"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

domingo, 11 de outubro de 2015

Aeronaves Militares - Características Operacionais Básicas #




Introdução

Pouco tempo após a aparecimento da aeronave mais pesada que o ar, em novembro de 1911, o jovem tenente italiano Giulio Gavotti, sobrevoou na cabine de seu primitivo engenho voador de madeira e lona o acantonamento do exército turco em Ain Zara na Líbia, e lançou sobre eles, que assistiram incrédulos ao primeiro bombardeio aéreo da história, uma granada de mão de uma altura de 180 metros e a 100 km/h.

Desde então, nos cerca de 100 anos seguintes, a aviação de combate evoluiu vertiginosamente, acompanhando a evolução tecnológica e partindo daqueles engenhos primitivos às sofisticadíssimas, caras e mortais máquinas modernas, dotadas de tecnologia furtiva e munição inteligente altamente precisa.

A Primeira Guerra Mundial popularizou o uso da aeronave em combate, e apesar de ainda serem modelos frágeis e de baixa tecnologia, eternizou ases como o lendário Barão Vermelho. Alguns anos depois a Segunda Guerra Mundial trouxe a maturidade da arma aérea com robustas e confiáveis aeronaves construídas em metal e dotadas de motores potentes, saídas de linhas de produção em série de alta cadência capaz de suprir as pesadas perdas em ação. Ainda durante a Segunda Guerra tivemos aeronaves operando a noite com a ajuda dos primeiros radares aerotransportados e os primeiros modelos com propulsão a jato, além é claro, da primeira missão de bombardeio nuclear.

Findo o último grande conflito iniciou-se a Guerra Fria e com ela experimentou-se grandes avanços na aviação de combate como os mísseis ar-ar e ar-superfície, as bombas inteligentes e a miniaturização da eletrônica que proporcionou uma verdadeira revolução na efetividade dos sistemas de busca de informações de combate, aquisição de alvos e precisão de disparos, consciência situacional, comando e controle.  Nos últimos anos houveram significativos avanços nas características furtivas das aeronaves, guerra centrada em redes e o adventos de sistemas capazes de operar com pilotagem remota, prenúncio de um futuro próximo com menos pilotos nos ares e maior número de sistemas automatizados e pré-programados.

Tendo a sua disposição um portfólio tecnológico verdadeiramente impressionante, a moderna aviação de combate e militar, mortífera e precisa, representa um peso-pesado nos teatros de operações modernos, sendo componente imprescindível de qualquer força em operação, assim como apresenta cada vez maiores custos de aquisição e operação, que forçam seus operadores a redução gradual do número de aeronaves em suas fileiras.






O Uso Militar da Aeronave


O uso militar de uma aeronave justifica-se por três características únicas e incontestáveis: 

  • A capacidade de chegar a qualquer lugar dentro de seu raio de alcance, pois independe de estradas para seu deslocamento, podendo alcançar lugares inacessíveis a outros veículos, transpondo mares, selvas e montanhas, áreas inimigas e outros locais desprovidos de redes rodoviárias. Seja transportando sua carga de armas, sensores, suprimentos ou tropas, pode atingir qualquer local que seu alcance permita. Aeronaves capazes de receber combustível em voo tem alcance teoricamente ilimitado e dependem de apoio da aviação de reabastecimento. Caso disponham de aeródromos de reabastecimento próximos ao objetivo, seu alcance se amplia substancialmente. O voo até o objetivo, totalmente carregado e esquivando-se a detecção consome mais combustível que o voo de retorno, que pode ser feito em altitude e com sua carga já lançada.
  • As velocidades alcançadas as permitem alcançar seus objetivos em tempo mínimo, viabilizando ações que prescindam de respostas rápidas como o apoio a tropas em terra em dificuldades e a interceptação de aeronaves de ataque da alto desempenho ou do elemento surpresa. Permitem ainda rapidez nas ações de resgate de sobreviventes, o abandono de locais perigosos em tempo mínimo, entre outras.
  • Capacidade de atingir grandes alturas, o que lhes permitem grandes campos de tiro e observação, impossíveis a quem está na superfície, facilitando ações de bombardeio, busca de inteligência, além de em determinadas situações passarem desapercebidas ou incógnitas.
A combinação destas 3 características torna o avião uma ferramenta de combate única, capaz de executar funções impossíveis para outros tipos de veículos e/ou equipamentos, tornando-o um eficaz multiplicador do poder de combate. Sendo seu valor militar altíssimo e sua obtenção onerosa e restrita a poucas fábricas e fornecedores, devido a alta tecnologia agregada, é um alvo muito visado em combate e sua operação requer envelopes operacionais que lhe proporcionem altas capacidades de sobrevivência, com voos criteriosamente calculados; evitando entrarem no alcance das redes antiaéreas, voando abaixo da varredura dos radares de busca e utilizando espaços aéreos onde a supremacia aérea não está assegurada somente contando com medidas extras de segurança em combate.

CH-47 Chinook medium transport helicopter



Características

As aeronaves militares são concebidas em grande número de modelos, formas, tamanhos e configurações, cada qual visando um grupo de missões específicas, e obedecendo a seguintes características:



