"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sábado, 7 de abril de 2018

Planejamento Militar - Parte 1 #



O planejamento militar é o conjunto de percepções e intenções que surgem quando um problema militar tem que ser resolvido, entendendo como problema militar uma situação em que forças antagônicas estão predispostas a impedir que a intenção do comando, seja ele qual for, seja cumprida. Cabe ao Estado Maior (EM) das forças encarregadas de resolver este problema executar o planejamento que deve resultar em um plano de ação factível, realista e que traga as mínimas consequências colaterais possíveis, sempre buscando poupar vidas e integridade ambientais e das estruturas. A solução do problema militar é o restabelecimento de uma condição anterior ou a criação de uma nova condição desejável, e é de responsabilidade do comandante designado, que deverá aprovar o que o EM planejar, bem como orientar este planejamento.

Uma ação militar envolve a movimentação de tropas e meios militares, seja com ou sem resistência, que deverá contar com todo o apoio necessário, dentro de um envelope de segurança aceitável com riscos calculados, devidamente coordenado e com seus efeitos avaliados, e se necessário com a implementação de ações complementares que visem aproximar estes efeitos da condição desejada, visando cumprir os objetivos traçados, sempre buscando a eficiência máxima.

O comandante e seu EM planejarão sua ação e transmitirão ordens operativas, que devem ser claras e objetivas (vide Princípios de Guerra). O planejamento dar-se-á em todos os escalões de comando, envolvendo militares de diversas patentes, sendo atribuição dos oficiais, porém poderá envolver praças se aqueles não estiverem disponíveis e a situação assim o exigir, pois na guerra nem sempre os meios que se tem são os desejáveis.

Uma ação militar bem executada é aquela que cumpre seu objetivo preservando a integridade material e pessoal dos fatores envolvidos ao máximo, preservando a vida de civis e soldados, bem como a integridade das estruturas. A habilidade dos planejadores é o primeiro passo para se alcançar este objetivo primeiro.

O Processo de Planejamento Militar (PPM) é a ferramenta que os oficiais planejadores utilizam para conduzirem sua atividade. O PPM não desenvolve no comandante e em seus oficiais, habilidades individuais ou criatividade e perspicácia, mas se vale das idéias e capacidade de resolver problemas dos que já possuem estas habilidades, não se prestando a criá-las.

A complexidade da guerra moderna decorrente de toda a estrutura tecnológica de que é dependente torna impeditiva a condução de uma operação militar unicamente pelo comandante, mesmo que brilhante, tão complexos os problemas que se apresentam. A volatilidade das situações e mesmo a possibilidade do comandante estar impedido de comandar, além da necessidades de coleta de inteligência, análise e síntese, requer a presença de uma assessoria na forma do EM, afinal um grupo trabalha melhor que cada um de seus integrantes isoladamente.

O PPM se dá em 3 etapas: Primeiro a análise da situação com a inserção da missão no cenário existente e a coleta de inteligência para subsidiar esta primeira etapa, elencando os desafios e obstáculos para se chegar ao objetivo; depois se parte para a coleta de inteligência para verificar a exeqüibilidade das idéias e hipóteses iniciais, com o desenvolvimento do plano de ação com a emissão das ordens de execução subsequente; e finalmente o controle da operação e avaliação dos resultados.

A primeira etapa é a base do processo. Reconhece-se o problema militar, analisa-se minuciosamente a missão, e se coaduna as conclusões iniciais com as características da área de operações e seus fatores. Considera-se o tempo e forças disponíveis, as distâncias envolvidas, condições meteorológicas e do terreno. Analisa-se também as possibilidades de reação do inimigo, identificando linhas de ação prováveis e decide-se qual a melhor estratégia a adotar, demandando os serviços de inteligência necessários a tomada de decisão.

Na segunda etapa, baseada na linha de ação adotada, parte-se para a elaboração de um plano detalhado, tão detalhado quanto a situação o exigir, e expede as ordens aos seus comandados. Novamente serviços de inteligência necessários ao detalhamento do plano serão demandados.

Na terceira etapa acompanha-se o desenrolar da operação efetuando correções onde se fizerem necessárias.

O PMM é flexível, cíclico e contínuo. Flexível porque pode ser usado na solução de qualquer problema militar, simples ou complexo, operacional ou tático, não sendo suas etapas rígidas, podendo ser desenvolvidas ou mesmo eliminadas. O método (PPM) é que deve adaptar-se ao problema. Cíclico porque pode-se desenvolver partes já desenvolvidas tantas vezes quanto for necessário, a luz de novos fatos ou melhor análise. Contínuo porque o planejamento só cessa com a resolução do problema ou seja, o cumprimento da missão.

Um PMM deve ser conduzido a luz de preceitos fundamentais. Primeiro que somente se aceite como verdadeiro aquilo que se apresentar claro e indiscutível. Segundo deve se analisado em partes, tantas quanto necessárias, a fim de simplificar cada ponto a facilitar sua análise e encaminhamento. Terceiro que cada decisão em particular deve ser somada às outras a fim de partir do simples para o complexo. Quarto que todos os fatos e conclusões devem ser enumerados, permitindo que tantas revisão quanto necessárias sejam efetuadas eliminando a possibilidade de se omitir de aspectos relevantes.

A sistematização do PPM confere confiança a quem o executa, reduz a subjetividade das conclusões e traz mais confiabilidade ao plano.

Ao empreender um PPM os oficiais planejadores concluem suas sínteses e análises elencando o que as forças devem fazer, na forma de ordens que na prática são a missão de cada uma das tropas ou atores envolvidos. Um quadro sistemático será elaborado com as tarefas serem realizadas e os efeitos que se deseja de cada uma, sendo a soma destes efeitos a condição que se espera culmine no cumprimento da missão.

As ordens podem ser emitidas determinando qual tarefa a se cumprir, ou qual o resultado que se espera, ou ambos. Por exemplo, o comandante do batalhão pode determinar que a 1ª Cia Fuzileiros domine uma “cabeça de ponte” sobre um determinado rio (tarefa a ser realizada), ou determinar que seja garantida a transposição deste rio para que uma coluna mecanizada possa transpô-lo sem problemas sem dizer como (efeito desejado), ou ambos. 

É importante que os operadores da missão se concentre em seu objetivo principal (transpor o rio ou dominar a ponte) não perdendo tempo e recursos com objetivos não relacionados a missão. Objetivos eventuais, por exemplo um comboio logístico inimigo casualmente encontrado, podem ser atacados desde que não coloque em risco o cumprimento do objetivo principal. No filme “O resgate do Soldado Ryan” o Capitão Miller ordenou o ataque a uma posição alemã casualmente encontrada. Seu argumento foi que o objetivo era vencer a guerra e qualquer ação contra os alemães somava. No entanto se seu ataque resultasse na inoperância de seu grupo, sua busca pelo paraquedista perdido não seria levada a efeito, ou seja, sua missão (objetivo principal) não seria cumprida. Além do objetivo principal podem ser designados objetivos secundários, tarefas que podem ser cumpridas mas não tem a importância do objetivo principal (se der execute, se não deixa pra lá). Por exemplo, no caminho para a ponte tem um transformador de alta tensão que supre uma instalação inimiga e deve ser neutralizado, destruam-no se possível (se der coloquem explosivos nele, senão depois mandamos alguém fazer isso). Desta forma deverá estar claro aos operadores qual é o objetivo da missão (vide Princípios de Guerra).



