FRASE

terça-feira, 24 de abril de 2018

Fogos e Apoio de Fogo *146



Baseado no MC EB20-MC-10.206

O apoio de fogo é um elemento essencial em qualquer empreitada de combate, aplicando-se mais especificamente às manobras terrestres e anfíbias. É através dos fogos que coloca-se o inimigo numa situação de saturação operacional, privando-lhe de seus meios e capacidade de manobra, seja pela destruição ou indisponibilidade temporária. Os fogos podem ser disponibilizados por elementos aéreos, navais ou terrestres e aplicados em conjunto com a manobra, através de adequado elemento de comando e controle (C2), constituindo estes o tripé fundamental de qualquer força em combate. Fogos e manobra são inseparáveis na dinâmica de uma operação militar, atuam de forma mutuamente complementar e visam alcançar a superioridade tática sobre o inimigo e a proteção mútua entre as unidades. Um cria a condição para que o outro possa efetivamente ser aplicado no ambiente operativo, sendo os fogos os donos da palavra final, pois atuam diretamente como elemento incapacitante definitivo das possibilidades físicas do inimigo, reduzindo sua vontade de combater.

A aplicação do binômio fogo-manobra requer um ambiente onde as forças amigas sejam capazes de manter a superioridade aérea. Fogos podem destruir, suprimir, degradar, retardar, negar, separar ou neutralizar forças, sistemas de combate e instalações, bem como em conjunto com unidades de engenharia barrar ou desviar a manobra inimiga, bloquear áreas, fixar tropas e retardar reforços, potencializando o valor do terreno e do espaço de batalha.

Os fogos podem ser orgânicos ou não, sempre desencadeados a pedido do elemento apoiado, e requerem minuciosa coordenação e planejamento de forma contínua e detalhada em todos os escalões, visando atender aos modernos teatros não lineares e altamente exigentes, evitando o desperdício de munição escassa, em alvos não interessantes, reduzindo as possibilidades de fratricídio e efeitos colaterais em civis, além de  evitar sobrecarregar a estrutura de apoio logístico.

Fogos eficazes requerem a capacidade de adquirir, discriminar e engajar alvos. A capacidade de aquisição consiste na detecção e localização de alvos com precisão suficiente ao emprego dos sistemas de fogo; a discriminação é a capacidade de priorizar os alvos mais importantes em meio a muitos presentes, e o engajamento é o processo de aplicar o efeito desejado ao alvo, seja por ação letal ou desejada.

Os fogos podem ser superfície-superfície, ar-superfície, superfície-ar, podendo ainda incluir-se neste conceito ações de ataque eletrônico e cibernético. Podem ser cinéticos através do lançamento de artefatos (projéteis de vários tipos) e com finalidade tática, ou não cinéticos como aqueles usando meios eletrônicos e cibernéticos com finalidade de incapacitação dos meios inimigos congêneres.



Os fogos devem ser planejados e coordenados, estando todos os meios terrestres, aéreos e navais atuando sob um mesmo sistema de forma que o meio mais adequado seja designado para bater determinado alvo da forma mais eficiente e dentro de uma escala de prioridade, evitando a duplicação de esforços e desperdício de munição; executados com sincronização, rapidez e precisão, sempre procurando a preservação da segurança das tropas amigas.

Fogos navais são lançados a partir navios de guerra e conduzidos por observadores de tiro navais. Fogos aéreos partem de plataformas aéreas (bombardeiros, helicópteros e RPVs) e são conduzidos por controladoresaéreos avançados (FAC), e os terrestres pela artilharia de campanha (morteiros,obuseiros e MLRSs), dentro de suas possibilidades.

Fogos são desencadeados no nível estratégico a fim de desorganizar a atividade industrial-militar por exemplo, contribuir para a proteção estratégica e causar efeito psicológico; e no nível tático-operacional para contribuir com a manobra e impedir a do inimigo. Podem ser de apoio a pedido da unidade apoiada e conduzidos de forma a integrar sua manobra, devidamente observados e em ligação com esta; e de proteção, visando atuar sobre a manobra inimiga e segundo as necessidades dos escalões mais altos; podem ser ainda diretos ou indiretos de acordo com sua característica balística.

É vital a coordenação entre os meios de apoio de fogo de superfície e meios de controle de espaço aéreo, proporcionando máxima segurança a todos os atores, e sincronizados no tempo e no espaço com os demais sistemas de combate, a fim de contribuir com a manobra e contar com a segurança proporcionada pelas demais unidades.

Os fogos atuam sob coordenação do sistema operacional de comando e controle, que coaduna a arte de comandar à ciência de controlar. Este sistema é uma organização de pessoal, inteligência de rede, comunicações e sistemas de automação que atuam em apoio ao comandante e seu Estado Maior (EM). Devem apoiar este esforço os sistemas de inteligência fornecendo informações de combate e apoiando a sua compreensão, sistemas de proteção como a artilharia antiaérea e outras unidades de combate (carros de combate por exemplo),os fogos de contra-bateria e o sistema de apoio logístico que supre os sistemas de apoio de fogo e ao mesmo tempo são protegidos por estes. Estes permitem aos fogos manterem-se atirando (durarem na ação), suprem-nos com serviços diversos e garantem o suporte médico e sanitário adequado, cabendo-lhes antecipar as necessidades dos artilheiros e aviadores.




Os fogos podem ser estratégicos, operacionais ou táticos de acordo com a importância que seu efeito causará na operações, se será decisivo ou facilitador. Podem ser de aprofundamento (operacionais) que visam áreas de retaguarda como as logísticas e industriais por exemplo, de interdição e contra instalações de C2; de apoio (táticos) em proveito da manobra da tropa amiga e de contrabateria (proteção).

Quanto a finalidade podem ser de preparação, que são fogos intensos e previstos desencadeados em horários estipulados a fim de apoiar um ataque ou desorganizar defesas e seus meios de apoio, ou ainda interromper comunicações. De intensificação que são fogos planejados de grande escalão em apoio aos fogos do escalão inferior, e de contra-preparação que visa desorganizar uma mobilização inimiga.

Quanto a forma podem ser de concentração que consiste em um volume significativo de fogo sobre um determinado alvo, de barragem que visam a proteção impedindo a passagem do inimigo e disparados sucessivamente em linhas escalonadas, e por peça que visa atingir alvos específicos.

Podem ainda ser previstos (parte de um planejamento) ou não (alvos de oportunidade), observados ou não (este último não permite avaliação de danos, como os fogos de inquietação por exemplo),

Quanto aos efeitos desejados podem ser de neutralização, que visa degradar a capacidade do inimigo, de destruição para colocar alvos definitivamente fora de combate, de interdição que visam impedir o inimigo de usar temporariamente uma área ou meio como os tiros de barragem, de inquietação que visam minar a moral do inimigo através de bombardeios contínuos e baixa intensidade privando-lhes de sono por exemplo, e de efeitos especiais como os de iluminação de campo de batalha, de balizamento com granadas fumígenas e IR, propaganda e outros.

Podem ser disparados a pedido ou com horário pré-determinado (tiros hora no alvo – HNA), com detonação instantânea e efeito imediato (HE por exemplo), com detonação instantânea e efeito persistente (fogos fumígenos por exemplo) e de detonação retardada (bombas cluster).


Os fogos são os senhores do campo de batalha e para aplicá-los que as unidades de combate são treinadas e equipadas, visando a supremacia tática-estratégica-operacional. Os fogos terrestres caracterizam-se pela grande disponibilidade por estarem as unidades em permanência no campo, independência aos fatores meteorológicos, pronta resposta e alta flexibilidade, sendo sua maior deficiência seu alcance menor. Os fogos lançados do ar são mais poderosos mas nem sempre estão disponíveis, sofrem limitação das condições meteorológicas e são de coordenação mais complexa, porém dispõem do alcance muito superior dos vetores aéreos. Os fogos de origem naval são limitados a áreas próximas ao litoral, normalmente atuam em proveito de operações anfíbias e não tem a precisão dos fogos terrestres. Suas plataformas também são mais facilmente identificáveis. Fogos de longo alcance como aqueles implementados por mísseis de cruzeiro e balísticos podem adentrar em muito o meio terrestre, mesmo lançados do ambiente naval.