  • Velocidade: Esta é uma característica de toda aeronave, ou seja uma velocidade consideravelmente maior que qualquer congênere de superfície. Aeronaves propulsadas a hélice atingem velocidade mais modestas como por exemplo o caça leve Super-Tucano da Embraer que chega aos 590 km/h, os cargueiros C-130 Hércules com seus 620 km/h e o A400M com 780 km/h. Os helicópteros voam de 200 a 400 km/h devido a características específicas de suas asas rotativas. Esta forma de propulsão é usada em modelos que não exijam grandes velocidades como cargueiros, patrulheiros, caças leves, treinadores e aeronaves de salvamento. A propulsão a jato eleva as velocidades a níveis mais altos como os cargueiros C-17 que atinge 830 km/h, o caça-bombardeiro AMX com 1.020 km/h e bombardeiro pesado B-52 com 1.047 km/h. Esta propulsão é usada em cargueiros e patrulheiros de alto desempenho, treinadores e bombardeiros. Aeronaves de superioridade aérea como o caça F-16 com seus Mach 2 ou o recordista SR-71 (aeronave de reconhecimento) que atinge Mach 3,5, são construídas para velocidades supersônicas podendo ou não terem motores equipados com pós-combustores, além de serem capazes de suportar altíssimos esforços estruturais em seus voos em condições-limite.
  • Capacidade de Carga: Este quesito define o tamanho da aeronave, nunca o tipo. Temos aeronaves que transportam poucas centenas de quilogramas como o Cessna 172 com 400 kg de carga útil até cargueiros capazes de transportar MBT pesados, como o C-5 da USAF com 381 toneladas de peso máximo de decolagem. Caças-bombardeiros como o Eurofhigter Typhoon transportam 7,5 toneladas de cargas externas e o russo Mig-21 com cerca de 2 toneladas. A carga pode ser interna ou externa, pode ter a capacidade de transportar pessoal ou não, pode ainda possuir guinchos externos como os helicópteros de resgate e salvamento. Quanto mais pesada a carga menor o alcance da missão.
  • Furtividade: Esta característica é relativamente recente no projeto de aeronaves, e visa diminuir a sua detectabilidade pelos sistemas de alerta, diminuindo retorno de sinais de radar, assinatura térmica e emissões eletromagnéticas em geral, e é usada principalmente em aeronaves de ataque e bombardeio de vanguarda. Seus exemplos mais conhecidos são o F-117, o F-22, o F-35, o B-2 e o PAK-FA russo. Todos os projetos modernos incorporam em maior ou menor nível características de baixa detectabilidade. Uma vez alcançada a superioridade aérea esta característica torna-se secundária.
  • Agilidade: A agilidade de uma aeronave é função de alguns fatores como o seu tamanho, a potência de seus motores e as características de seu projeto. Aeronaves grandes tendem a ser menos ágeis que aeronaves pequenas. A velocidade também influi na agilidade e quanto mais rápido uma aeronaves está, menos ágil ela será (menor capacidade de manobra - incapacidade de fazer curvas fechadas), pois submeterá sua estrutura a esforços muito grandes (forças G muito intensas), bem como a seu piloto, cuja capacidade de suportar tais curvas é limitada. Aeronaves de caça e bombardeio prescindem mais de características de agilidade que outros tipos de aeronaves.

  • Alcance: O alcance de uma aeronave militar é proporcional ao seu tamanho, pois quanto maior este for, mais combustível esta aeronave tenderá a transportar. Deve-se levar em consideração, além do combustível transportado, o consumo de seus motores. Projetos mais modernos viabilizam motores mais econômicos e alcances maiores. A carga útil é inversamente proporcional ao alcance, quanto mais pesada a aeronave, mais combustível consumirá. Dependendo de suas atribuições as aeronaves poderão ter alcances de centenas ou milhares de quilômetros, e esta característica dependerá de seus requisitos operacionais. Quanto mais alto se voa, menos combustível se consome pela menor resistência do ar.
  • Forma de decolagem e aterrizagem: Aeronaves precisam de pistas para atingirem a velocidade mínima de voo ou para reduzi-la após o pouso. Pistas são alvos tradicionais  e sua inviabilização pode impedir as aeronaves de operarem. Existem aeronaves capazes de decolar ou pousar em espaços reduzidíssimos (STOL), aerovanes capazes de faze-lo na vertical (VTOL), ou de decolarem em espaço curtos e pouso na vertical (VSTOL). Aeronaves baseadas em navios porta aeronaves decolam com auxílio de catapultas baseadas nestes ou rampas de auxílio a decolagem. De uma forma geral elas dependem de pistas longas para sua operação. Helicópteros são especialmente úteis em operações que exijam pouso e decolagem na vertical ou capacidade de permanecer parado em voo, mas tem velocidade limitada pelas características peculiares de seus rotores.
  • Custo: O custo determina a quantidade de aeronaves que uma força poderá adquirir. Aeronaves da alto desempenho tendem a ter custos maiores, bem como seus sensores, sistemas e armas embarcados determinarão seu valor final.
  • Operação: Os requisitos operacionais determinarão o tipo de aeronave de desempenhará cada missão. Helicópteros desempenham funções anticarro, escolta armada, apoio aproximado, guerra antissubmarino e antinavio, resgate de pilotos, ressuprimento de tropas, transporte tático de tropas, entre outras, missões onde não se necessita de velocidades muito altas. Missões de caça e bombardeio são desempenhadas por aeronaves de alto desempenho e missões de transporte por aeronaves de maior porte. Patrulheiros marítimos necessitam de grande autonomia e consequentemente seu porte definirá sua permanência em missão. Aeronaves embarcadas requerem trens de pouso reforçados e tratamento reforçado a corrosão. As missões são muitas e os requisitos os mais variados, sendo que cada força armada tem seus requisitos próprios. Cada missão em particular em cada força armada, define as características das aeronaves que operam.


sábado, 10 de outubro de 2015

Operação Overlord - Engodo e Informações #


Juan Carlos Losada

A espionagem, a surpresa e o desvio da atenção inimiga eram fundamentais para o sucesso ou o fracasso da vasta operação militar que estava sendo preparada. Assim os alemães não pouparam esforços durante os meses anteriores ao desembarque para obter informações sobre a hora e o local da invasão. Sabiam que centenas de navios provenientes dos Estados Unidos chegavam todos os meses na costa britânica, carregados com homens e material. Previam a invasão, mas sabiam muito pouco sobre ela. No início da primaveram de 1944, o espião dos alemães em Ancara (Turquia), conhecido por Cícero, avisou que o desembarque, batizado de operação Overlord e liderado por Eisenhower, iria acontecer em algumas semanas. No entanto o espião teve de interromper seu trabalho bruscamente e não pôde passar informações mais precisas.

