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domingo, 8 de março de 2026

Sincronização de Impacto (Time on Target - TOT) **254



Um dos pilares fundamentais da estratégia militar é aplicar ao inimigo o poder bélico de forma imprevisível à ele (Surpresa), sendo muitas vezes o fator decisivo entre a vitória e a derrota. Em um cenário de conflito, onde as forças podem estar equilibradas em termos de tecnologia e contingente, a capacidade de agir de forma inesperada rompe a paralisia do planejamento convencional e desestabiliza o adversário.

O valor estratégico da surpresa das ações reside em 3 pontos centrais: a desorientação psicológica, que é quando uma força executa manobras que fogem à lógica esperada, ele impõe um estado de confusão mental ao comando inimigo. Como observou Sun Tzu em A Arte da Guerra, a guerra baseia-se na dissimulação. Ao ser imprevisível, o atacante retira do defensor a capacidade de antecipação, gerando hesitação e pânico. A anulação da superioridade numérica, que permite que o lado mais fraco escolha, através de ações inesperadas, o momento e o local onde o inimigo está mais vulnerável, transformando uma desvantagem quantitativa em uma vantagem tática localizada. A história militar está repleta de exemplos onde forças menores derrotaram exércitos vastamente superiores através do elemento surpresa. E a adaptação e flexibilidade, onde previne-se que operações rígidas e previsíveis sejam facilmente mapeadas e neutralizadas por contra-ataques ou inteligência. A imprevisibilidade exige um comando descentralizado e criativo, permitindo que as tropas se adaptem rapidamente às mudanças no campo de batalha, tornando a força um "alvo fugaz" impossível de ser totalmente compreendido.

Em suma, a imprevisibilidade tático-operacional não é apenas uma escolha momentânea, mas uma necessidade vital. Ela transforma a força bruta em inteligência aplicada, garantindo que a iniciativa permaneça nas mãos de quem ousa desafiar os padrões estabelecidos, tornando o caos um aliado e a surpresa uma arma letal.

A Técnica Time on Target (TOT)

A técnica Time on Target (TOT) e a furtividade representam o ápice da coordenação e da surpresa no campo de batalha moderno, sendo pilares fundamentais para a eficácia de operações militares contemporâneas

A Sincronia do Caos: Time on Target (TOT)

O TOT é uma doutrina de artilharia e apoio aéreo que consiste em coordenar diferentes unidades de disparo para que todos os projéteis atinjam o alvo exatamente ao mesmo tempo. O impacto psicológico e material é inegável. Em bombardeios convencionais, o primeiro impacto serve de alerta, permitindo que o inimigo busque abrigo. No TOT, a saturação é instantânea, negando qualquer tempo de reação e maximizando a destruição antes que as defesas sejam acionadas. A eficiência de meios permite que forças dispersas concentrem seu poder de fogo em um "ponto decisivo" sem a necessidade de estarem fisicamente próximas, dificultando o contra-ataque inimiga. A furtividade nas operações não se limita apenas a aviões invisíveis ao radar; ela é a gestão da assinatura (visual, acústica, térmica e eletrônica) de uma força, de seu material e de suas intenções. A Sobrevivência em um ambiente saturado por sensores e mísseis de alta precisão, ser detectado é, muitas vezes, sinônimo de ser destruído. A furtividade permite que unidades operem dentro de zonas de negação de acesso do inimigo. Esta liberdade de ação garante a iniciativa. Ao controlar o que o inimigo vê, o comandante mantém a capacidade de escolher o local e o momento do engajamento.

Quando unidas, estas ferramentas proporcionam uma sinergia decisiva, que transformam a guerra em um exercício de precisão cirúrgica. A furtividade permite o posicionamento sem detecção, enquanto o TOT garante que o golpe seja letal e definitivo. Juntas, elas reduzem o "atrito" da guerra, permitindo vitórias rápidas com o mínimo de exposição das tropas amigas, algo essencial em conflitos onde a opinião pública e os recursos são sensíveis a perdas prolongadas.

A técnica Time on Target (TOT) (HNA – “hora no alvo” no Brasil) é uma técnica de artilharia de campanha projetada para que todos os projéteis disparados por diferentes unidades ou baterias atinjam o mesmo alvo simultaneamente, podendo ser expandida para emprego mais amplo, incluindo todas formas de bombardeio, seja terrestre, aéreo e naval.

Funcionamento e Objetivos

Diferente de uma barragem convencional, onde os tiros chegam em sucessão, o TOT coordena os disparos com base na distância e no tempo de voo de cada projétil.

Através da sincronização do disparo das peças de artilharia localizadas em diferentes posições, que o fazem em momentos distintos para que o impacto ocorra no exato mesmo segundo, de acordo com a duração da trajetória dos projéteis de cada peça em função de suas distâncias do alvo. O elemento surpresa se configura neste momento, onde o objetivo principal é maximizar o dano antes que o inimigo possa buscar abrigo. Em bombardeios graduais, o primeiro impacto serve de alerta; no TOT, a destruição total ocorre instantaneamente. Isso causa um efeito psicológico através de um impacto maciço e repentino dos projéteis, que causa desorientação severa e choque nas tropas atingidas.

É importante não confundir o TOT com outros termos de gestão de tempo e alvos: Time Sensitive Target (TST) refere-se a alvos de oportunidade que exigem uma resposta imediata por serem fugazes ou representarem uma ameaça iminente. Targeting é o processo sistemático de selecionar alvos e determinar a resposta adequada para atacá-los.

Aplicações Modernas do TOT

Com o avanço da tecnologia, o conceito evoluiu para o MRSI (Multiple Rounds Simultaneous Impact), onde uma única peça de artilharia moderna consegue disparar vários projéteis em trajetórias diferentes (ângulos variados) para que todos cheguem ao alvo ao mesmo tempo. O conceito de MRSI (Multiple Rounds Simultaneous Impact - Impacto Simultâneo de Múltiplos Disparos), tradicionalmente restrito à artilharia de campanha, tem evoluído para uma abordagem ampla de sincronização conjunta (joint forces) e multidomínio.

Quando expandido, o MRSI não se limita a um único obuseiro disparando vários tiros que chegam juntos, mas sim à orquestração de vetores aéreos, navais, terrestres e de mísseis para que suas cargas úteis atinjam o mesmo alvo ou alvos distintos, no mesmo instante (ou em uma janela de tempo extremamente curta).

O Conceito Ampliado: MRSI Amplo

Em um cenário moderno, o MRSI é uma ferramenta de efeitos simultâneos, focada em superar defesas inimigas através de saturação e choque, utilizando forças terrestres de Artilharia, aéreas e navais. Os obuseiros modernos (ex: PzH 2000, M109A6) podem disparar com diferentes cargas e trajetórias, ou sistemas de foguetes (MLRS/ASTROS). As forças navais, com destróieres modernos (ex: Zumwalt) usam o conceito de MRSI com seus canhões de 155mm, simulando o poder de fogo de várias baterias terrestres simultaneamente. As forças aéreas (aeronaves/VANTs) com caças, bombardeiros ou drones liberam munições guiadas de precisão (PGMs) de diferentes distâncias e altitudes, programadas para atingir o alvo no mesmo segundo dos impactos da artilharia terrestre. Os mísseis de cruzeiro/balísticos de longo alcance são sincronizados para impactar após a "supressão" inicial da artilharia, garantindo a destruição.

Vantagens do MRSI Amplo (Joint)

A primeira vantagem é a saturação da defesa aérea/antimíssil (A2/AD) ao receber múltiplos impactos de diferentes vetores ao mesmo tempo tornam-se ineficazes. O efeito de choque e supresa inibe a reação, pois a falta de tempo entre o primeiro e o último impacto não permite que o inimigo reaja ou busque abrigo. A maior letalidade devido à concentração de fragmentação e energia no mesmo ponto, que aumenta exponencialmente a chance de destruição de alvos endurecidos. Por fim a minimização da exposição (shoot-and-scoot) permite que os meios (terrestres ou navais) disfiram a salva e se movam rapidamente antes que a artilharia de contrabateria inimiga responda.

O Papel da Tecnologia

Para que o MRSI amplo funcione, é necessária uma Rede de Comando e Controle (C2) extremamente precisa, envolvendo: Computadores de balística avançados, Sistemas de navegação e tempo (GPS/GNSS) sincronizados e Link de dados em tempo real entre Marinha, Exército e Aeronáutica.

Esse conceito é central para doutrinas como a Operação Multidomínio (Joint All-Domain Operations - JADO), onde a sinergia de capacidades é mais importante do que a capacidade individual de uma força.






 










O MRSI na Artilharia

MRSI (Multiple Rounds Simultaneous Impact) é uma técnica de artilharia moderna que permite que uma única peça de artilharia dispare vários projéteis em sucessão, de modo que todos atinjam o alvo exatamente ao mesmo tempo.

Como funciona:

Trajetórias diferentes: O computador de tiro calcula diferentes combinações de ângulos de elevação e cargas propulsoras.

Sequência de disparos: O primeiro projétil é disparado em uma trajetória muito alta (arco longo). Os disparos seguintes são feitos com ângulos cada vez mais baixos e velocidades maiores.