Os meios de apoio de fogo são na força terrestre os morteiros das armas-base geralmente de 60 e 81 mm, nada impedindo que elas usem modelos mais pesados. O comandante de infantaria e cavalaria dispões destes meios como artilharia orgânica e disponível em todos os momentos. A artilharia de campanha usa os morteiros de 120 mm em suas unidades de maior mobilidade estratégica como as forças aerotransportadas e de selva, e obuseiros de 105 e 155 mm, sejam rebocados ou autopropulsados, como unidades padrão. Forças russas e chinesas possuem modelos similares. Estes sistemas são um conjunto de pessoas, meios e processos que atuam de forma integrada através de subsistemas de busca de alvos, C2, logística e baterias de tiro.  Da mesma forma as unidades de lançadores múltiplos (MLRS) atuam em proveito dos escalões mais elevados, e constituem, por si só, valioso meio de projeção no campo de batalha e alvo dos sistemas de proteção inimigos.

Outros sistemas de fogo da força terrestre são as unidades de artilharia antiaérea com unidades dotadas de mísseis e canhões endereçados por computador, e as aeronaves da aviação do exército.  Cabe àquela a proteção contra a ameaça aérea em complemento aos interceptadores da defesa aérea, seja contra bombardeiros ou mísseis inimigos, sendo que suas armas automáticas também podem ser usadas, secundariamente contra alvos de superfície. Além destas, armas de tiro direto como carros de combate e mísseis de infantaria compõem a dotação de bocas de fogo desta força.

A força aérea dispõem de aeronaves de bombardeio que são imbatíveis em alcance e poder de fogo, e podem operar em proveito da manobra terrestre e naval. E por último as forças navais podem usar seu também considerável poder antinaval de mísseis e torpedos, e canhões para apoio de fogo terrestre próximo ao litoral, como nas manobras de desembarque anfíbio. O apoio de fogo aéreo é especialmente aplicado por sua elevada flexibilidade de emprego, capacidade de ataque a alvos localizados em profundidade e grande poder de fogo. Por essa razão, quando disponível, é considerado um meio nobre, devendo ser planejado com antecedência e critério. Mísseis balísticos e de cruzeiro podem equipar todas as forças e são um formidável meio de bombardeio.



Planejamento e Coordenação

Os sistemas de fogos devem estar coordenados por um comando único, podendo atuar em proveito de suas unidades orgânicas, serem prontamente empregados em proveitos do escalão superior quando este os solicitar, e após retornarem ao seu comando usual. Este sistema é uma reserva fácil, segura e de rápida aplicação que possibilita ao escalão superior intervir rapidamente no combate. Deve ser empregado com oportunidade e de forma contínua, atuando prontamente sempre onde se mostrar necessário, o que demanda a capacidade de atirar imediatamente e concluir a missão de tiro em tempo mínimo, de forma a estar sempre disponível para a próxima. A superioridade de fogos deve ser buscada, sendo que uma das primeiras missões em campanha é procurar e neutralizar os pontos mais fracos dos sistemas de fogos do inimigo, pondo-os inoperantes.

O sistemas de apoio de fogo deverão estar em condições de atirar desde o primeiro momento, antes mesmo do contato, com fogos de profundidade, bem como manter a pressão sobre o inimigo, frustrando a operação de seus sistemas. A aviação e a os MLRS são os meios mais adequados ao início do assédio às fileiras inimigas antes do contato, sendo que todos podem fazê-los, de forma que as forças em avanço encontrem uma resistência debilitada. Os fogos mais eficazes se dá quando as unidades inimigas estão concentradas, ou seja antes do início do combate.

Os fogos são planejados a partir do levantamento de necessidades, considerando aquisição, análise e seleção de alvos, emissão de pedidos de apoio e autorizados seguindo uma ordem de prioridade/disponibilidade, sempre partindo do escalão de emprego e consolidados nos escalões superiores. Devem levar em conta fogos diretos, morteiros, artilharia de campanha, artilharia antiaérea e de costa, aéreo e naval, assim como os meios de guerra cibernética e eletrônica. A priorização dos fogos parte do escalão que o necessita, e se este não puder efetivá-los, a solicitação segue para o escalão superior. Todos os escalões manterão planilhas, de preferência integradas eletronicamente, de suas necessidades e prioridade de fogos.



O planejamento deverá prever a possibilidade de concentrar fogos de mais de uma unidade sobre um mesmo alvo numa mesma missão de tiro ou desencadear fogos simultâneos sobre mais de um alvo por uma mesma unidade. Para tanto este planejamento deverá ser simultâneo, com todos os escalões o executando ao mesmo tempo, concorrente com os fogos não possíveis repassados ao escalão superior, coordenado e unificado entre os diversos escalões, contínuo com a adição de novos alvos constantemente e alteração da situação tática, levando em consideração o tempo disponível e os meios em disponibilidade, além de outras variáveis. Os alvos elencáveis obedecerão a diretrizes previamente definidas. Serviços de informações listarão os alvos possíveis que virão a compor o planejamento inicial de grande escalão, cada um com indicação de importância, mobilidade e situação tática.

Iniciada a missão, os comandantes deverão manter reuniões freqüentes com vistas a corrigirem seus rumos e atualizar suas prioridades de fogo. 

A coordenação do apoio de fogo é o ato ou efeito de dispor o planejamento e a execução do fogo de tal sorte que os alvos sejam atacados, com oportunidade, pelos meios ou armas disponíveis, mais apropriados e eficazes, realizando a integração dos fogos com a manobra. O apoio de fogo solicitado deve ser executado pelo menor escalão que disponha dos meios necessários, com a rapidez e segurança necessárias.

Os planos terão demarcações que viabilizam o controle de fogos com zonas de responsabilidade e seus limites, linha de alcance mínimo para dos diversos sistemas de fogos (LSAA), áreas de fogos livres, restritos e proibidos, entre outras. Os fogos devem ainda seguir uma matriz de sincronização para evitar que sejam lançados onde estão as tropas amigas em determinado momento, e surtirem seus efeitos no momento desejado.

O sistema de apoio de fogo é composto primeiramente pelo sub-sistema de inteligência e busca de alvos, que envolve detecção, identificação e localização de alvos. Os resultados deste trabalho resultam em um mapeamento do campo de batalha, dando ao comando um mapa bidimensional que permite-lhe usá-lo tanto para orientar a manobra como para aplicação do poder de fogo pelos meios cinéticos e não cinéticos (guerra eletrônica). Aqueles alvos selecionados para aplicação do poder de fogo deverão apresentar detalhes que permitam batê-los com precisão e oportunidade. Quanto mais próximo do combate, mais sumária será esta análise, priorizando-se a produção de resultados em tempo real.


Os meios consistirão de radares de campo e localizadores sonoros, reconhecimento aéreo, observadores avançados, imagens de satélites, tropas de todos os tipos, etc... Depois de obtido o alvo, torna-se necessária a sua identificação e a confirmação de sua existência para, então, selecionar o meio apropriado de batê-lo. O resultado desse trabalho será o conhecimento da natureza, composição, localização e dimensões do alvo a ser engajado. Alvos móveis requerem atenção especial pela sua fugacidade e dificuldade de adquirir.

Após a designação de um alvo virá e sua análise que consiste na avaliação da importância militar, determinação da oportunidade de ataque, seleção do meio, e definição do método para a aplicação dos fogos. A importância é definida pela influência dele com a missão, que pode variar com a mudança da situação tática. A oportunidade leva em consideração a mobilidade, a recuperabilidade e a limitação do alvo. Nem sempre se ataca primeiro um alvo de maior prioridade e nem sempre é melhor atacar um alvo logo após a sua localização. O meio usado será o de menor escalão capaz de produzir o efeito desejado, sendo indicado, em ordem de prioridade, o morteiro, a artilharia, o fogo naval e o fogo aéreo. São observadas as características do alvo, o efeito desejado, as influências do terreno e das condições meteorológicas, além das características, possibilidades e limitações dos meios disponíveis. A precisão do sistema também influencia, o emprego do fogo naval e os MLRSs, por exemplo, quando empregados em áreas próximas às tropas amigas, que são menos indicados em razão de sua precisão menos apurada, dispersão ou necessidade de ajustagem. Alvos de fogo aéreo próximos às linhas amigas devem estar sinalizados, bombardeiros devem conhecer a localização das tropas, sempre orientados por um FAC. O método de aplicação procuram maximizar sua eficácia, batendo alvos com densidade e intensidade adequadas, valorizando a surpresa e prevendo as medidas de proteção.

