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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Artilharia de Campanha #020


A artilharia de campanha é a arma componente das forças terrestres que tem por missão principal apoiar pelo fogo a manobra das armas-base, aprofundar o combate através de fogo de longo alcance junto à retaguarda das linhas inimigas e executar outras missões de fogo que lhes são próprias . As formações de artilharia de campanha posicionam-se a retaguarda das tropas em vanguarda, e através do tiro de trajetória balística, disparam suas granadas por sobre suas cabeças, atingindo os alvos a sua frente e a seu pedido, bem como os demais alvos designados pelo escalão superior.

O poder de fogo da artilharia de campanha é devastador, sendo a responsável terrestre pela maior parte das baixas inimigas em combate, "amaciando" sobremaneira os alvos a serem vencidos pelas armas-base, no decorrer de sua manobra e no cumprimento de seus objetivos. Devido as características de arma de apoio, a artilharia de campanha nunca é posta em reserva, e atua na totalidade de suas unidades o tempo todo, acompanhando a manobra das grandes unidades a que estiver subordinada.

Missões e Possibilidades

A artilharia de campanha pode aplicar sobre seus alvos uma variedade de fogos com características distintas de acordo com as necessidades de cada situação. Suas baterias podem, sem trocar de posição, alocar seus fogos rapidamente de uma posição a outra em reduzido espaço de tempo provendo um apoio flexível e eficaz, apenas variando o alcance e o azimute de seus disparos, através de variações na pontaria de suas peças ou na configuração das cargas de projeção.

Suas baterias trocam de posição de forma alternada a fim de que os fogos não cessem durante tais manobras, sendo que normalmente cerca de 2/3 delas permanecem atirando continuamente, se necessário. As unidades de artilharia podem atuar organicamente apoiando sua grande-unidade ou integrando agrupamentos de artilharia coordenados pelo escalão superior a fim emassar fogos em objetivos de alto valor. As missões de tiro podem ser de oportunidade ou seguir um plano de fogos pré-estabelecido, através de solicitação da arma-base, dos observadores avançados ou do escalão superior.


Efetua normalmente os seguinte fogos:
  • Fogos de preparação:  são aqueles efetuados forma contínua por um período de tempo determinado, sempre antes de um ataque da arma-base a fim de debilitar formações defensivas para que aquelas possam cumprir sua missão de uma forma mais previsível contra um alvo menos resistente e difícil.
  • Fogos de cobertura: são fogos destinados proteger forças amigas quando em manobras de retraimento ou que necessitem de proteção contra fogos inimigos.
  • Fogos de contrabateria: são fogos destinados a neutralização da artilharia inimiga, perigosos se esta tiver alcance similar, sendo desejável neste caso, que o alcance do material empregado seja superior ao do inimigo.
  • Fogos de contrapreparação: são fogos destinados a frustar a organização inimiga, evitando ou dificultando que desdobre dispositivos de combate.
  • Fogos de barragem: são fogos destinados a evitar que o inimigo ultrapasse determinadas linhas, criando barreiras ao seu deslocamento.
  • Fogos de interdição: são fogos destinados a destruição de alvos no campo de batalha, a fim de impedir que o inimigo se utilize deles para sua manobra. Como exemplo de alvos temos depósitos de combustível e munição, usinas de energia e de tratamento de água, pontes e aeródromos, entre outros.
  • Fogos de profundidade: são fogos destinados a atingir alvos bem a retaguarda do dispositivo inimigo, como, por exemplo, suas áreas de desdobramento logístico, a fim de prejudicar sua atividade.
  • Fogos de apoio aproximado: são fogos apontados diretamente frente da tropa apoiada a fim de facilitar a sua manobra e a seu pedido.
  • Fogos de inquietação: são fogos destinados diretamente a minar o moral inimigo, impedindo seu descanso, preparação ou articulação, efetuados de forma aleatória e imprevisível. Estes fogos podem ser efetuados de forma contínua, imprimem uma tensão constante ao inimigo diminuindo sua capacidade de operaçao.
  • Fogos de iluminação: são fogos destinados a prover iluminação às tropas através de munição especialmente desenvolvida.
  • Fogos de propaganda: são fogos destinados e transportar material de propaganda junto às linhas inimigas.


Devido as suas características a artilharia podem ainda atingir alvos desenfiados (posicionados atrás de elevações), alvos-ponto, alvo-área e alvos móveis. É muito vulnerável a ação aérea inimiga e tem limitações para se engajar em combate aproximado. Sua grande vulnerabilidade, no entanto, é a necessidade constante de grande quantidade de munição, e se não dispuser de apoio logístico eficaz pode ter sua operacionalidade comprometida.

Outras grande vulnerabilidade é quanto aos fogos de contrabateria inimigos. Assim que abre fogo, os disparos são prontamente detectados pelo inimigo através de seus OA e radares que calculam sua origem com grande rapidez e acionam suas baterias para réplica. Devido a esta ameaça as baterias tem que abandonar suas posições com grande rapidez após cada missão de tiro.




O Sistema Operacional

Para cumprir sua missão a artilharia de campanha se vale vários subsistemas. Fundamentalmente emprega três elementos básicos que agem simultaneamente em proveito próprio. A inoperância de qualquer um deles inviabiliza o emprego da arma e todos são igualmente importantes para sua operacionalidade. São eles o observador avançado (OA), a central de tiro e a linha de fogo.