A essa brusca interrupção no fornecimento de informações somou-se outra ação no campo da inteligência, o que demonstrou que nesta área, assim como em outras, a superioridade dos Aliados era evidente e teria consequências significativas.  Um dos elementos responsáveis por este trunfo no terreno da inteligência foi Juan Pujol, um espanhol que, fazendo-se passar por espião a serviço dos nazistas, serviu à causa aliada, fornecendo aos alemães informações falsas, ou verdadeiras, mas sem importância. Sua missão principal era direcionar a atenção dos alemães para o ponto onde, precisamente, Adolf Hitler estava convencido de que seria o local onde iria ocorrer a invasão: a cidade de Calais. As informações transmitidas por Pujol, conhecido pela Abwerh (serviço secreto da marinha alemã) tanto como Rufus como por Arabel, e entre os britânicos do MI5 pelo nome de Garbo, convenceram os alemães de que quase 80 divisões estavam fixadas ao largo da costa de Dover, preparadas para atravessar o canal na direção de Calais, 250 km ao norte da Normandia.

Para tornar as informações mais críveis, e manter os alemães despistados, os Aliados desenvolveram a operação Fortaleza. Na área em que pretendiam ludibriar o inimigo montaram um enorme cenário construído com concreto, estuque e borracha, simulando milhares de tanques, caminhões, atracadouros, barcaças e todos os tipos de equipamentos militares. Também foi projetado um suposto quartel general em Dover, de onde partiam dezenas de quilômetros de vias ferroviárias e estradas. A frente deste exército falso chegaram a a colocar o General George Patton, que supostamente seria quem iria liderar as forças de invasão. Obviamente, para que a manobra diversionária desse resultado, era preciso impedir que qualquer pessoa se aproximasse da costa. Era imperativo que ninguém, nem mesmo civis, nem os próprios soldados soubessem quando e por onde se atacaria, até o último momento. Desta forma, o tráfego de passageiros entre o Reino Unido e a Irlanda foi suspenso desde o início de 1944 e, a partir de meados de abril, foi proibido que qualquer pessoa se aproximasse a menos de 16 km da costa. Para intensificar o controle, em maio o serviço de correio para os soldados foi interrompido e telefonemas e telegramas ficaram proibidos.




Enquanto desviavam a atenção do inimigo, os aliados estavam ocupados em adquirir as mais completas informações sobre a área em que iriam desembarcar. Eles tiraram milhares de fotografias aéreas da região, o que, juntamente com as informações fornecidas tanto pelos seus agentes com pela Resistência Francesa, permitiu-lhes conhecer a extensão e a localização das forças de defesa alemãs. No entanto, e para continuar a dar pistas falsas, realizaram numerosas incursões aéreas sobre a zona de Calais. Para cada operação sobre a costa da Normandia, eram feitas duas na região de Calais, e outras mais sobre as costas de Bélgica e da Holanda, embora isso significasse perder muitos aviões e tripulações por causa da densa defesa aérea nesta áreas. Era essencial continuar a dar a entender que o alvo aliado era Calais, e que quando os alemães soubessem que os Aliados haviam desembarcado na Normandia, continuassem a pensar que esta operação era apenas uma simulação e que o desembarque decisivo aconteceria mais ao norte.

Mas as inspeções aéreas não eram o suficiente para preparar o desembarque. Era preciso inspecionar as praias. Para isto os homens-rã (mergulhadores) foram levados por submarinos  até a costa da Normandia. Durante o dia, os submergíveis mediam todos os dados hidrográficos, a força das marés e a profundidade da área. À noite os homens-rã eram desembarcados para que pudessem ir nadando até as praias, onde inspecionavam e anotavam a natureza da areia, os declives das praias, as defesas que o general Erwin Rommel havia implantado, a localização dos principais bunkers, etc. Para isso iam munidos com cadernos e canetas que podiam escrever sob a água, uma lanterna, um revolver, uma bolsa para recolher pedras, uma pequena garrafa de conhaque para afastar o frio, uma bússola, um carretel, uma pequena pá e preservativos onde guardavam amostrar de areia para serem analisadas. Todos estes dados foram reproduzidos em outras praias semelhantes e milhares de soldados foram envolvidos em simulações que reproduziam as mesmas condições em que iriam combater.


domingo, 4 de outubro de 2015

Operação Overlord - A Preparação #


Juan Carlos Losada

Em 1943, o líder soviético Josef Stálin exigiu, várias vezes e por muito tempo, a abertura de uma frente no oeste para aliviar suas forças do enorme desgaste que sofriam em suas vitoriosas, mas muito caras,  operações contra os alemães. Os aliados hesitavam: suas dúvidas foram alimentadas pelo fracasso do ataque ao porto francês de Dieppe em 1942, que terminou com 80% de baixas - e pelas defesas da costa atlântica. Portanto em 1942 e 1943 os Aliados limitaram-se a ajudas os soviéticos com o intenso fornecimento de material.

Os britânicos já estavam suficientemente ocupados com a luta contra submarinos alemães no oceano Atlântico, contra o Japão na Ásia e contra a Alemanha nos céus e no Norte da África. Além disso, quando os norte-americanos entraram na guerra no final de 1941, acreditaram que ainda era muito cedo para atacar a França e que o melhor a fazer era enviar suas forças para onde os britânicos já estavam lutando.

Era evidente que, em 1942, a Alemanha ainda era muito forte: um desembarque planejado apressadamente e protagonizado por forças escassas e pouco preparadas poderia resultar em um desastre. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill mantinha viva memória das enormes baixas sofridas na Franças durante a Primeira Guerra Mundial e do esmagador exito alemão em 1940, que obrigou os ingleses a se retirarem de Dunquerque às pressas. Ele não queria obter a vitória por um preço tão alto e preferiu continuar com a estratégia de extenuar os alemães na zona do mediterrâneo.

A situação mudou ao longo de 1943. A Alemanha passou a sofrer um desgaste contínuo por parte dos bombardeios aliados, foi humilhada em Stalingrado e, após o frustrado contra-ataque de Kursk, começou a recuar em toda a frente russa. As tropas francesas de ultramar uniram-se aos Aliados e, após as vitórias na África e os desembarques na Itália, perceberam que os nazistas já estavam suficientemente esgotados: era o momento para serem surpreendidos por um grande desembarque. Em contrapartida, as forças aliadas, especialmente as norte-americanas, haviam alcançado volume e maturidade suficientes para realizar a missão e sustentar e sustentar a guerra, tanto no Pacífico como na Europa. A indústria norte-americana já estava em plena capacidade e tinha condições de fabricar grandes quantidades de material de guerra, com a vantagem de que não precisava temer qualquer ameaça de ataque inimigo.

