"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Guerra da Malvinas sob o enfoque da Guerra Eletrônica


Ensinamentos para a FAB

Cap Av Luciano Barbosa Magalhães


Resumo:

O estudo objetivou analisar como os recursos de Guerra Eletrônica (GE) utilizados na Guerra das Malvinas/Falklands contribuíram para o resultado do conflito. Para isso, realizou-se uma pesquisa explicativa, baseada na técnica de coleta de dados secundários e posterior análise estatística dos resultados, visando identificar os princípios mais importantes de GE envolvidos. Também foi utilizado o instrumento do estudo de caso para estabelecer um paralelo entre os recursos de GE utilizados durante a Guerra das Malvinas/Falklands e os atuais recursos da FAB. A pesquisa iniciou-se com a análise da utilização de mísseis ar-ar infravermelhos de 3ª geração nos combates aéreos. Após isso, verificou-se a suscetibilidade das aeronaves argentinas em função dos equipamentos de autodefesa existentes nelas. Em seguida, analisou-se a influência do conhecimento prévio das características do míssil Exocet argentino por parte da Inglaterra. Após isso, verificou-se o impacto da utilização do Míssil Anti-Radiação (MAR) contra os radares argentinos nas Ilhas Malvinas. Finalmente, este artigo estabeleceu um paralelo entre os recursos de GE utilizados durante a Guerra das Malvinas e os atuais recursos de GE da Força Aérea Brasileira (FAB). Dessa forma, foi possível extrair alguns ensinamentos que podem melhorar não só a utilização desses equipamentos e conceitos, mas também a alocação dos recursos financeiros na aquisição de equipamentos de GE essenciais para a FAB.


INTRODUÇÃO

Nos últimos dez anos, a Força Aérea Brasileira (FAB) tem adquirido diversos equipamentos de Guerra Eletrônica (GE), a fim de renovar a sua frota e de manter-se pronta para a defesa da soberania da pátria. Os parcos recursos financeiros disponíveis possibilitaram a aquisição de alguns equipamentos de GE, em detrimento de outros. Cumpre ressaltar que a escolha, em tempo de paz, de quais equipamentos adquirir pode ser primordial no momento de um conflito.

Como a última vez que a FAB participou de um conflito armado foi durante a II Guerra Mundial, utilizar as lições aprendidas com a Guerra das Malvinas poderá fornecer subsídios que, em tese, contribuirão para uma melhor alocação dos recursos financeiros na aquisição dos equipamentos de GE julgados necessários.

Dessa forma, na presente pesquisa, procura-se medir a influência dos recursos de GE, utilizados durante a Guerra das Malvinas, que contribuíram para o resultado do conflito, e extrair os ensinamentos deixados, visando estabelecer um parâmetro de comparação com os atuais recursos de GE existentes na FAB.

De que maneira os recursos de GE utilizados pela Argentina e pela Inglaterra nas Malvinas contribuíram para o resultado do conflito?

Visando solucionar esse problema, este trabalho tem como objetivo geral analisar como os recursos de Guerra Eletrônica, utilizados pelos dois países envolvidos na Guerra das Malvinas, contribuíram para o resultado do conflito.


Para que o objetivo geral seja alcançado, serão adotados cinco objetivos específicos:

  1. analisar a influência da utilização de míssil ar-ar infravermelho, de 3ª geração (“all aspect”), pelas aeronaves inglesas, contra as aeronaves argentinas, durante os combates aéreos;
  2. analisar o impacto dos equipamentos de autodefesa, utilizados nas aeronaves argentinas, durante a execução das missões de ataque à frota da Marinha Inglesa;
  3. analisar a influência do conhecimento prévio das características do radar do míssil antinavio argentino (Exocet) por parte dos ingleses;
  4. verificar o impacto da utilização de Míssil Anti-Radiação (MAR) contra os radares argentinos instalados nas Ilhas Malvinas;
  5. estabelecer um paralelo entre os recursos de GE utilizados durante a Guerra das Malvinas e os atuais recursos de GE da FAB.

Com relação aos quatro primeiros objetivos específicos supracitados, existem quatro hipóteses a serem analisadas:

  1. a utilização de um míssil ar-ar infravermelho, de 3ª geração (“all aspect”), pelas aeronaves inglesas, nos combates aéreos contra as aeronaves argentinas, permitiu maior exploração do espectro eletromagnético na faixa do infravermelho, o que resultou num grande número de aeronaves abatidas e, conseqüentemente, na diminuição da capacidade de combate dos argentinos;
  2. os equipamentos de autodefesa, utilizados nas aeronaves argentinas, por possuírem diminuta capacidade de perceber e de se contrapor aos diversos armamentos enfrentados durante as missões de ataque aos navios ingleses, resultaram num grande número de aeronaves abatidas e, conseqüentemente, na diminuição da capacidade de combate;
  3. o conhecimento prévio das características dos radares dos mísseis antinavio (Exocet) pode ter propiciado contramedidas eletrônicas pela frota inglesa, diminuindo a efetividade dos mísseis e, conseqüentemente, reduzindo a capacidade de destruição dos argentinos; e 
  4. o emprego de MAR contra os radares argentinos pode ter, mesmo que temporariamente, restringido o alarme antecipado, aumentando a suscetibilidade das aeronaves argentinas.

Visando atingir os objetivos estabelecidos, será realizada uma pesquisa explicativa, baseada na técnica de coleta de dados secundários.
Posteriormente, será realizada a análise estatística dos resultados e a identificação dos principais princípios de GE envolvidos.
Por último, será realizado um estudo de caso, como instrumento metodológico para se estabelecer um paralelo entre os recursos de GE utilizados durante a Guerra das Malvinas e os atuais recursos da FAB.


REFERENCIAL TEÓRICO

Schleher (1999) define Guerra Eletrônica (GE) como qualquer ação militar envolvendo o uso de ondas eletromagnéticas e energia direcionada, para controlar o espectro eletromagnético ou atacar o inimigo.

Ao analisar as ações militares dos países envolvidos no conflito, percebe-se que utilizaram diversos recursos de GE para obter, conforme definiu Schleher (1999), o controle do espectro eletromagnético e o sucesso no ataque ao inimigo.

Estudando o uso do espectro eletromagnético, pelos dois países, talvez seja possível verificar como os recursos de GE foram significativos no resultado do conflito.



O AIM-9L SIDEWINDER

A Argentina possuía um acervo de aproximadamente 110 caças ou caças-bombardeiros, distribuídos da seguinte forma: 11 Mirage III, 05 Super Etendard, 57 A-4 Skyhawk e 34 Dagger (ETHELL, 1983).

Ao longo do conflito, a Força Tarefa Britânica utilizou 28 aeronaves Sea Harrier e 10 aeronaves Harrier embarcadas nos porta-aviões Hermes e Invincible, (UDEMI,1989).

Uma visão geral das principais aeronaves e seus armamentos ar-ar associados, utilizados no conflito, pode ser observada na Tabela 1.



A maior ameaça aérea para os ingleses vinha dos Mirage III, em função dos mísseis que os equipavam (UDEMI, 1989). Visando contrapor-se aos mísseis argentinos, foram instalados sistemas de lançamento de chaff e flare do tipo ALE-40 (BRAYBROOK, 1984). Além disso, todos os Harrier e Sea Harrier foram equipados com mísseis ar-ar AIM-9L, ou seja, com mísseis infravermelhos de terceira geração.

O míssil infravermelho, de terceira geração, possuía a vantagem de detectar o alvo num comprimento de onda que era possível identificar, não só as partes quentes da tubeira, mas também os gases de exaustão da aeronave, isso graças a um novo material empregado no detector, o Antimoneto de Índio (InSb), e à refrigeração (SCHLEHER, 1999). Isso permitia que o míssil fosse lançado em qualquer ângulo de apresentação da aeronave alvo, diferentemente dos mísseis de gerações mais antigas, como o Matra Magic R550 e o Shafrir, os quais detectavam apenas as partes quentes da tubeira, só permitindo o lançamento pelo setor traseiro do alvo (JANE’S, 2003).

Segundo Arcangelis (1985), era necessário conceber um detector que reagisse em comprimentos de onda próximos a 5  m, correspondente aos gases de exaustão do motor, enquanto que os mísseis de primeira e segunda gerações tinham sensores que reagiam próximos de 2,5  m, correspondendo não só às emissões do metal incandescente da tubeira, mas também às dos raios de sol refletidos pelas nuvens.

Dessa forma, percebe-se que os mísseis da terceira geração, em relação às duas gerações anteriores, pareciam explorar melhor a faixa do espectro eletromagnético, pois conseguiam captar uma gama maior de emissões geradas pelo alvo, propiciando uma solução de tiro em qualquer ângulo de apresentação da aeronave oponente.

Entre os mísseis ar-ar utilizados no conflito, apenas o Matra R530 era do tipo radar semi-ativo, ou seja, o radar da aeronave lançadora iluminava o alvo e o míssil se guiava pelas ondas que eram refletidas de volta pelo alvo (SHAW, 1986).



Segundo Arcangelis (1985), todos os Harrier e Sea Harrier eram equipados com Radar Warning Receiver (RWR) e lançadores de chaff e flare. Isso fazia com que os pilotos britânicos pudessem saber quando o míssil Matra R530 havia sido lançado, bem como efetuar o lançamento de chaff, resultando na perda de acoplamento do radar inimigo.

Das aeronaves argentinas, apenas os Super Etendard e os Dagger eram equipados com RWR (ARCANGELIS, 1985). Algumas receberam chaff e flare próximo ao final da guerra (ETHELL, 1983). O flare pode ser efetivo contra os mísseis infravermelhos das primeiras gerações, pois esses se fixam nos pontos mais quentes, na faixa de 1 a 3 m, ou seja, em temperaturas compreendidas entre 1300 e 2000 Kelvin (SCHLERER, 1999).

Segundo Ethell (1983), no dia 1º de maio de 1982, a Argentina possuía 256 aeronaves disponíveis para combate. No entanto, 17 delas foram abatidas exclusivamente por mísseis AIM-9L. Portanto, ao término do conflito, pode-se constatar que 6,64% das aeronaves argentinas foram abatidas por um AIM-9L.

O total de aeronaves argentinas de caça, caça-bombardeio, bombardeio e ataque era de 146 (ETHELL, 1983). 