  • O Observador Avançado (OA) : Posiciona-se a frente das baterias de tiro, em posições desenfiadas da observação inimiga e em condições de visualizar os alvos e os impactos no terreno. Pode acompanhar as armas apoiadas ou atuar sozinho, normalmente em pontos mais elevados ou em aeronaves que lhe permitam boas condições de observação. Cabe ao OA determinar as características dos alvos a serem batidos, suas dimensões e posicionamento (coordenadas no terreno), assim como corrigir e ajustar os disparos.
  • A Central de Tiro (CTir): Valendo-se de dados obtidos pelo OA e outros dados de inteligência como cartas topográficas e características dos alvos escolhidos, a C Tir plota em suas pranchetas a posição do alvo e das baterias de tiro, calculando alcance e elevação a serem aplicados às peças, seleciona regime de tiro, tipo de munição e a carga de projeção a ser utilizada, passando estes dados  a linha de fogo para o cumprimento da missão.
  • Linha de Fogo (LF):  É a bateria de tiro propriamente dita com cerca de 4 a oito peças  (obuses, morteiros ou lançadores múltiplos) . A Linha de fogo alimenta em suas peças os dados provenientes da C Tir e comanda os disparos, que serão observados pelo OA. Este efetua as correções necessárias levando em consideração a distância entre os impactos e o alvo e as repassa a central de tiro que recalcula os elementos de tiro e o ciclo recomeça. As linhas de fogo normalmente contam com mini centrais de tiro a fim de que possam operar independentemente quando necessário.
Outros sub-sistemas também são necessários ao bom funcionamento da artilharia de campanha.
  • Comunicações: necessárias para efetuar a ligação entre Comando, OA, Linha de fogo e Central de Tiro. Valem-se de redes fio para posições fixas ou redes por enlaces de rádio encriptadas e de salto de frequência operando comando de voz ou data-link.
  • Apoio logístico: Necessário para prover combustível e munição continuamente aos operadores, além de outros ítens.
  • Comando, controle e coordenação: Para alocação de fogos onde e quando forem necessários. 
  • Busca de Alvos: Os alvos podem ser designados pelo AO, arma-base, ou por outras unidades e subunidades, cujos pedidos de fogo chegam escalão superior de artilharia de campanha.
  • Topografia: Através de serviços de campo desenha uma trama de pontos precisos no terreno possibilitando tiro eficazes sem ajustagem prévia.
  • Meteorologia: Fornece dados sobre as condições atmosféricas que podem influenciar no cálculo das trajetórias, tornando os elementos de tiro mais confiáveis.
Apenas para exemplificar uma bateria de artilharia moderna, montada em peças autopropulsadas, dotada de GPS e DataLink poderia em questão segundos receber uma missão de tiro (via DataLink), parar no local onde se encontra e apontar suas peças instantaneamente, através de comandos pelo mesmo dataLink às outras peças, e através de soluções de pontaria fornecidas em tempo real pelos computadores balísticos que possuem desencadear seus fogos em poucos segundos e rapidamente trocar de posição a fim de evitar o fogo de contrabateria. Uma guarnição bem treinada poderia pode efetuar tal missão em menos de 1 minuto. Àqueles, como eu, que foram treinados numa central de tiro a moda da segunda guerra sabem o que isso significa. Mesmo diante da existência de meios modernos, os artilheiros continuam a ser treinados no cálculo manual do tiro, importante se a tecnologia não estiver disponível e condição fundamental para serem chamados de "artilheiros".

Materiais de artilharia de campanha

A artilharia de campanha emprega uma variedade de materiais diversos, cada um com características próprias e adequado a tropa que compõem e a missão a que se destina, sendo o mais tradicional o obuseiro. Podemos classificar o material de artilharia quanto ao quesito mobilidade e peso, elementos este que definem qual tropa emprega qual material.

Quanto a mobilidade o material de artilharia pode ser rebocado ou propulsado. O material rebocado possui peso e mobilidade inferior ao propulsado, e depende de uma viatura QT para seu deslocamento. A dimensão desta viatura depende muito do material a rebocar e pode ser uma viatura 3/4 Ton para rebocar um lançador múltiplo leve ou uma viatura de 5 Ton para rebocar obuseiros de 155 mm, por exemplo.

No ocidente utiliza-se o obuseiro de 105 mm quando o quesito peso for a prioridade, como no caso de tropas leve e helitransportadas, como tropas paraquedistas e de montanha. Nestes casos obuseiros leves fazem a diferença, pois favorecem a mobilidade estratégica, podendo ser deslocados por ar em intervalos de tempo muito curtos. No Brasil utiliza-se o obuseiro Oto Melara Mod 56 que pode ser desmontado em partes e transportado no lombo de animais, dentro de uma viatura M113 e lançado de paraquedas, além de ser rebocado por viaturas leves. Outro material leve artilharia é o morteiro de 120 mm que possui as mesmas características de mobilidade dos modelos Oto Melara. Lançadores múltiplos leves também podem ser helitransportados e possuem altíssimo poder de fogo. Estes materiais possuem um alcance de cerca de 11 a 12 mil metros, sendo que o morteiro possui um alcance menor, de aproximadamente 6 mil metros.




Modelos de 105 mm como o inglês Light Gun podem ser facilmente aerotransportados por aeronaves C-130, e são utilizados por tropas mais convencionais, como as brigadas de infantaria. A tendência mundial é equipagem destas tropas com obuseiros mais potentes de 155 mm também rebocados. Estas peças possuem um alcance de cerca de 30 km, pesam de 4 a 5 ton e requerem viaturas mais pesadas para tracioná-las. Alguns modelos deste calibre possuem limitações quanto ao aerotransporte por aeronaves C-130.

Para equipar a artilharia de campanha das brigadas e divisões blindadas utiliza-se versões autopropulsadas dos obuseiros de 105 mm e 155 mm, que são peças de artilharia montadas em veículos blindados especialmente construídos ou adaptados de outros chassis blindados, estando o calibre de 105 mm gradativamente caindo em desuso nestas unidades. Estes modelos possuem a mobilidade tática necessária para acompanhar carros de combate principais em seus avanços, mas sua mobilidade estratégico-operacional é mais limitada, uma vez que só pode ser aerotransportada por aeronaves pesadas ou embarcações. Para deslocamentos terrestres demandam carretas ou transporte ferroviário.

A artilharia de foguetes também está presente nos exércitos modernos, e geralmente é empregada em bombardeios de profundidade, uma vez que os foguetes alcançam distâncias bem superiores a artilharia de tubo. Como exemplo destes sistemas temos o Astros II brasileiros e o MLRS norte-americano. Possuem as mesmas características de mobilidade dos obuseiros autopropulsados. Estes sistemas são altamente eficazes e alvos de busca da aviação inimiga no início de qualquer conflito, carecendo de efetiva proteção antiaérea.





Unidades de Artilharia

As unidades de artilharia, no Brasil denominadas Grupos de Artilharia, são organizadas em baterias de tiro de 2 a 4 conforme a unidade cada uma com 4 a 8 peças. Unidades autopropulsadas apoiam as brigadas e divisões blindadas, unidades leves apoiam tropas paraquedistas, infantaria leve, tropas de selva e de montanha. Outras unidades, geralmente rebocadas apoiam tropas mais convencionais.

