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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Clausewitz e a Guerra Aérea das Falklands/Malvinas **061

Mj Av. Rodolfo Pereyra - FAUruguaia

A Guerra das Falklands/Malvinas foi um acontecimento na história que ainda se mantém latente na memória, especialmente na dos integrantes das forças aéreas dos países hispano-americanos. Atribuímos isto a fatores diferentes, como o fato de ter sido um desses países protagonista do conflito, a proximidade geográfica do local em que as ações se desenvolveram e a possibilidade real de colher informações dos que participaram diretamente da guerra. 

No nível profissional, porém, a atração pelo estudo deste assunto se deve à preponderância da batalha aérea sobre qualquer outra, para definir o destino das ilhas.

O sinal do interesse está em como a Força Aérea Argentina e o Componente Aéreo Naval conseguiram atemorizar a prestigiosa Marinha Real Britânica, que contava com um potencial armamentista e tecnológico muito superior. Por esse motivo, utilizar-se-á o Componente Aéreo Argentino como centro de gravidade, sem deixar de parte a cadeia de acontecimentos que levou ao conflito armado. O objetivo é realizar um paralelismo entre como os acontecimentos se desenvolveram e os conceitos filosóficos de K. V. Clausewitz, expressos em sua obra Da Guerra.

A complexidade interpretativa dessa obra é conhecida, mas o propósito aqui é destacar certos significados que ajudarão a refletir e fazer o acompanhamento do acontecido de uma forma diferente daquela das estruturas tradicionais. Isto permitirá, também, comprovar que os conceitos filosóficos de Da Guerra, que datam de 1881, ainda são aplicáveis, pois se tem verificado que, ao longo da história, muitos dos que levaram a efeito conflitos armados se apoiaram em Clausewitz, entre outros pensadores, para tomar suas decisões.


Governo, Povo e Forças Armadas
Aspectos políticos da guerra


Em 1982, os destinos políticos da República Argentina encontravam-se em mãos de um governo militar, sendo seu presidente o General Leopoldo Fortunato Galtieri, ao mesmo tempo Chefe do Estado-Maior do Exército. Ele foi um dos que se sucederam na chefia do governo militar estabelecido em seguida à derrubada da Senhora María Estela Martínez de Perón, em 1976. Em 1981, Galtieri substituiu o Gen. Viola, e, por sua formação profissional, imaginou-se que seu mandato seria um período de moderação, de trânsito para a democracia e de oposição a que a Argentina se integrasse ao Movimento dos não-alinhados, motivos que não fariam prever o desenlace de uma campanha militar no Atlântico Sul.

Não obstante, a deterioração da economia, herdada do governo anterior e aumentada em 1982, faria com que o Gen. Galtieri contemplasse a ideia de recuperar as Ilhas Falklands/Malvinas, bastião colonial inglês desde 1833, para salvar o prestígio do seu governo e encobrir as dificuldades econômicas que existiam.

Em 1982, a Grã-Bretanha era dirigida pela Primeira-Ministra Margareth Thacher, representante do Partido Conservador, que, apesar de ter conseguido seu segundo mandato por ampla maioria, em março daquele ano, estava tão impopular, por causa do desemprego de mais de dois milhões de pessoas e das dificuldades econômicas, que se acreditava pudesse chegar a ser o pior governo da história. 

A possibilidade, porém, de triunfar em um conflito armado, como poderia ser o das Ilhas Falklands/Malvinas, lhe daria a oportunidade de superar a crise de sua gestão e restaurar aos britânicos um pouco de orgulho. Segundo Clausewitz, "a guerra não é apenas um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, um gerenciamento delas por outros meios". Esta definição aplica-se a ambos os governos, pois a guerra que aconteceria entre ambas as nações resolveria, por outros meios, as divergências diplomáticas e, também, seria um instrumento político para superar as controvertidas situações internas de ambos os países.

Objetivo Político da Guerra


Em 2 de janeiro de 1833, por meio do Capitão John Onslow, no comando da corveta Clio, a Grã-Bretanha apoderou-se das Ilhas Falklands/ Malvinas. Onslow aproveitou sua superioridade militar para obrigar o Capitão Pinedo, no comando da canhoneira Sarandí, da Marinha argentina, e seu pessoal a abandonarem as ilhas. Desde esse dia, a Argentina perdeu a soberania sobre essas terras, iniciando-se a grande controvérsia diplomática pela sua recuperação. 

Em seguida à Segunda Guerra Mundial (1945), nascia a Organização das Nações Unidas e, em sua Carta (Cap. X), apresentava a "Declaração Relativa a Territórios Não-Autônomos", em que solicitava aos Estados membros indicar que colônias estivessem dispostos a descolonizar. Para surpresa da Argentina, a Grã-Bretanha incluiu as Ilhas Falklands/Malvinas entre as 43 possessões oferecidas.

