"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sábado, 2 de março de 2013

A Batalha de Kursk - Parte 3


Por Reinaldo V. Theodoro

04/07/43 - PRELIMINARES:


Na véspera do início da “Cidadela”, Hoth lançou uma série de ataques contra postos avançados soviéticos. Na frente do 48º Corpo Panzer, o objetivo era uma série de cristas, de onde observadores soviéticos poderiam vigiar a concentração das forças alemãs para o ataque principal. O ataque começou às 14:45 h, precedido por um ataque de 100 aviões (na maioria Stukas) e pesada preparação de artilharia. 

Embora houvesse ordens proibindo o uso de tanques, os panzergrenadieren das três divisões blindadas do Corpo tiveram o apoio de canhões de assalto, o que fez os russos informarem estar sendo atacados por tanques. Apesar da chuva e dos extensos campos minados, os objetivos foram conquistados. Os defensores da 71ª Divisão de Fuzileiros de Guardas haviam oferecido uma resistência irresoluta e recuado para as suas linhas de defesa principais. 

O 52º Corpo e o 2º Corpo Panzer SS, respectivamente à esquerda e à direita do 48º, também realizaram ataques limitados em suas frentes. Apesar da considerável melhoria na situação tática, os alemães haviam destruído qualquer esperança de obter surpresa no dia seguinte. 



05/07/43 - COMEÇA A “CIDADELA”: 

Os comandantes soviéticos estavam informados de que os alemães atacariam entre 3 e 6 de julho e colocaram as suas forças em alerta. Para acabar de vez com a possibilidade de surpresa, os soviéticos foram alertados por prisioneiros e desertores quanto ao horário do ataque. No norte, os soviéticos prepararam uma calorosa recepção para os atacantes. Pouco antes do início programado da preparação de artilharia alemã, às 3:30 h, a artilharia soviética bombardeou as posições das baterias alemãs, desorganizando unidades e arruinando a programação original. De fato, os comandos locais recearam que o bombardeio fosse o prelúdio de um ataque russo.

Com isso, a artilharia alemã só conseguiu abrir fogo às 4:30 h, com uma hora de atraso. O 41º Corpo Panzer e o 23º Corpo começaram seus ataques às 5:30 h, mas os 46º e 47º Corpos Panzer só partiram uma hora depois. Oito divisões de infantaria e uma Panzer atacaram numa frente de 40 km, defendida pelos 13º e 70º Exércitos. A 20ª Divisão Panzer e as 6ª e 292ª Divisões de Infantaria, apoiadas por tanques “Tigre”, canhões “Ferdinand” e Stukas, se abateram sobre as 15ª e 81ª Divisões de Fuzileiros soviéticas, obrigando os russos a recuar cerca de 7 km.

Porém, em Alexandrovka, na frente da 292ª Divisão, os “Ferdinand” atravessaram as linhas inimigas, enquanto a sua infantaria era detida e teve que abrir caminho à força para se reunir a eles. No flanco esquerdo, as 86ª, 78ª e 216ª Divisões de Infantaria exerceram forte pressão contra as 294ª, 148ª e 8ª Divisões soviéticas (a última pertencente ao 48º Exército), fazendo-a recuar cerca de 6 km, mas um contra-ataque blindado deteve os alemães, frustrando o avanço destes para Maloarkhangesk. 

Na frente do 70º Exército, a 132ª Divisão também recuou cerca de 2 km. Ao fim do dia, o 9º Exército havia conseguido um avanço de 6,5 km, ao custo de pesadas baixas (mais de 100 blindados só no primeiro dia). Porém, embora tivessem conseguido penetrar o primeiro cinturão de defesas numa frente de 42 km, os germânicos haviam apenas atingido o segundo. 

Do lado soviético, Rokossovsky compreendeu que as principais forças blindadas alemãs ainda não haviam sido empenhadas e que a maltratada 15ª Divisão de Fuzileiros oferecia a melhor oportunidade de uma penetração. Ele ordenou então a transferência de reservas para o setor ameaçado, à espera de um maciço ataque blindado para o dia seguinte. Um tanque “Tigre” da Das Reich e infantaria avançam. 

Vai começar a batalha. Ao sul, Vatutin também recebeu informes referentes ao início do ataque alemão e ordenou uma barragem de artilharia de 600 canhões contra as posições alemãs às 2:30 h. Diferente do bombardeio no norte, que visou principalmente às posições da artilharia alemã, essa barragem visou os locais previstos de concentração das forças atacantes, mas elas ainda não haviam chegado a esses pontos e o bombardeio acabou causando poucas baixas, embora causasse sérios problemas de  organização. 

Contudo, não alterou a programação alemã, que iniciou a sua própria preparação, como planejado, às 4:00 h, com um pesado ataque aéreo, seguido de um violento bombardeio de artilharia (durante 50 minutos, foram disparadas mais granadas de artilharia na frente do Grupo-de-Exércitos Sul do que nas campanhas da Polônia e da França juntas). 

Os soviéticos ainda deram um grande azar, pois um violento ataque aéreo, cuidadosamente planejado para pegar os aviões alemães se armando e abastecendo ainda nos aeródromos, foi frustrado pelo uso de um equipamento Freya (um radar primitivo), que alertou os alemães e permitiu que eles lançassem grande quantidade de caças para interceptá-lo. No que provavelmente foi a maior batalha aérea do front russo de toda a guerra, mais de 500 aviões se enfrentaram. As perdas de aviões soviéticos foram muito pesadas e, com isso, os alemães desfrutaram de uma temporária superioridade aérea local.

Apesar da chuva que caíra à noite e que transformara o terreno em um lamaçal, as forças de Manstein partiram às 5:00 h e tiveram melhor êxito que seus compatriotas no norte. A maciça concentração de blindados (cerca de 1.000 tanques e 350 canhões de assalto), as deficiências do reconhecimento aéreo soviético naquele setor e a existência de duas massas blindadas independentes (o 4º Exército Panzer e o Destacamento Kempf) fizeram com que Vatutin tivesse muito mais dificuldades que Rokossovsky.

Hoth, no comando do 4º Exército, tinha a tarefa principal de romper a linha russa e travar contato com o 9º Exército em Kursk. O eixo mais curto seria através de Oboyan, mas Hoth estava ciente de que o 1º Exército de Tanques soviético estava postado exatamente ali para barrá-lo. Portanto, decidiu rumar para Prokhorovka, de onde ele poderia atacar separadamente o 1º Exército de Tanques ou quaisquer reservas que viessem do leste, que teriam que passar por aquela cidade.

O 48º Corpo Panzer avançou na direção de Cherkasskoye, confiando no poderio da Divisão Grossdeutschland e dos “Panteras" da 10ª Brigada Panzer. Porém, mal iniciaram o ataque, os “Panteras" caíram em um enorme campo minado, perdendo 36 tanques. A Grossdeutschland, porém, conseguiu penetrar a frente da 67ª Divisão de Fuzileiros de Guardas, o mesmo fazendo a 11ª Panzer à sua direita. Após uma luta de inaudita ferocidade, os alemães ocuparam a localidade e os poucos defensores sobreviventes tiveram que recuar. À esquerda, a 3ª Panzer e a 332ª Divisão de Infantaria avançaram, a despeito do terreno e das minas, contra forte oposição da 71ª Divisão de Fuzileiros de Guardas e, ao fim do dia, haviam chegado ao rio Pena, a 6 km do ponto de partida.

O 2º Corpo Panzer SS lançou-se contra a veterana 52ª Divisão de Fuzileiros de Guardas e a 375ª Divisão de Fuzileiros. No início o avanço foi relativamente rápido, com as cunhas blindadas atravessando as trilhas que haviam sido limpas de minas pelos sapadores na véspera. Mas logo a resistência recrudesceu e, numa luta que durou todo o dia, os SS lograram romper as defesas soviéticas e avançar cerca de 15 km, mas não sem pesadas baixas.

O Destacamento Kempf cruzou o rio Donets buscando atingir Korocha, com a missão de cobrir o flanco direito do 4º Exército Panzer, mas, apesar de conquistar terreno, não logrou romper a frente do 7º Exército de Guardas (antigo 64º Exército, veterano de Stalingrado) e seu avanço, em conseqüência, foi muito mais lento. À sua esquerda, a 168ª Divisão de Infantaria, com o apoio de tanques da 6ª Divisão Panzer, partiu da cabeça-de-ponte de Belgorod e só conseguiu avançar 3 km, contra tenaz oposição da 81ª Divisão de Infantaria de Guardas. 

No centro, as 7ª e 19ª Divisões Panzer, com apoio dos “Tigres" do 503º schwere Panzer Abteilung (sPzAbt), conseguiram atravessar o Donets, mas enquanto a 7ª Panzer, à direita, conseguiu romper a primeira linha de defesa da 78ª Divisão de Fuzileiros de Guardas, a 19ª não conseguiu ultrapassar o perímetro da cabeça-de-ponte, em função da resistência encontrada e dos intermináveis campos minados. 

À direita, as 106ª e 320ª Divisões de Infantaria também atravessaram o Donets, mas não conseguiram penetrar as linhas de defesa principais e se limitaram a estabelecer posições de proteção de flanco. Durante a noite, o comandante do 3º Corpo Panzer (a ponta-de-lança do Destacamento Kempf) decidiu retirar a 6ª Divisão Panzer da cabeça-deponte de Belgorod e fazê-la atravessar o Donets na cabeça-de-ponte da 7ª Panzer. Embora ele estivesse reforçando o ponto de maior sucesso, isso permitiu que um saliente soviético se mantivesse entre o Destacamento Kempf e o 2º Corpo Panzer SS, propiciando uma base para o lançamento de ataques contra o flanco dos SS, o que obrigou a Totenkopf a proporcionar uma guarda de flanco para o corpo.

Os campos minados haviam infernizado a vida dos atacantes, causando atrasos e baixas (incluindo o General Schäfer, comandante da 332ª Divisão de Infantaria). Mas, o primeiro cinturão de defesas da Frente de Voronezh havia sido rompido em dois lugares, criando uma situação muito grave. As reservas de Vatutin foram logo aspiradas para a frente, mas, diante de Hoth, haviam sido forçadas a recuar para o segundo cinturão.