As unidades de artilharia, por serem forças de apoio nunca são colocadas em reserva. Se uma brigada estiver em tal situação, seu grupo de artilharia permanece a disposição do comando divisionário para reforço àquelas unidades que apoiam as tropas em ação. Apesar de se subordinar a uma determinada grande unidade os escalões superiores de artilharia podem rapidamente assumir seu controle e agregar uma grande quantidade de grupos sob comando único a fim de cumprir missões especialmente designadas.

Busca e aquisição de alvos

Os alvos da artilharia podem ser de oportunidade ou pré-programados em um plano geral de fogos, confeccionado pelo comando da artilharia. Estes alvos são elencados a partir de inúmeros meios de busca que partem dos observadores avançados de artilharia, da arma-base, da observação por satélite, dos esclarecedores da brigada, de veículos de observação aérea como a aviação do exército em seus helicópteros e veículos não tripulados, da força aérea, radares de artilharia e busca de alvos, sistemas de inteligência tipo ELINT, entre outros.






sábado, 4 de maio de 2019

O Tiro de Artilharia *167



A Artilharia de Campanha é caracterizada pela sua grande potência de fogo. Partindo de posições relativamente distantes das linhas de contato, os fogos de artilharia cruzam o espaço aéreo dos campos de batalha em busca de seus alvos, batendo áreas poucos metros a frente da tropa amiga, em proveito desta e com trajetórias por sobre suas cabeças, que conta com o indispensável apoio da arma que é a responsável pela maioria das baixas em combate e facilitadora do trabalho das armas-base.

A artilharia não cerra sobre o inimigo, mas aloca seus fogos em profundidade junto às suas fileiras, desorganizado seu dispositivo e enfraquecendo seu poder combativo, proporcionando tanto a cavalaria como a infantaria oponentes desorganizados e debilitados, mais fáceis de serem suplantados. Dotada de alta flexibilidade em alcance e direção, os fogos de artilharia são deslocados quase que instantaneamente de um alvo a outro a partir de posições dispersas e temporárias.


A arma do fogo apoia os elementos de combate neutralizando ou destruindo os alvos que lhes são designados, aprofunda o combate com fogos de contrabateria (contra a artilharia inimiga) e de isolamento (aqueles que restringem a mobilidade inimiga), desarticulando instalações a serviço do inimigo e frustando sua manobra.

Estes efeitos de combate são conseguidos através do impacto de uma considerável quantidade de projéteis (granadas de artilharia) atingindo seus alvos no tempo adequado com a munição (granadas e espoletas de vários tipos) apropriada.


A técnica de tiro de artilharia, eficazmente aplicada a direção de tiro junto às baterias de obuses e lançadores múltiplos de foguetes é que assegura os efeitos desejados da arma junto aos seus alvos. Estas baterias, convenientemente inseridas em grandes malhas de tiro de várias delas e integradas por comandos de grande escalão, são capazes de efeitos devastadores, pois podem concentrar de forma imediata o impacto de um grande número de bocas de fogo em um só alvo, e no momento seguinte direcionar o fogo de cada uma a alvos distintos, voltando seus impactos a reunir-se, parcial ou totalmente onde forem necessários, sem que qualquer das baterias, separadas por quilômetros, precise mudar de posição, embora o façam a fim de evitar a contrabateria inimiga.



Observadores avançados (OAs) e oficiais de ligação (OLigs) atuam juntos às armas-base a fim de atenderem as necessidades de apoio de fogo destas e traduzirem estas necessidades em comando de tiro válidos. Estes observadores atuam também isolados em posições de observação cuidadosamente escolhidas a fim de orientarem os cálculos das centrais de tiro e observarem os impactos, corrigindo através de orientações a estas centrais a trajetória dos projéteis e seus pontos de impacto no terreno a fim de obter eficiência máxima.


O tiro de artilharia pode atender um grande número de demandas podendo destruir ou neutralizar através de impactos de alto explosivo com sopro e estilhaçamento de granada de metal. Estes impactos poderão ser detonados pelo contato com o alvo ou através do tempo voo, com arrebentamentos em altitude, dependendo do efeito desejado. Podem espalhar fumaça ou munições especiais (como as ogivas químicas, biológicas e mesmo nucleares), buscar alvos móveis como carros de combate ou atingir comboios ao longo de uma estrada. Causam efeitos de inquietação, impedindo ao inimigo  momentos de relaxamento e provocando sua fadiga, de iluminação do campo de batalha, de propaganda e balizamento, de sinalização e interdição do terreno, impedindo sua utilização.

De natureza eminentemente técnica, a execução do tiro de artilharia requer profissionais altamente treinados seja em sua observação, cálculo ou linha de fogo.




O Problema Técnico Fundamental da Artilharia


Posicionada a certa distância das linhas de contato, a artilharia de campanha tem a sua frente, entre sua posição de tiro e as posições do inimigo que lhe servirão de alvo, não só a tropa apoiada, mas também as dobras do terreno. Esta distância pode variar muito de acordo com o alcance do material, geralmente indo de 3 a 30 quilômetros em material de tubo em apoio a arma-base; e muito mais que isso se tratando de lançadores múltiplos de foguetes.

Com tantos obstáculos não é possível a realização do tiro direto, fato complementado pela necessidade das baterias em posicionar-se em locais ocultos a observação inimiga e ao fogo de suas armas de tiro tenso, fundamental para sua própria segurança, já que a artilharia não conta com a blindagem nem a mobilidade imediata dos carros de combate.





Para resolver este problema os artilheiros desenvolveram o técnica de tiro de artilharia  de campanha, que viabiliza a realização do tiro indireto, ou seja, utilizando-se de trajetória balística e aproveitando as características da força da gravidade, dispara seus projéteis para o alto por sobre as elevações e cabeças da tropa amiga. Estes disparos acabam por impactar nas áreas-alvo, sempre observados pelos artilheiros de vanguarda, os observadores avançados (OAs), que retornam suas observações do tiro em execução para os calculadores nas centrais de tiro, corrigindo e ajustando-o para que atinja eficiência máxima.


Uma bateria de tiro ao posicionar-se, direciona suas bocas de fogo para uma direção geral de tiro previamente definida. Quando da execução da missão de tiro, os calculadores "plotam" em uma prancheta um ângulo de tiro medido em relação a um ponto conhecido como o norte magnético por exemplo e uma distância da bateria até o alvo. Baseado em tabelas já existentes, definem um ângulo vertical (chamado elevação) de tiro com base nas leis balísticas e uma carga de projeção apropriada, para que a bateria possa efetuar seus disparos. A este ângulo deverá ser acrescido (ou decrescido) de outro que compense a diferença de altitude da bateria em relação ao alvo, conforme ela esteja abaixo ou acima dele, denominado ângulo de sítio mais um fator compensador de trajetória conhecido como correção complementar de sítio, que visa compensar a maior influência da força gravitacional (sítio total).