Mais recentemente, em 1965, a Assembléia das Nações Unidas aprovou a Resolução 2065, que convida ambos os governos a negociarem a situação das ilhas. Essa resolução trazia embutido um grande dilema para a política britânica: 
  • 1º) cumprir ao pé da letra a Resolução 2065 da ONU que, ao final, deveria reconhecer a soberania argentina sobre as Ilhas Falklands/ Malvinas por não ter a Grã-Bretanha documentação probatória;
  • 2º) adotar linhas de ação que lhe permitissem adiar o cumprimento da resolução;
  • 3º) preparar-se para um enfrentamento armado. A segunda opção seria a de escolha pela Grã-Bretanha, mas um processo demasiadamente evasivo poderia conduzir ao desencadeamento da terceira opção: um conflito armado.

As causas da política interna argentina somadas à demora das negociações com a Grã-Bretanha e o incidente com o ARA Bahía del Buen Suceso, nas Ilhas Geórgia do Sul, promoveram a implementação do "Plano de Campanha Esquemático". 

Nesse plano, desenhava-se a operação militar para recuperar as Ilhas Falklands/Malvinas, mas não para mantê-las. Definia-se, assim, o objetivo político argentino: "ocupar para negociar". As intenções do governo argentino de fazer face ao enfrentamento armado foram claras. Diz Clausewitz sobre o objetivo político da guerra: "como a guerra é dominada pelo objetivo político, é o valor desse objetivo que determina a medida dos sacrifícios a serem realizados para a sua obtenção".

Portanto, em 2 de abril de 1982, a Argentina enviou 500 soldados, por mar e pelo ar, para ocuparem as Ilhas Falklands/Malvinas, com a finalidade de estabelecer um governo provisório, esperando que a Grã-Bretanha iniciasse as negociações para ceder as ilhas.

Para tanto, previa-se uma ocupação incruenta e que, uma vez realizada, as forças retornariam ao continente, permanecendo pequena guarnição nas ilhas. O fundamento do plano era que a Grã-Bretanha não empreenderia uma campanha militar de recuperação. Não obstante, a Argentina desconhecia que executar essa operação era dar o argumento necessário para que o governo britânico implementasse sua Terceira Linha de Ação, de recuperação das ilhas, formulada pelos Chefes de Estado-Maior com a finalidade de construir a Falkland Fortress(Fortaleza Falkland). A recuperação militar era legitimada pelo art. 51 da Carta das Nações Unidas: a guerra de legítima defesa, consagrada como direito de um Estado a defender-se contra ataque armado".

Os Três Aspectos da Guerra


Clausewitz criou um modelo que define a natureza da guerra: ". . . a guerra . . . em relação às suas tendências dominantes, constitui uma trindade maravilhosa, composta do poder primordial de seus elementos, do ódio e da inimizade que se pode ver como um impulso cego da natureza; da caprichosa influência da probabilidade e do acaso, que a convertem em uma atividade livre da alma; e da natureza subordinada de um instrumento político, pela qual recai, puramente, no campo do raciocínio". O primeiro desses aspectos interessa de maneira especial ao povo; o segundo, ao chefe e seu exército; e o restante, apenas ao governo.

Como se descreveu antes, o objetivo político argentino era "ocupar para negociar". Isto originou a "Operação Rosário", baseada no "Plano de Campanha Esquemático", que recomendava não levá-la a efeito antes de 15 de maio. Esta data não foi escolhida arbitrariamente, porque, se a Grã-Bretanha reagisse militarmente à ocupação, não conseguiria chegar às Ilhas Falklands/Malvinas antes de 5 de junho e, então, véspera da chegada do inverno, seria impossível um desembarque anfíbio. Porém, os incidentes produzidos nas Ilhas Geórgia do Sul fizeram com que a Junta Militar previsse o aumento das forças britânicas nas Ilhas Falklands/Malvinas, tendo sido decidido adiantar a data da ocupação para 2 de abril.

A reação descomunal do povo argentino à notícia da recuperação das Falklands/Malvinas fez ressurgir da letargia o orgulho nacional. Esta reação gerou fatos políticos imprevistos, como a modificação do objetivo político: "permanecer nas ilhas e enfrentar a investida naval britânica". Nota-se, então, que dois fatores do modelo trinitário—o governo e o povo—incentivam-se mutuamente para que a "causa" seja a finalidade, mas eram as Forças Armadas as que deveriam atuar ante um mundo de incertezas de êxito duvidoso. 

Clausewitz diz a respeito disso: "essas três tendências . . . têm raíz na íntima natureza das coisas e, além disso, são de magnitude variável. A teoria que se descuidar de uma delas ou que quiser ligá-las por relações arbritrárias colocar-se-ia instantaneamente em tal oposição com a realidade que bastaria isso para anulá-la".

