele se mostra ao alimentar a imprensa com todos os tipos de mentiras, distorções e falsas representações dos fatos!”

De fato, o uso alegado de técnicas de guerra de informação finalmente permitiu à Força Aérea russa eliminar o presidente Dudayev. Em abril, enquanto falava em um telefone celular, ele, segundo se relata, foi localizado por uma aeronave A-50 russa (o AWACS russo), que é capaz de buscar duzentos alvos ao mesmo tempo. O A-50 repassou a informação a uma aeronave Su-25 de ataque ao solo que sob suas asas dispunha de bombas a laser e guiadas por vídeo. Uma foto tirada a partir da ogiva no momento em que esta se aproximava de Dudayev foi impressa no jornal Argumenti I Fakti, uma publicação que se acreditava manter laços estreitos com o sistema de inteligência russo.




Aeronaves de Asas Rotativas


A Rússia reuniu perto de 55 helicópteros no início do conflito. Em torno do final de março de 1995, o número subiu para 105, incluindo 52 Mi-24. Uma esquadrilha de Mi-9 de C2 foi também relatada como presente. Cinco helicópteros (dois Mi-8 e três Mi-24) foram perdidos em conseqüência do fogo inimigo nos primeiros três meses do conflito.

O Coronel General da Aviação Vitaliy Pavlov, comandante da aviação de tropa terrestre (um elemento independente da Força Aérea), desempenhara missões no Afeganistão e fora agraciado com a medalha de Herói da União Soviética por sua bravura. Também desempenhou missões na Chechênia. Pavlov notou que o grupamento da aviação de helicópteros era primordialmente utilizado para transportar tropas e evacuar doentes e feridos, no início do conflito. Também dava apoio aos movimentos das colunas e agiam como elos de comunicação, mas apenas raramente serviam como helicópteros de ataque — e nunca bombardearam alvos em Grosny. Inicialmente, apenas os pilotos mais experientes participaram.

O terreno da Chechênia, montanhoso ao sul e nas bordas, alterna-se com planícies ao longo do centro do país. Assim, os pilotos podiam aplicar tanto manobras de aproximação do alvo a coberto pelo terreno, como no Afeganistão (para as montanhas), quanto manobras padrão de estande de tiro (para as planícies). A tática dos pilotos incluía voar em direção aos alvos a altitudes extremamente baixas e a velocidades muito altas, limitando, dessa forma, a detecção visual e o tempo de resposta dos chechenos; aproximar-se dos alvos a partir de várias direções; fazer manobras bruscas antes da aproximação do alvo; abandonar a baixa altura; oferecer cobertura mútua de fogo; e empregar equipamento GE (bem como flares e outros dispositivos).

Para os pilotos russos, não houve ataques por meios simulados, tais como aqueles conduzidos pelas forças de coalizão na Bósnia (usando o software de imagem PowerScene).

Os helicópteros integraram ataques em coordenação com a aviação tática. Algumas vezes, helicópteros Mi-24 e aeronaves Su-25 conduziram operações contra fortificações dos guerrilheiros. Helicópteros do exército também operaram isoladamente em modo conhecido como “vôos independentes contra alvos inopinados” e contra alvos marcados ou a pedido das tropas terrestres.

O mais intenso uso de operações de helicópteros ocorreu em maio de 1995, quando os antiquados Mi-24 empreenderam a maioria das missões de apoio de fogo. No final do mês, cinco a seis surtidas de combate eram realizadas por dia. Em acréscimo ao apoio a unidades que avançavam nas regiões central e sul da Chechênia, os helicópteros auxiliaram na busca de destacamentos de sabotagem/terrorismo de Dudayev que haviam penetrado nas áreas de retaguarda das tropas russas.

A coordenação com as unidades terrestres era freqüentemente difícil e agravada pela ausência de informação de reconhecimento tempestiva e precisa — a chave do êxito da missão de helicóptero. As próprias unidades de reconhecimento, que, na maioria das vezes, eram introduzidas e retiradas por helicópteros, observaram que eram colocadas em situações muito apressadamente e sem a coordenação com subunidades de infantaria ou com meios de aviação. 

As missões de reconhecimento na Chechênia incluíam a detecção de posições de tiro inimigas, a análise secreta dos sistemas defensivos das aldeias onde os rebeldes chechenos se concentravam e a destruição de grupos isolados de combatentes. As missões aludidas eram de difícil execução em virtude da falta de aparelhos de rádio portáteis, dispositivos de visão noturna, silenciadores para armas e binóculos — dispositivos-chave para o pessoal de reconhecimento.



