"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Estratégia Naval #


Guerra Naval é o conjunto de operações de confronto entre poderes antagônicos, que disputam a hegemonia sobre interesses em comum, através do atrito de forças militares em ambiente marítimo. Ela compreende ações desenvolvidas na superfície dos mares e abaixo dela, no espaço aéreo que está acima desta superfície e nas terras contíguas a estes mares, que de alguma forma influenciem ou sejam influenciadas por estes primeiros elementos. 

Visam a consecução de objetivos tanto no espaço marítimo quanto terrestre, imediatos ou a longo prazo, e envolvem elementos pertencentes ou não ao poder militar. Diferentemente das operações de guerra terrestre ou aérea, onde os meios civis raramente participam de tarefas de caráter tático, no mar os meios de marinha mercante conduzem a operações bem caracterizadas e a táticas afins a suas possibilidades operativas.

A Importância Político-Estratégica do Mar

A importância do mar na vida dos povos é inquestionável e antiga. Observando a história podemos constatar que a maior parte da atividade humana ao longo dos tempos se desenvolveu ligada a ele. Ocupando 70% da superfície do planeta, continua a ser o cenário de manifestação de poder de um grande número de nações. As maiores cidades do mundo estão junto ao mar ou muito próximas a ele, assim como os países com atividade marítima mais intensa assumiram ao longo da história e mesmo hoje maior importância mundial.

O uso do mar, na atualidade, é permitido apenas aqueles que possuem poder econômico e militar, ou que obtenham a permissão deste poder para fazê-lo. Sob a ótica econômica, o mar é a via de comunicações mais importante do planeta e fonte abundante de matérias-primas essenciais ao abastecimento de muitos países. Mesmo com a intensificação das vias de transporte aéreo e terrestre, não há indícios que num futuro previsível o mar venha a perder sua importância absoluta na movimentação de matérias primas entre as economias modernas. Estima-se que mais de 36.000 navios mercantes transportaram 8,1 bilhões de toneladas de carga em 2008 pelo mundo. O Ferro e o petróleo, vitais nos sistemas econômicos modernos são totalmente transportados pelo mar. Muitas nações ainda encontram no pescado uma de suas principais fontes de alimento. A exploração das plataformas continentais adquire maior importância a cada dia como fonte de matéria-prima.




A importância militar também é significativa, pois é através dele que os invasores chegam, e seu domínio constituí uma efetiva barreira para qualquer aventura deste tipo. Os ingleses só deixaram de ser invadidos depois que assumiram o controle do Canal da Mancha, ao passo que invadiram mais tarde todos os recantos do mundo. Nenhuma nação sobrevive apenas de estoques acumulados e o mar é porta de entrada contínua de todos os tipos de suprimento. Base industrial agregada a matéria prima é um dos componentes do poder nacional. Como o poder é sempre relativo, mesmo nações sem dependência direta do mar o consideram estrategicamente, pois muitos de seus aliados ou inimigos estão nesta dependência. A Suíça possui uma grande frota mercante e nenhum litoral, por exemplo.


Para a estratégia naval o mar apresenta-se com duas características importantíssimas quanto a sua utilização:
  • é uma eficiente via de transporte disponível, podendo muitas vezes ser a única aos protagonistas de uma situação de conflito declarado ou potencial; 
  • é uma ampla e flexível base de projeção de poder sobre as bases do poder contrário.

O Domínio do Mar

Entendemos como o domínio do mar a efetiva utilização das superfícies oceânicas pelas forças navais e marinha mercante. Busca-se neste domínio a condição de mínima interferência possível de poderes antagônicos. Este domínio é o objetivo final da guerra naval e em torno dele suas estratégias são traçadas, sendo pré-requisito essencial a obtenção da iniciativa nas ações estratégicas, valendo lembrar que a iniciativa é um dos 9 princípios da guerra. Durante a II grande guerra o domínio do Atlântico, mesmo que parcial, significou condição vital a manutenção das operações no continente europeu, pois de nada valia o enorme poder produtivo da indústria norte-americana, sem a capacidade de transportar este suprimento para a área de operações. Os comandantes aliados sabiam que não haveria a invasão da Europa sem comunicações marítimas seguras, por consequência sem vencer a Batalha do Atlântico. Os Alemães também sabiam disso e colocaram seus U-boats em operação intensa, além de dedicar esforços na construção de meios como o encouraçado Bismark.




O domínio do mar não pode ser considerado apenas como algo absoluto e em grandes áreas marítimas. Ele pode ater-se à áreas restritas, desde que o domínio destas satisfaçam os objetivos estratégicos. Seu domínio absoluto só existirá se houver total ausência de poderes antagônicos, situação improvável. Na prática considera-se estabelecido o domínio quando as operações militares e suprimentos econômicos podem fluir sem perdas inaceitáveis.

Um fator importante ao domínio do mar é a existência de bases aéreas e navais disponíveis, ou locais onde possam ser instaladas. Assim o domínio de ilhas em grandes extensões oceânicas como o Hawaii no Pacífico, e a ilha de Ascensão no Atlântico, por exemplo, são de vital importância a operação das forças que disputam a guerra neste ambiente. Como o poder é relativo e o domínio global uma condição raramente atingida, cabe a estratégia naval avaliar o grau de controle necessário de cada área e aplicar ali os meios necessários. Podem haver áreas importantes para um dos lados e totalmente desnecessárias a outro, como foi o caso do Atlântico Norte na II Guerra. Quando esta situação se configura, o lado que não necessita da área marítima, tende a empregar esforços no sentido de negar seu uso ao outro lado. Neste contexto, se este lado não puder vencer a guerra, ainda pode provocar um impasse estratégico e forçar o outro a mesa de negociações.

Algumas áreas marítimas são mais importantes que outras. Como as já citadas áreas que podem abrigar bases aéreas e navais, temos ainda pontos de passagem obrigatória como os canais de Suez e do Panamá, os estreitos como o Bósforo, o estreito de Ormuz, Gibraltar e Bering entre outros; os cabos Horn e da Boa Esperança. Águas interiores como o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, Mar do Caribe e Báltico também assume importância nas operações. A Rússia, a despeito de sua extensão territorial, tem limitadíssimas opções de acesso ao mar. Ao norte o mar congela ou tem que ser transposto o Báltico e seus estreitos; ao sul tem que passar pelo Bósforo; e o leste fica distante e no quintal do império japonês. Em contraste, Brasil, Estados Unidos e Chile tem amplo acesso ao mar aberto.


