FRASE

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A Guerra Aérea e Antiaérea nas Falklands/Malvinas **(255)

 

O conflito das Falklands/Malvinas em 1982 foi marcado por uma intensa e violenta atividade aeronaval nas suas primeiras semanas, onde o poder aéreo e os mísseis antinavio redefiniram o modo como guerra no mar, outrora um embate entre embarcações que começou a mudar na Segunda Guerra Mundial, passou a ser encarado. A fase mais crítica começou logo após a chegada da força-tarefa britânica à zona de exclusão em maio, resultando em perdas significativas para ambos os lados, sendo que Sua Majestade perdeu o maior número de meios flutuantes e a Argentina teve seus maiores revezes em meios aéreos e vidas.


A Ameaça Submarina e o Afundamento do Gen Belgrano

A ameaça submarina redefiniu os rumos do conflito nos seus primeiros dias, relegando a Armada Argentina às suas bases e inibindo uma participação mais efetiva de seus meios flutuantes durante todo o período. O afundamento do cruzador ARA General Belgrano em 2 de maio, por um submarino nuclear britânico, que torpedeou e afundou o maior navio da frota argentina, mesmo fora da zona de exclusão onde se considerava seguro, matou 323 tripulantes e forçou o restante da armada de superfície à recuar para suas águas costeiras, causando consternação à nação argentina e grande impacto na opinião pública mundial, causou inoperância ao seu alto comando naval, que se limitou ao uso de sua aviação naval.

O navio argentino navegava fora da zona de exclusão declarada. Mesmo fora do limite, Londres considerou o cruzador uma ameaça real, pois possuía pesada dotação de material de artilharia naval, com alcance superior aos canhões navais britânicos. O HMS Conqueror disparou 3 torpedos convencionais de fabricação antiga, sendo que 2 deles atingiram o cruzador, que afundou rapidamente.

A Argentina também tentou usar a arma submarina contra os britânicos. O submarino argentino ARA San Luis operou na região sem resultados efetivos. Ele tentou atacar a frota britânica em mais de uma oportunidade. Porém problemas técnicos nos sistemas de armas impediram o sucesso dos disparos. Os torpedos falharam e não atingiram os alvos britânicos. Ainda assim, os britânicos dispenderam recursos caçando o inimigo invisível, o que de certa forma apenas manteve a frota submarina britânica ocupada.

A Grã-Bretanha reagiu rápido à invasão argentina. Londres declarou uma Zona de Exclusão Marítima ao redor das ilhas de 200 milhas, com um recado claro: qualquer navio dentro destas águas seria afundado. Para impor o bloqueio, os britânicos enviaram 5 submarinos nucleares. A propulsão nuclear permite navegar rápido e sem reabastecer, evitando emersões e consequente indetectabilidade, gerando imensa pressão psicológica e incertezas no comando naval argentino. A partir deste evento, o Reino Unido garantiu o controle total dos mares.

O impacto psicológico da presença de um submarino em uma área de operações navais fundamenta-se na invisibilidade, gerando um efeito de ameaça constante, paralisia tática e desgaste emocional profundo nas forças oponentes. A incerteza sobre a localização exata do(s) submersível(is), força navios de superfície e comboios a gastar recursos e energia mental extremos em varreduras contínuas por sonar. O medo de um ataque que pode vir de qualquer direção e a qualquer momento diminui a confiança na segurança dos comboios e embarcações de patrulha. A imobilização estratégica com a simples suspeita (ele pode nem estar lá) da presença destes caçadores invisíveis pode paralisar rotas logísticas e forçar frotas inteiras a permanecerem inativas ou a recuarem para áreas protegidas, como aconteceu logo no do conflito. Durante a Segunda Guerra Mundial os Aliados enfrentaram esta ameaça a seus comboios na Batalha do Atlântico, tendo que dispender muitos recursos  para sua proteção, acumulando perdas de cerca de 3.500 navios mercantes 175 navios de guerra para os U-boats alemães. Esse total superou 13,5 a 14 milhões de toneladas de carga afundada e resultou na morte de dezenas de milhares de marinheiros.

1ª Fase - O Estabelecimento da Superioridade Aérea

A guerra aérea e antiaérea no conflito das Falklands/Malvinas em 1982 dividiu-se em 4 fases principais, evoluindo de combates pela superioridade aérea para ataques navais desesperados e apoio aproximado às tropas terrestres.

A superioridade aérea, fator dominante em qualquer conflito, foi estabelecida logo nos primeiros dias da guerra, quando no dia 1º de maio a Royal Navy com seus caças V/STOL Sea Harrier consolidou o domínio dos ares naquele teatro. Embora a Fuerza Aérea Argentina (FAA) possuísse caças supersônicos teoricamente mais rápidos e superiores, a tecnologia britânica e as limitações geográficas ditaram o rumo dos confrontos logo no primeiro dia de batalhas aéreas.

Os caças supersônicos argentinos Dassault Mirage III EA (da Fuerza Aérea Sur) enfrentaram os subsônicos Sea Harrier FRS.1 da Royal Navy. Os britânicos operavam Patrulhas Aéreas de Combate (CAP) para proteger seus navios. Os caças de sua majestade abateram um Mirage III no ar e danificaram outro que acabou sendo derrubado por fogo amigo da própria artilharia antiaérea argentina ao tentar pousar em Port Stanley, episódio este que ilustra a importância dos equipamentos IFF. No mesmo dia, caças argentinos IAI Dagger (cópias israelenses do Mirage) também foram interceptados e destruídos.

Os caças Mirage argentinos e as baterias de artilharia antiaérea (AAAé) em Port Stanley possuíam equipamentos IFF (Identification Friend or Foe). O trágico abate pelo fogo amigo do Mirage III EA, não ocorreu por falta destes equipamentos, mas sim por uma grave falha de compatibilidade e estresse de combate. As razões mecânicas e operacionais que geraram essa tragédia desdobraram-se em 3 fatores principais: Incompatibilidade de sistemas, falta de uma rede de comando unificada e o caos gerado pelo batismo de fogo dos argentinos. Forças armadas menos evoluídas operam com pouquíssima integração entre suas forças singulares, cada uma fazendo a sua guerra individualmente, muitas vezes por arrogância e sentimento de competição, outras vezes apenas por falta de doutrinas mais modernas, o que gera duplicação de esforços e falta de eficiência.

A Argentina sofria de um problema crítico de integração de sistemas de defesa. Os Mirage III possuíam transponders IFF de fabricação francesa. Os radares de aquisição e direção de tiro em Port Stanley, como os sistemas suíços Skyguard/Skyguard-Contraves e os radares Westinghouse norte-americanos, operavam com frequências e códigos que, muitas vezes, não conversavam adequadamente com os sistemas a bordo dos jatos franceses ou dos jatos IAI Dagger israelenses.

Diferente da doutrina rígida da OTAN aplicada pelos britânicos, as forças argentinas nas ilhas sofriam com a falta de centralização: O Centro de Informação e Controle (CIC) de Port Stanley controlava o espaço aéreo, mas a artilharia em terra operava de forma altamente descentralizada, respondendo à urgência dos ataques iminentes. O Mirage de García Cuerva retornava danificado após um combate contra os Sea Harriers e estava sem combustível. Ele tentou realizar um pouso de emergência na pista de Stanley. O controle de solo (CIC) ordenou que as baterias antiaéreas não atirassem, mas a mensagem não chegou a tempo ou foi ignorada pelos artilheiros antiaéreos devido ao caos do momento. O dia 1º de maio foi o primeiro dia de combates intensos no arquipélago. Horas antes, a pista de Stanley havia sido bombardeada por um bombardeiro britânico Vulcan (Operação Black Buck) e por jatos Sea Harrier. Quando o Mirage da FAA surgiu voando baixo em direção à pista, os operadores antiaéreos, sob extremo estresse e temendo uma nova onda de ataques britânicos, abriram fogo visual imediato com canhões de 20mm e 35mm, ignorando ou não recebendo a resposta eletrônica do IFF.

