"Uma nação que confia em seus direitos, em vez de confiar em seus soldados, engana a si mesma e prepara a sua própria queda".
Rui Barbosa

sábado, 18 de maio de 2019

Fundamentos das Operações Militares *



A guerra é a resolução de um conflito por meio da força, situação onde se esgotou o poder da palavra e da negociação. Ela se faz através de uma sequência de operações militares planejadas no tempo e no espaço, de magnitudes diversas e correlacionadas, onde cada lado procurar adquirir a superioridade estratégica sobre seu oponente, através da aplicação do poder militar, até se chegar a um ponto onde a situação tende a se tornar irreversível, configurando a vitória de um dos contendores.

Uma operação militar é um conjunto de ações empreendidas por forças e meios militares, seguindo um plano de ação previamente elaborado e buscando cumprir um objetivo bem definido, que pode ser o objetivo do conflito em si, ou um objetivo intermediário que vise a criar condições para que outro objetivo maior seja buscado. Ela pode ser executada por uma única força em situações limitadas, ou por várias forças operando combinadas em situações de maior amplitude.

O emprego de uma força armada deve ser baseado em princípios e fundamentos que rejam sua atuação, condicionando seu emprego em bases de racionalidade e cautela, a fim de evitar abusos e perdas desnecessárias, que podem comprometer o próprio sucesso das operações. São 5 os principais fundamentos das operações militares: a doutrina, os fatores da decisão militar, o fator militar, os princípios da guerra e os elementos do poder de combate.

Doutrina Militar

O primeiro destes fundamentos é a doutrina militar, que rege o preparo da força na condução de seu adestramento e instrução, na sua organização, no tipo e quantidade do equipamento a ser empregado e na forma como ela é empregada; além de definir as bases de sua orientação moral e ética. A doutrina militar é o conjunto de normas e preceitos que deverão ser obedecidos para a elaboração de todas as demais instruções e orientações da força, delineando a emissão de ordens e elaboração de manuais de campanha.




Fatores da Decisão Militar

O segundo fundamento operacional tange os fatores da decisão militar, que são as variáveis a serem consideradas quando do planejamento e condução de uma operação militar. Prestam-se tanto a gestão das operações em curso, quanto ao estudo de operações passadas e história militar. Qualquer decisão militar é fruto de uma análise lógica desses fatores, no clássico Estudo de Situação, que é conduzido analisando 5 fatores distintos: A missão, o terreno, o inimigo, os meios disponíveis e o tempo a ser cumprido.

  • A Missão que nada mais é do que um objetivo a ser alcançado. Ao receber uma missão, o comandante militar deverá reunir em um plano de ação factível, baseado no bom senso, preceitos de doutrina, conhecimentos e treinamento que possui, sempre consultando os manuais de campanha afins, tudo aquilo que for necessário para cumpri-la.
  • Para buscar a melhor forma de cumprir a missão recebida, o comandante procede a análise do Terreno onde será executada. Leva em consideração todos seus aspectos topo-táticos, como observação e campos de tiro, cobertas e abrigos, obstáculos, vias de acesso, acidentes capitais, condições meteorológicas, assuntos civis e outros; identificando nele seus objetivos.
  • Uma vez familiarizado com o terreno onde irá desdobrar seus meios, o comandante da operação passa a estudar o Inimigo, analisando suas capacidades e limitações, organização, equipamento, instrução e forças morais, concluindo sobre suas deficiências, vulnerabilidades e possibilidades.
  • O quarto aspecto que será levado em consideração serão os Meios disponíveis, onde o comandante e seus estado maior farão um estudo crítico da própria situação, sobre o mesmo enfoque anterior, para concluir sobre suas deficiências, vulnerabilidades, pontos fortes e possibilidades reais.
  • Após tomar pé de toda a situação, passa-se então a coadunar as principais idéias formuladas dentro do Tempo em que deverá ser concluída a missão. Toda operação deve ser viabilizada em tempo hábil, de forma a não permitir que o inimigo consolide sua situação e que o princípio de guerra da surpresa possa ser explorado ao máximo. Ações subsequentes poderão depender do sucesso de sua missão, e em alguns casos o não cumprimento do prazo poderá inviabilizar as ações que seguirão, parcial ou totalmente.

Baseado nesta pré-análise, o comandante decidirá sua linha de ação, sempre procurando explorar seus pontos fortes contra as vulnerabilidades do inimigo, e adotando medidas de segurança para impedir que ele faça o mesmo. Sempre assessorado por seu Estado Maior, a linha de ação dotada será detalhada no plano de ação, fruto de trabalho minucioso, baseado nas informações disponíveis e em outras que deverão ser buscadas. A decisão resultante de um Estudo de Situação, sempre traz em seu bojo a aplicação dos princípios universais de guerra.





Fator Militar

O terceiro fundamento é a consideração das inúmeras variáveis que influem no desempenho de uma força militar. O comandante deve avaliá-las de forma a tirar o máximo de proveito da situação, corrigir falhas e viabilizar um estratégia viável e bem sucedida. Ao conjunto destes elementos denominamos Fator Militar. São eles: logística, comando, estado-maior, tropa, equipamento, terreno, condições meteorológicas, imponderáveis da guerra, incerteza da situação, confusão no combate, aplicação dos fundamentos da arte da guerra, grau de operacionalidade, moral, pensamento militar e tecnologia. 

São variáveis sempre presentes que influenciam a missão, e que interagem sempre. O Fator Militar é composto de duas ordens de forças: As materiais e as morais. As últimas assumem relevância nos exércitos menos abastados.