Os fogos de contrabateria são uma das mais importantes missões da artilharia de campanha e da aviação tática para a proteção da tropa. Devem ser executados com prioridade, oportunidade e eficiência, pois representam uma decisiva ação de proteção aos meios que apoiam à manobra. A expressão contrabateria se refere aos procedimentos necessários para localizar, identificar e atacar posições de artilharia de todos os tipos que ofereçam ameaça. Os modernos sistemas constituem um desafio para a atividade de contrabateria, em virtude de que sua capacidade de entrar em posição, realizar o fogo e sair da área em tempo mínimo, tornando-os praticamente imunes à as estes fogos. Estes fogos dependem de radares que localizam a origem dos disparos através da análise da trajetória dos projéteis. Também podem ser desencadeados a pedido dos observadores, que poder estar em aeronaves, mas esta possibilidade é mais remota visto que depende destes saberem onde as baterias estão, geralmente além de seu campo de observação.



Cabe ao comandante que ordenou o fogo providenciar para que os resultados sejam avaliados a fim de verificar se os efeitos alcançaram o objetivo, ou se será necessário repetir o fogo. É uma atividade difícil e seus resultados têm uma exatidão variável, devendo-se empregar todos os meios que foram usados na busca de alvos. Os resultados obtidos nesta avaliação são função do tipo de meios de informação; da experiência do pessoal; da distância; do grau de conhecimento sobre o objetivo; da visibilidade; da capacidade de detecção do inimigo; e do prazo de tempo imposto disponível.

A aplicação de fogos é a mais clássica forma de um comandante intervir no combate. A moderna doutrina preconiza as operações como uma seqüência de ações de cunho ofensivo e initerruptas, onde a manobra em ações simultâneas em toda a profundidade do espaço de batalha deve ser empregada, com atividade diuturna sob quaisquer condições meteorológicas, sempre buscando a iniciativa e a surpresa. A artilharia de campanha atuará neste contexto de forma contínua, devendo ter a mobilidade das forças apoiadas para que seus fogos estejam sempre onde o comando os desejar. Os fogos visam anular ou diminuir a capacidade de combate do inimigo; facilitar o movimento amigo; diminuir, impedir ou dificultar os fogos do inimigo; e impedir ou dificultar a atuação de suas reservas.

O fogo aéreo deve complementar o terrestre, atuando tanto no combate aproximado em proveito da tropa como em fogos mais longos a retaguarda das frentes inimigas, As principais missões destes são determinadas pelo seu grande alcance, sua variedade de armas, sua precisão e velocidade de resposta, efetuando fogos contra objetivos em movimento ou não, determinados com precisão; distantes ou que não podem ser observados; com forte proteção e a instalações industriais e logísticas. Helicópteros armados são um sistema móvel e flexível que podem ser empregados para apoio das unidades no combate aproximado, como contra objetivos situados em profundidade, fundamentalmente no apoio às ações aeromóveis e de desembarque aéreo, assim como contra objetivos em movimento, principalmente meios blindados ou mecanizados.

O fogo naval pode ser usado nas operações próximas à costa, que contribui de forma semelhante ao apoio dos meios terrestres, devendo ser integrado com o restante do apoio de fogo disponível. Pode bater alvos de dimensões reduzidas e com forte proteção.


domingo, 22 de abril de 2018

Explosões, Efeitos das *145




Explosões no cinema são incríveis: elas fazem carros atravessarem abismos antes intransponíveis, e servem como um ótimo plano de fundo para o herói andar em direção à câmera. Na vida real, explosões de qualquer tamanho apreciável são terrivelmente fatais. Isto é o que realmente acontece quando você fica muito perto de uma explosão.

Explosivos fortes, como bombas caseiras e morteiros de artilharia, operam em uma escala de energia muito diferente do que balas de revólver ou fogos de artifício. Estes apenas estouram formando uma onda subsônica. Mas explosivos fortes causam uma detonação: isto é, a energia irradia a partir do local da explosão, viajando acima da velocidade do som. Quando você vê heróis do cinema saindo de um lugar que virou uma bola de fogo, aquilo é uma reação muito menos energética do que detonações – e, visualmente, impressionam mais.

Quando um bomba detona, a energia liberada irradia em todas as direções ao mesmo tempo, em velocidades entre 3 km/s e 9 km/s. À medida que esta esfera de energia se expande, ela comprime e acelera as moléculas de ar ao redor em uma onda de choque supersônica. Esta pressão extra só existe por alguns milissegundos, mas é a principal causa de lesões e danos materiais causados por explosivos. Quanto mais perto você estiver da fonte da explosão, mais grave é a pressão.

A força inicial da onda de explosão é imediatamente seguida por ondas de choque de alta velocidade, que dão mais energia a tudo o que atravessam – seja um muro de concreto ou seus órgãos vitais. À medida que uma onda de choque passa por uma área, ela literalmente não deixa nada para trás: essa parede de ar supersônico deixa um vácuo quase perfeito. Então, um segundo depois que seu corpo é severamente comprimido, ele é submetido a uma força oposta de despressurização igualmente massiva.

Infelizmente, a explosão ainda não acabou. O ar imediatamente entra para preencher o vazio atmosférico deixado pela onda de choque, puxando detritos e objetos de volta para a fonte da explosão. Esta rajada de vento é forte o suficiente para lançar um corpo humano a vários metros de distância. Quem for atingido em pé pelo vento da explosão fica mais vulnerável a ser levado pelo vento. Mas não é o vento em si que machuca: é o trauma físico que você sofre ao cair de cara no chão à velocidade de um carro na rodovia. É por isso que se esconder atrás de um objeto grande e pesado, para tentar se proteger contra a onda de choque, só funciona nos filmes.

Este golpe danifica seus órgãos, especialmente os órgãos cheios de ar – como os pulmões, ouvidos e estômago – assim como as articulações e ligamentos, onde os tecidos de densidades diferentes se encontram. Isto muitas vezes leva a hemorragia, e pode mesmo resultar em ruptura de órgãos. Os pulmões ficam especialmente em risco de hemorragia e edema (inchaço causado por acúmulo de líquido).

O cérebro não se sai muito melhor. Médicos militares que estudam os efeitos de barotrauma nas Forças Armadas dos EUA comparam os efeitos de uma explosão no corpo humano ao ato de apertar um tubo de pasta de dente: o sangue e os fluidos corporais são forçados em direção ao seu cérebro e crânio, resultando em edema.

Há também, evidentemente, uma grande quantidade de perigo indiretamente associado à força da explosão. Você poderia ser atingido por projéteis: um risco mortal, sejam eles detritos de explosão ou fragmentos de uma granada. Você poderia se queimar até ficar tostado pela bola de fogo que acompanha certos tipos de explosivos. Ou você poderia ser esmagado por um edifício em desmoronamento.

Mas, supondo que a explosão dê o mais certo possível, o corpo humano é bastante resistente, capaz de suportar uma quantidade surpreendente de força sem morte instantânea. Por exemplo, uma explosão relativamente pequena, como de uma bomba caseira, pode produzir uma sobrepressão de cerca de 1 psi e ventos de cerca de 65km/h. Isso é o suficiente para quebrar vidro, mas só causaria ferimentos leves. A explosão de um carro-bomba pode gerar mais de 2 a 3 psi (e vento a uma velocidade de até 160km/h), potencialmente causando grandes danos estruturais, lesões grave, e danos o suficiente para matar algumas pessoas.

Um pico de sobrepressão de 5 psi, por exemplo de uma ogiva nuclear 1MT, garante ferimentos generalizados e muitas fatalidades. A força é suficiente para aniquilar várias cidades e derrubar tudo – exceto estruturas solidamente reforçadas – sem mencionar que ela estouraria seus tímpanos. Em uma explosão com uma sobrepressão máxima de 10 psi, com os ventos de quase 500 km/h que ela produz, nem mesmo concreto reforçado conseguiria aguentar.

E em sobrepressões acima de 20 psi, pode esquecer. Mesmo 15 psi provoca danos pulmonares graves, mas em 20 psi, as mortes são comuns. Qualquer coisa que não foi destruída pela explosão inicial será soprada pelos ventos da explosão a 800km/h. Aqui entramos no território de armas nucleares muito grandes – em testes de algumas bombas de hidrogênio, os cientistas registraram efeitos de até 100 psi.