O nível de domínio do ambiente marítimo pretendido por determinada nação deve estar definido em sua estratégia naval. Esta, define quais os objetivos a serem alcançados através das operações navais para que este domínio se consolide. O nível de domínio do mar se dá em 4 graus distintos:
  1. Não existe nenhum domínio do mar, e os atores do poder antagônico tem total liberdade sobre o ele, podendo inclusive negar seu uso a quem o desejar;
  2. O seu uso é negado aos atores do poder antagônico, porém não é possível utilizar o espaço marítimo pois aqueles detêm capacidade semelhante;
  3. O domínio do mar está em disputa e pode-se utilizá-lo, porém com risco proporcionado por capacidades reais do poder antagônico que as utilizará se conseguir transpor as barreiras de segurança adotadas;
  4. O domínio do mar está consolidado, podendo o espaço marítimo ser utilizado sem grande interferência do poder antagônico, que não pode utilizá-lo pois esta capacidade lhe é negada. É o oposto diametral da primeira situação.


O Poder Marítimo

O poder marítimo é capacidade de uma nação se fazer presente nos mares com maior ou menor expressão, capacidade esta resultante de uma série de fatores condicionantes. São eles:

  • o poder naval constituído pela força aérea e marinha de guerra e suas bases de apoio e instalações estratégicas, 
  • sua geografia, 
  • a marinha mercante e suas agências de comércio marítimo, 
  • seus portos, estaleiros e bases de reparação,
  • sua base industrial,
  • a qualificação de seu pessoal envolvido com a atividade marítima ou que a dê suporte
  • a índole nacional e sua capacidade de organização
  • além de suas alianças estratégicas que envolvam a atividade marítima.

O Poder Naval

Poder naval é a capacidade de uma nação impor sua estratégia marítima e naval através de meios de guerra naval e poder marítimo, empregando suas marinhas de guerra. O emprego do poder naval dá-se a partir do grau de domínio do mar que foi alcançado, e busca a efetivação de 5 objetivos básicos:
  • Negar o uso do mar ao inimigo para deslocamento de sua força militar, impedindo sua aproximação de solo pátrio ou ultramarino de interesse, o que inviabiliza qualquer tipo de invasão;
  • Pressionar militar e economicamente o poder antagônico, impedindo que receba pelo mar todo e qualquer recurso que facilite seu esforço de guerra, ou que despache pelo mar seu comércio, sufocando desta forma suas finanças e inviabilizando a compra de suprimentos de guerra, bem como pressionar as nações neutras que estejam dispostas a participar de tal comércio;
  • Proteger do assédio do poder antagônico o tráfego marítimo amigo que realiza o apoio a atividade econômica que participa do esforço de guerra;
  • Assegurar à força militar amiga o acesso às cabeças de praia no território do poder antagônico e sua projeção para o interior, bem como de suas linhas de suprimento;
  • Apoiar a manutenção de territórios costeiros conquistados, permitindo o livre acesso às áreas do interior de todos os meios oriundos do mar, em apoio às forças terrestres que estejam em operação neste locais.
Estes objetivos devem ser buscados simultaneamente a fim de atingir o intento final que é solucionar o conflito na condição de superioridade, sendo que a intensidade aplicada a cada item será calibrada pela dimensão tático-estratégica de cada situação específica. As marinhas de guerra possuem diferentes capacidades para aplicação do poder naval, cada qual operando de acordo com suas capacidades proporcionadas pelos meios disponíveis.



TIPOS DE OPERAÇÕES DE GUERRA NAVAL

domingo, 13 de setembro de 2015

Falklands/Malvinas - A Reação Britânica #



No dia 3 de abril, seguinte ao desembarque argentino nas ilhas, instalou-se uma crise política nos altos escalões do governo britânico. Margaret Thatcher foi acusada de ter subestimado os acontecimentos nas ilhas Geórgia do Sul e os indícios das intenções argentinas. Na verdade estes acontecimentos já vinham sendo acompanhados de perto pelos britânicos e algumas medidas já haviam sendo tomadas. Alguns políticos vestiram "saia justa" e outros perderam seus cargos

Os preparativos para uma invasão haviam sendo notados por satélites americanos e repassados ao serviço secreto de sua majestade, que acompanhava as movimentações. No dia 29 SSNs da Royal Navy receberam ordem suspenderem de suas bases rumo ao Atlântico Sul. O HMS Spartam partiu em 48 horas rumo a Gibraltar, o HMS Splendid seguiu no dia 1º e o HMS Conqueror  no dia 4. A uma velocidade média de 23 nós o Spartam só chegaria às imediações de Port Stantey no dia 12, tarde demais para frustrar a provável invasão. 




Dia 29 também iniciaram-se os estudos para composição de uma força-tarefa que rumaria ao Atlântico sul. Considerou-se que seriam necessários todos os meios disponíveis como porta-aviões e meios anfíbios. Em manobras ao largo de Gibraltar, a 1ª Flotilha com cerca de 20 navios foi considerada como sendo o núcleo de uma frota capaz de cumprir esta missão. Estes navios já acumulavam alguns dias de mar pois estavam operando, e demandavam manutenção junto a suas bases. No entanto, devido a urgência da situação, tiveram que se deslocar ao outro extremo do hemisférios para operar por mais 2 meses em condições atmosféricas desfavoráveis. O comandante da frota chegou a notificar o alto comando em Londres, alguns dias antes da capitulação argentina, que teria que abandonar a área de operações devido a precariedade das condições de muitos de seus navios, entre eles os porta-aviões, se o conflito não se resolvesse nos próximos dias.

Dia 31 iniciou-se um período frenético de preparação do HMS Hermes que estava em Portsmouth para reforma e do HMS Invencible, recém chegado de exercícios no mar. Improvisações de todos os tipos para adequar os navios a missão foram implementadas, pois o Almirante Sir Henry Leach, primeiro lorde do almirantado, prometeu ao gabinete da ministra que até o dia 5 eles estariam em condições de se lançarem ao mar. Conforme o prometido, acompanhado dos anfíbios Fearless e Intrepid, o núcleo capitânea da FT partiu de Portsmouth, sob o comando do Alte. Sir John Sandy Woodward. Foram precedidos em dias anteriores pelo navio-tanque Tidespring, o submarino diesel-elétrico Onyx e o navio de apoio logístico Sir Geraint, por inciativa do comandante da Royal Navy.