Finalmente, inúmeros mal-entendidos ocorreram entre comandantes de forças terrestres e o pessoal dos helicópteros, simplesmente porque os comandantes tentavam manter suas próprias missões secretas, apenas emitindo instruções específicas para as unidades que atuavam em conjunto. Como resultado, era freqüente uma unidade não saber o que a outra estava fazendo durante uma operação.

No início do conflito, os pilotos russos tinham apenas um entendimento limitado da tática dos chechenos, que incluía controlar armas móveis de artilharia antiaérea via rádio e alterar com freqüência a posição desses sistemas. Os chechenos tentaram também integrar e sincronizar o emprego dessas armas, procurando engajar alvos com todo o conjunto de armas em seu arsenal: armas portáteis, metralhadoras pesadas, canhões e bocais lança-granadas. Os chechenos fizeram amplo uso de emboscadas, tentando imobilizar helicópteros assim que adentrassem uma zona de tiro eficaz, mediante a concentração de fogo a partir de diversos pontos. O pessoal de Dudayev fez também bom uso de informações e comunicações recebidas de agentes secretos. Como observou um piloto, “Tínha-mos a sensação de que eles sabiam bastante. Quantas e quantas vezes não ocorreu que a aparição de helicópteros em determinada área não era surpresa para o inimigo?”

Baseado em sua própria experiência com a Força Aérea russa, Dudayev claramente mantinha suas forças muito bem inteiradas das táticas e capacidades aéreas da Rússia.

Os pilotos russos, por outro lado, não dispunham de quaisquer dados confiáveis sobre a disposição das armas chechenas, o que forçava as tripulações a operar a partir dos maiores alcances possíveis quando do emprego de seu armamento. Algumas tripulações de helicópteros empregaram uma tática nova, a de lançar seus foguetes não-guiados S-24 por meio de uma manobra de arfagem, assim aumentando o alcance da arma em seis a sete quilômetros. Isso permitia que os pilotos atirassem sem entrar na zona de destruição das armas de artilharia antiaérea das forças de Dudayev. Embora essa tática reduzisse a precisão, foi provavelmente um fator chave no aumento do número de baixas civis.

Um dos principais alvos chechenos para fins de obtenção de informações foram os controladores aéreos avançados (CAA), sempre objetos de caçadas especiais, de acordo com especialistas russos. Os chechenos tinham a capacidade de “apontar com precisão o local em que o CAA entrava no ar. Só mais tarde foi que a infantaria motorizada apreendeu o equipamento que o pessoal de Dudayev utilizava para determinar a direção dos sinais emitidos pelos rádios dos CAA. 

Pavlov, o comandante da aviação, observou que os CAA eram insuficientemente treinados para o desempenho de suas funções no escalão unidade, o que contribuiu para esses resultados desastrosos.



Um analista, escrevendo no jornal russo Krylya Rodiny, assinalou que as tripulações dos helicópteros tinham mais dificuldades do que qualquer outra, voando muito baixo em condições meteorológicas péssimas e com freqüência retornando à base de origem com buracos de bala nos pára-brisas das cabinas. 

As estatísticas indicam que 1 em cada 10 helicópteros que participaram do conflito foi perdido e 1 em cada 40 foi danificado. No início de agosto de 1995, os russos haviam conduzido mais de 16.547 vôos sobre a Chechênia. Perto de 36 porcento das surtidas foram missões de tiro; 44 porcento foram de transporte-assalto aéreo (com mais de 90 porcento dos feridos evacuados pela aviação do Exército); 8 porcento foram vôos de reconhecimento e os 12 porcento restantes foram missões especiais tais como busca e salvamento, propaganda ou retransmissão de rádio. Tal informação indica como a natureza das missões dos helicópteros mudou à medida que a guerra continuava e os russos se adaptavam à situação.

Após quase um ano de luta, os pilotos russos realizaram algumas avaliações do seu equipamento, julgando os helicópteros Mi-24, o Mi-8 e Mi-6 tecnicamente obsoletos. Essas aeronaves tinham capacidade de desdobramento limitadas, em termos da hora do dia e das condições meteorológicas. Helicópteros mais novos, como o Ka-50 e o Mi-28, não foram empregados. O Mi-8MTV2, o Mi8MTV3 e o Mi-26 apresentaram bom desempenho. 