A única coisa que pode proteger você dessas ondas de choque mortais é a distância. Elas são incrivelmente fortes de perto – e na verdade ficam ampliadas em espaços confinados -mas estas ondas se dissipam rapidamente enquanto viajam. É por isso que os carros-bomba conseguem demolir a fachada do que está estacionado em frente, mas mal chacoalham as janelas das casas a uma quadra de distância. Então, se um dia você ficar no meio de uma explosão, não ande sem preocupações como um herói. Largue o que você estiver fazendo, coloque as mãos sobre suas orelhas, e corra o mais rápido possível na direção oposta.

terça-feira, 27 de março de 2018

Ações Estratégicas *144



Ações Estratégicas

Um governo, ao conduzir uma situação de crise deve seguir uma escala de percepções e ações que permita reagir aos acontecimentos sempre na medida adequada, evitando-se o uso desnecessário de medidas retaliatórias, que possam radicalizar a crise ou mostrar uma reação insuficiente, que demonstre fraqueza e omissão, encorajando a escalada dos fatores adversos. Os analistas dos serviços de inteligência devem estar atentos a fim de recomendarem aos seus “tomadores de decisão”, quais as medidas mais adequadas a serem adotadas em cada tipo de crise, evitando-se a surpresa estratégica.

O planejamento de emprego das expressões do poder de uma nação deve ser constantemente revisto em face a evolução da tecnologia existente e a disponível, a capacidade industrial e seu nível de aprestamento, e a configuração de ameaças possíveis, prováveis e eminentes. A situação política internacional que afete a nação, com suas alianças e antagonismos deve servir de norte a este planejamento.

As medidas a serem adotadas em situação de crise deverão ser diretamente proporcionais a discrepância do poder relativo entre os antagonistas e a importância do objetivo a ser perseguido, bem como a liberdade de ação de cada um. Empreender uma ação militar contra a Coréia do Norte por parte dos EUA, por exemplo, é totalmente diferente de tomar tal atitude em relação a Cuba, primeiro porque a primeira é supostamente uma potência nuclear, e segundo porque está sob a esfera de influência da China. Quando o Iraque invadiu o Kwait a resposta se deu prontamente, porém quando a Rússia invadiu a Criméia a reação foi bem diferente.

Nos cenários de grande liberdade de ação pode-se optar pela ação militar diretamente, resolvendo a crise rapidamente. Quando o poder militar inimigo é considerável, geralmente opta-se pelas retaliações e ações militares mais comedidas e de pequena envergadura. Neste caso podem ocorrer atritos localizados, porém evita-se um engajamento total, principalmente se houver a posse de armas nucleares pelo inimigo.

Estratégias Gerais

Estratégia da Dissuasão 

A estratégia da dissuasão é muito usada quando a capacidade de retaliação contra o inimigo é grande, e este evita o confronto, ou quando ambos são fortes e o confronto resultaria em grandes prejuízos a ambos. Esta estratégia foi muito usada na Guerra Fria e sua filosofia baseava-se na certeza da destruição mútua, pois as capacidades nucleares de ambos eram muitas vezes superiores às realmente necessárias. Ambos os lados sabiam que não haveria vencedores, o que garantia, desta forma que ninguém desse o primeiro tiro. Quando se trata de armas nucleares é uma estratégia perigosa e um pequeno erro ou acidente pode resultar em consequências severas. A dissuasão também é usada pelo mais forte contra o mais fraco, pois a simples ameaça de uso de um poder avassalador pode fazer este a aceitar as condições impostas.

Estratégias de Pressão

Quando o objetivo não é vital e o poder militar não é supremo, procura-se intimidar através de estratégias de pressão. Neste caso também evita-se o confronto direto mesmo o poder militar sendo muito superior, se a liberdade de ação for pequena. A crise dos mísseis cubanos é um exemplo de pressão, pois apesar da URSS ser dona de grande poder militar, recuou seus navios diante de um adversário igualmente poderoso cuidando de seu “quintal”. Neste caso ações no campo diplomático e da propaganda são mais eficientes, como as demonstrações de força e os desdobramentos e retóricas das chancelarias.

Estratégia da Resistência

Os conflitos propriamente ditos são usados quando o objetivo tende a ser muito importante, e mesmo o poder militar estando aquém do desejável, ele preocupa o inimigo.  Neste caso países poderosos aplicam poder militar avassalador como os EUA em sua invasão ao Iraque e os Nazistas em sua invasão a Polônia, com conflitos sendo decididos em tempos reduzidos. Conflitos de longa duração são desgastantes e muito caros, e tendem a ser evitados na atualidade, porém se o objetivo for muito importante e o poder militar fraco, de ambos os lados, estes tendem a acontecer. As guerras do Oriente Médio, ainda não resolvidas, são um exemplo destes conflitos de desgaste. Este tipo de conflito é geralmente norteado pela estratégia da resistência. Esta estratégia visa degradar moralmente um inimigo mais poderoso, inflingindo-lhes baixas não decisivas, mas que gradativamente diminuem sua vontade de lutar. A FNLV (Viet Cong) e o EVN usaram esta estratégia no conflito do Vietnam, e apesar da inferioridade militar, venceram o conflito.

A estratégia da resistência consiste em manter-se operacional, mesmo com meios limitados, estrategicamente manter-se na defensiva evitando-se o dispêndio de recursos que não existem em ações de grande vulto e taticamente na ofensiva com constante fustigação das fileiras inimigas através de ações de guerrilha. Isto obriga o inimigo a dispersas forças e facilita a ação dos atacantes.

Estratégia das Ações Sucessivas

Quando o objetivo é importante e os meios limitados, bem como a liberdade de ação pequena, adota-se a estratégia das ações sucessivas, onde uma série de ações em todos os campos de atuação possíveis complementam-se, buscando-se um objetivo final e importante a partir da conquista de objetivos menores e aparentemente não muito importantes. Ações políticas, diplomáticas, psicológicas e militares, aplicadas sucessivamente, em intensidades diferentes, servem de apoio umas às outras. A busca de objetivos aparentemente não importantes, não despertará no inimigo um grande empenho em sua retomada; ações militares pontuais, rápidas e violentas consolidarão estes objetivos que servirão de trampolim para o objetivo final. Esta estratégia combina a ação direta (militar), o conflito violento, a pressão indireta, e a estratégia de resistência. As ações políticas, de natureza diplomática e psicológicas se mostrarão dominantes nesta modalidade estratégica. Esta forma tende a ser a mais usada na gestão de crises que envolvam o confronto direto entre forças não hegemônicas, sendo uma empreitada longa, e vence aquele que tiver maior resiliência.

Planejamento Militar de Guerra

A estrutura de defesa deve adotar a concepção de emprego conjunto de todas suas forças e agências, incluído forças policiais e órgãos da administração civil. Um preparo coordenado e integrado das forças

terrestre, naval, aeroespacial e outras instituições deve permitir o seu emprego em situação de interoperabilidade, não se admitindo mais que cada força trave sua guerra particular como aconteceu em vários conflitos no passado.

A preparação deve ser realizada desde os tempos de paz, por meio da implementação de uma estrutura de fácil transição das atividades destes tempos para um quadro operacional de guerra, incluídos as forças armadas e a sociedade civil. Ações estratégicas devem ser previstas, planejadas e implementadas para que se possa atingir rapidamente uma capacidade operacional capaz de responder a altura de qualquer situação que venha a surgir. A mobilização, seja da infraestrutura como da indústria, bem como dos reservistas, deve se dar de forma natural e rápida, de forma em que os efetivos e capacidades possam atingir uma condição operacional plena para qualquer conflito e para a manutenção do pós-guerra. 



sábado, 17 de março de 2018

Estado-Maior e Ordens #143


O comandante militar é o responsável pela operação. É dele que partem todas as ordens para que as forças combatentes e de apoio cumpram a missão. Ele planeja e controla todas as ações, corrige rumos e disponibiliza apoio logístico para que cada ator exerça seu papel no momento e local oportuno, com a segurança adequada e devidamente abastecidos.

Esta atividade é comumente designada no meio militar como “Comando e Controle” (C2) e é a alma de qualquer operação. Unidades militares sem C2 são apenas um grupo bem disciplinado de indivíduos armados sem saber o que fazer. Cabe ao comando providenciar para que cada unidade ou indivíduo esteja no local de sua missão no horário previsto, com o equipamento adequado e devidamente instruídos de sua parte, inteirados da situação como um todo e com o suprimento necessário.

Uma operação militar é tanto mais complexa quanto maior for o escalão envolvido. Uma missão atribuída a um GC demanda alguma munição, alguma comida e talvez uma ou duas viaturas para transportá-lo, um objetivo simples que provavelmente será atingido em poucas horas; enquanto que uma missão a cargo de uma força-tarefa, divisão ou corpo de exército demanda recursos para manter em combate milhares de militares com milhares de equipamentos diferentes, com seus consumos de combustível, munição e alimentos, demandas médicas e de manutenção, além de um sem número de manobras e escaramuças envolvendo forças diversas de terra, unidades aéreas e navais. Tudo tem que ser coordenado e seu desfecho conferido, para que uma próxima fase possa ser implementada. Pode durar dias ou meses e serão necessárias milhares de decisões e ordens.