Sincronização: Como o primeiro projétil leva mais tempo para cair e o último leva menos, o tempo de voo de todos é equalizado para o mesmo instante de impacto.

Esta técnica é usada visando o elemento surpresa e a eficiência do ataquem. Em um ataque convencional, o som do primeiro impacto alerta o inimigo para buscar cobertura. No MRSI, o "primeiro" impacto é, na verdade, a chegada de 3 a 6 granadas simultâneas, maximizando o dano antes de qualquer reação. No que tange a eficiência, uma única unidade consegue entregar o poder de fogo que normalmente exigiria uma bateria inteira (vários canhões).

Sistemas modernos como o PzH 2000 (Alemanha) ou o Archer (Suécia) são referências nessa tecnologia.

Vários sistemas modernos de artilharia foram projetados especificamente para maximizar a capacidade MRSI. A eficácia dessa técnica depende da velocidade do municiamento automático e da precisão do computador de tiro.

Aqui estão os principais sistemas utilizados atualmente com as maiores capacidades de disparos simultâneos:

Archer (Suécia/BAE Systems): É amplamente considerado um dos mais avançados. Ele pode disparar até 6 granadas para impactarem ao mesmo tempo. Sua torre é totalmente automatizada, permitindo que ele pare, dispare e saia da posição em menos de 30 segundos.

PzH 2000 (Alemanha): Este obuseiro sobre lagartas tem capacidade para até 5 disparos MRSI. Ele é conhecido por sua altíssima cadência de tiro, conseguindo disparar 3 projéteis em apenas 9 segundos em modo de rajada (burst).

K9 Thunder (Coreia do Sul): Um dos sistemas mais exportados do mundo, o K9 pode realizar o impacto simultâneo de 3 granadas. Versões mais recentes, como o K9A2, estão sendo desenvolvidas com carregadores totalmente automáticos para aumentar ainda mais essa cadência.

CAESAR (França): Embora seja um sistema sobre rodas mais leve, ele possui capacidades MRSI (geralmente em torno de 2 a 4 disparos, dependendo da distância), focando na agilidade de "atirar e fugir".

A Distância do Alvo

A distância do alvo é o fator crítico para o MRSI porque ela define a "janela de tempo" disponível para as diferentes trajetórias.

Funciona assim:

Distância Curta (Limitada): Se o alvo estiver perto demais, a trajetória precisa ser baixa e o tempo de voo é curto. Não há tempo suficiente para o canhão mudar o ângulo e carregar um novo projétil antes que o primeiro atinja o alvo. Por isso, em distâncias curtas, o MRSI é impossível ou limitado a apenas 2 disparos.

Distância Ideal (Máxima Capacidade): O MRSI atinge seu ápice em distâncias médias (geralmente entre 15 km e 25 km). Aqui, a primeira granada pode ser disparada em um ângulo muito alto (levando cerca de 1 minuto para cair), o que dá tempo de sobra para o sistema carregar e disparar as granadas seguintes em ângulos mais baixos.

Distância Longa (Reduzida): Conforme o alvo se aproxima do alcance máximo do canhão (ex: 40 km), todas as granadas precisam de trajetórias de baixo ângulo e carga máxima de pólvora para chegar lá. Como as trajetórias ficam muito parecidas, a diferença de tempo de voo entre elas diminui, reduzindo o número de disparos simultâneos possíveis.

O MRSI é um equilíbrio entre a velocidade de carregamento do canhão e a diferença de tempo de voo entre uma trajetória alta e uma baixa.


Os Fatores Climáticos

O clima é um dos maiores desafios para o MRSI, pois cada projétil viaja por "camadas" de atmosfera completamente diferentes.

Como os disparos seguem trajetórias distintas para chegar ao mesmo tempo, a meteorologia afeta cada um de forma única:

Vento em Diferentes Altitudes: O primeiro projétil (trajetória alta) sobe muito mais (pode chegar à estratosfera), enfrentando ventos de cauda ou de través que não existem nas trajetórias baixas dos últimos disparos. Se o computador de tiro não compensar essa diferença, os projéteis chegarão em momentos ou locais diferentes.

Densidade do Ar e Temperatura: O ar frio é mais denso e oferece mais resistência (arrasto). Como o primeiro projétil fica mais tempo no ar e percorre uma distância maior no arco, ele é muito mais afetado por variações de temperatura e pressão do que o disparo direto (trajetória baixa).

Precisão Digital: Para resolver isso, sistemas como o Archer ou o PzH 2000 utilizam Sensores Meteorológicos em tempo real e radares de velocidade inicial (muzzle velocity). O computador ajusta o ângulo de cada disparo individualmente, baseando-se nos dados climáticos daquele exato momento.

Sem essa compensação digital, o efeito de "impacto simultâneo" se perderia, transformando-se em uma sequência de explosões desordenadas e imprecisas.

As Munições Guiadas

O uso de munições guiadas por GPS, como o M982 Excalibur, transforma radicalmente a eficácia do MRSI ao resolver o maior problema dessa técnica: a dispersão causada pelo clima e por trajetórias variadas.

Precisão Cirúrgica: Enquanto granadas convencionais disparadas via MRSI podem ter um erro (CEP) de dezenas ou centenas de metros (devido às diferentes camadas de vento em cada trajetória), o Excalibur corrige sua rota em pleno voo. Isso garante que todos os disparos caiam a menos de 4 metros do alvo.

Independência de Trajetória: No MRSI convencional, o computador precisa ser perfeito ao prever o efeito do vento em um arco alto vs. um arco baixo. Com GPS, o projétil "sabe" onde está e ajusta suas aletas para compensar qualquer variação climática automaticamente.

Alcance Estendido e Manobrabilidade: Projéteis guiados como o Excalibur possuem aletas que permitem planar, estendendo o alcance para até 50-70 km. Isso amplia a "janela" de tempo para realizar o MRSI, permitindo ataques simultâneos a distâncias que seriam impossíveis com munição comum.

Economia de Munição: Um único ataque MRSI com munição guiada pode destruir um alvo que exigiria entre 10 a 50 tiros de artilharia convencional para obter o mesmo efeito.

Vulnerabilidade (O Ponto Fraco): Ao contrário das granadas "burras", as guiadas podem sofrer interferência eletrônica (jamming). Se o sinal de GPS for bloqueado, elas perdem parte da precisão, embora ainda usem sistemas de navegação inercial (INS) para tentar manter o curso.

Contramedidas ao MRSI

A intercepção de um ataque MRSI é considerada um dos maiores desafios para a defesa aérea, pois o sistema precisa lidar com múltiplas ameaças chegando simultaneamente ao mesmo ponto.

Os sistemas de defesa utilizam uma combinação de tecnologias conhecidas como C-RAM (Counter Rocket, Artillery, and Mortar) para tentar neutralizar esses projéteis:

Radares de Varredura Rápida: Sistemas como o do Iron Dome (Israel) ou radares AESA detectam os projéteis no momento do disparo. Eles calculam as trajetórias de cada uma das granadas MRSI instantaneamente para priorizar as que realmente atingirão áreas sensíveis.

Saturação da Defesa: O principal objetivo do MRSI é justamente "saturar" ou sobrecarregar a defesa. Se um sistema possui apenas 4 canais de tiro e 6 granadas chegam ao mesmo tempo, pelo menos 2 passarão. Por isso, a defesa precisa de uma cadência de intercepção superior à do ataque.

Intercepção por Canhões Gatling: Sistemas como o Centurion C-RAM (EUA) utilizam canhões automáticos de 20mm que disparam até 4.500 tiros por minuto. Eles criam uma "parede de metal" para destruir as granadas MRSI por impacto direto ou estilhaços antes que toquem o solo.

Mísseis Interceptores: No caso de artilharia de longo alcance ou foguetes, mísseis guiados tentam interceptar cada projétil individualmente no ar. O custo é o grande desafio: cada míssil interceptor pode custar dezenas de milhares de dólares para destruir uma granada de artilharia barata.

Alerta Antecipado: Mesmo que não consigam interceptar todos os projéteis, os sistemas C-RAM detectam o ataque e acionam sirenes de aviso local, dando aos soldados preciosos segundos (geralmente de 15 a 30) para buscarem abrigo, o que reduz drasticamente a letalidade do impacto simultâneo.

Evitando o Fogo de Contrabateria

A tática "Shoot-and-Scoot" (Atirar e Fugir) é o complemento perfeito para o MRSI, transformando a artilharia moderna em um alvo quase impossível de atingir.

O objetivo é simples: abandonar a posição de disparo antes que os projéteis atinjam o alvo e antes que os radares de contrabateria inimigos consigam calcular de onde os tiros vieram.

O Ciclo da Tática:

Posicionamento Express: O veículo para, estabiliza e recebe as coordenadas via link de dados (frequentemente em menos de 30 segundos).

Rajada MRSI: O sistema dispara, por exemplo, 5 granadas em 15-20 segundos usando a técnica de impactos simultâneos.

Fuga Imediata: Assim que a última granada sai do cano, o veículo já inicia o deslocamento.