Seguiram navios logísticos de desembarque e os transatlânticos SS Camberra e Queen Elizabeth II para transporte de tropas e o SS  Uganda convertido em navio-hospital, entre outros mercantes, que embarcaram a Brigada Commando 3 dos Royal Marines e os 2º e 3º Batalhões de Paraquedistas, tropas com blindados leves e artilharia, além de equipes do SAS e SBS. Navios civis de vários tipos foram rapidamente mobiliados com pistas de pouso para helicópteros e meios de reabastecimento no mar, 48 no total. As improvisações implementadas não partiram do zero, visto que a RN já tinha planos para operar em águas distantes sem o apoio de bases navais, com a utilização de navios complementares, devido ao reduzido número que a RFA dispunha. Eles complementaram as 22 unidades de navios tanques, logísticos e navios-hospital da RFA (Royal Fleet Auxiliary). 

Somaram-se a FT os contratorpedeiros e fragatas provenientes da 1ª flotilha e outros complementares. Durante o deslocamento pelo Canal da Mancha os navios continuaram a receber suprimento por helicópteros, guarnições aéreas de Caças Sea Harrier da RN. Ao todo, mais de 38 navios de guerra acrescidos de 22 logísticos da RFA e 48 mercantes requisitados ao serviço civil seguiram para o sul do Atlântico, totalizando 114 navios num primeiro momento. Dia 12 de abril foi declarado o bloqueio aéreo e naval em torno de 200 milhas da ilhas com as chegada do primeiro SSN, e no dia 30 de abrir a frota britânica já estava em condições de começar a operar nas proximidades de Port Stanley, efetuando os primeiros contatos em 1º de maio.



Composição da British Task Force no conflito das Falklands/Malvinas 

Porta Aviões (2)
HMS Hermes
706 NAS 4 Sea Kings
800 NAS 12 Sea Harrier
809 NAS (-4) 4 Sea Harrier
826 NAS 12 Sea King
846 NAS 6 Sea King
HMS Invincicle
801 NAS 8 Sea Harrier
809 NAS (-4) 4 Sea Harrier
820 NAS 10 Sea King
Anfíbios-Doca (2)
HMS Intrepid
4 LCVP
4 LCU
HMS Fearless
4 LCVP
4 LCU
Destróieres e Fragatas (23)
HMS Bristol Type 82
HMS  Coventry Type 42
HMS Cardiff Type 42
HMS Exeter Type 42
HMS Sheffield Type 42
HMS Glagow Type 42
HMS Glamorgan County
HMS Antrim County
HMS Brilliant Type 22
HMS Broadswoord Type 22
HMS Active Type 21
HMS Antelope Type 21
HMS Ardent Type 21
HMS Ambuscade Type 21
HMS Avenger Type 21
HMS Arrow Type 21
HMS Alacrity Type 21
HMS Andromeda Leander
HMS Argonaut Leander
HMS Minerva Leander
HMS Penelope Leander
HMS Yarmouth Rothesay
HMS Plymouth Rothesay
Quebra Gelos (1)
HMS Endurance
SSN (5)
HMS Conqueror Churchill
HMS Courageous Churchill
HMS Spartam Swiftsure
HMS Splendid Swiftsure
HMS Valiant Valiant
SS (1)
HMS Onyx Oberon
Mineiros (5)
HMS Cordella
HMS Farnella
HMS Junella
HMS Junella
HMS Northella
HMS Pict
Auxiliares (5)
HMS Hecla
HMS Herald
HMS Hydra
HMS Leeds Castle
HMS Dumbarton Castle
Real Frota Auxiliar (22)
RFA Olna Tanques
RFA Olmeda Tanques
RFA Tidespring Tanques
RFA Tidepool Tanques
RFA Blue Rover Tanques
RFA Appleleaf Tanques
RFA Brambleleaf Tanques
RFA Bayleaf Tanques
RFA Plumleaf Tanques
RFA Pearleaf Tanques
RFA Sir Lancelot Transporte de desembarque
RFA Sir Geraint Transporte de desembarque
RFA Sir Percival Transporte de desembarque
RFA Sir Tristan Transporte de desembarque
RFA Sir Galahad Transporte de desembarque
RFA Sir Bedivere Transporte de desembarque
RFA Regent Suprimento
RFA Resource Suprimento
RFA Fort Austin Suprimento
RFA Fort Grabge Suprimento
RFA Stromness Suprimento
RFA Engadine Oficina 
Royal Maritime Auxiliary Services (2)
RMAS Typhoon
RMAS Goodsander
Requisitados do serviço civil (46)
SS Camberra transatlântico como transporte de tropas
SS Uganda transatlântico como hospital
RMS Queen Elizabeth transatlântico como transporte de tropas
Elk Ferry
Norland Ferry
Baltic Ferry Ferry
Europe Ferry Ferry
Nordic Ferry Ferry
Ragatira Ferry
St Edmund Ferry
Tor Caledonia Ferry
Astronomer Porta Conteiner
Atlantic Conveyor Porta Conteiner
Atlantic Causeway Porta Conteiner
Contender Besant Porta Conteiner
MV Mirmidon Porta Conteiner
Avelona Star Transporte
Geestport Transporte
Laertes Transporte
Lycaon Transporte
Saxonia Transporte
Strathewe Transporte
St. Helena Transporte
Alvega Petroleiro
Anco Charger Petroleiro
Balder Londres Petroleiro
British Avon Petroleiro
British Dart Petroleiro
British Esk Petroleiro
British Tamar Petroleiro
British Test Petroleiro
British Tay Petroleiro
British Trent Petroleiro
British Wye Petroleiro
Eburna Petroleiro
Fort Toronto Petroleiro
G.A. Walker Petroleiro
Scottish Eagle Petroleiro
Empresa Britânica III Rebocador
Iris Rebocador
Irishman Rebocador
salvegeman Rebocador
Stena Inspector Rebocador
Stena Seaspread Rebocador
Wimpey Seahorse Rebocador
Yorkshire Rebocador



