"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A Logística de Invasão #


A transformação do exército em uma força baseada em capacidades que podem responder imediatamente a qualquer ameaça global não pode ocorrer sem transformar primeiro os sistemas de logística que têm sido utilizados desde a 2ª Guerra Mundial.

Embora não tão popular ou e amplamente estudado como táticas de combate, a logística tem sido a chave para todos os conflitos importantes desde o início da guerra moderna.  A 2ª Guerra Mundial serviu de cenário para a maior operação de logística já levada a cabo. O Dia-D sozinho demandou milhões de toneladas de suprimentos, milhares de navios, e centenas de milhares de pessoas. Para desencadear essa enorme operação logística, os planejadores usaram pontos e operações de reabastecimento com taxas de transferência, que envolveram reservas em depósitos de retaguarda, posteriormente transportados para depósitos menores mais avançados, e finalmente entregues às unidades.

O acúmulo logístico no Kuwait antes da invasão do Iraque foi uma reminiscência das técnicas de logística utilizadas pelo Iº Exército dos EUA na 2ª Guerra Mundial e repetidas nas Guerras da Coréia e do Golfo de 1991. Este artigo irá olhar para o acúmulo logístico e o suporte operacional do Iº Exército no Dia-D em toda a França até a Alemanha e na logística dos campos de batalha atuais e futuros. Ele também irá examinar a validade de se transformar uma operação logística baseada na oferta, para uma operação logística em tempo real proposto na transformação dos exércitos.


Se preparando para guerra


Os preparativos para a invasão da França na 2ª Guerra Mundial começaram 2 anos antes da operação real. De janeiro de 1942 a junho de 1944, os Estados Unidos venderam mais de 17 milhões de toneladas de carga ao Reino Unido. Todo tipo de carga foi fornecida, de suprimentos e equipamentos gerais até 800.000 litros de plasma sanguíneo, 125 milhões de mapas, portos pré-fabricados (conhecidos como Mulberries), uma rede ferroviária de substituição, cigarros e escovas de dente.

A operação de invasão dividiu as forças aliadas em cinco forças-tarefa, sendo 3 britânicas e 2 norte-americanas. As forças de invasão desembarcaram em 6 de junho de 1944, em cinco praias na Normandia: Omaha, Utah, Gold, Juno, e Sword. Em Omaha e Utah, as duas praias americanas, 6.614 toneladas foram desembarcadas nos 3 primeiros dias, de um total de 24.850 toneladas planejadas, o que é foi um indicativo das dificuldades e inexperiência dos americanos em operações de reabastecimento na praia.


As unidades de intendência que chegaram com as forças de assalto forneceram tudo, desde suprimentos em geral até inscrições de sepulturas. Embora os norte-americanos tenham levado vários dias para estabelecer ligação com as forças britânicas, estava bem evidente até 7 de Junho que a invasão tinha sido um sucesso. Uma vez que as forças de desembarque consolidaram suas cabeças de praia da Normandia, tiveram que se organizar para receber a suprimentos, equipamentos e tropas necessários para sustentar as forças de invasão.



Problemas na descarga

Os embarques de suprimentos para o Reino Unido para a invasão da Normandia não só tiveram que competir com outras operações de combate no teatro europeu, mas também foram restringidos pela quantidade de suprimentos que os portos britânicos comportavam. Até dezembro de 1943, embarques constantes de suprimentos fluíram para o Reino Unido. Em julho de 1944, mais de 2 milhões de toneladas tinham sido enviados, graças a capacidade das instalações portuárias para receber e processar os desembarques.

Com a proximidade da invasão da França, suprimentos e equipamentos com destino a suportá-la não mais podiam ser descarregados na mesma escala em que estavam chegando, portanto, um impasse foi criado.

Instalações de desembarque portuário foram fundamentais para a descarga rápida de suprimentos e equipamentos na França. Os portos Mulberries foram usados para receber as toneladas de suprimentos e equipamentos necessários para manter o avanço da força de invasão. Quando a quantidade de suprimentos que chegavam saturou os Mulberries disponíveis, os suprimentos excedentes foram descarregados utilizando técnicas logísticas "over-the-shore" (além do litoral).
  
A medida que as operações de abastecimento amadureciam, 56.200 toneladas de suprimentos, 20.000 veículos, e 180.000 tropas passaram a ser descarregados todos os dias nas praias de Omaha e Utah. Isso foi um pouco menos de metade dos suprimentos, quase 2/3 dos veículos, e de todas as tropas que tinham sido planejados para serem desembarcados a cada dia.

O desempenho nas praias americanas foi melhorando rapidamente a medida que uma situação tática mais favorável foi sendo conquistada e, até 11 de Junho de 1944, a totalidade da área até o Rio Aure estava sob o controle do 5º Corpo. Até a obtenção de instalações portuárias fixas em Cherbourg, Le Havre, Rouen, e Antuérpia, na Bélgica, as operações de reabastecimento consistiram inteiramente em empreitadas "over-the-shore".

Até o final de junho, mais de 289.827 toneladas de suprimentos foram descarregadas nas praias da Normandia. No entanto, ainda houve escassez de suprimentos porquê os portos britânicos não podiam carregar os navios na velocidade suficiente para suprir a exigência dos expedicionários, de forma que, até 15 de Junho, parte dos suprimentos estavam sendo enviados diretamente dos EUA para a Normandia. Na Normandia, os suprimentos inicialmente foram estocados nas docas e praias e, em seguida, nos caminhões das unidades.
  
Antes da liberação do porto de Cherbourg, suprimentos, equipamentos e tropas continuavam a ser empilhados nas praias à espera de serem transportados para a frente. No início de agosto, com a liberação do porto, grandes quantidades de suprimentos e equipamentos (mais de 20.000 toneladas por dia) puderam ser descarregados e mandados a frente em caminhões e trens.

Até setembro, as forças americanas foram apoiados em grande parte pelas praias, mas estas ficaram inutilizáveis após 1º de outubro por conta do clima. Os Portos de Le Havre, Rouen, etc.. .. estavam muito danificadas, em grande parte inutilizáveis, e os portos do canal que estavam disponíveis tiveram de ser reservado prioritariamente para o uso britânico. Os EUA usaram o porto de Cherbourg, mas ele se tornou cada vez mais distante das linhas de frente. Problemas de descarga foram o segundo grande problemas desta operação logística.


Logística em movimento

A medidas que as forças aliadas avançavam pela França, as linhas de suprimento foram se alongando tornando o reabastecimento mais difícil. Comandantes aliados passaram a experimentar frustrações por conta das restrições logísticas, que os impediu de tirar proveito de situações táticas favoráveis. De agosto a setembro de 1944, as unidades de suprimento criaram um sistema expresso de logística terrestre a aérea para transportar alimentos, combustível, munição, material de construção, suprimento médico e equipamentos. Combustível e munição foram responsáveis por metade das necessidades diárias.
  
O ressuprimento aéreo foi útil para apoiar operações aéreas e operações de reabastecimento de emergência, mas a maior parte dos suprimentos foram movidas por via terrestres rodoviária e ferroviária. A medida que a guerra transcorria, o reabastecimento aéreo melhorou notavelmente, assim como o terrestre. No entanto, o reabastecimento aéreo foi deixado para as missões de emergência, como suprir 500.000 americanos que participaram na contra-ofensiva das Ardenas. Depois de Fevereiro e Março de 1945, o transporte aéreo foi utilizado principalmente para ressuprimento médico e de combustível.
  
Os exércitos de campo acabaram por exceder as capacidades da rede de transporte para levar até eles os suprimentos necessários. Na verdade, até o final de agosto de 1944, de 90% a 95% de toda a carga descarregada ainda estavam em depósitos de praia na Normandia, a cerca de 480 km das unidades avançadas. Para lidar com esses problemas de abastecimento operacionais, passou-se a configurar um sistema de prioridades com base nos materiais que seriam mais necessários.   

A escassez de combustível

O combustível é a alma de um exército mecanizado. Em meados de setembro de 1944, os Primeiro e Terceiro Exércitos estavam enfrentando problemas de abastecimento críticas, não por causa da falta de combustível nos portos e cabeças de praia, mas por causa da falta de transportes para mover o combustível. Para ajudar a resolver o problema, os Aliados construíram um oleoduto para 230 km a frente. Uma vez funcionando, permitiu que caminhões o buscassem muito mais próximos das linhas de frente. No entanto, até 9 de setembro, o consumo diário ultrapassou as cotas diárias que as forças aliadas recebiam. O consumo previsto foi significativamente subestimado, com as unidades usando o combustível logo que ele chegava à linha de frente, não permitindo a formação de estoques.   O aumento das taxas de consumo e a falta de caminhões de transporte foram os maiores contribuintes para a escassez deste ítem. No entanto, o combustível representava apenas a metade das carências críticas no teatro europeu, sendo a munição a outra metade.