Pelo fim do primeiro dia de batalha, ambos os lados haviam sofrido baixas muito pesadas, mas enquanto os soviéticos se permitiam a isso, desde que causasse danos e atrasos ao inimigo, os alemães estavam perdendo material valioso e soldados que seriam cada vez mais difíceis de substituir.

Nos céus, a batalha foi tão encarniçada quanto em terra. Só no primeiro dia da operação, a Luftwaffe anunciou a derrubada de 432 aviões inimigos (certamente um exagero).



06/07/43:

No dia seguinte, a batalha cresceu de intensidade. Model continuou empurrando suas forças à frente, mas as tropas alemãs descobriram, desconcertadas, que durante a noite os soviéticos haviam trazido canhões e tanques para substituir os que haviam sido destruídos na véspera, obrigando os alemães a conquistar novamente posições que já haviam sido neutralizadas. 

A 18ª Divisão de Fuzileiros de Guardas foi trazida da Frente Oeste para reforçar a defesa de Maloarkhangelsk, o 3º Corpo de Tanques foi postado ao sul de Ponyri, o 17º Corpo de Fuzileiros de Guardas reforçou a frente ameaçada do 13º Exército e dois Corpos de Tanques (16º e 19º) foram concentrados na região de Olkhovatka. 

Os soviéticos então efetuaram uma série de contra-ataques em toda a linha. O mais sério deles foi o executado pelo 16º Corpo, nas primeiras horas da manhã, com cerca de 100 tanques (T-34 e T-70), chocando-se frontalmente com a 2ª Divisão Panzer, que se aproximava para atacar, sendo facilmente rechaçado após avançar cerca de 2 km. 

Nas frentes da 86ª e da 292ª Divisões, a 12ª Divisão Panzer e a 10ª  anzergrenadier tiveram que intervir, apesar de Model ter destacado previamente essas duas divisões para a prevista ruptura. Os alemães então avançaram para Olkhovatka e para a cota 274. Ambos os comandantes sabiam que a conquista daquela posição abriria uma brecha no dispositivo soviético, o que permitiria a arremetida do 9º Exército na direção de Kursk.

Porém, Rokossovsky havia dado atenção especial àquele setor, de forma que aquela era uma área extensamente fortificada. Model havia lançado o 47º Corpo Panzer (2ª e 9ª Divisões Panzer, reforçadas com os “Tigres" do 505º sPzAbt) exatamente contra esse ponto. Pelo meio-dia, mais de 900 blindados estavam em ação em toda a frente do 9º Exército, mas sem obter qualquer sucesso. Os alemães estavam “quebrando os dentes” em Olkhovatka. No flanco esquerdo, o renovado ataque contra Maloarkhangesk também não deu resultado algum. 

Ao fim do segundo dia de batalha, Model havia penetrado apenas 10 km, ao custo de pesadas baixas em homens e blindados. Pior ainda, o 47º Corpo Panzer estava perigosamente exposto e detido diante de Olkhovatka. A grande frustração: um “Ferdinand” destruído. 

No sul, o 4º Exército Panzer retomou o ataque. O 48º Corpo Panzer perdeu mais tempo devido à lama e às minas do que lutando. Nos combates do dia, ele avançou até cerca de 10 km da linha de partida, repelindo as 71ª, 67ª e 52ª Divisões de Fuzileiros de Guardas para trás do rio Pena. Na frente do 2º Corpo Panzer SS, a Leibstandarte destroçou as defesas da 52ª Divisão de Fuzileiros de Guardas, arrebanhando cerca de 1.600 prisioneiros.

Mais adiante, na região de Yakovlevo, chocou-se com a 1ª Brigada de Tanques de Guardas, que foi repelida deixando uma dúzia de T-34 em chamas no terreno. A Das Reich, por seu lado, havia atingido a aldeia de Luchki pelo meio-dia, onde encontrou os tanques Churchill do 48º Regimento de Tanques Pesados. A Totenkopf, porém, não realizou nenhum progresso, tendo ficado ocupada todo o dia detendo contra-ataques russos. Mas o avanço dos SS representavam uma séria ameaça de ruptura na frente do 6º Exército de Guardas. Ao fim do dia, o 2º Corpo Panzer SS, contando com forte apoio aéreo, conseguiu penetrar 20 km desde o início da ofensiva, rompendo o segundo cinturão de defesa soviético.

Contudo, o Destacamento “Kempf” estava muito atrasado, o que deixava o flanco do Corpo SS vulnerável. Devido a isso, ao fim do dia, mais  de 30% dos blindados de Manstein estavam cumprindo tarefas de guarda de flanco, o que enfraquecia o esforço principal.

Embora no plano original o Destacamento Kempf visasse Korocha, o comandante do 3º Corpo Panzer concluiu que ele perderia tempo demais para superar as defesas postadas ali e preferiu rumar para o norte, tentando cumprir a tarefa mais importante de proteger o flanco do 4º Exército Panzer. 

Ele havia terminado o primeiro dia ainda com o grosso de seus blindados atrás do rio Donets, mas, ao amanhecer do dia 6, as 7ª e 19ª Divisões Panzer iniciaram a marcha para Rzhavets, apoiadas pela 168ª Divisão de Infantaria.

Elas colidiram com um contra-ataque inimigo, o qual foi repelido, e então conseguiram romper a linha soviética, permitindo à 6ª Panzer se inserir entre ambas. Ao fim do dia, as vanguardas alemãs haviam chegado a Yastrebovo.

No fim do dia 6, Vatutin, por telefone, informou a Stalin que suas tropas já haviam destruído 332 blindados inimigos. A Leibstandarte então já havia sofrido perdas de infantaria da ordem de 10% de seu efetivo original.



07/07/43:

Na frente do 13º Exército, os tanques do 19º Corpo de Tanques receberam ordem de se enterrar e assim mantiveram a linha durante os furiosos combates dos dias subsequentes. Contra eles, Model lançou quatro divisões Panzer (2ª, 9ª, 18ª e 20ª). Atacando em dois eixos, contra Teploye e Olkhovatka, os alemães conseguiram penetrar as defesas em Samodurovka. 

Em Ponyri, os alemães retomaram o ataque, trazendo elementos das 9ª e 18ª Divisões Panzer para reforçar as três divisões de infantaria que desde o dia 5 batiam cabeça contra a localidade. Um feroz combate de casa em casa rugiu nos dias subsequentes, dando a Ponyri o título de “Pequena Stalingrado”. Em três dias de combate, Model havia sofrido mais de 10.000 baixas em homens. As perdas de blindados também haviam sido muito pesadas, a ponto do 653º Batalhão de “Ferdinands" não ter um único veículo operacional ao fim desse dia.

No sul, o 4º Exército Panzer forçou os soviéticos a empenhar mais reservas na tentativa de deter a ofensiva alemã. No flanco esquerdo, as 3ª e 11ª Divisões Panzer e a Grossdeutschland atacaram o 31º Corpo de Tanques e o 3º Corpo Mecanizado, componentes do 1º Exército de Tanques. A Grossdeutschland capturou a aldeia de Dubrova e rechaçou o 3º Corpo Mecanizado para trás do rio Pena, última posição defensiva antes de Oboyan.

Ao fim do dia, a 10ª Brigada Panzer tinha apenas 40 “Panteras" operacionais. O 1º Exército de Tanques soviético havia sido bastante maltratado e seu comandante, General Katukov, ordenou que os tanques sobreviventes fossem enterrados como casamatas. 

A Leibstandarte e a Das Reich, com forte apoio aéreo, prosseguiram rumo a Oboyan, se envolvendo em violento combate na aldeia de Teterevino, defendido pela 29ª Brigada Anti-Tanque. O 5º Corpo de Tanques de Guardas e os 2º e 31º Corpos de Tanques realizaram diversos contra-ataques, mas, ao fim do dia, os SS haviam tomado a vila e capturado todo o Estado-Maior de uma brigada de fuzileiros, além de destruir 117 tanques inimigos. Estava aberto o caminho para a última linha de defesa no rio Psel.

O 6º Exército de Guardas começava a apresentar sinais de colapso, com unidades recuando desordenadamente.

Além disso, o Destacamento Kempf também havia conseguido algum progresso no dia, levando a Frente de Voronezh a um princípio de crise. Mais reservas foram trazidas para a frente do 1º Exército de Tanques e do 6º Exército de Guardas (inclusive retiradas do sossegado 40º Exército). 

Enquanto isso, os soviéticos aproximavam da frente o 10º Corpo de Tanques e o Stavka ordenava que o 5º Exército de Guardas e o 5º Exército de Tanques de Guardas deixassem a Frente da Estepe e rumassem para a área de Prokhorovka. Para dramatizar ainda mais a situação, Vatutin baixou uma ordem categórica de que “em nenhuma hipótese os alemães poderiam atingir Oboyan”.



08/07/43:

Model lançou a sua última reserva blindada, a 4ª Divisão Panzer, contra a aldeia fortificada de Teploye, juntamente com elementos de outras três divisões Panzer (2ª, 9ª e 20ª), apoiados pela 6ª Divisão de Infantaria e forte artilharia. 

Model também foi reforçado com a transferência do sul de diversas unidades aéreas. Nos três dias de furiosos combates que se seguiram, o 33º Regimento Panzergrenadier (parte da 4ª Divisão Panzer) capturou as cristas por três vezes e por três vezes foi repelido. A 3ª Brigada Anti-Tanques soviética foi praticamente aniquilada, mas os soviéticos continuaram senhores do terreno e as perdas alemãs foram pesadas. 

Em Olkhovatka, os alemães conseguiram romper as defesas antitanques, mas foram detidos diante da Cota 274, que continuou em poder dos soviéticos, a despeito dos repetidos ataques feitos pela 6ª Divisão de Infantaria.

Rokossovsky passou então a retirar tropas de setores mais calmos, nas áreas dos 60º e 65º Exércitos, para reforçar o sofrido 13º. Na frente do 48º Corpo Panzer, os soviéticos realizaram uma série de contra-ataques. A 3ª Divisão Panzer teve que lidar com ataques de mais de 100 tanques da 112ª Brigada de Tanques e das 1ª e 10ª Brigadas Mecanizadas. A 11ª Divisão Panzer e a Grossdeutschland, a despeito de também sofrerem violentos contra-ataques, avançaram ombro-a-ombro.