Comandar um GC ou pelotão pode ficar a cargo de um sargento ou oficial, mas a medida que o escalão aumenta se faz necessário a descentralização das atividades, com a segmentação das atividades operacionais e logísticas. A partir do nível subunidade (companhia) os comandantes militares contam com algum “staff”, um colegiado de oficiais que o auxiliam na divisão da complexa tarefa que é administrar uma operação militar. A este “staff” denomina-se no meio militar de Estado-Maior. O Estado-Maior possibilita ao comandante a descentralização da atividade de C2, poupando-lhe de se preocupar com detalhes operacionais e possibilitando-lhe que se concentre nas decisões mais importantes. Assim temos oficiais encarregados da produção de inteligência, de logística, de pormenores administrativos como o recompletamento de pessoal, de ligação com outras unidades, no planejamento e pormenorização das decisões táticas e operacionais tomadas, na segurança e vigilância e na avaliação de resultados, além de outras atividades consideradas necessárias.

O trabalho do Estado-Maior consiste em buscar soluções para os problemas e desafios que se apresentem, colher inteligência a respeito destas situações, analisá-los à luz da inteligência disponível e propor a solução destes ao comandante, considerando todas as linhas de ação possíveis e elencando a mais adequada, justificando causas e conseqüências de cada uma, vantagens e desvantagens, sempre fazendo contato prévio com todas as unidades envolvidas. A sugestão por um ataque aéreo deverá ser precedida por uma consulta de disponibilidade da unidade aérea que realizará o ataque, por exemplo. Ao comandante deverão chegar as sugestões de forma objetiva sem documentação volumosa, com conclusões claras e concisas, para que ele possa escolher, aplicando a solução se necessário, sua experiência e conhecimento pessoal, e uma vez tomada a decisão que ela siga na forma de ordem para pronto cumprimento. Ordens secundárias ou de menor importância deverão ser prontamente despachadas pelos oficiais do Estado-Maior e seus auxiliares, poupando desta forma o comandante dos detalhes operativos.




A estrutura de um Estado-Maior varia de acordo com a força a que serve e a situação que deverá ser enfrentada. Esta estrutura será composta por um chefe de estado maior, que poderá ser o sub-comandante da unidade ou não, e as diversas seções operativas, cada qual comandada por um oficial dedicado, que por sua vez será assessorado pelos oficiais adjuntos em funções específicas. No Exército Brasileiro, por exemplo, um Estado-Maior típico ou geral consiste em 5 seções, sendo a 1ª Seção encarregada da organização e administração de pessoal, a 2ª Seção ocupa-se da produção de inteligência, a 3ª Seção é a de operações e responsável pelas linhas de ação da unidade e adestramento de pessoal, a 4ª Seção encarrega-se do apoio logístico e a 5ª Seção cuida da comunicação social e dos assuntos civis. Outras estruturas podem ser implementadas.

Os oficiais adjuntos ou auxiliares constituem o Estado-Maior especial e cada um cuida de uma subseção específica, subordinados aos oficiais do Estado-Maior geral e atuando por exemplo, nas áreas de defesa antiaérea, apoio de fogo, guerra química e biológica, ambiente nuclear, engenharia de construção e combate, controle de tráfego aéreo, polícia, guerra eletrônica, comunicações, força aérea, aviação do exército, forças aeronavais, forças navais, prisioneiros de guerra, justiça militar, ajudância geral, segurança de área,  controle de aeródromo, controle de terminal portuário e tráfego aquático, propaganda, ações diversionárias, defesa anticarro, forças especiais, ligação com outras unidades, saúde e apoio médico, transporte e controle de tráfego terrestre, agências externas, e outras áreas que se façam necessárias.

O advento da tecnologia digital e da NCW permitiu a automatização de muitas tarefas desempenhadas pelos estados-maiores e postos de comando, agilizando muitas das decisões. Por exemplo a execução de uma missão de tiro pela artilharia, alimentada em um sistema informatizado pode demandar o ressuprimento de munição de uma área remota sem qualquer intervenção humana, dependendo dos sistemas disponíveis.

Os estados-maiores compõem os postos de comando da unidades e grandes-unidades e juntamente com o comandante são a parte operativa dos mesmos, que funcionam em uma estrutura física provida pelas subunidades de comando e serviços desta unidades. São alvos prioritários das forças inimigas e a neutralização dos estados-maiores e seus postos de comando poderá acarretar na inoperância tática de seus comandados, total ou temporária, por falta de ordens.



domingo, 7 de janeiro de 2018

O Obuseiro #142


veja Também: Morteiros

O obuseiro é o sucessor nos campos de batalha das catapultas medievais, e surgiu no século XVII como uma arma de cerco, tal qual sua antecessora. Com uma lenta introdução durante o século seguinte, consolidou-se como uma arma capaz de disparar projéteis explosivos, ao contrário dos canhões da época que disparavam projéteis cinéticos. Estas bocas de fogo passaram a acompanhar as tropas em campanha a medida que adquiriam a mobilidade necessária, e tanto no cerco como no campo podiam endereçar invólucros de metal recheados de pólvora, variando seu ângulo de tiro, o que demandou o desenvolvimento de uma técnica para que o projétil atingisse seu alvo. Dessa forma sua operação era mais complicada que a dos morteiros e canhões, o que demandou guarnições capazes de realizar cálculos, resultando em uma arma muito mais flexível que seus similares, utilizando-se de trajetórias variadas. Os projéteis cinéticos esféricos cederam lugar aos cilíndricos explosivos, capazes de carga equivalente (em volume) com calibres bem menores.

O século XX trouxe a esta arma a maturidade, após uma longa gestação entre armas de alma lisa ou raiada, com aplicação de sítio ou em campanha. A guerra de trincheiras do início do século XX demandou trajetórias altas com ângulos de impacto pronunciados, os tubos tornaram-se mais longos com os alemães adotando modelos de 105 mm e 16 e 22 calibres. Ao mesmo tempo canhões de 77 mm capazes de ângulos mais altos foram entregues, assumindo parte da função dos obuseiros. O entre-guerras resultou na tendência de fusão de ambos os tipos. A grande guerra que se seguiu consolidou o uso da artilharia como arma principal nas forças soviéticas, sendo estes parte fundamental de sua doutrina. Surgiram os freios de boca para redução do recuo e estas armas consolidaram a tendência de canos longos, cargas de projeção múltiplas e escolhidas conforme o alcance, altas velocidades iniciais e ângulos de tiro superiores aos 45º. O obuseiro passou a compor as fileiras de todos os exércitos modernos.


O obuseiro é a peça padrão da artilharia de campanha moderna no que diz respeito a artilharia de tubo, e uma das principais armas do campo de batalha da atualidade. É a principal arma provedora de fogos apoio, e equipa a grande maioria das unidades de artilharia. As outras armas que, ao lado do obuseiro também compõem as unidades de artilharia, são os morteiros e os lançadores múltiplos de foguetes (MLRS Multiple Launch Rocket System). Estes primeiros são armas mais simples e baratas, e ainda com peso reduzido em relação ao obuseiro, porém não alcançam a mesma precisão nos impactos. Os morteiros de 120 mm rivalizam com os obuseiros de 105 mm em alcance e são empregados em tropas leves ao lado dos mesmos, onde a maneabilidade torna-se o principal fator. Os MLRSs são armas mais poderosas e caras, que exigem estruturas logísticas para remuniciamento mais complexas, e provocam efeitos mais devastadores, sendo empregados em unidades de escalão superior e não são adequadas ao apoio de fogo às armas-base.

Idêntico ao canhão tradicional aos olhos do leigo, o obuseiro diferencia-se deste por sua capacidade de realização do tiro balístico, por cima das cabeças da tropa apoiada, valendo-se de técnica de tiro mais elaborada uma vez que as baterias não visualizam seus alvos, e material que emprega velocidades iniciais e pressões de tubo inferiores.  O obuseiro possui ainda a capacidade de realizar o tiro vertical (acima dos 45º), tal qual os morteiros. Muitos o designam erroneamente como “obus”, porém vale salientar que este termo designa a munição, e não o reparo lançador da mesma, embora existam interpretações diversas. Vocacionado para a realização do tiro balístico, o obuseiro pode, inopinadamente, realizar o tiro tenso ou direto, tal qual um canhão tradicional, possibilidade esta impossível aos morteiros.