Dentre os fatores que pesaram de forma mais acentuada para o estabelecimento da superioridade britânica, estavam o míssil AIM-9L Sidewinder fornecido pelos Estados Unidos aos britânicos. Ao contrário dos mísseis argentinos, que exigiam o posicionamento atrás do alvo, o AIM-9L possuía capacidade "all-aspect", que permitia travar o alvo e disparar de frente contra qualquer aeronave aproximando-se, destruindo a vantagem de velocidade dos jatos argentinos.  A distância das bases argentinas no continente (Trelew cerca de 1.260 km, Comodoro Rivadavia a cerca de 930 km, San Julián a cerca de 710 km, Santa Cruz a cerca de 680 km, Río Gallegos a cerca de 740 km e Río Grande a cerca de 610 km) não permitia grande tempo de permanência sobre as ilhas. Jatos como o Mirage III e o Dagger gastavam quase todo o combustível no trajeto de ida e volta. Eles tinham apenas de 5 a 10 minutos para combater sobre as ilhas e não podiam usar o pós-combustor (que queima combustível rapidamente) sob o risco de caírem no oceano por pane seca. Os Harriers, operando dos porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible posicionados a leste, tinham muito mais tempo de permanência na área. A substancial diferença de doutrina e sensores também foi fator crucial, pois os pilotos argentinos voavam alto para economizar combustível, mas seus radares antigos tinham dificuldade para detectar alvos voando baixo contra o fundo do mar ou da terra. Os pilotos britânicos (pilotos navais), treinados intensamente na doutrina da OTAN, voavam baixo, usavam o relevo como camuflagem e surpreendiam os argentinos por baixo e por trás.

Após as pesadas baixas sofridas em 1º de maio, o comando argentino percebeu que não conseguiria vencer os Sea Harriers em combates ar-ar diretos. Um Mirage III EA, foi abatido em combate aéreo, atingido por um míssil Sidewinder AIM-9L disparado por um Sea Harrier. O piloto conseguiu ejetar com segurança e sobreviveu, Um Mirage III EA foi abatido por fogo amigo já descrito, um IAI Dagger, foi abatido em combate aéreo por um míssil Sidewinder lançado por um Sea Harrier onde o piloto morreu no impacto, um BAC Canberra, foi abatido em combate aéreo, interceptado à noite e abatido também por um AIM-9L, sendo que o piloto e o navegador morreram, e 2 IA-58 Pucará, destruídos no solo em Goose Green durante bombardeio realizados pelos Sea Harriers britânicos.

A partir desse ponto, a Argentina mudou completamente de estratégia. Os caças Mirage III foram retirados da linha de frente de superioridade aérea e designados para missões de engodo ou defesa do próprio território continental na região de Buenos Aires devido ao efeito das missões Black Buck. Os aviões de ataque A-4 Skyhawk e Super Étendard passaram a voar em altitudes perigosamente baixas, rente ao mar, evitando os radares britânicos. O foco mudou de "disputar o céu" para atacar a frota naval britânica com bombas convencionais (burras) e mísseis AM-39 Exocet, o que gerou perdas severas aos navios da Royal Navy, mas deixou as tropas terrestres argentinas sem qualquer cobertura aérea eficiente na fase terrestre. Ao final do conflito, os Sea Harriers obtiveram um impressionante recorde de 21 vitórias aéreas confirmadas contra zero derrotas em combate ar-ar, garantindo o controle necessário para o subsequente desembarque anfíbio britânico.

A superioridade aérea é o nível de controle em que uma força possui vantagem favorável sobre o inimigo, permitindo operar sem interferência proibitiva. Uma força tem vantagem operacional para conduzir missões terrestres ou aéreas com controle favorável, mas ainda há risco de o inimigo contestar o espaço, fustigando as forças de superfície. Este foi o status alcançado, uma vez que os argentinos continuaram fazendo incursões aéreas contra navios britânicos e suas forças em terra. A supremacia aérea é o nível máximo, no qual o oponente fica totalmente incapaz de oferecer resistência ou interferir efetivamente nas operações, condição não alcançada pelos britânicos.

A Força Aérea e a Aviação Naval da Argentina conseguiram furar os bloqueios britânicos repetidas vezes. Elas afundaram navios importantes como o destróier HMS Sheffield, as fragatas HMS Ardent e HMS Antelope, e o navio de carga Atlantic Conveyor, e danificaram muitos outros. Havia limitações de tempo e combustível com os caças britânicos operando a partir dos porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible, mantidos distantes das ilhas para evitar o assédio aéreo argentino, com bombas e sua maior ameaça que eram os mísseis Exocet. Isso limitava o tempo que os Sea Harriers conseguiam passar em patrulha aérea sobre a zona de desembarque, embora este tempo fosse bem maior que o dos argentinos. A manutenção das linhas de suprimento, embora restrita pela limitada capacidade aérea de transporte se mantiveram, em voos de carga e reabastecimento com aviões C-130 Hercules pousando em Port Stanley quase até o fim da guerra, o que prova que o céu não estava totalmente fechado. E por fim a falta de um sistema de alerta aéreo antecipado (AEW), que não permitia aos britânicos detectar os argentinos em voos rasantes ao nível do mar. Em algumas ocasiões em que os argentinos tiveram que voar mais alto por razões diversas, esta prática se mostrou fatal devido aos Sea Harrier em patrulha e aos mísseis Sea Dart que conseguiam travar em seus alvos.

Os bombardeiros English Electric Canberra da Fuerza Aérea Argentina operavam a grande altitude (geralmente acima de 40.000 pés ou 12.000 metros) por razões estritamente táticas e de engenharia. O Canberra foi projetado na Inglaterra nos anos 1940 justamente como um bombardeiro de alta altitude e alta velocidade. Ele possuía asas muito largas e retas (baixa carga alar), o que lhe dava excelente sustentação no ar rarefeito e permitia que ele manobrasse melhor em altitudes elevadas do que caças interceptadores comuns da época. Voar baixo e rápido não era o perfil ideal desse avião, ao contrário dos caças-bombardeiros A-4 Skyhawk ou dos jatos Mirage/Dagger. Nessas altitudes extremas, os caças britânicos Sea Harrier tinham muito mais dificuldade para operar e interceptar alvos. O ar rarefeito limitava o desempenho aerodinâmico e o empuxo do motor dos Harriers. Os pilotos argentinos usavam o teto operacional do Canberra como uma barreira física de proteção. Ao voar a 40.000 pés, o Canberra ficava totalmente fora do alcance da artilharia antiaérea convencional baseada em terra e da maioria dos mísseis terra-ar de curto alcance disparados a partir dos navios da Força-Tarefa britânica. A distância entre as bases na Argentina continental (como Trelew) e as Ilhas era de mais de 700 km. Como os Canberras não tinham capacidade de reabastecimento em voo, eles precisavam cruzar o oceano na altitude mais eficiente possível. Os motores a jato consomem significativamente menos combustível em grandes altitudes, garantindo a autonomia necessária para ir e voltar do alvo.

Porém os mísseis Sea Dart podiam abater os bombardeiros Canberra em grande altitude. Na verdade, o Sea Dart foi projetado especificamente para isso: destruir alvos voando alto e rápido. O mito de que os Canberras estavam totalmente imunes ao míssil surgiu devido às limitações táticas iniciais, mas a realidade do conflito provou o contrário. Na noite de 13 de junho, o penúltimo dia da guerra, um bombardeiro Canberra argentino estava voando a 36.000 pés (cerca de 11.000 metros) em uma missão de bombardeio noturno contra as posições britânicas no Monte Kent. Ele foi detectado e derrubado com precisão por um míssil Sea Dart disparado pelo contratorpedeiro britânico HMS Exeter. O piloto conseguiu ejetar e sobreviver, mas o navegador não. No início do conflito, os navios britânicos com mísseis Sea Dart (como os destróieres Classe Tipo 42) não podiam ficar posicionados em qualquer lugar. Eles operavam recuados para evitar os mísseis Exocet argentinos. Sem navios na posição correta, os céus de alta altitude ficavam desprotegidos. O radar de rastreamento do Sea Dart (Type 909) sofria muita interferência com o reflexo das ondas do mar e o relevo das ilhas. Por isso, caças como os A-4 Skyhawks e Daggers voavam colados na água para evitar o míssil. No teto operacional (alta altitude), o Sea Dart funcionava perfeitamente e o céu era limpo para o radar do navio. Os argentinos sabiam que ele era letal nas alturas e para se protegerem, os Canberras voavam liberando nuvens de chaff para confundir e cegar temporariamente os radares de disparo britânicos.

Assim que os britânicos aproximaram navios mais modernos, como o HMS Exeter, que possuía radares melhores que os navios afundados anteriormente, a grande altitude deixou de ser um refúgio seguro para estes bombardeiros argentinos.

As Operações Black Buck

A Royal Air Force (RAF) iniciou a partir de 1 de maio a campanha com uma série de bombardeios de longa distância usando bombardeiros Vulcan, partindo da Ilha de Ascensão, contra a pista de pouso de Port Stanley. O principal objetivo era neutralizar a pista e destruir os radares de defesa da Argentina nas ilhas, impedindo que caças argentinos usassem o local como base avançada. Na época, essas missões estabeleceram o recorde de bombardeio de maior alcance da história da aviação militar, cobrindo cerca de 12.200 km em raids de ida e volta que duravam cerca de 16 horas.