O ataque no sul O 2º Corpo Panzer SS teve um dia bastante agitado. Às 9:20 h, a Leibstandarte chocou-se com as 31ª e 192ª Brigadas de Tanques, a 29ª Brigada Anti-Tanque e elementos da 51ª Divisão de Fuzileiros de Guardas. Uma coluna soviética atingiu as posições da artilharia da divisão, causando um caos na retaguarda alemã, forçando o Corpo SS a utilizar todas as suas reservas, inclusive o batalhão de reconhecimento da Totenkopf (praticamente toda essa divisão estava então imobilizada, cumprindo a tarefa de guarda de flanco).

Apesar de tudo, o corpo avançou cerca de 10 km, destruiu 183 tanques e capturou 2.192 prisioneiros – a maior quantidade arrebanhada em um único dia durante a ofensiva.

Um grande ataque de tanques e infantaria efetuado pelo 2º Corpo de Tanques de Guardas (vindo da reserva da Frente Sudoeste) contra o flanco do 2º Corpo Panzer SS foi detectado e devastado por uma força de Hs-129 e Fw 190 do Schlachtgeschwader 1, perdendo os soviéticos 50 tanques.

Foi uma das raras ocasiões na história em que uma força blindada havia sido destruída exclusivamente por unidades aéreas.

À direita, o Destacamento Kempf abria caminho à força, tentando desesperadamente alcançar o ponto de onde ele apoiaria o ataque do 4º Exército Panzer contra Prokhorovka. O 3º Corpo Panzer lançou um ataque coordenado contra as 92ª e 94ª Divisões de Infantaria de Guardas. A linha soviética foi rompida e os alemães atingiram um ponto 20 km além da linha de contato de 5 de julho.

Contudo, a 7ª Divisão Panzer passou a se dedicar mais a proporcionar uma guarda de flanco para que a 6ª pudesse avançar. O 7º Exército de Guardas estava se assanhando em efetuar contra-ataques limitados contra o flanco estendido e isso estava atraindo cada vez mais a atenção dos comandos alemães. Nos combates do dia, a 19ª Panzer perdeu seu comandante, o general Gustav Schmidt.

Por um lado, este foi um dia de sucessos para os alemães, com avanços maiores, objetivos alcançados e maior número de tanques inimigos destruídos e prisioneiros arrebanhados. Contudo, as baixas haviam reduzido bastante o poderio das divisões alemãs, enquanto as inesgotáveis reservas soviéticas não paravam de chegar. Era cada vez mais óbvio que o objetivo de romper rapidamente a frente e cercar o grosso dos exércitos soviéticos antes da chegada de reforços já estava baldado. Além disso, em nenhum ponto a penetração havia ido muito além de 20 km e ainda faltavam 100 para chegar a Kursk, aonde o 9º Exército aparentemente não chegaria nunca.



09/07/43:

No norte, Model continuava buscando uma ruptura, sem sucesso. Em Ponyri, o 508º Regimento de Infantaria (parte da 292ª Divisão), apoiado por um punhado de “Ferdinands", conseguiu tomar a cota 253.3, mas não conseguiu ir além. Model gastou a maior parte do dia reorganizando suas forças para as batalhas decisivas do dia seguinte.

Também nesse dia, a 167ª Divisão de Infantaria substituiu a Totenkopf na missão de guarda de flanco, permitindo a essa divisão reunir-se ao restante do Corpo Panzer SS para o prosseguimento do avanço para Prokhorovka.

Após um duro combate na aldeia fortificada de Syrtsevo, o batalhão de reconhecimento da Grossdeutschland realizou um ousado avanço e penetrou na aldeia de Verkhopenye e, mais importante, capturou a sua ponte sobre o rio Pena, que os engenheiros rapidamente prepararam para a travessia de equipamento pesado. Os soviéticos contra-atacaram com uma força mista de T-34 e M3 “Lee”, deixando para trás 35 máquinas destruídas.

Na frente do Corpo SS, ataques e contra-ataques sucediam-se, enquanto os alemães consolidavam o terreno conquistado e procuravam avançar mais para o norte. As baixas haviam sido pesadas para ambos os lados, mas os soviéticos conseguiram retardar o avanço dos alemães, os quais estavam ainda a cerca de 20 km de Oboyan.

O 3º Corpo Panzer continuou avançando no dia detida por violento contra-ataque soviético.

No fim do dia, Manstein ordenou que o 24º Corpo Panzer (5ª Divisão Panzergrenadier SS Wiking e 23ª Divisão Panzer) se deslocasse para Kharkov, visando utilizá-lo no avanço para Kursk. As divisões desse corpo, porém, estavam com seus efetivos muito reduzidos e o OKH, preocupado com os informes de concentrações soviéticas em outros pontos, nunca autorizou Manstein a utilizálas no ataque a Kursk.

Nessa altura, porém, os soviéticos estavam cientes de que a situação na Frente de Voronezh era bastante séria. O 5º Exército de Guardas e o 5º Exército de Tanques dos Guardas já estavam se deslocando para a área ameaçada e planejou-se um ataque coordenado entre os quatro exércitos envolvidos (os dois citados, mais o 1º de Tanques e o 6º de Guardas). 

Porém, antes que as forças vindas da Frente da Estepe chegassem ao seu ponto de reunião, na noite de 09/07/43, o 1º de Tanques e o 6º de Guardas haviam recuado novamente sob a pressão do 48º Corpo Panzer e não tinham condições de atacar. Mesmo assim, o ataque foi marcado para a manhã de 12/07/43.

As perdas de tanques soviéticos aumentam. Mas, o que os soviéticos não sabiam é que Hoth havia optado por um avanço na direção de Prokhorovka, onde o seu Corpo SS se encontraria com o 3º Corpo Panzer do Destacamento Kempf para enfrentar as reservas soviéticas vindas do leste. Sem saber disso, os soviéticos praticamente imobilizaram o 1º Exército de Tanques e o 6º Exército de Guardas (ou o que restara deles) diante de Oboyan. Porém, havia uma falha no plano de Hoth: o Destacamento Kempf não havia conseguido avançar tanto quanto suas forças e o flanco do Corpo SS continuava exposto. Porém, o Destacamento Kempf conseguira romper as defesas entre Melikhovo e Sasnoye e tinha agora o caminho livre para Prokhorovka.

Enquanto isso, a Totenkopf, que havia sido liberada de sua missão de guarda de flanco, conseguiu uma pequena cabeça-de-ponte sobre o rio Psel, última barreira natural entre os alemães e Kursk. A poderosa linha de defesa soviética havia sido rompida.



10/07/43:

Pelo dia 10/07/43, o avanço de Model contra Rokossovsky chegara a um impasse. Para quebrá-lo, foram renovados os ataques às cristas de Olkhovatka. Precedidos por uma impressionante preparação de artilharia e forte apoio de Stukas e bombardeiros He 111, 300 blindados das 2ª e 4ª Divisões Panzer avançaram contra as defesas inimigas, inexpugnáveis como de costume. Apesar de alguns ganhos locais, o dia terminou com nova derrota para os germânicos, com pesadas baixas, principalmente em blindados.

Na noite de 10 para 11/07/43, Model lançou a 10ª Divisão Panzergrenadier e a 31ª Divisão de Infantaria, suas últimas reservas, contra Ponyri, numa derradeira tentativa de romper o impasse em sua frente. Em vão. Embora boa parte da aldeia caísse em mãos alemãs, as baixas haviam sido assustadoras e a tão necessária ruptura não havia se realizado. O ataque ao norte havia falhado, após avançar meros 15 km. E o seu fracasso pareceu tão óbvio aos soviéticos que, na véspera, Zhukov e Stalin já haviam acertado o início do ataque contra o Bolsão de Orel para o dia 12/07/43.

No sul, o 69º Exército assumiu o setor da frente à direita do 7º Exército de Guardas e praticamente ficou com a missão de deter o Destacamento Kempf. Ele agora contava com 9 divisões de fuzileiros, o 2º Corpo de Tanques de Guardas, uma brigada de tanques, outra de destruidores de tanques, um regimento de tanques pesados (Churchill), dois de destruidores de tanques, uma brigada de artilharia e outra de foguetes. 

Os 27º e 53º Exércitos estavam agora também se aproximando da frente (da mesma forma que reservas vindas da Frente Central) e o 2º Exército Aéreo recebeu ordens de priorizar os combates na estrada de Oboyan.

Debaixo de chuva, a 3ª Panzer mais uma vez passou o dia rechaçando contra-ataques soviéticos, enquanto a Grossdeutschland se envolvia em pesado combate de tanques ao norte de Verkhopenye, onde o Regimento Panzer perdeu seu comandante, o Coronel Conde von Strachwicz.

Enquanto isso, a 11ª Panzer continuou avançando para Oboyan contra feroz resistência da 309ª Divisão de Fuzileiros. Também foi mais um dia de duros combates para o Corpo SS, com poucos ganhos e muitos contra-ataques.

O Destacamento Kempf beneficiou-se de uma retirada dos soviéticos, ameaçados de cerco pelos SS, e conseguiu progredir alguns quilômetros.

Porém, as 7ª e 19ª Divisões Panzer passaram o dia se defendendo de contra-ataques e somente a 6ª efetivamente avançou.

A Luftwaffe e a Força Aérea Vermelha pouco intervieram nos combates do dia, devido ao mau tempo. O ímpeto dos atacantes estava começando a se abater. As perdas em homens e material haviam sido assombrosas. Somente no ombro sul, os soviéticos estimaram que os alemães já haviam perdido, até 10/07/43, 230 blindados e quase 11.000 mortos. 

A Grossdeutschland, que começara a batalha com 181 blindados, tinha agora menos de 100 (dos quais, operacionais, havia apenas 3 “Tigres", 6 “Panteras" e cerca de 10 Panzer III e IV de cano longo). As perdas nas outras unidades eram igualmente incapacitadoras. 

A 6ª Panzer e o 503º sPzAbt tinham apenas 22 tanques cada. A 10ª Brigada Panzer tinha apenas 38 tanques operacionais dos 200 com que começara a batalha, embora muitos estivessem fora de serviço por problemas mecânicos.