O obuseiro opera compondo baterias de tiro, geralmente de 4 ou 6 unidades, que disparam seus fogos de forma coletiva obedecendo a elementos de tiro comums e disparos simultâneos, a fim de proporcionar volume de fogo na área de impactos (no alvo). O obuseiro não é uma arma de precisão, sendo seus impactos considerados “no alvo” quando atingem determinada distância deste, geralmente de 50 m, dependendo do calibre do material e do raio de ação dos arrebentamentos (no material de 105 mm é de 25 m). Operando a retaguarda dos “fronts” de combate, e sem visualizar seus alvos, as baterias de obuseiros contam com os olhos dos observadores avançados (OAs) para dirigir seus disparos e verificar sua eficácia. Os OAs inimigos por sua vez, estão de olho nas baterias e tem nelas seus principais alvos, razão pela qual as baterias de tiro devem sair rapidamente de posição após cumprirem a missão de tiro, exigindo tanto do equipamento quanto das guarnições elevada mobilidade e agilidade, sempre que a ameaça do tiro de contra-bateria estiver presente.




Os obuseiros podem ser montados tanto sobre plataformas autopropulsadas como rebocadas, sendo os primeiro destinados a acompanhar forças mecanizadas e blindadas, e os segundos componentes de tropas mais leves e menos móveis. Os modelos rebocados podem ser aerotransportados com maior facilidade, possuindo mobilidade estratégica superior aos seus pares autopropulsados, pois apresentam peso reduzido em relação aos primeiros, tanto por aeronaves de asa fixa como por helicópteros. Podendo nos helicópteros valer-se de aerotransporte em suspensão abaixo da aeronave, prática essa usada para deslocamentos táticos de curta distância e reposicionamento de baterias no terreno.

A pontaria de um obuseiro é realizada com o auxílio de pranchetas de tiro baseada em mapas do terreno. Uma luneta de tiro com graduação angular tem sua pontaria “amarrada” a uma baliza, cujo ângulo registrado pela visada nesta baliza representa um ângulo real em relação ao norte. Ao de se designar uma missão de tiro, uma central de tiro calcula na prancheta o novo ângulo a ser registrado na luneta, que ao ter sua visada realinhada a baliza faz com que o tubo por conseqüência se realinhe também, apontando na direção do alvo. O alcance é calculado a partir de tabelas pré-determinadas e materializado a partir da elevação dada ao tubo e da carga de projeção usada.



Devido a fluidez da guerra moderna e a já citada necessidade de atirar rapidamente a abandonar a posição, os equipamentos mais modernos contam com facilidade tanto nos sistemas de pontaria como nos de carregamento. Estes incorporam sistemas integrados digitais que contam com localizadores inerciais e GPS ou similares que dão a posição exata da peça e a distância do alvo, podendo apontar os tubos automaticamente ou fornecerem em tempo reduzido os dados para tal. Contam ainda com medidores de velocidade inicial dos disparos proporcionando mais precisão nos disparos, com dados integrados por computadores balísticos. Alguns modelos permitem a fantástica capacidade de efetivar alguns disparos (geralmente 3) em seqüência e em ângulos diferentes para um mesmo alcance, de forma que os projéteis alcancem o alvo ao mesmo tempo, com os primeiros descrevendo trajetórias mais longas que os últimos, causando um efeito superior.

Taticamente falando, o obuseiro é uma arma incrivelmente flexível, pois sem trocar de posição pode transportar seus fogos de seu alcance mínimo até o máximo em minutos, em qualquer direção. Isto permite que uma bateria de artilharia efetue um grande número de missões de tiro sem deixar a posição atual, atirando por exemplo, a 10 km para oeste, em seguida 30 km ao noroeste e em poucos minutos 15 km para o norte, se seu alcance permitir. Esta forma de atuação tática só é possível se não houver risco do inimigo em empreender fogo de contrabateria como eram nas bases de fogo do US Army no Vietnam.  

A tendência moderna é a padronização dos calibre em 105 mm mais leve e 155 mm padrão, amplamente usados no ocidente e tendência esta sendo seguida por países de outras partes do mundo, embora outros calibre também estejam em uso. O modelo de tubo mais usado pelo membros da NATO é o de 155 mm de 52 calibres, e que representa a tendência mundial. Transportar munição de 155 mm (volumosa) nas quantidades necessárias às missões requeridas exige grande esforço logístico, sendo que estas armas (mesmo as de 105 mm), exigem grande esforço de remuniciamento. Mesmo no ocidente as peças de 105 mm vem perdendo espaço para as 155 mm, ficando exclusivas para tropas mais leves como tendência.


 Os obuseiros modernos podem lançar granadas comuns a 30 km ou mais, dependendo do modelo no calibre de 155 mm, e cerca de 18 km nos modelos de 105 mm, com alcance de 10 a 15 km adicionais quando usando granadas assistidas. As granadas usadas também variam por função existindo as de alto-explosivo (HE), as fumígenas, iluminativas, anticarro, de propaganda, químicas, nucleares, etc. Na guerra do Vietnam o US Army lançou através de sua artilharia sensores que denunciavam a aproximação inimiga, através da medição de vibrações no terreno.

Os obuseiros e morteiros compartilham com a aviação de CAS, a artilharia naval e os MLRSs a incumbência de proporcionar volume de fogo nos campos de batalha modernos, porém os demais nem sempre estão disponíveis e a artilharia orgânica está diretamente sob o comando dos comandantes de campo, o que garante flexibilidade na sua utilização e a certeza destes comandantes que contarão com o fogo de que necessitam a hora que lhes for conveniente.


sábado, 9 de dezembro de 2017

A Logística no Desembarque na Normandia *141



Vinícius Valgas De Nadai

1. INTRODUÇÃO 

A Segunda Grande Guerra ou Segunda Guerra Mundial iniciou-se no ano de 1939, quando a Alemanha Nazista comandada por Adolf Hitler, pretendia junto aos países que formavam o Eixo, Itália, Japão e Alemanha, continuar a expandir seu território, recuperando parte das terras perdidas durante a Primeira Grande Guerra. Neste período, a logística mostrou-se indispensável durante os eventos militares, estes que evidenciaram sua complexidade em todo o período de guerra (CAMPOS, 1965). Inúmeros obstáculos foram detectados no processo de fornecimento de suprimentos para a frota militar em plena guerra, fazendo com que houvesse busca pela agilidade e aperfeiçoamento estratégico, buscando adotar métodos pré-determinados para evitar contratempos durante os acontecimentos. 

Usando a estratégia de “Guerra Relâmpago”, de codinome Blitzkrieg, primordialmente, a Alemanha Nazista havia conquistado consecutivas vitórias. Mesmo com muita relutância dos combatentes Aliados, sendo eles Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, a Alemanha tomou posse de grandes áreas territoriais, pretendendo conquistar e aumentar ainda mais sua predominância, chegando a um ponto que ultrapassaram as conquistas esperadas. A invasão da Normandia, considerada uma das batalhas de maior magnitude logística dos últimos tempos, ocorrida em 6 de junho de 1944, no noroeste da França, é, até hoje, considerada a maior invasão marítima da história, que envolveu um contingente de três milhões de soldados. 

Nesta batalha, a Alemanha foi desfavorecida por não possuir informações suficientes sobre as ações dos inimigos, não tendo conhecimento da data em que a invasão aconteceria e apresentando divergências quanto ao local do desembarque. Erwin Johannes Eugen Rommel, experiente militar alemão e comandante de exército na França, acreditava, ao contrário da maioria, que a invasão aconteceria na região da Normandia e assumiu a localização que lhe foi delegada, preparando um arsenal de defesa que se denominou “Muralha do Atlântico”, dificultando à logística dos Aliados durante a invasão. (KEEGAN, 1994) A “Muralha do Atlântico” era uma estrutura de defesa do Eixo que abrangeria a faixa litorânea da Dinamarca à Espanha, protegendo toda a costa tomada pelos alemães. Essa muralha constituía-se num conjunto de casamatas e áreas minadas posicionadas para dificultar ou impedir a suposta invasão ao continente europeu pelos Aliados.