  • A Logística é a capacidade de manutenção de uma força combatente. Cabe a ela suprir as forças em todos os ítens imagináveis e necessários ao combate. Alimentação, munição, combustíveis, suprimentos médicos, reposição de pessoal, equipamentos e materiais dos mais diversos; além do transporte, estocagem e distribuição destes ítens, nos locais e momentos adequados. A logística ainda engloba a manutenção de equipamento, seja de serviço ou corretiva, a instalação e manutenção de hospitais de campanha e serviços de transporte e triagem de feridos e funerários, a manutenção e construção de vias de acesso e áreas de estacionamento, a manutenção de instalações de cunho estratégico como portos, bases aéreas, centros de comunicações, usinas de provimento de energia e água, e outras que se mostrarem importantes às operações. Pode-se dizer que o fator logístico é o pilar central de toda e qualquer campanha, sendo sua importância diretamente proporcional a duração das operações. O próprio foco de qualquer operação continuada é a inviabilização do sistema logístico do inimigo, fator que decidiu quase todas as operações listadas pela história.
  • O Comando é o agregador de todos os elementos do fator militar. Cabe ao comando a implementação de uma situação de sinergia de todos os elementos operativos. Um comandante deve desenvolver continuamente seu caráter, capacidade, experiência profissional e características de liderança. Conhecer as características do comandante inimigo é importantíssimo na medida que se deseja antecipar suas decisões. Uma força privada do seu elemento de comando continua detentora de seu potencial orgânico, porém está totalmente incapacitada de aplicá-lo, e se o fizer será de maneira limitada.
  • O Estado-Maior é o "Staff" do comandante. Cabe ao Estado-Maior ocupar-se dos detalhes da missão, permitindo que o comandante se concentre nas linhas de ação principais. Fator multiplicador do poder de combate, um Estado-Maior eficiente pode ser a diferença entre a vitória e o fracasso. Um Estado-Maior típico constitui-se de uma seção de pessoal (1ª seção), de informações (2ª seção), de operações (3ª seção) e de logística (4ª seção); podendo conter outras como de instrução, ações psicológicas, assuntos civis, comunicação social e o que mais se achar necessário.
  • A Tropa é o elemento operativo propriamente dito. Caracteriza-se pelo seu número, nível de adestramento, padrões sanitários e motivação. Uma tropa desmotivada ou mal assistida no quesito de saúde não desempenhará a contento. Uma tropa em número inssuficiente poderá sucumbir facilmente a não ser que outros fatores como a tecnologia eo adestramento compensem esta deficiência.
  • O equipamento é o conjunto de recursos materiais, nos aspectos quantitativo e qualitativo, postos a disposição da tropa. Material Bélico, Suprimentos e materiais de toda ordem fazem parte deste item. Um aspecto material que assume especial importância são os meios de comunicações disponíveis, vitais ao exercício do comando. Sem elas operando plenas, o comando terá dificuldades em bem reger a orquestra posta a sua disposição. Fica mudo e impotente. A experiência histórica tem demonstrado, em guerras recentes, que exércitos dispondo de bom equipamento, não foram capazes de tirar rendimento satisfatório dos mesmos, por deficiências culturais da tropa.
  • O terreno influi diretamente no grau de dificuldade de uma operação, e repercute sensivelmente no Fator Militar, Seus elementos topo-táticos servem para a pesquisa e estudo crítico de uma operação militar. O sucesso da operação está diretamente relacionado a capacidade de superar os obstáculos existentes, a capacidade de utilizar o terreno para ludibriar a percepção inimiga da situação e impor dificuldades a sua manobra e reação.
  • As condições meteorológicas como chuva, neve, ventos, nevoeiro, fases da lua, partes do dia, temperaturas, crepúsculo, etc., influem diretamente nas operações e repercutem no Fator Militar, e devem ser consideradas com atenção.
  • Os imponderáveis da guerra são circunstâncias imprevisíveis num combate, influindo decisivamente em seus resultados. Um incêndio florestal, condições meteorológicas adversas, uma revolta não esperada de populares, o assédio de criminosos, animais selvagens, um terremoto, etc... podem influir, dependendo das circunstâncias nas operações.
  • A incerteza da situação está baseada no fato de que, normalmente, o comandante não dispõe de informações suficientes para lastrear seu Estudo de Situação. As medidas de contra-informação do inimigo restringem a ação de seu setor de informações. Daí decorre o risco calculado. Prejudicar a observância de um princípio de guerra em beneficio de outro. Churchill já afirmava "não se pode conduzir uma guerra na base da certeza". O chefe, nestas ocasiões, procura apoiar-se nos princípios de guerra da Segurança e da Economia de Forças, para precaver-se contra a incerteza.
  • A confusão no combate estará sempre presente. Situações não previstas (imponderáveis) podem acontecer pondo abaixo todo um planejamento. O comando e a tropa têm que estar preparados e com as cabeças frias, para exercitarem o espírito da iniciativa, em situações confusas de combate, contornando de forma eficiente os problemas que vierem a aparecer. Um bom método de fazer isto é reunir várias cabeças e pedir para que relacionem tudo aquilo que pode acontecer, elencar as situações mais prováveis ou nocivas e precaver-se contra elas. É na ausência de ordens, que a criatividade e a iniciativa dos comandantes mais capazes pode fazer a diferença.
  • Observância dos mandamentos e preceitos da guerra, que fundamentam as decisões de campo é de vital importância ao sucesso operacional que se está buscando. Iniciativa é sempre bem vinda e fará a diferença em qualquer situação, porém deve ser responsável e competente, sem deixar a disciplina de lado.
  • O grau de operacionalidade é a capacidade de uma força em aplicar de forma plena seu poder militar. uma força deverá dispor de comandante e estado maior conhecedores de seu ofício e se possível experientes, tropa bem adestrada, equipamento moderno e bem manutenido, moral elevado, etc... para bem poder desempenhar suas atribuições. Deverá também saber operar em conjunto com outras forças que se façam presentes.
  • O moral é a pré-disposição para lutar. Quanto mais elevado, maior será a qualidade do Fator Militar. É o combatente motivado para a luta. Influem no moral da tropa e por conseqüência no seu rendimento, fatores como alimentação, notícias do andamento das operações e da segurança de seus familiares, o sentimento da sua importância junto a seus comandantes, estresse a que está submetida, serviço de saúde de que dispõem, perspectiva do desenvolvimento das operações, sentimento em relação a própria segurança, exposição a cenários como de morte intensa, genocídios, amigos e colegas feridos em níveis degradantes, e outros.
  • Espírito crítico e criatividade fazem parte do pensamento militar. É o estado de espírito que deve dominar todos os integrantes de uma força. Pensar para rejeitar, modificar, aperfeiçoar, inovar e progredir. A capacidade de criticar sadiamente idéias previamente aceitas, visando a rejeitá-las, ou modificá-las. Todos os conceitos da doutrina militar resultaram do pensamento militar criador. Todas as inovações na doutrina militar foram em determinada ocasião uma idéia revolucionária de um comandante ou pensador militar. Este espírito sempre enfrentará a tradicional resistência à mudanças, constante no meio militar, e deve ser empregado com cautela e conhecimento. Deve-se tomar cuidado para não se ferir a hierarquia e a disciplina, pilares da doutrina militar.
  • A tecnologia sempre fará a diferença. A qualidade do Fator Militar depende muito do grau tecnológico dos equipamentos disponíveis, que não deve ser superior a capacidade dos soldados de utilizá-la.


Princípios de Guerra

Os princípios de guerra são normas consagradas pelo tempo, não aplicáveis em uma seqüência definida,  e que devem ser internalizadas pelos comandantes militares de todos os escalões, a fim de nortearem suas decisões. Sua aplicação deve ser adaptada a cada situação de forma flexível, sempre precedida pelo bom senso e constituem-se na base de toda operação militar. Cada força armada adota seu próprio conjunto de princípios, estado aqui listados 9 deles: Objetivo, Iniciativa, Concentração de Meios, Economia de meios, Manobra, Unidade de Comando, Segurança, Surpresa, Simplicidade. 

Eles formam a base das operações militares convencionais modernas e foram forjados pela experiência adquirida ao longo dos tempos, sendo enunciados sistematicamente no início do século XX. Variam de acordo com doutrina de cada força em número e semântica, mas todos convergem para uma mesma conclusão, enfatizando as vocações singulares. Podem variar ainda com o tempo, refletindo a evolução da tecnologia e do pensamento militar.

As forças armadas modernas os adotam como parte da doutrina e devem ser aplicados independentemente de se estar operando nos níveis estratégico, operacional ou tático. Sua aplicação não segue uma lista de conferência com um ordem pré-definida, e se aplicam simultaneamente e da mesma maneira a todas as situações. Quando usados no estudo de campanhas passadas, são poderosas ferramentas de análise.

Objetivo

Toda operação militar deve buscar um objetivo definido, decisivo e tangível. Para se chegar a ele, freqüentemente será necessário conquistar outros objetivos intermediários de menor importância, que igualmente deverão ser claros e tangíveis, sendo que a conquista de cada objetivo secundário deverá contribuir para se chegar ao objetivo estratégico ou principal. Também deverá estar claro o acoplamento entre eles, e a importância da conquista de cada um. Toda e qualquer ação desnecessária a consecução dos objetivos deverá ser evitada. O objetivo a ser atingido e os limites a serem observados são ditados pelo comando, sendo a  linha de ação adotada prerrogativa do executor. Nenhuma ação deve ser posta em prática sem que um plano adequado tenha sido elaborado para norteá-la.

Iniciativa

A iniciativa deve ser buscada a todo momento, de forma a forçar o inimigo a reagir a um plano já traçado, evitando que este venha a seguir um plano próprio. Quem detém a iniciativa comanda o combate e decide seus rumos. Seja tanto em operações defensivas como em ofensivas. Na guerra é necessário ser agressivo e violento de forma a frustrar qualquer esforço de organização por parte do inimigo, evitando que ele decida quando, onde e como combater. Agarrar, reter e explorar a iniciativa é uma das chaves do sucesso.

Concentração ou Massa

O poder de uma força de combate está na eficiente composição desta. Elementos adequados, alocados nos pontos onde produzem seus maiores efeitos, agindo de modo sincronizado e desfrutando de proteção mútua, maximizam o efeito sobre o inimigo com um mínimo de baixas. Não se bate no inimigo com a ponta do dedo de uma mão aberta, e sim com um punho fechado (violenta e decisivamente), visando esmagar seu poder de combate. Uma unidade inimiga vencida será desarmada e presa, a fim de evitar que venha a combater novamente (em local longe do risco de resgate). O engajamento procurará o momento em que o inimigo estiver numericamente inferior, seja em pessoal ou meios. Manobras que visam fracionar suas forças são desejáveis e devem ser implementadas a fim de facilitar contatos com contingentes reduzidos. Quando se está numericamente inferior, deve-se buscar compensar com meios multiplicadores do poder de combate a fim buscar a vantagem do engajamento, e caso isso não seja possível, o contato deverá ser evitado até que tal situação se configure. Não se engaja o inimigo em inferioridade tática.