Para piorar as coisas, o ataque no norte ia de mau a pior. Model não havia conseguido romper as defesas inimigas e estava ainda a mais de 140 km da vanguarda da pinça sul. Com isso, reservas originalmente destinadas para a Frente Central tornavam-se disponíveis para reforçar a Frente de Voronezh.



11/07/43:

No norte, os soviéticos começaram a fazer tímidos ataques contra o 2º Exército Panzer (que defendia a face norte do Bolsão de Orel). No dia seguinte, Kluge ordenou a transferência da 12ª Divisão Panzer e da 36ª Divisão de Infantaria do 9º Exército para o 2º Panzer. A 20ª Panzer seguiu-as no dia 13. Para todos os efeitos, o ataque de Model ao ombro norte havia terminado.

No sul, após seis dias de pesados combates, os alemães mal haviam avançado 30 km. A chuva que caíra durante alguns dias da batalha servira para retardar mais ainda o movimento dos atacantes e agora prejudicava o transporte de abastecimento para a frente (algumas unidades de artilharia não tinham mais munição devido a isso).

O 48º Corpo passou o dia eliminando focos de resistência. A única divisão que prosseguiu atacando para o norte foi a 11ª Panzer, mas esbarrou em forte resistência, lama, chuva e falta de apoio aéreo e praticamente não avançou. Para piorar, os soviéticos retomaram uma crista no seu flanco direito, que havia sido tomada na véspera.

O 2º Corpo Panzer SS renovou a sua ofensiva após uma pausa para reagrupamento. As forças alemãs atingiram as imediações da pequena cidadede Prokhorovka, onde se chocaram com as recém-chegadas tropas do 5º Exército de Guardas.

O feroz combate se estendeu por todo o dia, com a Luftwaffe se superando no apoio, apesar do mau tempo. O Tenente-General P. A. Rotmistrov, comandante do 5º Exército de Tanques de Guardas, se viu forçado a empenhar duas de suas brigadas de tanques para evitar a queda da cidade naquele dia.

O Destacamento Kempf continuou avançando do sul, conseguindo avanços da ordem de 15 km.

Contudo, apenas a 6ª Panzer podia se concentrar em atacar, pois as 19ª e 7ª tiveram que guardar ambos os flancos do corpo.

Os campos minados haviam cobrado pesado tributo aos veículos alemães. Entre 5 e 11/07/43, os soviéticos estimaram as perdas alemãs em 335 tanques (incluindo 29 “Tigres"), 30 canhões de assalto, 60 caminhões e 7 veículos blindados de transporte de pessoal. Como muitos desses pudessem ser reparados, é certo que a maioria deles foi posta novamente em serviço pelo excelente serviço de recuperação alemão, mas não deixava de ser um pesado dreno de recursos alemães num momento crítico.

O 5º Exército de Tanques de Guardas, nesse ínterim, já estava a postos para realizar o planejado ataque do dia seguinte. Estava preparado o cenário para a maior batalha de blindados de todos os tempos.



12/07/43 - A BATALHA DE PROKHOROVKA:

Rotmistrov tinha ordens de atacar ao longo da linha Prokhorovka-Yakovlevo e deter o que estava se transformando numa ruptura. Ele instalou seu posto de comando no alto de uma pequena crista, de onde ele podia ver toda a planície que seria palco da batalha, bem ao estilo de um general da era napoleônica.

As ações do dia começaram por volta das 8:30 h, com um violento ataque da Luftwaffe. Pouco depois, o 2º Corpo Panzer SS apareceu no horizonte, decidido a conquistar Prokhorovka. À esquerda vinha a Totenkopf, à direita, a Das Reich e, ao centro, a Leibstandarte. As primeiras levas de tanques alemães foram recebidas por intensa barragem de artilharia e Katyushas. Logo em seguida, os tanques soviéticos rolaram para a frente.

Cerca de 900 blindados (cerca de 700 soviéticos – na grande maioria T-34 – e 200 alemães – dos quais, apenas 14 “Tigres") chocaram-se numa área restrita. Os tanques soviéticos lançaram-se sobre o inimigo numa louca arremetida, literalmente atravessando as primeiras linhas de tanques alemães. O que se seguiu só pode ser definido como uma orgia de destruição. A tática russa, de se misturar numa confusa batalha com o inimigo, anulou a vantagem técnica dos canhões alemães, pois à queima-roupa o canhão russo de 76,2 mm era capaz de penetrar a blindagem do “Tigre”, com resultados catastróficos.

A batalha logo degenerou em duelos de pequenos grupos de tanques, num cenário de céu nublado e dominado pela fumaça negra de inúmeros tanques em chamas.

A História Oficial soviética registra um incidente que bem demonstra o encarniçamento da luta. O tanque do comandante do 2º Batalhão da 181ª Brigada do 18º Corpo de Tanques, Capitão P. A. Skripkin, foi atingido após destruir dois tanques inimigos e o capitão foi ferido. A sua tripulação abandonou o tanque em chamas e buscou abrigo numa cratera de bomba. Porém, quando o mecânico Alexander Nikolayev viu que um tanque inimigo estava indo na direção deles, retornou ao seu T-34, ligou o motor e avançou como uma bola de fogo, colidindo com o tanque inimigo a grande velocidade e provocando uma enorme explosão.

No ar, ambas as forças aéreas engalfinharam-se, no afã de apoiar suas forças de terra. 

Enquanto isso, os soviéticos haviam desviado forças substanciais (o equivalente a um corpo mecanizado reforçado) para deter o Destacamento Kempf a qualquer custo. Este, em sua tentativa de abrir caminho para se unir ao 4º Exército Panzer, usou de um ardil: com um T-34 capturado à testa, a 6ª Divisão Panzer avançou com os faróis ligados, à noite, através das linhas soviéticas, e capturaram a ponte sobre o rio Donets em Rzhavets.

Mas os soviéticos logo perceberam que estavam sendo feitos de otários e revidaram, detendo outros avanços. O 2º Corpo Panzer SS teria que lutar sozinho. Na extremidade oeste da frente, os 52º e 48º Corpos enfrentaram violentos e bem coordenados ataques ao longo de toda a frente. Embora todos os ataques acabassem repelidos, não sem dificuldade, o 48º Corpo Panzer não avançou um centímetro nesse dia.

Pouco antes do pôr do sol, o 5º Exército de Guardas lançou um forte ataque contra a Totenkopf, que se viu tendo que passar para uma postura defensiva.

Ao anoitecer, uma forte chuva caiu sobre o campo de batalha, mas a luta continuou pelas primeiras horas de escuridão. Ao fim do dia, o 2º Corpo Panzer SS havia perdido cerca de 150 tanques e Rotmistrov, cerca de 250. E embora ainda houvesse combates nessa área até o dia 15, era óbvio que a ofensiva alemã fracassara. Não é à toa que esse ataque ficou conhecido entre os alemães como “Corrida da Morte do 4º Exército Panzer” e, entre os soviéticos, “Massacre de Prokhorovka”.



OS SOVIÉTICOS PASSAM À OFENSIVA:

No dia 13/07/43, Hitler decidiu suspender a “Cidadela”. Os aliados ocidentais haviam desembarcado na Sicília em 10/07/43 e uma de suas providências foi enviar a Leibstandarte para a Itália. No mesmo dia em que os blindados de Rotmistrov e de Hoth se encontravam em Prokhorovka, as Frentes de Bryansk e Ocidental lançaram suas ofensivas contra o 2º Exército Panzer, no Grupo de-Exércitos Centro. Os atacantes dirigiram-se para Orel e contra a retaguarda do 9º Exército, que, a 17/07/43, teve que abandonar o território conquistado à custa de tanto sangue derramado.

Era o início da planejada ofensiva soviética. Apesar disso, Manstein insistiu na continuação da ofensiva, alegando que a pressão que ele estava exercendo estava atraindo as unidades blindadas soviéticas que, se liberadas, poderiam ser utilizadas ofensivamente alhures. Além disso, argumentava que faltava muito pouco para obter uma grande vitória no sul e que virar as costas a isso naquele momento seria um grande erro. Mas a operação foi definitivamente suspensa e os soviéticos atacaram logo depois, utilizando tropas frescas.

Nada menos que sete exércitos estavam atrás do bolsão de Kursk, imediatamente disponíveis e prontos para atacar (os 27º, 47º, 53º e 4º de Guardas da Frente da Estepe e os 11º, 3º de Tanques de Guardas e 4º de Tanques). Manstein, dessa vez, estava redondamente enganado.

Porém, ele obteve permissão de continuar atacando no sul. No dia 13/07/43, o reagrupado 2º Corpo Panzer SS lançou a Das Reich contra o 18º Corpo de Tanques, a leste de Prokhorovka, conseguindo romper as defesas soviéticas, apenas para serem contra-atacados em outra confusa batalha por duas brigadas de Guardas (10ª Mecanizada e 24ª de Tanques).

Nos dias subsequentes, os alemães conseguiram fechar a brecha entre o Corpo Panzer SS e o Destacamento Kempf, criando sérios problemas para a Frente da Estepe, que então ocupava a linha com apenas três exércitos (7º de Guardas, 53º e 69º), dos quais o 53º era o único que ainda não havia sido sangrado. A Frente da Estepe, que originalmente se destinara a realizar uma ofensiva, agora mal se agüentava em pé.

Mas isso não mudava em nada o resultado da batalha. À medida que os exércitos das Frentes Oeste e de Bryansk avançavam para erradicar o bolsão de Orel e Hitler começava a transferir suas tropas para a Itália, já devia ser evidente que não havia mais nada a se ganhar em Kursk.

A 16/07/43, para piorar os pesadelos dos alemães, as Frentes Sul, Sudoeste e Norte do Cáucaso iniciaram suas próprias ofensivas, na Ucrânia e no Cáucaso. O 4º Exército Panzer iniciou sua retirada para uma linha mais defensável na noite de 17 para 18/07/43. A 23/07/43, Vatutin estava de volta à linha que ocupava antes da “Cidadela” e, um mês depois, as tropas soviéticas entravam em Kharkov, agora definitivamente. As ofensivas soviéticas agora se sucediam como um boxeador que alterna os golpes, deixando o oponente desorientado. E elas só cessariam em Berlim, em maio de 1945.