2. HISTÓRIA

2.1. Decisões pelo Dia D 

Conhecido como o Dia D, aquele 6 de junho de 1944 entrou para a História. Foi o dia em que os Aliados invadiram a França pelas praias de Normandia para dar início a uma grande reintegração de posse territorial contra o exército nazista. A tomada de decisão pelas datas do grande ataque duraram anos, sendo motivo de muitos pleitos entre os Aliados. No começo, não houve consenso em relação à proposta da União Soviética para a abertura de uma segunda frente de batalha na Europa Ocidental, com a intenção de diminuir perdas russas nos enfrentamentos contra as Forças Armadas Alemãs. (COLLINS, 2005) Quando 1943 chegava ao fim, foi decidido pelo planejamento da Operação Overlord, que ocorreria durante a próxima primavera européia, definido também que a invasão aconteceria numa faixa de oitenta quilômetros de extensão, situados entre Cherbourg-Octeville e a foz do Rio Sena, região da Baixa Normandia. Esta batalha seria, posteriormente, considerada o maior combate aeronaval da História da Logística Militar. 

Passados meses desde a decisão pela invasão, mais de três milhões de combatentes britânicos, norte-americanos e canadenses se aglomeravam ao sul da Inglaterra para se preparar para o ataque aos alemães na costa norte da França. Para a operação, foram designados dez mil aviões, sete mil navios e centenas de tanques “anfíbios”, além de outros veículos específicos para guerra. A área de desembarque foi dividida em cinco praias, com codinomes e localizações para desembarque definidos como: 

  • Utah Beach, entre Pouppeville e La Madeleine; 
  • Omaha Beach, entre Saint-Honorine-des-Pertes e Vierville-sur-Mer; 
  • Gold Beach, em Arromanches-les-Bains; 
  • Juno Beach, de Courseulles-sur-Mer a Saint-Aubin-sur-Mer; 
  • Sword Beach, de Saint-Aubin-sur-Mer a Ouistreham; 


As duas primeiras, Utah e Omaha eram de tropas americanas, Gold e Sword eram formadas por tropas britânicas e Juno, canadenses.

2.2. O dia do Desembarque 

Foi anunciada pelo rádio a chegada do Dia D, o Dia da Decisão, em 6 de junho de 1944. Depois de ser adiado, por 24 horas, por problemas relacionados ao mau tempo no Canal da Mancha, o desembarque, por pouco, não foi suspenso. Ainda durante a madrugada, paraquedistas e caças aéreos já haviam dado início ao bombardeio de barricadas alemãs e devastado as vias de comunicação. Com cerca de 6.500 navios militares, houve ataques em praticamente 100 quilômetros de costa litorânea da Normandia, localizada a noroeste da França. Com o primeiro dia de invasão chegando ao fim, observou-se que mais de 150 mil soldados e vários tanques anfíbios alcançaram o continente europeu. Com a superioridade aérea dos Aliados, foi factível o rompimento da “Muralha do Atlântico”, que era considerada a grande barreira naval de Hitler, quando então foram constituídas as primeiras pontes de ataque (KEEGAN, 1982).

2.3. A Reação Alemã 

A Alemanha Nazista previa uma invasão, mas certamente não sabia onde ocorreria, nem mesmo chegou a um consenso interno sobre a forma correta de confrontá-la. Em decorrência do clima desfavorável do local, eles presumiram que o ataque seria adiado para o verão europeu, porém, devido a táticas realizadas pelos Aliados, fez-se acreditar que a invasão ocorreria na parte mais estreita do Canal da Mancha, onde, Hitler, contrariando avisos do marechal de campo Erwin Rommel, ordenou a concentração do décimo quinto Exército.

Outras tropas do Eixo mantiveram-se no interior do país, ao invés de serem relocadas para a costa, como havia solicitado, em vão, Erwin Rommel. Em razão desses problemas estratégicos, os Aliados esquivaram-se de uma provável contraofensiva nazista (HASTINGS, 1984). Devido ao despreparo alemão para enfrentar a invasão, no fim do primeiro dia as perdas humanas (cerca de doze mil) foram consideradas menores do que o esperado pelos Aliados. Mesmo com a evidente inaptidão momentânea por parte dos alemães, a evolução das tropas Aliadas sofreu grande relutância pelas tropas do Eixo. A resistência nazista no interior da França, só foi rompida no dia primeiro de agosto, uma semana após o previsto.

2.4. As Libertações 

Liderado por Dwight Eisenhower (Comandante Supremo das Forças Aliadas), o Dia D foi o ataque logístico tático que daria o golpe fatal nas forças nazistas instaladas em grande parte do território europeu. "Esse desembarque faz parte de um plano coordenado pelos aliados ocidêntais – em cooperação com o grande aliado russo – para libertar a Europa. A hora da libertação chegou", previa Eisenhower, no dia 2 de junho de 1944. No dia 25 de agosto, foi libertada Paris, já em 2 de setembro foi a vez de Bruxelas. O limite de fronteira alemã, anterior ao começo da guerra, foi ultrapassado pelos Aliados em Aachen no dia 12 de setembro, simultaneamente com os bombardeios aéreos em combate a municípios industriais alemães. Logo no início de 1945, norte americanos (pelo oeste) e soviéticos (pelo leste), começaram uma corrida em direção à Berlim, para comemorar a conquista absoluta sobre a Alemanha nazista.



3. LOGÍSTICA

3.1. Preparação 

Sem dúvidas, houve imenso planejamento logístico para a realização da operação de desembarque. Toneladas de suprimentos foram transportadas da Inglaterra para as praias da Normandia, utilizando centenas de embarcações de tamanhos variados. Considerando de caráter logístico todos os aspectos da operação, determinar o tamanho da força tarefa, objetivos táticos e estratégicos, locais de desembarque, e as necessidades de abastecimento de curto e longo prazo é necessário para melhor planejamento.

veja: Portos Mulberry

Para dar início a força tarefa, houve grande preocupação com a chegada de suprimentos suficientes em terra, pois ali assegurados, conseguiriam estabelecer portos para o desembarque de mais tropas e suprimentos. Enfatizando a importância do desembarque e distribuição de suprimentos, somente os americanos atribuíram à operação logística sete brigadas com um montante de vinte mil homens cada, estes desembarcados em diferentes fases da operação, sendo responsáveis pelo transporte de 3.300 toneladas de suprimentos por dia, e designados a desembarcar estes itens na praia, carrega-los para os caminhões ou tanques principais e leva-los para a tropa na linha de frente. 

O sucesso ou fracasso desta invasão dependia do desempenho de suprir as tropas à frente, visando o acúmulo de suprimentos para executar uma futura ofensiva (CAMPOS, 1952). Os líderes tentaram reduzir a incerteza nos planos do processo logístico, explicando detalhadamente o sistema de distribuição, contando com uma estratégia logística precisa e meticulosa. Cada material recebeu sua própria prioridade e com elas o nível necessário de reabastecimento, fazendo o processo de acumulação de reservas se tornar cada vez mais complexo à medida que a força dos Aliados aumentava seu poder de realizar operações de ofensivas (COLLINS, 2005).

3.2. Problemas Logísticos da Operação 

No primeiro dia de invasão, 150.000 homens Aliados se chocaram contra as defesas alemãs do Eixo, e mesmo com as dificuldades encontradas em Omaha no começo da operação, ao anoitecer as tropas Aliadas ja se encontravam solidamente estabelecidas no continente. No terceiro dia de invasão (D+3), os Aliados começaram a sair das praias em direção ao continente, onde se iniciaram as operações de desembarque em grande escala, levando os Aliados a se depararem com uma grande gama de problemas logísticos. Identificou-se a necessidade de uma quantidade maior de embarcações de menor porte para transportar os suprimentos dos navíos até as praias, pois não tinham caminhões anfíbios suficientes (tipo DUKW) e nem ferries (Rhino), contando que estes transportes já estavam sobrecarregados e sendo usados com mais frequência do que o planejado, mesmo assim não sendo suficiente para mover o montante demandado. 