Os ataques partiam da base localizada no meio do Oceano Atlântico no paralelo de Recife a 2.253 km a leste da capital pernambucana e a 6.259 km a sudoeste do aeroporto das ilhas. Como os bombardeiros quadrimotores Avro Vulcan não possuíam autonomia suficiente para voar até as Falklands/Malvinas e retornar, a RAF montou um dos esquemas de reabastecimento em voo (REVO) mais complexos já vistos. Cada missão necessitava de 11 aviões-tanque Handley Page Victor para apoiar apenas um bombardeiro. Os aviões-tanque operavam em uma complexa "cadeia", reabastecendo uns aos outros e transferindo combustível sucessivamente para que as aeronaves da ponta conseguissem chegar ao alvo e voltar.

Das 7 missões planejadas, 5 foram executadas com sucesso parcial ou total, e 2 foram canceladas por condições climáticas ou problemas técnicos. As Black Buck 1 e 2, em maio de 1982 foram focadas no bombardeio convencional da pista de Stanley. Na primeira missão, uma única bomba de 450 kg (1.000 libras) atingiu o centro da pista, de uma carga total de 21 bombas que totalizavam 9.450 kg (21.000 libras), cumprindo o objetivo psicológico de provar que a Grã-Bretanha podia golpear o arquipélago.

As Black Buck 3 e 4 foram canceladas devido a problemas de reabastecimento e mau tempo, e as Black Buck 5 e 6 (Maio/Junho) foram missões de supressão de defesa aérea. Os Vulcans foram equipados com mísseis antirradar norte-americanos AGM-45 Shrike para caçar os radares de vigilância argentinos. Durante a missão Black Buck 6, realizada em 3 de junho, o bombardeiro Vulcan (matrícula XM597) sofreu uma falha mecânica gravíssima, quando sua sonda de reabastecimento quebrou, impossibilitando o recebimento de combustível para voltar à Ilha de Ascensão. Sem autonomia, a tripulação declarou emergência e realizou um pouso forçado na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. O Brasil, que mantinha uma postura neutra no conflito, apesar de secretamente estar ajudando a Argentina, confiscou temporariamente a aeronave e reteve os mísseis Shrike remanescentes. Após intensas negociações diplomáticas, o avião e a tripulação foram liberados na condição de não participarem mais da guerra.

Embora os danos físicos na pista de Port Stanley tenham sido limitados e reparados rapidamente pelos engenheiros argentinos, a operação teve um impacto estratégico vital. O susto forçou a Fuerza Aérea Argentina a recuar seus caças Mirage III para a defesa do território continental, com medo de que os bombardeiros britânicos pudessem atacar Buenos Aires. Isso garantiu uma valiosa superioridade aérea aos caças Sea Harrier da Marinha Real sobre a zona de combate. Em uma análise de custo-benefício as missões Black Buck não se justificaram por si só, embora tenham sido um êxito técnico-operacional devido à sua complexidade, e provavelmente sua maior contribuição tenha sido em restringir o número aeronaves Mirage III voando até às ilhas, efeito este que possivelmente não tenha sido previsto pelo comando britânico (suposição), uma vez que seus efeitos diretamente no conflito tenham sido quase nulos. É factível que estas missões, complexas, longas e penosas, tenham sido planejadas apenas para dar alguma relevância a RAF, que teve papel secundário nas operações.

Nos dias que antecederam ao conflito, os Avro Vulcan estavam no fim de sua vida útil operacional e passavam por desativações. Com a crise no Atlântico Sul, a RAF precisou reavaliar estes bombardeiros nucleares para missões convencionais de longo alcance, exigindo o recondicionamento de sondas de reabastecimento em voo que não eram usadas há anos.


2ª Fase - Ataques à Força-Tarefa e a Ameaça Exocet

Com a impossibilidade de contestar o espaço aéreo diretamente contra os Sea Harriers, a Argentina focou em destruir a frota britânica. Os jatos argentinos Dassault Super Etendard, A-4 Skyhawk e Dagger voavam pouco acima das ondas do mar, para evitar os radares britânicos e os mísseis antiaéreos de médio alcance, como o Sea Dart. Em 4 de maio, caças Super Étendard da Aviacion Naval Argentina dispararam um míssil antinavio AM-39 Exocet, afundando o destróier britânico HMS Sheffield. Isso forçou a frota britânica a operar mais afastada das ilhas, limitando o tempo de patrulha dos Sea Harriers. Os navios britânicos tornaram-se alvos constantes. Embora os sistemas de mísseis Sea Cat e Sea Wolf tenham derrubado aeronaves, a tática argentina de voar nos pontos cegos dos radares navais, valendo-se do relevo das ilhas e da curvatura da Terra, causou sérios danos à Royal Navy.

Ataque ao HMS Sheffield

No dia 04 de maio caças Dassault Super Étendard da Fuerza Aérea Argentina dispararam 02 mísseis AM-39 Exocet contra navios da frota britânica, sendo que um deles atingiu o contratorpedeiro britânico HMS Sheffield, incendiando a embarcação e demonstrando ao mundo a letalidade deste tipo de arma. O navio veio a naufragar dias depois, em 10 de maio, enquanto era rebocado. O segundo míssil errou o alvo ou caiu no mar sem causar danos, após a tripulação da fragata HMS Plymouth que estava próxima detectar a aproximação e lançar contramedidas (chaff) para desviar a arma.

Os caças da Armada Argentina decolaram da base de Río Grande. Eles realizaram um voo rasante a altíssima velocidade e muito próximo à superfície da água (cerca de 15 a 30 metros de altura) para escapar da detecção dos radares britânicos. Após identificarem o alvo por meio de radar, as aeronaves lançaram os mísseis a dezenas de quilômetros de distância. Um dos mísseis Exocet atingiu o costado de estibordo do HMS Sheffield.

Os navios HMS Sheffield, HMS Glasgow e HMS Coventry formavam uma barreira avançada de piquete de radar, enquanto o HMS Plymouth atuava na escolta de apoio. Eles estavam posicionados estrategicamente a oeste da Força-Tarefa britânica principal, cumprindo as missões de proteção ao núcleo da frota (porta-aviões), piquete de radar e defesa aérea de área.

O principal objetivo desses navios era servir como um "escudo protetor" para os alvos mais valiosos da frota britânica: os porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible, que navegavam dezenas de milhas mais ao leste. Perder um porta-aviões significaria o fim imediato da campanha militar britânica. Como os britânicos não tinham aeronaves de alerta aéreo antecipado (AEW) para detectar aviões inimigos vindos do continente, eles usavam os destróieres como radares flutuantes avançados. Eles monitoravam o espaço aéreo a oeste para detectar caças argentinos o mais cedo possível. Eles estavam equipados com o sistema de mísseis antiaéreos Sea Dart, projetado para abater alvos a grandes altitudes e longas distâncias. A missão deles era interceptar e destruir as aeronaves hostis antes que elas pudessem se aproximar do núcleo da frota. Fragatas como a HMS Plymouth patrulhavam as águas ao redor dos destróieres para protegê-los contra possíveis ataques dos submarinos argentinos (como o San Luis), garantindo que os navios de piquete focassem suas atenções no céu.

A missão exigiu um reabastecimento em voo coordenado com um KC-130 Hércules da Fuerza Aérea Argentina para alcançar o raio de ação necessário à missão. Um dos mísseis Exocet atingiu o costado de estibordo do HMS Sheffield pouco acima da linha d'água, abrindo um grande rombo e penetrando profundamente na estrutura central da embarcação (próximo à Galé/Cozinha e à sala de máquinas). O impacto não causou a detonação da ogiva principal do míssil, mas o combustível remanescente provocou um incêndio devastador e incontrolável, gerando fumaça tóxica que paralisou os sistemas elétricos e de bombeamento de água contra incêndio. O ataque matou 20 tripulantes instantaneamente e feriu outros 26 (ou mais de 60, segundo relatórios de resgate). Sem condições de conter o fogo, a ordem para abandonar o navio foi dada horas depois.

A reação da frota britânica variou entre o alerta precoce de alguns navios e a total surpresa e falha de reação do próprio HMS Sheffield e indiferença no HMS Invencible. O episódio revelou graves falhas de comunicação e excesso de confiança da força-tarefa britânica.