No centro do esforço russo de modernização dos helicópteros, no decorrer dos próximos anos, estarão os Ka-50 (designado Hokum pela OTAN e Black Shark pelos russos), cujas características de seus sinais são extremamente difíceis de se detectar. Destina-se a fornecer dados precisos sobre alvos, pode deslocar-se sem detecção para a área de ataque e penetrar a zona de visibilidade do inimigo apenas durante o tempo de vôo dos mísseis dirigidos anticarro (ATGM) de bordo, que têm um alcance de 8km devido a um sistema de guiagem automático por feixe de laser.



O Ka-50 pode receber designações dos objetivos por canais de comunicação em circuito fechado, bem como trocá-las com helicópteros nas proximidades ou com instalações em terra. Ano passado, a arma de aviação russa dispôs de recursos suficientes para comprar apenas dois deles — nenhum foi empregado na Chechênia. Se a Rússia for permanecer modernizada e lutar esses tipos de guerras, precisa adquirir 60 Ka-50 anualmente, segundo um analista.

A Chechênia forneceu muitas outras lições aos pilotos de asas rotativas. Estas incluíam limitar o dano a residências e instalações civis; superar a baixa proficiência de muitos pilotos no vôo de combate (em virtude da carência de horas de vôo, hoje um décimo em relação às da maior parte das nações ocidentais); ajustar-se à incapacidade de conduzir livremente o reconhecimento (visto que qualquer aldeia poderia, em dado momento, desencadear fogo cerrado); superar a relutância do quartel-general imediatamente superior em fornecer meios não-tripulados, como o veículo de controle remoto Shmel; e, o mais importante, fazer correções em sua tática. 

Um coronel russo, na reserva, atribuiu a culpa do desempenho dos pilotos à tática de ataques de retaliação contra um inimigo que usava o princípio de ataque-retirada-ataque. Isso tirou a iniciativa dos pilotos russos e conduziu a ações retardadas e à diminuição da capacidade de combate. Por outro lado, acrescentou o coronel, o emprego de armas de precisão para destruir alvos de pequeno porte se enquadra logicamente nesta tática.

Em fevereiro de 1996, o General Pavlov observou, em uma conferência, que a Rússia havia se atrasado 15 anos com relação às nações que dominavam a fabricação de helicópteros e que “nos próximos anos a aviação do Exército pode deixar de existir como uma arma das Forças Armadas russas”.

No verão de 1997, expressou-se de modo mais otimista sobre o início da produção dos Ka-50, dos Alligator Ka-52 (baseado no Ka-50 e capaz de conduzir o reconhecimento de alvos e distribuir informação entre helicópteros em um grupo de batalha), o Mi-28N, versão para vôo noturno, e um Mi-24 modernizado; o General Pavlov também falou da continuação da pesquisa sobre aeronaves de reconhecimento não-tripuladas que atuarão em combinação com outros helicópteros.

Talvez a realidade seja que a aviação do exército tem um papel limitado como elemento de combate em CBI, já que aeronaves de ataque ao solo como o Su-25 oferecem maior proteção (tanto para a cabina como para evitar liberar informação que possa revelar sua posição) e versatilidade. Por exemplo, com plataformas de armas móveis, um combatente pode sentar-se, ouvir o som das pás de um helicóptero e, a seguir, preparar sua arma para ser empregada. 

Quando o helicóptero passa diretamente acima, é vulnerável a um RPG ou a ataques de armas portáteis, bem como a projetis de 20mm. Um Su-25 não oferece esse prazer aos inimigos. Eles ouvem apenas o som do motor a jato quando sobrevoa a uma altura de 200 pés, não tendo o inimigo tempo suficiente para reagir; além disso, os 17mm de titânio em torno do cockpit desviam até mesmo projetis de 20mm. Aeronaves não-tripuladas de reconhecimento podem representar um modo de prolongar o serviço da aviação do Exército à ausência de meios de silenciar o ruído de rotores.