Dado este obstáculo, o processo de desembarque de suprimentos se tornou um caos. À medida que o fluxo de desembarque começou a atrasar, embarcações que precisavam partir tinham que esperar, porém outros carregamentos de tropas e abastecimentos chegavam de acordo com o cronograma inicial, tendo que esperar, atrasando o seu retorno à Inglaterra para ser recarregado, resultando em um enorme “congestionamento” e aumento no tempo de descarga de suprimentos. O caos se manifestou em todo o sistema logístico, impactando nos portos de embarque da Inglaterra, onde a equipe da intendência iniciou o carregamento das embarcações com todos os tipos de insumos misturados, sem ter o cuidado de separar apropriadamente os carregamentos delegados a cada embarcação. (CAMPOS, 1965) 

Para exemplificar a desordem daqueles primeiros dias de invasão, temos a busca desesperada dos americanos pelos projéteis de 81 milímetros para suas armas. Os registros indicavam que grande quantidade desta munição se encontrava nas embarcações que já estavam na costa, porém estas não eram localizadas. Depois de alguns dias de tormento e graças a enormes esforços de todos envolvidos, a situação começou a se normalizar e em seguida melhorou substancialmente. Para o décimo oitavo dia (D+18), as acumulações de tropas e suprimentos finalmente ultrapassaram o montante previsto em tonelagem. Até o final de junho, mais de 42 mil soldados, 70 mil veículos e 289 mil toneladas de carga foram recebidos (respectivamente 71,8%, 64,5% e 80,5% do desembarque planejado).



3.3. A Importância da Operação Overlord para Logística 

A Operação Overlord foi um acontecimento muito importante da Segunda Guerra Mundial na região da Europa Ocidental. Simplesmente pelo fato de ter desembarcado na França, os Aliados ocidentais abriram uma segunda frente de guerra, com fortes implicações para a Alemanha. A operação logística foi monumental, uma tarefa sem precedentes na História. Mesmo com erros em sua concepção e execução, a operação obteve êxito, apesar das dificuldades. Detalhes específicos e falta de flexibilidade foram as causas da destruição alemã. Em 27 de julho, no quinquagésimo primeiro dia (D+51), as tropas norte americanas perfuraram o exercito alemão em St. Lo, região da Baixa Normandia, e de lá começaram a perseguição de seus inimigos que não se conteria até alcançar a fronteira da Alemanha.

3.4. Rápido Avanço dos Aliados 

O avanço até a Alemanha foi extremamente interessante e a rapidez do avanço dos próximos dez meses teria como consequência uma enorme pressão sobre o sistema logístico dos Aliados, que, por sua vez, teve que fornecer suprimentos para mais de um milhão de soldados e milhares de veículos de todos os tipos ao longo de centenas de quilômetros, esta, outra tarefa sem precedentes. (MASSON, 2003) No centésimo dia (D+100), 14 de setembro de 1944, o primeiro Exército Aliado estava chegando à fronteira alemã, perto da cidade de Aachen, uma área que só esperava-se alcançar no dia D+330. 

Esta rapidez se chocou com outro problema inesperado, a falta de transporte dos suprimentos que já estavam acumulados nas praias da Normandia para as tropas avançadas. No final de agosto, 90% do fornecimento dos Aliados ainda se encontrava em armazéns na Normandia, a uma distância de 500 quilômetros das tropas de frente. O planejamento logístico do avanço dos Aliados na Europa Ocidental baseou-se na forma de resolver problemas no carregamento de suprimentos às tropas, utilizando vários modais, como o rodoviário, com caminhões, o aeroviário, com aviões e o dutoviário, com os dutos de combustível. Nos meses críticos, de agosto e setembro, os caminhões foram utilizados para transportar a maior parte dos itens demandados das praias da Normandia até a linha de frente da batalha, porque a infraestrutura de transporte de alto volume, como trens e dutos não se encontravam prontos para o funcionamento. As linhas férreas no oeste de Paris tinham sido bastante danificadas devido a bombardeios anteriores a invasão, e demorariam meses para serem reconstruídas enquanto os dutos de combustível levariam algum tempo para serem instalados (CAMPOS, 1965).

3.5. Rumo ao Interior do Continente 

Anteriormente, no período em que os Aliados permaneciam nas redondezas das praias, as distâncias eram curtas, tornando a distribuição de suprimentos simples. Porém, a partir do momento que quebraram as barreiras alemãs na Normandia, a distância não parava de crescer. E à medida que as tropas se afastavam das bases de abastecimento, o nível de reabastecimento diminuía. 

Em 21 de agosto, o transporte de suprimentos foi organizado e denominado “Red Ball Express”. (BEEVOR, 2009) O uso de caminhões para suprir a demanda de suprimentos, se converteu em um problema logístico de grande magnitude. O efeito do rápido avanço Aliado na batalha foi extremo. Conforme a distância aumentava, os caminhões necessitavam de um maior tempo para completar a viagem de volta aos depósitos, demorando mais para chegar, novamente, à linha de frente. Cada quilômetro avançado pelas tropas evidenciava a diminuição da quantidade de caminhões a disposição. De fato esses veículos conseguiam transportar apenas o mínimo demandado pelo exército, excluindo a possibilidade de acúmulo de reservas, e eventualmente, deixando de arcar com as necessidades posteriores. No dia 9 de setembro, o combustível recebido pelas tropas de frente, era menor do que o consumo diário, fazendo com que o avanço de muitas unidades parasse abruptamente, além de que o consumo de combustível era apenas um dos problemas. 

Em meados de setembro, a artilharia precisaram racionar a quantidade de projéteis de todos os calibres que podiam disparar, para apoiar as unidades nas tropas avançadas. No final de setembro, a situação ficou ainda mais crítica, obrigando os Aliados a parar os avanços para conseguir tempo suficiente para coletar e acumular suprimentos e reiniciar o avanço em direção à Alemanha na primavera de 1945. (CAMPOS, 1965) O aparato de intendência logística Aliado teve grandes dificuldades para reabastecer combustível e munição, embora houvesse graves problemas em algumas áreas, tais como a manobra de distribuição de roupas de inverno (sendo, em alguns casos, tarde demais), processos como distribuição de alimento, água e vestimentas eram, ao contrario do esperado, de fácil execução. A crise do reabastecimento das tropas, só foi solucionada quando o sistema de ferrovias conseguiu dar início ao carregamento de parte substancial dos suprimentos, no final de novembro. Um trem poderia facilmente transportar 1.000 toneladas de suprimentos, o equivalente a 400 caminhões com 2,5 toneladas cada, o maior caminhão disponível dos Aliados.



3.6. O Triunfo dos Aliados 

A clara habilidade e dedicação dos envolvidos, cujo afinco, tanto das tropas de batalha, como das tropas de serviço, forneceram contribuição fundamental para o triunfo dos Aliados. No dia 6 de junho de 1944, as manobras logísticas realizadas foram as mais eficazes até então conhecidas, contando com o apoio dos aparatos de guerra mais poderosos da época. [...] Nunca anteriormente, os exércitos haviam avançado com tamanho apoio logístico e com tanta velocidade, tanto por terra como pelo ar, como também jamais a potência de choque de forças combatentes havia sido tão oportunamente suprida pelas tropas de Serviços. Dwight Eisenhower (CAMPOS, 1965 – p.195). Tropas dos serviços de abastecimento cumpriram, com astúcia e aptidão, as inúmeras missões a eles delegadas, trabalhos pesados, muitas vezes triviais e ocasionalmente miseráveis. Os esforços realizados pelos órgãos e tropas de suprimentos, mostraram-se tão importantes e fundamentais para o sucesso quanto ao das forças combatentes, igualando sua contribuição na conquista da vitória.

CONCLUSÃO 

Um sistema logístico é essencial para garantir a eficiência de um evento como o abordado neste artigo, para suprir as necessidades de abastecimento das tropas e o transporte de equipamentos em geral, podendo determinar o triunfo ou a derrota de ambas as partes. Foram milhares de homens exercendo tarefas em todas as funções, enfrentando nobremente, tanto atribulações de batalha, quanto a exaustão. 

Durante toda a invasão, foram necessárias operações de abastecimento, e se não fosse por elas, o triunfo dos Aliados sobre o Eixo talvez não se consolidasse. Demonstrando as razões estratégicas do êxito, estavam os muitos elementos atuando em harmonia entre si no decorrer da empreitada dos Aliados. 

Evidenciou-se a habilidade, abrangendo todos os serviços, para se colocarem acima das condições desfavoráveis. Ao apontar as razões do triunfo, temos que considerar, não somente as proezas durante a batalha, mas também a cautela e o planejamento antecipado ao dia D, que levou anos para ser elaborado. O sucesso foi consequência do preparo meticuloso da logística dos Aliados, o apuro do reabastecimento das tropas na linha de frente e dos aparatos anfíbios, além da eminente organização que outorgava as extraordinárias façanhas do Serviço de Suprimento e Manutenção. O desempenho estratégico logístico, em conjunto com os problemas administrativos internos do Eixo, culminou na vitória dos Aliados, mais do que qualquer supremacia material ou quantitativa, desempenho, hoje, devidamente reconhecido em 6 de junho, intitulado Dia Internacional da Logística.