Economia de Meios

Todo e qualquer engajamento empregará o poder de combate necessário ao cumprimento da missão, de forma a concluí-la do modo mais efetivo possível, sempre levando-se em consideração a integridade das tropas e procurando preservar no que for possível a disponibilidade do equipamento e recursos logísticos. Não se empregam recursos que podem ser poupados e não se poupam recursos que possam comprometer a missão e os meios de combate. Esforços secundários serão limitados ao mínimo de forma a preservar os sempre escassos recursos disponíveis. Estas considerações revestem-se de maior ou menor importância de acordo com os recursos que as forças dispõem, e como na guerra eles podem ser extremamente limitados, seja pela limitada capacidade de reposição de meios ou deficiências na estrutura logística, seja por infortúnios causados pelo inimigo. A ausência desse ou daquele item em momentos decisivos, pode decidir uma batalha ou mesmo uma campanha. Operações militares demandam esforços logísticos de grande monta e todo alívio e racionalização desta estrutura de apoio é sempre desejável.

Manobra ou Mobilidade

Colocar o inimigo em uma posição de desvantagem pela aplicação inteligente e flexível do poder de combate é o objetivo da manobra. Manobra é o movimento de forças em relação ao inimigo para ganhar vantagem posicional em relação a este. Uma manobra efetiva evita que o inimigo assuma posições vantajosas e protege as forças aliadas. É usada para explorar sucessos, preservar a liberdade de ação e reduzir a vulnerabilidade. Isto traz continuamente problemas novos para o inimigo fazendo suas ações ineficazes devido a impossibilidade de organização e o lançamento de ações coordenadas. Em todos os níveis a aplicação da manobra requer agilidade de pensamento, planejamento, operatividade, organização, designação de objetivos, aplicação dos princípios de concentração e economia de meios. Ao nível operacional, manobra é quando se decide onde e quando lutar, através da fixação de condições de batalha ou tirando proveito de ações táticas. A manobra é uma forma dinâmica de lutar que rejeita padrões previsíveis no desenrolar das operações.

Unidade de Comando ou Controle

O comando de qualquer operação será vertical, único e sem paralelismos, em todos os escalões. Forças operando paralelas em uma mesma campanha tendem a duplicar esforços e demandarem mais recursos. A unidade de comando facilita a coordenação, sincronização de ações e a unificação de esforços, além de evitar sobremaneira o chamado “fogo amigo” ou fratricídio. Este princípio deve ser observado mesmo quando forças tiverem comandos distintos, os quais deverão operar de forma combinada.

Segurança

A segurança das forças em combate deve ser prioridade. O risco é inerente a guerra, porém àquele que corre riscos desnecessários, seja por negligência ou por desconhecimento dos fatores que afetam os campos de batalha, com certeza colherá frutos amargos. Conhecer as intenções inimigas de uma forma abrangente e detalhada é vital; bem como suas táticas, doutrina e tecnologias, a fim de evitar surpresas desagradáveis, permitir antecipar seus movimentos e frustrar seu planejamento. A tropa que opera em segurança pode se dar ao luxo de fazer experiências e testar o inimigo de um modo coordenado, estudando sua reação sem que este adquira vantagens inesperadas. A segurança aumenta a liberdade de ação e reduz a vulnerabilidade. Toda operação militar lançada de bases não seguras, sejam físicas ou doutrinárias, está exposta a um grau de risco que se convenientemente explorado pelo inimigo, pode comprometer tanto a si própria como ao bojo das operações.

Surpresa

Agir onde e quando o inimigo não espera, de uma forma inusitada e criativa pode alterar decisivamente o equilíbrio de um combate. Avanços crescentes da tecnologia, especialmente nos campos das comunicações e vigilância tornaram a surpresa cada vez mais difícil de se alcançar. Fatores que influenciam efetivamente na surpresa são a mobilidade, a efetividade dos sistemas de C3I (comando, controle, comunicações e informações), a capacidade de guerra eletrônica, a variação no modo de agir que impede o inimigo de prever ações, etc... A surpresa pode estar ainda no uso do tempo, na utilização da força e tecnologia, na direção de um avanço, ou na manipulação de qualquer outro fator inesperado pelo inimigo. É um multiplicador de combate poderoso, porém temporário. Não é essencial, se bem que desejável, apanhar o inimigo completamente desavisado; muitas vezes se faz suficiente que ele se dê conta muito tarde para reagir efetivamente. Fatores que contribuem para surpreender incluem velocidade, superioridade de informação e assimetria.

Simplicidade

Todo planejamento deverá basear-se em planos claros e descomplicados, além de ordens objetivas, de forma a assegurar compreensão completa, sem margem a dúvidas ou dupla interpretação. Planos simples propiciam assimilação intuitiva e difíceis de esquecer, e ordens objetivas minimizam o engano e a confusão. A simplicidade é especialmente valiosa quando os soldados e seus comandantes estão cansados, onde avaliações equivocadas podem resultar em graves conseqüências e detalhes são facilmente esquecidos. Quanto mais simples uma operação se apresentar, maiores as chances de obter êxito. Os planos devem ser simples, o planejamento deve ser minucioso.

A Marinha do Brasil adota ainda os princípios da Moral, Exploração e Prontidão em complemento aos já enunciados, e a FAB o da Cooperação, que exprimem a vontade de alcançar o objetivo aceitando os revezes inerentes ao ofício da guerra; a constante prática do esclarecimento visando a ciência da situação; a máxima do "sempre alerta" a fim de não ser pego desprevenido e o implemento do espírito de corpo entre os operadores, respectivamente.




Elementos do Poder de Combate

O poder de uma força militar é definido pela balanceamento de cinco fatores que o comandante deve lançar mão no campo de batalha. Sua utilização é vital e necessária a consecução bem sucedida das operações. São eles: A Manobra, O Poder de Fogo, A Liderança, A Proteção e a Informação. 

A Manobra é a combinação de fogo e movimento, sincronizados no tempo e espaço, de forma a posicionar-se de forma vantajosa em relação ao inimigo, a fim de pô-lo fora de ação pela quebra de seu poder de combate e conseqüente fuga, destruição ou rendição, sempre em consonância com os objetivos da missão. É através da manobra que se alcança surpresa, choque, iniciativa e domínio do campo de batalha. A manobra é implementada em três níveis diferentes e hierarquicamente dependentes, sendo estes níveis o estratégico o operacional, e o tático ou combate aproximado. 

A manobra estratégica é o nível mais alto e corresponde a todo o movimento de meios desde as bases permanentes até as áreas de concentração estratégica, pondo-se em condições de desencadear a manobra operacional.  A manobra operacional é o nível intermediário e mais alto da manobra de campo, e visa posicionar-se vantajosamente em relação ao inimigo antes de se atingir a fase de engajamento. Manobra-se operacionalmente antes de qualquer batalha ou campanha a fim de alcançar a vantagem inicial, com o adequado posicionamento de tropas combatentes e meios de apoio. Ela cria as condições preconizadas no planejamento da missão de forma a tornar possíveis e vitoriosas as subseqüentes ações táticas. Manobra tática é o nível onde se faz contato com as posições inimigas a fim de iniciar e dar seqüência ao engajamento em busca dos objetivos traçados. Através da manobra tática procura-se sempre manter a iniciativa criando um volume de problemas progressivo ao inimigo, fazendo-o reagir a situações inesperadas e frustrando continuamente o seu planejamento. Enquanto o inimigo tiver problemas a resolver, dificilmente terá oportunidade de criar situações em seu favor. Em operações de estabilidade a manobra visa inviabilizar opções táticas efetivas por parte do inimigo, concentrando poder de combate onde possam as forças aliadas dissuadir ou reduzir os efeitos de suas ações. O Combate aproximado é o nível mais íntimo da manobra tática, onde se dá o engajamento propriamente dito. O combate aproximado é levado a cabo com o efetivo emprego de fogo direto, indireto, ar-terra e outros meios de combate. É no combate aproximado que se derrota ou destrói as forças inimigas, conquistando ou mantendo o terreno. Pode-se dar a milhares de metros com armas de alcance condizentes ou em contato corpo-a-corpo. 