A escassez de munição

A munição é o ítem mais difícil de levar até o campo de batalha por causa de seus vários tipos e diferentes configurações. Munições chegam no campo de batalha em grandes quantidades, são dimensionadas e carregadas em caminhões de forma a maximizar o espaço disponível. Problemas como a falta de caminhões e as disputas sobre as taxas de consumo, aliados às taxas de produção nos EUA que não acompanhavam a demanda, agravavam os desafios habituais do reabastecimento de munição.

Em meados de setembro, as forças aliadas enfrentaram grave escassez e racionamento que começou pelos obuses de 155 mm e munição de morteiro de 81 mm. Enquanto a guerra progredia, as demandas de munição de artilharia alternavam-se de um exército para o outro, e de uma batalha para a próxima. Isso tornou difícil prever a taxa de suprimento adequada. O US Army finalmente resolveu este problema através da criação de uma taxa de alimentação necessária e uma taxa de fornecimento de combate. A taxa de alimentação necessária é a quantidade de munição que um comandante espera receber para uma operação de combate específica, enquanto a taxa de fornecimento de combate é a quantidade de munição que os sistema logístico pode fornecer.

Outros déficits no suprimento

Apesar do fornecimento de comida, água, material de construção e material de intendência ser menos difícil de fornecer do que combustível e munição, sua logística ainda enfrentava alguns desafios. Fornecimento de comida quente para as unidades era demorado, e era difícil servir unidades em movimento. No entanto, a comida quente era como um grande impulso moral para as forças de combate, tanto naquela época como agora.
  
O transporte limitado tornou difícil suprir a frente com materiais de construção. Era difícil justificar sua passagem, quando não havia transporte disponível suficiente para munição ou combustível.

Roupas enfrentavam desafios de concepção, problemas de produção e a escassez de transporte.  A distribuição de uniformes de inverno para as tropas foi adiada porque as unidades de linha de frente não forneceram a numeração necessária. Uniformes de inverno eram uma prioridade muito baixa até outubro. Os soldados esperavam receber equipamento de inverno suficiente para o tempo frio de dezembro e janeiro. Requisições de cobertores não incluíram as necessidades da população civil, dos prisioneiros de guerra, e das forças francesas livres. Houve um déficit de quase um milhão de cobertores no inverno de 1944.
  
A logística da Segunda Guerra Mundial foi um processo contínuo de iniciativas e experimentação, erros e acertos, para tentar enquadrar o sistema nas circunstâncias corretas. Quando apareceram os obstáculos no nível estratégico, foram superados tão rapidamente quanto os sistemas de comunicação permitiram. No nível operacional, as iniciativas de logística incluíram os portos Mulberries para servir como docas portáteis, Oleodutos para mover o combustível com maior rapidez, e comboios expressos "Red Ball Express" para fluir a logística para as linhas de frente. Na cabeça de praia foi estabelecida zonas acumularem suprimentos, uma série de bases de abastecimento foi criada ao longo de uma rota principal de 300 milhas, e, simultaneamente, aeronaves, caminhões, transportes ferroviários, oleodutos foram usados para transportar suprimentos em todo o campo de batalha.

"Red Ball Express" foi o nome de código do exército para um sistema de comboios que ia de St. Lo na Normandia para Paris e, eventualmente, para a frente ao longo de fronteira nordeste da França. O percurso foi marcado com bolas vermelhas. O corpo de Transporte do Exército criou uma enorme operação de suprimento em 21 de agosto de 1944. Caminhões de abastecimento começaram a rodar em 26 de agosto e continuaram durante 82 dias. Em um dia normal, 900 veículos eram carregados na rota da bola vermelha, com motoristas orientados a observar intervalos de 55 m e uma velocidade máxima de 25 mph. Quando o programa terminou em meados de novembro de 1944, estes comboios tinham entregues 412.193 ton de alimentos, gasolina, óleos, lubrificantes, munições, e outros suprimentos essenciais.


Lições de logística

Operações de logística militar na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia, na Guerra do Vietnã, na Guerra do Golfo, empregaram em grande parte a mesma metodologia:   garantir um porto de desembarque, construir uma base de fornecimento, e em seguida, transportar suprimentos para a frente, por qualquer meio disponível. Ainda hoje, a primeira estratégia dos comandantes é tipicamente lançar seu poder de combate ao longo de meses em um teatro de operações, conduzir operações táticas, e depois esperar que as linhas de abastecimento permaneçam abertas e capazes de manter-se com as forças de combate.   No entanto, como qualquer bom planejador sabe, "a esperança não é um método."
  
A transformação da estrutura logística deve começar com a renovação dos seus sistemas, incluindo mudanças no transporte e manutenção, bem como no fornecimento de alimentos, água, combustível, munições e materiais de construção. A linha base é: Os militares precisam racionalizar seus equipamentos e necessidades de suprimento, a fim de reduzir sua cauda logística, reduzir ainda seus requisitos de suprimentos adicionais, e, ao mesmo tempo, aumentar a sustentabilidade com aquilo que já dispõem.   

Veículos multiuso

O US Army já começou a reduzir o peso dos seus sistemas de combate usando o veículo blindado leve (LAV) para aumentar a capacidade de sobrevivência das forças leves e aumentar a capacidade de manobra das forças pesadas com um decréscimo no consumo de combustível. A Indústria pode empregar o chassis do LAV para propósitos múltiplos, usando-o para os veículos de logística que irão substituir a grande variedade de veículos de carga e de transporte usado agora.

Um chassis LAV, reforçado para uma carga de 5 toneladas e uma grua para carregar e descarregar pallets padronizados e redesenhado para ser caber no C-130, é essencial.

A família de veículos de transporte de carga de hoje consiste em quatro tipos distintos: carga seca, os líquidos, as cargas perecíveis, e a munição. Nenhum desses veículos são muito eficientes em termos de consumo de combustível. As novas versões são complicadas de manter, devido a vários tipos diferentes de plataformas mecânicas. Eles não têm todos as mesmas capacidades de carga, e sua capacidade de sobrevivência no campo de batalha moderno é insuficiente.

Se os mesmos chassis de peso médio forem utilizados para os veículos de carga e veículos de combate, o número de mecanismos necessários para repará-los será reduzido. Tais veículos poderiam manter-se junto as forças de combate, mantendo um pequeno grau de auto-proteção. Um LAV equipado com uma plataforma de carga ou um tanque de 3.000 litros de combustível ou água montado no palete poderia movê-lo em qualquer lugar no campo de batalha.

Este sistema também pode ser equipado com uma arma que proporcionaria um alto volume de fogo direto a partir de dentro da cabina do veículo.

Os Suprimentos de alimentos

A Transformação das rações e a forma como elas e a água são fornecidos iria reduzir o número de pessoal necessário para apoiar as forças de combate, diminuir o número de veículos de carga necessários, e reduzir a demanda de logística global no campo de batalha.
  
O caminho para redefinir as rações de campo é combinar refeições, prontas para comer (MRE) e rações de bandeja, num grupo unificados como uma "super MRE." As super-MRE seriam embalados, aquecidas e preparadas de forma muito parecida com as MREs atuais, mas teriam um valor nutricional, variedade e sabor de rações preparadas.
  
Os super MREs eliminariam a necessidade de cozinheiros, fornecimento de rações quentes para unidades de combate que estão à frente, além de reduzir a necessidade de transporte de grandes quantidades de suprimentos perecíveis no campo de batalha.   Ao mesmo tempo, uma super-MRE poderia garantir que até mesmo os soldados na parte mais remota do campo de batalha recebam uma refeição quente.
  
A água é outro desafio para especialistas em logística. A purificação de água e seu transporte a granel em todo o campo de batalha é difícil e demorado.   Além disso, é difícil fornecer água para os soldados que estão nas áreas mais remotas do teatro.
Três conceitos para o futuro fornecimento de água poderiam reduzir os problemas inerentes ao seu reabastecimento:

O primeiro é um sistema de produção de água já em desenvolvimento, que extrai água do sistema de combustível de um veículo, a purifica, e a armazena em um tanque separado. Isto não só irá aumentar a eficiência do combustível através da remoção de águas residuais, mas também irá fornecer aos soldados em combate na frente com os sistemas de água em seus veículos individuais.

