"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

terça-feira, 28 de março de 2017

Operações em Áreas de Selva Tropical #



Generalidades

As regiões de selva tropical e equatorial, presentes na faixa intertropical do planeta, possuem aspectos peculiares quanto às operações militares, devido a suas características únicas de clima, vegetação e desenvolvimento sócio-econômico.

Estão presentes nas Américas, desde o sul do México, passando pelo norte da América do Sul e ilhas do Caribe, com sua maior extensão em território brasileiro; no centro do continente africano na região sub-saariana do Congo e vizinhanças; no sudeste asiático continental, incluindo as ilhas da Indonésia e norte da Austrália e num grande número de ilhas do Pacífico, e outras regiões menores, totalizando só no Brasil mais de 5 milhões de quilômetros quadrados.

São áreas de clima muito úmido e quente, com débeis índices demográficos e de desenvolvimento humano e econômico. Carecem de redes rodoferroviárias, e as existentes precariamente conservadas, sendo as vias hidrográficas abundantes e utilizadas como principal meio de comunicações destas regiões.

Inserido neste meio existem ainda áreas de mata alagada, de selva propriamente dita, savanas e regiões montanhosas quentes. Não se pode separar a selva de terra firme da malha hidroviária que a permeia, constituindo este conjunto um só ambiente operacional, unidas pela mata de várzea. A vegetação é constituída de árvores de grande porte, cujas copas entrelaçam-se e criam em seu interior um ambiente sombrio sem a incidência direta de raios solares, a exceção das raras clareiras criadas pela queda de árvores mortas. Próximo aos rios existe a floresta que se inunda periodicamente formando várzeas. Os rios podem ser caudalosos com través médio de 5 km, podendo atingir 20 km em alguns pontos e centenas próximos ao mar, com locais mais rasos que impedem a navegação irrestrita quando longe do leito principal, podendo ainda apresentarem regiões de corredeiras.




Influência do Ambiente nas Operações Militares

As rotinas de observação e vigilância são prejudicadas pela ausência de elevações que dominem o terreno e pela densa mata que não permite olhar a alguns poucos metros. Estabelecer campos de tiro procedendo sua "limpeza" pode denunciar a presença de armas e atiradores, sendo estes mais eficazes junto aos desimpedidos cursos d'água e clareiras. A observação aérea é ineficaz e o relevo não se revela para estes, uma vez que a vegetação mostra um falso terreno plano. Satélites de alta definição de amplo espectro, no entanto, não tem seus campos de observação barrados pelas árvores. Granadas fumígenas podem não ultrapassar a cobertura e a adoção de túneis de tiro são a técnica mais eficaz de criar corredores de fogo.

A mata proporciona abundância de cobertura a observação, e abrigos devido a dobras do terreno e grandes árvores. A construção de abrigos abaixo do nível do solo é difícil devido a presença de raízes entrelaçadas. Os obstáculos são abundantes, como os grandes rios em operações de grande vulto e a mata fechada, que proporciona corredores de deslocamento a pequenas frações apenas. Cabe salientar que estes mesmos grandes rios podem tanto ser obstáculos como vias que facilitam o deslocamento, dependendo das circunstâncias. A mata esconde pântanos e escarpas, além de grandes troncos caídos. Chuvas constantes e diárias potencializam os obstáculos e tornam estradas de chão pegajosas e difíceis de transpor.



O deslocamento a pé está sujeito a grande número de espinhos e plantas hostis e em locais onde existem árvores caídas, normalmente mais de uma, elas podem se constituir em grandes obstáculos. Além das altas temperaturas, a pluviosidade é intensa com tempestades fortes e rápidas podendo as condições climáticas mudar em questão de minutos. A mobilidade motorizada é extremamente difícil, sendo o barco e a aeronave os meios mais adequados.

utilização de equipamento rádio demanda a utilização de grandes antenas, com intensa atenuação de sinais através da mata, e devido a cobertura vegetal a luminosidade da lua é praticamente imperceptível. Para indivíduos treinados a selva oferece grande variedade de recursos e alimentação, porém mostra-se hostil àqueles não ambientados ou treinados apenas em outros ambientes, estando todos sujeitos a cortes e infecções constantes e ao assédio de animais como mosquitos, cobras e vespas, entre outros, que podem transmitir doenças tropicais.




Operações de grandes escalões de tropa encontram maior dificuldade neste ambiente, estando as pequenas frações mais conformadas à realidade deste terreno e sua severa resistência à mobilidade. O grande número de obstáculos naturais é potencializado pelas condições meteorológicas adversas com precipitações constantes, que prejudica sobretudo a mobilidade nas estradas não pavimentadas que são a maioria, tornando a argila destas vias pegajosa em níveis que chegam a paralisar o movimento de veículos.

Os locais de maior valor militar são os entroncamentos de rios que oferecem controle sobre estes, e as vilas e povoados, com campos de pouso e atracadouros. Suas instalações podem ser de grande valor e para eles convergem trilhas e passam as estradas que existem. Na selva as operações ribeirinhas são uma constante militar.  A umidade proporciona grande estresse sobre equipamento inadequado como armamento, aeronaves e veículos em geral. Outros locais importantes são os escassos nós rodoviários, pontos de passagem de balsas, pontes e vaus, além de clareiras que favorecem o reagrupamento e a operação de baterias de tiro e helicópteros e o ressuprimento aéreo. As elevações, tão úteis em terreno convencional, são pouco relevantes no ambiente de selva devido a cobertura vegetal.

Devido as características únicas deste ambiente, as operações assumem características de guerra irregular ou guerrilha, pois dispor tropas emassadas não se dá da mesma forma que em terreno convencional. Apesar dos dispositivos militares procurarem sempre valorizar as características de ligação entre as unidades, operar na selva demanda sempre a incursão de pequenas frações em áreas muito grandes e dispersas, dificultando o apoio mútuo entre estas. O apoio aéreo e fluvial é fundamental. A segurança das tropas neste ambiente tem na dispersão seu maior trunfo, e a ameaça poderá vir de qualquer direção. A manobra deve primar pela simplicidade e fundamentar-se na habilidade do combatente, e não em seu equipamento. A surpresa pode ser facilmente obtida pelo atacantes e a oportunidade por vezes é uma das formas mais comuns de combate, pois a obtenção de informações é dificultada pelo ambiente singular.