Podendo este cálculo ser manual, como na Segunda Guerra Mundial, ou contando com meios modernos como calculadores balísticos digitais que consultam sistemas como o GPS para medir a distância até o alvo e o ângulo de sítio, radares medidores de velocidade inicial, enlaces de dados (data-link) e outros meios modernos, a técnica de tiro de artilharia de campanha garante a eficácia desta arma em batalha, apoio sempre bem-vindo por infantes e cavalarianos no cumprimento de suas missões, e garantidora de seu sucesso.




Modalidades de Tiro de Artilharia

O tiro de artilharia pode assumir um variado número de modalidades, de acordo com o efeito que se busca junto às fileiras inimigas. Em sua missão de apoio de fogo, a artilharia de campanha não visa apenas a destruição do inimigo, mas a alocação de fogos oportunos a cada situação tática, atuando em proveito das necessidades da arma apoiada e do escalão a que está subordinada.

Estes tiros são classificados quanto ao resultado que buscam alcançar, sendo o mais conhecido o efeito de neutralização. A neutralização é alcançada quando o tiro cai diretamente sobre a posição do inimigo visada, causando-lhe baixas e forçando-o a abrigar-se. Este tiro tem o poder de desorganiza-lo, diminuindo sua eficiência em combate, e devem chegar ao alvo de forma repentina e intensa a fim de destruir ou inviabilizar o maior número de meios e desdobramentos que o inimigo tenha feito naquela posição. É o tiro que apoia diretamente a arma-base, que pode avançar sobre as posições batidas de forma eficaz e segura.

O tiro de destruição busca não à "amaciar" o terreno para o avanço dos combatentes de infantaria ou cavalaria, mas sim a destruição até o fim de alvos específicos. É dirigido contra alvos materiais e atinge maior eficiência quando efetuado por disparo direto e com materiais de maior calibre possível. Exige observação apurada, precisão dos disparos e implica em grande consumo de munição, pois só cessa quando o alvo for considerado destruído.

O tiro de interdição, como o próprio nome diz exige menos dos artilheiros, seja em precisão ou consumo de munição, e sua finalidade é impedir a utilização da área de impactos pelo inimigo. Este tipo de tiro é dirigido a nós rodoviários, acesso a pontes, estreitos e gargantas, passos e desfiladeiros. Não visa alvos humanos nem materiais, mas sim efeitos temporários de inacessibilidade a determinado ponto.



Os tiros de inquietação visam a abater o moral do inimigo, através de bombardeios intermitentes a fim de impedir que busque alguma sensação de segurança em determinado momento. De baixa intensidade, visam a "esquentar" momentos de relativa tranquilidade, impedindo que o inimigo durma bem ou relaxe, atrapalhe seus movimentos, cause alguma baixa e mine sua capacidade de combate.

O tiro iluminativo é realizado com munição especial, de queda retardada e visa a proporcionar alguma iluminação através de pirotecnia para operações noturnas. Este tipo de tiro perdeu parte de sua importância com o advento de novas tecnologias como os intensificadores noturnos e dispositivos termográficos. Pode porém ser empregado em algumas situações, principalmente de grande envergadura onde muitos combatentes não dispõem destes equipamentos.

O tiro fumígeno também é realizado com munição especial e visa a sinalização e balizamento do campo de batalha, bem como a ocultação da vista do inimigo de movimentos e outras situações que não se deseja que ele veja, como por exemplo uma transposição de curso d'água. É particularmente útil  para frustrar a missões dos OAs inimigos com impactos imediatamente no seu campo de observação.



Os tiros de contrabateria são aqueles alocados contra a artilharia inimiga, valendo-se de sua localização imediata. São tiros de difícil execução, tendo em vista que as baterias atiram a mudam imediatamente de posição para evitá-los. Determinar a posição de uma bateria não era tarefa fácil até o advento dos radares de campo ou radares de contrabateria, que medem a trajetória balística dos projéteis e calculam a posição da bateria. Nesta prática tem-se que ser extremamente rápido, pois após o radar determinar eletronicamente a posição da bateria inimiga, deve-se passá-la a central de tiro que calculará os elementos de tiro e os comandará às baterias, que terão que apontar e disparar antes que a bateria inimiga mude de posição. Processos automatizados de tiro são mais adequados a conseguir algum sucesso neste tipo de tiro.

Outro tipo de tiro frequentemente realizado e que não visa ações de combate é o tiro de regulação, cuja finalidade é ajustar os elementos de tiro às condições locais (temperatura, pressão do ar, ventos, etc...). Estes tiros são efetuados contra alvos auxiliares (uma árvore por exemplo) e buscam uma maior precisão nos disparos subsequentes, em missão operacional. São uma espécie de calibragem do tiro na adaptação as condições do momento (temperatura, umidade, vento, pressão atmosférica, etc...).

Outros tipos de tiro podem ser empreendidos com finalidades especiais. Tiros de propaganda podem dispersar panfletos por exemplo, junto ao inimigo tentado convencer os combatentes a rendição; tiros com munições especiais de precisão podem atingir alvos móveis como carros de combate em movimento e requerem dispositivos de orientação. No Vietnam os americanos utilizaram a artilharia para "plantar" sensores de trilha que detectavam a vibração no solo e alertavam para o movimento naquela região. Pode-se ainda disparar granadas químicas, biológicas e nucleares, estas de forma pouco usual.

Os tiros previstos são àqueles previamente preparados e locações precisamente determinadas enquanto os inopinados dependem do transporte a partir de um alvo auxiliar e ajustagem prévia, determinados anteriormente pelos tiros de regulação.

Os tiros podem ainda ser observados ou não. Os primeiros demandam menor quantidade de munição e são mais precisos, enquanto os segundos só devem ser empreendidos contra alvos precisamente determinados ou a partir de alvos auxiliares já regulados.