Assim podemos definir missão como sendo o binômio “tarefa a cumprir + propósito” unidos pela expressão “a fim de”. Dizer “o que fazer” e “porque fazer” é a função do enunciado da missão.  Por exemplo a missão da 1ª Cia de Fuzileiros poderia ser de “Dominar a ponte sobre o Rio Diamante a fim de garantir que a FT Blindada Azul possa transpô-lo imediatamente”. Uma missão poderá conter mais de uma tarefa e mais de um propósito, mas deverão estar sempre unidos por esta expressão, uma única vez. Uma missão poderá ser imposta pelo escalão superior ou empreendida por iniciativa do próprio comandante, sendo que esta deverá estar dentro dos propósitos dos objetivos perseguidos e ser plenamente factível, não sendo admitidas aventuras duvidosas.

Diretiva ou Ordem de Operações é o nome do documento que contém a missão, e é composta, normalmente, por 5 títulos principais e numerados como segue (modelo sugerido, existem outros):
  1. Situação
    1. Forças Inimigas
    2. Forças Amigas
    3. Meios
    4. Hipóteses Básicas
  2. Missão
    1. (tarefa) + “a fim de”
    2. (propósito)
  3. Execução
    1. (decisão)
    2. (tarefa das forças componentes)
      1. força a
      2. força b
      3. etc..
  4. Logística
  5. Comando e Comunicações
  6. Outros (administração e assuntos civis por exemplo)
Cada comandante subordinado deverá retirar da diretiva vinda do escalão superior a tarefa que deve empreender (sua missão designada – item 3.2), sendo seu propósito a decisão de seu superior (item 3.1), para elaborar sua própria diretiva. No título “3. Execução” cada parágrafo refere-se a uma força componente a cada comandante deverá identificar o seu.

Quando a decisão da diretiva superior (ítem 3.1) for igual ao propósito (ítem 2.2) da diretiva do comandante subordinado, este propósito deverá ser retirado diretamente da missão (item 2.1) da diretiva superior, pois cabe a este comandante desenvolver o esforço principal. Se o comandante não estiver sozinho no empenho do esforço principal ou estiver em missão de apoio/proteção, seu propósito sempre se inciará com a expressão “contribuir para”.

Por exemplo a 10ª Bda Inf Bld expede uma ordem de operações cuja missão é "Desdobrar meios para transposição do Rio dos Remédios pela rodovia 880 a fim de permitir que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780". No título Execução diz: 
  1. O 101º Btl Eng Cmb desdobrará seus meios para transposição do Rio dos Remédios em D+15, 
  2. O 110º Btl Inf Bld ocupará a área de transposição a fim de contribuir para a segurança da transposição do Rio dos Remédios pelas forças designadas, 
  3. A 120º Bia AAAé proverá segurança antiaérea à transposição desde o início dos trabalhos de desdobramento de meios, a fim de contribuir para a segurança da transposição do Rio dos Remédios pelas forças designadas.
No seguimento o comandante do 101ª Btl Eng Cmb emite sua diretiva: Desdobrar meios para transposição do Rio dos Remédios em D+15 a fim de permitir que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780; e o 110ª Btl Inf Bld a sua: Prover segurança a área de transposição a fim de contribuir para que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780.

Outras formas de diretivas são possíveis e poderão apresentar-se em formatos rígido ou não, cabendo neste caso aos comandantes subordinados extraírem suas tarefas do local onde estiverem dispostas.

Parte 2 - O Exame da Situação 


terça-feira, 27 de março de 2018

Planejamento Estratégico #




Um governo, ao conduzir uma situação de crise deve seguir uma escala de percepções e ações que permita reagir aos acontecimentos sempre na medida adequada, evitando-se o uso desnecessário de medidas retaliatórias, que possam radicalizar a crise ou mostrar uma reação insuficiente, que demonstre fraqueza e omissão, encorajando a escalada dos fatores adversos. Os analistas dos serviços de inteligência devem estar atentos a fim de recomendarem aos seus “tomadores de decisão”, quais as medidas mais adequadas a serem adotadas em cada tipo de crise, evitando-se a surpresa estratégica.

O planejamento de emprego das expressões do poder de uma nação deve ser constantemente revisto em face a evolução da tecnologia existente e a disponível, a capacidade industrial e seu nível de aprestamento, e a configuração de ameaças possíveis, prováveis e eminentes. A situação política internacional que afete a nação, com suas alianças e antagonismos deve servir de norte a este planejamento.

As medidas a serem adotadas em situação de crise deverão ser diretamente proporcionais a discrepância do poder relativo entre os antagonistas e a importância do objetivo a ser perseguido, bem como a liberdade de ação de cada um. Empreender uma ação militar contra a Coréia do Norte por parte dos EUA, por exemplo, é totalmente diferente de tomar tal atitude em relação a Cuba, primeiro porque a primeira é supostamente uma potência nuclear, e segundo porque está sob a esfera de influência da China. Quando o Iraque invadiu o Kwait a resposta se deu prontamente, porém quando a Rússia invadiu a Criméia a reação foi bem diferente.

Nos cenários de grande liberdade de ação pode-se optar pela ação militar diretamente, resolvendo a crise rapidamente. Quando o poder militar inimigo é considerável, geralmente opta-se pelas retaliações e ações militares mais comedidas e de pequena envergadura. Neste caso podem ocorrer atritos localizados, porém evita-se um engajamento total, principalmente se houver a posse de armas nucleares pelo inimigo.

A estratégia da dissuasão é muito usada quando a capacidade de retaliação contra o inimigo é grande, e este evita o confronto, ou quando ambos são fortes e o confronto resultaria em grandes prejuízos a ambos. Esta estratégia foi muito usada na Guerra Fria e sua filosofia baseava-se na certeza da destruição mútua, pois as capacidades nucleares de ambos eram muitas vezes superiores às realmente necessárias. Ambos os lados sabiam que não haveria vencedores, o que garantia, desta forma que ninguém desse o primeiro tiro. Quando se trata de armas nucleares é uma estratégia perigosa e um pequeno erro ou acidente pode resultar em conseqüências severas. A dissuasão também é usada pelo mais forte contra o mais fraco, pois a simples ameaça de uso de um poder avassalador pode fazer este a aceitar as condições impostas.

Quando o objetivo não é vital e o poder militar não é supremo, procura-se intimidar através de estratégias de pressão. Neste caso também evita-se o confronto direto mesmo o poder militar sendo muito superior, se a liberdade de ação for pequena. A crise dos mísseis cubanos é um exemplo de pressão, pois apesar da URSS ser dona de grande poder militar, recuou seus navios diante de um adversário igualmente poderoso cuidando de seu “quintal”. Neste caso ações no campo diplomático e da propaganda são mais eficientes, como as demonstrações de força e os desdobramentos e retóricas das chancelarias.