Operações Estratégicas

O acesso à área de selva se dá a partir de bases que podem ser poucas e precárias e demandarão grandes obras de infraestrutura, com necessidade de provimento de serviços diversos e suprimentos vindos de longe, onerando terminais e fazendo uso de elevado número de meios logísticos. O estabelecimento de infraestrutura adequada a grandes efetivos pode ser necessário e custoso. Como já foi dito o deslocamento até estas áreas quase sempre se dará por vias aéreas e fluviais, tanto de tropas quanto de suprimentos. 

Estas áreas de acesso quase sempre serão as maiores cidades que estejam próximas ao coração do dispositivo do inimigo, com seus terminais, e a manobra inicial será a conquista e ocupação destas localidades e suas vias de acesso e comunicação com as áreas exteriores de onde virá o suporte às operações. Devido as grandes distâncias envolvidas e a natureza do combate moderno o domínio do espaço aéreo é vital. O combate se dará por forças assimétricas em ambiente urbanos e ribeirinhos, de selva densa e campos abertos, com forças não mecanizadas apoiadas por unidades aéreas em busca dos pontos capitais já citados. 

A partir destas áreas "pontos-forte" se desdobrarão as ações descentralizadas que poderão ser longas e desgastantes. A progressão se dará com patrulhas de combate de efetivos dotados de grande poder de fogo e apoiados pela aviação de asas rotativas em apoio próximo e pela aviação de ataque para alvos que exijam maior potência, estabelecendo bases de combate a medida que se progride, sempre procurando o isolamento do dispositivo inimigo de suas vias de suprimento de forma a forçar sua rendição com a anulação de seu poder de combate.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Armas Nucleares #



As armas nucleares são constantemente citadas pela grande imprensa, não raro envolvidas em manchetes sensacionalistas escritas por quem entende muito pouco do assunto. Hiroshima e Nagazaki são constantemente citadas por serem até hoje as 2 únicas oportunidades de emprego real destas armas, ignorando que mais de 2.000 detonações já foram feitas para se testar e tabular parâmetros, que permitiram a construção de modelos que capazes de simular o desempenho de armas ainda não usadas, bem como avaliar seus efeitos junto ao ambiente onde são detonadas.

O poder destas armas reside na liberação da energia que une o núcleo dos átomos de elementos pesados como o urânio e o plutônio, que foram usados nestas primeiras e únicas 2 detonações feitas na Segunda Guerra Mundial contra o Japão. As primeiras bombas, denominadas de bombas de fissão nuclear, funcionam seguindo o princípio de que o núcleo de um átomo instável, quando atingido por um nêutron, libera uma quantidade muito grande de energia.

A quantidade de nêutrons de um núcleo determina sua estabilidade. Sua equivalência com o número de prótons torna os núcleos mais estáveis, e sua falta faz com que os prótons fiquem muito próximos uns dos outros, resultando em uma força de repulsão muito grande, tal qual os polos de um imã, causando seu rompimento. O excesso de nêutrons causa uma força contrária, tal qual sua falta, e também resulta no rompimento do núcleo. Este rompimento libera novos nêutrons que excitam outros átomos que também se rompem e assim sucessivamente causando uma reação em cadeia ou reação nuclear. Uma reação nuclear controlada e de baixa escala se presta a produção de energia e é realizada em usinas nucleares, e uma descontrolada resulta em uma explosão nuclear.




Estes minerais, quando em seu estado natural não atendem os requisitos de instabilidade requeridos, estando estabilizados por outros átomos, e seu uso como material explosivo ou somente físsil, requer que sejam purificados ou como comumente se fala, "enriquecidos", sendo este processo complexo e muito caro, realizados por máquinas especialmente construídas, denominadas ultracentrífugas.

A potência de uma bomba nuclear é dita em megatons (Mt), sendo convencionado que uma unidade destas equivale a potência que seria liberada pela detonação um milhão de toneladas do explosivo TNT ou 4,184 petajoules. Esta energia se fosse convertida em kW/h supriria os EUA em 2007 por 3,27 dias. Também se usa a unidade kiloton (kt) que equivale a uma mil toneladas deste explosivo. A maior bomba não nuclear conhecida, a FOAB termobárica russa produz uma detonação de 44 toneladas de TNT ou 0,3% da potência da bomba de Hiroshima que era de 15 kt, que apresentou um raio de destruição total de 1,6 km e foi detonada a 580 metros, sendo considerada ineficiente. A B53, talvez a maior bomba já construída nos EUA, liberava uma potência de 9 Mt (600 vezes a bomba de Hiroshima) e podia causar uma destruição total num raio de 5 km.

As chamadas "bombas atômicas" são petardos que recorrem a energia nuclear para liberar sua potência explosiva. Este termo é inadequado, visto que bombas convencionais também tem seu poder explosivo que parte dos átomos, sendo o termo "bomba nuclear" mais adequado, visto que a potência liberada tem sua origem na fissão ou desintegração do núcleo atômico.




Tipos de Armas Nucleares

Existem basicamente 2 tipos de armas nucleares: as bombas de fissão e as bombas de fusão. As bombas de fissão (bomba-A) são núcleos de material pesado devidamente processado (enriquecido), normalmente urânio ou plutônio, que são montados no interior de um invólucro de alto explosivo de detonação dirigida que ao ser detonado provoca uma grande pressão sobre o núcleo principal. Esta pressão submete este núcleo a um estresse extremamente elevado fazendo-o atingir uma massa crítica (a mesma massa em um volume muito pequeno) desencadeando desta forma uma reação em cadeia. É uma combinação de bombas de natureza diferentes. As bombas de fusão são também conhecidas com "bombas de hidrogênio" (bomba-H) e funcionam de forma diferente que as de fissão. Uma pequena bomba de fissão detona no interior desta e proporciona condições de temperatura e pressão necessárias a fusão de um isótopo instável do hidrogênio. Uma pequena bomba de fusão também pode iniciar uma bomba de fissão.