Todas as ações táticas requerem inevitavelmente a posse de determinado terreno ou área geográfica, como pré-condição para se alcançar o objetivo ou como sendo o próprio objetivo da missão. O combate aproximado se faz necessário quando o inimigo estiver ali presente e ficar claro que não tem intenções de cedê-lo. No final das contas, o resultado de todas as batalhas, operações e campanhas dependem da habilidade das forças em combate de engajar o inimigo, destruindo-o ou frustrando sua capacidade combativa.
  
Uma manobra bem conduzida nos níveis mais altos pode colocar o inimigo numa condição em que este preveja sua derrota e seja persuadido a render-se, pois só os tolos lutam batalhas perdidas. Neste caso o combate aproximado se faz desnecessário, poupando-se recursos e vidas. Em operações de estabilidade, a provável superioridade nas ações de combate aproximado das forças aliadas pode influenciar as ações do adversário. Em todos os casos, a habilidade das forças aliadas em se ocupar das ações de combate aproximado é o fator decisivo na derrota inimiga ou controle de uma situação.

A potência de fogo é a força letal aplicada ao inimigo a fim de inviabilizar sua condição e disposição de luta, e parte fundamental da manobra. É empregada na destruição de suas forças e meios, restringindo ou anulando sua capacidade de reação e possibilidades de êxito. Na manobra; através da sincronização de movimentos pertinentes e coordenados, criam-se as condições para o uso efetivo da potência de fogo. Embora a manobra ou o fogo possam dominar uma fase da ação em particular, eles são onipresentes em todas as operações, sendo que seu emprego simultâneo e sincronizado aumenta o impacto de ambos, e a ausência de qualquer um deles torna o outro inócuo na maior parte das vezes.

Combinados, produzem efeitos devastadores e eficazes. Potência de fogo é a quantidade de fogos que uma posição, unidade ou sistema de armas podem alocar em determinado espaço físico durante determinado tempo. Os fogos incluem ainda as missões de apoio implementadas pela artilharia e aviação de forma separada ou em combinação com a manobra. A eficácia da potência de fogo é função direta da precisão dos sistemas de armas modernos, sejam diretos ou não, da capacidade dos sistemas de aquisição de alvos, do alcance e cadência de tiro das armas, bem como de suas capacidades de colocar-se em posição e serem continuamente supridas. 

Fogos operacionais são a aplicação pelos comandantes de alto escalão de meios letais ou não, para realizar seus objetivos durante a conduta de uma campanha ou operação principal, sendo componente vital de qualquer plano operacional. São empregados contra objetivos cuja neutralização podem afetar significativamente uma campanha ou operação principal. O planejamento destes fogos inclui a alocação conjunta de meios aéreos, terrestres e navais. Podem ou não ser projetados para alcançar um único objetivo, como por exemplo a interdição de forças inimigas principais para criar as condições favoráveis a manobra das forças aliadas.

Tanto a manobra quanto os fogos operacionais podem acontecer simultaneamente, podendo ou não buscar objetivos muito diferentes. Em termos gerais não se comportam como fogos de apoio e a manobra operacional não necessariamente depende deles, porém quando empregados sincronizadamente e as oportunidades daí surgidas competentemente exploradas, produzem resultados muito efetivos. Fogos e manobra operacionais combinados de forma sinérgica geram batalhas assimétricas, altamente produtivas e unilaterais. 

Fogos táticos são àqueles aplicados para neutralizar as forças inimigas, suprimir seus fogos e desarticular seus movimentos. Eles criam as condições necessárias ao combate aproximado, e devem ser sincronizados com os efeitos de outros sistemas. Concentrar fogos de forma a obter máxima letalidade requer uma compreensão completa da intenção do comando e habilidade de empregar todos os meios disponíveis simultaneamente contra uma variedade de objetivos. A aplicação efetiva de fogos táticos deve obedecer a uma escala de prioridades; localizando e identificando alvos; alocando potência de fogo onde for necessária e avaliando seus efeitos. Uma demanda efetiva de fogos requer unidades competentemente conduzidas com um alto grau de compreensão situacional.

A liderança é capacidade de inspirar as forças combatentes a acreditarem no sucesso, sendo o elemento mais dinâmico do poder de combate. Uma liderança confiante, audaciosa e competente é capaz combinar de forma harmoniosa os outros elementos deste poder e servir como catalisador na criação das condições para o sucesso. Forças motivadas são de fundamental importância ao sucesso, e para tal devem conhecer propósito, direção, e relevância de todas as ações. Líderes fazem freqüentemente a diferença entre sucesso e fracasso, particularmente em pequenos escalões. 

A competência de um líder requer proficiência no relacionamento com seus comandados e superiores, capacidade de entendimento situacional, além de conhecimento técnico e tático. Treinamento ininterrupto permite concatenar estas habilidades às capacidades e deficiências das tropas. Competência profissional aliada a personalidade firme dos comandantes em todos os níveis, representam uma parte significativa do poder de combate de toda uma unidade. Líderes devem demonstrar caráter forte e padrões éticos altos, conhecer e entender as necessidades de seus subordinados, agir com coragem e convicção, saber quando e onde intervir e tomar decisões de forma a influenciar positivamente a situação.

Trabalho de equipe, espírito de corpo e confiança são atributos fundamentais na atividade de combate. Os soldados têm que confiar em seus líderes, e estes têm que conquistar a sua confiança. Confiança perdida pode inviabilizar ações subseqüentes e comprometer a missão.Em situações difíceis o líder competente faz a diferença e viabiliza as ações de seus comandados. 

A proteção é a preservação do potencial de combate de uma força, de forma que esteja disponível quando for necessária. A adoção de medidas de proteção não é sinal de covardia, timidez ou incapacidade de correr riscos, mas sim sinal de prudência e bom senso. Forças armadas invariavelmente operam em ambientes hostis, onde vida e morte andam juntas e vítimas se fazem a todo momento. As operações criam uma sobreposição entre as necessidade de realizar a missão e evitar vítimas, comumente difíceis de conciliar. Realizar a missão tem precedência a evitar as vítimas, pela própria natureza do combate, porém os combatentes são o recurso mais importante do das forças armadas, e vítimas excessivas podem comprometer missões futuras, além é claro de ser moral e politicamente indesejáveis. Comandantes são responsáveis por realizar as missões com o menor número de vítimas possível.

A proteção tem quatro componentes: proteção da força, disciplina de campo, segurança, e prevenção ao fratricídio. A proteção da força, o componente primário, minimiza os efeitos da potência de fogo inimiga, sua manobra e coleta de informações. Disciplina de campo impede baixas por ações do ambiente. Segurança reduz o risco inerente de mortes fora de batalhas e danos. Prevenção ao fratricídio minimiza a ocorrência de baixas por fogo amigo. 

Proteção da força

Proteção da força é o conjunto de todas as medidas implementadas a fim de impedir ou minimizar baixas, pessoais ou materiais, causadas pelo inimigo. A proteção é implementada seja o combate ou em nos recursos e instalações, além da vital proteção a informação crítica. Ações de proteção conservam a integridade da força em combate, preservando seu potencial para que possa ser aplicado quando e onde necessário. Não é objetivo das medidas de proteção da força derrotar o inimigo ou protege-se contra acidentes, intempéries ou doenças.

As medidas de proteção pode lançar mão de todos os meios disponíveis tais como componentes aéreos, espaciais, defesa anti-míssil, defesa NBC, ações anti-terrorismo; operações de contra-informação e segurança para forças operacionais e seus meios. Forças inimigas de menor poderio e que são incapazes de desafiar seus adversários em combate convencional, freqüentemente buscam ações assimétricas, com armas ou táticas não convencionais. Esta ameaça não pode ser negligenciada.
A proteção da força em todos os níveis minimiza as baixas por ações hostis. Ações de contra-inteligência hábeis e agressivas e avaliações de ameaça diminuem a vulnerabilidade das forças aliadas. Disciplinas de dispersão reduzem perdas por fogos inimigos e ações terroristas. Disciplinas de camuflagem, segurança local, e fortificações de campo fazem o mesmo. Proteção de ligações eletrônicas e nós, incluindo tropas com dispositivos eletrônicos, são vitais à segurança das informações e sistemas de informação. No nível operacional, áreas de retaguarda e segurança de bases contribui para aumentar a proteção. Forças de artilharia de defesa protegem instalações e populações civis do assédio de mísseis táticos com ogivas de combate convencionais e WMD. Aviação de caça e sistemas de controle de espaço aéreo e unidades de defesa anti-míssil complementam o controle do componente pelo controle do espaço aéreo. Artilharia de costa e forças navais guardam os flancos para o mar e acesso aos portos. Medidas preventivas contra ações de natureza NBC provêem a capacidade para sustentar operações nestes ambientes. 