O destróier HMS Glasgow foi o único que detectou os caças argentinos em suas telas de radar quando eles subiram brevemente para fixar os alvos. O oficial de guerra do Glasgow identificou o perfil de ataque inimigo e transmitiu imediatamente o sinal de alerta máximo por rádio para toda a frota utilizando a palavra-código "Handbrake" (Freio de Mão). Este navio reagiu defensivamente acionando seus próprios lançadores de chaff. O HMS Sheffield acabou sendo pego completamente desprevenido devido a uma série de erros operacionais internos: No momento exato do ataque, ele estava utilizando seu sistema de comunicação via satélite (SCOT) para transmitir mensagens a Londres. Esse sistema gerava interferência e "cegava" o próprio radar de defesa do navio, impedindo que o alerta para aeronaves se aproximando. Os oficiais na sala de operações do Sheffield consideraram o aviso de "Handbrake" emitido pelo Glasgow como um alarme falso e não elevaram o navio para postos de combate. O navio não manobrou em direção à ameaça, não acionou seus mísseis Sea Dart ou disparou suas contramedidas de chaff. O míssil só foi avistado visualmente por oficiais na ponte de comando segundos antes do impacto. A única reação possível foi um aviso rápido pelo alto-falante interno: "Ataque de míssil - joguem-se ao chão". No HMS Plymouth, ao receber o alerta do Glasgow ou detectar a aproximação, a tripulação agiu rapidamente disparando suas contramedidas chaff e realizando manobras evasivas. Acredita-se que essa reação rápida tenha sido responsável por desviar o segundo míssil Exocet lançado pelos argentinos, fazendo com que ele caísse inofensivamente no mar. O porta-aviões HMS Invincible era o responsável pela coordenação de guerra aérea da Força-Tarefa no momento. No entanto, devido à velocidade da ação argentina, que durou poucos minutos entre a detecção e o impacto, o porta-aviões não teve tempo hábil para enviar caças Sea Harrier para interceptar os Super Étendard antes que eles disparassem e fugissem. É fato também relatado que os oficiais encarregados no HMS Invencible avaliaram tratar-se de alarme falso, uma vez que outros já tinham sido dados no mesmo dia, e mesmo com a insistência do HMS Glagow o alerta não foi levado a sério, apesar do ataque estar sendo esperado como resposta ao afundamento do Belgrano, fato este difícil de entender numa marinha supostamente bem treinada. Lendo as memórias do Alte Woodward percebe-se que a suposta infalibilidade das forcas de primeira linha como a Royal Navy é um mito, e muita “roupa suja” é lavada nos seus redutos.


O Míssil AM-39 Exocet

O Exocet AM-39 é um míssil antinavio francês lançado por caças Super Étendard na dotação da Armada Argentina. Ele mudou a forma com que a guerra naval moderna era encarada até então. Ao afundar o destróier britânico HMS Sheffield e o navio logístico Atlantic Conveyor neste conflito, gerou terror na frota do Reino Unido e mostrou o poder letal dos mísseis antinavio, até então só usados em exercícios.

Fabricado pela empresa francesa Aérospatiale, hoje parte da MBDA, é um míssil ar-superfície guiado por radar ativo, possuindo variantes mar-mar e lançadas de submarino, projetado para voar no perfil sea-skimming (voo rasante sobre o mar), que é uma tática em que o míssil voa extremamente baixo, a poucos metros da água, para evitar radares inimigos, e destruir embarcações de grande porte. Foi disparado pelos caças Dassault-Breguet Super Étendard da marinha portenha. Pode alcançar até 70 km dependendo da altitude e velocidade de lançamento.

Foi sua estreia em combate. O impacto psicológico e tático foi imediato após o ataque ao HMS Sheffield em 4 de maio, que forçou a Royal Navy a alterar suas rotas, táticas de radar e posições de defesa antiaérea. A Argentina possuía um arsenal extremamente limitado — apenas 5 mísseis AM-39 operacionais no início das hostilidades, pois estavam em processo de recebimento junto com mais aeronaves Super Étendard. Mesmo com poucos exemplares, o potencial de ameaça mantinha os valiosos porta-aviões britânicos sob constante sobressalto e recuados. Além do Sheffield, o uso do AM-39 (e variações de costa) abateu o Atlantic Conveyor, destruindo helicópteros de transporte vitais para as tropas terrestres inglesas e comprometendo seriamente a logística da invasão britânica. O sucesso estrondoso transformou o Exocet em um ícone militar mundial dos anos 1980, redefinindo as diretrizes de construção naval, como a redução do uso de alumínio inflamável em navios de guerra, e impulsionando o desenvolvimento de defesas de aproximação (CIWS) em frotas do planeta inteiro.


O Míssil Sea Dart

O Sea Dart foi o principal míssil antiaéreo de longo alcance da Royal Navy na guerra, guiado por radar. Disparado de contratorpedeiros classe Type 42, o sistema abateu aeronaves argentinas, mas enfrentou limitações contra caças que voavam muito rente ao nível do mar. O alcance máximo chegava a cerca de 74 km na época, mas o alcance prático era de apenas 30 km, devido as características dos alvos. O contratorpedeiro HMS Exeter abateu 4 aeronaves argentinas. O destróier HMS Coventry abateu 2 aeronaves de asa fixa e um helicóptero antes de ser afundado. O HMS Cardiff abateu por engano um helicóptero britânico (incidente de fogo amigo). Os pilotos argentinos adotaram a tática de voar a baixa altitude (rente à água ou ao terreno) para escapar da cobertura dos radares e da faixa ideal de interceptação do Sea Dart. O sistema possuía uma faixa mínima de disparo, o que dificultava a defesa contra as incursões repentinas de jatos que cruzavam os limites de segurança dos navios.

Apesar desses sucessos, a eficácia do Sea Dart foi severamente testada pela ousadia dos pilotos argentinos. Para escapar da detecção dos radares e evitar o envelope engajamento do míssil, a aviação argentina voava rente ao mar, raspando a água ou o relevo terrestre. Essa manobra explorava a maior fraqueza do sistema que era sua zona morta de engajamento, caracterizada por uma faixa mínima de disparo, já que este sistema foi desenvolvido para a OTAN interceptar bombardeiros soviéticos de grande altitude, na defesa de frotas navais, e tinha seu desempenho prejudicado pelo reflexo das ondas eletromagnéticas pela superfície. Sem tempo hábil para reagir a ataques repentinos de jatos que surgiam abaixo da linha do horizonte, os navios britânicos ficavam vulneráveis assim que o inimigo cruzava esse perímetro de segurança, e demandavam a ação de outro sistema, o Sea Wolf.


O Míssil Sea Wolf

O Sea Wolf era o míssil de defesa de ponto mais moderno na frota da Royal Navy neste conflito. Era um sistema de defesa projetado especificamente para destruir mísseis antinavio e jatos voando em velocidades supersônicas voando em altitudes reduzidas e muito baixas. Sua concepção permitia que ele interceptasse projéteis pequenos e rápidos, incluindo bombas em queda livre.

Seu grande diferencial era a independência da intervenção humana, essencial para reagir a ataques que surgiam de surpresa por trás das elevações das ilhas. O Radar Type 967/968 era de varredura rápida no topo do navio e detectava o alvo se aproximando a baixa altitude. O sistema de computadores de bordo calculava a rota da ameaça e, se identificasse perigo iminente, dava o comando de disparo automaticamente, sem que o operador precisasse apertar um botão. Isso reduzia o tempo de reação para poucos segundos. Diferente de mísseis IR, que perseguem o calor do motor do alvo como o Sidewinder, o Sea Wolf usava um sistema de Alinhamento na Linha de Visada (ACLOS - Automatic Command to Line of Sight).

O Sistema de Guiagem era por feixe de radar (radar beam riding), onde o radar de tiro do navio (Type 910) ficava "trancado" apontando diretamente para o avião argentino ou para a bomba disparada. O míssil Sea Wolf era lançado e entrava no meio desse feixe de radar. Antenas na cauda do míssil liam os sinais do feixe, se o míssil começasse a sair do caminho correto, o computador de bordo corrigia a rota automaticamente para mantê-lo exatamente no centro do feixe, até impactar o alvo. Uma bomba convencional em queda livre não emite calor e é um alvo muito pequeno. O Sea Wolf conseguia destruí-la por 3 fatores principais: Precisão milimétrica do radar que operava em frequências muito altas, conseguindo rastrear objetos do tamanho de uma bola de futebol se movendo rápido. Sua extrema agilidade era proporcionada por pequenas aletas móveis com acionamento pneumático, permitindo que fizesse curvas fechadíssimas de até 30Gs, para corrigir a trajetória e interceptar o alvo. Tinha ainda uma espoleta de proximidade como os projéteis antiaéreos, que detonavam sem precisar impactar no alvo. Esta espoleta funcionava por radar, e quando o míssil passasse a poucos centímetros ou metros da bomba argentina, ele detonava sua ogiva de fragmentação, estilhaçando o projétil inimigo no ar antes que atingisse o navio. O sistema provou sua eficiência logo nos primeiros combates. Seu batismo de fogo nas Falklands/Malvinas foi em 12 de maio, quando a fragata HMS Brilliant usou este sistema contra uma onda de caças A-4 Skyhawk argentinos. O sistema operou de forma perfeita, derrubando 2 jatos em questão de segundos e fazendo um terceiro colidir contra a água ao tentar desviar do míssil. Ao todo este sistema foi responsável pelo abate de 5 aeronaves neste conflito.