Na conferência Trident, realizada em maio de 1943 em Washington, nos estados Unidos, os norte-americanos conseguiram convencer os britânicos sobre a necessidade de invadir a França. Pretendiam acabar com a guerra o mais cedo possível e sabiam que um avanço em direção ao centro da Europa e dos Bálcãs (que era a base da estratégia britânica) seria lento e consumiria grande quantidades de homens e material. A data  prevista para a invasão era um ano mais tarde, mas, já no verão de 1943, os planos de desembarques na França começaram a ser esboçados. As tropas passaram a ser treinadas e enviadas para a Inglaterra com este objetivo. Assim, na véspera da invasão, as forças norte-americanas nas ilhas britânicas somavam 15 milhões de homens. Ao mesmo tempo, durante o primeiro trimestre de 1944, os Estados Unidos remeteram mais de 9 milhões de toneladas de munições para o Reino Unido.




No final de agosto de 1943, na Conferência de Quebec, denominada Quadrante, o desembarque foi oficializado como operação Overlord. Na Conferência de Teerã (Eureka). Em novembro do mesmo ano, os Aliados do ocidente confirmaram seu compromisso com Stálin. Pouco tempo depois, designaram o general norte-americano Dwigth D. Eisenhower como comandante supremo da operação Overlord. Como comandantes supremos da Força Aérea e da Marinha estariam os altos comandantes britânicos. Como comandante supremo das forças terrestres foi designado Bernard Law Montgomery, o vencedor da batalha de El-Alamein. Sob sua liderança, estariam o 1º Exército dos Estados Unidos do general Omar Bradley e o 2º Exército britânico do general Miles Dempsey. A nomeação de Eisenhower foi uma surpresa: ele não havia combatido na Primeira Guerra Mundial e, até sua entrada em combate na Segunda Guerra havia comandado apenas um batalhão. Mas as razões para sua nomeação logo seriam compreensíveis: Eisenhower sabia como tratar os Aliados sem favoritismo ou distinções, era um grande grande coordenador e tinha uma personalidade afável e cativante, cheia de tato, mas ao mesmo tempo, firme. Sem dúvida, essas características eram tão ou mais importantes do que os aspectos puramente militares, pois ele passaria a lidar com três orgulhosos generais, o francês Charles de Gaulle, absolutamente marginalizado na operação, o inglês Montgomery e o norte-americano George S. Patton.

A data escolhida, a princípio, foi 1º de maio de 1944. O lugar determinado por eliminação: descartaram-s as áreas onde o clima, as correntes, a topografia, o estado das comunicações para o interior da França ou a densidade das defesas alemãs impediriam o desembarque. Após a experiência de de Dieppe, os Aliados sabiam que era quase impossível tomar um porto, pois as defesas eram sólidas. Desta forma, a ação deveria ser em uma praia. Optaram, então, pelas praias da Normandia, em função do fácil acesso para o interior, suas vastas planícies de declive muito suave, o terreno que favorecia a penetração rápida e, acima de tudo, por causa da pobre presença defensiva dos alemães no local. Também foi considerado que o terreno plano facilitaria a instalação de aeródromos. No entanto, um estudo mais minucioso do teatro de operações feito pelos generais Eisenhower e Montgomery levou à conclusão de que seria necessário empregar mais efetivos no desembarque do Dia D e elevá-los até dez divisões. As resultantes complicações logísticas, principalmente a necessidade de mais embarcações de desembarque, implicaram em um adiamento da data definitiva da operação em pouco mais de um mês.




O desenvolvimento da operação Overlord foi um esforço muito complicado, diante de toda engrenagem que precisaria ser movida, as centenas de milhares de homens que teriam de ser mobilizados, e ainda era necessário considerar que tudo deveria atravessar mo mar e as defesas inimigas. Junto à operação Overlord seria planejada outra de caráter naval, a operação Netuno, liderada pelo almirante britânico Bertran Ramsay. Ele foi o responsável por todos os aspectos navais da empreitada que, obviamente, eram imprescindíveis. Foi necessário reunir mais de 7 mil navios de guerra e de carga para transportar homens e material, além de projetar e construir sete diferentes modelos de embarcações de desembarque capazes de transportar carros de combate, soldados e material motorizado que, no final, somariam mais de 20 mil unidades. Também foi necessário construir cais artificiais para que fosse possível operar nas prais da Normandia e reunir cerca de 80 navios antigos para que fossem afundados e pudessem ser usados como um quebra-mar quando as cabeças de praia estivessem consolidadas, de forma a permitir o descarregamento das tropas.

Aproveitando sua grande superioridade, a aviação aliada também teve um papel importante  nos preparativos prévios. Durante o primeiro trimestre de 1944, aumentou-se a frequência de voos de observação por toda a costa francesa para fotografar as defesas alemãs. As ações aéreas também destruíram as vias de transporte ferroviário que ligavam a costa francesa ao interior para, assim, atrasar a chegada dos reforços alemães após o início do ataque. A operação foi um sucesso e, após bombardeios maciços em março, abril e maio, em que foram lançadas quase 70 mil toneladas de bombas, o tráfego ferroviário na Bretanha e na Normandia havia sido reduzido a apenas 15% do normal e, dessas regiões com o interior da França, estava reduzido para nenos de 50%. Das 24 pontes que existiam entre Le Havre e Paris, 16 haviam sido destruídas e 5, seriamente danificadas, o que passou a restringir o tráfego pesado. Os depósitos de combustível tiveram destino semelhante, bem como os barracões das locomotivas e a maioria dos aeroportos perto da costa. Com este nível de destruição, as forças alemãs da costa normanda  focaram muito isoladas  da retaguarda e praticamente impossibilitadas de receber reforços rapidamente, caso houvesse um desembarque na área - o que, por fim, mostrou-se crucial para o sucesso da operação.