As bombas de fusão, também chamadas de bombas termonucleares por serem detonadas a partir de condições especiais de temperatura, são armas extremamente mais potentes suas congêneres de fissão, podendo atingir até 750 vezes a potência destas. Núcleos extremamente leves de hidrogênio e hélio combinam-se para formar elementos mais pesados, libertando neste processo enormes quantidades de energia. As bombas de hidrogênio são a arma mais potente já criada pelo homem e a maior já testada foi um modelo russo de 57 Mt em 1961. Esta bomba possuía a potência de todas bombas usadas na Segunda Guerra Mundial somadas, incluindo as nucleares, multiplicada por 10.



Uma variante de bomba termonuclear é a bomba de neutrons. É um dispositivo termonuclear pequeno, de níquel ou cromo, onde os neutrons gerados pela reação de fusão não são absorvidos pela bomba, e sim liberados para o exterior. Estes neutrons de alta energia e os raios-X que os acompanham são mais penetrantes que outras forma de radiação, de forma que as barreiras para raios gama não os detém eficazmente. Esta radiação altamente penetrante atinge apenas organismos vivos, mantendo intactos as estruturas como as cidades, com nítida vantagem militar.

A detonação de dispositivos nucleares, trás consigo, além dos efeitos imediatos de calor e sopro que destroem tudo dentro de seu raio de letalidade com deslocamento de ar superaquecido provocando efeitos mecânicos e de térmicos, a liberação e dispersão de material nuclear que contamina o meio com radiação, trazendo doenças degenerativas relacionadas a esta radiação, podendo deixar as áreas onde são detonadas inabitáveis por décadas, sendo denominadas "bombas sujas".




Emprego

As bombas nucleares podem ser empregadas estrategicamente destruindo cidades inteiras, ou de forma tática através de artefatos de pequena potência, na faixa de 1/2 a 5 Kt. Estas armas são empregadas de forma muito específica, onde se utiliza apenas um de seus efeitos. Pode-se valer apenas do sopro, apenas do calor, de ambos, ou ainda de seu pulso eletromagnético com efeitos contra sistemas eletrônicos. Seu emprego entretanto esbarra em seus efeitos colaterais de contaminação. Os alvos primários destas ogivas táticas seriam as forças inimigas próximas das forças amigas, onde sua pequena potência preservaria estas e as forças lançadoras.




Ogivas nucleares, podem ser lançadas de aeronaves, mísseis balísticos ou de cruzeiro, ou através de dispositivos de queda livre. Podem partir ainda de submarinos em grandes profundidades, o que torna difícil ao defensor precisar a localização e empreender a vigilância de potenciais lançadores. Podem alvejar cidades, tropas, instalações e dispositivos militares ou submarinos em grandes profundidades, tendo sido já montadas no passado em mísseis ar-ar que atingiriam formações de bombardeiros a grandes altitudes através de seu pulso eletromagnético, além de seus efeitos mais limitados de sopro e explosão no ar rarefeito.

Armas convencionais modernas substituem com vantagens estes dispositivos táticos. Bombas de energia direta como a JSOW produzem descargas direcionadas de micro-ondas (pulso eletromagnético), bombas termobáricas produzem efeitos de 1 Kt, já tendo sido anunciados dispositivos de até 11 Kt. Elas já foram usadas contra bunkers na Chechenia e no Afeganistão.

Embora venham perdendo sua importância frente aos dispositivos convencionais e devido a seus efeitos colaterais, principalmente quanto no emprego tático, as bombas nucleares permanecem soberanas como cabeças de guerra dos grandes mísseis balísticos intercontinentais (ICBM), sejam lançados do solo ou das profundezas marítimas.



domingo, 15 de janeiro de 2017

Salto Livre Operacional - Paraquedismo Militar #


A tropa paraquedista, seja ela composta por grandes contingentes como brigadas ou divisões inteiras, ou por pequenos grupos como aqueles praticados pelas forças de operações especiais; tem como característica fundamental de seu envelope de atuação a elevada mobilidade estratégica proporcionada pelas aeronaves que a vetora. Os exércitos do mundo a utilizam nos tempos modernos como sua primeira linha de resposta devido a sua capacidade de mobilização em tempo mínimo e de se deslocar facilmente a grandes distâncias para atender às demandas que exigem pronta resposta, e taticamente para ocupar pontos sensíveis atrás das linhas inimigas até que a tropa convencional e melhor armada pratique uma operação de junção.

O salto livre operacional é uma modalidade de paraquedismo militar praticado por pequenas frações de tropas, e proporciona ao elemento paraquedista uma flexibilidade maior que o salto enganchado. Grandes contingentes saltam na modalidade de salto enganchado, que força a abertura do paraquedas assim que o indivíduo deixa a aeronave, evitando desta forma que o caos e a confusão se instalem em uma operação de grandes proporções, devido a abertura tardia dos velames.

No salto livre a abertura dos velames fica a critério de cada indivíduo, devendo ser praticado apenas por aqueles com adestramento apurado. Podendo ser lançado de grande altitude, de dia ou à noite, e com um nível de furtividade superior, proporciona ao paraquedista que se desloque planando em queda livre por grandes distâncias, visando o pouso em áreas restritas com elevado grau de precisão quando dotado de equipamentos modernos e alheio aos olhares do inimigo.  Permite ainda que a fração de tropa se reorganize no ar em torno de seu líder, desloque-se por médias distâncias ocultos aos radares e pouse em uma área restrita, que pode ser conjugado com outro processo de infiltração, como o mergulho de combate, por exemplo. 