Os Sea Harriers

Os caças British Aerospace Sea Harrier foram a aviação de cobertura da frota e participaram de diversos combates aéreos intensos e de apoio terrestre ao longo do conflito. Atuando a partir de 2 porta-aviões, esta aeronave garantiu a superioridade aérea britânica, destruiu caças inimigos em combate aéreo e apoiou as tropas terrestres sob condições logísticas muito difíceis. Manteve patrulhas de combate aéreo (CAP) durante todo o conflito sobre as ilhas, inclusive no período noturno.

O Reino Unido usou apenas estes caças da Royal Navy e uma versão terrestre da mesma dedicada ao apoia CAS, o Harrier GR3 da RAF, porque os caças convencionais baseados em terra da RAF, como os Phantom F-4 e os Tornado, não tinham alcance para chegar ao teatro de operações no Atlântico Sul, pois não haviam bases aliadas do Reino Unido próximas.

Dentre os fatores que inviabilizaram o uso destes caças mais dedicados temos que as ilhas ficavam a cerca de 13.000 km (8.000 milhas) do Reino Unido. A base aliada mais próxima, na Ilha de Ascensão, ainda estava a 6.400 km (4.000 milhas) de distância, donde apenas os bombardeiros Vulcan conseguiam chegar, mas contando com o apoio de 11 reabastecedores Victor para uma única aeronave. Era totalmente inviável aos Phantom e Tornados decolar de Ascensão, patrulhar o teatro do Atlântico Sul, combater e retornar sem capacidades massivas de reabastecimento aéreo que os britânicos não dispunham em volume suficiente na região. Comparando-se os reabastecedores Victor da RAF com os KC-135 da USAF, por exemplo, temos que os primeiros podiam carregar e transferir apenas cerca de 34.000 kg de combustível, enquanto que os tanques norte-americanos dispunham de uma capacidade interna de carregar até cerca de 96.000 kg, ou seja 3 vezes mais. Como o combate ocorria a partir do mar, a cobertura aérea dependia dos porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible, que não possuíam catapultas e apenas aeronaves de decolagem vertical/curta (V/STOL) como os Harrier conseguiam operar em seus conveses reduzidos.

Foi em 1º de maio o primeiro grande embate aéreo da guerra, provando a superioridade do Sea Harrier contra os caças supersônicos argentinos. Neste batismo de fogo, 2 Sea Harriers interceptaram 2 jatos Mirage III da Fuerza Aérea Argentina. Um dos caças britânicos abateu um Mirage III usando um míssil AIM-9L Sidewinder. O outro Mirage III, danificado por estilhaços, tentou pousar em Port Stanley, mas foi abatido por fogo amigo da própria artilharia antiaérea argentina, como já mencionado. Mais tarde no mesmo dia, uma patrulha de Sea Harriers interceptou 3 caças IAI Dagger. Um Dagger foi abatido com um Sidewinder, forçando os outros 2 a recuarem.

Em 9 de maio os Sea Harriers foram usados para neutralizar a capacidade de espionagem eletrônica argentina. Em uma ação antisuperfície, 2 Sea Harriers atacaram o navio pesqueiro argentino Narwal, que estava sendo usado para espionar e transmitir a posição da frota britânica. Os jatos atacaram com bombas e tiros de canhão de 30 mm, que afundou no dia seguinte.

Os caças BAe Sea Harrier FRS.1 da Royal Navy obtiveram um impressionante placar de vitórias confirmadas em combates ar-ar, sofrendo zero derrotas para aeronaves argentinas. A principal arma do caça britânico foi o míssil guiado por calor AIM-9L Sidewinder.

A seguir um cronograma detalhado, dia a dia, dos abates aéreos conquistados pelos Sea Harriers. No dia 21 de maio, dia do desembarque em San Carlos, os Sea Harriers atuaram na linha de frente para repelir os ataques massivos da Fuerza Aérea Argentina contra a frota. Foi o dia mais letal para a aviação argentina nas mãos dos "Shars", com 9 abates confirmados. 5 jatos IAI Dagger foram Interceptados no norte de West Falkland e ilhas Pebble, utilizando mísseis AIM-9L Sidewinder. Os pilotos argentinos ejetaram em segurança. 3 A-4Q Skyhawks da Aviacion Naval Argentina foram interceptados e destruídos, 2 deles por mísseis AIM-9L e o terceiro foi severamente danificado por canhão de 30mm, caindo pouco depois. interceptaram também uma formação de 2 jatos Pucará. Um deles foi abatido com tiros de canhão Aden de 30 mm dos caças.

No dia 23 de maio, os ataques argentinos continuaram mirando os navios britânicos na Baía de San Carlos. 2 A-4B Skyhawks foram abatidos por mísseis AIM-9L. No dia 24 de maio, 3 IAI Daggers foram interceptados e totalmente destruídos em uma única passagem por mísseis AIM-9L. No dia 8 de Junho, no último confronto em Bluff Cove, após um ataque bem-sucedido de jatos A-4 argentinos contra os navios de desembarque britânicos, uma patrulha de Sea Harriers interceptou os caças inimigos que retornavam ao continente. 3 A-4B Skyhawks foram abatidos por mísseis AIM-9L.

Embora os Sea Harriers tentassem caçar desesperadamente os jatos Super Étendard que carregavam os temidos mísseis Exocet, eles nunca conseguiram interceptá-los no ar. Os pilotos argentinos voavam tão baixo e rápido, disparando seus mísseis à distância segura, que conseguiam retornar ao continente antes que as patrulhas de Sea Harrier chegassem à zona de lançamento.

Uma das missões mais controversas e difíceis para os Sea Harriers devido ao tamanho do alvo, foi o abate de um C-130 Hércules em 1 de junho. Um caça britânico detectou o quadrimotor argentino que realizava uma missão de reconhecimento e reabastecimento a baixa altitude. Ele disparou 2 mísseis Sidewinder, sendo que um falhou e o outro danificou a aeronave, e precisou finalizar o abate usando 240 tiros de seus canhões de 30 mm para derrubar o gigante cargueiro no oceano.

Os caças BAe Sea Harrier FRS.1 da Royal Navy foram o pilar de sobrevivência da força-tarefa nesta campanha. Operando a partir dos porta-aviões, apenas 28 jatos Sea Harrier, apoiados posteriormente por 14 Harriers GR.3 da RAF, enfrentaram mais de 120 aviões de combate argentinos. Eles alcançaram um impressionante recorde de 20 vitórias em combates ar-ar e nenhuma perda para caças inimigos.

Este desempenho foi baseado em 4 fatores principais: Antes deste conflito, os mísseis ar-ar exigiam que o caça ficasse atrás do inimigo para travar no calor do motor. Os EUA forneceram secretamente aos britânicos a versão mais moderna do míssil, o AIM-9L ("Lima"), que mudou o jogo. O "Lima" conseguia travar no alvo de qualquer ângulo, inclusive se o caça argentino estivesse voando de frente contra o Harrier. Dos 26 mísseis disparados pelos Sea Harriers no conflito, 16 atingiram e destruíram aviões argentinos de forma fulminante.

O Sea Harrier era um avião de pouso e decolagem vertical/curto. Ele possuía 4 bocais de empuxo móveis nas laterais do motor Rolls-Royce Pegasus, o que lhe conferia excepcional manobrabilidade. Pode-se mudar a direção de voo instantaneamente apenas redirecionando os bocais. Os pilotos usavam a tática chamada VIFFing (Vectoring in Forward Flight). Em combate, eles mudavam a direção dos bocais do motor para frente. O caça freava bruscamente no ar e subia de forma repentina. Os caças argentinos (Mirage III e Dagger), que vinham em alta velocidade por trás, passavam batidos e viravam alvos fáceis na frente do Harrier.

Enquanto os caças argentinos Mirage III e Dagger operavam no limite de seus tanques de combustível, tendo apenas cerca de 5 a 10 minutos para combater sobre as ilhas antes de precisarem voltar ao continente, os Sea Harriers operavam mais próximos. Além disso, o radar Ferranti Blue Fox do Sea Harrier, embora limitado para alvos baixos sobre a terra, dava aos britânicos uma consciência situacional muito superior à dos jatos argentinos, que muitas vezes voavam sem radar para não serem detectados.

Apesar de ficarem famosos pelas vitórias aéreas, os Sea Harriers desempenharam múltiplos papéis cruciais: Bombardearam a pista de pouso de Port Stanley e posições de artilharia argentina logo no primeiro dia (1º de maio), mapearam as posições inimigas para guiar o desembarque das tropas terrestres britânicas e mantiveram uma presença constante nos céus para proteger os navios contra a aviação naval argentina.