No entanto, o preço de tamanha mobilização foi muito alto. Houve perdas significativas de aeronaves e tripulações aliadas por causa da artilharia antiaérea alemã. Além disso, a população civil francesa sofreu graves danos. Cerca de 100 mil franceses morreram ou ficaram feridos nessas operações, sem contar a destruição de propriedades.



sábado, 19 de setembro de 2015

As Lições de Guerra Naval do Atlântico Sul #


por: Wayne Hughes Jr. USN

O fato de que as Marinhas entraram numa nova era da guerra de mísseis não significa de modo algum que as outras armas tenham perdido o seu poder. Em suma, na violenta guerra entre a Argentina e o Reino Unido em disputa das Ilhas Falkland/Malvinas podemos observar não só a ascensão da ameaça dos mísseis, ao ponto de atingir a proeminência, como também algumas das velhas lições táticas sendo reaprendidas. 

Quando a guerra estava atingindo o seu clímax, alguns observadores explicaram desta maneira os combates, de uma forma não exata:

  • O afundamento do cruzador argentino General Belgrano revelou um novo poder mortal assustador dos submarinos nucleares. 
  • O afundamento do Sheffield, seguido uns poucos dias depois pelas avarias ou pela perda de outros navios de guerra de superfície britânicos, revelou a sua extraordinária vulnerabilidade a ataques aéreos. 
  • Os navios de guerra de superfície estão, portanto, obsoletos, principalmente os grandes e dispendiosos.
  • Os ataques fatais virão sem aviso.
  • Se tivessem sido utilizadas ogivas nucleares, os navios de guerra teriam sido alvos ainda mais fáceis.
  • O combate naval está se tornando mais letal para os participantes.



Conclusões mais sensatas, com base na história das guerras no mar, estão mais de acordo com as linhas abaixo:

  • O afundamento do General Belgrano, que foi construído antes da Segunda Guerra Mundial, revelou uma vez mais que é preciso ter armas modernas para travar uma guerra moderna. A Marinha britânica era superior à argentina, principalmente em termos de submarinos nucleares. Em mar aberto, normalmente uma força naval que seja até mesmo ligeiramente inferior será derrotada de maneira decisiva por um inimigo superior, ao qual infligirá poucos danos. Tendo verificado a sua inferioridade, a Marinha argentina estava totalmente certa ao retirar-se para suas águas territoriais, retirando-se efetivamente da guerra. Os submarinos são navios eficientes, capazes de atacar qualquer coisa na superfície, mas isto não é novidade. Na Segunda Guerra Mundial os submarinos americanos afundaram 1.300 navios japoneses, inclusive um encouraçado, oito navios-aeródromo e onze cruzadores. A energia nuclear só aumenta o poder dos submarinos.
  • O Sheffield e os outros três escoltas britânicos foram perdidos enquanto estavam desempenhando com êxito a sua tarefa, que era proteger os navios-aeródromo e os navios-transporte de tropas. Como os americanos não viam um combate entre forças navais desde 1945, tinham se esquecido de que é normal que um combate naval tenha um ritmo acelerado e que seja mortal e decisivo. Se podemos tirar uma nova lição da guerra, não é que os navios de guerra são vulneráveis aos mísseis, mas que aviões armados com bombas não podem competir com navios de guerra dotados de defesas modernas. No decorrer do afundamento de meia dúzia de navios britânicos, a grande Força Aérea Argentina quase foi destruída após três dias de intensos e corajosos ataques. Quatro dos seis navios de guerra foram afundados perto das Ilhas Falkland. Numa operação anfíbia como a que a Marinha inglesa estava realizando, uma força naval renuncia temporariamente à sua vantagem tática da mobilidade enquanto protege a cabeça de praia. Como o problema de esclarecimento do inimigo está solucionado, a força fica ainda mais vulnerável e precisa depender das suas defesas ativas para repelir os ataques.
  • Os Estados Unidos não podem permitir que os seus navios de guerra de superfície tornem-se obsoletos. Eles dependem do trânsito seguro dos navios mercantes no mar e do uso dos mares para protegerem os seus interesses no exterior, se necessário com desembarques anfíbios. Estas coisas não podem ser feitas sem navios de guerra de superfície. Os grandes navios protegidos, como os encouraçados, são valiosos porque podem ser atingidos e continuar combatendo. Antes do desembarque britânico na Baía de San Carlos, a mobilidade da força naval britânica permitiu que ela operasse com segurança a leste das Falkland. Sem terem qualquer apoio no mar, as forças terrestres argentinas que encontravam-se nas ilhas estavam realmente isoladas do continente, e a Força Aérea Argentina estava longe demais da cena de ação para contribuir de maneira decisiva.
  • No combate naval moderno, um esclarecimento eficaz é a chave para um lançamento eficaz das armas. Tanto as forças britânicas como as argentinas foram prejudicadas por um esclarecimento inadequado. A Força Aérea Argentina e o único submarino argentino precisavam de um melhor esclarecimento para acompanhar e, mais importante, adquirir os navios britânicos vitais. Os britânicos precisavam de um alarme tático confiável para os ataques iminentes. Embora os seus submarinos fossem úteis para dar alarmes antecipados, pelo menos dois navios de superfície foram atacados quando desempenhavam as funções de piquete radar (isto é, de esclarecimento) a uma grande distância da força principal. Um ataque com mísseis não deve ocorrer sem um alarme. Na moderna guerra naval, o resultado de um combate entre duas forças armadas com mísseis é muitas vezes decidido pela eficácia do esclarecimento e da cobertura, antes que as armas sejam lançadas.
  • Nada foi aprendido na Guerra do Atlântico Sul com relação à guerra nuclear. Acho, entretanto, que quando forem empregadas armas de destruição em massa, os alvos fixos em terra serão mais vulneráveis do que os navios no mar, que são capazes de manobrar e escapar do ataque.
  • O combate naval no mar tem sido sempre altamente letal para os participantes, mas os combates travados nas Falkland confirmam uma tendência no sentido da ocorrência de um número menor de baixas por navios postos fora de ação. A guerra moderna em terra e no mar tornou-se mais destruidora de máquinas, não de homens.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Estratégia Naval #


Guerra Naval é o conjunto de operações de confronto entre poderes antagônicos, que disputam a hegemonia sobre interesses em comum, através do atrito de forças militares em ambiente marítimo. Ela compreende ações desenvolvidas na superfície dos mares e abaixo dela, no espaço aéreo que está acima desta superfície e nas terras contíguas a estes mares, que de alguma forma influenciem ou sejam influenciadas por estes primeiros elementos. 