Os conflitos propriamente ditos são usados quando o objetivo tende a ser muito importante, e mesmo o poder militar estando aquém do desejável, ele preocupa o inimigo.  Neste caso países poderosos aplicam poder militar avassalador como os EUA em sua invasão ao Iraque e os Nazistas em sua invasão a Polônia, com conflitos sendo decididos em tempos reduzidos. Conflitos de longa duração são desgastantes e muito caros, e tendem a ser evitados na atualidade, porém se o objetivo for muito importante e o poder militar fraco, de ambos os lados, estes tendem a acontecer. As guerras do Oriente Médio, ainda não resolvidas, são um exemplo deste conflitos de desgaste. Este tipo de conflito é geralmente norteado pela estratégia da resistência. Esta estratégia visa degradar moralmente um inimigo mais poderoso, inflingindo-lhes baixas não decisivas, mas que gradativamente diminuem sua vontade de lutar. A FNLV (Viet Cong) o EVN usaram esta estratégia no conflito do Vietnam, e apesar da inferioridade militar, venceram o conflito.

A estratégia da resistência consiste em manter-se operacional, mesmo com meios limitados, estrategicamente manter-se na defensiva evitando-se o dispêndio de recursos que não existem em ações de grande vulto e taticamente na ofensiva com constante fustigação das fileiras inimigas através de ações de guerrilha. Isto obriga o inimigo a dispersas forças e facilita a ação dos atacantes.

Quando o objetivo é importante e os meios limitados, bem como a liberdade de ação pequena, adota-se a estratégia das ações sucessivas, onde uma série de ações em todos os campos de atuação possíveis complementam-se, buscando-se um objetivo final e importante a partir da conquista de objetivos menores e aparentemente não muito importantes. Ações políticas, diplomáticas, psicológicas e militares, aplicadas sucessivamente, em intensidades diferentes, servem de apoio umas às outras. A busca de objetivos aparentemente não importantes, não despertará no inimigo um grande empenho em sua retomada; ações militares pontuais, rápidas e violentas consolidarão estes objetivos que servirão de trampolim para o objetivo final. Esta estratégia combina a ação direta (militar), o conflito violento, a pressão indireta, e a estratégia de resistência. As ações políticas, de natureza diplomática e psicológicas se mostrarão dominantes nesta modalidade estratégica. Esta forma tende a ser a mais usada na gestão de crises que envolvam o confronto direto entre forças não hegemônicas, sendo uma empreitada longa e vence aquele que tiver maior resiliência.


sexta-feira, 23 de março de 2018

Política, Estratégia e Poder #




Os estados, através de seus governos buscam a consolidação de seus interesses nacionais. Quanto mais rico e evoluído o estado for, maior e mais complexa será esta teia de interesses, e por consequência a constituição dos instrumentos e a formulação de políticas para perseguir estes interesses. O estado mais poderoso da atualidade são os EUA, que por exemplo, mantém bases militares no mundo todo, pois seus interesses se estendem sobre todo o globo, sejam econômicos ou de segurança.

Estes interesses podem ser legítimos ou não, e por vezes podem se sobrepor aos interesses de outros estados, gerando os conflitos. Podemos citar o expansionismo nazista, principalmente sobre o território russo que era visto como um espaço vital para que a pretensa Grande Alemanha pudesse ser suprida com sua crescente necessidade de recursos naturais.

As nações do mundo, no intuito de defender os interesses nacionais de cada estado de uma forma harmônica entre todos, criaram a Organização das Nações Unidas (ONU), órgão supranacional que agrega vários sub-órgãos subordinados que cuidam de áreas específicas, como a UNESCO, o UNICEF, Conselho de Segurança, a OMC, etc... Estas organizações atuam criando mecanismos legais que se aplicam aos países signatários, que funcionam como leis internacionais e na maior parte das vezes são capazes de resolver os conflitos que não raro surgem nas relações entre as nações do mundo.

Estes mecanismos, entre outras funções, procuram disciplinar o uso do mar que é considerado um território internacional, impor políticas quanto as armas de destruição em massa como as nucleares por exemplo, auxiliar a zonas de calamidade e desarranjo social, traçar políticas no sentido da preservação do meio ambiente global, resolver e minimizar no menor espaço de tempo possível as situações de conflito armado e outras situações que representem a quebra da normalidade ou constituam ameaças internacionais, disciplinar o comércio internacional, preservar o patrimônio cultural e outras questões necessárias.

Segundo a ONU, existem cerca de 194 países no mundo, detentores de diferentes realidades econômicas, sócio-culturais, de recursos naturais e de localização geo-política. A disparidade destas realidades é muito grande, seja no tamanho de seus territórios ou seus pesos sócio-econômicos. Cada qual, teoricamente, guardião sua soberania e garantidor da própria segurança. Como esta condição, tal qual afirmada, está bem longe da realidade, os estados formam alianças regionais e mundiais, que garante que a soberania relativa de cada um seja respeitada, pelo menos de forma aparente. A ONU representa a maior destas alianças, e de uma forma ainda imperfeita, garante uma certa ordem jurídica em um mundo altamente desigual. Relações comerciais e interesses de toda ordem contribuem para que os mais poderosos, mesmo que informalmente, abriguem os mais fracos sob seus “guarda-chuvas” protetores, formando as chamadas esferas de influência.

Estas esferas são formadas por interesses em comum, principalmente comerciais, mas também pela identidade cultural entre os povos. Assim existem fortes laços entre norte-americanos e britânicos, portugueses e brasileiros, alemães a austríacos, entre outros. Antigas colônias possuem tratados com suas metrópoles de outrora. Seguindo os EUA como potência hegemônica, Rússia e China vêm logo atrás, assim como outras potências nucleares como Reino Unido e França. Armas nucleares são um grande trunfo no balanço do poder militar mundial. Ciência e tecnologia fazem a diferença no poder destas potências, e organizações não estatais como o Taliban no Afeganistão e o Estado Islâmico no Oriente Médio também exercem sua influência. Um único porta-aviões dos mais de 10 que os EUA tem, é mais poderoso que a maioria da forças aéreas do mundo, tal a discrepância no balanço do poder mundial.

Assim um estado enseja ter acesso à água, à terras férteis, à rotas para que seu comércio possa fluir, a recursos naturais como minérios por exemplo, à licenças para expansão de suas fronteiras econômicas, à áreas de pesca, etc...

Vale frisar também que as medidas adotadas pelos acordos internacionais, especialmente no âmbito da ONU, carregam consigo um grande peso imposto pela vontade dos países mais poderosos, porém estes nem sempre conseguem impor suas vontades e por vezes a união dos países de menor expressão ou maioria fica valendo. Devido a uma estrutura criada quando da sua fundação, os EUA, A Rússia, A China, a França e o Reino Unido tem poder de veto no Conselho de Segurança, não por acaso os vencedores da Segunda Grande Guerra. 