Embora invictos no combate ar-ar (dogfight), o mito da "invulnerabilidade" não é real. Os britânicos perderam 6 Sea Harriers durante o conflito por outros motivos: 2 abatidos por artilharia antiaérea argentina em terra (canhões e mísseis Roland/Blowpipe) e 4 perdidos em acidentes (colisões no ar devido ao mau tempo ou quedas no mar causadas pelas condições extremas do Atlântico Sul).


O Sidewinder AIM-9L

O míssil ar-ar AIM-9L Sidewinder desempenhou um papel absolutamente decisivo e devastador neste conflito, garantindo a superioridade aérea britânica sobre as Forças Armadas Argentinas. Frequentemente chamado de "Sidewinder Lima", foi o primeiro míssil ar-ar de curto alcance da história a possuir capacidade total de engajamento em todos os aspectos (all-aspect). Lançado no final da década de 1970, essa variante revolucionou o combate aéreo por permitir que os pilotos disparassem contra aeronaves inimigas de qualquer ângulo (inclusive de frente), e não apenas perseguindo a assinatura de calor traseira dos motores.

Pesando 91 kg e alcance operacional de até 18 km, pode atingir uma velocidade de mach 2,5 e detonar uma ogiva de 9,4 kg com espoleta de proximidade a Laser (DSU-15/B) que substituiu as espoletas infravermelhas antigas por sensores ativos de detecção óptica a laser, garantindo a detonação exata ao cruzar com o alvo, mesmo sob fortes contramedidas (como flares).

Até o conflito do Atlântico Sul, a maioria dos mísseis guiados por calor exigia que o caça se posicionasse exatamente atrás do alvo para rastrear o calor do motor (engajamento de cauda). Este modelo, cedido emergencialmente pelos EUA para o Reino Unido, mudou as regras do jogo por ser o primeiro Sidewinder com capacidade all-aspect. Os caças britânicos Sea Harrier lançaram 26 mísseis AIM-9L durante o conflito, com 16 abates confirmados, o que representa uma impressionante taxa de acerto de cerca de 69% a 73%. Esse desempenho superou drasticamente as versões antigas do Sidewinder usadas no Vietnã, que historicamente operavam com taxas de eficácia inferiores a 20%.

Os pilotos argentinos operavam no limite do alcance de combustível, voando do continente até as ilhas. Eles utilizavam caças velozes, mas que carregavam mísseis obsoletos de curto alcance (como o Matra R550 Magic e o Shafrir 2). Ao tentarem interceptar ou evadir os patrulheiros Sea Harrier da Royal Navy, os argentinos eram frequentemente abatidos sem sequer notar a aproximação do míssil ou a presença do inimigo. A presença do AIM-9L anulou a vantagem de velocidade supersônica dos jatos argentinos, forçando-os a adotar táticas de voo a baixíssima altura para evitar a detecção pelos radares britânicos. Nenhum Sea Harrier britânico foi derrubado por caças argentinos em combate ar-ar durante toda a guerra.


3ª Fase - O Desembarque em San Carlos e o "Beco das Bombas" (21 de maio a 25 de maio)

Esta foi a fase mais sangrenta e intensa da guerra aérea, desencadeada pelo desembarque das tropas britânicas em San Carlos Water. Sabendo que o desembarque era o ponto crítico, a Fuerza Aérea Argentina e a Comando de Aviacíon Naval lançaram quase toda a sua capacidade operacional contra os navios britânicos ancorados no estreito de San Carlos. Os aviões argentinos, voando a poucos metros da água e sofrendo fogo pesado de artilharia antiaérea e mísseis Rapier e manpads baseados em terra, conseguiram afundar as fragatas HMS Ardent e HMS Antelope, o destróier HMS Coventry e o cargueiro Atlantic Conveyor, este último destruído por outro míssil Exocet em 25 de maio.

Apesar do sucesso argentino em atingir vários navios, muitas bombas não explodiram porque foram lançadas de altitudes tão baixas que as espoletas não tiveram tempo de armar antes do impacto. Isso salvou a força-tarefa britânica de um desastre completo, e mostrou a inadequação da munição usada, e o despreparo das forças argentinas para este tipo de combate. Voar alto era uma prática suicida, porquê os caças argentinos não tinham como escapar dos SAMs britânicos, e voar baixo não permitia tempo necessário para que as espoletas das bombas “burras” argentinas se armassem, além da grande quantidade que caiu no mar por absoluta falta de tempo para que se efetuasse uma pontaria correta, desperdiçando muitas incursões e expondo os aviadores a riscos infrutíferos.

O Míssil Rapier

O míssil terra-ar Rapier teve uma importância tática ao atuar como a principal linha de defesa aérea em terra das forças britânicas nas áreas de desembarque. Ele foi essencial para proteger as tropas e os navios logísticos vulneráveis durante e após o desembarque anfíbio na Baía de San Carlos Water. Embora seu desempenho técnico real tenha dividido opiniões devido a falhas mecânicas, o Rapier cumpriu o papel vital de negar o espaço aéreo aos caças argentinos.

Os navios da Royal Navy estavam sofrendo pesadas baixas devido aos ataques aéreos rasantes dos caças argentinos Skyhawk e Dagger. O Rapier foi enviado às pressas para a costa para criar um "guarda-chuva" de proteção antiaérea sobre a Baía de San Carlos, garantindo que os soldados e suprimentos britânicos desembarcassem com cobertura antiaérea.

O Rapier original operava por rastreamento óptico. O operador mirava no caça inimigo através de um joystick óptico, e o computador do sistema guiava o míssil automaticamente até o alvo. Isso era ideal para combater aeronaves que vinham extremamente baixas, mascaradas pelo relevo das ilhas. Mesmo quando não derrubava nenhuma aeronave, a simples presença destas baterias forçava os pilotos argentinos a realizarem manobras evasivas violentas ou a atacarem de altitudes desfavoráveis, o que reduzia drasticamente a precisão de suas bombas.

As baterias do Rapier eram pesadas e sofreram trancos violentos durante a longa viagem de navio sob o clima hostil do oceano. Várias unidades desembarcaram com componentes eletrônicos danificados ou descalibrados. A versão enviada dependia da luz do dia e de bom tempo para o rastreamento óptico manual. O clima das ilhas, marcado por névoa constante, chuva e nuvens baixas; limitou severamente a eficácia do sistema. Seu sistema IFF sofria para distinguir os caças argentinos dos caças Sea Harrier britânicos que operavam na mesma zona, gerando hesitação nos operadores para evitar fogo amigo.

O número exato de abates confirmados pelo Rapier gera debates historiográficos. Oficialmente, o British Army declarou que o sistema abateu 14 aeronaves argentinas. No entanto, análises posteriores e registros cruzados dos 2 países reduziram esse número para algo entre 1 e 3 abates confirmados.

Esta experiência serviu de lição para o Reino Unido modernizar o sistema. Os relatórios de combate geraram diretamente a criação do padrão Field Standard B (FSB), que adicionou melhorias operacionais na mira e aprimorou a integração com radares de acompanhamento para qualquer clima.

Os Mísseis Manpads

Os MANPADS (Man-Portable Air-Defense Systems - sistemas portáteis de defesa antiaérea) são essenciais na defesa terrestre. Eles são operados por um soldado ou pequenas equipes para destruir ameaças em baixa altitude. O sistema protege tropas, centros logísticos e estruturas estratégicas contra aeronaves e mísseis de cruzeiro em voos baixos.

Neste conflito eles desempenharam um papel de negação do espaço aéreo na fase terrestre, embora com limitações tecnológicas da época. Foi um dos primeiros conflitos modernos onde mísseis antiaéreos portáteis foram amplamente usados por infantarias e forças especiais de ambos os lados.

O míssil Blowpipe teve um desempenho muito fraco. Era o principal Manpads operado tanto pelo Reino Unido quanto pela Argentina. Ele exigia que o operador guiasse o míssil manualmente até o alvo através de um pequeno joystick (orientação por rádio por comando visual). Mostrou-se extremamente ineficaz contra jatos rápidos em combate real. Dos mais de 100 mísseis disparados pelos britânicos, apenas cerca de 2 abates foram confirmados. O sistema gerava imensa pressão psicológica nos operadores, tornando o rastreamento quase impossível sob fogo inimigo.

O norte-americano FIM-92 Stinger fz sua estréia em combate. Tropas do Serviço Aéreo Especial (SAS) britânico receberam clandestinamente 6 mísseis dos Estados Unidos. Diferente do Blowpipe, o Stinger era do tipo "dispare e esqueça", guiado por infravermelho (IR). Mesmo com pouco treinamento, o SAS conseguiu abater um avião de ataque argentino IA-58 Pucará em 21 de maio e um helicóptero SA 330 Puma em 30 de maio.