O segundo método de fornecimento de água a unidades de combate é equipar cada pelotão com uma pequena, unidade de osmose reversa de purificação de água montado no veículo com um tanque de armazenamento de 100 a 200 litros.

O terceiro método é a compra de mais tanques de água a granel que montar em paletes 463L.   Atualmente, a distribuição de água a granel é limitado a bolsas de água de 3.000 litros transportados em reboques. Estes sacos podem estar cheios ou vazios, quando rebocados, e não podem ser facilmente desmontados e recuperados. Os tanques rígidos poderiam ser preenchido com qualquer quantidade de água, deixados em qualquer lugar no campo de batalha, e pegos quando vazios. Estes tanques, o que seria semelhante ao novo sistema de cremalheira depósito de água "Hipopótamo", proporcionaria distribuição de água mais flexível. A tecnologia moderna pode substituir os tanques de metal por tanques plásticos compósitos, o que reduziria o peso do tanque, minimizaria o acúmulo de mofo, e eliminaria a ferrugem no tanque.

Outras inovações potenciais quanto à água variam de um sistema de hidratação corporal ativado a energia solar que se encaixam dentro de uma jaqueta. O dispositivo iria reafriar água em climas quentes e fornecer água morna em climas frios, proporcionando conforto e segurança do usuário.

  
O Suprimento de combustível

O combustível é o outro quesito que coloca uma enorme pressão sobre ambas: as forças de combate e as forças de logística que tem que entregá-lo. Até que a tecnologia propicie um motor movido a hidrogênio viável, o petróleo continuará a ser o principal combustível para alimentar os veículos militares. Portanto, veículos militares devem ser mais leves e mais eficientes quanto ao consumo de combustível. A indústria pode ajudar com a consecução destes objetivos, equipando a nova geração de veículos de combate e de apoio ao combate com uma célula de combustível simples de manter, seja apenas ela ou uma combinação com o motor convencional.
  
Outra inovação para o manuseio de combustível no campo de batalha é o sistema de manipulação de carga (LHS) Modular Fuel Farm (LMFF). Composto por dez tanques de 2.500 litros e uma bomba. Tal como os hipopótamos, os tanques LMFF pode ser transportados cheios, parcialmente cheios, ou vazios. Ao usar dois racks e um tanque no caminhão e um no reboque de carga paletizada o sistema LHS pode transportar até 5.000 litros a granel por viagem.


Carga volumosa

Materiais de construção tais como madeira, sacos de areia e arame farpado exercem uma pressão considerável sobre os sistemas de transporte, porque eles são volumosos, tem grandes dimensões e difíceis de carregar. O maior problema com este tipo de carga é que vem em muitas formas e tamanhos diferentes, o que torna difícil estabelecer um padrão de carga.

O primeiro passo para reabastecimento mais eficiente de materiais de construção é o desenvolvimento de pacotes padrão que seriam utilizadas em todo o Exército. Estes materiais poderiam ser divididos e configurados em conjuntos de letras e numerados como são na maioria das unidades de combate da ativa. Todos os pacotes seriam montados e configurados para fins específicos, como a defesa do pelotão ou o corte de estradas, por exemplo.
  
Estes pacotes configurados e rotulados seriam enviado dos Estados Unidos para um teatro de operações, onde as forças de combate à frente poderiam encomendá-los, citando a letra e número adequado de configuração que necessitam. Em Kits pré-montados, materiais de construção podem ser trazidos para o teatro rapidamente.  

O LMFF é móvel quando está cheio, a meia carga, ou vazio, o que diminui seu tempo de desdobramento e recuperação.

Transformando a munição

A última classe de suprimento que precisa ser repensada é a munição.   O primeiro dos dois grandes problemas é que muitos tipos diferentes de munições que são necessários no campo de batalha. Tendo tanta variedade, torna-se difícil seu fornecimento de forma ótima durante o combate. O segundo problema é determinar o quanto de munição deve se levar para a frente, sem se pecar pelo excesso ou a pela falta. Em demasiada comprometeria os meios de transporte, e a devolução de munição desnecessária seria um fardo adicional. A escassez seria uma ameaça grave ao poder de combate das unidades durante o combate.
  
Há muitos tamanhos e tipos de munições diferentes no inventário do exército norte-americano diferentes. Para reduzir a demanda global de munição de grosso calibre (calibre .50 acima), por exemplo, a tecnologia deve combinar munição de calibres semelhantes para alguns tipos intercambiáveis.   Por exemplo, munição de artilharia poderia ser intercambiável com a dos carros de combate e dos morteiros pesados, reduzindo pelo menos seis tipos de munição para um. Mísseis, foguetes e munição de morteiros menores poderiam ser combinados em outro tipo. Um kit de conversão padrão poderia acompanhar os dois tipos de munição para que eles pudessem ser usados rapidamente para qualquer fim necessário.
  
A maior vantagem de uma revolução no desenvolvimento das munições é a menor necessidade de transportar vários tipos de munições no campo de batalha. Só munições de alta utilização fluiriam em caminhões de reabastecimento, que iriam ficar carregados enquanto seja necessário para as forças de combate.   Isso ajudaria a manter as forças de combate abastecidas e permitir-lhes mobilidade no campo de batalha. A única reconfiguração necessária da munição teria lugar no posto de tiro.

Capacidades logísticas eficazes fornecem a base que os operadores do combate precisam para manter a persistência e decisão.   Portanto, uma transformação de operações de combate não pode ser realizada sem primeiramente ocorrer uma transformação nas operações de logística.

Como os militares dos EUA atualmente se movem de uma força baseada em plataformas para uma força baseada em capacidades, logística irá desempenhar um papel fundamental na determinação do sucesso ou fracasso dessa transformação. A transformação logística real, vai exigir novos equipamentos, novas técnicas de planejamento, e uma arquitetura da informação logística que suporte a força de combate.
  
Informações em tempo real que permitem as requisições de abastecimento e monitoramento das fábrica para o campo de batalha é fundamental para o sucesso de qualquer inovação de equipamentos. Sem um sistema de controle para complementar o aparelho de transferência, o sistema de logística continuará sendo uma operação complicada. Informações em tempo real eliminariam muitos dos problemas vividos durante a Segunda Guerra Mundial, quando se levou meses para responder a requisição de mudanças a partir da frente.

Como iniciativas recentes de transformações têm enfatizado, sistemas de logística com base em capacidades de sucesso devem ser sistemas "sense-and-respond" (sentir e responder) que compreendem dois ingredientes-chave: informação e capacidade.

Infelizmente, tanto a arquitetura da informação e da capacidade baseada em equipamentos e sistemas necessários para a transformação logística ainda estão em fase de desenvolvimento. Sem ambos os ingredientes, os comandantes de combate em breve perderão a confiança na capacidade de logística para fornecimenros "just-in-time". Até que uma rede de informação global e um sistema de logística baseado em recursos sejam implementados e validados, a sustentação logística continuará a ser uma operação "just-in-case".


O Major Frederick V. Godfrey é o S4 (oficial de logística) de Brigada no Centro de Treinamento de Combate Manobra em Hohenfels, Alemanha.   Ele é graduado em Intendência Oficial Básica e Cursos Avançados e do Comando Aéreo e Staff College. É bacharel em geografia pela Universidade Estadual de Montana e mestre em história militar da Universidade Estadual de Louisiana.

sábado, 30 de janeiro de 2016

RWR - Receptores de Alerta Radar #


A guerra eletrônica (EW) é a grande protagonista dos conflitos modernos, e usada por todos na medida de suas possibilidades. Seu alvos são os sistemas de comunicação do inimigo, bem como seus sistemas guiagem de armas e sensores de campo de batalha. Por definição a EW é toda ação militar envolvendo o uso da radiação eletromagnética para determinar, explorar, reduzir ou impedir a utilização hostil do espectro eletromagnético. Trata-se da negação ao inimigo do uso desta dimensão do campo de batalha, com o objetivo de proporcionar-lhe inoperância de suas comunicações, frustrando seus esforços de comando e controle (C2); impedido que seus sensores, como os radares, cumpram com suas tarefas; além de buscar informações em proveito próprio.

Ela surgiu na Segunda Grande Guerra com a detecção por radar dos ataques da Luftwaffe contra os ilhas britânicas, fator que contribuiu significativamente para a vitória destes na Batalha da Inglaterra. A Luftwaffe simplesmente não estava preparada para enfrentar o radar inglês, além de terem seus sistemas de navegação por rádio degradados por interferência ativa. A história mostra que a inoperância neste campo pode resultar em fracasso operacional.