Considerando que esses vetores constituíam as aeronaves de combate, uma vez que ofereciam um risco direto à frota e às aeronaves inglesas, pode-se dizer que os AIM-9L foram responsáveis por abater 11,64% desse total.

Nenhum bônus foi creditado aos mísseis ar-ar utilizados pela Argentina, bem como nenhum Sea Harrier foi perdido em combate aéreo (NORDEEN, 2002).

Dessa forma, pode-se constatar que a utilização do míssil ar-ar infravermelho  de 3ª geração permitiu maior exploração do espectro eletromagnético na faixa do infravermelho, o que resultou num grande número de aeronaves abatidas e, conseqüentemente, na diminuição da capacidade de combate dos argentinos, havendo indícios de que a primeira hipótese foi corroborada.



OS EQUIPAMENTOS DE AUTODEFESA ARGENTINOS

Segundo Ball (1985), a sobrevivência de uma aeronave é definida como a capacidade de ela resistir às hostilidades ambientais feitas pelo homem ou de evitá-las. A incapacidade de uma aeronave evitar os radares, mísseis guiados, explosões das cabeças de guerra, armamentos de cano e demais elementos de um ambiente hostil é definida como suscetibilidade. 

Portanto, para que se possa aumentar a sobrevivência da aeronave em combate é preciso diminuir a sua suscetibilidade. Para reduzir a suscetibilidade podem ser utilizados diferentes tipos de contramedidas eletrônicas, agrupadas nos seguintes conceitos (BALL,1985):

  1. alarme de ameaça (RWR);
  2. bloqueadores e despistadores;
  3. redução de assinatura;
  4. descartáveis (chaff e flare);
  5. supressão da ameaça; e
  6. táticas.

A aplicação específica de cada uma delas tem se dado por faixas importantes do espectro eletromagnético, tais como a radar, a infravermelha e a visual.

Em muitas situações de combate elas são combinadas para degradar o sistema de defesa aéreo inimigo (BALL, 1985).

Dessa forma, analisando as aeronaves argentinas, percebe-se que a escassez de equipamentos de GE pode ter contribuído para as perdas sofridas durante os ataques aéreos à frota da Marinha Britânica. 







De acordo com a Tabela 2, apenas dois tipos de aeronaves utilizaram o conceito de alarme de ameaça, possuem um RWR para localizar e identificar as ameaças nas vizinhanças da aeronave, o que permite ao piloto identificar a aproximação de mísseis e perceber que a aeronave estava, sendo iluminada por algum radar (BALL, 1985).

Segundo Ball (1985), as duas técnicas de emissão de radiação mais empregadas para reduzir a suscetibilidade de uma aeronave são obtidas por meio da utilização de bloqueadores e despistadores.

O bloqueador pode ser utilizado para mascarar o eco da aeronave, ao passo que o despistador transmite sinais para enganar ou confundir o sistema inimigo. A utilização desses equipamentos evitaria que os radares detectassem, identificassem e rastreassem o alvo, impedindo a utilização de míssil radar ou de artilharia de cano. Se as aeronaves argentinas tivessem a capacidade de bloquear os radares dos armamentos ingleses, eles poderiam ter tido uma maior taxa de sobrevivência (GREEN, 2005).

Com relação à redução de assinatura pelas aeronaves argentinas, nenhum registro foi encontrado. É possível que não tenha sido explorada.

Os descartáveis (chaff e flare) são materiais ou dispositivos projetados para serem ejetados de uma aeronave, com o propósito de despistar o sistema de acoplamento de uma ameaça por um determinado período de tempo (BALL, 1985).

Conforme a Tabela 2, apenas algumas aeronaves, no final do conflito, receberam esses tipos de contramedidas (ETHELL, 1983). O treinamento não preparou adequadamente os pilotos argentinos para efetuarem o lançamento de chaff e flare, pois não os utilizaram corretamente diante da ameaça inimiga (GREEN, 2005).

De acordo com Ball (1985), a supressão de ameaças consiste em ações tomadas pelas forças amigas com a intenção de danificar, ou destruir fisicamente, um sistema de ameaça. Entretanto, esse conceito não será abordado, uma vez que a Argentina não possuía MAR.

Os argentinos exploraram o conceito de tática de forma simples e inteligente, pois se dirigiam simultaneamente a um mesmo alvo, visam saturar os radares e outras defesas antiaéreas dos navios, além de voarem quase no nível do mar, com todos os seus radares e demais equipamentos emissores de ondas eletromagnéticas desligados. Dessa forma, não havia quase nenhuma radiação eletromagnética para ser detectada (ARCANGELIS, 1985).

Desconsiderando-se a atuação dos Harrier e Sea Harrier no conflito, uma vez que já foi comentada anteriormente, a defesa aérea da frota britânica era provida por 52 navios (CHANT, 2001). Além dos armamentos embarcados nos navios, utilizados para prover a defesa antiaérea, serão abordados também os empregados em superfície, pois foram destinados a apoiar os navios e tropas durante o desembarque nas ilhas.

Entre os navios britânicos, sete eram armados com o míssil Sea Dart, dezessete com o Sea Cat e dois com o Sea Wolf. Muitos eram equipados com canhões de 4.5 polegadas, 20 mm e 40 mm (NORDEEN, 2002).



O míssil Blowpipe, além de empregado no desembarque, também foi utilizado dos conveses dos navios, enquanto os mísseis Rapier protegiam as áreas de pouso. O míssil Stinger, utilizado pelas tropas de comandos britânicas, também foi utilizado para apoiar o desembarque nas Ilhas Malvinas (NORDEEN, 2002).



A Tabela 3 apresenta um resumo das principais características dos sistemas de mísseis utilizados pela frota inglesa. A falta de equipamentos de GE, para impedir o uso do espectro eletromagnético pelos sistemas de armas da frota inglesa, pode ter aumentado a suscetibilidade das aeronaves argentinas e, conseqüentemente, diminuído o seu percentual de sobrevivência, já que 27 delas foram destruídas por esses sistemas (MORO, 2003). 

A frota britânica abateu 10,54% das aeronaves argentinas empregadas. Além disso, pode-se dizer que a Força Tarefa Britânica foi responsável por abater 18,49% das aeronaves de combate argentinas.

Portanto, analisando os equipamentos de autodefesa utilizados nas aeronaves argentinas, por possuírem diminuta capacidade de perceber e de se contrapor aos diversos armamentos enfrentados durante as missões de ataque aos navios ingleses, pode-se inferir que tenham sido responsáveis pelo grande número de aeronaves abatidas e,conseqüentemente, tenham contribuído para a diminuição da capacidade de combate, corroborando-se a segunda hipótese.



AS DEFESAS CONTRA O EXOCET

O sistema de armas composto pelo Super Etendard e pelo míssil anti-navio Exocet havia sido recentemente incorporado pela Armada Argentina, apenas cinco unidades de cada um desses equipamentos foram entregues pela França
(MORO, 2003).

No dia 04 de maio de 1982, duas aeronaves Super Etendard, cada uma equipada com um míssil Exocet, decolaram para atacar dois navios, localizados a cerca de 70 NM das Malvinas. Elas eram equipadas com o Agave, um radar monopulso, que operava na banda I (8 a 10 Ghz) (ARCANGELIS, 1985).

As aeronaves navegaram a baixa altura, para evitar a detecção radar. A 25 NM de distância dos navios, os Super Etendard subiram para 500 ft, ligaram seus radares para localizar a frota, programaram os computadores dos mísseis Exocet, depois desligaram os radares e voltaram novamente para a altura de vôo inicial. 

A 23 NM efetuaram o lançamento e retornaram para a base (ARCANGELIS, 1985). Durante o breve momento em que as aeronaves argentinas ligaram seus radares, um navio britânico interceptou as emissões e alertou o restante da frota. O Controle de defesa aérea do Hermes identificou as emissões como sendo do Mirage III, jamais imaginaram que fossem do Super Etendard. Os ingleses achavam que os argentinos ainda não estivessem treinados para efetuar o emprego dos mísseis Exocet de suas aeronaves. Por essas razões, os britânicos não deram a devida importância para as emissões radar (ARCANGELIS, 1985).

Naquele exato momento, o HMS Sheffield estava transmitindo e recebendo mensagens via satélite, uma operação que requeria a desativação de todos os outros equipamentos transmissores de energia eletromagnética, razão pela qual os radares do navio não detectaram nem os aviões, nem os mísseis. 

Além disso, o sistema de Medida de Apoio a Guerra Eletrônica (MAGE) do Sheffield também não recebeu as emissões do Exocet, mas deve-se considerar que o ambiente era eletromagneticamente denso, com emissões provenientes de inúmeros equipamentos de comunicação, Identification Friend or Foe (IFF) e radares (ARCANGELIS, 1985).


Um dos mísseis atingiu o casco do HMS Sheffield, mas não explodiu. O navio, entretanto, afundou após seis dias (ARCANGELIS, 1985). O segundo Exocet apenas passou perto do HMS Yarmouth (CHANT, 2001).

Com relação aos armamentos ofensivos do HMS Sheffield, pode-se dizer que o Sea Dart tinha capacidade antimíssil, mas seu alcance era inferior ao do Exocet. Além disso, a Grã-Bretanha não tinha nenhuma aeronave de Alarme Aéreo Antecipado (AEW) que pudesse operar embarcada, portanto, os avisos de ataques eram limitados à detecção pelos radares dos navios. Isso significava que o Super Etendard poderia lançar seus mísseis fora do alcance dos Sea Dart, pois, uma vez lançados, os mísseis navegariam a 30 ft do nível do mar (ARCANGELIS, 1985).

A única possibilidade de defesa que o Sheffield realmente poderia tentar era o canhão de 20 mm, que poderia não ser efetivo contra um alvo de área tão pequena, quando aproado com o navio (ARCANGELIS, 1985).

Pela análise dos armamentos defensivos, pode-se constatar que o Sheffield possuía o UAA-1 Abbey Hill, um equipamento de Suporte Eletrônico destinado a fornecer aviso antecipado de transmissões radar e de vigilância do espectro eletromagnético, na faixa compreendida entre 1 a 18 Ghz, o que permite, inclusive, o azimute de chegada. 