domingo, 6 de setembro de 2015

Falklands/Malvinas - Começam as Hostilidades #



Uma das maiores preocupações do Estado Maior da defesa britânica era a ameaça da aviação argentina contra a força tarefa. A medida mais óbvia para se conter tal ameaça era o bombardeio das bases aéreas continentais, o que acarretaria em inconvenientes políticos, além das barreiras logísticas praticamente intransponíveis. Chegar a estas bases demandaria um esforço de reabastecimento em voo superior ao que se viu nas operações "Blackbuck" com 19 reabastecimentos para cada bombardeiro, além dos reabastecimentos das aeronaves reabastecedoras, além de 2 reabastecedores extras de reserva para cada um. Um bombardeio eficaz demandaria 4 bombardeiros sobre cada alvo, totalizando a necessidade de cerca de 76 reabastecedores Victor. Um verdadeiro pesadelo logístico. Este número além de impraticável pela inexistência de tantas aeronaves, também não seria comportado pela base de Wideawake com espaço físico bastante limitado. Esta impraticabilidade resultou na decisão pelas operações "Blackbuck". Estas operações sugeriram que o desembarque se daria nesta área e o bombardeio continental era uma possibilidade, pois os argentinos talvez não tivesse a capacidade de concluir se esta possibilidade era factível ou não.

Bombardear a pista de Stanley, mesmo que com destruição parcial, provocaria um revés significativo no ressuprimento das tropas argentinas que dependiam da ponte aérea, pois o mar estava sob ameaça constante dos SSN de sua majestade. Em 20 de abril um primeiro Victor realizou a partir de Ascensão um reconhecimento fotorradar para confecção de cartas de navegação aos bombardeiros que operariam sem visibilidade.



Por volta de 30 de abril o gabinete da primeira-ministra emitiu instruções aos Alte Woodward concedendo-lhe um grau amplo de liberdade para tomar as decisões que fossem necessárias para o bom desempenho de sua missão. O bloqueio total de 200 milhas continuava, se bem que o aéreo não era eficaz devido a precariedade de meios. Neste mesmo dia partiu da Inglaterra mais um mercante denominado Iris requisitado a British Telecom para reforçar o esforço logístico de 39 mercantes já em apoio aos 27 vasos da Royal Navy, além de seus submarinos. O Iris foi adaptado com pista para helicópteros Sea King, além de 2 canhões para defesa, e foi empregado no abastecimento entre os demais navios. Ás 23 horas decolava de Wideawake o primeiro Vulcan que 3 minutos depois regressou com problemas de pressurização, sendo substituído imediatamente pelo seu reserva, inciando os longos raides até Stanley com apoio dos Victor, chegando lá por volta das 03:45 (07:45 HMG) do dia primeiro, hora local. 

 A cerca de 150 milhas iniciou a aproximação descendo para 300 pés para evitar detecção, e a 50 milhas subiu para 10.000 pés, fora do alcance da antiaérea, mergulhando a 30 graus liberou às 04:23 hora local 21 bombas de 450 kg cada. Atingiu um PI preciso graças aos fotoreconhecimentos preeliminares, seu sistema INS, seu computador de bordo e radar. Surpresos pela ausência de reação, a tripulação do Vulcan transmitiu um código de "missão cumprida" a sua base.



O Gen Menéndez foi acordado em Stanley pelo efeito do bombardeio ao aeroporto, não sendo possível detectar nem identificar os autores, que se aproximaram a baixa altura. Às 07:30 quando o Gen se dirigia ao seu centro de operações, um novo ataque ao aeroporto aconteceu, desta vez por 12 aeronaves Harrier da FT, atingindo pontos de impacto no limite das habitações e posições AAé que reagiram. Lá chegando recebeu uma mensagem via telefone de um ilhéu do comandante britânico convidando-o a rendição, ao que nada respondeu. Os Harrier também atacaram a base Condor em Goose Green atingindo um Pucará que tentava decolar e matando 1 piloto e 2 armeiros, danificando outros, além de 2 tanques de 4.500 litros de combustível cada e alguns veículos, agravando a já precária situação logística da ilha, e forçando os reabastecimentos manuais nesta base avançada.

Apesar dos bombardeios, a pista de Stanley continuou operacional devido a sua solidez. Edificações próximas sofreram danos, e aviões civis das ilhas foram destruídos. Os argentinos logo reparam as crateras abertas e utilizaram-se de pedras e pinturas para iludir quem observasse do alto que as bombas tiveram efeito e a pista estava inoperante. A imprensa argentina noticiou que o bombardeiro fora ineficaz e os ingleses logo repetiram o ataque. A FAA logo desdobrou uma rede de observadores em postos avançados com 3 homens e cobertura radar, porém o mar continuou a descoberto.



Ás 10:30 um novo ataque aconteceu, resultando no abate de 2 Harrier, um por míssil Roland do grupo 601 e outros pelos Oerlinkon 35 mm. Um terceiro abate por míssil Tiger foi aventado mas  não confirmado.  Às 16:30, vindos do continente, aeronaves Mirage e Dagger atacaram navios da FT avariando a fragata HMS Arrow. Caças Harrier os interceptaram e deu-se o primeiro combate aéreo do conflito, ao estilo "dog fight". Um Sea Harrier alvejou um Mirage pela sua retaguarda a cerca de 1 milha com um míssil Sidewinder L atingindo-o. Um Mirage disparou contra um Harrier sem sucesso, enquanto outro Harrier com outro Sidewinder L derrubou um segundo Mirage. Um terceiro Mirage próximo a pane seca se regressa-se ao continente tentou pousar em Stanley e foi derrubado pela AAé amiga. O piloto ejetou seus tanques e lançou o armamento que lhe restara a fim de pousar, o que foi interpretado como ataque e precipitando a reação confusa dos artilheiros.

Dia 4 os Vulcans voltaram a Stanley novamente tendo a pista como alvo, assim como os Harriers, sendo um destes proveniente do Hermes foi abatido em Goose Green. Devido a neblina constante por 3 semanas e meia, 2 Harriers chocaram-se no ar. Os Harriers continuaram seu bombardeio a alvos militares e repeliram a aproximação de um C-130 escoltado por Mirages. Fragatas aproximavam-se a noite quando a aviação argentina era inoperante e bombardeavam, fazendo com que a guarnição permanecesse em constante alerta. A situação se tornou crítica.