Política, Estratégia e Poder

A Política é o instrumento de relacionamento entre as pessoas e por consequência entre as nações. Através dela os governos formulam os objetivos que pretendem alcançar e definem os rumos que a estratégia deverá seguir. A Estratégia é o instrumento que a política usa para definir os caminhos que deverão ser seguidos para alcançar os objetivos traçados. Cabe a estratégia definir opções, considerar recursos, riscos e prioridades. É o conjunto de procedimentos a serem seguidos a fim de se chegar a solução de um determinado problema. Enquanto a política é subjetiva e depende muito da visão do estadista, a estratégia segue uma metodologia mais objetiva e um roteiro mais rigoroso de planejamento e aplicação do poder em proveito dos objetivos políticos.

Os problemas em questão podem ser temporários e pontuais, ou poderão ser permanentes e de longa duração. A estratégia definida dependerá destes fatores, dos recursos a disposição, das consequências do emprego de cada recurso e da velocidade a ser empreendida na consecução do objetivo.

O Poder é a base para que a estratégia seja aplicada, é a capacidade de uma nação impor sua vontade, seja de que forma for. Ele pode ser exercido pela força econômica, pela vontade das maiorias, pela ação das armas, pelas conveniências geográficas, pela informação e desenvolvimento tecnológico, e em um nível mais raro pelo engodo e pela propaganda. A aplicação do poder é resultado da atitude, ou seja a disposição em alcançar um objetivo aliado a existência de meios necessários para tal.

A Estratégia Nacional é a aplicação do conceito de estratégia a fim de alcançar os objetivos nacionais, ou objetivos de um país, definidos em seus planos de metas de cada governo. A estratégia nacional pode envolver todos os setores da vida nacional. Ela engloba todas as áreas de poder, incluindo o militar, a fim de alcançar os objetivos de uma nação, sejam econômicos, sociais, ambientais, culturais, etc..

Estratégia Militar é o conjunto de procedimentos a serem seguidos a fim de cumprir os objetivos de um país no que concerne a suas atividades militares, e pode ser dividida em vários níveis ou compartimentos, ditando a gestão das forças armadas em tempos de paz, os recursos do país para uso em tempos de guerra, a conduta de uma campanha específica ou outra qualquer situação de cunho militar que se apresente. A estratégia militar dita a quantidade de tropas mantidas por uma força armada, em que locais, a especialização desta tropa, o equipamento destinado a elas, a base industrial para manter estas tropas, etc.... Em uma campanha a estratégia dita quais os objetivos intermediários a serem buscados a fim de se obter êxito na busca do objetivo estratégico final.


A estratégia militar de guerra pode ser definida como o próprio plano de cada campanha, e deve ser conduzida com conhecimento e cautela. Uma campanha militar deverá aplicar o poder militar de uma nação na medida do necessário, e não a qualquer custo. O objetivo de um conflito armado é alcançar a paz e não a vitória por ela mesma, com a aplicação de poder desmedido e desnecessário. Vencer um conflito significa sair dele em superioridade estratégica e não simplesmente aniquilar seu inimigo, o que só é desejável por déspotas e sádicos.




Estratégia X Tática

Estes conceitos são comumente confundidos e sua linha divisória nem sempre é clara. A estratégia é o conceito que dita o que deve ser feito ou norteia o início da resolução de um problema, sendo definida a partir do objetivo a ser alcançado. A tática é o conceito que define como as orientações estratégicas devem ser implementadas, em que momento, com quais recursos, e que técnicas devem ser aplicadas, buscando um enfoque mais objetivo de cada desafio em particular. A estratégia dos aliados de abrir uma segunda frente na Normandia foi implementada pela tática de realizar um desembarque anfíbio tendo como cobertura o lançamento de forças paraquedistas que garantiram a integridade de algumas pontes e barraram a chegada de reforços para contrapor o desembarque.

A Técnica é um modo padronizado de se executar uma tarefa específica. É um procedimento de pouca variabilidade, ao contrário da estratégia e da tática que podem variar segundo cada situação. Temos como exemplo de técnica os procedimentos a serem observados para se efetuar o tiro de uma arma, a forma de se transpor um obstáculo com determinado recurso, como ocupar uma posição em combate, etc... A tática é aplicada pela implementação sucessiva de várias técnicas militares e operacionais. A técnica pode variar pela evolução do pensamento, resultado da prática e pelo sucessivo aperfeiçoamento, e uma vez aperfeiçoada dificilmente retornará a situação anterior.

Doutrina Militar


É o conjunto de ensinamentos consagrados ao longo dos tempos,  pela experiência adquirida nas diversas empreitadas militares, da aplicação das diversas estratégias, táticas e técnicas desenvolvidas. A doutrina pode mudar com a evolução do pensamento militar e com o avanço tecnológico. Um exemplo clássico é a evolução da guerra de trincheiras da 1a Guerra Mundial para a guerra de movimento proporcionada pela implementação da guerra mecanizada, já na 2a Guerra Mundial. A doutrina militar atual está fundamentada nos Princípios de Guerra, preconizados nos manuais modernos.

A moderna doutrina militar está detalhada nos manuais de campanha, e embora em constante evolução, concilia o tradicional com o contemporâneo, adaptando aquele a evolução da tecnologia e tornando a arte militar cada vez mais eficiente, permitindo que cada vez mais os conflitos sem deem em tempos menores, ao custo de menos vidas e de menor destruição da infraestrutura. Um exemplo é a precisão do bombardeio aéreo moderno, que permite que uma única aeronave atinja resultados mais eficazes que esquadrões inteiros da II Guerra Mundial, com reflexos logísticos, de comando e civis muito diferentes. Se ainda existem conflitos intermináveis como a guerra civil da Síria é porque a tecnologia e a evolução da guerra não se faz presente na medida que deveria, fato que reflete a disparidade da evolução dos povos.


sábado, 17 de março de 2018

Estado-Maior e Ordens #


O comandante militar é o responsável pela operação. É dele que partem todas as ordens para que as forças combatentes e de apoio cumpram a missão. Ele planeja e controla todas as ações, corrige rumos e disponibiliza apoio logístico para que cada ator exerça seu papel no momento e local oportuno, com a segurança adequada e devidamente abastecidos.

Esta atividade é comumente designada no meio militar como “Comando e Controle” (C2) e é a alma de qualquer operação. Unidades militares sem C2 são apenas um grupo bem disciplinado de indivíduos armados sem saber o que fazer. Cabe ao comando providenciar para que cada unidade ou indivíduo esteja no local de sua missão no horário previsto, com o equipamento adequado e devidamente instruídos de sua parte, inteirados da situação como um todo e com o suprimento necessário.