O problema consiste em manter a teoria gravitando entre essas três tendências, como entre três pólos de atração. Na continuação, verficar-se-á como uma delas, as Forças Armadas, encontrava-se em contraposição às outras duas, dando como resultado a anulação da teoria.



A Teoria da Guerra
Princípio dos planos


Para Clausewitz, o princípio dos planos consiste em reduzir a potência inimiga ao menor número possível, quer dizer, ao aniquilamento de sua capacidade de combate: "a destruição das forças do inimigo sempre surge como meio maior e mais eficaz, a ele devendo ceder lugar todos os demais".

De seu lado, desde 19 de fevereiro de 1976, a Grã-Bretanha contava com três linhas de ação para defender as Falklands/ Malvinas: 
  • 1º) Descartar o emprego do meio aéreo.
  • 2º) Repelir uma invasão por meio de forças (anfíbias) de rápido deslocamento, previamente embarcadas.
  • 3º) Recapturar as ilhas militarmente. 
As linhas de ação foram elaboradas pelos Chefes de Estado-Maior das três Forças Armadas, sempre baseados em que a Argentina ocuparia as ilhas e logo em seguida as recuperaria militarmente, para conseguir o objetivo político britânico Falkland Fortress e desembaraçar-se de futuras negociações pela soberania das ilhas. 

Para vantagem da Grã-Bretanha, o comandante da Task Force [Força-Tarefa] 317 era o Almirante Sandy Woodward, que conhecia os planos desde 1974, quando fora Diretor Assistente de Planejamento Naval (Ministério da Defesa britânico). Ficou evidente a habilidade britânica para desenvolver seus planos e combinar todos os elementos, a fim de reduzir as capacidades de combate do inimigo à mínima expressão. Assim, em 2 de abril de 1982, quando se iniciava a operação anfíbia de desembarque nas Ilhas Falklands/ Malvinas (Operação Rosário) o Alte. Woodward recebia, ao mesmo tempo, ordem de inciar a "Operação Corporate".

A rápida resposta britânica assombrou a opinião pública argentina, mas não a alterou. Os Estados-Maiores das Forças Armadas, não obstante, demostraram profunda preocupação, ao mudar-se o objetivo político de "ocupar para negociar" para "defender as ilhas", tratando de realizar, em 4 de abril, um estudo de situação no mais alto nível operacional combinado.

Tendo os comandos argentinos tomado conhecimento da quantidade e capacidade operacional da Task Force 317, em especial de suas forças anfíbias e da provável aplicação de um bloqueio marítimo com o uso de submarinos nucleares, comprometeram a maior participação possível da Força Aérea Argentina (FAA). Esta, além de cumprir todas as tarefas impostas por sua doutrina, seria o único meio de ligação entre as ilhas e o continente, no caso de produzir-se o bloqueio marítimo. A designação generalizada e imprecisa das operações aéreas autorizava a FAA a executar toda missão de que fosse capaz.

Para a defesa terrestre das ilhas, decidiu-se aumentar o número de homens, dos 500 do plano inicial para 13.000, que foram deslocados, durante o mês de abril, por meios aéreos. Ficou evidente a ausência de um plano defensivo estudado meticulosamente pelos Estados-Maiores argentinos, o que levou a tomarem-se medidas apressadas, condicionadas pela velocidade da reação das forças britânicas e pela repentina mudança do objetivo político.

Centro de Gravidade


No Capítulo IV, do Livro Oitavo, Clausewitz define o centro de gravidade da seguinte maneira: ". . . é necessário que jamais se perca de vista as relações predominantes dos Estados beligerantes. Os interesses que se relacionem com eles formarão um centro de poder e movimento que arrasta tudo mais. É contra este centro de gravidade que deve ser dirigido o choque coletivo de todas as coisas". 

Ambas as forças haviam definido claramente seu centro de gravidade. A Grã-Bretanha escolheu Port Stanley (Puerto Argentino), por representar o centro nelvrágico (a capital) das Falklands/Malvinas e por encontrar-se ali o comando militar que dirigia a defesa das ilhas.

Para conseguir seu objetivo, o governo britânico formou a Task Force 317, que chegou a contar com 25.000 homens e cujo componente naval superou 100 navios. 

Entre estes, 40 navios de guerra: 2 navios-aeródromos, 3 cruzadores, 9 contratorpedeiros, 20 fragatas, 2 navios de desembarque e 4 submarinos. O resto constituía-se de 60 de apoio: 6 de desembarque logístico, 20 navios-tanque, 13 de carga em geral, 8 de transporte de pessoal, 2 de serviços especiais, 3 navios-hospitais, 4 rebocadores e 4 barcos de pesca adaptados. 

A maior parte dos navios de guerra tinha equipamentos eletrônicos extremamente modernos e eficazes para a época: radares de vigilância, radares de controle de navegação de mísseis, sistemas IFF e de contramedidas eletrônicas. 