No dia primeiro o radar do aeroporto apresentou problemas devido às ondas de choque provocadas pelos disparos dos canhões próximos. Apenas um radar permaneceu em serviço, porém o bombardeio naval noturno o desativou. Um voo do continente trouxe peças de reposição e pro volta da meia noite os técnicos do exército o reativaram. A pequena aeronave pousou na base Calderon na ilha Bordon, e um helicóptero transportou as peças a partir dalí. As posições foram trocadas o que dificultou sua localização pelos ingleses. Dia 14 eles voltaram a sofrer assédio por mísseis antirradiação disparados pelos Vulcan. As guarnições logo aprenderam a responder aos alertas de ataque aéreo e naval e procurar seus abrigos na terra fofa e inconveniente, que por outro lado absorvia bem os impactos. Abrigos estes desconfortáveis pela umidade e pelo frio.

Dia 2 o mercante Rio Carcarana rompeu o bloqueio e chegou a Stanley. Neste mesmo dia chegaram a Freetown, Serra Leoa, os mercantes Atlantic Conveyor e Europic Ferry requisitado, transportando mais Harriers e Helicópteros.



domingo, 24 de maio de 2015

Operação Ópera/Babilônia #



O Ataque a Usina Nuclear de Saddam

Original: http://aeromagazine.uol.com.br/artigo/ataque-cirurgico-a-usina-nuclear-de-saddam_854.html#ixzz3b4el0b8Q

Eu estava nadando na piscina quando ouvi explosões e vi fumaça subindo do outro lado do rio. E o inferno explodiu, com cada canhão da cidade atirando. Mas era tarde demais”, relembrou o britânico Duncan Kirby, em 2006, à BBC News. Era 7 de junho de 1981 e Kirby, aos 21 anos, foi um dos trabalhadores ocidentais que testemunharam o ataque aéreo israelense que arrasou a usina nuclear de Osirak, em Bagdá. Ali se encerrava a possibilidade do regime de Saddam Hussein produzir uma bomba atômica. Quase na mesma hora em que o jovem percebia que algo de excepcional estava acontecendo, a tensão se dissipava entre os pilotos que sobrevoavam o leito do rio Tigre com pós-combustores acionados. 

Ao ouvir a chamada hesitante: “Eshkol Quatro... Quatro, tudo em ordem”, o comandante da esquadrilha Ze’ev Raz, a bordo de seu F-16A Fighting Falcon, informou aliviado ao comando: “Charlie completo”. Em código, era a melhor notícia possível: “Missão cumprida sem baixas”. O resultado final, os oito pilotos só saberiam depois de pousar na base de Etzion, no deserto do Sinai, então ocupado por Israel.

Maioria dos pilotos reunidos em Etzion, logo após o pouso do ataque ao reator planejado em minúcias e executado com precisão quase absoluta, o ataque entrou para a história da aviação pela ousadia, marcando a primeira grande operação do caça General Dynamics F-16 Fighting Falcon – a estreia ocorrera dois meses antes, também com Israel, no abate a tiros de canhão de um helicóptero Mil Mi-8 sírio, no Vale do Bekaa. 

Duramente criticado pelas Nações Unidas, o bombardeio cirúrgico surpreendeu o mundo. Conhecido como Operação Ópera ou Operação Babilônia, a ação volta à memória três décadas depois, enquanto crescem as tensões no Oriente Médio em meio a informações, ainda desencontradas, de que Israel teria promovido um ataque aéreo em território sírio, além da desconfiança de que o programa atômico do Irã esconde o desenvolvimento de ogivas nucleares a serem lançadas por mísseis capazes de atingir Tel-Aviv.



ESCOLHAS

Os obstáculos para a operação eram imensos: a distância (mais de 2.000 km entre ida e volta), a necessidade de sobrevoar território hostil (Jordânia ou Arábia Saudita) e um alvo bem defendido. Além dos MiG-23 iraquianos, o reator era defendido por baterias antiaéreas quádruplas (ZSU-23-4 Shilka) de 23 mm, duplas de 57 mm (ZSU-57-2 Obyekt500) e cinco baterias com 60 mísseis terra-ar SA-6, capazes de abater um avião entre 30 e 12.000 m de altitude.

Antes da definição pelo F-16A Netz (Falcão, em hebraico), a Hel Ha-Avir, a Força Aérea de Israel, examinou com cuidado as aeronaves de seu inventário, o tipo mais adequado de armamento e os parâmetros da missão. Os caça- -bombardeiros mais numerosos eram o pequeno e leve McDonnell Douglas A-4 Skyhawk, veterano do Vietnã, e o IAF Kfir, uma evolução local do Mirage III. Ambos não possuíam alcance suficiente e seus radares e visores estavam ultrapassados. Os candidatos naturais eram o McDonnell Douglas F-15 Eagle e o McDonnell Douglas F-4E Phanton II. O F-15 Eagle era então o caça mais moderno do mundo. Além de possuir capacidade ar-solo, seu radar doppler não sofria interferência do solo em voos ultrabaixos.

Porém, os EUA não haviam fornecido tanques suplementares de combustível e a confiança em seus dois motores em uma missão de longa duração não empolgava. O Phantom parecia ser o eleito. Modernizado e capaz de lançar bombas guiadas, à seu desfavor tinha o alto consumo de combustível e os dois tripulantes, o que dificultaria ainda mais uma eventual operação de resgate. Havia restado o F-16, recém-incorporado, nunca testado em combate intenso e com apenas um motor, uma desvantagem em caso de avaria por fogo inimigo. A seu favor, tinha o pequeno tamanho, grande agilidade e aviônica avançada.

Ao final, a escolha se deu mais em função do tipo de armamento: bombas de queda livre Mk.84 de 2.039 lb (925 kg). Ainda que a Hel Ha-Avir possuísse em seu arsenal bombas guiadas laser, naquele tempo a confiança nelas não era grande. A opção por bombas “burras” se deu por mera precaução. Os pilotos estavam acostumados com elas e a suíte eletrônica avançada do F-16 se “encarregaria” de indicar o melhor momento para o lançamento – se os parâmetros (velocidade, altitude e ângulo de ataque) inseridos no computador fossem seguidos. As estimativas indicavam que apenas oito bombas dariam conta do recado. Por precaução, o comando optou por oito caças carregando duas bombas cada um. Seis F-15 Eagle fariam a escolta.