Uma operação militar é tanto mais complexa quanto maior for o escalão envolvido. Uma missão atribuída a um GC demanda alguma munição, alguma comida e talvez uma ou duas viaturas para transportá-lo, um objetivo simples que provavelmente será atingido em poucas horas; enquanto que uma missão a cargo de uma força-tarefa, divisão ou corpo de exército demanda recursos para manter em combate milhares de militares com milhares de equipamentos diferentes, com seus consumos de combustível, munição e alimentos, demandas médicas e de manutenção, além de um sem número de manobras e escaramuças envolvendo forças diversas de terra, unidades aéreas e navais. Tudo tem que ser coordenado e seu desfecho conferido, para que uma próxima fase possa ser implementada. Pode durar dias ou meses e serão necessárias milhares de decisões e ordens.

Comandar um GC ou pelotão pode ficar a cargo de um sargento ou oficial, mas a medida que o escalão aumenta se faz necessário a descentralização das atividades, com a segmentação das atividades operacionais e logísticas. A partir do nível subunidade (companhia) os comandantes militares contam com algum “staff”, um colegiado de oficiais que o auxiliam na divisão da complexa tarefa que é administrar uma operação militar. A este “staff” denomina-se no meio militar de Estado-Maior. O Estado-Maior possibilita ao comandante a descentralização da atividade de C2, poupando-lhe de se preocupar com detalhes operacionais e possibilitando-lhe que se concentre nas decisões mais importantes. Assim temos oficiais encarregados da produção de inteligência, de logística, de pormenores administrativos como o recompletamento de pessoal, de ligação com outras unidades, no planejamento e pormenorização das decisões táticas e operacionais tomadas, na segurança e vigilância e na avaliação de resultados, além de outras atividades consideradas necessárias.

O trabalho do Estado-Maior consiste em buscar soluções para os problemas e desafios que se apresentem, colher inteligência a respeito destas situações, analisá-los à luz da inteligência disponível e propor a solução destes ao comandante, considerando todas as linhas de ação possíveis e elencando a mais adequada, justificando causas e conseqüências de cada uma, vantagens e desvantagens, sempre fazendo contato prévio com todas as unidades envolvidas. A sugestão por um ataque aéreo deverá ser precedida por uma consulta de disponibilidade da unidade aérea que realizará o ataque, por exemplo. Ao comandante deverão chegar as sugestões de forma objetiva sem documentação volumosa, com conclusões claras e concisas, para que ele possa escolher, aplicando a solução se necessário, sua experiência e conhecimento pessoal, e uma vez tomada a decisão que ela siga na forma de ordem para pronto cumprimento. Ordens secundárias ou de menor importância deverão ser prontamente despachadas pelos oficiais do Estado-Maior e seus auxiliares, poupando desta forma o comandante dos detalhes operativos.




A estrutura de um Estado-Maior varia de acordo com a força a que serve e a situação que deverá ser enfrentada. Esta estrutura será composta por um chefe de estado maior, que poderá ser o sub-comandante da unidade ou não, e as diversas seções operativas, cada qual comandada por um oficial dedicado, que por sua vez será assessorado pelos oficiais adjuntos em funções específicas. No Exército Brasileiro, por exemplo, um Estado-Maior típico ou geral consiste em 5 seções, sendo a 1ª Seção encarregada da organização e administração de pessoal, a 2ª Seção ocupa-se da produção de inteligência, a 3ª Seção é a de operações e responsável pelas linhas de ação da unidade e adestramento de pessoal, a 4ª Seção encarrega-se do apoio logístico e a 5ª Seção cuida da comunicação social e dos assuntos civis. Outras estruturas podem ser implementadas.

Os oficiais adjuntos ou auxiliares constituem o Estado-Maior especial e cada um cuida de uma subseção específica, subordinados aos oficiais do Estado-Maior geral e atuando por exemplo, nas áreas de defesa antiaérea, apoio de fogo, guerra química e biológica, ambiente nuclear, engenharia de construção e combate, controle de tráfego aéreo, polícia, guerra eletrônica, comunicações, força aérea, aviação do exército, forças aeronavais, forças navais, prisioneiros de guerra, justiça militar, ajudância geral, segurança de área,  controle de aeródromo, controle de terminal portuário e tráfego aquático, propaganda, ações diversionárias, defesa anticarro, forças especiais, ligação com outras unidades, saúde e apoio médico, transporte e controle de tráfego terrestre, agências externas, e outras áreas que se façam necessárias.

O advento da tecnologia digital e da NCW permitiu a automatização de muitas tarefas desempenhadas pelos estados-maiores e postos de comando, agilizando muitas das decisões. Por exemplo a execução de uma missão de tiro pela artilharia, alimentada em um sistema informatizado pode demandar o ressuprimento de munição de uma área remota sem qualquer intervenção humana, dependendo dos sistemas disponíveis.

Os estados-maiores compõem os postos de comando da unidades e grandes-unidades e juntamente com o comandante são a parte operativa dos mesmos, que funcionam em uma estrutura física provida pelas subunidades de comando e serviços desta unidades. São alvos prioritários das forças inimigas e a neutralização dos estados-maiores e seus postos de comando poderá acarretar na inoperância tática de seus comandados, total ou temporária, por falta de ordens.



domingo, 7 de janeiro de 2018

O Obuseiro #


O obuseiro é o sucessor nos campos de batalha das catapultas medievais, e surgiu no século XVII como uma arma de cerco, tal qual sua antecessora. Com uma lenta introdução durante o século seguinte, consolidou-se como uma arma capaz de disparar projéteis explosivos, ao contrário dos canhões da época que disparavam projéteis cinéticos. Estas bocas de fogo passaram a acompanhar as tropas em campanha a medida que adquiriam a mobilidade necessária, e tanto no cerco como no campo podiam endereçar invólucros de metal recheados de pólvora, variando seu ângulo de tiro, o que demandou o desenvolvimento de uma técnica para que o projétil atingisse seu alvo. Dessa forma sua operação era mais complicada que a dos morteiros e canhões, o que demandou guarnições capazes de realizar cálculos, resultando em uma arma muito mais flexível que seus similares, utilizando-se de trajetórias variadas. Os projéteis cinéticos esféricos cederam lugar aos cilíndricos explosivos, capazes de carga equivalente (em volume) com calibres bem menores.

O século XX trouxe a esta arma a maturidade, após uma longa gestação entre armas de alma lisa ou raiada, com aplicação de sítio ou em campanha. A guerra de trincheiras do início do século XX demandou trajetórias altas com ângulos de impacto pronunciados, os tubos tornaram-se mais longos com os alemães adotando modelos de 105 mm e 16 e 22 calibres. Ao mesmo tempo canhões de 77 mm capazes de ângulos mais altos foram entregues, assumindo parte da função dos obuseiros. O entre-guerras resultou na tendência de fusão de ambos os tipos. A grande guerra que se seguiu consolidou o uso da artilharia como arma principal nas forças soviéticas, sendo estes parte fundamental de sua doutrina. Surgiram os freios de boca para redução do recuo e estas armas consolidaram a tendência de canos longos, cargas de projeção múltiplas e escolhidas conforme o alcance, altas velocidades iniciais e ângulos de tiro superiores aos 45º. O obuseiro passou a compor as fileiras de todos os exércitos modernos.