Esse sistema era capaz de fornecer aviso automático de ameaças, caso os parâmetros armazenados fossem interceptados. No entanto, esse equipamento não forneceu nenhum alarme, ou por causa da interferência eletrônica, ou porque os parâmetros do míssil não estavam armazenados como ameaça, já que a Marinha Britânica tinha a versão superfície-superfície do Exocet, o MM-38, instalada em alguns de seus navios (ARCANGELIS, 1985).

O HMS Sheffield era equipado com dois sistemas lançadores de chaff do tipo Corvus e, provavelmente, também possuísse o Bexley 669, um despistador, e o Bexley 667/668, um bloqueador, mas nenhum foi utilizado (ARCANGELIS, 1985).



O Exocet, após lançado, navegava por um sistema inercial, que era imune aos ataques eletrônicos. A seis milhas do alvo ligava o seu radar automaticamente, acoplava o alvo e navegava em sua direção. Era equipado com o Adac, um radar monopulso, que operava na banda X (8,5 a 12,5 Ghz), possuía sofisticados sistemas de Proteção Eletrônica, o que lhe tornava resistente aos despistadores e bloqueadores existentes (ARCANGELIS, 1985).

Apesar de a faixa de freqüência de recepção do Abbey Hill abranger as faixas de freqüência dos radares do Super Etendard e do Exocet, aquele não possuía capacidade de distinguir e interpretar, instantaneamente, os sinais eletromagnéticos, em virtude das suas limitações internas (ARCANGELIS, 1985).

Portanto, como forma de compensar as suas deficiências de GE frente à ameaça do Exocet, a Marinha Britânica providenciou grandes quantidades de chaff, para que fossem usados durante os ataques aéreos (ARCANGELIS, 1985).

No dia 25 de maio, dois Super Etendard, armados com dois mísseis Exocet, efetuaram o ataque a um grande alvo, mas, assim que os aviões subiram, foram detectados pela frota inglesa, que efetuou grande quantidade de lançamentos de chaff , mostrando-se efetivos em confundir e desviar os mísseis. 

Entretanto, um dos mísseis atingiu e afundou o Atlantic Conveyor, um navio mercante, que não tinha nenhum sistema de autodefesa eletrônico. O último Exocet da Armada Argentina foi empregado no dia 30 de maio, mas nenhum navio foi acertado, pois novamente a frota se protegeu com o uso de chaff.  (ARCANGELIS, 1985).

Em 11 de junho, uma peça de artilharia costeira efetuou o lançamento de um Exocet através de dados de posição fornecidos pelo radar de superfície AN/TPS-43, localizado nas Malvinas. O míssil atingiu o HMS Glamorgan (ARCANGELIS, 1985).

Portanto, dos seis Exocet disparados, três atingiram o alvo, o que resulta em 50% de acerto. Mesmo após identificarem as ameaças e utilizarem as contramedidas eletrônicas disponíveis, os mísseis continuaram acertando o alvo. Segundo Arcangelis (1985), como a Marinha Britânica tinha esses mísseis no seu acervo, eles já tinham o conhecimento prévio das características do radar do míssil. Além disso, como o presidente francês possibilitou o treinamento dos ingleses com os aviões Mirage III e Super Etendard franceses, provavelmente os ingleses também já conheciam as características do radar Agave (MORO, 2003).

Dessa forma, o conhecimento prévio das características dos radares dos mísseis anti-navio (Exocet) não propiciou contramedidas eletrônicas eficazes pela frota inglesa, o que pode ter aumentado a efetividade dos mísseis e, conseqüentemente, aumentado a capacidade de destruição dos argentinos, que anula a terceira hipótese proposta.


A UTILIZAÇÃO DO MÍSSIL ANTI-RADIAÇÃO (MAR)

A Argentina montou um sistema de alarme antecipado nas Ilhas Malvinas, o qual era composto pelos radares AN/TPS-43F e pelo AN/TPS-44, aquele era tridimensional, utilizado para vigilância de longo alcance, enquanto esse era empregado para vigilância tática (UDEMI, 1989).

Para defender a Ilha de ataques aéreos, a Argentina deslocou vários tipos de sistemas de armas antiaéreas controladas por radar. Entre eles, destacam-se os mísseis Roland, Tigercat e o Blowpipe, bem como alguns sistemas de Artilharia Antiaérea (AAAe), tal como o canhão Oerlinkon de 35 mm, direcionado pelo radar Skyguard (UDEMI, 1989).

Também foram empregados os canhões Rheinmetall de 20 mm, que eram controlados pelo radar ELTA (NORDEEN, 2002).

Como os ingleses haviam abandonado a utilização do Alarme Aéreo Antecipado (AEW) em 1978, tiveram que utilizar os Sea Harrier para voar missões de defesa de frota, algo para o qual não haviam sido projetados, tentando compensar a falta de um AEW para a força tarefa inglesa (HEWSON, 2001).



Para os ingleses defenderem a frota era necessário que ficassem a uma determinada distância dos navios, realizando uma Patrulha Aérea de Combate (PAC). Entretanto, para que não fossem detectados pelos radares da ilha, deveriam ficar restritos a níveis de vôo mais baixos, reduzindo o tempo de permanência na PAC.

Mesmo assim, os argentinos ainda conseguiam detectar as rotas de recolhimento das PAC e, como normalmente convergiam para um determinado
ponto, era possível estimar a localização dos porta-aviões (GREEN, 2005).

Com o intuito de destruir os radares de vigilância argentinos, foram utilizados os Vulcan, bombardeiros de longo alcance, equipados para realizarem a missão de Supressão de Defesa Aérea Inimiga (SDAI) com o AGM-45 Shrike, um Míssil Anti-Radiação (ARCANGELIS, 1985).

A primeira missão realizada foi a Black Buck 5, ocorrida no dia 31 de maio, na qual um Vulcan, carregado com dois mísseis Shrike, se aproximou a baixa altura, subiu, entretanto, a 16.000 ft, para se encaixar nos parâmetros de ataque. Ao ingressar na área de detecção dos radares, dois diretores de tiro acoplaram a aeronave, embora estivesse fora do alcance do armamento. 

Após a identificação do alvo, os dois mísseis foram lançados, mas o controlador argentino foi mais rápido e desligou o radar antes que ele fosse atingido, não houve dano (ETHELL, 1983). 

O procedimento do operador radar pode ter sido correto, pois uma estratégia que pode ser utilizada pelo radar quando ele for alvejado por um MAR é parar com a emissão de ondas eletromagnéticas, de maneira que o míssil perca a informação de guiamento (SCHLEHER, 1999).

O princípio da SDAI é que o inimigo se sentirá inibido de usar integralmente os seus sistemas de detecção, pela presença de uma arma que seja capaz de destruir as fontes de radiação (SCHLEHER, 1999). Naquele dia, após o ataque, houve pouca atividade aérea argentina durante o dia (ETHELL, 1983).

A segunda e última missão realizada foi a Black Buck 6, efetuada no dia 03 de junho. Desta vez, a aeronave estava armada com quatro mísseis. Os argentinos já sabiam o que deveriam esperar de uma aeronave que se comportasse daquela maneira, portanto, toda vez que o Vulcan se aproximava de Puerto Stanley, os radares eram desligados. Na última tentativa, o Vulcan desceu para 10.000ft, de forma a incitar os argentinos a ligarem os radares.

De repente, um radar foi ligado, e fez com que a tripulação efetuasse o disparo de dois mísseis. Apenas um radar Skyguard foi danificado (ETHELL,1983).

Portanto, dos quatro mísseis utilizados, apenas um conseguiu lograr êxito ao atingir o Skyguard, mas o objetivo principal da missão, que era destruir os dois radares de vigilância, não foi atingido, ou seja, o AN/TPS-43F e o AN/TPS-44 permaneceram em funcionamento até o final da guerra (UDEMI, 1989).

Dessa forma, o emprego de MAR contra os radares argentinos pode ter restringido, instantaneamente, o alarme antecipado nas Ilhas Malvinas, mas provavelmente pode não ter aumentando a suscetibilidade das aeronaves, pois como voavam essencialmente no período diurno, não ficavam sem o apoio da cobertura radar, havendo indícios de que a quarta hipótese foi refutada.



A GE DAS MALVINAS E A FAB EM 2006

Estabelecendo um paralelo entre os recursos de GE utilizados pelas aeronaves inglesas e argentinas durante a Guerra das Malvinas e os da FAB em 2006, pode-se extrair as lições apreendidas durante o conflito e aplicá-las dentro do contexto atual, com vistas ao domínio do espectro eletromagnético.

Com base na Tabela 1, pode-se observar que a capacidade ofensiva das aeronaves de combate inglesas baseou-se no domínio da faixa do infravermelho, através da utilização de um míssil de 3ª geração, que explorava melhor essa faixa do espectro eletromagnético.

Apesar de os ingleses não utilizarem mísseis radar semi-ativos na faixa de microondas, não permitiam que os argentinos a dominassem, pois possuíam meios de detecção, através do RWR, e de contramedidas, por meio de lançamento de chaff, negando aos argentinos a exploração efetiva dessa outra faixa do espectro eletromagnético, conforme visto anteriormente.

Outro aspecto a ser observado foi a preparação inicial dos pilotos ingleses, pois realizaram treinamento de combate dissimilar com os pilotos franceses de Mirage III e Super Etendard (MORO, 2003).

De acordo com Santos (2004), os mísseis infravermelhos são, estatisticamente, as armas mais efetivas usadas contra aeronaves.

Os mísseis infravermelhos já estão na 5ª geração, como é o caso do Python 5 e do AIM-9X. As inovações incorporadas por esses mísseis são resultantes de vários fatores, tais como os novos tipos de detectores infravermelhos, que, arranjados em forma de matriz, conseguem montar uma imagem infravermelha do alvo, sendo capazes de rejeitar flares convencionais (SANTOS, 2004).



Observando a Tabela 4, que enumera quantitativamente os armamentos ar-ar das principais aeronaves de caça da FAB, e para os ensinamentos obtidos da Guerra das Malvinas, pode-se extrair as principais vantagens e deficiências da exploração do espectro eletromagnético por parte dos armamentos utilizados pela Força Aérea Brasileira.