FALCÃO HEBREU

O F-16 havia caído do céu para Israel. Encomendados pelo Irã no final do regime do xá Reza Pahlevi, deixaram de ser entregues quando os aiatolás assumiram o poder, em 1979. Encalhados, os 75 caças pintados no padrão camuflagem de deserto acabaram oferecidos pelos americanos ao brigadeiro David Ivri, então comandante da Hel Ha-Avir, durante uma visita à base americana de Edwards. Impressionados com o desempenho do F-16A nos dogfights simulados, os novos caças chegaram à base de Ramat Davi, perto da fronteira com a Síria, em julho de 1980, onde formaram três esquadrões.

Menos de um mês depois, as equipagens foram transferidas para ensaios no deserto do Negev. Em outubro, quando o ataque foi decidido, o perfil da missão já estava delineado. Até uma réplica em escala reduzida do reator foi construída, a fim de adestrar pilotos. Uma série de teste indicou que, apesar da chegada em voo rasante, as bombas deveriam ser lançadas de ângulos entre 30 e 40 graus para que pudessem penetrar a espessa cúpula de concreto do reator. As espoletas foram preparadas para detonar após a passagem do último avião, o que possibilitaria a filmagem do alvo e evitaria que os últimos a passar fossem atingidos por destroços.



Os pilotos escolhidos foram o coronel Ze’ev Raz (no comando da esquadrilha), Amir Nachumi (comandante de outro dos esquadrões de F-16), Amós Yadlin, Dubi Yoffe, Hagay Katz, Israel Shapir, Iftach Spector (o piloto mais velho, de 41 anos) e Ilan Ramon (tenente, o único com posto abaixo de major, seguindo o critério israelense de sempre levar um novato. Em 2003, como coronel, Ramon foi o primeiro astronauta do país, morrendo no acidente com o ônibus espacial Columbia).

Cercados de sigilo, os F-16 decolaram de Etzion às 15h55 (12h55 pelo horário de Greenwich) excedendo em mais de 1.100 quilos o peso máximo de decolagem (16.100 quilos) recomendado. Nem em testes do fabricante o F-16 voou tão pesado. Cada avião carregava, além do par de bombas sob as asas, dois mísseis Sidewinder nas pontas das asas, dois tanques subalares de combustível de 370 galões, um tanque ventral de 300 galões e lançadores de chaff e flare na fuselagem.


Após a ignição das turbinas e o acerto nos sistemas de navegação, houve um novo abastecimento com motores ligados para complementar os cerca de 140 litros de combustível gastos em solo. Em condições normais, os F-16A tiravam as rodas do chão após uma corrida de meros 600 metros. De tão pesados, os caças tiveram que usar os 1.700 metros de extensão da pista de Etzion. A esquadrilha se dividiu em dois grupos distantes 4.000 metros entre si, com espaçamento lateral de 600 metros. Dois F-15 acompanhavam a formação, cobrindo a retaguarda, enquanto duas duplas de F-15 cobriam os flancos, prontos para intervir contra os MiG-23 iraquianos ou até os F-15 da Arábia Saudita. 

Um sétimo F-15 biplace sobrevoava a Arábia servindo como piquete de rádio. No ar também estavam um avião-radar Northrop Grumman Hawkeye E-2C, um Boeing 707 monitorando as comunicações na região, um Lockheed Hércules KC-130 de reabastecimento e helicópteros Sikorsky CH-53 de resgate. Os CH-53 decolaram uma hora antes para que pudessem estar próximos de Bagdá no momento do ataque. O tempo estava claro, mas acima de 30.000 pés (9.000 metros) esteiras de condensação denunciariam a esquadrilha. Entre os pilotos, a expectativa era de duas baixas entre os F-16.



OS BASTIDORES DO ATAQUE

Acordo de cooperação nuclear assinado com a França desencadeou a ação. Em 1981, o Iraque estava formalmente em guerra com Israel há 33 anos, ou seja, desde 1948, quando o estado judeu foi criado. Porém, com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, as atenções da Hel Ha-Avir ficam centradas nos adversários fronteiriços: Egito, Síria, Líbano e Jordânia. Distante mais de 1.000 km, a capital Bagdá só voltou a ser um alvo potencial a partir de 1976, quando um acordo de cooperação nuclear assinado com a França incluiu a construção de um reator nuclear classe Osiris – para supostos fins pacíficos – e a venda de urânio enriquecido. O reator foi batizado de Osirak pelos franceses (da junção das palavras Osiris e Irak) e de Tammuz 1 pelos iraquianos – havia um reator menor, o Tammuz 2.

Com ajuda dos Estados Unidos, o governo de Israel ainda tentou convencer a França de que o cancelamento do programa de cooperação nuclear seria a melhor opção. Um ataque ao reator começou a ser cogitado em 1979. O alto comando israelense acreditava que a ação deveria ocorrer antes da entrada em operação do reator. Caso contrário, haveria o risco de uma contaminação radiativa colocar em risco milhares de vidas civis.



O Mossad informou ao primeiro-ministro Menachem Begin que o reator deveria entrar em operação entre julho e setembro de 1981. Em junho de 1980, o físico egípcio Yehia El-Mashad, responsável pelo programa iraquiano, foi encontrado morto a pauladas em Paris. Explosões danificaram as instalações de empresas italianas e francesas suspeitas de participação no programa. Em seguida, cartas com ameaças foram enviadas para técnicos e fornecedores. Mesmo assim, as obras prosseguiram.

A esperança estava nas eleições francesas, caso o governo que sucedesse Valéry Giscard d’Estaing mudasse de ideia e cancelasse o acordo. Ao assumir a presidência, em 1981, François Mitterrand desapontou os israelenses ao anunciar que novas transferências de tecnologia nuclear deixariam de ocorrer, mas que os contratos vigentes seriam respeitados. Era o sinal para o ataque.