Aeronaves de Asas Fixas


Sem qualquer dúvida, o burro de carga do esforço da aviação russa na Chechênia foi o Su-25 (designado Frogfoot pela OTAN e Rook pelos russos). Um analista resumiu sucintamente o valor dessa aeronave:
A experiência de operações de combate aéreo no conflito da Chechênia demonstrou o papel crescente do apoio aéreo aproximado a tropas terrestres. A participação de helicópteros de ataque naquele conflito foi limitada, e caças e bombardeiros táticos não puderam operar de modo eficaz a baixa altura e, assim, não foram empregados em virtude de sua alta velocidade e da carência de tempo para buscar alvos, apontar e empregar suas armas.… Eis a razão por que o Su-25 — uma aeronave pequena, subsônica, confiável e manobrável, de projeto simples e dotada de boa visibilidade do cockpit — foi empregado na maioria das vezes para apoiar tropas terrestres e em operações de ataque ao solo.… Além disso, o Su-25 dispunha de poderoso armamento, aviônica altamente confiável de navegação e de seleção de alvos, bem como proteção blindada, podendo operar tanto de pistas de pouso e decolagem de superfície artificial, quanto de campos de pouso de terra.
As missões para as aeronaves na Chechênia incluíram o Apoio Aéreo Aproximado de tropas que atuavam contra alvos de pequeno porte nas montanhas ou nas planícies. O Su-25 pode atacar em desfiladeiros devido a sua configuração aerodinâmica especial em combinação com uma alta razão empuxo-peso. Além disso, a aeronave pode permanecer sobre o campo de batalha por extensos períodos de tempo, realizando vários passes sobre alvos em uma única surtida. Este fator também levou o projetista a desenvolver um cockpit de blindagem especial de titânio para defender o piloto de projetis de 20mm e 23mm. Essa aeronave mostrou sua capacidade de resistência no Afeganistão, onde aviões de ataque sofreram uma perda em 80-90 danificados versus 15-20 perdas para outros tipos de aeronaves. 

No entanto, alguns russos colocaram o Su-25 na mesma categoria do A-10 da USAF, e, em vez dele, consideraram o Su-39 como o futuro para o CBI. Assinalam eles que a experiência angariada em CBI e em operações de paz indica que aeronaves de ataque devam ser empregadas:
  • em apoio de tiro direto,
  • para a destruição seletiva e precisa de bolsões de resistência inimiga,
  • como auxílio de emergência e apoio de tiro para as subunidades amigas em cercos ou emboscadas,
  • para reconhecimento em tempo real,
  • para combater helicópteros de combate inimigos, e
  • para bloquear ou destruir grupos de combate móveis inimigos.
O Su-39 pode desempenhar essas e outras missões mediante o emprego de sistemas avançados de pontaria diurna/noturna e de navegação, contramedidas eletrônicas avançadas, armas de precisão, assim como manobrabilidade e confiabilidade avançadas.



Os russos utilizaram outras aeronaves durante o conflito, como acima mencionamos. Estas incluíram aeronaves da aviação de longo alcance, da aviação tática e da aviação de transporte: o Su-22M, o Su-24 e o Su-27 (raramente se viu o MiG-29, por causa da inexistência de ameaça aérea), bem como o An-12, o An-22, o An-124 e o Il-76. 

Os MiG-31 Foxhound e Su-27 Flanker desempenharam funções de patrulha aérea de combate, enquanto se relata que os Tu-22M3 Backfire lançaram flares noturnos e panfletos de propaganda. O Su-24 parece ter sido o caça-bombardeiro utilizado com maior freqüência. Até dezembro de 1995, os pilotos russos haviam realizado mais de nove mil surtidas, com mais de cinco mil e trezentas dedicadas à condução de ataques de bombardeio/ataque ao solo e 672 ao reconhecimento aéreo (perto de 8 porcento). As armas principais incluíam os foguetes S-5, S-8 e S-24B, bem como as bombas de alto explosivo FAB-250 e FAB-5000. Quando as condições metereológicas permitiram, os russos empregaram mísseis guiados Kh-25ML, bombas inteligentes KAB-500L e KAB-500KR e bombas KAB-1500L.

Semelhantemente a Pavlov, comandante da aviação, o Cel Gen Petr Deinekin, comandante-em-chefe da Força Aérea, serviu de principal porta-voz da Força Aérea. Ele observou que a tendência geral do desenvolvimento moderno de equipamentos e armamentos é reduzir-se a um ou dois tipos de aeronave em cada componente aéreo, bem como apoiar-se em grande medida em armamento de precisão. Deinekin avaliou o desempenho da força aérea em agosto de 1995, comentando “Posso atestar uma coisa: os pilotos russos, a despeito de dificuldades objetivas, souberam desempenhar plenamente suas missões, demonstrando, além de sua própria alta habilidade, a alta eficácia e confiabilidade dos armamentos e do equipamento de aviação russos”.

Nem todas as avaliações, contudo, foram tão elogiosas. O que criou dificuldades para a maioria dos pilotos foi a situação financeira da Força Aérea e o impacto direto dessa situação sobre a prontidão para o combate. Segundo alguns relatos, a falta de recursos financeiros reduziu em quase 40 porcento o poder de combate. A proficiência tática constituiu outra área de preocupação. Um piloto observou que o treinamento aerotático tinha sido demasiadamente cauteloso por muito tempo, indicando que o treinamento seguia o credo “não assumam riscos, não façam nada que complique a situação e evitem inovações”. 