O PREÇO: 

É uma tarefa difícil determinar as perdas de ambos os lados na Batalha de Kursk. Em primeiro lugar, os soviéticos iniciaram a sua ofensiva no bolsão de Orel ainda durante o desenrolar da batalha, sendo quase impossível discriminar as baixas em uma ou outra ação. No sul, Manstein continuou atacando mesmo após o cancelamento da “Cidadela” e depois sofreu baixas na retirada em combate que foi obrigado a realizar. 

Some-se a isso também a tendência que ambos os lados tinham de exagerar suas vitórias. Contudo, não é exagero afirmar que, apenas nas batalhas relacionadas à “Cidadela”, as perdas alemãs chegaram a mais de 800 tanques e canhões de assalto (só Model perdeu mais de 400), e mais de 100.000 baixas (50.000 só no 9º Exército).

Quanto às baixas soviéticas, estatísticas liberadas recentemente dão conta de quase 180.000 baixas, além de 1.614 blindados destruídos. Contudo, as perdas alemãs eram irrecuperáveis, as soviéticas, não. Kursk havia custado mais do que homens e material aos alemães: havia custado a iniciativa na guerra.



CONCLUSÕES:

Em vários aspectos, a Batalha de Kursk pode ser considerada uma batalha decisiva. Essa descomunal batalha demonstrou que os dias da Blitzkrieg estavam acabados. O sucesso dos primeiros anos da guerra baseava-se na surpresa, velocidade e rapidez de concentração de meios em um Schwerpunkt (ponto-chave), obtendo a superioridade material em um ponto específico da linha. Em Kursk, nada disso aconteceu.

Os soviéticos estavam estratégica e taticamente avisados quanto ao ataque; os alemães nunca conseguiram desenvolver velocidade, tendo que abrir caminho lentamente entre as intermináveis linhas defensivas e campos minados e, finalmente, em momento algum teve superioridade numérica.

E mesmo a superioridade técnica das máquinas e tripulações alemãs foi anulada pelo tipo de combate cerrado, de atrito, que os soviéticos realizaram magistralmente. Além disso, a superioridade aérea, outro ingrediente importante da Blitzkrieg, praticamente não existiu.

Também demonstrou que o outrora incompetente (e quase amador) Exército Vermelho amadurecera e se profissionalizara, a ponto de desafiar os alemães em qualquer condição de tempo e de terreno. Marcaria também, daí para sempre, o declínio do Exército alemão e a ascensão do Exército Soviético como a mais poderosa força terrestre do mundo pelas décadas seguintes.

Kursk também marcou o fim de uma elite. As melhores tropas e os melhores equipamentos germânicos foram lançados no caldeirão de Kursk apenas para sempre destruídos, privando o Exército alemão de forças de que necessitaria cada vez mais nos meses e anos seguintes. De fato, a derrota em Kursk não só decretou o fim das esperanças alemãs de uma vitória no leste, como exauriu o Exército que deveria defender não só a Alemanha, mas toda a Europa Oriental da ocupação comunista. A Alemanha não poderia mais vencer a guerra após Stalingrado e sua derrota estava selada após o “Dia-D”, mas, em Kursk, os alemães desperdiçaram a sua última chance de manter qualquer iniciativa estratégica.

Um oficial alemão de blindados declarou posteriormente: “O Exército alemão jogou fora todas as suas vantagens em guerra móvel e enfrentou os russos em terreno de sua própria escolha. O Comando alemão podia pensar em coisa melhor do que lançar nossas magníficas divisões panzer contra a mais poderosa fortaleza do mundo...”

Parte 2

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sistemas de Navegação Inercial (INS) #



Fonte: Marinha do Brasil/DHN

A Navegação Inercial é uma forma de atualização de posição independente de qualquer sinal transmitido externamente como o GPS ou o sistema Loran-C,  atualizando seus dados continuamente e com precisão. Esse sistema não requer a emissão ou recepção de sinais e é imune a interferências. Isto é de particular importância para os submarinos nucleares, que são projetados para permanecerem submersos durante suas patrulhas, por prolongados períodos.

O INS para Navios (SINS – “Ship’s Inertial Navigation System”) foi desenvolvido no final dos anos 1950 e início da década seguinte, para preencher os requisitos de posicionamento preciso dos submarinos nucleares portadores de mísseis balísticos (SSBN). 

Após um primeiro modelo experimental instalado no submarino “Nautilus”, que cruzou o Pólo Norte navegando submerso, em 3 de agosto de 1958, o INS foi empregado a bordo do submarino “George Washington”, em 1960. Desde então, tem sido continuamente refinado, aperfeiçoado e reduzido em tamanho  e custo, de modo que, atualmente, seu uso foi estendido aos submarinos de ataque, navios de superfície e aeronaves.

A Navegação Inercial é definida como o processo de determinar a posição através do monitoramento dos movimentos com base na medida das suas acelerações em direções espaciais conhecidas, por meio de instrumentos que mecanizam as leis do movimento de Newton. As acelerações são integradas para obtenção da velocidade e posição. Os instrumentos básicos usados em todos os sistemas de navegação inercial são giroscópios, acelerômetros e computadores.



Essencialmente, um giroscópio clássico consiste de um rotor (volante ou toro), perfeitamente balanceado, que, ao girar em alta velocidade, mantém, de acordo com as leis de Newton, a orientação do seu eixo de rotação, apontando sempre para um mesmo ponto no espaço (com respeito a um sistema de referência universal), exceto quando perturbado por uma força externa, como a gravidade ou o atrito (fricção).

Um acelerômetro é um dispositivo projetado para computar a aceleração (A) ao longo de um determinado eixo, pela medida da força (F), exercida ao longo desse eixo, sobre uma dada massa (M), usando a 2ª Lei do Movimento de Newton (F = MA). Um acelerômetro pode ser considerado, em sua expressão mais simples, como uma massa suspensa por um fio (um pêndulo) ou que pode correr ao longo de um guia reto. Estando o suporte do pêndulo ou do guia em repouso, ou em estado de movimento retilíneo uniforme, a massa estará em seu ponto neutro. Mas, se o suporte inicia movimento, ou altera sua velocidade, isto é, se há uma aceleração, a massa se desloca da posição neutra e a quantidade de deslocamento é proporcional ao valor da aceleração.

A medida do deslocamento é feita por meios elétricos, pois, assim, conseguem-se detectar tanto as mínimas como as grandes acelerações. O navegador inercial só necessita medir as acelerações nos sentidos Norte–Sul e Leste–Oeste. As demais acelerações, como as devidas ao balanço, caturro, gravidade, etc., devem ser eliminadas.

Um Sistema de Navegação Inercial é basicamente constituído por:

  • Dois acelerômetros, que medem as acelerações com respeito aos eixos N–S e E–W;
  • Integradores acoplados aos acelerômetros;
  • Plataforma estabilizada por giroscópios, sobre a qual estão os acelerômetros;
  • Sistema de orientação, que mantém os acelerômetros alinhados em suas respectivas direções azimutais; e
  • Computador digital para determinar as diferenças de Latitude e de Longitude, aplicando-as às coordenadas inicialmente alimentadas, e que fornece a posição atual.
Em uma breve descrição de sua operação, pode-se dizer que o INS é baseado no princípio da Sintonia de Schuler, pelo qual uma plataforma estável permanecerá alinhada com a vertical do local, qualquer que seja o movimento do veículo onde esteja instalada.

O sistema consiste, basicamente, de dois acelerômetros e três giroscópios. A Latitude é obtida pela medida do ângulo entre a vertical do lugar e o eixo de rotação da Terra, com o qual um dos giroscópios está alinhado. A Longitude é obtida por dupla integração da aceleração no sentido Leste–Oeste (E–W), medida por um dos acelerômetros, para produzir distância percorrida no fundo (“distance over the ground”) na direção E–W; esta é, então, aplicada como diferença de Longitude (Dl) à Longitude da posição inicial.



Assim, o Sistema de Navegação Inercial (SINS) mede Latitude, mas calcula Longitude. Os dois acelerômetros e os três giroscópios são montados em um sistema com suspensão cardan; os acelerômetros e os giroscópios são interdependentes, não se podendo identificar tarefas separadas e distintas para cada componente. A teoria do SINS fundamenta-se na aplicação do princípio da inércia a um sistema giroscópico. O sistema é construído de forma que tende a permanecer estável no espaço, em três planos perpendiculares entre si, sendo isto obtido pelo uso de três giroscópios.

Assim, quando o veículo se desloca, o sistema, pela propriedade da inércia, tende a permanecer fixo no espaço. O método pelo qual isto é usado para fornecer posição geográfica (Latitude e Longitude) será explicado adiante, mas antes é necessário entender a construção do sistema giroscópico e da plataforma estável do INS.


A PLATAFORMA ESTÁVEL DO INS

Para estabilizar o sistema em três planos, são requeridos três giroscópios, montados perpendicularmente entre si. Usam-se giroscópios com um único grau de liberdade (“single-degree-of-freedom gyroscopes”),  com seus eixos sensíveis apontados, respectivamente, para o Pólo Norte Celeste, na direção oposta ao centro da Terra e na tangente à superfície da Terra, onde as setas indicam a direção dos eixos sensíveis dos giroscópios. 

Os três giroscópios são montados com suspensão cardan, de modo que tenham completa liberdade de movimento em todos os três planos. Ademais, dois dos giroscópios devem girar em torno do eixo horizontal E–W, conforme o veículo varia sua Latitude. Para obter isto, estes dois giroscópios são montados no “Anel de Latitude”, que é um disco capaz de girar em torno do eixo horizontal E–W, sendo, assim, mantido com seu plano no meridiano. 

O Anel de Latitude é montado no Anel de Azimute, livre de girar em azimute, em todas as direções. O giroscópio E–W é montado sobre este anel. O sistema, como descrito até aqui, tenderia a permanecer fixo no espaço, o que significa que, para um observador na superfície terrestre, pareceria girar de 360º a cada dia sideral, devido à rotação da Terra.