Temos ainda a classificação dos tiros quanto a sua forma. Os tiros de concentração são aqueles que impactam de forma emassada sobre um terreno limitado. Os tiros hora-no-alvo são uma modalidade de concentração onde se ajusta o tempo de disparo de cada boca de fogo de acordo com sua distância do alvo a fim de que todos os disparos atinjam o alvo exatamente no mesmo instante. Os tiros de barragem são uma forma de tiro que visam criar uma barreira no campo de batalha com impactos caindo linearmente. Esta forma de tiro visa a compartimentar temporariamente o espaço desautorizando acessos pelo fogo. O tiro por peça é aquele dirigido por uma única peça a um alvo previamente determinado e pontaria já pronta.


O Comando de Linha de Fogo

A bateria de artilharia de campanha é a menor fração de tropa dessa arma capaz de cumprir missões de tiro de forma autônoma, e mesmo operando dentro de um sistema de apoio de fogo amplo, pode operar independentemente em apoio a uma determinada tropa se assim for designada. Enquanto seu comandante cumpre as tarefas de coordenação tática-operacional de sua subunidade, seja na missão em que está atuando ou em ligação junto aos escalões superiores, e orienta as sempre necessárias e onipresentes demandas administrativas operacionais; delega a um oficial subalterno o comando de sua linha de fogo, que atua como seu auxiliar e se encarrega de fazer funcionar o principal elemento da bateria.



O Comandante de Linha de Fogo ou CLF, é o oficial encarregado de fazer o elemento operativo da bateria atuar, ou seja, fazer com que as missões de tiro que lhes forem passadas se transformem em impactos junto aos alvos designados. Cabe a ele providenciar para que a linha de fogo (LF) da bateria se desloque até as posições de tiro designadas por seu comando e lá desdobra-la colocando-se em condições de cumprir sua missão. 

Comanda aos seus artilheiros o desdobramento do material de artilharia para colocar-se em condições de executar o tiro indicando a direção geral de tiro (DGT) e certificando-se que todas as rotinas necessárias foram cumpridas, executa a pontaria inicial de sua bateria, determina a elevação mínima e os limites de tiro e segurança que suas peças poderão operar a fim de que não atinjam obstáculos a sua frente como elevações ou edificações, repassa a central de tiro (CTir) de seu grupo todas as informações relevantes à posição que acabou de ocupar, comanda às suas peças as missões de tiro que lhes forem imputadas com a necessária e singular adequação de pontaria que cada missão demande, e em caso da bateria estar atuando de forma isolada acumula as funções de comandante e operador de central de tiro. O CLF determina ainda os limites máximos de segurança para o caso de execução do tiro vertical (acima de 45º).

O CLF pode ainda auxiliar o comandante de bateria e o estado maior do grupo nas rotinas de reconhecimento e escolha de posições de bateria e posições de troca. Pode atuar também como subcomandante de bateria se assim for designado e assumir na ausência do comandante suas funções, bem como assumir outras funções dentro da bateria que lhes forem julgadas convenientes e estejam dentro de suas possibilidades, porém que em hipótese alguma prejudiquem a execução do tiro, razão de ser da bateria de artilharia.


domingo, 8 de setembro de 2019

A Batalha de Dien Bieh Phu - Operação Castor *178




A aldeia de Dien Bien Phu está às margens do rio Nam Yum que a corta em duas, e é capital de sua província, ficando à noroeste do Vietnam junto à fronteira, em um vale cercado de montanhas com mata fechada que erguem-se 600 m acima do rio, posição taticamente difícil de manter, sendo rota obrigatória para o Laos. A rodovia Rota Colonial 41 vai à nordeste em direção a Tuan Ciao e a trilha Pavie levava à Lai Chau 80 km ao norte, capital da etnia Tai. No ano 1920 os franceses construíram aí um campo de pouso, região de difícil sobrevoo pelo nevoeiro constante.

Em 1954 uma ousada ação militar da França na Indochina na tentativa de reverter a crescente influência do Viêt Minh, resultou no crepúsculo de seu domínio sobre esta região, e estabeleceu um novo patamar na relação entre as grandes potências. A batalha de Dien Bien Phu foi um fiasco militar e impôs uma humilhação ao país europeu, e suas aspirações de manter um império além-mar, marcando o fim da primeira Guerra do Vietnam, e abrindo o caminho para o envolvimento norte-americano.



O Viêt Minh era uma força irregular composta por camponeses nacionalistas mal treinados, porém muito determinados, fundado pelo nacionalista Ho Chi Minh em 1941 em oposição a ocupação Japonesa da Indochina e que acabou por transformar-se no braço armado do Partido Comunista da Indochina (ICP). A derrocada do Japão no fim da Segunda Guerra acabou por devolver o controle da região ao império francês, contrapondo a proclamação pelos nacionalistas em 1945, da República Democrática do Vietnam. Após o fracasso de um acordo pós-guerra entre China, Viêt Minh e França, seguiram-se 10 anos de guerra entre os nacionalistas e o país europeu. A França controlava a "Indochina francesa" desde 1887, cedendo esta tutela ao império japonês durante a segunda Guerra Mundial pela força.


A Batalha de Dien Bien Phu contrapôs 15 mil soldados franceses à 40 mil guerrilheiros do Viêt Minh e resultou na aniquilação do "Armée de terre" nesta região com um saldo de 8 mil prisioneiros, 3200 mortos e desaparecidos, e 4800 feridos. Aos prisioneiros de guerra foi imposta uma dura marcha pela selva até os campos de prisioneiros, quando metade deles pereceu depois de 500 milhas de caminhada. O Viêt Minh perdeu 23 mil homens, sendo cerca de 8 mil mortos, porém o resultado foi comemorado pela conquista da região e o fim do domínio colonial europeu no Sudeste Asiático.



Determinados a conquistar a independência depois de décadas de subjugação ao mando estrangeiro, os nacionalistas empreenderam uma guerrilha a partir de dezembro de 1946. Considerando à princípio as ações do Viêt Minh apenas como uma revolta camponesa e certo que controlaria rapidamente a situação, o governo colonial francês logo percebeu que a tarefa seria mais difícil e sangrenta que o imaginado, pois não importava quantos asiáticos eles matavam, os nacionalistas estavam determinados, e se recusavam a desistir. Ao longo da campanha, houveram 75 mil baixas entre mortos, feridos e prisioneiros no lado dos colonialistas e mais de 200 mil mortos nas fileiras do Viêt Minh.