Disciplina de campo 

Disciplina de campo, um segundo componente da proteção, impõem regras aos soldados, preservando-os dos efeitos físicos e psicológicos do ambiente. Ambientes opressivos podem solapar muito mais depressa o moral dos soldados que a ação inimiga. Embora estes possam adaptar-se ao ponto das populações nativas, esta adaptação só é conseguida a custa de muito treinamento em habilidades de campo e aspectos particulares da região.

Todas as medidas de precaução para manter os soldados saudáveis e de moral alto devem ser implementadas. Sistemas adequados instalados em locais pertinentes preservam a saúde dos combatentes, previnem doenças endêmicas e sazonais, e proporcionam atendimento rápido dos feridos. Sistemas efetivos para manutenção, evacuação, e substituição rápida ou conserto de equipamento preservam o valor do material empregado. A saúde básica e o bem estar da tropa devem estar em primeiro lugar, evitando-se exposições desnecessárias a condições debilitantes, tais como frio e calor extremo, desidratação e insetos, por exemplo. 

Segurança

Segurança é o terceiro componente da proteção. Condições operacionais impõem freqüentemente riscos significativos aos soldados. Tripulações tem que ser treinadas e operadores têm que saber as capacidades e limitações de seus sistemas de armas. Em condições que extrapolam os limites humanos, meios extras de proteção devem ser providenciados. Em combate, a fadiga reduz reações e a agilidade mental, resultando em acidentes fatais, perda de poder de combate, e de oportunidades táticas. Atenção e disciplina de segurança em níveis altos vem a minorar estes riscos.. Operações seguras decorrem de padrões rígidos de treinamento. Enquanto expor-se a riscos calculados é inerente às operações, lançar mão de todos os meios para minorar a probabilidade destes é obrigação do comando 

Prevenção ao fratricídio

O quarto componente da proteção é a prevenção ao fratricídio. Fratricídio é a matança ou ferimento não intencional de pessoal através de fogo amigo. O poder destrutivo e diversidade das armas modernas, aliadas a alta intensidade dos combates, aumentam o potencial para o fratricídio. Manobras táticas, terreno, e condições de tempo também podem aumentar este perigo. A redução dos riscos de fratricídio deve ser buscada sem desencorajar a coragem e audácia. Liderança competente resulta em eficaz controle de armas, movimentos de tropa, e disciplina nos procedimentos operacionais, contribuindo para alcançar esta meta. Compreensão situacional por parte das forças aliadas e métodos de identificação de veículos também ajudam. A Eliminação do fratricídio aumenta nos soldados a vontade de agir corajosamente, confiante que fogos aliados não os matarão

Informação

Informação adequada multiplica os efeitos da boa liderança, manobra, poder de fogo e proteção. No passado, quando forças estabeleciam contato com o inimigo, a busca de informação era implementada. Hoje usa-se informação previamente acumulada por uma grande gama de sistemas, desde patrulhas de reconhecimento até sistemas não tripulados e de satélites, para traçar o quadro da situação muito antes dos momentos de contato iminente com o inimigo. Operações de informação ofensivas (IO) são usadas para entender o ambiente operacional e criar as condições de emprego para os outros elementos do poder de combate.

Um quadro operacional em constante atualização, baseado em capacidade de inteligência potencializada, vigilância e reconhecimento (ISR), todos com alta tecnologia se disseminou através dos sistemas de informação modernos, proporcionando uma perspectiva em tempo real muito precisa da situação que irão encontrar. Informação atualizada permite adquirir conhecimento situacional real, possibilitando que se combine elementos do poder de combate de modos novos e mais efetivos. Por exemplo, o adequado conhecimento da situação permite evitar áreas inimigas desfavoráveis, enquanto se concentra fogos e manobra em locais e momentos adequados. Esta capacidade aumenta a probabilidade de sobrevivência da força sem ter que aumentar o esforço de sistemas passivos de proteção na mesma proporção, como a capacidade das blindagens. Sistemas de informação modernos ajudam em todos os níveis a melhores e mais rápidas decisões. Decisões mais rápidas e efetivas, prontamente comunicadas permitem a força potencializar os efeitos do poder de combate mais efetivamente que o inimigo. Isto habilita a força a ver, entender e agir primeiro.

A Informação não é neutra; lados adversários usam-na para capitalizar vantagens exploráveis e aplicá-las contra objetivos selecionados direta ou indiretamente. Da mesma maneira que fogos são sincronizados e endereçados, assim é a informação. Alguns exemplos ilustram o uso da informação como um elemento de poder de combate: Durante a operação Tempestade no Deserto, unidades de operações psicológicas acompanharam forças em manobra, em muitos casos convencendo o inimigo a se render. Na mesma operação, operações diversionárias dos Marines (um elemento de IO ofensivo) resultou na divisão de forças, alocando uma parte para longe da operação decisiva.

O implemento de sistemas informatizados e integrados permite as forças em combate agilidade no trâmite e processamento de informação a um grau sem precedentes. Os sistemas de Guerra Centrada em Redes (NCW) tem efeitos multiplicadores do poder de combate. O objetivo destas melhorias é proporcionar informação em tempo real que permita entender a situação tática e agir dentro da intenção do comando, aumentando a capacidade da força e diminuindo os desafios operacionais. Enquanto os subordinados tem acesso à uma situação tática mais abrangente, o comando têm acesso a camadas de detalhe tático mais específicas.



sexta-feira, 10 de maio de 2019

O Carro de Combate (MBT) *


O carro de combate (MBT - Main Battle Tank) é o principal sistema de armas do campo de batalha terrestre atual, e atua como o núcleo de um amplo e bem dimensionado sistema de armas combinadas, em proveito da manobra de todos os principais exércitos do mundo. Esteio da moderna cavalaria, o carro de combate representa o principal elemento de choque do combate terrestre, e agrega poder de fogo superior junto e uma couraça pesada (blindagem), sobre um trem de alta mobilidade, que lhe confere uma capacidade de manobra da qual não se pode prescindir.

Eles desempenham em suas versões pesadas as funções de choque, engajando diretamente outros carros de combate em uma disputa de fogo, couraça, mobilidade e perspicácia, onde a tecnologia superior leva nítida vantagem, que porém de nada vale sem a habilidade das tripulações, a experiência dos comandantes e o apoio dos diversos escalões de campo, na moderna manobra de armas combinadas.

Nascido ainda de forma muito rudimentar na Primeira Guerra Mundial, onde ajudou a resolver o impasse da estática guerra de trincheiras, este sistema de armas imprimiu dinamismo às operações, e atingiu sua maturidade na Segunda Guerra Mundial quando os alemães lançaram sua blitzkrieg contra seus inimigos com grande sucesso.

O sistema das armas carro de combate está baseado no tripé mobilidade, proteção blindada e poder de fogo. Ele atua investindo a alta velocidade em direção a seus alvos, imprimindo-lhes o poder de fogo de sua arma principal tendo sua sobrevivência assegurada pela capacidade de sua couraça em resistir ao impacto dos projéteis que o atingem, sejam disparados por outros carros de combate, canhões diversos ou os mais lentos ATGWs. Um carro de combate parado em local não previsto é um alvo fácil, sendo a técnica de atingir a lagarta, uma das mais usadas pela infantaria para imobiliza-los com suas armas anticarro portáteis.

Durante a segunda grande guerra diversos modelos foram desenvolvidos, desde aqueles mais pesados que priorizavam a potência de fogo em detrimento da mobilidade até aqueles mais ágeis com armas mais leves e proteção inferior. O desenvolvimento tecnológico pós-guerra trouxe trens de forças mais capazes, sistemas de suspensão mais eficientes e blindagens de alta tecnologia que permitiram agregar canhões muito potentes no corpo de um sistemas de armas adequado, onde se alcançou o equilíbrio entre estes 3 quesitos. Organizados em unidades blindadas onde atuam emassados e contando com a proteção mútua proporcionada pelos outros carros de combate, infantaria, artilharia, engenharia de combate e helicópteros; o carro de combate moderno cumpre sua função inserido em uma complexa rede de informações eletrônicas (NCW) e contando com modernos sistemas embarcados de todos os tipos.