Radares são um componente fundamental dos modernos sistemas de defesa aérea e foi neste campo que as técnicas de EW encontraram seu campo de aplicação mais fértil. Uma aeronave que puder saber onde estão as ameaças e de que tipo são, tem sua probabilidade de sobrevivência multiplicada. A radiação emitida pelos radares de defesa aérea, sejam baseados no solo ou montados em outras aeronaves, chega até a aeronave alvo e revela aos emissores sua presença e localização. Os Receptores de Alerta Radar (radar warning receivers - RWR) foram desenvolvidos como um sensor capaz de detectar esta radiação e informar ao piloto quando um radar hostil o está iluminando. Foram utilizados pela primeira vez pelo norte-americanos no conflito do Vietnam , e fizeram parte a partir daí de todos os projetos modernos de aeronaves de combate.

A Guerra do Yom Kippur viu os israelenses perderem grande quantidade de aeronaves para os SAMs árabes devido a falta de sistemas de EW adequados. Com a lição bem aprendida, eles não prescindiram destes sistemas na Batalha do Vale de Bekaa, onde neutralizaram grande quantidade de baterias de solo.

Os RWR fazem parte da suite de sistemas eletrônicos defensivos de qualquer aeronave militar moderna. É o componente mais simples de qualquer sistema dessa natureza, e em sua versão mais elementar consiste em apresentar num display de vídeo o sinal da radiação captada por uma antena de banda larga, e após tratamento eletrônico mostra ao piloto a intensidade do sinal na forma de ruído e o quadrante do qual a radiação está sendo emitida. Com antenas montadas nos quadrantes das aeronaves e tendo a recepção de cada quadrante comparada com as dos outros, a direção da radiação é determinada. Construídos em diferentes nível de complexidade, os modelos mais completos e dotados de processadores digitais, podem analisar as características da radiação emitida e determinar a identidade do emissor. Esta tarefa é complexa por ter que lidar com grande quantidade de radiação de natureza diferente, processá-la e classificá-la, exigindo grande poder computacional, fator responsável pela maior parte do custo destes sistemas. Cabe ao sistema ainda priorizar as ameaças e decidir quais as mais urgentes. Receptores mais sensíveis e consequentemente muito mais caros e complexos, são usados apenas em aeronaves de penetração profunda como o F15E e o Tornado IDS.

Além de detectar ameaças para fins defensivos facilitando a evasão, os RWR podem apoiar sistemas interferidores (jammers), parte importante de um arsenal eletrônico. Estes sistemas consistem de um RWR, um processador para tomar as decisões e um interferidor que se ajusta por ordem do processador a frequência captada pelo RWR, e transmite um sinal de engodo ou degradação.

As considerações a respeito dos interferidores seão tratadas e artigos dedicados, e assim que disponíveis acrescentaremos aqui na forma de link.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Operações Singulares, Conjuntas e Combinadas #


Operações militares são únicas, cada qual com suas características, não se repetindo outras vezes. Mesmo que a situação política venha a se repetir no mesmo local onde já foi solucionada através das armas, fato improvável, e outra vez se faça necessário repetir o intento, não será, de forma nenhuma, de novo a mesma operação.

Além de únicas, operações militares variam muito em escala, algumas demandando um único atirador de elite, enquanto outras envolvendo forças armadas de vários países. Qualquer que seja ela, deve ser executada com profissionalismo e competência.

Os conflitos modernos não admitem mais o emprego de ramos das forças armadas de forma isolada, podendo isto acontecer em operações de pequena escala e baixa intensidade, as estas denominamos operações singulares e são conduzidas, geralmente, no nível tático e com pouco planejamento, de forma inopinada e urgente. Operações normalmente conduzidas com o planejamento adequado, raramente são singulares e desenvolvem-se de modo mais previsível e adequado. Situações que envolvem forças singulares de forma isolada eram mais frequentes em tempos passados em países menos evoluídos militarmente, cuja mentalidade de seus comandantes muitas vezes tomava ares de competição.

O conflitos da atualidade são melhor operados quando aproveitamos as melhores caraterísticas de cada força singular e de cada agência governamental, cujo resultado tende a ser maior que a soma das potencialidades de todas. Pode ter o predomínio de uma das forças dependendo da natureza da operação em si, ou a participação intensa de todas elas, naqueles de maior escala.

Operações conjuntas são caracterizadas pelo emprego de um grande número de meios, de 2 ou mais forças singulares, que são conduzidas sob comando único e representam a evolução do pensamento militar. Para que operações conjuntas se deem de forma natural, é necessário que as forças adotem doutrinas integradas, buscando a padronização de procedimentos e se possível de meios naquilo que for possível, doutrina esta afinada por um constante treinamento em conjunto, desde as fases iniciais onde se geram as capacidades individuais até o emprego dos escalões maiores.

Normalmente se dão no nível operacional e contam com um estado maior operacional conjunto permanente, que desenvolvem constantemente planos e procedimentos padrão que devem ser conhecidos por todos, de forma que quando uma operação real se configurar a transição para ela se dê naturalmente, sem que treinamentos de compatibilidade sejam necessários.  

As operações combinadas são aquelas realizadas por forças e 2 ou mais nações, na esfera de uma aliança ou coalizão. São operações de implementação mais complexa, uma vez que barreiras de língua e cultura podem dar diferentes enfoques a mesma situação. Eles requerem um compromisso inequívoco com a missão e uma boa vontade mútua entre as forças que participam da missão, deixando de lado rixas e rivalidades porventura existentes. É necessário ainda que se estabeleça uma língua comum entre os operadores, conhecimento da doutrina e capacidades um do outro e tempo suficiente para que se realize a integração necessária. 


Sejam conjuntas ou só combinadas, as operações militares modernas requerem de todos o estabelecimento de cadeias de comando e responsabilidades bem definidas, sistemas de C2 integrados e estruturas logísticas que contemplem as necessidades de todos.



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os Níveis da Guerra #



A guerra é o meio pelo qual a política impõem sua vontade em situações antagônicas e conflitantes, quando a diplomacia e a negociação se mostram impotentes.  Fazer a guerra significa impor a vontade pela força, assumindo riscos colaterais de pequena envergadura mas relativamente abundantes, como pequenas tragédias pessoais, por exemplo e outros de maior envergadura como ruína econômica e comprometimento de infraestrutura, muitas vezes em locais que não as tem de forma satisfatória. Sun Tzu disse que a guerra é o assunto mais importante do estado, e como tal deve ser tratada. Em outras palavras, evite-a ao máximo, mas se chegar a se envolver nela, faça de tudo para vence-la no menor espaço de tempo possível.

O mérito da guerra é imutável e traduz a natureza do ser humano, misturando em um único evento decisões racionais justificadas por motivos irracionais e questionáveis. Uma das facetas racionais deste evento nefasto aos seus envolvidos, é a forma como é conduzida, pois seus atores principais, os militares, se valem da organização e do planejamento minucioso para levar a cabo suas ações.

Diferentemente dos conflitos da antiguidade, a guerra moderna é um evento extremamente complexo e como tal deve ser tratado. Conduzir uma campanha nos tempos atuais significa administrar milhares de recursos de natureza diferente, no tempo e no espaço, de forma a cumprir objetivos tal qual faz uma empresa, com o diferencial que existem forças que usarão de violência extrema para que tais objetivos não se consolidem, com pouca ou nenhuma observância aos princípios que norteiam a convivência entre os homens, o que é compreensível.

Para se administrar empreitadas tão complexas, os estrategistas se viram obrigados a dividi-las em níveis, de forma a gerenciar o emprego da força de forma ótima, ou seja procurando alcançar os objetivos com o menor custo pessoal e material, no menor tempo possível.





O Nível Político

A moderna doutrina prevê que a guerra se dá em quatro níveis distintos, hierarquicamente dependentes. O primeiro nível e que engloba todos os outros é o nível político-estratégico, estando fora da esfera militar e por vezes aranhado por ela. Ele é exercido pelos chefes de estado em nível de governo, e é o encarregado de traçar os objetivos político-estratégicos, alinhavar alianças convenientes e possíveis, estabelecer diretrizes estratégicas e observar considerações de direito internacional, além de impor limitações ao emprego de meios militares e de espaço geográfico.

"A guerra é a continuação da política por outro meios" - Clausewitz

O Nível Estratégico

Formuladas as diretrizes político-estratégicas e uma vez decidido o uso da força das armas, iniciam-se as operações militares propriamente ditas, que são conduzidas em 3 níveis distintos e intimamente relacionados de forma dinâmica, com seus limites nem sempre claros, um em relação ao outro. A relação de propósito, tempo e espaço é que determinará a divisão entre eles.