O "Fantasma": Quando as granadas atingem o inimigo (o impacto ocorre cerca de 30 a 60 segundos após o primeiro disparo), a peça de artilharia já está a centenas de metros de distância do local original.

Por que isso é vital hoje?

Radares modernos de contrabateria conseguem rastrear a trajetória de um projétil no ar e calcular o ponto exato de origem em segundos. Se a artilharia ficar parada (estática), ela será atingida por um contra-ataque quase instantâneo.

Sistemas como o Archer sueco levam essa tática ao extremo: o operador sequer precisa sair da cabine blindada. Todo o processo de baixar os suportes, disparar e recolher é automatizado, permitindo que o veículo esteja em movimento antes mesmo do impacto das suas próprias granadas no alvo.

A Combinação Letal:

O MRSI garante que o inimigo seja destruído no primeiro "golpe", sem tempo de se esconder. O Shoot-and-Scoot garante que quem disparou sobreviva para atacar novamente de outro lugar.

Os drones de reconhecimento e as munições de espera (loitering munitions) mudaram as regras do jogo, tornando a tática de "Atirar e Fugir" (Shoot-and-Scoot) muito mais difícil de executar com sucesso.

Aqui estão as principais mudanças na dinâmica do campo de batalha:

Fim do "Ponto Cego" entre Disparos

Antigamente, o risco vinha do radar de contrabateria, que levava alguns segundos para calcular a origem dos disparos. Hoje, drones de reconhecimento (como o Orlan-10 ou o Leleka-100) pairam sobre as áreas prováveis de artilharia em silêncio. Eles podem detectar o veículo se posicionando antes mesmo do primeiro tiro ser disparado.




Perseguição Pós-Disparo

Mesmo que o veículo inicie a fuga imediatamente após um ataque MRSI, drones modernos como o Lancet (Rússia) ou o Switchblade (EUA) conseguem seguir a assinatura visual ou térmica do veículo em movimento pelas estradas.

Ambush aéreo: O drone pode "sentar e esperar" em uma rota de fuga provável para interceptar o sistema de artilharia enquanto ele se desloca para uma nova posição de troca.

Redução Drástica no Tempo de Resposta

A integração digital entre drones e baterias de artilharia encurtou o ciclo de "alvo detectado para alvo atingido" de cerca de 30 minutos para apenas 3 a 5 minutos. Isso significa que, se a artilharia demorar um pouco mais para "recolher" seus equipamentos, ela será atingida ainda na posição de disparo.

Drones FPV como "Artilharia de Precisão"

Drones FPV (First Person View) de baixo custo são usados para caçar sistemas caríssimos como o Archer ou o PzH 2000. Embora tenham uma carga explosiva menor (2-3 kg), eles conseguem atingir partes vulneráveis (como o motor ou o radar) com precisão cirúrgica, imobilizando o veículo para um ataque posterior mais pesado.

A Necessidade de Defesa de Curto Alcance

Agora, os sistemas de artilharia não viajam mais sozinhos. Eles precisam estar protegidos por:

Gaiolas de proteção: Grades de metal instaladas sobre o veículo para detonar drones suicidas prematuramente.

Guerra Eletrônica (Jamming): Dispositivos que bloqueiam o sinal de rádio dos drones, criando uma "bolha de proteção" ao redor da bateria de artilharia.

A tática evoluiu: hoje, não basta apenas ser rápido no disparo (MRSI) e na fuga; é preciso ser invisível aos olhos eletrônicos que vigiam o campo de batalha 24 horas por dia.

Controle do Disparo

Os sistemas de controle de tiro modernos (FCS - Fire Control Systems) utilizam computadores balísticos de alta velocidade para resolver equações diferenciais complexas em milissegundos. Para garantir que vários projéteis atinjam o alvo no mesmo instante (TOT - Time on Target), o sistema realiza um cálculo reverso da trajetória.

Aqui estão os pilares desse cálculo automático:

Modelagem da Solução Balística

O sistema não apenas aponta para o alvo; ele simula a trajetória completa considerando balística externa como variações de densidade do ar, velocidade e direção do vento em diferentes altitudes, e a curvatura da Terra (Efeito Coriolis); e dados de balística interna como a temperatura da munição e o desgaste da alma do canhão (que afetam a velocidade inicial ou muzzle velocity).

Sincronização Temporal (O "Coração" do TOT)

Para o TOT, o computador calcula várias combinações de elevação e carga de projeção. Ele identifica janelas de tempo onde um disparo com ângulo alto (trajetória curva) leva mais tempo para chegar do que um disparo com ângulo baixo (trajetória tensa). O sistema gera uma sequência de disparos. As peças que estão mais longe ou que usarão trajetórias altas disparam primeiro e as mais próximas ou com trajetórias baixas disparam por último.

Integração de Sensores em Tempo Real

O cálculo é refinado automaticamente por radares de velocidade de boca que mede a velocidade real do projétil ao sair do tubo e ajusta os próximos disparos instantaneamente. Os sistemas de navegação Inercial (INS) e GPS garantem que a posição exata da peça e do alvo sejam conhecidas com precisão milimétrica, e os sensores meteorológicos alimentam o computador com dados de pressão e umidade em tempo real.





terça-feira, 23 de julho de 2024

Reconhecimento e Vigilância *032


Reconhecimento e Vigilância são práticas constantes na atividade militar, seja operando em combate ou em tempos de paz, e praticados por todas as unidades, dedicadas ou não, em maior ou menor escala, pela própria natureza desta atividade. Constituem-se nas mais importantes tarefas executadas, e estão intimamente relacionados à segurança destas unidades e do território ao qual protegem, à eficaz coleta de subsídios no planejamento de operações e a formação de inteligência militar para uso oportuno. São implementadas por todos os escalões de todas as forças armadas, em maior ou menor escala, e visam manter os comandos a par de tudo o que for de interesse, seja para segurança de instalações ou formação de bancos de dados.

Desenvolvem-se numa ampla categoria de atividades dedicadas à dar suporte ao desenvolvimento, planejamento e tomada de decisões de inteligência das unidades e operadores, seja para se manter atento ao que acontece em suas áreas de interesse ou subsidiar o planejamento de operações. Destina-se ainda a manutenção do alerta quanto a possíveis ameaças à integridade física de instalações, unidades em operação e fronteiras. Operadores em combate executam ações de reconhecimento constantemente, seja qual for a missão que devem cumprir, pois deste reconhecimento virão as decisões mais realistas à cada situação em particular.

O Reconhecimento é uma operação de missões específicas que emprega os ativos de obtenção de inteligência das unidades, dedicadas ou não, para observar áreas de interesse nomeadas e áreas-alvo, por métodos visuais ou de detecção, a fim de coletar inteligência militar para subsidiar planejamento de operações ou atividades de vigilância. É uma ação conduzida de modo a colher subsídios sobre o inimigo e a área de operações, podendo ser realizado por todos os meios, terrestres, aéreos e navais. É orientado para colher informes sobre as tropas e unidades inimigas, os acidentes capitais do terreno e suas características, os pontos sensíveis, localidades, rotas, áreas específicas ou zonas de atuação. Buscam sempre os informes necessários a missão a qual devem subsidiar, porém repassam qualquer informação que for considerada relevante e colhida de forma inopinada, o que deve ser feito em tempo real e na forma de fatos, isentando-se de opiniões subjetivas.

A tropa em reconhecimento deve evitar engajar-se em combate, salvo se este engajamento for necessário ao cumprimento da missão ou à autodefesa. As unidades mais vocacionadas à esta missão na força terrestre são as de cavalaria ligeira, porém, todas as unidades em combate tem condição de realizá-la. As forças aéreas possuem aeronaves dedicadas a esta tarefa como as de AEW, ISR e aviação de caça, entre outras, e a marinha de guerra tem em seus submarinos meios ideais para reconhecimento e vigilância, além dos meios de superfície.

Estar alerta é vital e preserva o poder de combate, razão de ser das forças em campanha. A vigilância é condição fundamental à integridade das forças, pois o desconhecimento de atividade inimiga próxima é condição perigosa e inaceitável. Também é uma constante em tempos de paz para a segurança das instalações e para a monitoração de atividade suspeita próxima às fronteiras e águas adjacentes. Também se estende aos países próximos, cuja atividade de cunho militar deve ser acompanhada. Ela envolve a observação sistemática de áreas de interesse por meios visuais, eletrônicos, fotográficos, satelitais e outros.


A vigilância é a contínua e sistemática observação do espaço de batalha, com foco nos pontos de maior ameaça como estradas, pontes, áreas de lançamento e aterragem, terreno restrito e outras áreas críticas, além dos limites das posições de tropas e instalações militares e estratégicas. É o principal meio para detecção de atividade inimiga, e diretamente influenciada pelas condições de visibilidade, pelas características do terreno, pela defesa antiaérea e possibilidades do equipamento de vigilância. É rotina de todas as unidades em todos os tipos de operação, e tem como grande potencializador equipamentos de alta tecnologia como NVGs, Câmeras de TV e IR, radares e equipamento ESM, aeronaves RPV, entre outros.