História e Evolução

A Primeira Guerra Mundial trouxe a luz os primeiros carros de combate, que como já foi dito, surgiu como uma solução ao impasse das trincheiras. Modelos classificados pelo seu peso em leves, médios e pesados; foram concebidos ora priorizando a mobilidade ou o poder de fogo, com nítidas limitações dos quesitos não priorizados. As limitações tecnológicas da época não permitiam que os trens de força desenvolvessem a potência desejada, e ou se tinha um veículo veloz ou dotado de uma arma potente.

Durante o período entre-guerras desenvolveu-se a doutrina de carros velozes que penetrariam as linhas inimigas a fim de desorganizar sua retaguarda e impedir que reforços chegassem a frente, cabendo aos modelos mais pesados, com maior couraça e poder de fogo, apoiar a infantaria no rompimento destas linhas e criando brechas para a cavalaria ligeira.

Surgiram então os tanques cruzadores, blindados de alta velocidade e couraças leves que penetravam as brechas criadas e avançavam sem o apoio da infantaria  com a intenção de atrasar o recompletamento, frustrar a logística inimiga, bem como sua estrutura de C2, minando desta forma a capacidade combativa das primeiras linhas. Em contraponto os chamados tanques de infantaria ou tanques pesados, ou ainda tanques de assalto, eram construídos com pesadas blindagens e armas mais potentes, e como deveriam acompanhar o combatente a pé não precisavam ser velozes. Seus trens de força eram vocacionados a mover lentamente pesadas armaduras sob as quais eram montadas armas potentes, tudo apoiado em lagartas largas capazes de transpor terrenos difíceis.

A Segunda Guerra Mundial apresentou a oportunidade para se testar um campo de batalha altamente móvel, onde batalhas foram travadas em centenas de quilômetros. Os conceitos táticos vigentes foram rapidamente superados e os carros de combates existentes se tornaram obsoletos. Os modelos pesados ficaram para trás não podendo acompanhar a velocidade das colunas vetoradas por aqueles mais leves e ágeis e consequentemente de blindagem inferior, que se tornaram presas fáceis para armas anticarro. Surgiram então os tanques médios, apresentando um melhor equilíbrio entre mobilidade e couraça, relegando os modelos leves à função de reconhecimento. Esta nova condição forçou a uma evolução das armas anticarro que passaram a ter que lidar com veículos mais bem protegidos. Modelos como o T-34 soviético, o Panzer IV alemão e o Sherman dos EUA personificaram esse novo conceito com motores de 300 a 500 hps, canhões de 75 a 85 mm e massa total em torno de 25 a 30 toneladas. O T-34 marcou a evolução desta arma como um modelo simples e eficiente, de produção barata e portanto fácil de repor, garantindo um contínuo ressuprimento de perdas. Foi o esteio das forças da URSS no confronto com os invasores germânicos na Segunda Guerra Mundial, e o carro de combate mais notável deste conflito.

Os engenheiros de sua majestade lançaram-se no desenvolvimento do tanque universal, que combinaria armadura e alta velocidade, tendo nos motores aeronáuticos da Rolls-Royce uma inovação que duplicou a potência disponível para estes veículos. Tanques de infantaria e tanques cruzadores passaram a competir nas pranchetas dos projetistas com o este novo conceito, sendo que os tanques leves deram seu lugar aos veículos de reconhecimento. O tanque universal viria para substituir simultaneamente os dois modelos, mas seu conceito logo tornou-se inadequado.  O tanque cruzador Cromwell foi o primeiro modelo a beneficiar-se do aumento de potência proporcionado pelos motores aeronáuticos, e seu desenvolvimento resultou no Centurion no pós-guerra, um tanque diferente de tudo o que existia. Este modelo era dotado de armadura resistente às armas anticarro existentes, que permitia desempenhar a função de tanque de infantaria, e ao mesto tempo contando com uma arma potente capaz de fazer frente a qualquer outro carro de combate existente, superando a mobilidade de todos os modelos leves, de infantaria, médios e cruzadores. Entrou em serviço logo depois do fim da Segunda Guerra lançando um novo conceito de carro de combate, o "Main Battle Tank" (MBT) ou tanque de batalha principal, sendo considerado o primeiro desta categoria, compondo as fileiras do British Army como seu equipamento principal, assim como a de outros exércitos amigos da Grã-Bretanha.

O fim da Segunda Guerra resultou em uma grande quantidade de carros de combate excedentes, retardando o desenvolvimento de novos modelos. A década de 50 trouxe a carga moldada (Ogiva HESH), tornando estes modelos disponíveis em grandes quantidades obsoletos, ensejando o surgimento de novos projetos para atender as demandas da Guerra Fria que se iniciava. Percebeu-se que os modelos médios poderiam portar canhões com calibres de entre 90 mm até 105 mm, capazes de sobrepujar qualquer armadura da época e longa distância. O conceito de tanque pesado vindo da guerra recém encerrada mostrou-se logo inadequado pois eram modelos caros e vulneráveis, além de não serem suportados pelas pontes existentes, e os dotados de armaduras leves e armas pouco potentes tinham papel limitado, não sendo a velocidade suficiente para substituir a armadura e o poder de fogo.




Novas armas anticarro surgiram, a possibilidade de guerra nuclear tornou-se uma realidade, e os carros de combate passaram a exigir armaduras mais resistentes. Armaduras mais espessas levaram ao desenvolvimento de canhões mais poderosos, e um veículo balanceado nas 3 características modernas surgiu, equilibrando poder de fogo, mobilidade e couraça, sendo o Centurion britânico seu primeiro representante. Eficientes e baratos o suficiente, logo vieram o T-54/55 e T-62 como tanques médios e o T-64 como MBT pelo lado do soviéticos, e o M-47/48 como tanques médios e o M-60 como MBT pelo lado dos EUA.

Na década de 70 China, França, Suíça, Suécia, Alemanha Ocidental, EUA, URSS, Japão, Itália, Índia e Reino Unido já fabricavam seus MBTs. As armas anticarro evoluíram rapidamente, podendo na década de 60 vencer 1 metro de aço. As armaduras laminadas com chapas homogêneas não mais eram satisfatórias. Os britânicos desenvolveram então a blindagem Chobham, uma armadura composta com camadas de cerâmica e outros materiais que foi adotada pelos países alinhados que oferecia proteção contra as ogivas HEAT. O advento do fogo anticarro  a partir de helicóptero forçou a distribuição da blindagem, antes concentrada na parte frontal. Esta distribuição também contribuiu para a proteção dos tripulantes em ambiente nuclear.

A  URSS baseou toda a sua doutrina no emprego do MBT. Desenvolveram carregadores automáticos que possibilitaram uma redução na altura do carro, mísseis anticarro (ATGWs) que estendiam o alcance para engajamentos; e constituíram numerosas unidades de tanques médios, baratos e fáceis de construir e repor. Os EUA enfrentaram a superioridade soviética apostando no uso do helicóptero de ataque, baseados em sua experiência no Vietnam. As guerras no oriente médio fizeram amplo uso dos MBTs, que por sua vez sofreram muito com o assédio dos helicópteros de ataque, com muitos analistas declarando-o obsoleto. Dispositivos explosivos improvisados (IEDs) tem se mostrado uma grande ameaça, com modelos especialmente sendo construídos para contrapô-las, em ambientes de guerra assimétrica.



Americanos e britânicos usaram seus MBTs com grande aproveitamento na guerra urbana do Iraque.  Eles apresentaram alta vulnerabilidade aos IEDs e tiveram suas retaguardas modificadas, contrapondo um tipo de mina remotamente detonada com capacidade de penetração. Na Segunda Batalha de Fallujah empregou-se os M1 Abrams com notável sucesso.