Como se os obstáculos não fossem enormes, em setembro de 1980, o regime de Saddam Hussein cancelou os acordos que delimitavam a fronteira com o Irã, na região do Shat-El-Arab, provocando a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Se houvesse um ataque israelense, ocorreria diante de barreiras antiaéreas e interceptadores.



Em 30 de setembro, dois McDonnell Douglas F-4E Phanton II iranianos carregando bombas e foguetes praticam o primeiro ataque aéreo da história a um reator nuclear. Apesar do pânico, só prédios próximos foram atingidos. Logo as defesas foram melhoradas e as paredes das instalações, reforçadas. Para Israel, não havia tempo a perder. O primeiro carregamento de 12,5 kg de urânio enriquecido já estava estocado no Iraque.

Fotos de satélite obtidas dos americanos indicavam que o reator deveria começar a funcionar em junho de 1981 (mais tarde franceses afirmaram que Osirak só entraria em funcionamento no final daquele ano). Após sucessivos adiamentos e hesitações – havia opositores ao ataque na cúpula do governo –, a data escolhida foi 7 de junho de 1981, um domingo, quando os trabalhadores franceses e italianos estariam de folga, o que se revelou um engano. No Iraque, trabalhadores ocidentais folgavam às sextas-feiras, de acordo com a tradição muçulmana. Dez soldados iraquianos morreram no ataque, junto com o técnico francês Damien Chaussepied, de 25 anos.

ATAQUES CONTRA TUNÍSIA E SÍRIA

Menos famosas, outras operações cirúrgicas da Hel Ha-Avir serviram para mostrar que Israel não tolera provocações dos inimigos. Em 1º de outubro de 1985, o quartel-general da Organização para Libertação da Palestina (OLP), nas proximidades de Túnis, capital da Tunísia, foi atacado com bombas guiadas. Foi uma resposta a um atentado da OLP no Chipre, seis dias antes, que resultou em três turistas israelenses executados.

Batizada de Operação Perna de Pau, a ação foi conduzida por oito F-15 Eagle que voaram baixo sobre o Mediterrâneo por mais de 4.600 quilômetros, entre ida e volta. Um 707 reabasteceu os caças sobre o mar. Como resultado, 56 militantes palestinos e 15 civis tunisianos foram mortos. O líder da OLP, Yasser Arafat escapou por pouco. Ele estava em sua caminhada matinal. O ataque durou seis minutos e arrasou as instalações palestinas, situadas em um conjunto de prédios próximos da praia.

Bem mais ousada e complexa, a Operação Pomar (Orchard) ainda está repleta de lacunas. No amanhecer de 6 de setembro de 2007, oito F-15I Ra’am (Trovão) guiados por GPS e sistemas Lantirn (Low Altitude Navigation and Targeting Infrared for Night) despejaram mísseis Maverick e bombas guiadas Paveway, de 500 libras, contra instalações na região síria de Deir ez-Zor, no noroeste do país. Aprimoramento local do F-15E Strike Eagle, os F-15I desta vez foram escoltados por F-16, sobrevoando o Mediterrâneo até a costa da Turquia, onde viraram para leste ao longo da fronteira, voltando para o sul em direção ao alvo. Uma aeronave de contramedidas eletrônicas embaralhou as comunicações das defesas aéreas para evitar uma reação, enquanto um radar sírio era destruído preliminarmente. Um helicóptero CH-53 foi acionado para cuidar de eventuais resgates.

Dias depois, autoridades turcas encontraram tanques subalares sem identificação alijados sobre as províncias de Hatay e Gazeantep. As bombas Paveway teriam sido orientadas do solo por uma unidade de reconhecimento (Sayeret Shaldag) do exército israelense equipada com designadores laser. Os soldados estavam infiltrados no interior da Síria há dias. As instalações bombardeadas estariam estocando material nuclear ou mísseis de longo alcance, porém até hoje os detalhes e as razões não foram oficialmente revelados.

LONGO RASANTE

A partir de Etzion, a rota foi traçada para aproveitar as elevações do terreno, a fim de evitar radares jordanianos e árabes. Em caso de falha de motor, os 14 pilotos deveriam fazer uma subida brusca até 150 metros para a ejeção. Caso fosse captado pelo radar antes de cair, o caça apareceria só uma vez nas telas árabes e passaria apenas como um eco. O silêncio de rádio era total. Curva lenta ao sul, a esquadrilha se agrupa e segue a 90 metros do solo até o Golfo de Ácaba. Ali, com a proteção dos morros circundantes, evitam os radares. Sobre o mar, reza a lenda que sobrevoaram o iate do rei Hussein, da Jordânia, antes de entrar no espaço aéreo saudita. O trajeto incluía passar por 40 quilômetros de desfiladeiros, em um zigue-zague arriscado de sete minutos até o deserto. Naquele trecho, o perigo estava em uma interceptação por caças sauditas da base aérea de Tabuk.

A velocidade de 360 nós (667 km/h) tinha de ser mantida por economia. Com o combustível baixando, após a passagem pela rodovia entre Tabuk e a Jordânia, os tanques das asas (110 quilos cada) foram descartados ao longo dos 60 quilômetros seguintes. Ainda nos testes, os pilotos descobriram que nem os americanos descartavam os tanques em voo enquanto carregavam bombas. Havia o temor, logo descartado, de que o esforço comprometesse a estrutura das asas.



DOIS MINUTOS EM BAGDÁ

Ao cruzar a fronteira iraquiana, o coronel Ze’ev Raz lança o código: “Zebra”. A 10 minutos do alvo, a chamada “Duna Amarela” indicava o sobrevoo do lago salgado Bahr al-Milh, próximo do rio Eufrates. Chuvas recentes haviam inundado uma ilhota que serviria de ponto de referência, o que criou algum nervosismo. A velocidade aumenta para 390 nós (722 km/h) e os radares são acionados. Os F-16 se agrupam em quatro elementos. A velocidade sobe para 480 nós (889 km/h). Os F-15 acionam os pós-combustores, sobem para 6.600 metros em três patrulhas de combate. Uma dupla passa a vigiar as decolagens nas bases de Al-Taqaddum e Habbaniya, ao norte, outra fica com Ubaydah Bin Al Jarrah, a beira do rio Tigre, e a última fica acima dos F-16, de olho nas bases de Rasheed, Muthenna e no aeroporto internacional de Bagdá, mais próximas do reator.