Buscando uma solução definitiva para anos de árduos embates em um conflito cada vez mais difícil, ambos apostaram em um fim decisivo nesta batalha. O vale de Dien Bieh era uma grande bacia assolada por monções, e bem dentro do território dos nacionalistas, há pouco tempo de voo de Hanoi. As forças francesas fortaleceram lá uma posição em março de 1954 na denominada “Operação Castor”, lideradas pelo General Comandante Geral da Indochina Henri Navarre, procurando um golpe decisivo contra o Viêt Minh, de forma a cortar suas linhas de suprimento, bloqueando a fronteira com o Laos e aniquilando sua potência militar, enfraquecida pelo bloqueio. Baseado na experiência anterior em Na San, onde uma pequena força bem armada e fortificada derrotou uma força muito maior do exército nacionalista, o general francês lançou no coração do território inimigo a maior parte de suas forças. O poder de fogo superior e o treinamento e experiência dos franceses ofuscou a visão do general francês quanto a determinação do General Vo Nguyen Giap, comandante do Viêt Minh. Navarre designou o Major-General René Cogny como comandante geral da operação e o Coronel de Castries para comandar a posição, um oficial de cavalaria totalmente inexperiente e inadequado para comandar uma guerra de trincheiras, em substituição ao Brigadeiro Giles.

Em Na San os franceses ocupavam a maior parte do terreno alto com ganhos para sua artilharia, as linhas aéreas de abastecimento sempre operaram com fluência e a infantaria efetuou ataques frontais contra posições preparadas. Em Dien Bien Phu os vietnamitas sabiam onde estavam todas as baterias francesas, ao contrário destes, que sequer sabiam que o Viêt Minh tinha artilharia significativa, muito menos seu número.



Os franceses tomaram o vale por assalto aeroterrestre a partir de 20 de novembro de 1953, às 1035 horas, saltando de aeronaves C-47 em “Natasha”, 200 m à nordeste da vila, “Simone” à sudeste, e “Octaviane” do outro lado do rio, e começaram a preparar posições fortificadas, a despeito da desconfiança de muitos oficiais que sabiam da vulnerabilidade de uma posição onde seria impossível ou muito difícil sustentar o terreno alto, colocando-os potencialmente em séria desvantagem tática. O plano era ser suprido pelo ar a partir de Hanoi, acreditando na falta de capacidade antiaérea do Viêt Minh. Foram transportados 9 mil soldados em 3 dias, acompanhados de uma escavadeira para preparo da pista de pouso com chapas de aço reforçadas. Havia no local um batalhão do Viêt Minh que logo foi sobrepujado e a posição consolidada, com a área considerada segura às 1500 horas.

Dia 21 o Brigadeiro-General Jean Giles, comandante das forças aeroterrestres na indochina saltou no vale com seu EM. O Coronel Pierre Langlais, comandante do 2º Grupo de Choque Aerotransportado (GCA) saltou com o 1º Batalhão Estrangeiro Paraquedista (1º BEP), o 8º Batalhão de Assalto Paraquedista (8º BAP) no dia 21 e no dia 22 saltou o 5º Batalhão Paraquedista Vietnamita (5º BPV). Langlais quebrou o tornozelo no salto e teve que retirar-se. Cogny visitou o vale dia 22 pousando na pista preparada, e retornou dia 29, desta vez com Navarre. Nesta viagem decidiram substituir Giles por De Castries, a pedido do daquele.

Os objetivos de Navarre eram garantir a segurança do campo de pouso, e reunir-se com as tropas do Coronel Crévecoeur no Laos para apoiar a evacuação de Lai Chau. Para tanto De Castries deveria empregar metade de seu efetivo em incursões contra o Viêt Minh causando-lhes baixas, e evitando sua organização e o sítio da posição. O grande erro nestas ordens era que, se metade da guarnição se envolvesse em patrulhas de combate, não haveria efetivo suficiente para a substituição dos abrigos cavados no terreno por posições bem preparadas.



Uma fortaleza com 7 posições satélites foi desdobrada. O QG foi localizado na posição central com as posições "Huguette" a oeste, "Claudine" à sudoeste, "Dominique" a nordeste, "Anne-marie" a noroeste, "Beatrice" a nordeste cobrindo a trilha Pavie, "Gabriele" ao norte cobrindo a RC 41, e "Isabelle" 6 km ao sul cobrindo a pista de pouso nova. Um ataque de Giap à província ao norte de Lai Chau forçou a retirada dos franceses de lá em direção a Dieh Bien Phu, que praticamente os aniquilou pelo caminho. A guarnição ficou constituída por 16 mil homens, contava com artilharia, 10 blindados M24 Chafee trazidos por via aérea desmontados em 180 partes, paraquedistas regulares, legionários, infantaria colonial (africanos) e recrutada localmente na região da Indochina. Os nacionalistas contavam com 5 divisões (50 mil homens) e artilharia que superava em 4 para 1 os franceses.



Navarre acreditava que o Viêt Minh levaria semanas para concentrar suas forças, depois partiria para patrulhas de reconhecimento em cerca de 10 dias, e finalmente partiria para um ataque geral de muitos dias, que fracassaria pela incapacidade de Giap manter o abastecimento de suas forças, com a aviação francesa castigando as linhas de comunicação dos nacionalistas. O que Navarre não considerou foi o armistício na Coréia em 1953 a ajuda chinesa aumentou consideravelmente. 

O general vietnamita, conhecedor da vantagem tática que lhes foi proporcionada e vendo sua chance de esmagar os franceses em uma vitória decisiva, posicionou em posições bem camufladas uma grande quantidade de baterias de artilharia nas colinas circundantes, e uma quantidade também significativa de armas antiaéreas cobrindo os corredores de pouso e decolagem do aeroporto local. Esta disposição inviabilizou o uso da pista de pouso e impediu que aviões de reabastecimento e helicópteros se aproximassem, comprometendo o suprimento francês, que passou a ser feito por paraquedas. Navarre apostou na impenetrabilidade da selva em torno de sua posição, para que a artilharia chegasse até lá. Os combatentes do Ho Chi Minh, no entanto, eram determinados e conhecedores do terreno.



Navarre amargou descobrir que as preocupações de seus subordinados tinham fundamento, pois o grande número de peças de artilharia de origem russa e chinesa de saldos fornecidos pelos norte-americanos (M101) reunidas causaram um impacto intenso, contraposta à inoperância da artilharia francesa, posicionada em terreno baixo e sem capacidade de disparar seu fogo de contrabateria, pois não sabia onde a artilharia do Viêt Minh estava posicionada. As peças transpuseram as montanhas através de túneis escavados, e se posicionaram ao alcance das posições francesas na encosta, ocultas pela camuflagem. A artilharia francesa dispunha 2 grupos com 3 baterias de 105 mm,  uma bateria de 155 mm, e mais 3 baterias de morteiros de 120 mm.