O obuseiro é a peça padrão da artilharia de campanha moderna no que diz respeito a artilharia de tubo, e uma das principais armas do campo de batalha da atualidade. É a principal arma provedora de fogos apoio, e equipa a grande maioria das unidades de artilharia. As outras armas que, ao lado do obuseiro também compõem as unidades de artilharia, são os morteiros e os lançadores múltiplos de foguetes (MLRS Multiple Launch Rocket System). Estes primeiros são armas mais simples e baratas, e ainda com peso reduzido em relação ao obuseiro, porém não alcançam a mesma precisão nos impactos. Os morteiros de 120 mm rivalizam com os obuseiros de 105 mm em alcance e são empregados em tropas leves ao lado dos mesmos, onde a maneabilidade torna-se o principal fator. Os MLRSs são armas mais poderosas e caras, que exigem estruturas logísticas para remuniciamento mais complexas, e provocam efeitos mais devastadores, sendo empregados em unidades de escalão superior e não são adequadas ao apoio de fogo às armas-base.

Idêntico ao canhão tradicional aos olhos do leigo, o obuseiro diferencia-se deste por sua capacidade de realização do tiro balístico, por cima das cabeças da tropa apoiada, valendo-se de técnica de tiro mais elaborada uma vez que as baterias não visualizam seus alvos, e material que emprega velocidades iniciais e pressões de tubo inferiores.  O obuseiro possui ainda a capacidade de realizar o tiro vertical (acima dos 45º), tal qual os morteiros. Muitos o designam erroneamente como “obus”, porém vale salientar que este termo designa a munição, e não o reparo lançador da mesma, embora existam interpretações diversas. Vocacionado para a realização do tiro balístico, o obuseiro pode, inopinadamente, realizar o tiro tenso ou direto, tal qual um canhão tradicional, possibilidade esta impossível aos morteiros.



O obuseiro opera compondo baterias de tiro, geralmente de 4 ou 6 unidades, que disparam seus fogos de forma coletiva obedecendo a elementos de tiro comums e disparos simultâneos, a fim de proporcionar volume de fogo na área de impactos (no alvo). O obuseiro não é uma arma de precisão, sendo seus impactos considerados “no alvo” quando atingem determinada distância deste, geralmente de 50 m, dependendo do calibre do material e do raio de ação dos arrebentamentos (no material de 105 mm é de 25 m). Operando a retaguarda dos “fronts” de combate, e sem visualizar seus alvos, as baterias de obuseiros contam com os olhos dos observadores avançados (OAs) para dirigir seus disparos e verificar sua eficácia. Os OAs inimigos por sua vez, estão de olho nas baterias e tem nelas seus principais alvos, razão pela qual as baterias de tiro devem sair rapidamente de posição após cumprirem a missão de tiro, exigindo tanto do equipamento quanto das guarnições elevada mobilidade e agilidade, sempre que a ameaça do tiro de contra-bateria estiver presente.




Os obuseiros podem ser montados tanto sobre plataformas autopropulsadas como rebocadas, sendo os primeiro destinados a acompanhar forças mecanizadas e blindadas, e os segundos componentes de tropas mais leves e menos móveis. Os modelos rebocados podem ser aerotransportados com maior facilidade, possuindo mobilidade estratégica superior aos seus pares autopropulsados, pois apresentam peso reduzido em relação aos primeiros, tanto por aeronaves de asa fixa como por helicópteros. Podendo nos helicópteros valer-se de aerotransporte em suspensão abaixo da aeronave, prática essa usada para deslocamentos táticos de curta distância e reposicionamento de baterias no terreno.

A pontaria de um obuseiro é realizada com o auxílio de pranchetas de tiro baseada em mapas do terreno. Uma luneta de tiro com graduação angular tem sua pontaria “amarrada” a uma baliza, cujo ângulo registrado pela visada nesta baliza representa um ângulo real em relação ao norte. Ao de se designar uma missão de tiro, uma central de tiro calcula na prancheta o novo ângulo a ser registrado na luneta, que ao ter sua visada realinhada a baliza faz com que o tubo por conseqüência se realinhe também, apontando na direção do alvo. O alcance é calculado a partir de tabelas pré-determinadas e materializado a partir da elevação dada ao tubo e da carga de projeção usada.



Devido a fluidez da guerra moderna e a já citada necessidade de atirar rapidamente a abandonar a posição, os equipamentos mais modernos contam com facilidade tanto nos sistemas de pontaria como nos de carregamento. Estes incorporam sistemas integrados digitais que contam com localizadores inerciais e GPS ou similares que dão a posição exata da peça e a distância do alvo, podendo apontar os tubos automaticamente ou fornecerem em tempo reduzido os dados para tal. Contam ainda com medidores de velocidade inicial dos disparos proporcionando mais precisão nos disparos, com dados integrados por computadores balísticos. Alguns modelos permitem a fantástica capacidade de efetivar alguns disparos (geralmente 3) em seqüência e em ângulos diferentes para um mesmo alcance, de forma que os projéteis alcancem o alvo ao mesmo tempo, com os primeiros descrevendo trajetórias mais longas que os últimos, causando um efeito superior.

Taticamente falando, o obuseiro é uma arma incrivelmente flexível, pois sem trocar de posição pode transportar seus fogos de seu alcance mínimo até o máximo em minutos, em qualquer direção. Isto permite que uma bateria de artilharia efetue um grande número de missões de tiro sem deixar a posição atual, atirando por exemplo, a 10 km para oeste, em seguida 30 km ao noroeste e em poucos minutos 15 km para o norte, se seu alcance permitir. Esta forma de atuação tática só é possível se não houver risco do inimigo em empreender fogo de contrabateria como eram nas bases de fogo do US Army no Vietnam.  

A tendência moderna é a padronização dos calibre em 105 mm mais leve e 155 mm padrão, amplamente usados no ocidente e tendência esta sendo seguida por países de outras partes do mundo, embora outros calibre também estejam em uso. O modelo de tubo mais usado pelo membros da NATO é o de 155 mm de 52 calibres, e que representa a tendência mundial. Transportar munição de 155 mm (volumosa) nas quantidades necessárias às missões requeridas exige grande esforço logístico, sendo que estas armas (mesmo as de 105 mm), exigem grande esforço de remuniciamento. Mesmo no ocidente as peças de 105 mm vem perdendo espaço para as 155 mm, ficando exclusivas para tropas mais leves como tendência.


 Os obuseiros modernos podem lançar granadas comuns a 30 km ou mais, dependendo do modelo no calibre de 155 mm, e cerca de 18 km nos modelos de 105 mm, com alcance de 10 a 15 km adicionais quando usando granadas assistidas. As granadas usadas também variam por função existindo as de alto-explosivo (HE), as fumígenas, iluminativas, anticarro, de propaganda, químicas, nucleares, etc. Na guerra do Vietnam o US Army lançou através de sua artilharia sensores que denunciavam a aproximação inimiga, através da medição de vibrações no terreno.