A técnica denominada de HALO (High Altitude Low Opening - lançamento a alta altitude e abertura do velame a baixa) é uma técnica de infiltração praticada por forças de operações especiais que fazem o salto livre operacional atingir sua performance máxima, pois permite que estas tropas cruzem fronteiras em queda livre com possibilidade de detecção mínima, com aeronaves muito altas e longe das áreas de aterragem e abertura dos velames próximos ao solo. Este tipo de saldo é muito perigoso ao seus praticantes, e deve ser executado dentro da técnica que lhe é peculiar, com risco de morte àqueles que o negligenciarem.

No início do século XX acreditava-se que uma queda longa resultaria em uma velocidade elevadíssima, impedindo a respiração e levando a morte. Em 1925 um instrutor do US Army decidiu provar que quando praticada dentro de uma técnica adequada, estas quedas não ofereciam perigo. Saltando de 2.300 metros, ele atingiu a velocidade terminal após 12 segundos. A medida que a gravidade acelera o corpo do paraquedista em queda livre, a resistência do ar aumenta geometricamente com a velocidade que se estabiliza a cerca de 200 km/h e se mantem. Quanto mais alta a altitude, maior o tempo que se leva para atingir a velocidade terminal, e maior será esta velocidade que poderá se reduzir a medida que se atinge camadas mais densas de atmosfera.

Na técnica HALO  os paraquedistas enfrentam altitudes comparáveis àquelas praticadas pelos alpinistas de elite. Grandes altitudes, da ordem de 9 km apresentam características singulares como temperaturas de -40 graus Celcius e ar extremamente rarefeito, o que exige do indivíduo equipamento capaz de suportar os rigores do salto. Equipamento inadequado pode causar hipoxia, enrijecimento de extremidades e hipotermia, além de danos ao corpo e ao equipamento pelo choque com o granizo. Somente indivíduos bem adestrados e experientes estão autorizados a praticá-lo, pois exige grande nível de especialização. Saltos acima de 10.700 metros de altitude são considerados não viáveis por equipes que devem estar prontas para o combate.

Além dos conhecimentos de paraquedismo, os praticantes de salto livre operacional deverão ter capacidade de navegação a longas distâncias, equipamento adequados às condições de baixa temperatura e hipoxia e outros fenômenos meteorológicos, como o granizo que poderá danificar equipamento de má qualidade.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Reconhecimento, Escolha e Ocupação de Posição #


A ocupação de posição é uma atividade necessária a todas as unidades militares, estejam elas buscando posicionamento tático adequado ao combate ou posicionamento administrativo para que possam desempenhar suas funções na área de operações.

Em condição de combate, a ocupação de uma posição deve cercar-se de cuidados e medidas de segurança a fim de preservar a integridade e poder de combate dos efetivos envolvidos, e ao mesmo tempo permitir que as unidades exerçam com eficiência máxima todas as funcionalidades que lhes são inerentes.

Uma unidade é considerada desdobrada no terreno, e conseguinte em condições plenas de cumprir sua missão quando está com seu material operando em um dispositivo mínimo considerado operacional e com a devida munição disponível, quando a unidade a demandar; suas ligações de comando e controle estabelecidas com um fluxo regular de ordens necessárias através de redes de comunicação orgânicas; sua rede de observação e vigilância instalada e produzindo os informes operacionais afins ou no caso de unidades de apoio a capacidade de inteirar-se tempestivamente das demandas das unidades apoiadas e, seus apêndices logísticos proporcionando o suporte mínimo necessário para que a unidade opere com eficácia.

O desdobramento de uma unidade no terreno deve considerar um grande número de aspectos para que possam cumprir sua missão com a segurança e eficiência. Devem ser observados:
  • Ciência dos planos do escalão superior que possam envolver a unidade, de forma que esta possa estar em condições de oferecer os recursos que este demandar.
  • Tamanho da área a ser ocupada, de forma a comportar todos os meios da unidade, e sua posição relativa na área de operações mais adequada a sua missão.
  • Segurança em relação ao assédio do inimigo, sua posição relativa às unidades mais capazes de absorver o choque direto, inserção na malha de defesa antiaérea do escalão superior, desenfiamento dos campos de tiro das unidades de artilharia do inimigo e cobertura de retaguarda e flancos eventualmente expostos, cobertura natural e capacidade de camuflagem e ocultação.
  • Segurança em relação a infortúnios da natureza, como avalanches, enchentes e enxurradas, deslizamentos, doenças veiculadas por mosquitos e outros meios naturais, frio e calor, presença de animais selvagens perigosos e outros.
  • Estradas e meios de ligação que permitam a unidade cumprir com suas obrigações, que suportem o tráfego necessário e existam em número suficiente, com pontes capazes e áreas de estacionamento suficientes.
  • Capacidade de trocar de posição de forma fluida e natural quando se fizer necessário, com posições nas proximidades se esta possibilidade for considerada importante, bem como a disponibilidade de rotas de fuga ou retraimento.
  • Capacidade de uso do espaço aéreo a partir do solo se esta condição for necessária; disponibilidade de acessos ao mar, rios e lagos.
  • Proximidade de vilas e cidades e os prós e contras que esta localização acarreta.
  • Disponibilidade de água e energia elétrica para as unidades que delas necessitem.
  • Capacidade, em relação a posição, de ser apoiada pelas unidades logísticas e de apoio ao combate necessárias.


O Reconhecimento

Escolhidas as possíveis áreas de desdobramento da unidade através de estudos nas cartas da área de operações, seu estado maior providencia as ações de reconhecimento da posição, onde o pessoal especialista da unidade avalia se as condições das áreas pré-selecionadas atendem as suas necessidades específicas. O reconhecimento deve ser executado por efetivos mínimos de forma a ser ágil e eficaz, envolvendo oficiais mais experientes podendo contar até com o comandante da unidade. Ações de reconhecimento devem levar em consideração a presença do inimigo na área as cercar-se de efetivos de segurança, caso se julgue necessário.

Ocupações de posição se dão em áreas pacificadas e sob controle amigo, porém em combate toda a cautela se faz necessária, pois imprevistos acontecem àqueles mais desavisados e negligentes. São verificadas a adequação da área, se seu tamanho comporta a dispositivo, a situação em relação a forças amigas e inimigas e a capacidade da unidade ali desdobrada operar conforme o esperado.