O SA-7 Strela Russo foi usado pelos argentinos. Além do Blowpipe, as forças argentinas utilizaram unidades do SA-7 Strela-2 (9K32), de fabricação soviética, obtidos via rotas internacionais ou países aliados. Embora tenham danificado algumas aeronaves britânicas e forçado os caças Sea Harrier a mudarem suas táticas de bombardeio rasante, as versões iniciais do Strela sofriam para trancar em alvos que usavam contramedidas básicas ou que voavam de frente para o operador.

Estas armas não venceram a guerra sozinhos, mas forçaram os pilotos de ambos os lados a mudar de tática. O medo de mísseis disparados por ombro obrigou aeronaves a voarem mais alto, onde ficavam vulneráveis a sistemas de defesa antiaérea pesados como o Sea Dart britânico ou os canhões guiados por radar da Argentina, ou a errar bombardeios terrestres.

4ª Fase: Apoio Aéreo Aproximado e o Colapso Argentino (fim de maio a 14 de junho)

Após os britânicos estabelecerem a cabeça de praia em San Carlos, o foco do conflito migrou para a campanha terrestre em direção a Port Stanley. A Argentina já havia perdido dezenas de aeronaves e pilotos experientes. O bloqueio britânico e o clima severo sufocaram as linhas de suprimento logístico das forças argentinas nas ilhas. As aeronaves argentinas restantes focaram em atacar as posições terrestres britânicas e navios de suporte logístico, como no ataque aos navios de desembarque Sir Galahad e Sir Tristram em Fitzroy, em 8 de junho. Por outro lado, os Sea Harriers britânicos passaram a realizar missões intensas de bombardeio tático e apoio aproximado às suas tropas avançando por terra, reforçados pelos modelos Harrier da RAF, dedicados. Os britânicos moveram sistemas de mísseis portáteis, como o Blowpipe e o Stinger, e baterias Rapier para terra, limitando drasticamente o espaço de manobra dos jatos e helicópteros argentinos até a rendição final em 14 de junho.

A artilharia antiaérea baseada em terra desempenhou um papel estratégico, letal e subestimado, moldando o ritmo das operações ambos os lados. Embora os holofotes históricos frequentemente foquem nos duelos entre os caças Sea Harrier britânicos e os Mirage e Skyhawk argentinos, foi o fogo vindo do solo e dos conveses que impôs as maiores perdas materiais e táticas ao longo dos 74 dias de conflito.

Abaixo, detalha-se o desempenho, os sistemas e as lições deixadas pelas defesas antiaéreas de cada um dos beligerantes.

Apesar da derrota final no arquipélago, a artilharia antiaérea argentina teve um desempenho considerado excelente por analistas militares. Operada principalmente pelo Ejército Argentino e por frações da Fuerza Aérea Argentina e Armada Argentina, a rede montada ao redor de Port Stanley negou aos britânicos o controle total do espaço aéreo a baixa altitude.

A espinha dorsal do fogo antiaére argentino consistia em canhões automáticos como os potentes Oerlikon GDF de 35 mm e os Rheinmetall de 20 mm. O grande diferencial foi a integração dos canhões de 35 mm aos modernos radares de direção de tiro Skyguard e Super Fledermaus. Essa combinação permitia abates precisos mesmo à noite ou sob neblina densa. Os Rheinmetall Rh 202 de 20 mm que são canhões automáticos leves, muitos em montagens duplas), altamente móveis, muito empregados na defesa de ponto contra aeronaves a baixa altitude e helicópteros. E os Hispano-Suiza HS.830 de 30 mm e Bofors L60 de 40 mm usados reforçar o perímetro ao redor do aeroporto de Porto Stanley (Puerto Argentino) e outras posições como em Goose Green. Utilizaram também mísseis guiados por radar Roland que conseguiram interceptações contra os Sea Harriers e mísseis portáteis de curto alcance ingleses Blowpipe e os soviéticos SA-7 Strela (Grail na OTAN). A eficácia da cortina de fogo argentina forçou a aviação britânica a abandonar os ataques a baixa altitude. Os aviadores de sua majestade precisaram mudar a tática para bombardeios de média e grande altitude, acima de 4600 metros, o que reduziu drasticamente a precisão das bombas convencionais e protegeu a pista de pouso de Stanley, que operou de forma limitada até o último dia da guerra.

O clima severo das ilhas, o terreno lamacento e a falta de peças ou baterias adequadas prejudicaram a mobilidade e a manutenção de alguns radares e geradores. A artilharia antiaérea de tubo teve abates confirmados de aeronaves britânicas e impôs restrições severas às rotas de aproximação dos pilotos da Royal Navy e da RAF, criando um ambiente de alto risco tático sobre o teatro de operações terrestre.

A seguir estão os principais registros de aeronaves britânicas abatidas ou destruídas pelo fogo antiaéreo e de infantaria da Argentina:

Dia 04 de maio um Sea Harrier FRS.1 foi abatido fogo de 35 mm enquanto realizava um bombardeio a baixa altitude sobre a pista de pouso de Goose Green. O piloto não sobreviveu. Dia 21 de maio um Harrier GR.3, durante a Batalha de San Carlos Water, foi atingido por estilhaços em Howard Port. O piloto conseguiu retornar em direção à frota, mas devido aos danos severos e pane seca, teve que ejetar no mar e foi resgatado. Neste dia também 2 Helicópteros Westland Gazelle da Royal Navy, durante o desembarque em San Carlos Water, foram metralhados e abatidos por fogo de armas leves. Os 3 tripulantes britânicos morreram. Dia 27 de maio um Harrier GR.3 foi abatido por fogo de 35 mm e mísseis de defesa de área em Goose Green. O avião explodiu no ar, mas o piloto conseguiu ejetar com sucesso atrás das linhas inimigas e se escondeu até ser resgatado. Dia 28 de maio um helicóptero Westland Scout, durante a Batalha de Goose Green, foi interceptado a baixa altitude e abatido pelos canhões de 20 mm de um avião de ataque argentino FMA IA-58 Pucará. Em 30 de maio um Harrier GR.3 foi atingido por fogo de infantaria enquanto atacava posições argentinas no Monte Kent. O caça sofreu uma perda massiva de combustível devido aos impactos e o piloto foi obrigado a ejetar a caminho do porta-aviões. Em 01 de junho um Sea Harrier FRS.1 foi abatido por um míssil terra-ar de longo alcance Roland disparado a partir de Port Stanley. O piloto ejetou sobre o oceano e passou 9 horas em um bote salva-vidas antes de ser resgatado por um helicóptero.


O Míssil Roland

O desempenho do míssil Roland neste conflito foi um dos capítulos mais bem-sucedidos da artilharia antiaérea argentina, destacando-se pela eficiência tática apesar da severa limitação de recursos. Embora a Argentina operasse apenas uma única unidade lançadora ativa, cumpriu um papel na proteção do aeródromo de Port Stanley.

O Ejército Argentino enviou para as ilhas uma versão estática, montada em um Shelter, do sistema Roland 2. Equipado com radares de busca e rastreamento para operações sob qualquer condição meteorológica, o sistema disparou 8 unidades e abateu um 1 caça Sea Harrier em 1º de junho. Destruiu também em voo de 2 bombas britânicas de 1.000 libras (454 kg) lançadas contra a pista.

O maior mérito deste míssil não se limitou ao número de aeronaves derrubadas, mas sim ao seu efeito psicológico e tático sobre a Royal Navy. Cientes da alta precisão do Roland a baixas e médias altitudes, os pilotos britânicos foram forçados a bombardear a pista de Stanley de altitudes superiores a 5500 metros. Ao operar fora do envelope ideal do míssil, a aviação britânica perdeu drasticamente a precisão nos ataques contra o aeródromo. Como resultado direto, a pista de Stanley nunca foi completamente inutilizada e continuou recebendo voos de transporte argentinos C-130 Hercules durante quase todo o conflito.

Apesar da alta confiabilidade técnica — operando sem sofrer com a temida Guerra Eletrônica (EW) britânica devido à capacidade de alternar para o rastreamento óptico, o sistema sucumbiu ao isolamento logístico da Argentina. Sem mísseis sobressalentes para recarga após os 8 disparos, a unidade ficou inoperante nos dias finais do conflito. Com a rendição argentina em 14 de junho, o abrigo lançador do Roland foi capturado intacto pelos britânicos. Ele foi enviado diretamente para o Reino Unido para engenharia reversa, testes de avaliação e análise de inteligência militar pelas forças da OTAN.

Era um dos sistemas de defesa aérea mais modernos do mundo na época. Foi enviado diretamente para proteger o perímetro estratégico do Aeroporto de Port Stanley, o cordão umbilical de suprimentos das forças argentinas.