Os obuseiros e morteiros compartilham com a aviação de CAS, a artilharia naval e os MLRSs a incumbência de proporcionar volume de fogo nos campos de batalha modernos, porém os demais nem sempre estão disponíveis e a artilharia orgânica está diretamente sob o comando dos comandantes de campo, o que garante flexibilidade na sua utilização e a certeza destes comandantes que contarão com o fogo de que necessitam a hora que lhes for conveniente.


sábado, 16 de dezembro de 2017

O Míssil Antinavio #



Os primeiros mísseis antinavio surgiram durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Luftwaffe equipou suas aeronaves com os modelos experimentais Henschel Hs 293 e Fritz X, usando-os contra navios aliados no Mediterrâneo com bons resultados. Todos os modelos eram guiados por rádio, forçando as marinhas aliadas a desenvolverem contramedidas. Os aliados por sua vez também fizeram suas experiências.

Findo o conflito e com o advento da guerra fria, os aliados ocidentais abandonaram estes desenvolvimentos, concentrando-se na consolidação de sua estratégia de aviação naval. Os grandes encouraçados de outrora já haviam cedido seu trono a era dos porta-aviões, que reinam até os dias de hoje como as principais belonaves usadas para projeção de poder e controle de área marítima. Os EUA começaram em 1955 a mobiliar sua armada com estes super-navios capazes de embarcar quase uma centena de aeronaves. As forças da NATO passaram a contar, onde quer que estivessem, com ampla cobertura aérea de longo alcance em torno de suas frotas. Os estrategistas soviéticos consideravam o território da URSS um grande navio-aeródromo e não viam estes navios como uma prioridade. Suas numerosas bases aéreas lhes proporcionavam uma presença em grande parte do território mundial e fazer frente às armadas da NATO delineou sua estratégia naval, baseada em submarinos, minas navais e mísseis antinavio.
A Guerra dos Seis Dias de 1967, um dos episódios mais conhecidos da aparentemente sem fim disputa árabe-israelense, marcou a estréia de uma nova arma. Um projétil até então desconhecido do mundo, o Raduga P-15 Termit de origem soviética, mais conhecido pela sua designação NATO SS-N-2 Styx , atingiu o destróier do país judeu Eilat. Dois FACs da classe Komar (NATO) egípcios dispararam 4 mísseis desde uma distância de 23 km de Port-Said, onde serviam como unidades de defesa costeira. Apesar do fogo defensivo da tripulação do navio, que imaginou estar sendo atacada por aeronaves, já que estas armas eram novidade, 3 Styx o atingiram selando seu destino, que afundou em algumas horas matando 47 e ferindo gravemente grande parte de tripulação. Devido ao ineditismo da situação, o treinamento dos artilheiros para engajar este tipo de arma era inexistente.

O episódio provocou uma reação de surpresa e pânico nos estrategistas ocidentais, que se deram conta que não tinham nada parecido. Claramente os EUA (e a NATO) e seus poderosos porta-aviões estavam vulneráveis ao impacto de um pequeno projétil de pouco mais de 2 toneladas baseado na fuselagem de uma pequena aeronave experimental. Havia um imenso “gap” entre a URSS e a NATO, e esta pos mãos a obra com o intuito de superá-lo.
O desafio soviético era o de penetrar defesas poderosas e profundas para atingir navios muito grandes, representadas por ampla cobertura aérea vinda dos navios-aeródromos escoltados por sistemas antiaéreos Terrier/ Tartar e Talos e posteriormente pelo que de melhor existem em cobertura antiaérea naval na atualidade, o sistema AEGIS. Durante a 2GM o canhão era a principal arma naval, logo superado pelo avião no pós-guerra, que por sua vez dependia dos grandes e caros navios-aeródromos, só disponíveis às grandes marinhas. Penetrar estas defesas fazendo o uso de aeronaves de bombardeio não era uma tarefa fácil, o que resultou em desenvolvimentos de mísseis de longo alcance, dotados de ogivas potentes.
Diante destas necessidades tático-operacionais distintas, os mísseis antinavio soviéticos e ocidentais seguiram uma filosofia própria. Enquanto que os países da NATO desenvolveram engenhos menores, que podiam ser vetorados por caças capazes de levar seus mísseis mais próximos de seus alvos, com o intuito de atingir navios menores como eram aqueles do Pacto de Varsóvia, os soviéticos desenvolveram projéteis até hoje sem equivalentes no ocidente. Como tinham que lançar seus mísseis de alcances maiores acabaram por construir projéteis comparados a pequenas aeronaves pelo seu tamanho, deslocando-se a altas velocidades, por vezes supersônicas, para vencer defesas pesadas provenientes dos navios-aeródromos e com ogivas pesadas, algumas nucleares, para alvejar navios grandes, que por sua vez voavam mais alto e podiam ser mais facilmente detectados e interceptados, além de pouco manobráveis.

Na guerra naval existem uma distância padrão que é de 38/39 km. Esta distância se refere ao alcance de um radar montado no mastro de um navio qualquer, não importando sua potência. Esta limitação se dá pela curvatura da terra, a partir da qual o navio simplesmente não “enxerga”. Nenhum míssil disparado de uma nave de guerra pode atingir seu alvo além desta distância, simplesmente porque o navio não sabe que ele está lá, razão pela qual, por exemplo, o míssil francês MM38 Exocet foi concebido com alcance similar. Para contornar esta limitação e dispor de um alcance maior para suas armas, as marinhas de guerra tem duas alternativas: contar com suas várias unidades operando em comunicação constante, modernamente na forma de NCW, dizendo umas as outras onde os alvos estão, o que não resolve o problema, pois sempre haverá a nave que está mais à vanguarda, ou contar com meios aéreos que tem um horizonte-radar muito ampliado e podem designar alvos para mísseis com alcance superior ao padrão citado. Estes meios aéreos podem ser aeronaves de patrulha marítima ou AEW baseadas em terra, aeronaves baseadas em navios-aeródromos, helicópteros baseados em todos os tipos de navios, drones, dirigíveis, balões, etc...
A designação do alvo por um helicóptero naval, por exemplo, justifica a existência de mísseis lançados da superfície com alcance superior ao padrão citado. O meio aéreo tem que dizer onde o alvo está, e o míssil chegará até lá guiado pelos dados inseridos em sua memória antes do lançamento e trajetória garantida pelo INS. Ao aproximar-se do alvo, que não estará mais lá, pois deslocou-se e na guerra naval ninguém fica parado, o míssil ligará seu radar de busca e fará o ajuste fino de sua pontaria compensando a mudança de posição do alvo. Dessa forma temos mísseis com alcances bem superiores aos 38 km do horizonte-radar naval. Os mísseis antinavio lançados do ar não estão submetidos a esta limitação, pois o radar de seu lançador pode endereçá-lo diretamente. Por esta razão muitas marinhas que não dispõem de navios-aeródromos equipam seus helicópteros com estes projéteis, podendo helicópteros mais pesados portarem mísseis mais capazes.
Os mísseis soviéticos destacam-se pelo tamanho, alguns baseados em fuselagens de aeronaves já existentes como o Mig-15. Equipam bombardeiros, navios de superfície e submarinos. Possuiam ogivas poderosas e grande alcance como os Raduga KSR-2  (AS-5 Kelt) e Raduga KSR-5 (AS-6), com ogivas de 1 ton ou mesmo nuclear de 350kt, com alcance acima dos 300 km e velocidade acima de mach 3,5, tão grandes que um bombardeiro Tu-16 carregava apenas um deles nos tempos da Guerra Fria. Seguiram-se outros modelos como o P-120 Malakhit (SS-N-9) de mach 0,9 e alcance em torno dos 100 km+, o Raduga P-270 Moskit (SS-N-22) com alcance de até 270 km de velocidade de mach 3 e o P-800 Oniks (SS-N-26) que deu origem ao indiano Brahmos, também supersônicos (mach 2,5) e alcance por volta dos 300 km.