Entre as principais deficiências encontradas, cita-se a ausência de mísseis ar-ar nas aeronaves A-1, não explorando a faixa do infravermelho para obter um maior alcance do poder de fogo, uma vez que só dispõem de canhões de 30 mm. As mesmas considerações podem ser feitas para as demais aeronaves de caça sem míssil ar-ar.

Umas das vantagens encontradas pode ser a utilização de mísseis infravermelhos de 4ª geração, pois assim como os de 5ª, também possuem a
capacidade de rejeitar o flare convencional, negando o uso da contramedida ao inimigo (SANTOS, 2004). 

Outra vantagem pode ser o emprego do míssil Beyond Visual Range (BVR), ou seja, um míssil que é lançado além do alcance visual do alvo, aumentando o alcance do poder de fogo amigo, através da exploração da faixa das microondas.

Com relação à capacidade defensiva das aeronaves de combate, vê-se, a partir da Tabela 2, que a inexistência de sistemas de detecção e contramedidas eletrônicas pode ter contribuído para a diminuição da sobrevivência delas durante as missões de ataque à frota da Marinha Britânica, já que essa, conforme visto anteriormente, chegou a abater 18,49% das aeronaves de combate.

Analisando os equipamentos de GE existentes em algumas aeronaves da FAB, conforme a Tabela 5, percebe-se que ainda existem muitas delas sem nenhuma capacidade de contramedidas eletrônicas, como por exemplo, o R-99A/B, o F-5E/F, o A-29 e o Xavante. 

Observa-se ainda a deficiência quanto à existência de bloqueadores e despistadores, o que aumenta a suscetibilidade dessas aeronaves. Segundo Green (2005), se os argentinos tivessem a capacidade de bloquear os radares inimigos, poderiam ter tido maiores taxas de sobrevivência durante os ataques. Além disso, a falta de treinamento dos pilotos argentinos para manusearem o chaff e o flare fez com que eles não os utilizassem corretamente. Portanto, a FAB precisa treinar os seus recursos humanos disponíveis.

A Força Tarefa Britânica não tinha, nos seus navios, uma aeronave AEW, com capacidade de operar embarcada, deixando as aeronaves que voassem a baixa altura fora do alcance dos seus radares (UDEMI, 1989).

Tiram-se, daí, dois ensinamentos. O primeiro é a necessidade de se ter uma aeronave AEW para prover o alarme antecipado. No caso da FAB, já se utiliza o R-99A. O segundo é que o vôo a baixa altura contra uma força sem capacidade AEW pode ser eficiente, na medida em que a aeronave incursora fica fora da cobertura radar do inimigo.

Segundo Ethell (1983), nenhuma aeronave Super Etendard foi abatida durante o conflito. Analisando o emprego dessa aeronave, em conjunto com o Exocet, percebe-se que a associação da tática de penetração a baixa altura, com um míssil que pudesse ser lançado fora do alcance dos Sea Dart, pode ter contribuído para esse resultado.

Apesar de os navios britânicos ainda conseguirem detectar as emissões das aeronaves argentinas no momento em que essas subiam para acoplar seus radares neles, nada poderia ser feito, pois nenhum armamento teria alcance para atingi-las, uma vez que, após efetuarem o lançamento do míssil, retornavam para as suas bases.

Talvez o maior aprendizado dessas missões para a FAB seja a adoção de armamentos com capacidade de lançamento fora do alcance inimigo, ou seja, capacidade stand-off, principalmente contra ameaças navais.

Apesar de o emprego do MAR pelos ingleses não ter impedido o uso constante dos radares, nem ter destruído o sistema de vigilância argentino na ilha (talvez pela pequena quantidade de missões), constata-se que durante o período da ameaça não houve utilização dos radares.

Finalmente, quanto ao emprego do MAR pela FAB, pode-se dizer que só a ameaça da sua utilização pode negar o uso parcial do espectro eletromagnético pelo inimigo, ou, caso seja utilizado, destruir definitivamente o radar. Por outro lado, deve-se dar mais atenção à formação e ao treinamento do operador radar, na medida em que é fundamental para reconhecer a ameaça e como combatê-la, visando ao emprego eficiente de todos os recursos de GE disponíveis.

CONCLUSÃO

Procurou-se medir, neste artigo, como a influência dos recursos de GE, utilizados durante a Guerra das Malvinas, contribuiu para o resultado do conflito, realizou uma pesquisa explicativa, baseada na técnica de coleta de dados secundários.

Foi feita uma análise estatística dos resultados e a identificação dos princípios de GE envolvidos. Além desses procedimentos, utilizou-se o instrumento metodológico do estudo de caso para estabelecer um paralelo entre os recursos de GE utilizados nas Malvinas e os atuais recursos da FAB.

Dessa forma, pode-se constatar que a utilização do míssil ar-ar infravermelho, de 3ª geração, pelas aeronaves inglesas, permitiu maior exploração do espectro eletromagnético na faixa do infravermelho, resultando num grande número de aeronaves abatidas e, conseqüentemente, na diminuição da capacidade de combate dos argentinos, dando indício de que a primeira hipótese foi corroborada. 

Analisando os equipamentos de autodefesa utilizados nas aeronaves argentinas, por possuírem diminuta capacidade de perceber e de se contrapor aos diversos armamentos enfrentados durante as missões de ataque aos navios ingleses, pode-se inferir que tenham sido responsáveis pelo grande número de aeronaves abatidas e, conseqüentemente, tenham contribuído para a diminuição da capacidade de combate, o que corrobora a segunda hipótese.

Também foi constatado que o conhecimento prévio das características dos radares dos mísseis anti-navio (Exocet) não propiciaram contramedidas eletrônicas eficazes pela frota inglesa, o que pode ter aumentado a efetividade dos mísseis e, conseqüentemente, aumentado a capacidade de destruição dos argentinos, refuta-se, assim, a terceira hipótese proposta.

Além dessa, o emprego de MAR contra os radares argentinos pode ter restringido, instantaneamente, o alarme antecipado nas Ilhas Malvinas, mas, provavelmente, pode não ter aumentado a vulnerabilidade das aeronaves, pois como voavam essencialmente no período diurno, não ficavam sem o apoio da cobertura radar, oferecendo indícios que refutam a quarta hipótese.

Os fatos verificados estão diretamente relacionados com o referencial teórico adotado, na medida em que foi constatado, em todo o trabalho, o uso das ondas eletromagnéticas para controlar o espectro eletromagnético e atacar o inimigo.

Portanto, baseado nas lições de GE aprendidas com a Guerra das Malvinas/Falklands, foi possível estabelecer parâmetro de comparação com os
atuais recursos de GE existentes na FAB, fornecendo ensinamentos que podem melhorar não só a utilização desses equipamentos e conceitos, mas também a alocação dos recursos financeiros na aquisição de equipamentos essenciais, evidenciando as conquistas alcançadas com esse estudo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Arma Guiada Anticarro (ATGM/ATGW) #



Os ATGM (Anti-tank guided missile – Míssil guiado Anticarro) ou ATGW (Anti-tank guided weapon – Arma guiada Anticarro) são sistemas de armas destinados prover a infantaria de fogo anticarro a médias e longas distâncias, onde armas não guiadas leves não teriam efetividade, e vieram para ocupar o lugar dos canhões anticarro da II Guerra Mundial. 

São concebidas em tamanhos diversos, podendo ser lançadas do ombro de um soldado como FGM-148 Javelin norte-americano com alcance de 2.500 metros a sistemas mais pesados como o AGM-114 Hellfire II com alcance de 8.000 metros, que são lançados de reparos mais pesados ou montados em veículos e aeronaves. 

Estas armas, juntamente com suas pares não guiadas, deram a infantaria a capacidade de enfrentar carros blindados a distâncias maiores. Os carros de combate principais modernos (MBTs), possuem blindagens poderosas e são imunes a estas armas, porém suas lagartas ainda se mostram vulneráveis.

A II Guerra Mundial viu o nascimento desta arma de forma muito limitada, na forma do X-7 Rotkappchen alemão que podia alcançar seu alvo a cerca de 1.200 metros transportando um ogiva HEAT de 2,5 kg de HE e capaz de perfurar uma armadura de até 205 mm. Era lançado pela infantaria a partir de um trenó, guiado por fio (MCLOS) e controlado por um joystick. Pesava 9 kg e viu combate no final de 1944, em pequena escala. Sua precisão em intervalos mais longos era prejudicada pela incapacidade do operador de saber se o míssil tinha passado ou não do alvo, pelas limitações da visão humana. Girava enquanto voava e foi efetivo quanto aos número de blindados atingidos. 

Surpreendentemente não houve desenvolvimentos pelo aliados no pós guerra, sendo o primeiro míssil deste período o SS.10 francês de 1955, adotado pelos US Army. Pesava 15 kg, foi desenvolvido a partir do aprendizado com o X-7 e estabeleceu o padrão para os desenvolvimento subsequentes. Girava enquanto voava, era igualmente guiado por fios e controlado por joystick, e podia atingir seus alvos a cerca de 1.600 m. Sua ogiva de 5 kg HEAT podia perfurar armaduras de até 400 mm. Eram difíceis de operar e foram usados de forma eficaz contra os blindados egípcios pelo exército judeu.

Como o SS.10 da Nord-Aviation era um programa privado, o exército francês desenvolveu o Entac, uma arma que podia alcançar alvos a 2 km e perfurar armaduras de 650 mm, sendo menor e mais leve que seu conterrâneo. Possuia asas enflechadas, o que lhe proporcionava mais fluidez em meio a folhagem que que o SS.10 de asas de ponta cega, que se enredava nos obstáculos de voo. Foi adotado por 14 países no período de 1958 e 1974, entre eles os EUA que o utilizou como MGM-32.

Em 1951 os EUA desenvolveram o Dart de 45 kg, pesado e ineficiente foi um fracasso. Em 1958 ingleses e australianos desenvolveram o Malkara, um engenho ainda maior de 94 kg, tinha uma ogiva de 26 kg HESH desnecessária. Serviu no British Army e foi aposentado na década de 60. Em contrapartida os suecos desenvolveram o Bantam, um míssil de 8 kg, com asas dobráveis de ogiva de 2 kg HEAT. Foi um sucesso junto a infantaria, sendo adotado também pelo exército suíço.