Entretanto, um giroscópio deve ser mantido no plano do meridiano e outro giroscópio no plano horizontal, por razões que se tornarão aparentes mais tarde. Então, o giroscópio recebe um torque em torno de seu eixo, numa razão igual e oposta à rotação da Terra (isto é, 360º em cada dia sideral). Por esta razão, o sistema mantém sua atitude com respeito à horizontal e à vertical.



Além disso, o sistema deve ter um meio de buscar a vertical (e, conseqüentemente, a horizontal). Isto é proporcionado por acelerômetros em dois eixos. Os acelerômetros são, basicamente, pêndulos montados no Anel de Azimute, de modo que seus eixos sensíveis sejam N–S e E–W. Isto é importante, porque os acelerômetros devem ser capazes de medir a aceleração e indicar a vertical em dois planos: Norte–Sul e Leste–Oeste. O equipamento até aqui descrito (com os três giroscópios, o Anel de Latitude, o Anel de Azimute e os dois acelerômetros) constitui o Elemento Sensível do INS. Para isolar o Elemento Sensível do balanço e caturro de um navio, ele é montado em duas suspensões adicionais. O sistema completo é denominado de Plataforma Estável.

Cada anel de suspensão é controlado por um motor de torque, através de um sistema servo-motriz, usando sinais dos três giroscópios. Além disso, um giroscópio, conforme anteriormente citado, recebe um torque igual e oposto à rotação da Terra. Assim, a Plataforma Estável é isolada dos efeitos do movimento de um navio (isto é conhecido como “isolamento do movimento da base”) e vai buscar e permanecer em uma atitude correta com respeito aos planos horizontal e vertical.


PRINCÍPIO DA SINTONIA DE SCHULER

Os pêndulos dos acelerômetros estariam sujeitos a ser afetados pela aceleração do veículo, ou seja, eles poderiam tomar uma falsa vertical, do mesmo modo que ocorreria com um pêndulo em um trem que estivesse acelerando, devido ao atraso do peso. Isto pode ser contornado pelo uso do Princípio de Schuler, pelo qual um pêndulo com o seu ponto de suspensão na superfície terrestre e o seu peso no centro da Terra indicará sempre a verdadeira vertical, independentemente da aceleração imprimida ao ponto de suspensão

O período de oscilação desse pêndulo será de 84 minutos. Assim, o Princípio de Schuler aplica-se a qualquer pêndulo com um período de 84 minutos. Então, sintonizam-se os circuitos dos acelerômetros e dos giroscópios, de modo que o Elemento Sensível tenha este período de oscilação, para que mantenha a propriedade de indicar a vertical verdadeira, sob qualquer aceleração ou desaceleração a que esteja sujeito. O processo é conhecido como “Sintonia de Schuler”.

MEDIDA DA LATITUDE E CÔMPUTO DA LONGITUDE

A Latitude é medida diretamente, em um INS, a partir da Plataforma Estável, pois é o ângulo entre o giroscópio e a vertical do Elemento Sensível. A Longitude não pode ser medida diretamente, mas o torque
adicional exigido para manter o Elemento Sensível vertical no meridiano é uma medida da velocidade na direção E–W. A integração desse dado dará a distância navegada E–W, que pode ser aplicada, como diferença de Longitude (Dl), à Longitude anterior indicada, de modo a manter a posição do veículo constantemente atualizada.

Assim, em resumo, a Plataforma Estável mantém sua atitude com relação ao eixo de rotação da Terra e à vertical, por um sistema de três giroscópios e dois acelerômetros. A Sintonia de Schuler garante que o movimento do navio não introduz no sistema uma falsa vertical. O SINS mede diretamente a Latitude, mas a Longitude é obtida por integração da velocidade E–W. O movimento do veículo considerado pelo SINS é o movimento verdadeiro, sobre a superfície da Terra, levando em conta todas as influências – correntes, ventos, marés, etc.

Além da Latitude e Longitude, o Sistema de Navegação Inercial proporciona, ainda, as seguintes informações:

  • Rumo do navio: indicado com muita precisão pelo giroscópio E–W e acelerômetro; assim, o SINS pode substituir uma agulha giroscópica;
  • Caturro e balanço: a Plataforma Estável é mantida com muita precisão nos planos horizontal e vertical; então, é capaz de proporcionar dados exatos de balanço e caturro, para alimentar os sistemas de armas e sensores, para sua estabilização; e
  • Velocidade: a razão de torque dos giroscópios fornece as componentes N–S e E–W da velocidade; com isso, calcula-se a velocidade verdadeira do navio (velocidade no fundo).

ERROS NO EQUIPAMENTO. PRECISÃO DO SISTEMA DE NAVEGAÇÃO INERCIAL

A exatidão de um INS depende fundamentalmente da precisão e confiança dos seus principais componentes. As fontes potenciais de erros mais significativas são:
  • Erros causados pelo movimento de rotação diário da Terra;
  • Atrito nos sistemas giroscópicos;
  • Desalinhamento da plataforma estável, resultando que componentes verticais do campo gravitacional da Terra sejam falsamente interpretados como componentes horizontais; e
  • Outras imperfeições na construção dos giroscópios e acelerômetros.


Devido ao erro combinado causado por estes e outros fatores, todos os INS apresentam algum grau de erro cumulativo, que aumenta com o tempo de operação. Assim, a posição fornecida pelo sistema deve ser periodicamente comparada com posições obtidas por outros meios e, ainda, o SINS deve ser atualizado e calibrado a determinados intervalos de tempo, utilizando, por exemplo, uma posição LORAN-C ou GPS. 

Entretanto, os sistemas atuais requerem atualizações muito menos freqüentes que os inicialmente instalados nos submarinos portadores de mísseis balísticos “Polaris”. Isto é uma característica importante, pois a determinação da posição por meios externos muitas vezes requer que o submarino navegue próximo da superfície, onde a vulnerabilidade à detecção é grandemente aumentada.

Entre os avanços mais interessantes ocorridos durante os esforços contínuos para refinar os INS nos últimos 20 anos, destacam-se o desenvolvimento do giroscópio eletrostático (ESG – “electrostatic gyro”) e do giroscópio a laser (“laser gyro”).

No giroscópio eletrostático, o rotor consiste de uma esfera sólida de berílio de 1 centímetro de diâmetro, que gira a 216.000 RPM em um vácuo quase perfeito. O rotor é suspenso unicamente por um campo eletrostático, que mantém a esfera afastada poucos centésimos de milímetro da superfície interna do estojo que a contém. Assim, o giroscópio eletrostático fica livre do atrito nos rolamentos, que afeta os giroscópios clássicos, assim como de muitos dos torques aleatórios associados, que suspensões mecânicas podem introduzir. Conseqüentemente, o ESG representa a melhor aproximação jamais alcançada pelo homem ao giroscópio perfeito teórico.

Nos INS mais modernos, um giroscópio eletrostático é empregado para monitorar continuamente a posição derivada de sistemas giroscópicos convencionais e para atualizar periodicamente o sistema (atualização interna), durante o intervalo entre duas posições determinadas por meios externos. Embora, com o decorrer
do tempo, mesmo um INS monitorado por giroscópio eletrostático desenvolva um grau significativo de erro e necessite de atualização externa, o emprego deste dispositivo aumenta de cerca de 6 vezes o tempo requerido entre estas atualizações, em comparação com os modelos de SINS mais antigos.

O giroscópio a laser foi incorporado em muitos dos INS mais novos, desenvolvidos recentemente, em especial naqueles projetados para aeronaves. Na realidade, o equipamento não é um giroscópio no sentido tradicional, pois não há uma massa giratória central. Em vez disso, existe uma trajetória laser geométrica fechada (normalmente triangular), centrada em um eixo de rotação virtual. Esta trajetória é percorrida em sentidos opostos por feixes laser de fases idênticas, que são gerados continuamente.

Qualquer rotação do dispositivo em torno do eixo causará uma diferença de fase aparente nos dois feixes laser, pois a trajetória do feixe que se propaga na direção da rotação é efetivamente aumentada, enquanto que a trajetória do feixe que se propaga na direção oposta é diminuída. A diferença de fase medida será diretamente proporcional à velocidade de rotação. Por não depender de uma massa giratória para sua operação, o INS que emprega giroscópios a laser é ainda mais preciso que os sistemas monitorados por giroscópios eletrostáticos.

Também foram feitos aperfeiçoamentos na construção dos acelerômetros, o que contribuiu para aumentar a precisão do SINS. Além disso, em algumas aplicações utilizou-se o princípio da redundância, instalando-se a bordo dois INS, inicializando-se um dos sistemas pelas informações do outro (no meio da “vida útil” de sua precisão), aumentando-se, assim, o intervalo de tempo entre as necessárias atualizações por meios externos. 

Detalhes sobre a precisão dos Sistemas de Navegação Inercial constituem, normalmente, informações classificadas, cujo grau de sigilo impede sua divulgação. No entanto, pode-se afirmar que a informação de azimute (rumo) é muito precisa (±0,1º), sendo o SINS, normalmente, utilizado como fonte primária de direções (rumos) para as repetidoras de bordo, substituindo, assim, a agulha giroscópica (que permanece como “back-up”).

Outra grande vantagem é a saída precisa e contínua de dados de estabilização proporcionada pelo SINS, que é usada nos sistemas de armas e nos sensores de bordo. Quanto à precisão de posicionamento, ela é melhor que 1 milha, em todas as ocasiões.

Entretanto, embora o SINS não esteja sujeito a vários erros comuns na navegação estimada, o navegante deverá sempre lembrar que as posições fornecidas pelo sistema não são posições determinadas, assemelhando-se mais a posições estimadas. Por melhor que sejam os equipamentos, os dados de posição deverão ser comparados com outros meios, assim que as circunstâncias permitirem.


O ARA San Luis na Guerra da Falklands/Malvinas #



artigo publicado no blog Poder Naval


Por Jorge R. Bóveda


O ARA San Luis foi uma das duas unidades submarinas enviadas no princípio de abril de 1982 e o único a enfrentar cara a cara a poderosa força-tarefa inglesa. Sua moderna tecnologia e sofisticados sensores faziam prever que, em curto prazo, terríveis perdas  seriam impostas ao inimigo.