O ocidente adotou o conceito “sea skimming” , com o míssil voando rente a superfície do mar, não detectável, portando, por grande parte de sua trajetória, dificuldade esta acentuada pelo tamanho reduzido dos projéteis. Os modelos Exocet francês e Harpoon dos EUA se valem deste perfil operacional. Esta postura exige do projétil um rigoroso controle de altitude de forma a não se chocar com a superfície do mar, controle este desempenhado por um radar-altímetro. Vôos baixos não combinam com altas velocidades pois o arrasto é muito grande com impacto direto no alcance, e o supersônico Brahmos indiano voa baixo apenas em sua trajetória final.
Mísseis com maior velocidade reduzem o tempo de reação das defesas, porém consomem mais combustível e possuem maior assinatura térmica e radar, além de menor capacidade de manobra. Outra forma de dificultar o trabalho dos defensores é realizar ataques de saturação, onde vários mísseis são lançados ao mesmo tempo sobre um mesmo alvo. A guerra do Atlântico-Sul em 1982 mostrou ao mundo o poder deste projéteis, quando um AM39 Exocet da Armada Argentina fulminou o destróier de sua majestade Sheffield, um pouco acima da linha d’agua, pondo-o a pique, impacto este fruto de uma série de indecisões a falta de efetividade por parte dos defensores. Os últimos anos trouxeram radares capazes de “ver” de forma efetiva os mísseis de vôo baixo , que acoplados a sistemas antimísseis automáticos, com mísseis antimísseis ou canhões de tiro rápido, constituíram uma contramedida considerável, o que está forçando os projetistas a considerarem as tecnologias furtivas, pois aquilo que não se pode ver não se pode abater. Considera-se as tecnologias já conhecidas de materiais e formas, porém a operação passiva com disciplina de emissões também é importante.

Os mais populares mísseis do ocidente são Harpoon dos EUA, lançado da superfície, ar ou submarinos, subsônico, com até 250 km de alcance e ogiva de 221 kg, guiagem final por radar ativo. O MM-40/SM-39/AM-39 Exocet da MBDA com até 180 km de alcance, lançamento tal qual o americano e ogiva de 165 kg. Existem outros como o sueco RBS-15 com até 250 km de alcance e ogiva de 200 kg, o italiano Otomat e o britânico Sea Eagle, entre muitos outros.
Um míssil antinavio é um pequeno míssil de cruzeiro, sendo que alguns mísseis de cruzeiro podem ser usados na função antinavio, como o Tomahawk dos EUA, o míssil antinavio de maior alcance do mundo, podendo atingir cerca de 1800 km, porém é um míssil de cruzeiro e custa como um. Outro conceito possível é o do míssil balístico, aventado pelo chineses como operacional. O vôo balístico combina altíssima velocidade e impacto cinético, prescindindo de explosivos. Como sabemos velocidades de reentrada superam em muito as marcas hipersônicas, e fica a dúvida quanto a efetividade: como se aponta de forma certeira um projétil balístico sobre um alvo móvel ? a resposta pode ser o ataque de saturação, onde muitos projéteis sobre uma frota, pode ser que acerte alguém. Radares ativos e aletas defletoras dirigindo um projétil incandescente ? Fica a dúvida. Porém, se forem eficazes, contramedidas terão que ser sofisticadas, para não dizer quase impossíveis. Talvez o futuro pertença a velocidade supersônica ou hipersônica e uma aparentemente incompatível capacidade furtiva.

Mísseis menores da variadas características foram desenvolvidos para equiparem os helicópteros navais, que além de designarem alvos para os vasos de superfície podem portar seus próprios projéteis, de alcance mais curto e ogiva menos potente, como o Penguin norueguês e o Sea Skua britânico. Pesam menos de meia tonelada e geralmente alcançam menos que o horizonte-radar da naves de superfície. Mísseis maiores como o AM39 também podem ser lançados dos helicópteros maiores como EC-725 ou Sea King. Estes Engenhos podem afundar barcos menores ou provocar deterioração nos sistemas e operacionalidade dos maiores. Como já citado o AM39 colocou um destróier britânico fora de combate. Uma pequena ogiva pode provocar uma grande dano se atingir um paiol ou reservatório de combustível, ou um dano operacional sério, se atingir, por exemplo um COC, mesmo em um vaso de grande porte. Ogivas podem ser equipadas com material incendiário para maior efetividade.

O foco na guerra de “águas azuis” da guerra fria passou a ser compartilhado com os conflitos assimétricos e mais próximos da costa dos tempos modernos, o que levou os mísseis antinavio a se adaptarem as peculiaridades deste cenário, cheio de meandros e recortes de litoral onde embarcações velozes e bem armadas reinam, operação esta que só se tornou possível devido a precisão de sistemas como o GPS que permitem que estes engenhos contornem os acidentes naturais. As embarcações de pequeno porte, privadas da operação dos grandes canhões no passado, passaram a contar com poder de fogo compatível. 

Para conter esta ameaça, é vital aos navios da atualidade disporem de contramedidas eficazes. O navio primeiramente tem que evitar ser detectado valendo-se de tecnologias furtivas e disciplina nas emissões. A primeira linha de defesa são as patrulhas de combate aéreo (CAPs), e seus mísseis ar-ar (AAM) geralmente oriundas de navios-aeródromos ou mesmo baseadas em terra, estas de alcance limitado. Estas patrulhas podem alcançar centenas de quilômetros à frente da frota. Para aqueles que passem por esta primeira barreira, ou em grupos de combate desprovidos destes navios, a interceptação fica a cargo dos SAMs de defesa de área e que tem capacidade antimíssil, pois não é para qualquer um, como os Standart dos EUA. Se vencida esta segunda barreira fica ainda uma terceira e última camada representada por mísseis de defesa de ponto como o Sea Ceptor ou canhões de tiro rápido como os CIWS. Outras medidas também entram em ação como o lançamento de engodos (chaffs/flares) e outras ações de EW e a diminuição do perfil, posicionando o navio de forma a oferecer um alvo menor.