A investida começa a cerca de 20 quilômetros do alvo, às 18h35, no rumo sul-norte, quando o domo de concreto já pode ser avistado no horizonte. Os pilotos acionam os pós-combustores, sobem vertiginosamente a 2.100 metros. “Eu olhava à direita e via Bagdá, à esquerda, o reator”, contou à BBC, em 2006, o então coronel da reserva Ze’ev Raz. A seguir, Raz reduziu o manete de potência e, girando em torno do eixo, mergulhou em ângulo de 35 graus a cerca de 1.100 quilômetros por hora, com o Osirak na mira. Entre 1.300 e 1.100 metros de altitude os F-16 lançam sua Mk 84 com intervalos de cinco segundos cada. As câmeras e a fonia captam o esforço físico dos pilotos na recuperação do mergulho para o voo nivelado. Tiros esparsos de antiaérea surgem na frente do último elemento, mas não há uma reação organizada, muito menos SA-6 e MiGs. A IFF (Identificação Amigo-Inimigo) é ligada para não confundir os F-15. A ação inteira dura cerca de dois minutos.

Das dezesseis bombas, oito abrem rombos na cúpula do reator, outras atingem o pátio e instalações próximas. Duas erram o alvo, sendo que uma não explode. Veterano da esquadrilha e cauda da formação, Iftach Spector revelou em sua autobiografia que sofreu um blecaute provocado pela força G durante a subida brusca, “despertando” tarde demais: “Vi Tammuz à minha frente, mas fora de alcance, e joguei as bombas em cima do que podia, no pátio do reator atômico”. Mais tarde foi descoberto que, meia hora antes, os soldados da guarnição antiaérea do reator haviam desligado o radar e abandonado os postos para um lanche no final do dia. Alguns relatos afirmam que o Mossad, o serviço secreto israelense, instalou uma baliza de navegação nas proximidades para auxiliar os jatos.

A volta é uma corrida cuidadosa com pouco combustível. Ainda no Iraque a esquadrilha abre a formação e sobe a 40.000 pés (12.000 metros), onde enfrenta vento de proa. Com combustível suficiente, os F-15 sobem a 41.000 pés para garantir a cobertura. Para evitar o vento, os F-16 arriscam descer a 38.000 pés (11.500 metros), onde deixam esteiras de condensação. Com todos inteiros, o pouso em Etzion é uma celebração. Cada F-16 contava com apenas 1.000 libras (450 quilos) de combustível. “Ninguém pensou que todos iriam retornar”, afirmou Ze’ev Raz. “Estávamos maravilhados por todos termos pousado sem um arranhão sequer”. Qualquer possibilidade de uma bomba nuclear iraquiana havia se transformado em escombros.

AS AERONAVES DA OPERAÇÃO ÓPERA



F-16A “NETZ”
  • Aeronave Air Force F-16A Netz ‘243’ pilotada pelo coronel Ilan Ramon durante a Operação Ópera
  • Fabricante: General Dynamics (hoje, Lockheed Martin)
  • Tipo: multifunção (caça e caça-bombardeiro)
  • Primeiro voo: 20 de janeiro de 1974 (protótipo YF-16)
  • Entrada em serviço operacional (F-16A): em 22 de janeiro de 1979, na 388ª Ala de Caças Táticos (388th TFW), na base aérea de Hill, em Utah
  • Dimensões: envergadura: 10,01 m, com mísseis nas pontas das asas; comprimento: 14,52 m; altura: 5,01 m; área alar, 27,87 m²
  • Pesos: 6.733 kg, vazio; 14.969 kg, total
  • Propulsão: um Pratt & Whitney F100-PW-200 com 10.885 kg de empuxo
  • Desempenho: 1.445 km/h (Mach 1,2) ao nível do mar; razão inicial de subida, 18.288 m/min.; teto operacional 18.300 m
  • Alcance: 3.890 km, alcance máximo em missão interceptação, com combustível externo; 1.200 km, alcance máximo em missão interceptação só sem combustível interno; 546 km, com seis bombas Mk 82 de 500 libras (227 kg)
  • Radar: Westinghouse AN/APG-66 de pulso doppler, com cerca de 150 km de alcance
  • Armamento: um canhão de seis canos M61 Vulcan de 20 mm, com 511 projéteis, no lado esquerdo da fuselagem, próximo da raiz da asa, e nove cabides para até 6.895 kg de bombas, mísseis (Sidewinder), tanques combustível e casulos de interferência eletrônica



GENERAL DYNAMICS F-16A FIGHTING FALCON

  • Função: voar baixo sobre o deserto, a partir de uma base no Sinai, atravessando a Arábia Saudita, evitando os radares jordanianos e sauditas
  • Armamento empregado: mísseis guiados por calor Sidewinder de curto alcance nas pontas das asas, para autodefesa, e duas bombas 2.000 libras (907 quilos)


MCDONNELL DOUGLAS F-15 EAGLE

  • Função: escoltar a esquadrilha de F-16 durante o trajeto. A maior preocupação eram os caças soviéticos MiG-23 do Iraque
  • Armamento: mísseis Shafrir guiados por calor e Sparrow, por radar semiativo


SIKORSKY CH-53

  • Função: resgatar no solo qualquer piloto que fosse abatido ou tivesse que ejetar devido a problemas técnicos. Com grande alcance e capazes de transportar equipagens numerosas, supõe-se que levava equipes de combate e médicos militares
  • Armamento: metralhadoras leves instaladas nas portas e janelas


BOEING 707

  • Função: monitorar as comunicações entre os caças, os eventuais interceptadores inimigos e o tráfego aéreo



LOCKHEED HERCULES KC-130

  • Função: avião de reabastecimento que ficou no ar de prontidão, caso faltasse combustível, o que não ocorreu



NORTHROP GRUMMAN HAWKEYE E-2C

  • Função: oferecer cobertura de radar durante a volta de Bagdá, alertando os F-15 sobre inimigos, fossem eles iraquianos, sauditas ou jordanianos
  • Um Sikorsky CH-53 israelense. Aeronave voou infiltrada até próximo de Bagdá, onde entraria em ação para resgatar pilotos abatidos