Outro avanço que estes combates assimétricos trouxeram foram as metralhadoras em torretas montadas na cúpula das torres, remotamente manejadas que permitiam que seus operadores se alojassem no interior do casco, reduzindo sua vulnerabilidade. As novas armaduras da atualidade não tornaram os carros invulneráveis, mas aumentaram a capacidade de sobrevivência da tripulação. Apesar das previsões sobre a falta de função para os MBTs no cenários futuros ele tem se mantido como principal meio dos exército modernos e mesmo em forças sem inimigos elencáveis como o Japão tem sido renovados.




Características

Um carro de combate moderno é basicamente um veículo fortemente blindado capaz de resistir a um alto estresse em combate, montado sobre um trem de força que lhe proporciona altíssima mobilidade mesmo em terreno "off-road", capaz de transpor obstáculos de todos os tipos dentro de suas especificações, como fossos e degraus, capaz de disparar projéteis de altíssima velocidade com seus canhões de alta pressão, e não projetado para transportar outros que não a sua tripulação.

Pode transpor terrenos de variados tipos como lama ou areia, pois são dotados de um par de lagartas que fazem com que rodem sobre seu próprio terreno. Estas lagartas devem ser projetadas para fazerem pouca pressão sobre o terreno, permitindo a transposição de terrenos macios. Lagartas são, na prática, um trilho que se estende a frente do veículo para que este possa passar sem dificuldades, facilitando a mobilidade com um custo de desgaste das mesma superior aos carros que rodam sobre pneus, sendo menos adequadas à estradas que estes e por este motivo requerem transporte para longas distâncias sobre pranchas rodoviárias ou trilhos ferroviários. São dotados de motores muito potentes, da ordem de 1.000 a 1.500 hps, que lhes permitem desenvolver velocidades acima dos 70 km/h, apesar de seu peso que pode chegar a 70 ton, podendo cobrir percursos de até 500 km sem reabastecimento. A carcaça é construída de forma estaque, para que possa submergir totalmente e cruzar rios rasos, apenas com um snorkel garantindo o suprimento de oxigênio ao motor. Esta estanqueidade também protege de resíduos químicos e biológicos porventura existentes no espaço de batalha, com admissão de ar atmosférico protegido por filtros, além de precipitação nuclear. Rios mais profundos exigem apoio da engenharia para serem transpostos, pois seu peso inviabiliza sua flutuabilidade.

O fator peso afeta a mobilidade dos MBTs também quanto a trafegabilidade, pois são mais lentos que o tráfego normal e provocam congestionamentos em determinados lugares que não podem evitar; danificam o pavimento devido a alta pressão que exercem e muitas pontes não estão em condições de suportá-los, requerendo análise prévia pelos engenheiros. No Iraque um M1 Abrams caiu no rio Eufrates devido a ponte não o suportá-lo, pois não houve possibilidade de reconhecimento prévio de engenharia, devido ao ritmo do combate. Condições de lama extrema também podem imobilizar um MBT, apesar das lagartas.

Os sistemas de controle de fogo sofisticados e a transmissão capaz de suportar os esforços de um motor muito potente deslocando um peso enorme a velocidades altas, aliado a baixa escala de produção dos trens de força, são os principais responsáveis pelos preços elevados de cada unidade.




Outro óbice à mobilidade é a dificuldade de transporta-los por via aérea, que requer aeronaves pesadas como os C-5 e C-17 da USAF ou An-124 russo, só disponíveis a pouca forças aéreas. A intervenção em locais distantes como a dos EUA no Iraque, requer que estejam pré-posicionados ou sejam transportados por navio em um tempo longo, pois mesmo dispondo das aeronaves, uma campanha requer que estas aeronaves transportem outras cargas e um número significativo de MBTs, priorizando-se aí o que é mais importante. Requerem ainda o apoio de viaturas de reabastecimento, como todas as outras viaturas.

Os primeiros MBTs contavam com armaduras espessas na parte dianteira constituídas por camadas de aço laminado. Depois vieram as blindagens compostas, porém os penetradores evoluíram sempre à frente sendo os mais potentes da atualidade aqueles que usam energia cinética (APFSDS) e que requerem canhões de alta pressão. Para reforçar a couraça contra os penetradores ATGW HEAT (carga oca) e HESH, foi criada a blindagem adicional ERA (blindagem reativa) por Israel nos anos 1980 que atua direcionando um jato explosivo contrário ao jato do projétil. Esta blindagem é montada sobre a blindagem principal e atua como reforço. A detonação da blindagem ERA oferece perigo ao infante que estiver próximo apoiando o MBT. Mísseis ATGW com cargas em tandem vieram para contrapor a blindagem ERA.

A blindagem Chobham foi desenvolvida usando uma composição de materiais cerâmicos e ligas metálicas de alta tecnologia, usada primeiramente no M1 Abrams e em seguida no Challenger 2 e provou-se eficaz nos conflitos do Iraque no início dos anos 2000 com numerosos impactos de rojões RPGs com danos insignificantes. Modelos posteriores destes rojões com cargas em tandem mudaram este cenário penetrando neste conflito a blindagem frontal do MBT britânico. Numa operação na guerra da Chechênia em 1994, fuzileiros russo perderam cerca de 100 carros de combate (T-72 e T-80) e um número parecido de outros blindados para o RPG-7 V2 em poucos dias de combate. Alguns MBTs utilizam chapas de urânio empobrecido, que combinada com outros tipos resistem a um primeiro impacto APFSDS, utilizando recursos de deformação, porém num segundo impacto sempre é inevitável seu rompimento, daí a importância do atacante efetuar disparos sucessivos na mesma pontaria.

Estão sendo incorporados aos MBTs mais modernos como o russo T-14 Armata tecnologias furtivas com intuito de reduzir assinatura radar e térmica, com camuflagens avançadas (RAM) que reduzem a assinatura térmica. Sistemas de proteção ativa (APS) vem sendo cada vez mais adotados para proteção dos MBTs. Eles visam detectar o projétil em trajetória de impacto e neutralizá-lo antes de atingir a blindagem, fazendo desta um segundo recurso, e se eficientes constituem valioso meio de sobrevivência.

As armas de um MBT são o seu canhão principal, de 120 mm nos modelos ocidentais e 125 mm nos russos, e ainda 105 mm em modelos mais antigos como o Leopard I, e sua metralhadora para fogo contra pessoal e antiaéreo, geralmente de 7,62 mm ou 12,7 mm. Canhões de alta pressão podem disparar projéteis cinéticos APFSDS deste 90 mm a 130 mm. Podem engajar outros MBTs, fortificações, edificações, pessoal e veículos leves, apenas trocando o tipo de munição. São montados na torres e atuam em conjunto com esta que lhe direciona em azimute, acompanhado dos eletrônicos de direção de tiro e mecanismo de recarga. São estabilizados para permanecerem sempre na horizontal e permitirem que sejam disparados quando o carro está em movimento. Os sistemas de controle de fogo incluem computador balístico, sensores meteorológicos e telêmetro laser para avaliação de distâncias, tudo funcionando com fusão de dados. Canhões que disparam ATGWs foram desenvolvidos e continuam sendo estudados como forma de aumentar os tradicionais 4 km de alcance, mas até o momento não foram adotados em massa, aumentando a dependência do apoio de artilharia. Os norte-americanos já o usaram e os russos os mantem em alguns regimentos. O fogo preciso do carro de combate é particularmente útil em combates urbanos onde os efeitos colaterais da artilharia causa danos desnecessários.

Estes canhões usam munição APFSDS que são penetradores de alta energia e velocidade com efeitos cinéticos para romper armaduras muito duras a longa distância, de HE com fragmentação ou não para fogo antipessoal e anti-edificação, de submunição contra pessoal, de carga moldada (HESH) contra armaduras mais leves e edificações, e HEAT (carga oca) contra blindagens mais resistentes, podendo ainda levar projéteis fumígenos. Armazenam de 30 a 50 disparos em compartimento separados para proteger a tripulação.

O principal papel do MBT é combater outro MBT, sendo usado nas tarefas de reconhecimento em força, onde o combate será inevitável. Nos ambientes de guerra assimétrica os MBTs atuam em apoio a infantaria e disparam a curta distância, carecendo do apoio desta. Na guerra urbana  fornecem cobertura ao avanço da infantaria através de sua blindagem e alvejam pontos fortes e paredes, abrindo caminho para os soldados a pé.