No armamento aéreo defensivo com que contava a esquadra, destacavam-se os mísseis de longo alcance (até 60 km) Sea Dart, mísseis de ataque a baixa e média altura Sea Wolf, mísseis Sea Cat, canhões antiaéreos de 20 e 40 mm.

No que diz respeito aos meios aéreos, o principal avião de combate utilizado foi o Harrier, em suas duas versões, Sea Harrier FRS1 da Marinha Real e o Harrier GR3 da Real Força Aérea. Ambas as versões tinham seis "cabides" para armamento sob as asas: nos dois internos, portavam os canhões de 30 mm; nos dois intermediários, tanques de combustível ou bombas; e nos dois externos, mísseis Sidewinder AIM-9L infravermelhos de terceira geração (amplitude de visada de 90 a 120 graus e seis milhas de alcance eficaz).

Além do desdobramento desta força através de 14.000 km, a Grã-Bretanha delimitou, em 12 de abril, uma Zona de Exclusão Total, um círculo com um raio de 200 milhas náuticas com centro nas Falklands/Malvinas.

Do lado argentino, o centro de gravidade para a defesa das ilhas era formado pelo Componente Naval britânico; seu objetivo era fustigar a força naval o mais longe da costa que fosse possível, para impedir que seu armamento alcançasse as ilhas e suas tropas pudessem desembarcar. 

A FAA era a única que poderia cumprir esse compromisso, pois o outro meio era a Marinha, que logo após sofrer o afundamento do cruzador ARA General Belgrano (dia 2 de maio), pelo submarino nuclear HMS Conqueror, precisou recolher a esquadra à segurança dos portos. Os meios aéreos utilizados foram os da FAA e do Comando de Aviação Naval, e os aviões de combate que tiveram implicação direta nos ataques à esquadra e às tropas britânicas foram da FAA: Mirage III EA, Mirage 5 Dagger, Skyhawk A-4 B/C, Canberra MK 62, IA-58 Pucará; e do Comando de Aviação Naval: Super Étendard, Skyhawk A-4 Q, Aermacchi MB 339.

O armamento utilizado para os ataques aos objetivos de superfície era, em sua maioria, do tipo convencional: bombas de queda livre ou dotadas de freio aerodinâmico, de 1.000, 500 e de 250 libras; foguetes de 2,75 e 2,25 polegadas; canhões de 30 e 20 mm; e metralhadoras de 7,72 mm. Apenas o sistema de armas Super Étendard tinha a capacidade de lançar armamento de última geração guiado por radar: o míssel Exocet AM-39, de 600 kg, com alcance de 30 milhas. O estoque era reduzido; só tinham 5 mísseis. No combate aéreo, apenas o Mirage tinha capacidade de lançamento de mísseis: o Matra 530, projétil infravermelho de 6 milhas de alcance, com amplitude de visada limitada a de 30 a 40 graus (o que obrigava a aeronave a posicionar-se às 6 horas do alvo).

O desafio do Componente Aéreo argentino era superar a barreira tecnológica e armamentista para alcançar seus objetivos, missão difícil de cumprir. Isto leva a citar novamente Clausewitz quando se refere ao objetivo político da guerra: "o objetivo político, porém, não é um tirano; deve adaptar-se à natureza dos meios e, por isso, pode ser alterado com frequência, mas sempre é a ele que se deve atender preferentemente: quando o desgaste da força for tão grande que já não valha o objetivo político, este objetivo deverá ser abandonado e o resultado será a paz".


A Defensiva


A reação britânica de recapturar as ilhas por meio de ações militares, por ser surpresa, obrigou o governo militar argentino a seguir uma linha de ação que não havia planejado; sua atitude invasora lhe exigia adotar uma posição defensiva. A rapidez com que se formou a Task Force, produto do excelente Serviço de Inteligência Britânico, que havia alertado o governo quanto à invasão, fez com que o Gen Galtieri enviasse mais tropas às ilhas sem consultar o Estado-Maior Conjunto. 

As forças desdobradas pertenciam à 10ª Brigada de Infantaria Mecanizada (sem as viaturas blindadas) e à 3ª Brigada de Infantaria, que, junto com a 5ª Brigada de Fuzileiros Navais, baseada nas ilhas desde a ocupação, integrariam a defesa terrestre. Esta operação exigiu o apoio da aviação de transporte, que trasladou mais de 10.000 homens e material logístico durante todo o mês de abril. Mais adiante, poder-se-á apreciar como essa decisão afetou negativamente o curso da guerra.

Em 5 de abril, criou-se a Força Aérea Sul (FAS), sob o comando do Brigadier General Ernesto H. Crespo, com sede em Comodoro Rivadávia. Dele dependeriam todas as unidades aéreas designadas pela FAA e pelo Comando de Aviação Naval, com base no continente, estando organicamente subordinado diretamente à Junta Militar. 