A vigilância garante aos comandantes que não serão surpreendidos pelo inimigo, sendo o reconhecimento, mesmo que com outras finalidades, uma forma de vigilância. Sabendo que ameaças estão ou podem se fazer presentes, as unidades em combate podem tomar as medidas necessárias a garantir sua segurança, planejando a segurança de sua posição como defesa imediata e/ou lançando operações ofensivas contra unidades inimigas que representem grande ameaça. Um exemplo de ameaça imediata à integridade de unidades são unidade de artilharia de longo alcance, aviação de bombardeio e mísseis de longo alcance, entre outras.

Numa situação hipotética um comandante de infantaria envia uma patrulha para reconhecer um possível alvo, sobre o qual pretende atuar. Esta patrulha de reconhecimento deverá avaliar o dispositivo inimigo, seus números e equipamento, porém evitando ao máximo envolver-se com este (engajar-se em combate). Ao realizar sua missão, a patrulha detecta que o inimigo está fazendo o mesmo, posicionando-se no terreno de forma habilmente furtiva, de uma maneira que as sentinelas não poderiam detectar. Ao perceber a armadilha que se forma, os precursores alertam seu comandante que toma as providências adequadas e evita a surpresa contra sua posição. Este pequeno exemplo ilustra como uma operação de reconhecimento de cunho ofensivo, contribuiu para o dispositivo de vigilância desta unidade.

Ao proteger as unidades contra a operações de inquietação, a surpresa e observação por parte do inimigo, preserva-se o sigilo das operações, condição para a manutenção da iniciativa a liberdade de ação, além de garantir a segurança da posição. Cabe aos operadores dos dispositivos de vigilância o alerta antecipado e preciso sobre a atividade inimiga, de forma que o comandante possa reagir pró-ativamente em favor da superioridade tático-estratégica-operacional, dependendo do seu escalão. As sentinelas deverão estar postadas distantes da tropa a qual protegem, de forma a permitirem a esta espaço para manobrar depois do alerta dado, adotando a solução tática mais adequada. Elas mantêm-se em contínuo reconhecimento de sua área de responsabilidade, de forma agressiva e com constante fluxo de informes, mantendo o contato continuamente porém com discrição, só o rompendo por ordem superior. Sentinelas próximas proporcionam uma segurança mais pontual  e reagem ao contato.

As atividades de vigilância e reconhecimento complementam-se mutuamente e não podem ser separadas. Uma patrulha inimiga próxima em missão de reconhecimento, uma incursão inimiga para missões de sabotagem às áreas onde estão estacionadas as tropas, uma força potente posicionando-se ao longo da fronteira prestes a realizar um ataque ou uma frota se aproximando de forma ameaçadora do litoral são alguns exemplos de alvos das missões de vigilância.

Ao empreender uma operação que vise exclusivamente a segurança de uma área (uma operação de vigilância), uma unidade em combate pode atuar de forma ofensiva, agindo preventivamente contra ameaças potenciais e recolhendo informes que poderão subsidiar planos do escalão superior, executando operações de reconhecimento involuntárias que podem ser de grande valia.

Toda unidade é responsável por sua segurança, mesmo que outras a estejam protegendo. Não se justifica a adoção de medidas extremas de segurança, no entanto, que causem impacto negativo no cumprimento de suas missões. Forças de segurança devem ser suficientemente fortes para engajar-se com o inimigo pelo tempo suficiente para que as tropas protegidas possam assumir condição adequada, mantendo o engajamento apenas pelo tempo necessário à missão.

Estas forças podem agir em cobertura, engajando o inimigo pelo tempo necessário; em proteção, atuando fragmentariamente sobre ações de flanco e de contra-observação; e em vigilância, onde limita-se a ações de observação e alerta.


ISR (Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance)

ISR (Intelligence, surveillance, and reconnaissance) é o termo atualmente aplicado a uma operação de habilitação de armas combinadas que combina o que era descrito anteriormente como reconhecimento e vigilância (uma tarefa de manobra) com a produção e disseminação de inteligência. ISR é uma operação contínua e recursiva focada na coleta de informações relevantes que são analisadas para criar inteligência para informar a visualização do comandante e dar suporte ao ciclo operacional.

Os comandantes integram missões ISR em um único plano que capitaliza as diferentes capacidades de cada elemento e outros ativos de coleta de informações. Eles sincronizam missões de reconhecimento e vigilância que empregam unidades de manobra com o plano ISR e o esquema de manobra. O reconhecimento e a vigilância bem-sucedidos dependem de fundamentos como Iniciar o reconhecimento e a vigilância o mais cedo possível e conduzi-os continuamente com ações de ISR adequados à situação, integrar as atividades de reconhecimento com os ativos de reconhecimento e vigilância das unidades especializadas, integrar as equipes no planejamento de reconhecimento e vigilância, maximizar os recursos disponíveis e relatar informações obtidas e análises de forma rápida e precisa com os escalões para os quais esta informação será útil.

Engajamento em Combate

Uma das formas mais eficazes de vigilância em combate é a manutenção do contato com o inimigo. Mantê-lo ocupado, fazendo reagir ao invés de agir, trás segurança às forças amigas. O contato também permite manter-se atualizado a respeito de suas intenções e sua atividade diária.

Sentinelas nas Unidades

A forma mais básica de vigilância é a de estabelecer sentinelas (soldados) integrados a um plano de defesa de pequena área, como um quartel ou base militar, onde os olhos e ouvidos humanos são o principal sensor. Toda unidade militar ou com conteúdo sensível deverá adotar um dispositivo de vigilância que poderá integrar olhos e ouvidos humanos à câmeras e outros sensores a fim de impedir invasões.


ESMs (Electronic Support Measures)

O suporte eletrônico é um ramo da guerra eletrônica (EW) que envolve a coleta de informações eletrônicas do inimigo, como a localização de sistemas de comunicação e os padrões de transmissão, monitoração de sistemas de rádio, etc... Isso permite que as forças amigas saibam onde o inimigo está e o que ele está fazendo. No campo de batalha moderno, saturado com emissões eletromagnéticas, a vigilância eletrônica é de grande valia.

Esclarecimento Marítimo

A patrulha marítima é implementada por toda força armada que tenha sob sua responsabilidade extensões marítimas. Ela deve monitorar o tráfego rotineiro em tempos de paz e manter-se alerta para atividade militar hostil próximo a sua área de atuação. Também atua no apoio a missões de busca e salvamento (Missões SAR) e em apoio a polícia marítima.

Estar alerta à movimentações no espaço marítimo é vital para que as nações possam exercer sua soberania nesta fronteira. A patrulha marítima deve manter este alerta, e as autoridades marítimas das nações o fazem com patrulha de superfície e por aeronaves, sendo estas últimas capazes de ver muito longe e cobrir grandes distâncias em missões de muitas horas.

A aviação de patrulha marítima baseada em terra é a mais comum e numerosa e capaz de cobrir maiores distâncias. Aeronaves de porte maiores tem mais autonomia e podem manter-se mais tempo em missão. Pode carregar sensores sofisticados, armas potentes como mísseis antinavio e suítes completas de inteligência eletrônica (elint).

Reconhecimento Aéreo

O reconhecimento aéreo é um importante meio de coleta de reconhecimento e vigilância, seja na intenção de saber “o que está acontecendo no lado de lá”, como na avaliação de resultados. Pode ser cumprido por aeronaves diversas, drones e satélites. Podem ser feito em espaço aéreo hostil (em tempo de guerra) ou pela vigilância a partir das fronteiras. Demanda meios eletrônicos e pode ser integrado à suas bases em tempo real.


Alerta Aéreo Antecipado (AEW)

Parte indispensável de qualquer sistema de vigilância aérea, permite o monitoramento de espaço aéreo de cima, minimizando os pontos cegos aos sistemas de vigilância terrestres. uma aeronave AEW pode ainda desempenhar as funções de apoio a interceptação e anti-submarinas, patrulha e reconhecimento marítimo e meteorológico, guerra eletrônica, comando e comunicações e busca de superfície, e juntamente com os radares de superfície, compor uma ampla rede de detecção e alerta.

Controle de Espaço Aéreo

A utilização eficiente do espaço aéreo sobre a uma área de operações ou a operação de aeronaves diversas em tempos de paz sobre o próprio território requer controle e coordenação de um sistema dedicado. O Alerta contra aeronaves não autorizadas também é outra tarefa desempenhada pelo sistema que controla o espaço aéreo de uma nação. Uma eficiente rede de radares de alerta é importante para o controle e alerta de aeronaves na área defendida.

Também em operações de guerra um sistema eficiente de controle de espaço aéreo é peça fundamental nas operações, assegurando a sincronização necessária para a operação na terceira dimensão. É um importante meio de vigilância.


quinta-feira, 18 de julho de 2024

Valor Militar do Terreno *005



Aspectos Estratégico-Operacionais

Toda operação militar se dá no terreno, e sua análise é um dos primeiros fatores a ser considerado no planejamento militar. Suas características irão ditar as linhas de ação dos comandantes militares, pois em função delas se dará toda a manobra pretendida, bem como se desdobrará o suporte logístico necessário. Ao analisarmos o terreno sob a ótica das operações militares, podemos dividir esta análise em dois aspectos distintos, o tático e o estratégico-operacional.