Visam a consecução de objetivos tanto no espaço marítimo quanto terrestre, imediatos ou a longo prazo, e envolvem elementos pertencentes ou não ao poder militar. Diferentemente das operações de guerra terrestre ou aérea, onde os meios civis raramente participam de tarefas de caráter tático, no mar os meios de marinha mercante conduzem a operações bem caracterizadas e a táticas afins a suas possibilidades operativas.

A Importância Político-Estratégica do Mar

A importância do mar na vida dos povos é inquestionável e antiga. Observando a história podemos constatar que a maior parte da atividade humana ao longo dos tempos se desenvolveu ligada a ele. Ocupando 70% da superfície do planeta, continua a ser o cenário de manifestação de poder de um grande número de nações. As maiores cidades do mundo estão junto ao mar ou muito próximas a ele, assim como os países com atividade marítima mais intensa assumiram ao longo da história e mesmo hoje maior importância mundial.

O uso do mar, na atualidade, é permitido apenas aqueles que possuem poder econômico e militar, ou que obtenham a permissão deste poder para fazê-lo. Sob a ótica econômica, o mar é a via de comunicações mais importante do planeta e fonte abundante de matérias-primas essenciais ao abastecimento de muitos países. Mesmo com a intensificação das vias de transporte aéreo e terrestre, não há indícios que num futuro previsível o mar venha a perder sua importância absoluta na movimentação de matérias primas entre as economias modernas. Estima-se que mais de 36.000 navios mercantes transportaram 8,1 bilhões de toneladas de carga em 2008 pelo mundo. O Ferro e o petróleo, vitais nos sistemas econômicos modernos são totalmente transportados pelo mar. Muitas nações ainda encontram no pescado uma de suas principais fontes de alimento. A exploração das plataformas continentais adquire maior importância a cada dia como fonte de matéria-prima.




A importância militar também é significativa, pois é através dele que os invasores chegam, e seu domínio constituí uma efetiva barreira para qualquer aventura deste tipo. Os ingleses só deixaram de ser invadidos depois que assumiram o controle do Canal da Mancha, ao passo que invadiram mais tarde todos os recantos do mundo. Nenhuma nação sobrevive apenas de estoques acumulados e o mar é porta de entrada contínua de todos os tipos de suprimento. Base industrial agregada a matéria prima é um dos componentes do poder nacional. Como o poder é sempre relativo, mesmo nações sem dependência direta do mar o consideram estrategicamente, pois muitos de seus aliados ou inimigos estão nesta dependência. A Suíça possui uma grande frota mercante e nenhum litoral, por exemplo.


Para a estratégia naval o mar apresenta-se com duas características importantíssimas quanto a sua utilização:
  • é uma eficiente via de transporte disponível, podendo muitas vezes ser a única aos protagonistas de uma situação de conflito declarado ou potencial; 
  • é uma ampla e flexível base de projeção de poder sobre as bases do poder contrário.

O Domínio do Mar

Entendemos como o domínio do mar a efetiva utilização das superfícies oceânicas pelas forças navais e marinha mercante. Busca-se neste domínio a condição de mínima interferência possível de poderes antagônicos. Este domínio é o objetivo final da guerra naval e em torno dele suas estratégias são traçadas, sendo pré-requisito essencial a obtenção da iniciativa nas ações estratégicas, valendo lembrar que a iniciativa é um dos 9 princípios da guerra. Durante a II grande guerra o domínio do Atlântico, mesmo que parcial, significou condição vital a manutenção das operações no continente europeu, pois de nada valia o enorme poder produtivo da indústria norte-americana, sem a capacidade de transportar este suprimento para a área de operações. Os comandantes aliados sabiam que não haveria a invasão da Europa sem comunicações marítimas seguras, por consequência sem vencer a Batalha do Atlântico. Os Alemães também sabiam disso e colocaram seus U-boats em operação intensa, além de dedicar esforços na construção de meios como o encouraçado Bismark.




O domínio do mar não pode ser considerado apenas como algo absoluto e em grandes áreas marítimas. Ele pode ater-se à áreas restritas, desde que o domínio destas satisfaçam os objetivos estratégicos. Seu domínio absoluto só existirá se houver total ausência de poderes antagônicos, situação improvável. Na prática considera-se estabelecido o domínio quando as operações militares e suprimentos econômicos podem fluir sem perdas inaceitáveis.

Um fator importante ao domínio do mar é a existência de bases aéreas e navais disponíveis, ou locais onde possam ser instaladas. Assim o domínio de ilhas em grandes extensões oceânicas como o Hawaii no Pacífico, e a ilha de Ascensão no Atlântico, por exemplo, são de vital importância a operação das forças que disputam a guerra neste ambiente. Como o poder é relativo e o domínio global uma condição raramente atingida, cabe a estratégia naval avaliar o grau de controle necessário de cada área e aplicar ali os meios necessários. Podem haver áreas importantes para um dos lados e totalmente desnecessárias a outro, como foi o caso do Atlântico Norte na II Guerra. Quando esta situação se configura, o lado que não necessita da área marítima, tende a empregar esforços no sentido de negar seu uso ao outro lado. Neste contexto, se este lado não puder vencer a guerra, ainda pode provocar um impasse estratégico e forçar o outro a mesa de negociações.

Algumas áreas marítimas são mais importantes que outras. Como as já citadas áreas que podem abrigar bases aéreas e navais, temos ainda pontos de passagem obrigatória como os canais de Suez e do Panamá, os estreitos como o Bósforo, o estreito de Ormuz, Gibraltar e Bering entre outros; os cabos Horn e da Boa Esperança. Águas interiores como o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, Mar do Caribe e Báltico também assume importância nas operações. A Rússia, a despeito de sua extensão territorial, tem limitadíssimas opções de acesso ao mar. Ao norte o mar congela ou tem que ser transposto o Báltico e seus estreitos; ao sul tem que passar pelo Bósforo; e o leste fica distante e no quintal do império japonês. Em contraste, Brasil, Estados Unidos e Chile tem amplo acesso ao mar aberto.