Pode-se empregar vários meios para o reconhecimento como a observação aérea, a indispensável presença no local pelo alto comando da unidade, além do estudo de arquivos e dados existentes sobre as locações consideradas.

Particularmente importante é o reconhecimento dos itinerários de acesso, a resistência das pontes e as condições das estradas,a presença de áreas minadas e propícias a emboscadas. Também deve ser considerado o volume de tráfego dos itinerários escolhidos, pois em terrenos restritos as estradas podem ser escassas e o deslocamento difícil. Uma unidade que tem seu deslocamento interrompido por problemas, como um congestionamento por exemplo, podem ter sua capacidade operativa prejudicada ou interrompida.

O reconhecimento pode ainda envolver procedimentos técnicos como a pontaria de peças, no caso da artilharia de campanha por exemplo. Pode envolver levantamentos topográficos e trabalhos de engenharia, se dando de dia ou a noite. 

Em campanha o posicionamento das unidades no terreno e em relação a suas pares, bem como em relação ao inimigo é muito importantes e pode fazer a diferença na eficácia operacional desta, principalmente quando se opera em terreno restrito e com poucas estradas e áreas aproveitáveis, tendo-se que dispensar especial atenção a disciplina de tráfego adotada vigente e a existência de congestionamentos, que podem comprometer de forma séria a operatividade de todo o sistema. O congestionamento aéreo e aquaviário também deve ser considerado.




sábado, 10 de dezembro de 2016

Veículo de Combate de Infantaria (IFV/APC) #


Advento do carro de combate a partir da Primeira Guerra Mundial trouxe a solução para o impasse da guerra de trincheiras, criado pelas metralhadoras. Esta nova arma imprimiu maior dinamismo às batalhas permitindo, através de sua proteção blindada que se criassem brechas nos campos de tiro saturados pelo projéteis das armas automáticas. 

O carro de combate veio para ficar, atingindo sua maturidade na Segunda Guerra Mundial e possibilitando a criação da guerra de movimento, denominada pelos alemães de blitzkrieg. Ele agrega couraça, poder de fogo e mobilidade de forma equilibrada, fazendo-o um poderoso instrumento tático. Como todo Golias, estes também não são isentos de vulnerabilidades. As armas anticarro logo começaram a aparecer na forma de fuzis anticarro, rojões e mísseis guiados (ATGMs). A infantaria inimiga logo ganhou condições de fazer frente aos carros de combate e um novo impasse tático passou a existir.

Senhores do campo aberto, os carros de combate (MBTs) passaram a deslocar-se a grandes velocidades alocando o fogo de sua arma principal onde fosse necessário, seja contra outros carros e alvos mais resistentes ou em apoio a infantaria amiga, batendo pontos fortes e facilitando a progressão desta. Porém sua blindagem, um dos grandes trunfos destes veículos, sempre apresentaram o ônus do peso e apesar dos avanços nesta área, um carro que hipoteticamente viesse a contar com proteção blindada total contra tudo o que existe apresentaria um peso que o tornaria inviável, a ainda assim nada impediria que novas contramedidas mais potentes fossem criadas.




Mesmo podendo apresentar uma ameaça devastadora a infantaria inimiga, todos os carros de combate do passado e da atualidade apresentam vulnerabilidade às seções anticarro desta mesma infantaria, contra as quais pouco podem fazer uma vez que estão dispersas e camufladas, e não se pode atingir com eficácia aquilo que não se sabe onde está. A solução encontrada para este impasse tático foi a criação da infantaria de apoio, onde utilizando o conceito de armas combinadas, a infantaria passou a acompanhar os carros principais nos campos de batalha, justamente para lhes proporcionar proteção contra a infantaria anticarro, reduzindo sua vulnerabilidade ante estas ameaças dispersas que o carro de combate principal tem dificuldade de engajar.

Porém necessário se fez conciliar a velocidade de avanço da infantaria com a dos carros de combate, claramente discrepantes. A solução para este problema foi embarcar a infantaria nos chamados táxis de batalha, veículos blindados especialmente concebidos para transportá-la e acompanhar os carros principais. Estes veículos deveriam desenvolver a mesma mobilidade de seus irmãos mais pesados e permitir que a infantaria se apresentasse onde se fizesse necessário para combater, primeiramente desembarcando e numa abordagem mais recente a partir do próprio veículo. A estes veículos denominamos na atualidade de APC (armored personal carrier - VBTP - veículo blindado de transporte de pessoal) e numa evolução deste conceito temos os IFVs (infantry fighting vehicle - VCI - veículo de combate de infantaria), que são APCs capazes de prover apoio ao combate, ou APCs potencializados.

O primeiro IFV produzido em massa foi o Spz 12-3 alemão e serviu o Bundeswehr de 1958 até os anos 80, quando deu lugar ao Marder. Tinha um canhão de 20 mm e levava uma esquadra de 5 infantes. Em 1967 a URSS desfilou o BMP-1 que surpreendeu pelo perfil muito baixo e estava armado com um canhão de 73 mm e mísseis Sagger, transportando um grupo de combate de 8 infantes e mais 3 tripulantes. Sua couraça resistia a impactos de 12,7 mm e parcialmente a 20 mm, dependendo do ângulo de contato. Seu armamento, no entanto era potente contra os APC ocidentais, com notória vantagem.



Os EUA seguiram com o M2 Bradley como seu primeiro IFV, depois de muito tempo usando o APC M113, usado até hoje no mundo inteiro. Surgiram no RU o Warrior e na Alemanha o Marder como já citado. Outros países foram se equipando com modelos próprios, como a África do Sul com o Ratel já em 1971, que foi concebido sobre rodas para avanços rápidos.