O Comandante do Teatro de Operações do Atlântico Sul (CTOAS), Vice-Almirante Juan Lombardo, dirigia as unidades navais argentinas e a guarnição das Falklands/Malvinas, esta última por intermédio do Gen Menéndez (Exército argentino). O Gen Menéndez, para a defesa das ilhas, além das unidades terrestres, contava com aeronaves da FAA (Pucará IA-58) e do Comando de Aviação Naval (Aermacchi MB 339 e Mentor T-34C). O que foi dito demonstra que a organização do comando argentino para dirigir as operações era contrária ao princípio da operação combinada: "comando centralizado, integração máxima, plena utilização das forças e apoio mútuo".

No Capítulo I do Livro Sexto, Clausewitz refere-se à defesa como a forma mais forte de fazer a guerra: "porém para que o que se defende também faça a guerra, deve assestar golpes, quer dizer, dedicar-se à ofensiva. Assim, a guerra defensiva compreende atos ofensivos de ordem mais ou menos elevada, que formam parte de uma defesa."

Imediatamente após assumir a FAS, o Brig. Crespo ordenou o adestramento das tripulações em ataques a navios, utilizando, para simulação do objetivo, um moderno contratorpedeiro tipo 42 da Marinha argentina. Os resultados não foram alentadores; concluiu-se que os pilotos sofriam 50% de baixas durante os ataques. Apesar disso, continuaram os treinamentos até o início da guerra, demonstrando o Brig. Crespo ter inteligência e julgamento intuitivo para enfrentar o poderoso inimigo.

O Desenvolvimento da Guerra
Tática e Estratégia


"Daqui se originam duas atividades diferenciadas: preparar e conduzir separadamente os enfrentamentos, e combiná-los, uns com os outros, para alcançar o objetivo da guerra. A primeira atividade chama-se tática, e a segunda, estratégia."

Desta definição de Clausewitz pode-se concluir que a tática é apenas um meio que a estratégia emprega para alcançar o fim político da guerra. Como se disse antes, a posição argentina era defensiva, e o objetivo político o indicava: "permanecer nas ilhas e enfrentar a investida naval britânica". Para isto, a estratégia se fundamentava em denegar à esquadra britânica a aproximação à costa, para realizar seu propósito, e a Força Aérea Sul era o único meio que podia cumprir essa missão.

Entretanto, o Brig. Crespo encontraria diferentes obstáculos que impediriam o melhor desempenho de suas forças. Estes obstáculos foram consequências, alguns deles, de carências tecnológicas e outros, incrível que pareça, de aspectos organizacionais do Comando Supremo. Na constituição de defesa das ilhas, foi marcante a ação caprichosa do Gen Galtieri, que decidiu arbitrariamente enviar mais tropas para elas. 

Essa atividade durou todo o mês de abril e envolveu a força de transporte disponível: 4 C-130 e alguns F-27. A limitada força de transporte e a pequena extensão da pista (1.350 metros) impossibilitou desdobrar as peças de artilharia de maior calibre e as viaturas blindadas. A parca inteligência do Gen Galtieri, a que Clausewitz se refere no capítulo III de seu Livro Primeiro: "O Gênio da Guerra", não lhe permitiu intuir a necessidade de ampliar a pista de Port Stanley (Puerto Argentino) para que a aviação de combate pudesse operar dali. 

A FAA tinha os meios para executar a obra em pouco mais de uma semana. Se ela tivesse sido construída, o resultado da guerra poderia ter sido diferente.

Em consequência, a FAS teve de operar a partir de bases localizadas no continente, distantes das ilhas: BAM Comodoro Rivadávia (860 km), BAM San Julián (700 km), BAM Rio Gallegos (750 km), BAM Rio Grande (690 km) e BNA Trelew (1.000 km). Nas quatro últimas, distribuiu-se a aviação de combate: Mirage III EA, Mirage 5 Dagger, A-4 B/B/Q, Super Étendard e Canberra. Em Comodoro Rivadávia, foram baseadas as aeronaves de transporte, reabastecimento, vigilância, despiste, busca e salvamento, compostas por aviões C-130, KC-130, Learjet 35, F-27 e helicópteros.

Da frota de combate, só os A-4 e Super Étendard tinham capacidade de reabastecimento em vôo, procedimento que precisavam efetuar na ida e na volta de suas missões às ilhas. A distância entre as bases e as ilhas limitava as operações do Mirage III e Mirage 5 ao máximo de dez minutos, evitando-se, para isso, o uso do pós-combustor.