O nível de domínio do ambiente marítimo pretendido por determinada nação deve estar definido em sua estratégia naval. Esta, define quais os objetivos a serem alcançados através das operações navais para que este domínio se consolide. O nível de domínio do mar se dá em 4 graus distintos:
  1. Não existe nenhum domínio do mar, e os atores do poder antagônico tem total liberdade sobre o ele, podendo inclusive negar seu uso a quem o desejar;
  2. O seu uso é negado aos atores do poder antagônico, porém não é possível utilizar o espaço marítimo pois aqueles detêm capacidade semelhante;
  3. O domínio do mar está em disputa e pode-se utilizá-lo, porém com risco proporcionado por capacidades reais do poder antagônico que as utilizará se conseguir transpor as barreiras de segurança adotadas;
  4. O domínio do mar está consolidado, podendo o espaço marítimo ser utilizado sem grande interferência do poder antagônico, que não pode utilizá-lo pois esta capacidade lhe é negada. É o oposto diametral da primeira situação.


O Poder Marítimo

O poder marítimo é capacidade de uma nação se fazer presente nos mares com maior ou menor expressão, capacidade esta resultante de uma série de fatores condicionantes. São eles:

  • o poder naval constituído pela força aérea e marinha de guerra e suas bases de apoio e instalações estratégicas, 
  • sua geografia, 
  • a marinha mercante e suas agências de comércio marítimo, 
  • seus portos, estaleiros e bases de reparação,
  • sua base industrial,
  • a qualificação de seu pessoal envolvido com a atividade marítima ou que a dê suporte
  • a índole nacional e sua capacidade de organização
  • além de suas alianças estratégicas que envolvam a atividade marítima.

O Poder Naval

Poder naval é a capacidade de uma nação impor sua estratégia marítima e naval através de meios de guerra naval e poder marítimo, empregando suas marinhas de guerra. O emprego do poder naval dá-se a partir do grau de domínio do mar que foi alcançado, e busca a efetivação de 5 objetivos básicos:
  • Negar o uso do mar ao inimigo para deslocamento de sua força militar, impedindo sua aproximação de solo pátrio ou ultramarino de interesse, o que inviabiliza qualquer tipo de invasão;
  • Pressionar militar e economicamente o poder antagônico, impedindo que receba pelo mar todo e qualquer recurso que facilite seu esforço de guerra, ou que despache pelo mar seu comércio, sufocando desta forma suas finanças e inviabilizando a compra de suprimentos de guerra, bem como pressionar as nações neutras que estejam dispostas a participar de tal comércio;
  • Proteger do assédio do poder antagônico o tráfego marítimo amigo que realiza o apoio a atividade econômica que participa do esforço de guerra;
  • Assegurar à força militar amiga o acesso às cabeças de praia no território do poder antagônico e sua projeção para o interior, bem como de suas linhas de suprimento;
  • Apoiar a manutenção de territórios costeiros conquistados, permitindo o livre acesso às áreas do interior de todos os meios oriundos do mar, em apoio às forças terrestres que estejam em operação neste locais.
Estes objetivos devem ser buscados simultaneamente a fim de atingir o intento final que é solucionar o conflito na condição de superioridade, sendo que a intensidade aplicada a cada item será calibrada pela dimensão tático-estratégica de cada situação específica. As marinhas de guerra possuem diferentes capacidades para aplicação do poder naval, cada qual operando de acordo com suas capacidades proporcionadas pelos meios disponíveis.



TIPOS DE OPERAÇÕES DE GUERRA NAVAL

domingo, 13 de setembro de 2015

Falklands/Malvinas - A Reação Britânica #



No dia 3 de abril, seguinte ao desembarque argentino nas ilhas, instalou-se uma crise política nos altos escalões do governo britânico. Margaret Thatcher foi acusada de ter subestimado os acontecimentos nas ilhas Geórgia do Sul e os indícios das intenções argentinas. Na verdade estes acontecimentos já vinham sendo acompanhados de perto pelos britânicos e algumas medidas já haviam sendo tomadas. Alguns políticos vestiram "saia justa" e outros perderam seus cargos

Os preparativos para uma invasão haviam sendo notados por satélites americanos e repassados ao serviço secreto de sua majestade, que acompanhava as movimentações. No dia 29 SSNs da Royal Navy receberam ordem suspenderem de suas bases rumo ao Atlântico Sul. O HMS Spartam partiu em 48 horas rumo a Gibraltar, o HMS Splendid seguiu no dia 1º e o HMS Conqueror  no dia 4. A uma velocidade média de 23 nós o Spartam só chegaria às imediações de Port Stantey no dia 12, tarde demais para frustrar a provável invasão. 




Dia 29 também iniciaram-se os estudos para composição de uma força-tarefa que rumaria ao Atlântico sul. Considerou-se que seriam necessários todos os meios disponíveis como porta-aviões e meios anfíbios. Em manobras ao largo de Gibraltar, a 1ª Flotilha com cerca de 20 navios foi considerada como sendo o núcleo de uma frota capaz de cumprir esta missão. Estes navios já acumulavam alguns dias de mar pois estavam operando, e demandavam manutenção junto a suas bases. No entanto, devido a urgência da situação, tiveram que se deslocar ao outro extremo do hemisférios para operar por mais 2 meses em condições atmosféricas desfavoráveis. O comandante da frota chegou a notificar o alto comando em Londres, alguns dias antes da capitulação argentina, que teria que abandonar a área de operações devido a precariedade das condições de muitos de seus navios, entre eles os porta-aviões, se o conflito não se resolvesse nos próximos dias.

Dia 31 iniciou-se um período frenético de preparação do HMS Hermes que estava em Portsmouth para reforma e do HMS Invencible, recém chegado de exercícios no mar. Improvisações de todos os tipos para adequar os navios a missão foram implementadas, pois o Almirante Sir Henry Leach, primeiro lorde do almirantado, prometeu ao gabinete da ministra que até o dia 5 eles estariam em condições de se lançarem ao mar. Conforme o prometido, acompanhado dos anfíbios Fearless e Intrepid, o núcleo capitânea da FT partiu de Portsmouth, sob o comando do Alte. Sir John Sandy Woodward. Foram precedidos em dias anteriores pelo navio-tanque Tidespring, o submarino diesel-elétrico Onyx e o navio de apoio logístico Sir Geraint, por inciativa do comandante da Royal Navy.