Os IFVs são veículos mais potentes que os APCs e capazes de oferecer a infantaria, além de transporte, apoio de fogo e C3I, poís portam canhões automáticos de 20 a 40 mm, mísseis anticarro e eletrônica embarcada que oferecem elevado índice de consciência situacional (o BMP russo surgiu com um canhão de 73 mm). Os APCs geralmente limitam-se ao transporte dos infantes sob a proteção de alguma couraça, e seu armamento orgânico está limitado a armas de autodefesa, principalmente contra aeronaves na forma de metralhadoras pesadas, podendo oferecer seteiras para combate embarcado. As blindagens de ambos são muito inferiores aos dos MBTs que acompanham, basta comparar os pesos de cerca de 30 toneladas nos IFVs mais pesados aos 60-70 toneladas dos MBTs. Podem oferecer ameaças a estes se dotados de ATGMs.


Concebidos para acompanhar os MBTs, ganham importância na atualidade com a intensificação dos conflitos assimétricos e urbanos, cenário ondem dispensam a presença destes. Os IFVs oferecem um bom equilíbrio entre couraça, poder de fogo e mobilidade, principalmente por serem capazes de aeromobilidade em aeronaves não extremamente pesadas, se não houver a exigência de enfrentar MBTs com seu armamento de tubo, claramente insuficiente.


Os IFVs/APCs são montados tanto sobre rodas como sobre lagartas, sendo estes último mais adequados a atuarem com os MBTs como infantaria blindada e os primeiros para comporem tropas mecanizadas, sendo mais leves. As blindagens variam muito e são fator preponderante na determinação do peso do veículo. Os modelos mais leves são capazes de resistir a disparos de infantaria 7,62 mm e alguns 12,7 mm, além de estilhaços de artilharia, podendo também alguns modelos receberem blindagem adicional modular. Os modelos CV-90 sueco e BMP-3 russo são capazes de absorver impactos frontais de 30 mm. A blindagem frontal tende a ser mais resistente, sendo a superior e inferior, além das laterais e traseira mais finas. Modelos mais baixos oferecem menor silhueta e maior facilidade de ocultação, enquanto que projetos mais recentes estão sacrificando a pouca altura em favor de uma maior distância do solo para maior proteção contra IEDs e minas terrestres, principalmente nos modelos sobre rodas. Não é função de um IFV combater MBTs, mas pode fazê-lo de forma limitada se dotados de ATGMs e atuando em apoio aos seus MBTs e em situações extremamente necessárias.


As armaduras modulares dos IFVs mais modernos permitem que ele seja configurado conforme a missão. O finlandês Patria AMV por exemplo, possui módulos de várias espessuras. Este recurso permite uma diminuição do peso, para, por exemplo, valer-se de aeromobilidade. Modelos como o russo BMP-3 contam com sistemas de proteção ativa que o protege de projéteis com velocidades de 700 m/s e os modelo israelenses contarão com contramedidas para munição APFSDS. Estes blindados também podem cruzar muitas pontes que os MBTs não podem, o que lhe garante mobilidade superior e estes.

Outro sistema presente em praticamente todos são dispersadores de fumígenos e alguns modelos contam com Flares para despistar ATGMs IR.

Alguns IFV denominados Heavy Infantry Fighting Vehicle (HIFV) são versões IFV de carros de combate principais (MBTs) e dotados da mesma blindagem, por consequência igualmente pesados. Como exemplo deste carros temos o T-15 Armata russo derivado do T-14 e o Namer baseado no chassi do Merkava IV.

Outra característica presente em muitos IFVs e APCs, principalmente devido ao seu baixo peso é a flutuabilidade que lhe permite capacidade anfíbia em águas interiores. Esta característica é especialmente interessante naqueles veículos que atuam na cavalaria mecanizada, fazendo as pontas de lança de forças maiores e encarregadas de assegurar a outras margem dos rios para que as forças que vem depois possam realizar a travessia dos cursos d'agua através de pontes lançadas pela engenharia de combate de forma segura. A tração sobre rodas dá aos veículos assim equipados a capacidade de deslocamento a grandes distâncias por estradas, enquanto que aqueles sobre lagartas dependem de pranchas ou transporte ferroviário para deslocamentos estratégicos. Já em terrenos muitos difíceis a propulsão a lagarta se faz superior aquela sobre rodas, porém estes sempre são a distâncias mais curtas.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A Evolução Recente da Infantaria #


baseado no C7-1

A infantaria moderna consolidou seu modo de combate com o advento das últimas tecnologias que surgiram a partir da Primeira Guerra Mundial. As formações rígidas, herdadas das antigas falanges gregas e baseadas no fogo contínuo e nas formações em linha, deram lugar a moderna forma de combate baseadas na combinação de fogo e movimento denominada manobra.

Já nos idos da revolução francesa a infantaria passou a libertar-se das rígidas formações geométricas de outrora e dos intervalos para mudança de formação, adquirindo maior flexibilidade, evolução esta catalizada pelo surgimento do fuzil moderno, carregado pela culatra, com maior alcance e precisão, e maior cadência de tiro. Intervalos entre as formações passaram a existir, batidos pelo fogo de armas mais potentes.

O início do século XX consagrou as novas práticas de combate, lastreadas pelos avanços da revolução industrial, e permitiu a infantaria já dotada dos fuzis em substituição aos ultrapassados mosquetes e arcabuzes e das metralhadoras que passaram a prover volume de fogo ao campo de batalha, firmar-se no seu papel de núcleo e base de qualquer força terrestre.

As primeiras metralhadoras, inicialmente pesadas e entregues a artilharia, foram evoluindo e tornando-se mais leves e práticas, forçando o infante a procurar abrigo junto ao solo. Companhias de armas automáticas foram criadas e a guerra entrou no impasse da guerra de trincheiras, característica da Primeira Grande Guerra.




Apoiada pelas outras armas, a infantaria passa a atuar com o apoio das bocas de fogo da artilharia e com a proteção dos carros de combate da cavalaria, formando com essa um binômio usado com sucesso até os dias atuais, recuperando a impulsão perdida com o advento das metralhadoras. Com maior impulsão surgem os obstáculos artificiais que potencializam os naturais, como os campos minados, o que leva ao surgimento da engenharia de combate como forma de não frear a recém conquistada recuperação da impulsão em combate.