Essa crença obstaculizou o apoio a tropas terrestres e limitará a capacidade dos pilotos de sobreviverem a duelos [dogfights]. Para livrar-se desse tipo de pensamento, a Força Aérea precisa de estandes de tiro novos e aperfeiçoados, bem como exercícios durante os quais tripulações “inimigas” sejam importadas e sua tática utilizada.

Finalmente, muitos pilotos observaram a necessidade de um esforço de modernização destinado a desenvolver aeronaves para o século XXI e colocá-las em serviço nos próximos anos.

Um dos mais novos caças-bombardeiros na frota da Rússia é o Su-34, cujas características indicam que será capaz de lutar em ambientes CBI. Projetado para o combate a altitudes baixas e muito baixas, essa aeronave pode atacar alvos no solo a qualquer hora do dia, independentemente das condições metereológicas, e pode usar seu equipamento especial e seu equipamento de navegação para rastrear a situação aérea, bem como para identificar alvos isolados no solo. Um revestimento de 17mm de titânio na cabina, juntamente com uma camada de titânio cobrindo os motores e os tanques de combustível, protege o Su-34 contra o fogo antiaéreo. O avião possui, também, algumas características stealth; um controle secundário que permite ao navegador pousar o avião se o piloto for morto ou ferido; um alcance-padrão de 4.000 km; e uma área de repouso e um banheiro atrás do cockpit.

Conclusões

“A Força Aérea teve uma oportunidade de ouro na Chechênia de constatar que o poder aéreo não pode invariavelmente fazer a mágica que a ele se atribui em situações em que o conjunto de alvos é fugaz, predominam problemas na localização e identificação do alvo e existe o perigo sempre presente de danos não-intencionais a não-combatentes.” 

A guerra na Chechênia focalizou a atenção russa em duas áreas: 

  1. a eficácia e o potencial futuro do poder aéreo em um ambiente CBI 
  2. as muitas áreas nas quais a aviação russa necessitava aperfeiçoamento — desde adestramento, até equipamento e tática.
A Força Aérea russa e a aviação terrestre são agora duas das mais experientes forças no mundo para esse tipo de conflito, como o foram a Força Aérea e a aviação do Exército dos EUA após o Vietnã. Os pilotos russos aprenderam muitas técnicas e táticas que merecem estudo minucioso. Algumas das lições sublinhadas pela luta incluem as seguintes:
  • A superioridade aérea não é garantia de vitória, mesmo contra um inimigo sem força aérea!
  • Guerrilheiros podem fazer uso de meios de informação de alta tecnologia (telefones celulares etc.) tão facilmente quanto os exércitos modernos de hoje, o que lhes permite o rápido contato com outros guerrilheiros, a mobilização de meios e o acesso à informação. É imperioso que os planos para eliminar essas capacidades sejam formulados de antemão.
  • A deterioração da Força Aérea russa, em virtude da falta de recursos financeiros, adestramento e suprimentos, afetou em grande medida o curso e o desfecho da luta e pode ter contribuído para o aumento do número de baixas civis.
  • As populações civis farão parte de qualquer ambiente CBI e representam uma excelente área de operações para qualquer força rebelde.
  • As aeronaves de ataque ao solo, de acordo com a experiência russa, parecem ter mais utilidade do que os helicópteros quando atacando alvos em ambientes CBI.
  • Voar em ambientes CBI significará encontrar e defender-se contra alvos móveis espalhados ao longo do país e entre a população civil.
  • Um treinamento realista é essencial para superar as ameaças do CBI. As horas de treinamento no ar devem ser intensas e desafiadoras, e devem ser complementadas por horas em simuladores imediatamente antes da realização de uma missão.
  • Informações de reconhecimento tempestivas e precisas são vitais para os pilotos.
  • A tática de guerrilha tem de ser submetida a um estudo minucioso.
  • Os ataques de helicópteros e os ataques de aviação tática devem ser integrados, e os comandantes terrestres devem aprender a atuar estreitamente com pilotos e neles repousar maior confiança.
  • O adestramento dos CAA deve ser integrado o mais cedo possível nos planos de adestramento das subunidades. Os CAA devem permanecer cientes das tentativas dos guerrilheiros de capturar, ou interceptar suas posições.
Em resumo, a luta na Chechênia criou outro capítulo histórico nos anais da guerra, capítulo que por décadas merecerá estudo. Representa um dos primeiros exemplos de um conflito prolongado envolvendo uma das antigas superpotências e é merecedora de atenção e consideração rigorosas.