Esta limitação não permitiu que fosse conseguida a superioridade aérea argentina sobre as ilhas, nem que fosse oferecida cobertura aérea a toda missão fora do limite da autonomia dos aviões interceptadores. Além disso, a pouca disponibilidade de reabastecedores (2 KC-130) também impossibilitou ataques maciços à esquadra.

Apesar dessas restrições, os pilotos, com inteligência e valentia, conseguiram êxitos tão importantes que levaram o Alte Woodward a ter dúvidas quanto ao futuro da guerra: "naquela etapa a guerra se havia convertido em uma disputa de prêmio entre a Royal Navy e a Força Aérea Argentina. Quem estava ganhando naquele preciso momento? Receio que não fôssemos nós".

As derrubadas do dia 1º de maio (2 Mirage 3EA e um Canberra), dia do batismo de fogo da FAA, deixaram como lição ao Brig. Crespo que os ataques a alturas elevadas tornavam as aeronaves argentinas vulneráveis aos radares de vigilância e aos Harriers britânicos. Desde esse dia, as operações se fizeram rasantes sobre as ondas e, durante todo o conflito, este foi o procedimento tático aplicado para sobrepujar o escudo protetor tecnológico da esquadra britânica.

O Atrito na Guerra


Uma das criações mais características de Clausewitz é constituída pelo conceito unificado de atrito geral: "o atrito acaba sendo a única concepção que de forma bastante geral diferencia a guerra real da guerra no papel. A maquinaria militar, o exército, tudo o que a isto se relaciona é simples, e por isso parece de simples manejo. Devemos, porém, levar em conta que nenhuma parte dessa maquinaria se compõe de uma única peça, mas todas se compõem de várias peças, cada uma delas sujeita a seu próprio atrito em todas as direções."

Clausewitz considera o perigo, o esgotamento físico, a incerteza e o acaso como pilares do atrito geral (atritos particulares), por sua importância e influência em todas as guerras. Não há dúvida de que o Componente Aéreo argentino, do Brig. Crespo até o piloto mais moderno, experimentariam esse atrito.

O perigo é uma constante na guerra, quanto mais quando se ingressava no alcance do radar da esquadra britânica, expondo-se a ser derrubado por meio de algum de seus mísseis sofisticados ou pelo encontro com os Harriers e seus mortíferos Sidewinder AIM-9L. 

A Argentina teve 14 de suas aeronaves derrubadas por mísseis e pela artilharia antiaérea da esquadra no mar, bem como 19 pelo Harriers. O general da FAA disse durante uma conferência: " . . . antes da guerra pensei que se devesse ensinar um piloto de combate a voar em formação, atirar, fazer navegações táticas; logo compreendi que o mais importante era ensiná-lo a chegar a seu objetivo, a chegar a despeito do medo, da perda da própria vida, a chegar a despeito de tudo . . . "

Segundo Clausewitz a condição para vencer o perigo é a coragem. A coragem que se expressa no desprezo da morte e no sentimento de patriotismo permitiu que esses pilotos conseguissem objetivos muito importantes: seis navios e uma lancha de desembarque afundados, cinco navios postos fora de combate e 12 navios (entre eles dois navios-aeródromo) com avarias consideráveis.

O esgotamento físico esteve sempre evidente. Permanecer de três a quatro horas em vôo, em operação de combate, sendo que uma hora roçando as ondas e enfrentando diversos perigos, afetava o agir e o raciocinar dos pilotos, o que só era superado pelo treinamento em vôo que haviam feito. 

O Alferes G. G. Isaac, piloto de A4, voltando de sua missão de ataque ao Invincible, em 30 de maio, assim se manifestou: " . . . também me lembro de sentir muito calor. Até ali não o tinha sentido, mas, por mínimos que fossem os sintomas, estou relaxando. Quero desligar a calefação, mas quando tento levantar a mão do acelerador, percebo que o braço não reage. A tensão é tanta que ele está rígido, não obedece. Não insisto e aguento o calor . . . "

Em seguida a este acontecimento, ainda lhe era necessário efetuar o reabastecimento em voo para voltar à base. O Alferes G. G. Isaac foi um dos dois sobreviventes dos quatro que haviam participado da missão.

No nível dos comandos, a incerteza é um fator que mantém a inteligência em vigilância. Quanto maior é a capacidade do movimento do inimigo, maior a incerteza. As capacidades argentinas de reconhecimento eram escassas, mas, apesar de utilizar aeronaves que não estavam preparadas para estas missões (Boeing 707, C-130, LR-35), as habilidades de navegação e pilotagem das tripulações permitiram localizar numerosos objetivos. 

Exemplo disto foi o descobrimento da Task Force 317, em 21 de abril, no Oceano Atlântico, a 3.000 km da costa brasileira (Salvador, Bahia), utilizando-se unicamente a intuição, pois eram carentes da tecnologia de busca marítima.