Inexplicavelmente, depois de 74 dias de luta, nenhum navio britânico foi afundado por um torpedo argentino. Este artigo pretende, sobre a base do testemunho dos protagonistas, lançar luz sobre aqueles dramáticos 39 dias de patrulha, nos quais o ARA San Luis disputou (sem êxito) a supremacia naval com a Royal Navy, no Atlântico Sul. É, portanto, o testemunho de uma batalha sem precedentes entre “David e Golias “, que se projetou além do conflito e valiosas conclusões podem ser tiradas para o futuro da arma submarina argentina.


O galante desempenho do San Luis em condições de extrema adversidade, contra um inimigo várias vezes superior, em quantidade e qualidade de meios anti-submarino, mostra a alta qualidade dos tripulantes. A incrível capacidade do San Luis para superar tais circunstâncias adversas faz parte das mais profundamente enraizadas tradições da Armada Argentina e vai, sem dúvida, constituir um exemplo para as novas gerações de submarinistas.


Desde sua aposentadoria do serviço ativo em 1995, o ex-comandante do ARA San Luis, Capitão (RE) Fernando Azcueta Maria, tem cultivado um perfil discreto e raramente aborda a espinhosa questão do conflito no Atlântico Sul, fora do seu círculo de amigos.
Há alguns anos, Azcueta rejeitou uma oferta tentadora para colocar no papel suas experiências da guerra e suas muitas entrevistas que concedeu. Desde então, nunca tratou o tema com todos os detalhes que são revelados na história a seguir, que mostra pela primeira vez, algumas situações dramáticas daqueles 39 dias em patrulha, nos quais disputou a supremacia naval com a Royal Navy, no Atlântico Sul.

Preparação relâmpago


Quando o capitão-de-fragata D. Fernando María Azcueta, filho de um proeminente mergulhador, assumiu o comando, no final de dezembro de 1981, do moderno submarino classe 209 ARA San Luis, das mãos do capitão-de-fragata D. Miguel C. Miguel C. Rela, não podia sequer imaginar que, em pouco mais de três meses, seria travada uma guerra contra a terceira potência naval do mundo.
E, menos ainda, poderia ter previsto as graves limitações operacionais de que sofria sua unidade, e que isso iria comprometer seriamente a sua eficácia como unidade de combate.
Em meados de março de 1982, enquanto Azcueta e os seus homens estavam se exercitando com as corvetas tipo A-69 ARA Drummond e ARA Granville, ao largo da costa de Mar del Plata, recebeu a ordem para interromper a comissão e regressar ao porto, mas sem receber qualquer explicação para esta ordem incomum.
Pouco depois, observou na Base Naval a preparação do ARA Santa Fé, comandado pelo capitão-de-corveta Horace Blicaini, mas não conseguiu tirar deste nenhuma informação que pudesse aliviar a enorme incerteza em que se encontrava. Só na manhã do dia 2 de Abril foi revelado ao público, por rádio e televisão em todo o país, o desembarque argentino nas ilhas Malvinas.

No entanto, Azcueta teve que esperar mais 24 horas para ser recebido pelo COFUERSUB (Capitão Eulogio Moya Latrubesse) que lhe ordenou: “preparar-se no menor tempo possível para suspender (zarpar).” A partir daquele momento, começou uma frenética corrida contra o relógio para toda a tripulação deixar o navio com a melhor condição possível de funcionamento.

Na foto acima, vê-se o San Luis em sua base, com o NAe 25 de Mayo aparecendo ao fundo


Os problemas antes de sair


Durante as provas de mar realizadas nas águas próximas à Base de Submarinos, foi descoberto o primeiro de uma série de problemas, quando verificou-se que o San Luis não poderia desenvolver velocidades em imersão superiores a 14,5 nós.
Uma inspeção mais detalhada do navio revelou que não só o casco e hélice estavam cobertos com incrustações de pequenos crustáceos conhecido como “cracas” ou “dentes de cachorro”, mas os tubos de refrigeração dos motores diesel também tinham sido atingidos. Isto fazia com que os motores parassem por superaquecimento, devido à falta de fluxo da água de refrigeração.
Como não havia tempo para pôr o navio na doca seca para limpar o casco – dada a urgência de zarpar -, Azcueta teve que recorrer aos alunos da escola de mergulho vizinha, para providenciaram respiradores de baixa profundidade do tipo “narguil” e realizarem a raspagem do casco “à mão”, em turnos rotativos de 8 horas de trabalho contínuo, “para livrar o casco daquelas pragas ” .
Uma das causas do problema teve origem em 1974, com a construção do “paredão”, que separa o cais dos submarinos do cais civil de Mar del Plata.
Esta foi construída para impedir que a nova classe de submarino 209 colidisse contra o cais em períodos de mar grosso, permanecendo amarrados, uma má experiência que já havia sido experimentada com os velhos submersíveis tipo “Fleet” e os veteranos “Guppy”, mas que, graças ao seu design, tinham sido “estaqueados” no porto, o que permitia a imobilização do navio.
Embora louvável, a construção de um paredão gerou mudanças ecológicas com a falta de circulação de água do mar, o que favoreceu a formação de grandes colônias de cracas, que desde então fixaram-se aos submarinos incorporados atracado no cais.
No San Luis, dos quatro motores diesel, apenas três estavam funcionando, aumentando o tempo de recarregamento das baterias e a exposição do snorkel, tornando-o extremamente vulnerável às emissões dos radares de busca do inimigo.
A avaria do motor nº 1 ocorreu no início de 1974, pouco depois da adesão à Força submarino. Para repará-lo, seria necessário cortar o casco resistente, uma tecnologia que a Marinha Argentina não tinha na época.
O TF Somonte, chefe de propulsão da embarcação, em conjunto com a Direção de Material da Armada e de Tandanor, tinham conseguido “safar” o motor, utilizando-o até o final de 1978, quando decidiram mantê-lo fora de serviço por razões de segurança.
Para piorar, nem o comandante ou o chefe de armamento do submarino haviam tido  acesso a um relatório de meados de dezembro 1981, que detalhou o resultado dos lançamentos de torpedos por submarinos da classe “Salta”, durante o período compreendido entre agosto e dezembro do mesmo ano, com especial ênfase sobre o desenrolar do exercício com torpedos SST-4.
O relatório mostrava que de todos os lançamentos realizados durante este período, apenas uma única vez o torpedo tinha concluído a corrida na forma prevista.
Uma escandalosa percentagem de lançamentos foi errática, como resultado de várias fatores (por exemplo, rompimento no cabo de guiagem, inundação do torpedo, ruptura do cinto, etc), sem que se pudesse identificar as causas que levaram ao mau funcionamento da arma.
O relatório em questão tinha sido divulgado pelo gabinete do Comandante da Frota do Mar, escalão de que dependia a Força de Submarinos, sem ter conseguido reverter a situação. Como veremos mais tarde, as verdadeiras causas do problema só viriam à luz após o conflito.
Apesar destas limitações graves, Azcueta fortemente pressionado pelo contexto político/militar em que vivia, informou ser capaz de fazer-se ao mar no dia 11 de abril.
O submarino zarpou no final da tarde, com os seus minúsculos compartimentos abarrotados de alimentação e água para uma prolongada patrulha de guerra, com 10 torpedos SST-4 antisuperfície, de fabricação alemã e 14 torpedos antisubmarine MK-37 Mod 3, americanos.
Suas regras de engajamento vedavam, até aquele momento, qualquer confronto com as unidades inimigas, uma vez que se considerava que uma ação ofensiva iria comprometer as negociações que estavam em curso nas Nações Unidas.
O trânsito para a área de operações nas Malvinas foi aproveitado para concluir algumas pequenas reparações e prosseguir com o treinamento do pessoal na utilização do sonar passivo, do qual dependeria de agora em diante, a sobrevivência do submarino, tendo este último que operar dentro de uma área marítima inteiramente controlada pelo inimigo.
Em 17 de abril de 1982, o ARA San Luis chegou com segurança em seu “santuário fixo” ou área de espera, designado com o nome código de “Enriqueta”, localizada a cerca de 130 milhas ao norte da zona de exclusão estabelecida pelos britânicos em torno das ilhas.
Dois dias depois, enquanto permanecia naquela estação, ocorreu uma avaria no computador de direção de tiro VM8-24. Apesar dos esforços da tripulação, não havia como reparar o computador com os recursos disponíveis a bordo.
A dotação do navio incluía dois cabos especializados em direção de tiro, que também tinham o dever de reparar o sistema em caso de avaria. Esta função era anteriormente ocupada por suboficiais experientes, mas em abril de 1982 só havia disponível pessoal muito moderno, sem capacitação para reparar o sistema, além de trocar placas de circuito impresso.
A consequência imediata desta grave limitação na utilização do sistema de armas foi que a partir dali, os disparos de torpedos seriam feitos com cálculos manuais, com o submarino sendo capaz de controlar apenas um torpedo de cada vez, ao invés de três que o sistema permitia quando funcionava normalmente.
Com o computador avariado, o submarino operaria em “emergência”, o que doutrinariamente servia apenas para auto-defesa, dada a baixa probabilidade de gerar impactos.
Paralelamente aos esforços levados a cabo a bordo para tentar restaurar o sistema, autoridades navais no continente fizeram uma consulta ao Chefe do Arsenal, em River Plate (CF Edgardo P. Meric), para buscar assessoria técnica. Mas isso exigiria que o ARA San Luis enviasse por rádio longas mensagens que o sistema apresentava, para que os técnicos em terra pudessem diagnosticar o problema.
A mera possibilidade de que o submarino pudesse revelar sua presença na área de operações através destas mensagens fez com que a ideia fosse imediatamente rejeitada.
Dada a impossibilidade de consertar o computador, o comandante Azcueta enviou uma mensagem urgente para o COFUERSUB, colocando o Alto-Comando a par da situação e solicitando instruções.
Contra todas as probabilidades previsíveis, foi ordenado que o San Luis deveria ficar onde estava até novo aviso, porque eles achavam [indevidamente] que o inimigo poderia perceber sua ausência do teatro se o navio fosse reparado.
No final do conflito, vários submarinistas consultados expressaram que os danos poderiam ter sido reparados em Puerto Madryn, simplesmente transferindo para bordo o pessoal técnico e as peças exigidas.
Em retrospectiva, essa idéia parece ter tido boas perspectivas de sucesso naquele momento [19 abril], pois apenas um pequeno número de submarinos nucleares operava a oeste das Falklands e as unidades de superfície ainda não tinham chegado na área de operações [chegaram em 22 abril], de modo que a capacidade anti-submarino do inimigo na área focal de Puerto Madryn era inóqua.
Enquanto o San Luis prosseguia na sua rota para o sul, demandando sua área de operações, os rebocadores Tehulche e Querandí sob comando do Teniente de Navío Araujo (então imediato do Aviso ARA Irigoyen) foram enviados de Puerto Belgrano, com o objetivo de escoltar o submarino ARA Santiago del Estero (foto abaixo), um Guppy IA que havia sido desativado em 1981, em trânsito de volta para o porto, com a intenção deliberada de confundir o inimigo sobre o sua real estado de funcionamento.