O estabelecimento de metas que visem alcançar os objetivos políticos e o planejamento para alcançá-las são o cerne do nível estratégico-operacional da guerra. Neste nível se fixam os objetivos estratégicos militares, que são a adequação ao contexto militar dos objetivos políticos. Formula-se ainda a estratégia a ser adotada para atingi-los e se conduz as operações dos grandes escalões de emprego como àqueles encarregados das atividades da mobilização geral. Entre outras medidas, este nível trabalha com:
  • o estabelecimento da inter-relação dos objetivos políticos com os objetivos estratégicos,
  • as condicionantes políticas de planejamento e implicações legais do emprego das tropas,
  • a identificação dos centros de gravidade das situações a considerar,
  • os desembaraços financeiros do que será executado,
  • o momento (as condições) em que se atingirá o objetivo final,
  • os desdobramentos de meios a serem estabelecidos,
  • a definição das áreas de responsabilidade,
  • os comandos operacionais a serem acionados,
  • a viabilização de bases de operação
  • os meios físicos a serem disponibilizados,
  • a mobilização a ser desencadeada, seja operacional ou de base,
  • as principais ações estratégicas preliminares a serem iniciadas.
Planos estratégicos, pré-planejados, de vários tipos são estabelecidos e sua realização desencadeada.





O Nível Operacional

Uma vez de posse dos objetivos estratégicos, cabe ao nível operacional delinear, planejar e executar as campanhas necessárias. Definem-se os objetivos operacionais e desencadeiam-se as operações táticas necessárias, ou seja faz-se a ligação entre a estratégia e a tática. Autoriza-se e faz-se acontecer as primeiras ações e se alocam os recursos necessários para sustentá-las. Dimensionam-se as ações no tempo, no espaço e na finalidade, e principalmente aciona-se a vital máquina logística da qual qualquer força em campanha é totalmente dependente.

Neste nível os comandantes militares aliados decidem que para derrotar os nazistas e conquistar o domínio da parte ocidental da Europa, por exemplo, é importante um desembarque de grandes proporções nas costas francesas do norte. Aliviar a pressão até então suportada pelos russos, com a abertura de uma segunda frente, foi decidida lá na esfera político-estratégica. Decide-se neste nível também que o desembarque será na Normandia e não em Pas de Calais, onde será empreendida uma operação de engodo e diversão, além de conceber que paraquedistas saltariam a frente das tropas de desembarque para protege-las.

O Nível Tático

Este é o nível onde se executam as ações de combate, logísticas e de apoio em geral, sem se preocupar com a relação entre elas. É o nível onde as coisas acontecem na prática. Cada grupo de forças desencadeia suas missões táticas ou administrativas e mantém seu foco nelas, não importando o que as outras estão fazendo, cabendo aos comandantes operacionais se preocupar com isto.

O planejamento neste nível é mais mecânico, rígido e objetivo do que criativo, mais atrelado aos manuais de campanha, embora sempre sejam necessárias as iniciativas pessoais destes comandantes e suas habilidades que fazem a diferença, uma vez que no nível tático as ações são um conjunto de técnicas de combate aplicadas em uma ordem pré-definida, e a técnica tende a variar muito pouco. A competência dos comandantes é fator preponderante, já que cabe a eles orientar suas tropas, motivá-las e coordenar as diversas ações a serem executadas, em um ambiente de alta pressão inimiga, bem como criar os planos destas ações.

No nível tático, por exemplo, os paraquedistas aliados saltam na Normandia e vão em busca de suas pontes, não se importando se a infantaria que desembarcará nas praias está desencadeando suas ações, enquanto que no nível operacional os paraquedistas estão lá para proteger o desembarque. Neste caso o nível estratégico preocupa-se na consolidação da cabeça de praia, sem se ater se haverá ou não paraquedistas.




A Relação entre os Níveis da Guerra

Ao se engajar em combate, uma força aplica todo o seu poderio para alcançar o sucesso desejado, seja no combate propriamente dito ou nas ações de apoio e administrativas. Porém se o sucesso obtido nesta ou naquela operação não contribuir para consecução do objetivo estratégico, de nada o esforço, por mais memorável que seja, terá sido útil. Um sucesso tático não terá valor se não for parte de um esforço maior para vencer a guerra. De nada adiantaria os paraquedistas na Normandia conquistarem uma ponte, se ela não service para as tropas de desembarque avançarem ou de bloqueio ao contra-ataque alemão, por mais bem executada que a ação fosse. 


Um sucesso tático, por si só, não resulta em um sucesso estratégico. No Vietnam os EUA venceram muitas batalhas, aplicaram seu poder de fogo esmagador e desdobraram seu aparato militar superior, e mesmo assim perderam a guerra. Todas as ações tem que convergir para um único caminho, como os afluentes de um rio que o tornam cada vez maior, não contribuindo aqueles que não desaguam ali.

O nível operacional situa-se justamente como uma ponte entre a estratégia as ações táticas. Ele escolhe quais batalhas serão empreendidas, cabendo aos comandantes táticos conceber a melhor forma de vencê-las. O comandante operacional é o comandante do teatro de operações, e sob suas ordens todas as esquadras navais, forças aéreas designadas e exércitos de campo deste teatro atuarão; onde, como e quando seu comando decidir, sob comando único, escolhendo em que condições oferecerão combate ou o recusarão.

A estratégia determinará quais ações de grande vulto, militares ou não, deverão ser postas em prática para a consecução dos objetivos políticos, porém ela deverá adaptar-se à realidade que moldarão as operações. Uma estratégia concebida à margem do contexto do possível se mostrará inútil e resultará em consequências nefastas, desperdiçará recursos e levará à ruína do todo.

A estratégia proverá os recursos e ativará o apoio político aos operadores militares, e o comandante operacional avaliará o que lhe foi disponibilizado, buscará mais se julgar insuficiente e proporá a adequação dos objetivos se concluir que são intangíveis. Cabe a estratégia ainda, baseada nas diretrizes políticas, impor as restrições que se façam necessárias aos seus operadores.

Enquanto os comandantes táticos lutam as batalhas, os operacionais olham além delas e preveem seu resultado, antecipando-os, baseados no seu desenrolar, e reconfiguram seus planos se as coisas não correrem como o planejado; exploram em proveito dos objetivos estratégicos, êxitos não previstos e os canalizam em favor daqueles, abreviando ações que não se façam mais necessárias e implementando outras, requeridas pela nova situação criada.

Embora exista uma hierarquia clara entre os citados níveis, não existe uma linha divisória bem definida entre eles. Ações táticas empregando técnicas de combate consagradas, seguem um plano com vistas a cumprir o planejamento das campanhas, que por sua vez são o componente de um conjunto maior de ações que visam a cumprir objetivos estratégicos, que nada mais são que a expressão militar dos objetivos políticos.

Planos e ações elaborados e executados com desempenho acima do esperado por um determinado nível, poderão superar desempenhos medianos em outro, porém operadores incapazes ou incompetentes quase sempre pesarão negativamente sobre todo o esforço. Inabilidade tática não é corrigida por planos de ação bem concebidos, e ações operacionais de sucesso são inúteis se a estratégia for falha.




A Campanha

A campanha é a ferramenta pela qual o comandante operacional ou de teatro busca alcançar seus objetivos. Todas as campanhas e seus desdobramentos deverão ser coordenadas, convergentes aos objetivos e neles focalizadas, cabendo a elas pavimentar o caminho da vitória final. O desfecho de um embate só tem significado no contexto da campanha que o originou, e o sentido desta só pode ser visualizado no contexto maior dos objetivos estratégicos. Elas podem durar poucos dias ou até anos, englobar grandes contingentes ou apenas unidades restritas, mobilizar todo o alto escalão de comando chegando até os níveis políticos ou contar com apenas alguns comandantes de teatro. São empreendidas em sequência ou simultaneamente e buscam na maior parte das vezes um único objetivo.

Devido aos imponderáveis da guerra, o desenrolar de uma campanha é incerto, mutável e fluído, exigindo do comandante correções constantes de rumo. O primeiro princípio que se deve observar na condução de uma campanha depois de seu objetivo é o da economia. Qualquer ação que não contribua para o objetivo deve ser evitada. O objetivo operacional pode mudar durante a campanha, devido a insucessos, custos inaceitáveis, conquistas imprevistas, etc... porém o objetivo estratégico deve ser mantido em foco. Quanto mais limitado for o conflito, mais difícil será explicitar os objetivos a serem alcançados, e por consequência elencar as condições e serem transpostas para se atingi-lo.