Esta primeira geração de mísseis usavam a orientação nominada de MCLOS (Manual Command to Line of Sight – Comando manual para linha de visada). O operador deve guiar manualmente o míssil através de um controle Joystick até o mesmo atingir encontrar seu alvo, observando-o através de um conjunto ótico e visando um flare existente a retaguarda do projétil, que facilita seu acompanhamento visual. São difíceis de operar e não permitem qualquer distração sob pena de perder o míssil, sua é precisão relativa ditada pela habilidade do operador e as limitações do acompanhamento visual. 

Integram ainda esta geração de mísseis o Cobra e o Mamba Alemães, o KAM-3D japonês e o inglês Vigilant, leve e poderoso, um projeto efetivo que substituiu o Malkara no British Army, com uma ogiva HEAT de 6 kg, alcance de 1.370 m e capacidade de penetração de 576 mm de armadura.

Os russos desenvolveram o 3M6 shMet (AT-1 Snapper) MCLOS de 22 kg e ogiva HEAT de 6+ kg, alcançava 2 km e podia penetrar armaduras de 530 mm (não os 350 mm subestimados pela OTAN). O 3M11 Falanja (AT-2 Swatter-A), que foi produzido em 3 versões. Comandado por rádio MCLOS é disparado de veículos e helicópteros até o alcance de 2,2 km, pesa 25 kg e pode penetrar armaduras de 500 mm. Era complexo e de baixa confiabilidade. Foi sucedido pelo 9M17 F (Swatter B) de segunda geração com 3,5 km de alcance.


O melhor míssil dessa geração, no entanto, foi o SS.11 francês. Pesado demais para a infantaria foi feito para uso montado em veículos e helicópteros, podendo ser operado por infantes em equipes de 4. Pesava 30 kg, voava duas vezes mais rápido que o SS.10 e tinha apenas 50 cm de envergadura com asas enflechadas. Foi adotado por 35 países e chamado de M22 nos EUA.


A Nord-Aviation saiu na frente novamente e deu o passo para a geração seguinte de ATGW. Procurando superar a dificuldades de operação do sistema MCLOS, que era agravada pelo estresse de combate, foi desenvolvido um sistema onde o operador tinha apenas que manter o alvo dentro do aparelho de pontaria do lançador, alinhado em sua linha de visada. Um sensor mede a os sinais IR do míssil, calcula seu desvio em relação a visada e corrige sua trajetória, mantendo-a em direção ao alvo.


O sistema SACLOS (Semi-Automatic Command to Line of Sight – Comando Semi-automático para linha de visada) caracteriza a segunda geração dos sistemas de guiagem de mísseis. Neste sistema todas as correções de direção vertical e horizontal são calculadas automaticamente pelo processador instalado no reparo de lançamento, cabendo ao operador a bem mais simples tarefa de manter o alvo dentro do retículo de mira.

Este sistema se apresentou de 4 forma distintas: a primeira manteve a guiagem por fio (fibra ótica) que é imune a interferências eletromagnéticas mas apresenta restrições para operação em áreas restritas como florestas. pode ainda ser guiado por rádio, que livra a operação de fios que podem enroscar ou romper, mas está suscetível a interferência. 

Existe ainda a guiagem por laser onde um operador ilumina o alvo designando-o, com um feixe de laser que é buscado pela cabeça do míssil, e pode ser bloqueado por fumígenos de bloqueamento específico. Outra forma mais eficaz deste tipo de guiagem e a beam rider, onde o feixe de laser é dirigido a um receptor no míssil, que transmite as informações de correção de trajetória, sendo imune a contramedidas. A guiagem por radar também é usada em alguns modelos, onde um radar de ondas milimétricas ilumina o alvo e o míssil monta este feixe e se dirige até o alvo.

O primeiro míssil russo de 2 geração foi o 9M17P (At-2 Swatter C), que era uma versão SACLOS radar do Swatter B e podia alcançar 4 km. O 9M14 Malyutka (AT-3 Sagger) pesava 11,3 kg foi produzido em versões MCLOS e SACLOS e foi o míssil russo mais produzido de todos os tempos, causando grandes perdas aos blindados israelenses na Guerra do Yom Kippur em 1973. O 9K111 Fagot (AT-4 Spigot) alcança 2 km, pesa 12,5 kg com uma ogiva HEAT de 1,7 kg. O 9M113 Konkurs (AT-5 Spandrel) entrou em serviço em 1974, possuia uma ogiva de 2,7 kg HEAT e penetrava 680 mm de armadura. O Irã produziu uma versão chamada Tosan. O 9K114 Shturm (AT-6 Spiral) é um míssil grande de 31 kg e ogiva HEAT de 5,3 kg e penetra até 560 mm, existindo uma versão termobárica, orientação SACLOS rádio, e alcance de 5 a 7 km, feito para se usado no helicóptero Mi-24.


O primeiro ATGW desenvolvido pelo US Army foi o MGM-51 Shillelagh disparado do canhão de 152 mm do M551 Sheridan e pesava 27 kg. Possuia guiagem SACLOS e também foi usado pelo M60A2. Para a infantaria os americanos desenvolveram o M47 Dragon de 6 kg e guiagem SACLOS. O míssil definitivo para os norte-americanos foi o TOW BGM-51 um míssil de 21 kg e 3,7 km de alcance. Possui uma ogiva de 3,9 HEAT, considerada suficiente  para penetrar os blindados dos anos 80. Existem ainda o Swingfire inglês de 27 kg e 4 km de alcance; o RBS56 Bil sueco que perfura a blindagem mais fina da parte superior dos blindados, o HOT de 27 kg e o Milan de 7 kg, ambos da euromissile.

O ATGW mais importante dos EUA na atualidade é o AGM-114 Hellfire de 43 kg, feito para ser lançado dos helicópteros Apache.  Possui ogiva HEAT de 9 kg em tandem, orientação SACLOS laser e alcança 8 km, podendo calçar várias ogivas. Existem ainda outros modelos pelo mundo de desempenho semelhante.


A guiagem ACLOS (Automatic Command to Line of Sight – Comando automático para linha de visada) é considera a características de terceira geração de sistemas de guiagem de mísseis, sendo o próprio míssil encarregado de todo o procedimento pós-disparo, caracterizando os dispare e esqueça. Normalmente utilizan-se de caçeas IR e podem ser interferidos. São sistemas mais caros que os sistemas SACLOS e apresentam a vantagem do operador poder abandonar a posição após o disparo, evitando fogo de retaliação. Temos atualmente valendo-se da orientação ACLOS o FGM-148 Javelim dos EUA. O 9M123 Khrizantema russo (AT-15 Spinger) pode ser guiado pela forma SACLOS e ACLOS radar, atinge 6km, e perfura blindagens de 1200 mm ERA e possui ogiva termobárcia. Pesa 54 kg. O 9K121 Vikhr (AT-16 Acallion) é o mais novo sistema ATGW russo com 10 km de alcance, guiagem SACLOS beam rider e ogiva HEAT em tandem.
Sistemas russos (Plano Brasil)



Sistemas ATGW
  • Argentina 
    • Mathogo
    • MARA
  • Belarus
    • Shershen
  • Brasil
    • MSS-1.2
  • China
    • HJ-10
    • HJ-8
    • HJ-9
    • HJ-12
    • HJ-73
    • Tipo 98 anti-tanque de foguete
    • Tipo 78/65
  • Croácia
    • RL90 M95
  • Canadá 
    • Eryx
  • França
    • Entac
    • Eryx
    • SS.10
    • SS.11
    • MILAN
    • HOT
  • Alemanha
    • Cobra
    • Cobra 2000
    • Mamba
    • MILAN
    • HOT
    • PARS 3
  • Hungria
    • 44M húngaro
  • Índia 
    • DRDO
    • Nag
  • Irã
    • RAAD (com base na AT-3B Sagger)
    • Toophan
    • Toophan 2
    • Toophan 5
    • Saeghe 1-2
    • Towsan
    • Dehlavie
  • Israel [editar]
    • (atualizado BGM-71 TOW-2)
    • MAPATS
    • Lahat - disparadp p/ tubo do Merkava
    • Espigão
    • Nimrod
  • Itália 
    • Mosquito
  • Japão
    • Type 64 MAT
    • Type 79 Jyu-MAT
    • Type Chu-MAT
    • Type 96 MPMS
    • míssile Multi-Purpose
    • Type 01 LMAT
  • Paquistão
    • Baktar Shikan
  • Sérvia
    • Bumbar
    • ALAS (míssil)
  • África do Sul
    • ZT3 Ingwe
    • Mokopa
  • União Soviética e Rússia
    • Drakon, usado com o IT-1 tanque míssil que viu muito pouco serviço.
    • Taifun, um míssil protótipo que nunca viu a produção.
    • AT-1 Snapper (3M6 Shmel)
    • AT-2 Swatter (3M11 Falanga)
    • AT-3 Sagger (9M14 Malyutka)
    • AT-4 Spigot (9M111 Fagot)
    • AT-5 Spandrel (9M113 Konkurs)
    • AT-6 Spiral (9M114 Shturm) --lançado do ar
    • AT-7 Saxhorn (9M115 Metis)
    • AT-8 Songster (9M112 Kobra) - disparado p/ tubo doT-64 e T-72
    • AT-9 Spiral-2 (9M120 Ataka) - ar-lançado
    • AT-10 Stabber (9M117 Bastion) - disparado p/ tubo raiado do T-55
    • AT-11 Sniper (9M119M Svir / Refleks) - disparado p/ tubo do T-64, T-72 / T-80, T-84 e T-90 
    • AT-12 Swinger (9M118 Sheksna) - disparado p/ tubo do T-62
    • AT-13 Saxhorn-2 (9M131 Metis-H)
    • AT-14 Spriggan (9M133 Kornet)
    • AT-15 Springer (9M123 Khrizantema)
    • AT-16 Scallion (9A1472 Vikhr / Vikhr-M?)
  • Suécia
    • Brigão
    • BILL 1
    • BILL 2
    • MBT LEI
  • Turquia
    • Cirit (Laser Guided mísseis anti-tanque) [1]
    • Mizrak-O (Medium Faixa de mísseis anti-tanque) [2]
    • Mizrak-U (Long Range mísseis anti-tanque) [3]
  • Reino Unido
    • Malkara
    • Red Planet
    • Swingfire
    • Brimstone (lançado do ar)
    • Vickers Vigilant
  • Estados Unidos
    • M47 Dragão (já não está em serviço)
    • Javelin (em serviço)
    • SRAW (em serviço)
    • BGM-71 TOW (em serviço)
    • AGM-114 Hellfire (em serviço)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - parte 2 - As máquinas


Por Reinaldo V. Theodoro

Os alemães depositaram grandes esperanças em suas novas máquinas. A principal delas, sem dúvida, era o Panzer VI Ausf.E “Tigre”, o tanque pesado que havia sido peça fundamental no contra-ataque de Manstein poucos meses antes. O“Tigre” I que participou da batalha de Kursk pesava 56 toneladas, tinha blindagem de até 100 mm e era armado com o canhão KwK 36 L/56 de 88 mm, além de duas metralhadoras de 7,92 mm.