No dia 13 de março de 1954 o Viêt Minh empreendeu sua primeira ação contra “Beatrice” a nordeste, quando 2 baterias 105 mm, morteiros (de 120 mm, 60 mm, 81/82 mm) e peças de 75 mm e 57 mm, contra o 3º Btl/13ªBda da Legião Estrangeira. Às 1830 horas um projétil atingiu o QG e matou o comandante do batalhão e seu Estado Maior, interrompendo a cadeia de comando. Sapadores do Viêt Minh abriram caminho para o assalto dos 141º e 209ºRgt/141ªBda. Esta posição era composta de 3 pontos fortes como um triângulo apontado para o norte. O 130ºBtl/209ºRgt ocupou rapidamente “Beatrice3”, e o 428ºBtl/141ºRgt conquistou “Beatrice1” de forma parcial, pois ao chegarem ao arame farpado pensaram ter conquistado o todo, com os defensores resistindo de um canto da posição. O 11ºBtl/141ºRgt teve dificuldade devido a trincheiras rasas e deterioradas pela artilharia francesa, com bunkers franceses em “Beatrice2” não detectados. Às 2230 horas “Beatrice1” foi tomada e os 11ºBtl e 16ºBtl/141ºRgt conquistaram “Beatrice2”, em seguida, embora só depois da 0100 horas este ponto forte foi totalmente dominado. 350 legionários morreram, foram feridos ou capturados, com 100 escapando para outras posições. As perdas do Viêt Minh foram de cerca de 600 mortos mais 1200 feridos. Uma trégua se seguiu na manhã seguinte para evacuação de mortos e feridos.

O Viêt Minh fez uso de fogo direto de artilharia, com as armas apontadas diretamente como se um canhão de carro de combate fosse. Artilharia de trajetória balística requer guarnições bem treinadas, boas comunicações que os nacionalistas não dispunham, e observadores avançados (OAs), que resulta em efeitos superiores. Nesta forma de emprego, cada peça pode fazer seu próprio fogo sem depender da bateria. Esta forma de emprego requer espaldões e boa camuflagem. O comandante da artilharia francesa suicidou-se em 2 dias, devido a sua incapacidade de silenciar baterias do Viêt Minh muito bem camufladas. 

O Viêt Minh rompeu a trégua depois de 5 horas. A pista de pouso ficou inoperante desde às 1600 horas do dia 13 devido a um bombardeio, relegando o reabastecimento por lançamento aeroterrestre. À noite seguiu-se um ataque a “Gabrielle” contido por um batalhão argelino de elite. Iniciou-se com concentração de artilharia com 2 regimentos da 308Div atacando a partir das 2000 horas. Feriu-se gravemente por fogo de artilharia o comandante do batalhão e parte de seu EM. De Castries determinou ao Coronel Langlais um contra-ataque a “Gabrielle”, o qual destacou o 5º BtlPara Vietnamita, uma unidade cansada que havia saltado na noite anterior, o qual sofreu pesadas baixas pela artilharia antes de alcançar a posição. Às 0800 horas do dia 15 os argelinos recuaram cedendo “Gabrielle” e amargando a perda de mil combatentes, com o Viêt Minh tendo sacrificado entre 1 a 2 mil combatentes. Calcula-se que o Viêt Minh dispensou 130.000 granadas de todos os tipos perfazendo 1.500 toneladas transportadas em bicicletas reforçadas para 250 kg, testemunho da eficiente logística de Giap.

O ponto-forte “Anne-Marie” estava guarnecido por tropas Tai, minoria étnica leal aos franceses. Por 2 semanas Giap atacou com ações psicológicas, e fragilizados pelas quedas de “Beatrice” e “Gabrielle”, a maior parte desertou na manhã do dia 17, aproveitando a neblina. Os franceses remanescentes se viram forçados a abandonar a posição. Uma pausa seguiu-se até o dia 30, quando o Viêt Minh aproveitou para apertar o cerco à posição central, isolando “Isabelle” ao sul com cerca de 1800 combatentes. A competência de De Castries, um oficial de cavalaria comandando uma guerra de trincheiras, foi posta em xeque e uma crise de comando instalou-se entre seus oficiais. Deprimido pela queda dos pontos ao norte, isolou-se em seu abrigo renunciando a autoridade. O Coronel Langlais assumiu o comando da posição com de Castries ficando de comandante de fachada, segundo alguns historiadores.



Metralhadoras antiaéreas do Viêt Minh instaladas próxima a pista de pouso provocaram pesadas perdas nos meios de abastecimento aéreo da posição, com os lançamentos passando a serem feitos a partir de 2 mil metros no 27 de março. Dia 28 um ataque às posições antiaéreas 3 km à oeste logrou sucesso total, com 350 mortos para o Viêt Minh e 17 metralhadoras neutralizadas. Os franceses perderam 20 combatentes mortos e 97 feridos. O assédio do Viêt Minh passou para “Eliane” e “Dominique” a leste do rio Nam Yum, com guarnições francesas, legionários, vietnamitas, norte-africanos e Tais. Às 19:00 do dia 30 a 312ªDiv capturou “Dominique” 1 e 2 restando “Dominique” 3 entre os nacionalistas e o QG francês. 

A artilharia francesa passou a disparar diretamente contra os Vietnamitas com seus obuseiros de 105 mm, causando grandes brechas no dispositivo dos atacantes. Outro grupo perto do aeródromo direcionou metralhadoras antiaéreas fazendo-os recuar. A 316ªDiv capturou “Eliane” 1 com tropas marroquinas e parte de “Eliane” 2. A 308ºDiv atacou “Houguette” 7, mas não conseguiu romper a posição. Na noite do dia 31 os franceses retomaram parte de “Eliane” 2, e usando todos os seus meios “Dominique” 2 e “Eliane” 1, o Viêt Minh contra-atacou seu inimigo cansado e sem reservas e fez os franceses e cederam as posições. A 316ªDiv atacou “Eliane” 2 e foi repelido com auxílio de tanques M24 Chafee. “Houguette” 7 foi dominada e em seguida retomada. As próximas noites seguiram-se combates semelhantes. Reforços chegaram por paraquedas, porém em número insuficiente e em horários irregulares devido ao risco para as aeronaves.