A análise estratégico-operacional do terreno deve ser efetuada por todos aqueles envolvidos no Processo de Planejamento Militar (PPM), sendo praticada principalmente pelos Estados-Maiores das unidades. Quanto maior o escalão envolvido, maior se torna sua importância. Seja na articulação de um sistema de defesa de tempos de paz, ou no planejamento da ocupação de um terreno já defendido pelo inimigo, os estrategistas de uma força armada devem conhecer cada particularidade do terreno que servirá de teatro de operações a fim de que sua características possam ser aproveitadas em benefício da operação. Seu uso racional e inteligente tende a minimizar esforços logísticos desnecessários e prevenir surpresas por parte do inimigo e das condições locais, evitando armadilhas e minimizando perigos que possam se apresentar. As linhas de ação adotadas devem fazer uso das vantagens táticas oferecidas pelas condições já existentes, viabilizando uma manobra eficaz, proporcionando economia de meios e recursos militares limitados, poupando vidas humanas e esforços desnecessários, permitindo a consecução dos objetivos estratégicos em tempo reduzido e causando o menor impacto a população e infraestrutura locais, além de permitir que as forças envolvidas operem dentro do maior nível de segurança possível.

Um processo específico de Integração Missão-Inimigo-Terreno-Condições Meteorológicas-Tempo-Tropas Disponíveis e Assuntos Civis (METT-TC no USArmy) será útil nesta compreensão, pois resulta numa série de mapas e gráficos envolvendo os aspectos do terreno propriamente dito relacionados aos demais aspectos ali presentes.



Ocupando o Terreno

A ocupação militar de um terreno pode-se dar através de um desembarque administrativo, quando não existe perigo de resistência inimiga, onde os modais de desembarque estão dominados por forças amigas, e as forças o ocupam de forma tranquila através da utilização de estradas, portos e aeroportos já defendidos ou não ameaçados. Ou através de um assalto, onde o inimigo espera a invasão e oporá resistência, demandando uma operação militar complexa e traumática, que poderá fracassar se mal implementada, como ocorreu na operação "Market-Garden" na Segunda Guerra Mundial.

Um primeiro aspecto a ser observado é a forma de se chegar ao local das operações, se através de praias ou portos, aeroportos e bases aéreas, fronteiras secas usando estradas e pontes, rodoviárias e ferroviárias. Estes terminais. mesmo os secundários, deverão ser ocupados o quanto antes, pois será através deles que toda a logística fluirá ao longo da campanha, e não somente no dia D da operação de ocupação. Quanto mais adequados forem os terminais, mais facilmente o apoio chegará a frente.

Verificar as condições locais permitirão a ocupação ou se providência devem ser implementadas, que características possuem, se estão defendidos ou não, se comportam o volume da invasão, se as tropas que chegam terão espaço suficiente para estacionamento, se recursos valiosos como fontes de água potável e energia elétrica existentes podem ser utilizados, etc... Uma vez ocupado o terreno e estabelecida a chamada cabeça de ponte, deve-se desdobrar o aparato logístico necessário ao suporte às tropas na velocidade suficiente para que possa suportar as forças em ocupação de forma que estas possam resistir com sucesso aos contra-ataque dos defensores. A proximidade de fronteiras de países aliados ou hostis deve ser observada e as consequências desta consideradas.

Áreas de estacionamento específicas para o aparato logístico e combatente devem ser estabelecidas, sempre próximas à linhas de comunicação adequadas e suficientes, como malhas várias e ferroviárias, aeródromos e portos com capacidades compatíveis às demandas, áreas de segurança em torno desta vital retaguarda e rotas de fuga que se fizerem necessárias. Uma avaliação imprecisa do terreno pode condenar tropas por falta de suprimento, imobilizar colunas motorizadas por deficiência de malha rodoviária ou atolamentos, criar congestionamentos entre unidades impedindo, por exemplo, uma uma tropa em reforço chegue a tempo em uma área de contato com o inimigo. Outro fator que deve ser alvo de atenção são os obstáculos, evitando por, exemplo que um rio não possa ser transposto porque sua ponte foi destruída ou as portadas ainda não desembarcaram do navio. Todo este planejamento se dará através do PPM, já citado.

Organização do Terreno

Todo o terreno ao ser ocupado demandará uma organização tática, de forma a aproveitar suas características no sentido de aumentar o poder combativo da força ocupante, permitindo-lhe o melhor emprego de suas armas e poder de manobra e mobilidade, além de obras de infraestrutura necessárias. Também se busca restringir as possibilidades de atuação do inimigo buscando-se implementar ações de proteção como a construção de fortificações, implementação de dispositivos de camuflagem, construção de obstáculos e outras ações.

Os trabalhos de fortificações de campanha geralmente são realizados em contato com o inimigo ou quando este contato é iminente. Diferenciam-se dos trabalhos de fortificação permanente, realizados em tempo de paz ou quando o inimigo está longe, por serem mais sumários. Enquanto a fortificação permanente é obra de especialistas, a de campanha é missão de todas as tropas de combate, apoio ao combate ou de serviço.

A camuflagem consiste em todos os trabalhos e medidas destinados a proteger a tropa e as instalações contra s observação inimiga. Deve ser encarada como vital e levada a efeito simultaneamente com os trabalhos de fortificações.

Centro Urbanos

De todos os ambientes que se apresentam em uma operação, o ambiente urbano apresenta uma combinação de dificuldades raramente encontradas nos demais. Suas características distintas resultam de uma topografia intrincada e alta densidade populacional. A complexidade da topografia decorre das características artificiais e da infraestrutura de suporte sobreposta ao terreno natural. Centenas, milhares ou milhões de civis podem estar próximos ou misturados com soldados amigos e inimigos, e muitas vezes pode ser difícil distinguir quem é um simples civil e quem é o inimigo. Este segundo fator, e a dimensão humana que representa, é potencialmente o mais importante e desconcertante para os comandantes e os seus Estados-Maiores compreenderem e avaliarem.

Embora as áreas urbanas possuam semelhanças gerais, cada ambiente é distinto e reagirá e afetará a presença e as operações das forças operativas de forma diferente. Uma técnica ou tática eficaz em uma área pode não ser eficaz em outra área devido a diferenças físicas, como padrões de ruas ou o tipo de construção existentes. Uma política aplicada de forma popular à um grupo urbano pode não ser bem aceita por outro devido à diferenças culturais. Todas os ambientes apresentam dificuldades, mas estas são potencializadas nas operações em áreas urbanas. Entra as os dificultadores deste ambiente temos a presença humana que dificulta a manobra sem efeitos colaterais e muitas vezes em precárias condições, as múltiplas possibilidades de emboscadas e esconderijos ao inimigo, a grande quantidade de obstáculos causado por explosões e demolições, a intrincada rede de vias, e outras. Assim, os comandantes em todos os níveis fazem esforços extraordinários para avaliar e entender o ambiente urbano particular para planejar, preparar e executar operações eficazes (combate em localidade).


As áreas urbanas variam em função da sua história, das culturas dos seus habitantes, do seu desenvolvimento económico, do clima local, dos materiais de construção disponíveis e de muitos outros fatores. A mistura em constante mudança de características naturais e artificiais em áreas urbanas apresenta aos comandantes alguns dos terrenos mais difíceis para conduzir operações militares. Embora as áreas urbanas possuam características semelhantes, não há duas idênticas. Operar em Los Angeles, por exemplo, tem pouca semelhança com uma operação em Nova Délhi. Embora conquistar áreas urbanas seja um dos objetivos de muitas operações, sempre que possível devem ser evitadas.

Suprimento de Água, Alimentos, Energia e Recursos Existentes

O suprimento de água é muito importante. As fontes locais, sempre que possível, devem ser utilizadas, pois trazer água de grandes distâncias demanda esforço e dispêndio de recursos que podem ser úteis em outras tarefas, além de oneroso. Deve-se sempre estar atento para a existência de reservatórios, rios e estações de tratamento, e buscar o domínio destes assim que a ocupação for implementada. A ocupação de regiões áridas e com este recurso escasso deve ser cuidadosamente planejada e seu suprimento assegurado. Alimentos "in natura" também podem ser obtidos localmente se existirem e forem de boa qualidade. O suprimento de energia também deve ser aproveitado ao máximo, e o domínio de subestações e linhas de transmissão operacionais pode ser muito útil, além das usinas de produção. Depósitos de combustível, se tomados incólumes, aliviam em muito as necessidades logísticas.

Assuntos Civis

A população local influenciará nas operações de uma forma ou outra, mesmo que de forma passiva e não intencional. Deve-se analisar com detalhes suas características como estruturas, disposição da população de colaborar com as forças amigas e inimigas, organizações relevantes, refugiados, eventos, idiomas, etc...