Uma campanha deve ser planejada do fim para o início, partindo dos objetivos estratégicos, e daí definir as ações táticas necessárias. A melhor forma de derrotar o inimigo é neutralizando aquilo que de mais crítico ele possui para implementar sua reação, seu centro de gravidade operacional. Este fator pode não estar disponível para neutralização imediata, e as condições para tal deverão ser construídas. A partir daí se lista "o que", "como" e "quando", sempre procurando não explicitar a verdadeira intenção do que se pretende, de forma a não induzir o inimigo a reforçar suas defesas ao verdadeiro intento, desencadeando a ação no tempo adequado, da forma mais rápida e fluida possível. Quando se desembarcou na Normandia, se montou uma operação de grande vulto para que os alemães acreditassem que o desembarque se daria em Pas de Calais, isto evitou que tropas la dispostas fossem deslocadas para o objetivo real.



domingo, 10 de janeiro de 2016

O Pelotão de Infantaria #



O pelotão é a unidade tática básica da infantaria e base para a formação das companhias. Sua organização pode variar de uma força para outra, porém as variações não são significativas. Mesmo em unidades de infantaria de uma mesma força a composição do pelotão pode mudar de acordo com as singularidades de cada tropa. Um fator determinante da composição de cada tipo de tropa é a capacidade dos veículos que a transportam, pois procura-se acomodar cada "grupo" de forma coesa em um mesmo veículo, seja ele um helicóptero, viatura blindada ou outro qualquer.

No Exército Brasileiro, o pelotão de infantaria é formado por 3 grupos de combate (GC) e 1 grupo de comando e 1 grupo de armas de apoio. No US Army a denominação do GC é de esquadrão (squad), e a organização do pelotão é muito semelhante, totalizando no modelo aqui descrito 42 integrantes.  Uma das capacidades principais do pelotão de infantaria é a de organizar-se como força-tarefa tática, com seus elementos orgânicos e outros agregados em reforço de acordo com cada missão, dando ao comandante de companhia um fração de tropa altamente flexível e poderosa, que pode cumprir tarefas de forma autônoma como parte do esforço desta e do batalhão. A arma do combatente de infantaria é o fuzil de assalto, e a exceção dos metralhadores é dotação comum a todos eles. 




O Grupo de Comando

O grupo de comando (platoon headquarters - PLT HQ no US Army) do pelotão tem por missão prover comando e controle (C2) aos demais. Este grupo atua ainda nas funções de ligação com sua companhia, com os elementos que fornecem apoio de fogo e apoio logístico. Tipicamente é formado por um oficial subalterno ou tenente líder de pelotão, um sargento antigo adjunto ao líder que atua como subcomandante e um sargento ou cabo operador de sistemas de comunicação ou radioperador (RTO no US Army). Conta ainda com um sargento "caçador" (Sniper) e um cabo observador auxiliar deste. Esta equipe agrega a função de observador avançado (OA) dos grupos de morteiros e são os encarregados da ajustagem do tiro destes. Um sexto integrante é um sargento paramédico ou enfermeiro, e ainda, se for o caso, um motorista.



O Líder de Pelotão

O líder do pelotão deve comandar com base no exemplo, com a autoridade que lhe é de direito, assumindo a responsabilidade global pelas ações de seus subordinados, agindo de forma decisiva nas ações e na manutenção da disciplina. Quando em combate sua atuação deverá ser no sentido da atribuição de missões específicas a cada um, sempre dando espaço a iniciativa de seus comandados.

Mesmo tendo a última palavra nas decisões, deverá aconselhar-se sempre com seu sargento adjunto e conhecer todas a facetas operacionais do emprego de seu grupo. São atribuições do líder:
  • Acionar o pelotão no cumprimento das missões que lhes são atribuídas pelo escalão superior, levando-o de encontro com os objetivos deste;
  • Orientar a manobra do pelotão;
  • Sincronizar seus GCs para que manobrem de forma harmônica;
  • Antecipar as ações que o pelotão deverá executar;
  • Solicitar os apoios que forem necessários;
  • Fornecer aos GCs total suporte de C2;
  • Planejar e implementar a segurança de seu pelotão;
  • Orientar o desdobramento das armas do pelotão;
  • Elaborar relatórios aos seus superiores;
  • Posicionar-se da forma mais adequada quando em ação;
  • Atribuir tarefas e objetivos claros, concisos e realizáveis aos seus GCs;
  • Inteirar-se e entender a missão de sua companhia e batalhão.

O líder deverá sempre estar ciente da situação em que está inserido. Deverá conhecer a situação das tropas amigas, inimigas e neutras; bem como as condições do terreno. Deverá visualizar a situação a ser configurada depois do cumprimento de sua missão e tomar as medidas necessárias para ligar o presente ao futuro esperado, sempre avaliando os riscos envolvidos e tomando as medidas para minimizá-los. 


O Adjunto de Pelotão

O adjunto do pelotão (PSG no US Army) é o auxiliar direto do líder, segundo em comando e conhecedor da tática operacional e todas as armas orgânicas e de apoio. Sua função é assessorar o líder no planejamento e zelar junto aos GCs pelo cumprimento de suas ordens. Suas funções básicas são:
  • Supervisionar o pelotão a fim de garantir seu apronto, com checagens pré-combate e inspeções;
  • Estar apto a assumir a liderança do pelotão, se necessário;
  • Posicionar-se da melhor forma para exercer as tarefas de C2, seja junto a base de fogo ou aos elementos de assalto;
  • Zelar pelo apoio logístico do pelotão, gerenciando inclusive a carga de combate;
  • Zelar pelo apoio médico aos soldados sinistrados, com evacuação de feridos e mortos, controlando as baixas e emitindo relatórios com vistas a reposição de pessoal;
  • Operar os sistemas digitais de C2 do pelotão;
  • Inteirar-se e entender a missão de sua companhia e batalhão, tal qual o líder.

O Rádio-Operador do Pelotão

O rádio-operador (RTO no US Army) é o operador da comunicação do pelotão com o comando de sua companhia, e deve manter o líder e seu adjunto cientes da condição de seus sistemas. Deve ter afinidade com todos os procedimentos de radiotelefonia e emissão de relatórios, pedidos de apoio de fogo e antenas de campo de todos os tipos, além de gerenciar o uso de baterias. Deve ainda conhecer os protocolos de comunicação (frequências e sinais de chamada) de sua companhia e batalhão e dar ciência deles a todos os membros do pelotão, assim como auxiliar na operação dos sistemas eletrônicos de C2.

O Observador Avançado do Pelotão/ "Caçador"

O Sargento "caçador" atua como o observador avançado (OA) do pelotão (FO no US Army), e apoiado pelo Operador de rádio é o responsável pelo planejamento e execução dos fogos de apoio (indiretos), incluindo os morteiros da companhia e do batalhão, artilharia de campanha e outros fogos colocados a disposição. Deve saber localizar e designar alvos, chamar os fogos de apoio e ajustá-los. Deve conhecer a missão do pelotão e os conceitos operacionais afins, bem como a doutrina de fogos de apoio. dentre suas funções específicas destacamos:
  • Manter ciente as equipes de coordenação de apoio de fogo da companhia e do batalhão sobre a localização do pelotão e suas necessidades de apoio de fogo;
  • Manter atualizados mapas e croquis do terreno;
  • Chamar e ajustar fogos de apoio;
  • Operar como equipe junto ao operador de rádio;
  • Selecionar alvos em potencial e informar sua localização ás equipes de coordenação de apoio de fogo;
  • Escolher e preparar os postos de observação (POs) e viabilizar suas rotas de acesso;
  • Operar os terminais digitais de contato com as equipes de coordeção de apoio de fogo;
  • Atuar como atirador de precisão.

O Paramédico do Pelotão

O paramédico do pelotão atua junto ao sargento adjunto no apoio médico ao pelotão, sempre interagindo com as equipes médicas da companhia e do batalhão. Deve zelar pela saúde preventiva dos integrantes do pelotão, e trabalhar no tratamento e evacuação de feridos. Cabe a ele ainda aconselhar o adjunto em assuntos afins, gerenciar o suprimento médico (classe VIII) e elaborar os relatórios médicos solicitados.