O acaso, fator que aumenta a incerteza, não esteve ausente do conflito. Ao contrário, as carências de capacidade de reconhecimento e o curto alcance do radar (Westinghouse AM/ TPS-43F) pertencente ao Centro de Informação e Controle (CIC Malvinas) provocavam a realização dos ataques sem uma completa visualização do cenário. É preciso dizer que este radar, da FAA, era o único de maior alcance nas Falklands/Malvinas (360 km) desenhado para a vigilância aérea, mas sua imagem da superfície degradava-se à medida que a distância aumentava, reduzindo-se a 50 km de visão sobre o mar. 

Como, porém, Clausewitz mostra que para superar a incerteza e o acaso são necessárias inteligência e determinação, o exemplo seguinte nos explica: "o radar da Força Aérea instalado em Port Stanley (Puerto Argentino) começou a seguir as rotas de aproximação e, especialmente, as de retorno dos aviões Sea Harrier em seus voos de patrulha e ataque . . . depois de vários dias de acompanhamento, pôde-se comprovar que todos os aviões desapareciam da tela do radar em direções e a distâncias semelhantes. Os voos terminavam, evidentemente, em um pequeno círculo para o qual todas as linhas confluíam. Neste círculo estava o navio-aeródromo." Esta constatação levou ao ataque ao navio-aeródromo Invincible.


Forças Morais


De 1º a 20 de maio, a guerra teve principalmente dois protagonistas: a FAS e a Task Force 317. Ambas as forças se infligiram danos importantes e, apesar disso, a aviação britânica não pôde conseguir a superioridade aérea. Afirmou o então Secretário da Marinha dos Estados Unidos John F. Lehman, em seu relatório ao Congresso dos Estados Unidos, em 3 de fevereiro de 1983: "Apesar dos heroicos esforços dos pilotos de Sea Harrier, os britânicos nunca chegaram a conseguir algo que se aproximasse da superioridade aérea sobre as Falklands/Malvinas." A aviação argentina continuava chegando a seus objetivos.

Nessa época do ano, certos fatores favoreciam o trabalho dos britânicos: as condições meteorológicas da região e o curto período de luz diurna. Dos quarenta e quatro dias que durou a guerra, em dezessete deles os aviões sequer puderam decolar, por condições atmosféricas inferiores ao mínimo, e a luz solar só durava nove horas. O fator, porém, que mais favoreceu a esquadra foi o grande número de bombas que não explodiram ao alcançar seus objetivos, supondo-se que a baixa altura e a grande velocidade de lançamento não tenham permitido que se armassem as espoletas.

Se o sistema houvesse funcionado corretamente, resultaria incerto o destino da esquadra britânica.

Em 21 de maio começou o desembarque de 5.000 homens na baía de San Carlos. Os britânicos utilizaram as condições atmosféricas adversas para iniciar a Operação Sutton. Desta vez a meteorologia instável não esteve do lado deles. A situação melhorou rapidamente, possibilitando o ataque da aviação argentina, a que os britânicos chamaram Bomb Alley (corredor das bombas). Os ataques vinham do continente e das ilhas, mas, apesar dos esforços, as tropas britânicas se consolidaram na cabeça de praia de San Carlos e adjacências, em 27 de maio. A partir desse momento, a sorte do conflito se inclinou para os britânicos. Não obstante, a FAS continuou investindo contra a esquadra, como na arriscada missão de ataque ao Invincible.

À medida que as forças terrestres britânicas foram conquistando posições, a atenção da aviação se concentrou no apoio às próprias forças de superfície. O objetivo era evitar o avanço do inimigo e o desembarque de mais forças. Disso foram exemplos os acontecimentos em Baía Agradable (um navio de desembarque logístico e uma lancha de desembarque afundados, uma embarcação de desembarque fora de combate e uma fragata avariada), e os ataques diurnos e noturnos aos postos de comando. 

A FAS operou até o último momento da guerra e, embora sua missão fundamental tivesse chegado ao auge e o triunfo britânico fosse iminente, o empenho dirigia-se a manter elevado o moral das forças terrestres que resistiam ao avanço final inimigo. Então, dia 13 de junho (um dia antes da rendição argentina), o C-130 TC-65 aterrissou em Port Stanley (Puerto Argentino) para desembarcar um canhão de 150 mm, que não chegou a ser utilizado.

A incapacidade argentina de obter informação oportuna, devido à carência de um Centro de Inteligência e Informação competente, impediu-lhe de apreciar a real situação britânica no próprio momento que a FAS cumpria sua última missão. Relata o Alte Woodward, no navio-aeródromo Hermes, 300 milhas a leste das ilhas, em 13 de junho: "Já estamos nos limites de nossas possibilidades, com apenas três navios sem maiores defeitos operacionais (o Hermes, o Yarmouth e o Exeter). Da força de contratorpedeiros e fragatas, quarenta e cinco por cento estão reduzidos à capacidade operacional zero".