Forças Marginais

Grupos de ativistas armados, guerrilheiros, carteis de organizações criminosas e outros grupos armados e de ativismo político, marginais às operações, podem estar presentes na área que se vai operar e representarem uma ameaça. Estar bem informado sobre estes grupos é importante, pois eles podem empreender ações hostis às tropas. Se necessário, empreender ações de segurança pode ser essencial na defesa contra esses grupos. Ente outras, deve-se empreender reconhecimentos constantes da área de retaguarda; patrulhamento agressivo nas áreas de defesa e entre as instalações; apoio mútuo entre forças vizinhas; defesa de instalações e zonas críticas; escoltas armadas; emprego de civis como guias; etc... Em situações especiais estes grupos podem aturem como aliados, como no caso da Resistência Francesa e Partisans na Segunda Guerra Mundial, pois geralmente detém um conhecimento apurado do terreno e podem atuar como guias. Forcas policiais devem ser consideradas.

Deve-se buscar informações sobre bases de guerrilhas, líderes dos guerrilheiros e seus colaboradores civis, meios de comunicações e fontes de suprimento. Sua eficiência depende de informes atualizados, e cuidados especiais para impedir que eles os obtenham sobre as operações das forças amigas, instalações e movimentos de tropas devem ser empenhados. Deve ser prestada atenção particular à segurança das comunicações.

Especial atenção deve ser dada às medidas para impedir o apoio logístico à força de guerrilha. Ela não pode operar eficientemente, a menos que obtenha, de algum modo, o apoio da população local. Deve-se envidar esforço continuado para que seja impedido esse apoio nas operações contraguerrilhas.

Aspectos Táticos


Sob o aspecto tático o terreno tem que ser considerado por todos os escalões. Seja no planejamento ou na execução da operação. O comandante militar deverá usá-lo para deslocar e posicionar suas tropas com segurança e efetividade. As características do relevo, vegetação, natureza do solo, hidrografia, obras de arte, localidades e vias de transporte são de suma importância. Dentre o que deve ser minuciosamente analisado estão os corredores de Mobilidade, Acidentes Capitais e Vias de acesso, bem como campos de observação e de tiro, cobertas e abrigos, obstáculos, acidentes capitais, prováveis áreas de engajamento ou de emboscada e outros.


Aspectos Sanitários

Aspectos singulares de cada região não devem ser negligenciados: doenças endêmicas devem ser previnidas, como por exemplo a presença de mosquitos que podem ser muito danosos as forças, transmitindo malária, dengue e outras. Águas não tratadas podem transmitir cólera e outras doenças parasitárias. Doenças podem minar totalmente o poder de combate de uma força inteira.

Mobilidade, Obstáculos e Cobertura

Estradas são de importância vital em qualquer ocupação, e embora forças militares contem com veículos "off road", este tipo de deslocamento só é viável em percursos pequenos. Seu domínio, bem como seus entroncamentos são objetivos primários de qualquer força ocupante. É importante assegurar os pontos críticos dos itinerários como pontes, túneis e locais de afunilamento.

Terrenos restritos como áreas muito acidentadas com abundância de elevações íngremes, desfiladeiros e áreas pantanosas são propícios à defesa por obrigar a passagem em pontos pré-definidos, e podem amenizar a provável superioridade numérica do atacante. Estes locais são propícios a construção de obstáculos e canalização do movimento, facilitando o escalonamento de um dispositivo de defesa em profundidade. Terrenos planos e amplos facilitam a ação de forças mecanizadas e são mais difíceis de defender. Áreas minadas são especialmente adequadas a prover segurança neste tipo de terreno, porém demandam campos minados extensos.


Rios podem ser grandes obstáculos ao deslocamento e excelentes posições defensivas. O domínio de suas pontes é importante e a inoperância ou inexistência destas pode criar grandes problemas ao deslocamento de tropas amigas, exigindo esforços da engenharia, muitas vezes em áreas pesadamente defendidas que exigem grande preparação para travessia, que além do trabalho dos pontoneiros demandam medidas extremas de segurança como a obtenção da superioridade aérea relativa.

Outros obstáculos como barreiras provocadas pelo desabamento de encostas e campos minados exigem esforços de engenharia para ser removidos e podem demandar tempo para serem transpostos. 

Áreas de cobertura são necessárias, principalmente na prevenção a observação aérea. O terreno deve proporcionar esta cobertura através de matas e florestas e instalações subterrâneas, áreas urbanas onde o número de locais cobertos é grande são muito úteis. Áreas urbanas também facilitam a ocultação de tropas numerosas. Em áreas florestais, a vegetação, se densa, pode inviabilizar o movimento motorizado "off road" e sua remoção exigirá esforços de engenharia.


Pântanos devem ser evitados por serem de difícil transposição e abrigarem animais perigosos como crocodilianos e mosquitos. Áreas inundáveis devem ser prevenidas, pois podem causar estragos de grande monta se o inimigo puder manipular comportas e diques.


Elevações e Terreno Alto

O terreno alto propicia o comandamento da região, facilitando a observação e o comando. Posições de tiro, observadores de artilharia, desdobramentos de redes de comunicação e controladores aéreos avançados, também farão bom uso dele. O terreno alto também propicia massa de cobertura a tropas em reserva, áreas de retaguarda e posições de artilharia. O controle destes pontos é importante para se operar em torno deles.


Montanhas e Terreno de Altitude


Operações em áreas montanhosas são revestidas de características próprias. Desprovidas de estradas são uma obstáculo quase intransponível, apenas à tropas a pé especialmente treinadas, muitas vezes servindo como barreira natural. O terreno restringe de forma significativa a manobra, que fica limitada à rede de estradas, se existirem. Montanhas baixas (cerca de até 1500 m) apresentam principalmente restrições ao movimento e queda significativa de temperatura, porém altitudes mais elevadas apresentam frio extremo com rápidas mudanças na temperatura, ventos fortes, ar rarefeito que afeta de forma mais perceptível combatentes e motores a combustão, radiação solar e ultravioleta são mais intensas, tempestades violentas e acúmulo significativo de neve podem ocorrer podendo causar isolamentos por uma ou mais semanas, neblina igualmente intensa ocorre frequentemente, assim como avalanches e deslizamento de rochas. Em altitudes superiores a 3.000 m temos ausência total de árvores.

Altitudes extremas são mais perigosas para as condições físicas do combatente que o fogo inimigo. Um ferimento comum em terreno normal como de um projetil ou estilhaço, pode ser fatal em grandes altitudes. Deslocamentos em alta montanha resultam, com alguma frequência, em ossos quebrados, lacerações profundas, contusões e ferimentos internos causados por quedas ou deslocamentos de pedras. Ulcerações causadas pelo frio e a hipotermia são perigos constantes. O mal da montanha agudo e os edemas pulmonares e cerebrais são frequentemente, podendo ser fatais, e a aclimatação é sempre necessária.

A respiração difícil resultante da baixa pressão atmosférica e do oxigênio rarefeito é outro problema enfrentado pelas tropas. Aqueles que irão operar neste ambiente devem ser selecionados por sua condição física que deve ser acima da média. Soldados de baixa estatura são mais adaptados que os altos e musculosos. Devem ter inteligência acima da média para adaptação mais rápida ao terreno, pois a habilidade mental e física decresce a grande altitude, existindo a possibilidade de ocorrências de desordens de personalidade. Perde-se peso rapidamente. Um programa de aclimatação é o primeiro passo para operar de forma efetiva neste ambiente e demora de 2 a 3 semanas. É necessário fazer um rodízio das tropas em altitudes elevadas a cada 10 dias.

Equipamentos não funcionam como deveriam e as viaturas tem sua capacidade reduzida em 25%, consumindo até 75% a mais de combustível. Motores à diesel não configurados perdem sua eficácia a 3.000 m e podem deixar de funcionar completamente pela insuficiência de oxigênio. A artilharia perde seus parâmetros devido a menor resistência do ar, com os disparos alcançando distâncias maiores, tornando as tabelas de tiro inúteis. Os lubrificantes podem congelar.

O terreno inclui alturas que dominam estradas e vias, as passagens entre as montanhas e os vales, facilitando a vigilância quando não há neblina. Os helicópteros são de muito valor para o movimento da tropa e o transporte do equipamento no terreno difícil, porém perdem sustentação em grandes altitudes, e o transporte feito por animais adaptados pode ser uma alternativa interessante nos extremos. Armas que têm um elevado ângulo de tiro são mais eficientes e pequenos efetivos, em operações descentralizadas são os mais adequados.

Ataques frontais devem ser evitados e a infiltração é a manobra mais usada, demandando forças especialmente treinadas. Forças aeromóveis são muito adequadas para os desbordamentos de maior amplitude. Blindados são pouco efetivos neste locais, mas seu poder de fogo é desejável, sendo a infantaria a estrela neste ambiente. Flancos, desfiladeiros, estradas e os centros de comunicações devem ser sempre protegidos. As operações em montanha são normalmente utilizadas para defender ou conquistar regiões de passagem não sendo um objetivo final. A vigilância aérea é de grande utilidade como um meio de segurança. Embora os contra-ataques sejam operações difíceis, podem ser decisivos.