A Esquadra

A esquadra (Fire Team no US Army) é o núcleo do pelotão, e constituída para lutar como uma equipe monolítica. Podem atuar de forma auto-suficiente no combate direto ao inimigo, dentro é claro do envelope de combate do pelotão. É comumente constituída por 4 elementos: Um fuzileiro-metralhador (AR no US Army) que fornece volume de fogo a esquadra e é a base de fogo direto desta, alocando fogos contínuos sobre pequenas áreas; o fuzileiro-atirador que bate alvos ponto de curto alcance com disparos de precisão e fornece segurança e inteligência aos demais; um fuzileiro-granadeiro que pode bater pequenas áreas com fogos indiretos explosivos (HE) de curto alcance, inclusive em ângulos mortos; Um cabo líder de esquadra (TL no US Army) que fornece o C2 desta e complementa a ação do fuzileiro-atirador. O binômio metralhador-granadeiro é a base de fogo da esquadra.



O Fuzileiro-Atirador

Cabe ao fuzileiro atirador o fogo de precisão da esquadra. Ele prove segurança ao núcleo de fogo da esquadra e trabalha como observador na busca de alvos para o este. São suas atribuições:


  • Efetuar fogo certeiro com seu fuzil e ser especialista em seu emprego, além de saber operar todas as armas da esquadra e poder substituir seus pares, atuando constantemente na segurança de sua equipe;
  • Ser capaz ocupar posições rapidamente de onde possa fazer fogo com eficácia, de dia ou à noite, utilizando os princípios de coberta e abrigo, fortificá-la e camuflá-la;
  • Ter habilidade de transpor obstáculos como campos minados, arame farpado, fossos e paredes, apoiar a lida com prisioneiros, feridos e equipes de demolição; 
  • Repassar ao seu líder toda a informação relevante que adquirir em ação ou que possa ser útil ao esforço da equipe;
  • Atuar em prol da saúde da equipe aplicando medidas de segurança médico-sanitárias ao seu alcance. bem como ter conhecimento de medicina básica de combate;
  • Estar ciente da missão de sua esquadra, pelotão e companhia.


O Fuzileiro-Granadeiro

O granadeiro prove a esquadra fogo de trajetória alta para bate ângulos mortos e forçar o inimigo a abandonar seu abrigo. Todos os soldados podem portar granadas de mão, mas o granadeiro é o único a poder lançar granadas a distâncias maiores (cerca de 300 a 400 m), pode ainda alvejar veículos levemente blindados, desdobrar barreiras de fumaça e iluminar ponto específicos do terreno. Deve ser especialista em seu lançador de granadas e suas munições, sabendo seus limites de segurança. e estar apto a desempenhar todas as funções dos outro integrantes da esquadra. Compõem o núcleo de fogo da esquadra com o metralhador.




O Fuzileiro-Metralhador

O metralhador fornece volume de fogo direto a esquadra e é o componente senior do núcleo de fogo da esquadra. Pode endereçar seus projéteis a qualquer tipo de alvo, menos àqueles abrigados ou providos de armadura. Deve poder ainda substituir qualquer outro integrante da esquadra. Devido a natureza de seu armamento de emprego coletivo, poderá portar uma pistola para defesa pessoal.

O Líder de Esquadra

As atribuições do líder já foram citadas e são invariáveis qualquer que seja o escalão. Ele deve receber suas ordens as cumprir com total liberdade de ação tendo sua iniciativa valorizada. Deve ter a capacidade de pensar rápido e agir demonstrando atitude, imediatismo e precisão, inerentes ao combate de infantaria. O líder ainda complementa a missão do atirador.

Os movimentos da esquadra devem seguir a tradicional prática da infantaria de mover-se rapidamente de um ponto a outro quando o companheiro estiver fazendo fogo, e ao chegar lá fazer fogo para que este possa mover-se. Atirar e manobrar. Todo cuidado deve ser tomado para não se atravessar a linha de fogo dos companheiros.

O Grupo de Combate (GC) ou Esquadrão

O grupo de combate (Squad no US Army)  é formado por 2 esquadras mais um sargento Líder (SL no US Army). Quando embarcados cabem em um IFV ou helicóptero de manobra. É a célula base que o comandante de pelotão usa para manobrar. O sargento comandante de GC tem 2 equipes (esquadras) a disposição e as usa em conjunto; enquanto uma atira a outra manobra.















O líder de GC desempenha as tarefas de líder já citadas, deve ser capaz de substituir o adjunto de pelotão desempenhando todas as suas tarefas e solicitar e ajustar apoio de fogo.

O Atirador de Precisão Designado

Um GC pode ser reforçado por um atirador designado (SDM no US Army) pelo comandante do pelotão, quando for necessário. Este atirador deve estar especialmente treinado em fogo de precisão. Não são franco-atiradores e nem operam nos alcances limite destes, e muito menos de forma autônoma, mas como componentes do GC e sob as ordens de seu líder. Usam armas disponíveis na unidade com mira ótica reforçada.




Ele deve ser escolhido por suas habilidades de tiro, maturidade, experiência, confiabilidade e bom senso. Sua função é a de alvejar alvos de alto valor como oficiais, radio-operadores, metralhadores, atiradores de precisão, operadores de lançadores de rojão e outros. Devem ter a capacidade de alvejar alvos fugazes e expostos por curtos períodos de tempo, em frestas e fendas, parado e em movimento. Pode-se designar um atirador por esquadra no lugar do fuzileiro-atirador, criando-se duas equipes equilibradas e altamente flexíveis, capazes de atingir alvos em distâncias superiores às usuais.

Estes atiradores devem receber treinamento especial no uso de miras telescópicas, tiro de veículos, tiro em movimento, tiro noturno, tiro de engajamento rápido, tiro em combate aproximado (close combat), tiro em até 600 metros, posições de tiro não usuais e tiro de alvo em movimento a longa distância.

O emprego destes atiradores é particularmente indicado em situações onde a precisão é mais importantes que o volume de fogo, como em situações de contra-insurgência, em áreas urbanos a fim de não alvejar civis, em alcances fechados de necessidade imediata, quando o inimigo também os está empregando, situações diversionárias, vigilância de setores e corredores específicos, entre outras.

O Grupo de Armas de Apoio


O grupo de armas de apoio é formado por 2 equipes de metralhadoras médias e 2 equipes de fogo pesado com lançadores de rojões de grande calibre, mais um líder de equipe.



Os Metralhadores

As equipes de metralhadoras médias são compostas cada uma por um metralhador e um metralhador assistente que portam armas de maior potência que as metralhadoras ligeiras que equipam as esquadras, com alcances de até 1.000 metros, fornecendo fogo de supressão de médio alcance. Ao metralhador e seu assistente cabem colocar uma metralhadora média em ação, cuidar de sua manutenção, conhecer sua doutrina de emprego e seu comportamento balístico. Devem ainda assistir seu líder quanto ao emprego da arma, bem com estar apto a substituí-lo, além de conhecer a missão de seu pelotão e companhia. Ao assistente cabe estar apto a assumir o controle da arma se necessário, controlar o fornecimento de munição e trabalhar na designação de alvos ao metralhador sênior.




Os Operadores de Lançadores de Rojões

As equipes de lançadores de rojões são compostas por 1 atirador e 1 assistente. Estas equipes podem operar lançadores de foguetes (rojões) como o AT-4 ou Carl Gustav, ou ainda mísseis leve como Javelin. Elas fornecem ao pelotão uma significativa capacidade anticarro, bem como poder de fogo contra posições fortificadas, em alcances médios. Cabe aos membros da equipe as mesmas funções das equipe de metralhadores, e ao assistente em especial, o gerenciamento no fornecimento de munição. A estas equipes poderão ser alocados mísseis anticarro de maior potência se assim for necessário.

O Líder do Grupo de Armas de Apoio

O líder deste grupo é o substituto natural do adjunto do pelotão e deve conhecer todas as suas atribuições. As demais funções do lider são as mesma já elencadas. Cabe a eles aconselhar diretamente o líder do pelotão quanto ao plano de fogo deste grupo, o gerenciamento do fornecimento de munição do pelotão em auxílio ao sargento adjunto e ao planejamento de emprego das armas de seu grupo.


domingo, 3 de janeiro de 2016

Fundamentos do Combate de Infantaria #



A infantaria é uma tropa que pode combater qualquer tipo de missão, em qualquer ambiente. Suas ações lastreadas no combate aproximado (close combat), geram nos combatentes grande estresse psicológico, devido à extrema violência do contato próximo, com proximidade corpo-a-corpo em muitas ocasiões e visualização dos semblantes inimigos, além dos efeitos físicos que os embates geram nos combatentes feridos e mortos, sejam ele amigos ou não. Ao engajar-se em um combate, deve-se fazê-lo de forma insensível e implacável, sob pena de permitir ao inimigo conquistar a iniciativa e o comando da situação, exigindo ao extremo as qualidades físicas e mentais dos soldados. É a necessidade de se estar preparado para este tipo de situação-limite que norteia o treinamento do combatente, sobretudo do combatente de infantaria, treinamento este muitas vezes incompreendido por aqueles que nada sabem sobre o ofício das armas.