Seguiram navios logísticos de desembarque e os transatlânticos SS Camberra e Queen Elizabeth II para transporte de tropas e o SS  Uganda convertido em navio-hospital, entre outros mercantes, que embarcaram a Brigada Commando 3 dos Royal Marines e os 2º e 3º Batalhões de Paraquedistas, tropas com blindados leves e artilharia, além de equipes do SAS e SBS. Navios civis de vários tipos foram rapidamente mobiliados com pistas de pouso para helicópteros e meios de reabastecimento no mar, 48 no total. As improvisações implementadas não partiram do zero, visto que a RN já tinha planos para operar em águas distantes sem o apoio de bases navais, com a utilização de navios complementares, devido ao reduzido número que a RFA dispunha. Eles complementaram as 22 unidades de navios tanques, logísticos e navios-hospital da RFA (Royal Fleet Auxiliary). 

Somaram-se a FT os contratorpedeiros e fragatas provenientes da 1ª flotilha e outros complementares. Durante o deslocamento pelo Canal da Mancha os navios continuaram a receber suprimento por helicópteros, guarnições aéreas de Caças Sea Harrier da RN. Ao todo, mais de 38 navios de guerra acrescidos de 22 logísticos da RFA e 48 mercantes requisitados ao serviço civil seguiram para o sul do Atlântico, totalizando 114 navios num primeiro momento. Dia 12 de abril foi declarado o bloqueio aéreo e naval em torno de 200 milhas da ilhas com as chegada do primeiro SSN, e no dia 30 de abrir a frota britânica já estava em condições de começar a operar nas proximidades de Port Stanley, efetuando os primeiros contatos em 1º de maio.



Composição da British Task Force no conflito das Falklands/Malvinas 

Porta Aviões (2)
HMS Hermes
706 NAS 4 Sea Kings
800 NAS 12 Sea Harrier
809 NAS (-4) 4 Sea Harrier
826 NAS 12 Sea King
846 NAS 6 Sea King
HMS Invincicle
801 NAS 8 Sea Harrier
809 NAS (-4) 4 Sea Harrier
820 NAS 10 Sea King
Anfíbios-Doca (2)
HMS Intrepid
4 LCVP
4 LCU
HMS Fearless
4 LCVP
4 LCU
Destróieres e Fragatas (23)
HMS Bristol Type 82
HMS  Coventry Type 42
HMS Cardiff Type 42
HMS Exeter Type 42
HMS Sheffield Type 42
HMS Glagow Type 42
HMS Glamorgan County
HMS Antrim County
HMS Brilliant Type 22
HMS Broadswoord Type 22
HMS Active Type 21
HMS Antelope Type 21
HMS Ardent Type 21
HMS Ambuscade Type 21
HMS Avenger Type 21
HMS Arrow Type 21
HMS Alacrity Type 21
HMS Andromeda Leander
HMS Argonaut Leander
HMS Minerva Leander
HMS Penelope Leander
HMS Yarmouth Rothesay
HMS Plymouth Rothesay
Quebra Gelos (1)
HMS Endurance
SSN (5)
HMS Conqueror Churchill
HMS Courageous Churchill
HMS Spartam Swiftsure
HMS Splendid Swiftsure
HMS Valiant Valiant
SS (1)
HMS Onyx Oberon
Mineiros (5)
HMS Cordella
HMS Farnella
HMS Junella
HMS Junella
HMS Northella
HMS Pict
Auxiliares (5)
HMS Hecla
HMS Herald
HMS Hydra
HMS Leeds Castle
HMS Dumbarton Castle
Real Frota Auxiliar (22)
RFA Olna Tanques
RFA Olmeda Tanques
RFA Tidespring Tanques
RFA Tidepool Tanques
RFA Blue Rover Tanques
RFA Appleleaf Tanques
RFA Brambleleaf Tanques
RFA Bayleaf Tanques
RFA Plumleaf Tanques
RFA Pearleaf Tanques
RFA Sir Lancelot Transporte de desembarque
RFA Sir Geraint Transporte de desembarque
RFA Sir Percival Transporte de desembarque
RFA Sir Tristan Transporte de desembarque
RFA Sir Galahad Transporte de desembarque
RFA Sir Bedivere Transporte de desembarque
RFA Regent Suprimento
RFA Resource Suprimento
RFA Fort Austin Suprimento
RFA Fort Grabge Suprimento
RFA Stromness Suprimento
RFA Engadine Oficina 
Royal Maritime Auxiliary Services (2)
RMAS Typhoon
RMAS Goodsander
Requisitados do serviço civil (46)
SS Camberra transatlântico como transporte de tropas
SS Uganda transatlântico como hospital
RMS Queen Elizabeth transatlântico como transporte de tropas
Elk Ferry
Norland Ferry
Baltic Ferry Ferry
Europe Ferry Ferry
Nordic Ferry Ferry
Ragatira Ferry
St Edmund Ferry
Tor Caledonia Ferry
Astronomer Porta Conteiner
Atlantic Conveyor Porta Conteiner
Atlantic Causeway Porta Conteiner
Contender Besant Porta Conteiner
MV Mirmidon Porta Conteiner
Avelona Star Transporte
Geestport Transporte
Laertes Transporte
Lycaon Transporte
Saxonia Transporte
Strathewe Transporte
St. Helena Transporte
Alvega Petroleiro
Anco Charger Petroleiro
Balder Londres Petroleiro
British Avon Petroleiro
British Dart Petroleiro
British Esk Petroleiro
British Tamar Petroleiro
British Test Petroleiro
British Tay Petroleiro
British Trent Petroleiro
British Wye Petroleiro
Eburna Petroleiro
Fort Toronto Petroleiro
G.A. Walker Petroleiro
Scottish Eagle Petroleiro
Empresa Britânica III Rebocador
Iris Rebocador
Irishman Rebocador
salvegeman Rebocador
Stena Inspector Rebocador
Stena Seaspread Rebocador
Wimpey Seahorse Rebocador
Yorkshire Rebocador