O Panzer V Ausf.D “Pantera” chegou a Kursk mais como uma promessa do que como uma ameaça real, pois ele ainda sofria de sérios problemas mecânicos. Ele equipou um batalhão da Grossdeutschland e a 10ª Brigada Panzer (a 2ª Divisão SS Das Reich também recebeu algumas unidades dele). Era armado com um canhão KwK 42 L/70 de 75 mm e 2 metralhadoras de 7,92 mm. Seu peso era de 45,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 100 mm.

O cavalo-de-batalha da arma blindada alemã, porém, continuava sendo o Panzer IV, então nos modelos G e H. Este era armado com um canhão KwK 40 L/48 de 75 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 23,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 80 mm, além de placas verticais de 5 mm fixadas nas laterais do chassi e da torre, para evitar armas anti-tanques de carga oca.


Apesar de obsoleto, mais de 460 Panzer III ainda estavam em serviço como tanques de 1ª linha, nas versões J, L e M, armados com o canhão de 50 mm longo. De fato, a batalha de Kursk marcou o último emprego do Panzer III como tanque de batalha, sendo relegado depois apenas para a função de apoio, tendo uma versão, a N, especialmente produzida para essa função. Era armado com um canhão KwK 39 L/60 de 50 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 22,3 toneladas e sua blindagem máxima era de 50 mm, tendo recebido também placas verticais extras de 5 mm no chassi e na torre. A sua versão de lança-chamas (Flammpanzer) também participou da batalha.


O canhão autopropulsado “Ferdinand”, baseado no protótipo recusado da Porsche para o “Tigre”, pesava 65 toneladas e sua blindagem chegava a 200 mm. Era armado com o devastador canhão Pak 43/2 L/71 de 88 mm, que podia penetrar 226 mm de blindagem a 30º à distância de 450 metros. Porém, ele não tinha armamento secundário, o que fazia dele uma presa apetitosa para os grupos de destruidores de tanques soviéticos.


O Sturmpanzer “Brummbär” era um canhão de assalto pesadamente blindado destinado à destruição de fortificações. Era armado com um obuseiro StuH 43 L/12 de 150 mm, pesava 28,2 toneladas e sua blindagem chegava a 100 mm.


Também participaram da batalha de Kursk os canhões autopropulsados de campanha “Wespe” e “Hummel”, presentes em bons números pela primeira vez, o estreante caça-tanques “Hornisse”, ao lado de modelos mais antigos como o Marder II, e o canhão de assalto StuG III.


Os aviões alemães ainda eram os mesmos tipos que participaram da “Barbarossa” dois anos antes, embora em modelos mais recentes. Os caças alemães eram principalmente o Fw 190A-5 e o Me 109G-6 “Gustav”. Entre os aviões de ataque ao solo, enquanto o novo Henschel Hs 129B, avião anti-tanque, fazia a sua estréia em bons números, o veterano Ju 87 Stuka (nas versões D e G) fazia a sua despedida da função de bombardeiro de mergulho, pois ele só podia sobreviver onde a Luftwaffe tinha a supremacia aérea, o que já estava se tornando coisa do passado. Os bombardeiros de nível ainda eram o He 111 e o Ju 88, nas versões H-16 e A-4, respectivamente.


Do lado soviético, o T-34 foi o tanque onipresente em toda a batalha. Em Kursk, o Modelo 1942, de torre hexagonal soldada, já se fazia presente em grandes números. Ele pesava 27,8 T e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 2 metralhadoras de 7,62 mm. Sua blindagem máxima, na torre, era de 65 mm.


Apesar de menos numeroso (cerca de 200 unidades em Kursk), o KV-1 ainda estava em serviço em meados de 1943, embora já estivessem em vias de produção o KV-85 (um KV com uma nova torre e um canhão de 85 mm) e seu sucessor definitivo, o JS. Ele pesava 42,5 toneladas, tinha blindagem máxima de 82 mm e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 3 metralhadoras de 7,62 mm.


Os soviéticos depositaram uma grande parcela da tarefa de deter os alemães às suas armas antitanques. Embora fossem utilizados calibres de 45 e 57 mm, o canhão anti-tanque mais importante dos soviéticos nessa ocasião era o ZiS-3 de 76,2 mm, que participou da batalha em carreta de campanha ou na versão autopropulsada, o SU-76. Este pesava 11,2 toneladas e sua blindagem máxima era de 35 mm. Equipava os regimentos de canhões AT autopropulsados e podia atuar como antitanque ou como apoio de infantaria. Lançado em janeiro de 1943, o SU-122 era um canhão de assalto baseado no chassi do T-34. Inicialmente, equipou com pequenos números os regimentos de SU-76. Era excelente contra pontos-fortes, mas não tinha bom desempenho como antitanque. Ele era armado com 1 canhão M-30S de 122 mm, tinha blindagem máxima de 45 mm e pesava 30 toneladas.


Kursk também marcou a estréia do SU-152, um SU-122 armado com canhão de 152 mm, que esteve presente em pequena quantidade. Os soviéticos contavam também com tanques leves T-70 (inúteis contra tanques) e alguns modelos fornecidos pelos aliados ocidentais, em particular o tanque médio M3 “Lee” americano e o tanque pesado Churchill britânico. Considerados muito inferiores aos seus próprios modelos, foram mesmo assim lançados em batalhas importantes como em Stalingrado e Kursk, às vezes em unidades de Guardas.


A aviação soviética finalmente começava a apresentar aparelhos tão bons quanto seu inimigo. Entre os caças, o Yak-3 fazia a sua estréia, combatendo ao lado de aparelhos como o Yak-1M, o Yak-9D e o La-5FN. O Il-2m3 “Shturmovik” era então considerado o melhor avião de ataque ao solo do mundo, armado com dois canhões antitanques de 37 mm e bombas. O versátil Pe-2 era o bombardeiro leve padrão da Força Aérea Vermelha e o Pe-8 e o DB-3F, bombardeiros de nível da Força Aérea Estratégica, também deram sua contribuição.

Parte 1      Parte 3

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - Parte 1




Por Reinaldo V. Theodoro


INTRODUÇÃO: 

A 2ª Guerra Mundial foi uma hecatombe sem paralelo na história da Humanidade. Ela representou uma violenta ruptura entre o mundo colonialista pós-revolução industrial e o atual, não apenas nos campos social, político, técnico e geográfico, mas, não menos importante, no militar. 

Neste, o grande conflito deixou claro que a máquina havia se tornado o senhor do campo de batalha. Movendo-se no solo ou sobrevoando-o, atacando ou defendendo, a máquina de guerra tornou-se o fator determinante na definição do vencedor. E a vitória sorriria certamente para o lado que soubesse dispor melhor de suas máquinas em função de sua qualidade, quantidade e organização. E embora os combates corpo-a-corpo, idênticos aos travados durante séculos, ainda acontecessem, as batalhas decisivas foram feridas entre homens que não viam os rostos dos homens que estavam matando. 

Nesse aspecto, a batalha de Kursk é um clássico. Poucas vezes na História, dois exércitos se lançaram com todos os seus meios materiais numa batalha de “tudo ou nada” como essa. Uma batalha em que o primordial não era conquistar ou matar, mas simplesmente destruir as máquinas inimigas. Mais de 10.000 engenhos blindados (entre tanques, canhões autopropulsados e transportes blindados) se chocaram numa orgia de destruição sem precedentes. Do desfecho dessa batalha, dependia o resultado da luta no front russo. Do resultado da luta no front russo, dependia a vitória ou a derrota na guerra. 

A vitória ou a derrota na guerra definiria como a Europa – e o mundo – viveriam as décadas seguintes. Neste aspecto, Kursk pode mesmo ser considerada uma batalha mais importante que Stalingrado ou que toda a campanha do Mediterrâneo. E, no entanto, sem que ninguém soubesse, já estava decidida desde o primeiro disparo. 



PRIMÓRDIOS:

No verão de 1943, parecia que a Alemanha havia se recuperado do desastre de Stalingrado. Durante fevereiro e março de 1943, a brilhante contra-ofensiva de Manstein havia recuperado Kharkov, detido a ofensiva de inverno soviética e estabilizado a linha alemã. O Alto Comando alemão decidiu então manter a iniciativa, realizando uma nova ofensiva. 

Em 13/03/43, a diretiva para a campanha de verão foi emitida. Ela mencionava que os soviéticos certamente atacariam durante os meses de verão e, portanto, a Alemanha teria que realizar uma ofensiva preventiva. O ponto escolhido era o saliente de Kursk, um bolsão com 175 km de extensão em sua base por 135 km de profundidade. Por vários aspectos, a decisão de atacar ali é bastante compreensível. O saliente de Kursk era um trampolim perfeito para o lançamento de futuras operações dos soviéticos, mas estes só recentemente haviam ocupado a região e ainda estavam consolidando o seu perímetro de 580 km. 

Além disso, o ataque, que recebeu o nome código de Fall Zitadelle (“Operação Cidadela”), não foi planejado originalmente para ser um ataque decisivo. Ele seria apenas um de uma série de ataques locais ao longo do front russo.

Contudo, com o passar do tempo, “Cidadela” recebeu cada vez mais prioridade, sendo destinados a ela mais e mais recursos. Tendo em vista a resistência esperada, considerou-se essencial a concentração do maior número possível dos novos blindados, ainda saindo das fábricas. Isso provocou meses de atraso. Se realizada na primavera, ela teria boas condições de sucesso. Mas, quando foi desencadeada, em julho, a situação no bolsão de Kursk havia mudado drasticamente.