Para assegurar toda a operação, foi decidido que os rebocadores deveriam tomar o porto de Mar del Plata após 19h, em 22 abril, devendo zarpar novamente em 72 horas. Não houve necessidade de esperar tanto tempo.
Apenas cinco horas mais tarde, às 00h20 exatamente, o submarino ARA Santiago del Estero começou a navegar na superfície rumo a Puerto Belgrano, com seus próprios motores, mas incapaz de mergulhar.
A operação de traslado para a principal base naval da Argentina foi realizada sem problemas e com toda a pressa, para tirar vantagem das condições meteorológicas favoráveis.
O submarino chegou ao seu destino com segurança no dia seguinte à noite, onde foi cuidadosamente escondido entre dois grandes navios mercantes que se reabasteciam, convenientemente escondido para não ser visto por satélites ou aviões.
O ardil foi bem sucedido, a julgar pelas entrevistas dadas pelo pessoal inimigo capturado na Geórgia do Sul. Os britânicos estavam muito preocupados em saber o paradeiro do gêmeo ARA Santa Fe.

Na área de operações


Faltando poucas milhas para entrar na área de patrulha, um forte barulho de batida foi ouvido no “espaço livre de circulação”, ou seja, no espaço entre o convés e casco de  resistência, que é completamente inundado em imersão. O comandante Azcueta decidiu então emergir rapidamente antes do pôr do sol, para investigar a origem do ruído, uma vez que estes aumentam a indiscrição do navio.
O mistério foi revelado logo ao emergir: uma pistola de solda que algum operário desavisado tinha esquecido na rápida preparação do navio. O movimento do submarino fazia com que a ferramenta batesse continuamente contra o casco, dando a impressão de que era algo muito mais grave.
Também foi detectado que havia se soltado uma tampa de acesso a uma válvula, que foi prontamente consertada. Toda a operação não levou mais de 15 minutos, depois retomou-se a navegação com segurança.

No final de 28 de abril, às 8h, o ARA San Luis entrou furtivamente em sua área de patrulha, nome código “Maria”, ao norte da Ilha Soledad, muito próximo à costa. No dia seguinte, como consequência direta do ataque surpresa britânico a Grytviken, no sul da Geórgia, se levantaram as restrições à utilização de armas.
Se o comandante Azcueta tinha alguma dúvida sobre a existência ou ausência de atividade inimiga na área, esta foi dissipada em torno de 09:40h de 1º de maio, quando seu sonar detectou um ruído imediatamente classificado como um “escolta tipo 21 ou 22″, “baseado no ritmo de suas hélices e emissão do seu sonar tipo 184″. O alvo operava com helicóptero e navegava a 18 nós.
Azcueta então ordenou postos de combate e aumentou a velocidade ao máximo, para encurtar a distância do alvo: 13.000, 12.000, 11.000, 10.000m, içou o periscópio brevemente, mas uma espessa neblina o impediu de ver alguma coisa.
Quando o alvo estava a uma distância inferior a 9.500 metros, Azcueta ordenou o lançamento do seu primeiro torpedo SST-4, o primeiro lançado pela Armada Argentina em tempo de guerra, parando as máquinas no último momento para facilitar a guiagem manual do torpedo.
Eram 10h15. Dois minutos após o lançamento foi recebido o sinal “cabo cortado” e nenhuma evidência de que o alvo tinha sido atingido. Quase imediatamente o submarino começou as manobras evasivas, antecipando um possível contra-ataque inimigo, mas ele nunca aconteceu. Aparentemente, os ingleses nunca souberam de sua presença.
Para economizar combustível e evitar ser detectado por helicópteros anti-submarino que estavam operando nessa área, o San Luis pousou no leito marinho em torno das 16h25 e lá permaneceu nas cinco horas seguintes.
Quase todos os dias foram obrigados a jogar gato e rato com os navios de superfície e helicópteros anti-submarino britânicos que se movimentavam através da área, tendo que repetidamente interromper abruptamente a recarga das baterias, por causa dos contatos hidrofônicos constantes mantidos com o inimigo.

Mais problemas



Em 4 de maio, outro revés operacional atingiu o San Luis: um de seus dois conversores de 400 Hz ficou inesperadamente indisponível.
Sem um dos seus conversores, o submarino ficou ainda mais limitado, impedido de operar plenamente os seus equipamentos mais essenciais, como sonar, radar, os emissores, a giro, e o próprio sistema de armas.
Com mais este problema, além de outras falhas, que a tripulação teve de reparar precariamente, com os poucos elementos disponíveis a bordo do submarino, tornou muito mais arriscada a operação, apesar do moral da tripulação e a disposição do comandante de continuar lutando não diminuírem em nada.
Naquele mesmo dia, dois jatos Super Étendard pertencentes à Segunda Escuadrilla Aeronaval de Caza y Ataque foram vetorados por um antigo bimotor P-2H NEPTUNE, até um grupo de alvos que navegavam a 100 milhas ao sul de Puerto Argentino, em missão de “piquete-radar”. Por volta de 11h05, os aviões argentinos dispararam mísseis Exocet AM39 simultaneamente, para alcançar o destróier tipo 42 HMS Sheffield, de 3.660 toneladas.
No primeiro momento os britânicos acreditaram terem sofrido um ataque de torpedos, mas um voo de reconhecimento realizado dez minutos depois  do ataque revelou um enorme buraco de 3 metros de diâmetro acima da linha d’água, a boreste do navio, que só poderia ter vindo de míssil ar-superfície.
Não só mostrou que o grupo de batalha britânico estava vulnerável à aviação argentina, como provocou pânico nos altos comandos militares ingleses, por mostrar a possibilidade de perder-se um dos seus dois valiosos porta-aviões, o que até então era considerado impensável.
O submarino ARA San Luis recebeu o relato sobre o  HMS Sheffield às 21h14 [hora argentina] e recebeu ordens de ir à toda velocidade para a última posição conhecida do navio inimigo, a fim de confirmar o afundamento dele e obter alvos de oportunidade. Inexplicavelmente esta ordem foi revogada em poucas horas, permanecendo o San Luis na zona de operações.

Novos alvos


Quatro dias mais tarde, os sensores acústicos captaram outro alvo, desta vez no setor de popa do submarino, com todas as características de um contato inteligente e, portanto, hostil.
Um tripulante relatou: “Nós sentimos muito perto do casco acima da popa, embora não possa garantir que não era um torpedo”. De qualquer maneira, o comandante ordenou imediatamente manobras evasivas e lançamento de engodos (chamarizes) para evitar a ameaça iminente.
No dia 8 de maio, às 21h42, o alvo foi detectado a uma curta distância e o comandante Azcueta decidiu lançar um torpedo MK.37, a uma distância inferior a 2.500 metros. A explosão ocorreu 16 minutos após o lançamento, mas não foi possível especificar o seu resultado.
Esta ação despertou depois da guerra, críticas injustificadas daqueles que eram encarregados de avaliar as ações de combate, sem levar em conta a experiência mínima disponível da “Força de Submarinos” na classificação de alvos pois, na esmagadora maioria dos casos, os navios modernos da Armada não eram aproveitados para o treinamento dos submarinos, relegando a estes apenas o treinamento de combate submarino versus submarino.
A terceira oportunidade de ataque surgiu ao amanhecer do dia 11 de maio, quando se obteve um novo contato hidrofônico de dois alvos de superfície que navegavam próximo à boca do Estreito de San Carlos. O destino tinha colocado o San Luis entre os dois navios inimigos, numa ótima posição para um ataque com torpedos.
Na superfície reinava uma escuridão total, impossibilitando a visualização das embarcações através de periscópio. O comandante Azcueta decidiu primeiro atacar o alvo localizado mais ao sul, uma vez que era menor a probabilidade de erro na estimativa da direção e da distância.
Por volta de 01h40, a uma distância de 8.000m, ordenou lançamento a partir do tubo nº 1, mas com falha deste, teve que lançar com o nº 8, com a distância do alvo já reduzida para 5.200 metros. Após 3 minutos de corrida do torpedo, o sinal luminoso de “cabo cortado” foi recebido no console de direção de tiro.
San Luis então se dispôs imediatamente a atacar o segundo alvo, localizado um pouco mais a norte, mas desta vez o alvo deixou o local em alta velocidade e Azcueta decidiu abortar o lançamento.
Pouco depois da operação, o comandante enviou uma mensagem para a COFUERSUB dando conta do seu ataque frustrado e sobre o comportamento errático do último torpedo. Apesar de ter excelentes informações do alvo e uma posição para fazer o disparo, concluiu que “o sistema de armas não era confiável “.
Esta mensagem finalmente convenceu o Alto-Comando naval argentino que o San Luis tinha que voltar para casa.
Para evitar a interferência com outras unidades que estavam operando em águas próximas da costa Argentina, foi feita uma rota direta para o extremo sudeste da área de treinamento de submarinos em frente a Mar del Plata e a partir dali, tomou-se uma rota costeira para o acesso ao canal da Base Naval de Puerto Belgrano.
Na noite de 19 de maio, o ARA San Luis regressava à sua base, depois de 39 dias de patrulha e 864 horas de imersão. Após algumas horas depois de atracado, seu segundo conversor de 400 Hz também ficou completamente fora de serviço.