Em 5 de abrir bombardeios de artilharia e de suporte aéreo castigaram duramente um regimento do Viêt Minh que foi capturado. Giap, com o objetivo de capturar os pontos a leste do rio passou a adotar uma tática de entrincheiramento buscando a exaustão dos franceses. No dia 10 de abril, os franceses tentaram retomar “Eliane” 1, pois sua perda representou uma ameaça significativa para “Eliane” 4, e queriam eliminar essa ameaça. O ataque começou com uma barragem de artilharia curta e massiva, seguida por pequenos ataques de infiltração e operações de limpeza. A posição trocou de mãos várias vezes naquele dia, mas na manhã seguinte os franceses tinham o controle do ponto forte. O Viet Minh tentou retomá-lo na noite de 12 de abril, mas desistiu. Durante este combates o Viêt Minh cercou “Houguette” 1 e 6, e no dia 11 a guarnição de “Houguette” 1 contra-atacou para permitir um reabastecimento de “Houguette” 6, apoiados pela artilharia de “Claudine”. Estes ataque se repetiram de 14 a 17, diariamente obtendo alguns suprimentos, porém sofreram pesadas perdas e forçou o abandono desta posição, com apenas uns poucos conseguindo chegar. O Viêt Minh conquistou “Houguette” 1 no dia 22 e assumiu o controle de quase todo o aeródromo, inviabilizando qualquer manobra aeroterrestre e o ressuprimento. Os franceses contra-atacaram mas foram repelidos.



Os franceses interceptaram mensagens que informavam que unidades inteiras recusavam-se a atacar devido ao moral baixo, e prisioneiros disseram que se não atacassem eram mortos pelos comissários, a lá Stalin. Eles também revelaram que não dispunham de cuidados médicos e nada era pior para o moral. Giap teve de solicitar reforços ao Laos para conter eminente motim, de uma tropa cada vez mais reduzida e desanimada.

A guerra de trincheira continuou contra “Isabelle”, cercada pelo Viêt Minh. Uma tentativa de reforços foi repelida. Com suprimentos se esgotando nesta posição, os nacionalistas a atacaram em 1º de maio ultrapassando “Eliane”1, “Dominique” 3 e “Huguette” 5, com manutenção da posição pelos franceses em “Eliane” 2. Uma pesada concentração de artilharia foi usada pelos guerrilheiros, com a estreia de lançadores "Katyusha". A artilharia francesa disparou missões HNA/TOT (hora no alvo/time on target), onde granadas de diferentes baterias atingem o mesmo alvo ao mesmo tempo, causando um efeito devastador. A maior parte das baixas de um bombardeio de artilharia ocorre nos primeiros segundos. Durante esses primeiros segundos, as tropas estão desabrigadas, e depois disso, as tropas inimigas buscam cobertura e as baixas diminuem drasticamente. Essa barragem derrotou a primeira onda de assalto, mas naquela noite o Viêt Minh detonou uma mina sob “Eliane” 2, com efeitos devastadores. As minas foram muito usadas na Primeira Guerra Mundial quando cavava-se uma trincheira subterrânea por sob a posição inimiga e a detonava, ação que seria detectada se disponíveis sensores sísmicos. Eles atacaram novamente, e em poucas horas os defensores foram subjugados.



Uma ampla rede de trincheiras se estabeleceu ao redor das posições francesas, e uma a uma suas posições começavam a cair. Em 6 de maio Giap lançou sua força completa de infantaria sobre a última posição que ainda resistia. A luta foi feroz com combate corpo-a-corpo nas trincheiras e ruínas, com os franceses lutando pelas suas vidas. No dia 7 de maio o Viêt Minh alcançou a condição de vitória total, acabando com a "guerra francesa" e resultando em negociações em Genebra com a renúncia da França ao território. Combatentes do Viêt Minh, cerca de 25 mil, investiram contra os 3 mil franceses restantes nas demais posições. A última transmissão reportou o cerco ao QG e a tomada de todos os pontos fortes, e que tudo estava sendo explodido. Cerca de 70 soldados franceses conseguiram escapar para o Laos de “Isabelle”.

Foi uma significativa derrota para os franceses e a batalha decisiva da guerra da Indochina. Enfraqueceu seriamente a posição e o prestígio dos franceses, produziu repercussões psicológicas tanto nas forças armadas quanto na estrutura política da França. Isso ficou aparente com as negociações previamente planejadas sobre o futuro da Indochina, que haviam acabado de começar. Militarmente, não havia sentido para França continuar lutando, pois o Viet Minh podia repetir a estratégia e tática da campanha de Dien Bien Phu em outros lugares, às quais os franceses não tinham resposta efetiva. A opinião pública na França registrou choque por um exército guerrilheiro derrotar uma grande potência européia.



Em 8 de maio, o Viet Minh contava 11.721 prisioneiros, dos quais 4.436 feridos. Àqueles com capacidade física marcharam por mais de 600 km para campos de prisioneiros ao norte e leste, onde foram misturados com soldados do Viet Minh para desencorajar os bombardeios franceses. Centenas morreram de doenças ao longo do caminho. Os feridos receberam primeiros socorros básicos até a Cruz Vermelha chegar, que extraíu 858 prisioneiros e prestou ajuda ao restante. Os feridos que não foram evacuados pela Cruz Vermelha foram detidos. O governo vietnamita (francês) informou suas baixas na batalha como sendo 4.020 mortos, 9.118 feridos e 792 desaparecidos. Os franceses estimaram as vítimas do Viêt Minh em 8.000 mortos e 15.000 feridos.

Em Genebra, o Vietnã foi divido em 2 países no paralelo 17, o norte comunista sob o controle do Viêt Minh e o sul sob controle democrático, paz que se instalou por um curto período, quando a "chapa esquentou" novamente, com as últimas forças franceses saindo em 1956. A queda de Dien Bien Phu foi um desastre não apenas para a França, mas também para os Estados Unidos que, em 1954, estavam subscrevendo 80% das despesas francesas na Indochina. Os Estados Unidos participaram secretamente da batalha com 2 esquadrões de bombardeiros B26 Invader para apoiar os franceses. Depois disso, 37 pilotos americanos de transporte fizeram 682 missões ao longo da batalha.