Meteorologia

Fatores meteorológicos influenciam significativamente nas operações, podendo até inviabilizá-las. Seu entendimento não deve ser negligenciado, especialmente em áreas muitos instáveis. O desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial foi adiado em um dia por causa da meteorologia. Devem ser prevenidos ainda calor ou frio excessivos, particularidades do clima como as chuvas de monções e nevascas que possam inviabilizar a mobilidade. As características do solo que pode ser barrento ou excessivamente fofo também podem prejudicar a mobilidade. Terrenos congelados em fase de derretimento podem gerar lamaçais capazes de imobilizar exércitos inteiros.

Também devem ser considerados os riscos sanitários como a presença de insetos perigosos como mosquitos transmissores de doenças e animais selvagens que ofereçam risco.



O Terreno Ideal

Não se escolhe o terreno em que se vai operar. A situação é que toma esta decisão. Porém quando se tem características diversas em um mesmo local, opta-se pela mais favorável, e o conhecimento do terreno subsidia esta decisão. No aspecto geral o terreno deve ser aproveitado no sentido de proporcionar cobertura as forças, abrigá-las do fogo inimigo, permitir o deslocamento rápido e eficiente valorizando a mobilidade das tropas, Não conspirar contra estas através de particularidades indesejáveis como doenças e revoltas de forças subterrâneas, fornecer sempre que possível recursos diversos e água em abundância, facilitar a manobra e a consecução do objetivo. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

Elementos do Poder de Combate *239


Elementos do Poder de Combate

O poder de uma força militar é definido pela balanceamento de 5 fatores que o comandante deve lançar mão no campo de batalha. Sua utilização é vital e necessária a consecução bem sucedida das operações. São eles: A Manobra, O Poder de Fogo, A Liderança, A Proteção e a Informação.

A Manobra

É a combinação de fogo e movimento, sincronizados no tempo e no espaço, de forma a posicionar-se de forma vantajosa em relação ao inimigo, a fim de pô-lo fora de ação pela quebra de seu poder de combate e consequente fuga, destruição ou rendição, sempre em consonância com os objetivos da missão. É através da manobra que se alcança surpresa, choque, iniciativa e domínio do campo de batalha. A manobra é implementada nos 3 níveis diferentes da guerra e hierarquicamente dependentes, sendo estes níveis o estratégico, o operacional, e o tático ou combate aproximado.

A manobra estratégica é o nível mais alto e corresponde a todo o movimento de meios desde as bases permanentes até as áreas de concentração estratégica, pondo-se em condições de desencadear a manobra operacional. A manobra operacional é o nível intermediário e mais alto da manobra de campo, e visa posicionar-se vantajosamente em relação ao inimigo antes de se atingir a fase de engajamento. Manobra-se operacionalmente antes de qualquer batalha ou campanha a fim de alcançar a vantagem inicial, com o adequado posicionamento de tropas combatentes e meios de apoio. Ela cria as condições preconizadas no planejamento da missão de forma a tornar possíveis e vitoriosas as subsequentes ações táticas. Manobra tática é o nível onde se faz contato com as posições inimigas a fim de iniciar e dar sequência ao engajamento em busca dos objetivos traçados. Através da manobra tática procura-se sempre manter a iniciativa criando um volume de problemas progressivo ao inimigo, fazendo-o reagir a situações inesperadas e frustrando continuamente o seu planejamento. Enquanto o inimigo tiver problemas a resolver, dificilmente terá oportunidade de criar situações em seu favor. Em operações de estabilidade a manobra visa inviabilizar opções táticas efetivas por parte do inimigo, concentrando poder de combate onde possam as forças aliadas dissuadir ou reduzir os efeitos de suas ações. O combate aproximado é o nível mais íntimo da manobra tática, onde se dá o engajamento propriamente dito. O combate aproximado é levado a cabo com o efetivo emprego de fogo direto, indireto, ar-terra e outros meios de combate. É no combate aproximado que se derrota ou destrói as forças inimigas, conquistando ou mantendo o terreno. Pode-se dar a milhares de metros com armas de alcance condizentes ou em contato "corpo-a-corpo".

Todas as ações táticas requerem inevitavelmente a posse de determinado terreno ou área geográfica, como pré-condição para se alcançar o objetivo ou como sendo o próprio objetivo da missão. O combate aproximado se faz necessário quando o inimigo estiver ali presente e ficar claro que não tem intenções de cedê-lo. No final das contas, o resultado de todas as batalhas, operações e campanhas dependem da habilidade das forças em combate de engajar o inimigo, destruindo-o ou frustrando sua capacidade combativa.

Uma manobra bem conduzida nos níveis mais altos pode colocar o inimigo numa condição em que este preveja sua derrota e seja persuadido a render-se, pois só os tolos lutam batalhas perdidas. Neste caso o combate aproximado se faz desnecessário, poupando-se recursos e vidas. Em operações de estabilidade, a provável superioridade nas ações de combate aproximado das forças estabilizadoras pode influenciar as ações do adversário. Em todos os casos, a habilidade das forças aliadas em se ocupar das ações de combate aproximado é o fator decisivo na derrota inimiga ou controle de uma situação.

A Potência de Fogo

É a força letal aplicada ao inimigo a fim de inviabilizar sua condição e disposição de luta, e parte fundamental da manobra. É empregada na destruição de suas forças e meios, restringindo ou anulando sua capacidade de reação e possibilidades de êxito. Na manobra, através da sincronização de movimentos pertinentes e coordenados, criam-se as condições para o uso efetivo da potência de fogo. Embora a manobra ou o fogo possam dominar uma fase da ação em particular, eles são onipresentes em todas as operações, sendo que seu emprego simultâneo e sincronizado aumenta o impacto de ambos, e a ausência de qualquer um deles torna o outro inócuo na maior parte das vezes.

Combinados, produzem efeitos devastadores e eficazes. Potência de fogo é a quantidade de fogos que uma posição, unidade ou sistema de armas podem alocar em determinado espaço físico durante determinado tempo. Os fogos incluem ainda as missões de apoio implementadas pela artilharia e aviação de forma separada ou em combinação com a manobra. A eficácia da potência de fogo é função direta da precisão dos sistemas de armas modernos, sejam diretos ou não, da capacidade dos sistemas de aquisição de alvos, do alcance e cadência de tiro das armas, bem como de suas capacidades de colocar-se em posição e serem continuamente supridas.

Fogos operacionais são a aplicação pelos comandantes de alto escalão de meios letais ou não, para realizar seus objetivos durante a conduta de uma campanha ou operação principal, sendo componente vital de qualquer plano operacional. São empregados contra objetivos cuja neutralização podem afetar significativamente uma campanha ou operação principal. O planejamento destes fogos inclui a alocação conjunta de meios aéreos, terrestres e navais. Podem ou não ser projetados para alcançar um único objetivo, como por exemplo a interdição de forças inimigas principais para criar as condições favoráveis a manobra das forças aliadas.

Tanto a manobra quanto os fogos operacionais podem acontecer simultaneamente, podendo ou não buscar objetivos muito diferentes. Em termos gerais não se comportam como fogos de apoio e a manobra operacional não necessariamente depende deles, porém quando empregados em sincronia, as oportunidades daí surgidas competentemente exploradas, produzem resultados muito efetivos. Fogos e manobra operacional combinados de forma sinérgica geram batalhas assimétricas, altamente produtivas e unilaterais.

Fogos táticos são àqueles aplicados para neutralizar as forças inimigas, suprimir seus fogos e desarticular seus movimentos. Eles criam as condições necessárias ao combate aproximado, e devem ser sincronizados com os efeitos de outros sistemas. Concentrar fogos de forma a obter máxima letalidade requer uma compreensão completa da intenção do comando e habilidade de empregar todos os meios disponíveis simultaneamente contra uma variedade de objetivos. A aplicação efetiva de fogos táticos deve obedecer a uma escala de prioridades; localizando e identificando alvos; alocando potência de fogo onde for necessária e avaliando seus efeitos. Uma demanda efetiva de fogos requer unidades competentemente conduzidas com um alto grau de compreensão situacional.

A Liderança

É a capacidade de inspirar as forças combatentes a acreditarem no sucesso, sendo o elemento mais dinâmico do poder de combate. Uma liderança confiante, audaciosa e competente é capaz combinar de forma harmoniosa os outros elementos deste poder e servir como catalisador na criação das condições para o sucesso. Forças motivadas são de fundamental importância ao sucesso, e para tal devem conhecer propósito, direção, e relevância de todas as ações. Líderes fazem frequentemente a diferença entre sucesso e fracasso, particularmente em pequenos escalões.

A competência de um líder requer proficiência no relacionamento com seus comandados e superiores, capacidade de entendimento situacional, além de conhecimento técnico e tático. Treinamento ininterrupto permite concatenar estas habilidades às capacidades e deficiências das tropas. Competência profissional aliada a personalidade firme dos comandantes em todos os níveis, representam uma parte significativa do poder de combate de toda uma unidade. Líderes devem demonstrar caráter forte e padrões éticos altos, conhecer e entender as necessidades de seus subordinados, agir com coragem e convicção, saber quando e onde intervir e tomar decisões de forma a influenciar positivamente a situação.