A “Cidadela” foi controversa desde a sua concepção. O General Heinz Guderian, Inspetor-Geral das Tropas Blindadas, não queria nenhuma ofensiva em 1943, visando a plena recuperação da arma blindada alemã; o General Alfred Jodl, Chefe do Estado-Maior do Alto Comando alemão (OKW), queria manter suas reservas à mão para responder aos possíveis movimentos dos aliados ocidentais no Mediterrâneo. Do outro lado, o General Kurt Zeitzler, Chefe do Estado-Maior do Exército (OKH) e os Marechais Erich von Manstein e Günther von Kluge, comandantes, respectivamente, do Grupo-de-Exércitos Sul e do Grupo-de-Exércitos Centro, eram favoráveis a ela. Em face da divergência de seus conselheiros, Hitler adiou a decisão. Ele mesmo chegou a admitir que toda vez que pensava no assunto sentia o estômago embrulhado. O mês de abril passou e nada aconteceu. Após mais alguns adiamentos, a decisão foi tomada a 01/07/43, quando Hitler deu a ordem para iniciar a operação a 05/07/43.


Os soviéticos aproveitaram muito bem a indecisão alemã. Eles haviam recebido informes precisos das intenções inimigas de diversas fontes:  “Lucy”, um espião que agia na Suíça e que recebia informações diretamente de oficiais antinazistas nos altos escalões alemães; o Primeiro-Ministro inglês Winston Churchill, que retransmitia os informes da “Ultra” para os soviéticos (embora sem mencionar a fonte); e do próprio serviço de inteligência soviético, que, por sua vez, capturara máquinas de criptografia “Enigma”.

A questão passou então a se decidir entre esperar o ataque alemão e detê-lo ou atacar primeiro e esvaziá-lo. Os soviéticos decidiram pela primeira opção. Reforçaram e fortificaram o saliente como nunca antes se fizera no front russo. O plano prescrevia que os atacantes seriam desgastados ao máximo e então reservas frescas seriam lançadas numa ofensiva própria, que teria todas as probabilidades de sucesso, uma vez que as reservas alemãs estariam então empenhadas ou destruídas. Mas o sucesso desse plano dependia do Exército Vermelho ser capaz ou não de absorver o impacto da ofensiva alemã. 



OS ATACANTES:

O plano alemão era o tradicional (e manjado) ataque de pinças na base do bolsão, simultaneamente ao norte e ao sul dele. O ataque ao norte seria desfechado pelo 9º Exército, do General Walther Model, parte do Grupo-de-Exércitos Centro. Ele contava com 6 Divisões Panzer, 1 Panzergrenadier e 15 de infantaria, além de um regimento com 90 dos novos canhões autopropulsados “Ferdinand” (656º), um batalhão de “Tigres” (505º) e um batalhão do novo canhão de assalto “Brummbär” (216º). 

Ao todo, ele contava com 1.079 blindados de todos os tipos (excluindo transportes e carros blindados). O 9º Exército tinha ainda 3 companhias de veículos de demolição Borgward B.IV e 2 de “Goliaths” (usados para abrir passagem nos campos minados). Encarregado do ataque ao ombro meridional do bolsão, o Grupo-de-Exércitos Sul, do Marechal Manstein, empregaria o 4º Exército Panzer do General Hermann Hoth e o “Destacamento Kempf”, do General Werner Kempf. Essas forças englobavam 5 Divisões Panzer, 4 Panzergrenadier  e 11 de infantaria, além de uma brigada com 200 dos novos tanques “Pantera” (10ª), um batalhão de “Tigres” (503º) e um batalhão de destruidores de tanques “Hornisse” (560º), totalizando 1.581 tanques e canhões de assalto (incluindo 30 tanques lança-chamas Panzer III “Flammpanzer”).

O poderio das divisões blindadas alemãs então variava muito. Enquanto  a 18ª Divisão Panzer somava míseros 75 tanques (dos quais 43 obsoletos), a 3ª Panzergrenadier SS Totenkopf contava com 183 máquinas, incluindo uma companhia com 15 “Tigres".

Ao todo, seriam 900.000 homens, 2.700 tanques e canhões de assalto (63% de todos os blindados  alemães no front russo) e 10.000 canhões. A Luftwaffe tinha então cerca de 1.830 aparelhos em operação na área, divididos entre a Fliegerdivision 1, ao norte, e a Luftflotte IV, ao sul.


OS DEFENSORES:

Poucas vezes na história das guerras, um exército teve tanta antecipação dos planos inimigos e se preparou tanto e tão detalhadamente quanto o soviético para a Batalha de Kursk. Cerca de 300.000 civis foram convocados para trabalhar nas posições defensivas, cavando mais de 5.000 km de trincheiras. As linhas soviéticas foram preparadas com profundidades de dezenas de quilômetros em alguns pontos. Foram organizados vários cinturões de defesa, que consistiam de pontos fortes pesadamente protegidos, com canhões anti-tanques, morteiros e artilharia. 

Diante desses pontos, extensos campos de minas impediam qualquer tentativa de manobra. Dentro do bolsão, o flanco norte era responsabilidade da Frente Central, do General K. R. Rokossovsky, que contava com cinco exércitos de fuzileiros  (13º, 48º, 60º, 65º e 70º), um de tanques (2º) e um aéreo (16º), além de dois corpos de tanques. 

A Frente Central contava com 1.647 veículos blindados de combate de todos os tipos, dos quais 1.155 eram tanques médios e pesados. A aviação contava com 455 caças, 241 aviões de ataque ao solo e 260 bombardeiros diurnos. O flanco sul era defendido pela Frente de Voronezh, do General Nikolai Vatutin, também composto por cinco exércitos de fuzileiros (38º, 40º, 69º, 6º de Guardas e 7º de Guardas), um de tanques (1º) e um aéreo (2º), além de dois corpos de tanques de guardas, totalizando 1.843 blindados de todos os tipos, dos quais 1.621 eram tanques médios e pesados. 

A sua aviação contava com 389 caças, 276 aviões de ataque ao solo e 172 bombardeiros diurnos. Além disso, as duas frentes teriam o apoio do 17º Exército Aéreo da Frente Sudoeste e da Força Aérea Estratégica.

Atrás dessa formidável defesa, estavam as forças da Frente da Estepe, do Coronel-General Ivan S. Konev, destinadas a contra-atacar qualquer penetração que os alemães conseguissem ou lançar uma ofensiva própria, conforme as circunstâncias.

Era composta por cinco Exércitos de fuzileiros (27º, 47º, 53º, 4º de Guardas e 5º de Guardas), um de tanques (5º de Guardas) e um aéreo (5º), além de um corpo de cavalaria. A Frente da Estepe tinha ao todo 1.701 veículos blindados, dos quais 1.380 eram tanques médios e pesados.

Toda a batalha estaria sob o controle direto do Marechal Georgi K. Zhukov, provavelmente o militar de folha de serviços mais brilhante da 2ª Guerra Mundial, sem ter uma única derrota em seu rol a partir da batalha de Khalkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Ao todo, estariam diante dos alemães, somente dentro do bolsão de Kursk, cerca de 1.340.000 homens, 3.300 tanques e canhões de assalto, 2.650 aviões, 13.000 canhões de campanha e morteiros, 6.000 canhões anti-tanque e 920 lançadores de foguetes (o famoso “Katyusha”).



AS TÁTICAS:

A tática favorita dos comandantes de blindados alemães era a “Panzerkeil” (Cunha Blindada), uma formação de vários “V” sucessivos, onde os blindados mais pesados avançavam no “V” da vanguarda, com o vértice apontado para a frente, permitindo que os tanques dotados de blindagens mais pesadas – e que suportariam melhor os golpes das defesas – proporcionariam a ruptura da linha inimiga, permitindo então que os blindados mais leves e a infantaria, vindo atrás, aproveitassem para efetuar a consolidação do terreno e a exploração. 

Esta foi a tática adotada pelo Grupo-de-Exércitos Sul. As divisões blindadas de Manstein tinham frentes de apenas cerca de 3 km, o que lhes permitia uma concentração de 30 a 40 carros por quilômetro. Além disso, como a velocidade era essencial, ele deu ordens para não parar nem mesmo para socorrer tripulações de tanques imobilizados (o que se revelou uma sentença de morte para muitas delas). 


Já o 9º Exército, ao contrário, estava bastante ciente de que teria pela frente fortes defesas antitanques. Model apostou suas fichas no trabalho das equipes infantaria-tanques, no emprego maciço de artilharia e no metódico trabalho de eliminação dos pontos-fortes, para só então lançar suas reservas blindadas. Ele tinha menos blindados que seus compatriotas no sul e havia recebido os mais novos canhões de assalto de apoio à infantaria (o “Ferdinand” e o “Brummbär”). Desse modo, a abertura do ataque se faria com nove divisões, reforçadas com canhões de assalto, das quais somente uma era Panzer (a 20ª). As tropas alemãs de todas as armas foram submetidas a intenso treinamento nas semanas que precederam a batalha, utilizando, inclusive, tiro real e campos minados soviéticos reais. 


Os soviéticos, por sua vez, consideravam que toda defesa era, primordialmente, anti-tanque. Eles desenvolveram a técnica defensiva usada pelos alemães conhecida como “Pakfront” (Frente de Canhões Anti-Tanques). Cerca de dez canhões anti-tanques, normalmente de 76,2 mm, eram agrupados em posições fortificadas, cobrindo a frente de vários ângulos diferentes, mutuamente apoiados e perfeitamente camuflados. 

No apoio a eles havia infantaria, morteiros e artilharia de campanha. E, à frente e em volta deles, havia extensos campos minados (ao todo, foram instaladas 503.663 minas anti-tanques e 439.348 minas anti-pessoal ao longo do bolsão). A densidade dos campos minados chegava, em alguns pontos, a 1.700 minas anti-pessoal e 1.500 antitanque por quilômetro de frente. Além disso, havia destacamentos de engenharia que implantariam campos minados novos à frente de unidades inimigas que penetrassem a linha principal. 