De todos os ramos da atividade militar, a infantaria é única devido a sua proficiência combativa estar centrada na ação do indivíduo. Enquanto outros ramos da organização militar se concentram na operação de sistemas e plataformas de armas, a infantaria tem como base a ação individual atuando em prol de uma equipe, sendo os indivíduos e não suas armas o centro de sua atuação. Esta característica enfatiza a disciplina individual, a iniciativa responsável e a capacidade de liderança como fatores determinantes ao sucesso destes combatentes.

Embora o campo de batalha possa ser alcançado por uma variedade grande de meios, é através da mobilidade a pé que o soldado de infantaria luta no final das contas. Atirar e manobrar é a premissa básica deste tipo de combate, pois nem o movimento e nem o fogo, quando empregados isoladamente, produzem resultados decisivos. Combatentes de infantaria tem que alocar grande volume fogo certeiro, em curtos intervalos de tempo e em qualquer direção, ao mesmo tempo em que se move para onde for necessário, quantas vezes a situação exigir, transpondo condições das mais diversas e singulares. Esta realidade impõem aos combatentes e comandantes, 3 limitações distintas:
  • Coordenar a linha de avanço de forma a manter a coesão e não criar vulnerabilidades;
  • Dimensionar a carga individual de cada soldado, de forma a ter sempre disponível seu equipamento e munição suficiente sem no entanto comprometer sua capacidade física e poder de combate e;
  • Preservar as condições físicas e morais dos combatentes, sempre vulneráveis aos efeitos dos fogos direto e indireto, e maltratos do ambiente e das duras condições de combate.

Os infantes enfrentam situações que exigem de seus líderes a rápida compreensão da situação tática e conseqüente tomada de decisão oportuna. O combate pode-se dar ofensivamente para conquistar terreno e subjugar o adversário, e defensivamente para negar o terreno e proteger forças amigas, que modernamente é feito de forma ofensiva a fim de preservar a iniciativa e o comando das ações. Seja qual for a situação o infante sempre está atacando ou se preparando para atacar. Ataque e defesa são operações de amplo espectro e diferenciadas apenas nos escalões mais altos, sendo indiferentes aos pelotões e pequenas frações.



Princípios Táticos da Infantaria

O combate da infantaria está centrado na manobra e vantagem tática, na combinação efetiva de seus meios de combate, na capacidade de liderança e tomada efetiva de decisões, no poder combativo de cada unidade ou fração e no entendimento correto da situação tática.

A manobra tática como já descrito é a aplicação do poder de combate. Movimentar-se a fim de alcançar posições efetivas ao fogo das armas e atirar para possibilitar o movimento são a base da manobra de infantaria. Fogo sem movimento não produz resultados decisivos e movimento sem fogo torna os combatentes vulneráveis com resultados potencialmente desastrosos.

A vantagem tática consiste no aproveitamento de todos os fatores presentes em cada situação; valendo-se sempre que possível de facilitadores do terreno e do clima, treinamento e tecnologias superiores, surpresa nas ações engajando o inimigo quando está despreparado, eficiente escopo defensivo e de segurança, conhecimento dos dispositivos e pontos fortes e fracos do inimigo, poder de fogo superior, organização, disciplina e moral elevados. Impor ao inimigo problemas inesperados e insolúveis, evitando-se procedimentos óbvios e previsíveis.

A combinação de meios de combate como tipos de armas e munições, apoio de unidades externas como operadores de engenharia de combate e alocação de fogos de artilharia e morteiros, solicitação de apoio aéreo aproximado e apoio a mobilidade por helicópteros, entre outras; valendo-se do conceito sempre eficaz das armas combinadas.

Liderança é a capacidade de incutir em seus subordinados com convencimento o que fazer e o porquê de fazê-lo, deixando o como a critério deles e do seu treinamento. O líder deve ter autoridade reconhecida pelos seus subordinados e liderar pelo exemplo. A tomada de decisões deve ser feita seja no tanto no planejamento das ações como na preparação, execução e avaliação delas. O líder deve exercer o comando e o controle das ações de sua equipe, com avaliações precisas e decisões oportunas, além de eficiente gestão de riscos.

O comando e o controle de um pequeno efetivo de infantaria em combate se dá em torno das funções de combate. Estas funções são o equivalente de pequeno escalão dos sistemas operacionais. São elas as funções de Inteligência, Manobra, Apoio de fogo, Proteção, Suporte logístico e Comando e controle (C2). A cada uma desta funções são alocados pessoal, organização, informação e processos para que se efetivem na prática. Cabe aos comandantes conduzir operações e adestramento em torno das funções de combate.

A Inteligência envolve as tarefas que tratam da compreensão do inimigo, as considerações sobre o terreno e o clima, e as influências dos combate junto a população civil e vice-versa. Envolve ainda as tarefas de vigilância e reconhecimento.

A Manobra é a função que trata da movimentação dos combatentes antes durante e depois do combate, associando a esta o fogo necessário a sua segurança e a degradação do poder combatente inimigo, mobilidade e contra-mobilidade. Através da manobra se alcança o choque, a surpresa e a dominância da situação.

O Apoio de fogo envolve as tarefas de pedido e coordenação de fogos indiretos providos pelo escalão superior. Incluir ainda as funções de sincronização e integração com outras funções de combate.

A Proteção é a função de combate que visa implementar ações de preservação dos combatentes e seus meios, a fim de manter a segurança da tropa e integridade do poder de combate. Incluir as tarefas de prevenção ao fratricídio, defesa antiaérea e antimíssil, prevenção de ações subterrâneas hostis como sabotagens e atentados, ações de sobrevivência, contra-informação, apoio médico-sanitário e atos de segurança direta.

O Suporte logístico é o conjunto de tarefas que visem a sustentação em condições operacionais da tropa através de serviços do suprimento de munição, equipamento, víveres e outros itens necessários; manutenção do equipamento; mobilidade; serviços como o banho e a lavanderia; correspondência; recursos humanos; gestão financeira; serviços de engenharia em geral; apoio religioso; apoio aos serviços de saúde e manuseio de material explosivo a ser destruído. Estes serviços garante a permanência da tropa em operação e geralmente são providos pelo escalão superior em sua maior parte.

As tarefas de C2 envolvem a execução da autoridade e direção. É através das C2 que o comandante integra as outras funções de combate, gerenciando informações relevantes, valendo-se de redes de computadores e sistemas de comunicações, e fazendo chegar a tropa subordinada as ordens e orientações.

Poder de combate é o nível de efetividade que uma unidade operacional pode aplicar sobre o inimigo. É a eficácia da capacidade de lutar. Os líderes da infantaria valem-se das tarefas de planejar, preparar, executar e avaliar para gerar poder de combate. O comandante tático deverá aplicá-lo aos seu objetivo a fim de cumprir sua missão, combinando movimento, poder de fogo e proteção para atingir este objetivo. O entendimento de cada situação, única em combate, é vital a superação do objetivo. Ao planejar cada ação, o líder deverá entender seu propósito e como seu objetivo está inserido no objetivo do escalão superior.

O Combate Aproximado

Um combate aproximado é caracterizado pelo perigo, sacrifício físico, incerteza e oportunidade. Para enfrentá-lo o soldado deverá ter coragem, tenacidade física, equilíbrio mental e flexibilidade.

A coragem é a capacidade de vencer o medo, normal nestas situações, e enfrentar o perigo, sempre presente. Ela é resultante de condicionamento mental forjado em treinamentos contínuos e realistas, conhecimento das técnicas e práticas de combate, entusiasmo, orgulho e crença na causa que defende. A tenacidade física é resultante de condicionamento físico constante e permite ao soldado enfrentar o cansaço e a fadiga muscular. Equilíbrio mental reflete o nível de maturidade que o soldado atingiu. Ele fornece os meios psicológicos para que o soldado coloque a razão como dominante aos efeitos emocionais da situação e tenha capacidade de fazer com competência o que precisa ser feito para cumprir a missão. Avaliar a situação diante da incerteza relativa e tomar decisões dentro do razoável valendo-se das informações disponível é o que se espera. Flexibilidade é a capacidade de lidar com o acaso. O acaso é imprevisível, acontece aos dois lados que se enfrentam, e tem que ser tratado com decisões lógicas e que contribuam para o cumprimento da missão.