A guerra civil espanhola já faz uso intenso da motorização e a Segunda Guerra Mundial disponibiliza ao infante proteção blindada, permitindo a estes acompanharem os carros de combate, proporcionando-os proteção contra a infantaria inimiga, desembarcando quando já bem próximos desta. Os tempos contemporâneos também trouxeram a aviação que potencializou a infantaria com fogos de apoio e mobilidade nunca antes experimentada.




As lições da grande guerra da segunda década do século XX consolidaram o batalhão como unidade tática padrão da infantaria e organizaram os homens em torno das metralhadoras, formando as esquadras e grupos de combate, que por sua vez integram os pelotões e estes suas companhias. As esquadras atuam pelo conceito do fogo e movimento e proteção mútua, enquanto uma progride a outra a cobre pelo fogo, em movimentos alternados, formando os grupos de combate (GCs). Esta organização mostrou-se eficaz e se mantem atualmente.

Interessante se faz dizer que os avanços táticos ao longo dos tempos são frutos do avanço técnico das armas, pois são suas possibilidades que permitem as novas práticas de combate. Os avanços implementados já no início da Primeira Guerra Mundial podem ser listados como: O fogo passou a restringir o movimento, o combate esquemático deu lugar ao flexível fazendo uso do abrigo e da dispersão, a organização do terreno passou a ter grande valor com a construção de posições fortificadas e o infante aproveitando-o de acordo com suas características dando-lhe um aspecto de esvaziamento, os dispositivos passaram a ser desdobrados em profundidade para melhor a absorção do choque inimigo e a ênfase da defensiva sobre a ofensiva, em parte obrigada pela impasse das trincheiras.




Já na Segunda Guerra Mundial passou-se a buscar os pontos fracos do dispositivo e a infiltração que permite o assédio aos flancos e a retaguarda, menos defendidos, colocando-se dessa forma em posição vantajosa e dando a ofensiva sua importância perdida. Com comunicações mais eficientes, a infantaria passou atuar de forma combinada com a cavalaria, a artilharia e a engenharia de combate, potencializando o poder de cada uma.

A Guerra russo-japonesa deu início às operações noturnas como forma de superar o devastador fogo das metralhadoras. Os meios aéreos e mecanizados permitiram a partir da Segunda Grande Guerra as manobras de envolvimento, potencializadas pela introdução do helicóptero, que teve sua primeira guerra de peso no Vietnam. 




O grau de urbanização alcançado no Século XX tornou os centros urbanos cenário para as guerras de resistência, onde o carro de combate passa a ter papel secundário e infantaria cresce no seu grau de importância, atuando como protagonista das operações. O combate em localidade se mostra como um grande problema aos comandantes militares e a flexibilidade do infante vem de encontro a mais este desafio, pois só ele pode efetuar a varredura das edificações, casa por casa, rua por rua. O carro de combate, senhor do campo aberto, atua também neste cenário, porém como arma de apoio, assim como a artilharia, a engenharia de combate e os helicópteros. As forças irregulares, cada vez mais presentes nas batalhas modernas, atuam muitas vezes mescladas à população civil e cabe a infantaria fazer esta distinção e atuar seletivamente.



O combate embarcado, onde carros especialmente construídos (IFVs) permitem a infantaria atuar protegida pela couraça e ao mesmo tempo acompanhar os carros de combate, valendo-se de proteção mútua com armas potentes orgânicas em seus veículos, passaram a povoar as forças de choque dos exércitos do século XXI, modernizando o conceito de armas combinadas e tornando a infantaria blindada ainda mais eficaz. A infantaria também aprendeu a lançar-se a partir do mar, já nos meados do século passado, através do aperfeiçoamento das técnicas de assalto anfíbio e dotando as marinhas de guerra de poder para estabelecer cabeças de praia amplas e seguras, para que tropas mais numerosas possam desembarcar com tranquilidade. A infantaria conquistou os céus, e através de assaltos aeroterrestres possou a posicionar-se em qualquer ponto dentro de território inimigo, garantindo o domínio de pontos sensíveis até que tropas por terra venham ao seu encontro, em operações de junção.



A tecnologia disponível a partir da última metade do século XX passou a oferecer recursos nunca antes disponíveis, como a capacidade de combater à noite de forma inquestionável e as novas proteções de kevlar que oferecem proteção eficiente sem o ônus das pesadas armaduras dos soldados de outrora. Os desenvolvimentos da tecnologia digital passaram a oferecer a capacidade de NCW a cada um dos infantes, permitindo um grau de comando e controle, assim como de consciência situacional excepcional. Um general, sentado em sua poltrona em seu QG permanente, pode visualizar o que uma esquadra está vendo em combate do outro lado mundo em tempo real, assim como a disposição de seus pelotões e companhias, intervindo se necessário como se lá estivesse. O helicóptero veio para lhe oferecer mobilidade sem igual, permitindo-lhe posicionar-se pontualmente em longas distâncias e tempos curtos, transpondo facilmente obstáculos, combater e em seguida ser recolhida e mudar de posição dando dinamismo ao espaço de batalha.



Seus princípios  e características permanecem, no entanto inalterados. Combater em qualquer terreno e sob quaisquer condições meteorológicas, tendo o indivíduo como núcleo de sua força, onde se sobressai a competência individual e o adestramento, a capacidade de liderança e a fortaleza moral. A capacidade de fazer fogo de uma distância de onde se pode ver as expressões faciais do inimigo, em seguida movimentar-se e fazer fogo novamente, são exclusividades desta arma, base dos exércitos de todo o mundo.  




domingo, 20 de novembro de 2016

O Sonar #



O Sonar é instrumento fundamental da guerra anti-submarino. Ele é um dispositivo criado para detectar e localizar objetos submersos na água por meio das ondas sonoras que os alvos refletem ou produzem.