Os bombardeiros britânicos Avro Vulcan foram forçados a subir para altitudes superiores a 4900 metros para realizar os bombardeios, reduzindo drasticamente a precisão de suas bombas convencionais.

O grande trunfo do Roland nas Falklands/Malvinas foi o seu sistema de guiamento híbrido. Além do rastreamento por radar, o operador possuía uma mira eletro-óptica sofisticada para guiar o míssil manualmente.

Isso foi vital porque os britânicos tentaram suprimir as defesas de Stanley disparando mísseis antirradar AGM-45 Shrike a partir dos bombardeiros Vulcan. Para evitar serem destruídos pelos mísseis caçadores de radar, os operadores argentinos simplesmente desligavam os radares de emissão e utilizavam o modo óptico passivo. Dessa forma, o sistema Roland permaneceu completamente operacional e intacto contra esses ataques eletrônicos até o fim da guerra.


O Aprendizado Britânico

Após as graves perdas sofridas em San Carlos Water e o afundamento de navios cruciais como o HMS Sheffield e o HMS Coventry, os britânicos mudaram radicalmente suas táticas navais. Seus oficiais eram treinados e agiam conforme a doutrina da OTAN parra combater contra a URSS, e no Atlantico Sul se deparam com uma guerra totalmente diferente, onde não tinham apoio aéreo maciço proporcionado pela RAF e pela OTAN, o inimigo estava tecnologicamente mais limitado e adotou técnicas e táticas para as quais eles não haviam treinado, entre outros fatores. Eles adaptaram a tecnologia disponível para sobreviver aos ataques aéreos argentinos de baixa altitude e restabelecer a segurança da Força-Tarefa.

As principais mudanças na reorganização da defesa naval britânica foram estruturadas em 4 pilares, como a criação dos “piquetes de radar”, o recuo da frota, a improvisação de aeronaves AEW e a readequação das patrulhas CAP.

Os britânicos perceberam que enviar um destróier Classe Tipo 42, como o HMS Coventry, sozinho para detectar aviões era fatal, pois o sistema de mísseis Sea Dart falhava contra alvos voando rente à água. Passaram então a operar os navios em pares integrados. Um destróier Tipo 42 que era especialista em média/alta altitude com o míssil Sea Dart, navegava colado a uma fragata Tipo 22, como a HMS Brilliant ou HMS Broadsword. A fragata Tipo 22 possuía o míssil Sea Wolf, um sistema de curto alcance totalmente automatizado e guiado por radar que funcionava perfeitamente contra alvos a baixa altitude. Se as aeronaves argentinas voassem baixo para fugir do Sea Dart do Tipo 42, eram recebidos pelo Sea Wolf da Tipo 22. Foi essa combinação no HMS Exeter que barrou novas incursões. Há de se observar que o alcance dos Sea Wolf era bem inferior aos AM-39 Exocet, e se os argentinos dispusessem deles em maior quantidade a história podia ser diferente.

Os 2 ativos mais valiosos da frota eram os porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible. Perder um deles significaria o fim da guerra para o Reino Unido. Os porta-aviões foram movidos para muito mais longe, a leste das ilhas, operando no limite máximo do alcance dos caças Sea Harrier, o que dava a estes menos tempo para suas patrulhas CAP e combates aéreos. Eles foram colocados atrás de uma "muralha" de navios de escolta, fragatas e destróieres. Se um míssil AM-39 Exocet argentino fosse disparado, ele travaria no primeiro navio que encontrasse no caminho, poupando os porta-aviões.

A maior fraqueza britânica era a falta de aviões-radar AEW como o E-2 Hawkeye da US Navy, para "olhar para baixo" e ver os caças argentinos decolando do continente. O relevo das ilhas bloqueava os radares dos navios. A Royal Navy adaptou tardiamente helicópteros Westland Sea King, instalando neles, de forma improvisada, o radar Searchwater, o mesmo usado nos aviões Nimrod de patrulha marítima. Esses helicópteros voavam alto à frente da frota, funcionando como postos avançados de observação. Embora esta solução tenha chegado no final do conflito, resolveu o ponto cego da defesa contra-ataques surpresa a baixa altitude.

Antes, os caças Sea Harrier faziam patrulhas em altitudes médias. Os argentinos perceberam isso e voavam extremamente baixos através dos vales das ilhas para atacar as forças de desembarque. Os Sea Harriers mudaram seu perfil de missão. Passaram a voar em altitudes muito mais baixas, sacrificando combustível, mas garantindo que conseguiriam interceptar os A-4 Skyhawk e Daggers argentinos antes que eles iniciassem a corrida de bombardeio nos canais estreitos.

Considerações Finais

A disputa aérea e antiaérea no conflito, inéditas até então no mundo por tratarem-se de 2 forças acidentais e com equipamentos semelhantes, demonstraram a extrema vulnerabilidade dos navios de guerra modernos a ataques aéreos de baixa altitude e mudaram para sempre a estratégia militar naval.

O conflito, essencialmente uma guerra aeronaval, provou que nenhuma força naval sobrevive sem o controle efetivo do espaço aéreo. O controle do espaço aéreo determinou o sucesso ou o fracasso das operações em terra e no mar. Navios de última geração sofreram graves danos ou foram afundados, ao serem atingidos por mísseis antinavio e bombas argentinas. Os radares da época tiveram grande dificuldade para detectar aeronaves argentinas que voavam muito perto da superfície do mar para escapar dos sistemas de defesa. Os pilotos argentinos realizaram ataques ousados com grande bravura, mas operavam no limite do alcance de combustível e sem suporte avançado de radar.

A Força Aérea Argentina operou a partir do continente. Isso limitou o tempo de permanência dos caças sobre as ilhas e exigiu missões complexas de reabastecimento em voo, evidenciando a importância desta capacidade. Apesar da desvantagem tática causada pela distância de suas bases e inferioridade tecnológica, os pilotos argentinos causaram danos severos à frota britânica com ousados ataques de baixa altitude contra os navios.

A defesa antiaérea argentina impôs respeito e abateu aeronaves inimigas, mas não foi suficiente para impedir totalmente a superioridade operacional e o desembarque britânico. Há de se ressaltar a importância desta arma que demonstrou seu poderio dissuasório e operacional, e só não foi mais eficiente devido às limitações que lhes foram impostas. Também é digno de nota o desempenho dos sistemas AIM-9L Sidewinder que mostraram seu valor.

As marinhas dfsdswero mundo inteiro aceleraram o desenvolvimento de sistemas de defesa de ponto automatizados, como metralhadoras rotativas guiadas por radar para destruir mísseis de perto, como o sistema norte-americano CIWS. A guerra serviu de alerta global sobre a necessidade de radares de alerta precoce aéreos (AEW) para cobrir pontos cegos da frota.

Este conflito foi essencialmente uma guerra aeronaval. O controle do espaço aéreo determinou o sucesso ou o fracasso das operações em terra e no mar. As operações aéreas e antiaéreas demonstraram a extrema vulnerabilidade dos navios de guerra modernos a ataques aéreos de baixa altitude e mudaram para sempre a estratégia militar naval. O conflito provou que nenhuma força naval sobrevive sem o controle efetivo do espaço aéreo. Navios de última geração sofreram graves danos ou foram afundados ao serem atingidos por mísseis antinavio e bombas argentinas. Os radares da época tiveram grande dificuldade para detectar aeronaves argentinas que voavam muito perto da superfície do mar para escapar dos sistemas de defesa. Os pilotos argentinos realizaram ataques ousados com grande bravura, mas operavam no limite do alcance de combustível e sem suporte avançado de radar.

A Fuerza Aérea Argentina operou a partir do continente. Isso limitou o tempo de permanência dos caças sobre as ilhas e exigiu missões complexas de reabastecimento em voo, enfatizando a importância desta capacidade. Apesar da desvantagem tática decorrente da distância das bases no continente, os pilotos argentinos causaram danos severos à frota britânica com ousados ataques de baixa altitude contra os navios. Na fase terrestre a defesa antiaérea argentina impôs respeito e abateu aeronaves inimigas, mas não foi suficiente para impedir totalmente a superioridade operacional e o desembarque britânico.

O conflito provou a vulnerabilidade de navios modernos contra mísseis e bombas lançadas por aviões, mudando os parâmetros de defesa naval em todo o mundo. As marinhas do mundo inteiro aceleraram o desenvolvimento de sistemas de defesa de ponto automatizados, como metralhadoras rotativas guiadas por radar para destruir mísseis de perto, como o sistema CIWS norte-americano. A guerra serviu de alerta global sobre a necessidade de radares de alerta precoce aéreos (AEW) para cobrir pontos cegos da frota.