Emprego Tático do Carro de Combate
O Moderno Combate Blindado


A Manobra Americana no Vietnam *



Guerra na Paz

Os três primeiros anos de envolvimento americano no Vietnam foram tão decisivos quantos cheios de hesitação. Foi necessário todo esse tempo para que a máquina de guerra americana funcionasse a todo vapor e aperfeiçoasse as suas táticas. Mas então veio a ofensiva norte-vietnamita do Tet (Ano Novo Lunar) de 1968 e o início do recuo das forças americanas, que não conseguiram se adaptar com rapidez suficiente às necessidades da guerra na selva, e tiveram que pagar um alto preço por isso.

Na verdade, a situação não deveria ter causado maior impacto nos comandantes americanos responsáveis pela criação, equipamento e treinamento do ESV (Exército sul-vietnamita), que tinham acompanhado suas operações e visto de perto seus êxitos e fracassos. Já em 1963 os sul-vietnamitas mostraram sua incapacidade de empreender uma manobra efetiva de cerco e aniquilamento. Naquela ocasião os vietcongues escaparam sem grandes dificuldades às "malhas da rede", após castigar duramente , repedidas vezes, os sul-vietnamitas que os atacaram.

Os americanos também haviam adquirido ampla compreensão teórica da luta anti-insurrecional durante a guinada estratégica do governo Kennedy. No âmbito da nova doutrina de "reação flexível", o Pentágono realizara uma série de estudos e cursos de treinamento organizados a partir da experiência britânica na Malásia e da francesa na indochina (nome do Vietnam no período colonial).

Analisando as lições da indochina, os americanos chegaram a conclusão de que veículos terrestres franceses, inclusive os blindados, ficavam retidos nas estradas, tornando-se vulneráveis à emboscadas. Por isso decidiram enviar aos Vietnam um vasto parque de helicópteros, cerca de 4.000, quase cem vezes mais que os 42 aparelhos dos franceses. Só que estes helicópteros também ficaram retidos em seus campos de pouso e a escassez de blindados, veículos de enorme valia para deslocamentos em terreno irregular e combates a curta distância, representou uma séria falha na logística americana, que só começou a ser corrigida em 1968.

Outra lição da Indochina foi bem assimilada, tendo em vista o exemplo de Dien Bien Phu: a importância de assegurar suprimentos e proteção pelo ar às bases fortificadas. Foi esse um dos pontos-chave da atuação militar dos EUA no Vietnam.



Em geral, uma base de apoio consistia num perímetro circular de trincheiras individuais, destinadas a abrigar uma companhia de infantaria que podia cobrir com suas armas várias centenas de metros em terreno aberto. Essa área ficava cercadas por minas e arame farpado. Os alcances de tiro e prováveis trilhas de aproximação eram observados cuidadosamente. A potência de fogo imediata da companhia consistia em fuzis de assalto, lança-granadas, metralhadoras, foguetes anticarro e morteiros. Por si mesmas, estas armas podiam normalmente deter qualquer ataque, mas havia muito mais.

Em geral, o armamento da base de apoio incluía uma ou mais baterias de artilharia pesada (por exemplo, obuseiros de 105 mm e de 155 mm), que podiam cobrir um raio de 15 km; em certos casos, peças de artilharia mais potentes alcançavam 30 km e a proximidade das bases permitia que seus arsenais se somasse na defesa de um perímetro ameaçado.



Além disso, havia os fartos recursos proporcionados pela aviação, tais como foguetes aéreos colocados em helicópteros Huey, aparelhos de carga equipados com lança-chamas e mini-canhões; Cessna A-37 e outras aeronaves de baixa velocidade; aviões mais velozes, como o Douglas A-4 e o Fairchild F-105. Atuavam ainda o helicóptero experimental Chinook CH-47 ou "couraçado aéreo", o bombardeiro F-111 TFX; e acima de tudo a confiável "fortaleza voadora" B-52, que podia se aproximar a alta velocidade sem ser ouvida e devastar 1 km² com seus 40.000 kg de bombas metálicas (com 3 aparelhos voando juntos em arco).



Por um momento, o Pentágono acreditou que essa enorme capacidade de fogo bastaria para ganhar a guerra. Em diversas ocasiões, centenas de vietcongues foram abatidos em ataques noturnos por apenas alguma dúzias de soldados. Tais êxitos entusiasmavam os militares americanos partidários do body count, a estratégia da contagem de corpos como prova material de que a guerrilha estava sendo dizimada.

De fato, algumas bases de apoio nada sofreram enquanto foram defendidas por tropas dos EUA, e de qualquer modo poderiam ser rapidamente reconstruídas. O que os estrategistas não perceberam é que, nesses combates, era o vietcongue que definia seu próprio body count. Os guerrilheiros norte-vietnamitas só atacavam quando sabiam quantas vidas poderiam sacrificar sem perder a guerra. Surgiu desse modo uma situação de equilíbrio, na qual sua incapacidade para atingir as bases dos americanos era compensada pela extrema dificuldade destes em se apoderar das bases adversárias. Os ataques a "santuários" da guerrilha no Laos e no Camboja eram fonte de problemas políticos e mesmo com uma potência de fogo imensamente superior subsistiam obstáculos táticos.

A unidade fundamental de manobra dos EUA no Vietnam era a companhia de infantaria, com força nominal de uns 180 homens, mas que na prática não operava com mais de 120. Essas companhias encontravam grande dificuldade em mover-se na selva: seguindo em coluna por uma trilha, os soldados cobriam mais de 1 km de terreno. Isso tornava a "reação flexível" um objetivo remoto. Ainda menos viável eram a prática de cerco e aniquilamento, a ponto de um estrategista americano declarar: " a selva zomba de nossas manobras".



A Blindagem Vegetal

Quando os guerrilheiros eram encontrados  numa incursão americana, a luta ficava bem mais equilibrada. Em geral, a vegetação fazia mais do que esconder os vietcongues entrincheirados. Os projéteis mais leves fracassavam na penetração das casamatas ou dos grossos troncos de árvore, enquanto os obuses de 105 mm explodiam na mata fechada, cobrindo o solo de estilhaços, mas raramente ferindo vietcongues. A utilização de peças de maior calibre  era dificultada pela curta distância entre os combatentes, de algumas dezenas de metros. Por vezes, para abrir espaço à artilharia, os soldados americanos recuavam deliberadamente, mas isso criava oportunidades para contra-ataques.

Outra dificuldade era o fato de, em suas incursões, as colunas dos EUA avançarem a pé e não em veículos blindados, tornando-se vulneráveis ao fogo inimigo em terreno aberto. Imobilizados, os soldados não conseguiam aplicar a tática de "atirar e manobrar" preconizada em seu manual, com vistas a um assalto final.

Na verdade, os americanos logo verificaram que, sem o uso de blindados, tais assaltos finais cobravam um elevado preço em vidas e que, numa guerra de atrito, essas perdas eram inaceitáveis. "Cada vez que faço um homem manobrar", declarou um sargento americano, "ele leva um tiro. Ao diabo com a manobra".

Em 1967, os americanos tinham criado um novo manual tático, segundo o qual a infantaria "desblindada" deixava de ser uma força de assalto, assumindo o papel de simples patrulha de reconhecimento. Ela deveria avançar até uma área onde existissem bases inimigas, envolver-se em troca de fogo e identificar alvos a serem destruídos pelo armamento pesado. Tal tipo de ação era complementado pela atividade dos esclarecedores, grupos de infantaria leve especializados em infiltrar-se secretamente através das linhas do inimigo. Esses peritos deviam orientar o fogo de artilharia contra alvos promissores, recuando em seguida. Nos ares, o mesmo faziam os Loaches (Light Observation Helicopters - helicópteros leves de observação), capazes de localizar o inimigo e fustigá-lo a seguir com seus próprios minicanhões, sendo auxiliados por helicópteros de ataque ou por forças terrestres. Só que o ruído dos motores alertava os guerrilheiros e mais uma vez havia alto body count sem danos consideráveis a suas forças.

O que as novas as novas táticas americanas não poderiam fazer era substituir o papel da infantaria, isto é, acercar-se do inimigo e destruir suas formações num combate corpo a corpo. Ao reservar a função destrutiva à potência de fogo, o US Army parecia aceitar a derrota numa guerra impopular e oficialmente definida como "limitada".