A primeira tarefa dos alemães, portanto, era abrir caminho nos campos minados. Mas os sapadores alemães tinham dificuldades extras. Eles não podiam utilizar detetores de metal, pois os soviéticos utilizavam muitas minas de madeira e papelão. Para piorar as coisas, a região de Kursk é rica em magnetita, a tal ponto que as bússolas não funcionavam direito ali. Com isso, os detetores de minas também não funcionavam, de forma que os alemães teriam que remover as minas literalmente “à unha”.

Havia também os grupos de destruidores de tanques, equipados com fuzis anti-tanques (já obsoletos, mas ainda úteis contra blindados mais leves), minas magnéticas, “coquetéis Molotov” e cargas explosivas. Enquanto os morteiros, as metralhadoras e a artilharia de campanha mantinham a infantaria longe dos seus tanques de apoio, esses grupos aproximavam-se pelos seus ângulos mortos e usavam todos os seus recursos para incapacitar o blindado inimigo. 

Como os alemães, as tropas soviéticas também foram submetidas a treinamento, incluindo as unidades que mantinham a linha de frente, através do rodízio de pequenas unidades. A ênfase de todo o treinamento era a destruição de blindados, a ponto de Krushchev, futuro premier soviético, mas então membro do Soviet Militar da Frente Central, ter declarado que todo soldado devia saber os pontos fracos do tanque “Tigre” tão bem como sabia o “Pai Nosso”.

Os soviéticos também realizaram um prodigioso trabalho de camuflagem, tanto escondendo instalações reais quanto criando posições falsas. Diversos relatos da batalha dão conta de que os atacantes só descobriam estar num campo minado ou próximo a um ponto forte depois que o primeiro tanque explodia.

Os soviéticos, porém, cometeram um pequeno equívoco: concluíram que o esforço principal alemão seria no norte, tendo aí concentrado mais meios que no sul. Mas, em vista das maciças concentrações de recursos em todo o bolsão, esse erro foi quase insignificante. 

Em ambos os ombros do saliente de Kursk, os soviéticos desfrutavam de superioridade numérica em todos os aspectos. No norte, os defensores tinham uma superioridade de 2:1 em artilharia e de 3:2 em blindados. No sul, a superioridade era de 7:3 em artilharia e de quase igualdade em tanques (sem contar com a Frente da Estepe).

Havia ainda a agravante de que a maioria dos tanques soviéticos era o famoso T-34, em contraste com a maioria de Panzer III e IV dos alemães. E embora os novos blindados dessem aos germânicos a superioridade técnica sobre os soviéticos pela primeira vez desde o começo da guerra, não havia número suficiente deles para compensar as massas de T-34 que logo seriam jogadas contra eles. 

Parte 2 - As Máquinas

Ogivas Militares (Warheads) - Parte 1 #


Ogivas militares são a componente de qualquer tipo de munição que causam os efeitos no alvo, de acordo com a finalidade a que foi projetada. Também denominadas cabeças de guerra, podem ser o projétil de um cartucho de arma leve ou a ogiva termonuclear de um ICBM, e são a razão de ser das munições militares. Elas cumprem seus papéis montadas em diferentes níveis de sofisticação tecnológica e complexidade, obedecendo concepções variadas, cada qual cumprindo com sua finalidade específica. 

Armas Leves

As ogivas de armas leves são os tipos mais simples dentre todas. Causam seus efeitos através da transmissão de energia cinética do projétil ao alvo e sua potência é obtida pela razão da massa do projétil multiplicada pelo quadrado da sua velocidade no momento do impacto, com algumas variações.

Devido ao seu pequeno tamanho, geralmente carregam pouca sofisticação tecnológica consigo, sendo seu desenvolvimento geralmente agregado ao calibre a que pertencem, a carga de projeção que a impulsiona e as armas que a disparam, fatores estes externos a ogiva em si. Apesar de pequenas e simples, estas ogivas, denominadas projéteis, ainda assim são concebidas em tamanhos e constituições diferentes. 



A seguir estão listadas diversas configurações de projéteis de armas leves:

  • Projéteis de chumbo ou cobre: Os projéteis em geral são feitos de chumbo ou cobre por serem metais mais "moles" que o aço que constitui a alma do cano das armas que os disparam, provocando dessa forma pequeno desgaste nestes. Os projéteis de chumbo são mais toscos e baratos que os de cobre, sendo estes mais usados em munição militar por serem de maior qualidade. O estanho também é usado em armas civis. Os projéteis podem ainda ter núcleos de metal duro (carbeto de tungstênio ou aço) e revestidos de chumbo ou cobre (metais moles) a fim de não desgastar a alma do cano.
  • Projéteis de ponta oca: o mesmo que projéteis expansivos.
  • Projéteis expansivos: são projéteis de ponta oca que se fragmentam ao atingirem o alvo, produzindo maior dano. São proibidos pela legislação da Convenção de Genebra.
  • Projéteis encamisados: são projéteis cujo núcleo mais pesado é recoberto por uma camisa ou jaqueta de outro material como o cobre por exemplo. Este encamisamento visa submeter a almo do tubo/cano a um menor estresse (desgaste).
  • Projéteis perfurantes: Projéteis perfurantes são projéteis constituídos de material muito duro como o aço e o tungstênio e destinam-se a atravessar facilmente os alvos que atingem. Devido a dureza deste material são capsulados (encamisados) por materiais mais "moles" como o teflon a fim de provocarem pouco desgaste ao cano da arma.
  • Projéteis Traçantes: São projéteis construídos com uma pequena quantidade de fósforo na base ou na ponta do projétil, que se incendeia quando do disparo, seja pela combustão da pólvora ou o atrito com o ar, deixando um rastro luminoso ao longo de sua trajetória.
  • Projéteis Incendiários: Projéteis destinados a provocar a ignição de materiais presentes no alvo. Projéteis comuns de cobre ou chumbo não produzem efeitos incendiários porque estes metais não produzem faíscas. Estes projéteis podem conter pequenas quantidades de fósforo ou alumínio.
Existem ainda projéteis constituídos pela combinação de dois ou mais dos listados acima.


Granadas de Tubo

Denominamos granada a um invólucro recheado de material explosivo que o arrebenta quando de sua detonação. Granadas de tubo são as ogivas de todas as armas de grosso calibre que são detonadas quando de seu impacto junto ao alvo. Algumas das ogivas aqui listadas não são granadas verdadeiras, como as munições APFSDS, mas estão listadas por afinidade.

Uma granada de tubo é projetada em sua trajetória tal qual os projéteis das armas leves, porém são mais complexos que estes, pois carregam além de seu invólucro, explosivos e espoletas com diferentes níveis de sofisticação. A seguir estão listados diversas configurações de granadas de tubo:
  • Granadas de Fragmentação: Ogiva que causa seus efeitos pela fragmentação de seu invólucro de metal duro, ou pela dispersão de balins contidos nela.
  • Granadas Iluminativas: Granada usada na artilharia sem efeito letal, que destina-se a prover iluminação a frente de batalha. Arrebentam a certa altura acima das tropas e descem vagarosamente em pequenos paraquedas, queimando um material de pirotecnia que causa um efeito fantasmagórico, permitindo a visualização de silhuetas em noites escuras.

  • Munição APFSDS: Esta munição atua através da transferência de grande quantidade de energia cinética ao alvo, através de um projétil não explosivo de altíssima densidade, ao qual é imprimida enorme aceleração. Também conhecida como munição tipo flecha, é a munição padrão anti-tanque usada atualmente. Seu disparo envolve pressões altíssimas e só pode ser feito por tubos especialmente projetados (não pode ser usada em armas portáteis).

  • Munição HE (alto-explosivo): É o tipo mais comum de granada de tubo. Constituída por um invólucro de aço pré-fragmentado (granada de fragmentação) preenchido com alto-explosivo de vários tipos. Pode se equipada com espoleta de impacto que detona ao contato, ou de retardo que detona após alguns segundos do impacto, ou ainda de tempo que detona no instante programado, estas últimas usada nas granadas de artilharia de campanha. Granadas usadas como munição antiaérea podem ser equipadas com espoletas de proximidade que não precisam atingir a aeronave para detonarem, bastando que passem próximas.


  • Munição HEAT: Munição que utiliza o efeito Munroe para causar seus efeitos, também conhecida como munição de carga oca e utilizada intensivamente nas armas anticarro portáteis, mas também presente em granadas anticarro de tubo. Compõe-se de um bloco de cobre moldado em forma cônica, com seu vértice apontando para atrás e rodeado de um explosivo. Ao impactar a espoleta contra o metal a determinada distância, o explosivo detona e funde o conteúdo de cobre (desde o centro do vértice orientado para atrás a sua base orientada à frente), em seu interior enviando um jato de metal quente contra a blindagem, que inverte o cone e direciona o jato em uma pequena área, que se rompe em partes diminutas; a qual se expande a grande velocidade, provocando um efeito de metralha. É especialmente efetiva contra blindagens de carros leves, sendo pouco efetiva contra MBTs e blindagens reativas.

  • Munição HESH (High Explosive Smashing Head): Alto Explosivo de Ogiva Deformável. Também conhecido como HEP (Alto Explosivo Plástico), este tipo de munição atinge as blindagens mas não chega a perfurá-las, espalhando-se na sua superfície e transmitindo uma onda de choque ao interior do veículo, que causa o desprendimento de partes do interior, causando danos pessoal e material. Este tipo de munição não é eficaz contra as blindagens modernas, sendo mais adequada ao emprego contra veículos de blindagem leve e infantaria. Não exige grandes velocidades iniciais de disparo, mas requer armas com alma raiada para sua estabilização
  • Ogivas Termobáricas: São ogivas que produzem um onda de choque significativamente maior que as explosões convencionais, por um tempo prolongado. Estes explosivos consomem o oxigênio da atmosfera, matando por asfixia e efeitos de subpressão mesmo quem estiver abrigado do efeito da explosão, enquanto que os explosivos convencionais trazem o seu próprio. Peso por peso são significativamente mais potentes e sua eficiência é potencializada em ambientes fechados como túneis, bunkers e cavernas. Também são conhecidos como FAE (fuel air explosives - explosivos combustíve;/ar). Não podem ser usados em ambientes submarinos, grande altitudes ou em condições atmosféricas adversas. Seu uso principal é antipessoal, mas causa danos também as estruturas.
Ogivas de Mísseis - Parte 2 - em breve