O sonar ativo funciona basicamente como o radar, só que usa pulsos sonoros no lugar das ondas de rádio. As ondas de rádio não se propagam sob a água, além de poucos metros.

O pulso do sonar é emitido e ao encontrar um obstáculo, retorna ao emissor. Medindo-se o tempo que o pulso levou para ir e voltar, tem-se como calcular a distância do objeto ecoado com “relativa” precisão. A precisão é “relativa” porque os pulsos do sonar sofrem diversos tipos de atenuação causados pela temperatura, salinidade e pressão da água, que mudam de acordo com as estações do ano, posições geográficas e condições atmosféricas.

O som é uma ondulação mecânica cuja propagação é possível por causa da conexão elástica entre as moléculas. As moléculas nos líquidos estão mais próximas umas das outra do que no ar, por isso a velocidade do som na água é 4,4 vezes maior que no ar. A velocidade exata do som na água é de 1.438 m/s, quando a temperatura da água é de 8 graus Celsius.

A velocidade e a direção das ondas sonoras dependem da temperatura, salinidade e profundidade da água. Por exemplo, o aumento da temperatura da água faz com que a velocidade do som seja maior. Quando o som se propaga através de camadas de água de diferentes temperaturas, ocorre o fenômeno da refração, que é o desvio da onda sonora. A refração pode ser negativa (verão) ou positiva (inverno).



Refração negativa (gráfico acima): durante o verão, a temperatura da água diminui com o aumento da profundidade. A onda sonora se desvia para o fundo do mar. Se submarino está em menor profundidade, perto da superfície, o sonar do navio pode não detectar o submarino.



Refração positiva (gráficos acima): durante o inverno, a temperatura da água aumenta com a profundidade. As ondas sonoras se curvam para a superfície do mar. Se o submarino está junto à superfície do mar, o sonar do navio pode detectá-lo. A refração positiva torna o alcance do sonar maior.



As termoclinas (gráfico acima): quando se usa um batitermógrafo, é possível detectar camadas de água onde a temperatura é maior do que a camada mais quente da superfície e que tem logo abaixo dela, uma camada de água mais fria. Quando encontra uma camada de temperatura menor, a onda sonora se curva rapidamente para o fundo. A onda sonora vai para o fundo do mar e torna-se inútil. Se um submarino está submerso na termoclina ou abaixo dela, ele não será capturado pela onda sonora e assim permanecerá indetectado.

Existem normalmente duas camadas de termoclinas no verão. Uma camada fica a cerca de 15 a 20 metros de profundidade, e uma outra em torno de 150 metros de profundidade. A de profundidade de 15 a 20 metros é importante, porque durante o verão, à tarde, se as condições climáticas são boas, um submarino não pode ser detectado por um sonar de casco de navio.

Ao mesmo tempo, essa profundidade é boa para observação e lançamento de torpedos. Se um navio de superfície pretende detectar um submarino, ele terá de ser equipado com sonar rebocado de profundidade variável (VDS). Nesse caso, o sonar deve ser mergulhado abaixo da termoclina.



O sonar ativo, principal sensor abaixo d’água dos navios de guerra anti-submarino, emite pulsos sonoros popularmente conhecidos como “ping”, que ao encontrarem um obstáculo, retornam ao emissor. Medindo-se o tempo que o “ping” leva para ir e voltar, tem-se como calcular a distância do objeto ecoado com “relativa” precisão. Mas os pulsos sonoros sofrem diversos tipos de atenuação e alteração na sua velocidade, causados pela temperatura, salinidade e pressão da água, que mudam de acordo com as estações do ano, posições geográficas e condições atmosféricas.

Já que o mar é um ambiente dinâmico, principalmente com os navios em movimento, as camadas termais podem mudar de profundidade, alterando a curva de alcance do sonar. Essas curvas de alcance são computadas com dados obtidos no lançamento de sondas batitermográficas (XBT), que vão mergulhando e transferindo para o navio ou aeronave, a localização das camadas termais naquele momento, a pressão da água, salinidade, dados esses que permitem obter a velocidade do som em dada profundidade. Essas sondas são lançadas periodicamente.

Notar que no desenho, parte do feixe do sonar emitido pelo navio, se propaga próximo da superfície, no fenômeno conhecido como “duto de superfície” e parte do feixe se desvia para baixo, voltando para cima logo adiante (por causa do aumento de pressão, que eleva a velocidade do som). O desvio dos feixes sonoros deixa uma zona de “sombra”, na qual o submarino normalmente procura se ocultar, pois ele também possui batitermógrafo e sabe qual é a profundidade da camada.

Nessas condições, o submarino conhece a posição do navio de superfície, porque usa o sonar passivo, que usa hidrofones só para escuta. Normalmente, o alcance do sonar passivo de um submarino é no mínimo o dobro do alcance do sonar ativo de um navio de superfície, o que lhe dá uma enorme vantagem tática.



Submarinos sabem com antecedência onde estão os navios inimigos, ouvindo o ruído de suas máquinas e a emissão dos seus sonares ativos. Desse modo, os submarinos podem ocultar-se na camada termal e esperar o melhor momento e posição para o ataque.

Em certas condições, os submarinos conseguem escutar navios de superfície a mais de 50 milhas de distância, enquanto o alcance típico do sonar ativo dos navios gira em torno de 10 milhas (excetuando-se as situações de “zona de convergência”). Os sonares ativos de helicópteros têm alcance ainda menor, pois são sonares de alta frequência.

Para enfrentar o problema das camadas termais, usa-se o VDS (sonar de profundidade variável), que pode ser mergulhado dentro da camada. Como desvantagem, o sonar de profundidade variável tem alcance menor que o sonar de casco, pois normalmente emprega altas frequências devido ao pequeno tamanho do transdutor. O VDS também limita a mobilidade do navio, que não pode navegar em altas velocidades nem fazer manobras bruscas, sob o risco de arrebentar o cabo e perder o “peixe”. 

Nas fotos abaixo, dois tipos de “peixes” VDS, um canadense e outro francês.