Trabalho de equipe, espírito de corpo e confiança são atributos fundamentais na atividade de combate. Os soldados têm que confiar em seus líderes, e estes têm que conquistar a sua confiança. Confiança perdida pode inviabilizar ações subsequentes e comprometer a missão. Em situações difíceis o líder competente faz a diferença e viabiliza as ações de seus comandados.

A Proteção

É a preservação da integridade e potencial de combate de uma força, de forma que esteja disponível quando for necessária. A adoção de medidas de proteção não é sinal de covardia, timidez ou incapacidade de correr riscos, mas sim sinal de prudência e bom senso. Forças armadas invariavelmente operam em ambientes hostis, onde vida e morte andam juntas e vítimas se fazem a todo momento. As operações criam uma sobreposição entre as necessidade de realizar a missão e evitar vítimas, comumente difíceis de conciliar. Realizar a missão tem precedência a evitar as vítimas, pela própria natureza do combate, porém os combatentes são o recurso mais importante das forças em combate, e baixas excessivas podem comprometer missões futuras, além é claro de ser moral e politicamente indesejáveis. Comandantes são responsáveis por realizar as missões com o menor número de baixas possível.

A proteção tem 4 componentes: proteção da força, disciplina de campo, segurança, e prevenção ao fratricídio. A proteção da força, o componente primário, minimiza os efeitos da potência de fogo inimiga, sua manobra e coleta de informações. Disciplina de campo impede baixas por ações do ambiente. Segurança reduz o risco inerente de mortes fora de batalhas e danos. Prevenção ao fratricídio minimiza a ocorrência de baixas por fogo amigo.

Proteção da Força

Proteção da força é o conjunto de todas as medidas implementadas a fim de impedir ou minimizar baixas, pessoais ou materiais, causadas pelo inimigo. A proteção é implementada seja o combate ou em nos recursos e instalações, além da vital proteção a informação crítica. Ações de proteção conservam a integridade da força em combate, preservando seu potencial para que possa ser aplicado quando e onde necessário. Não é objetivo das medidas de proteção da força derrotar o inimigo ou protege-se contra acidentes, intempéries ou doenças.

As medidas de proteção pode lançar mão de todos os meios disponíveis tais como componentes aéreos, espaciais, defesa anti-míssil, defesa NBC, ações anti-terrorismo; operações de contra-informação e segurança para forças operacionais e seus meios. Forças inimigas de menor poderio e que são incapazes de desafiar seus adversários em combate convencional, freqüentemente buscam ações assimétricas, com armas ou táticas não convencionais. Esta ameaça não pode ser negligenciada.

A proteção da força em todos os níveis minimiza as baixas por ações hostis. Ações de contra-inteligência hábeis e agressivas e avaliações de ameaça diminuem a vulnerabilidade das forças aliadas. Disciplinas de dispersão reduzem perdas por fogos inimigos e ações terroristas. Disciplinas de camuflagem, segurança local, e fortificações de campo fazem o mesmo. Proteção de ligações eletrônicas, incluindo tropas com dispositivos eletrônicos, são vitais à segurança das informações e sistemas de informação. No nível operacional, áreas de retaguarda e segurança de bases contribui para aumentar a proteção. Forças de artilharia de defesa antiaérea protegem instalações e populações civis do assédio de mísseis táticos com ogivas de combate convencionais e WMD. Aviação de caça e sistemas de controle de espaço aéreo e unidades de defesa anti-míssil complementam o controle do componente pelo controle do espaço aéreo. Artilharia de costa e forças navais guardam os flancos para o mar e acesso aos portos. Medidas preventivas contra ações de natureza NBC proveem a capacidade para sustentar operações nestes ambientes.

Disciplina de Campo

Disciplina de campo, um segundo componente da proteção, impõem regras aos soldados, preservando-os dos efeitos físicos e psicológicos do ambiente. Ambientes opressivos podem solapar muito mais depressa o moral dos soldados que a ação inimiga. Embora estes possam adaptar-se ao ponto das populações nativas, esta adaptação só é conseguida a custa de muito treinamento em habilidades de campo e aspectos particulares da região.

Todas as medidas de precaução para manter os soldados saudáveis e de moral alto devem ser implementadas. Sistemas adequados instalados em locais pertinentes preservam a saúde dos combatentes, previnem doenças endêmicas e sazonais, e proporcionam atendimento rápido dos feridos. Sistemas efetivos para manutenção, evacuação, e substituição rápida ou conserto de equipamento preservam o valor do material empregado. A saúde básica e o bem estar da tropa devem estar em primeiro lugar, evitando-se exposições desnecessárias a condições debilitantes, tais como frio e calor extremo, desidratação e insetos, por exemplo.

Segurança

Segurança é o terceiro componente da proteção. Condições operacionais impõem frequentemente riscos significativos aos soldados. Tripulações tem que ser treinadas e operadores têm que saber as capacidades e limitações de seus sistemas de armas. Em condições que extrapolam os limites humanos, meios extras de proteção devem ser providenciados. Em combate, a fadiga reduz reações e a agilidade mental, resultando em acidentes fatais, perda de poder de combate, e de oportunidades táticas. Atenção e disciplina de segurança em níveis altos vem a minorar estes riscos. Operações seguras decorrem de padrões rígidos de treinamento. Enquanto expor-se a riscos calculados é inerente às operações, lançar mão de todos os meios para minorar a probabilidade destes é obrigação do comando

Prevenção ao Fratricídio

O quarto componente da proteção é a prevenção ao fratricídio. Fratricídio é a matança ou ferimento não intencional de pessoal através de fogo amigo. O poder destrutivo e diversidade das armas modernas, aliadas a alta intensidade dos combates, aumentam o potencial para o fratricídio. Manobras táticas, terreno, e condições de tempo também podem aumentar este perigo. A redução dos riscos de fratricídio deve ser buscada sem desencorajar a coragem e audácia. Liderança competente resulta em eficaz controle de armas, movimentos de tropa, e disciplina nos procedimentos operacionais, contribuindo para alcançar esta meta. Compreensão situacional por parte das forças aliadas e métodos de identificação de veículos também ajudam. A Eliminação do fratricídio aumenta nos soldados a vontade de agir corajosamente, confiante que fogos aliados não os atingirão.

Informação

Informação adequada multiplica os efeitos da boa liderança, manobra, poder de fogo e proteção. No passado, quando forças estabeleciam contato com o inimigo, a busca de informação era implementada. Hoje usa-se informação previamente acumulada por uma grande gama de sistemas, desde patrulhas de reconhecimento até sistemas não tripulados e de satélites, para traçar o quadro da situação muito antes dos momentos de contato iminente com o inimigo. Operações de informação ofensivas (IO) são usadas para entender o ambiente operacional e criar as condições de emprego para os outros elementos do poder de combate.

Um quadro operacional em constante atualização, baseado em capacidade de inteligência potencializada, vigilância e reconhecimento (ISR), todos com alta tecnologia se disseminou através dos sistemas de informação modernos, proporcionando uma perspectiva em tempo real muito precisa da situação que irão encontrar. Informação atualizada permite adquirir conhecimento situacional real, possibilitando que se combine elementos do poder de combate de modos novos e mais efetivos. Por exemplo, o adequado conhecimento da situação permite evitar áreas inimigas desfavoráveis, enquanto se concentra fogos e manobra em locais e momentos adequados. Esta capacidade aumenta a probabilidade de sobrevivência da força sem ter que aumentar o esforço de sistemas passivos de proteção na mesma proporção, como a capacidade das blindagens. Sistemas de informação modernos ajudam em todos os níveis a melhores e mais rápidas decisões. Decisões mais rápidas e efetivas, prontamente comunicadas permitem a força potencializar os efeitos do poder de combate mais efetivamente que o inimigo. Isto habilita a força a ver, entender e agir primeiro.

A Informação não é neutra; lados adversários usam-na para capitalizar vantagens exploráveis e aplicá-las contra objetivos selecionados direta ou indiretamente. Da mesma maneira que fogos são sincronizados e endereçados, assim é a informação. Alguns exemplos ilustram o uso da informação como um elemento de poder de combate: Durante a operação Tempestade no Deserto, unidades de operações psicológicas acompanharam forças em manobra, em muitos casos convencendo o inimigo a se render. Na mesma operação, operações diversionárias dos Marines (um elemento de IO ofensivo) resultou na divisão de forças, alocando uma parte da força inimiga para longe da operação decisiva.

O implemento de sistemas informatizados e integrados permite as forças em combate agilidade no trâmite e processamento de informação a um grau sem precedentes. Os sistemas de Guerra Centrada em Redes (NCW) tem efeitos multiplicadores do poder de combate. O objetivo destas melhorias é proporcionar informação em tempo real que permita entender a situação tática e agir dentro da intenção do comando, aumentando a capacidade da força e diminuindo os desafios operacionais. Enquanto os subordinados tem acesso à uma situação tática mais abrangente, o comando têm acesso a camadas de detalhe tático mais específicas.