O Componente Aéreo argentino havia perdido, por diversas causas, 74 aviões, 33 deles em missões de combate, além de 41 tripulantes que sacrificaram suas vidas na obtenção dos objetivos da Pátria. Seria um sacrifício aceitável se, no momento adequado, houvesse tido a informação situacional correta para fazer sucumbir uma das esquadras mais poderosas e tecnologicamente avançadas do mundo.

"Então podemos observar o quão afastados da verdade estamos se atribuirmos a atos puramente racionais a guerra entre homens civilizados, e a concebermos livre de toda paixão. . . ."

K. V. Clausewitz

Conclusões


Em sua condição de Presidente e Chefe do Estado-Maior do Exército, o Gen Galtieri, principal responsável pelo conflito, desconhecia o funcionamento das modernas operações militares combinadas. Ele relegou a participação da Força Aérea nas ilhas, por acreditar que poderiam defender-se com uma grande força terrestre mal armada.

O Vice-Almirante Lombardo, Comandante do Teatro de Operações do Atlântico Sul, não foi melhor. Pretendeu defender as ilhas contra os ágeis Harriers equipados com Sidewinders letais e contra o escudo armamentista e tecnológico da esquadra britânica com aviões aptos ao combate em conflitos de baixa intensidade. 

Outra de suas decisões incorretas foi enviar o contratorpedeiro ARA General Belgrano em direção à esquadra britânica, sem cobertura antisubmarina, resultando na maior perda de vidas na guerra (321 homens).

As mudanças arbitrárias de objetivos políticos, sem minucioso estudo de Estado-Maior que respaldasse a viabilidade do conflito e a carência de um plano ou estratégia para alcançar esse objetivo, demonstraram que o Gen Galtieri e a Junta Militar não tinham capacidade de dirigir uma guerra. As capacidades a que se faz referência são as capacidades superiores que, segundo Clausewitz, é necessário ter para levar a efeito um conflito armado e que ele chamava "gênio da guerra". O Brig. Crespo, Comandante da FAS, foi o único dos comandantes que demonstrou competência e profissionalismo; pôde superar com êxito as diferenças tecnológicas, os problemas de alcance e carência de reabastecedores e de meios de reconhecimento.

Nada disso, porém, teria sido possível sem contar com a coragem revelada em cada missão pelos pilotos. É a coragem ante o perigo, que Clausewitz define como desprezo da morte e sentimento de patriotismo, elementos que geralmente as potências não levam em conta ao serem suplantados por avanços tecnológicos, mas que é um fator importante a ser considerado nas capacidades do inimigo, quando a inferioridade material e de tecnologia é suplantada pelo desejo de alcançar o objetivo estabelecido.

Os ataques rasantes e o emprego dos cinco únicos Exocets fariam mudar, uma vez terminado o conflito, a doutrina de defesa da prestigiosa e sofisticada Marinha Real Britânica.

150 anos depois de ter sido publicado o livro de K. V. Clausewitz, Da Guerra, iniciava-se o conflito do Atlântico Sul. É lógico que o autor não poderia referir-se ao papel do poder aéreo, mas seus conceitos filosóficos sobre os conflitos são os pilares contemporâneos sobre os quais se pode apoiar e desenvolver qualquer contenda armada. Pode-se afirmar que a Guerra das Falklands/Malvinas não foi uma exceção.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Blindagens Militares **100


Desenfiamento é um termo militar que se refere à organização de uma posição ou formação para proteção contra o fogo inimigo, usando o terreno ou obstáculos para colocar-se fora da linha de visada de armas inimigas, evitando ser atingido pelo seu fogo sem estar protegido por dispositivos do tipo “anteparo”. É o ato de posicionar-se de forma que simplesmente não seja possível que o inimigo o adquira como alvo. Envolve camuflagem, posicionamento em cobertura, manobra ou movimento constante, ou seja, minimizando a visibilidade e o tempo necessário para que uma pontaria seja consolidada.

O desenfiamento é a primeira garantia de sobrevivência de um elemento em combate, porém nem sempre este objetivo poderá ser cumprido, e haverá momentos em que projéteis atingirão seu alvo. Nestes momentos todos aqueles elementos que não contarem com uma couraça adequada tenderão a serem neutralizados.

A blindagem cinética cumpre a função de proteger veículos, instalações e soldados do impacto direto e devastador das armas de fogo modernas, com seus projéteis cinéticos e explosões, aumentando a capacidade de sobrevivência destes em combate. Ela é um elemento central nas estratégias de guerra móvel blindada e na proteção individual dos soldados.

A blindagem surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, quando para superar a impasse da guerra de trincheiras travada até então, que só fazia vítimas sem que a situação tática se alterasse de forma a buscar definições, os ingleses lançaram contra seus inimigos o primeiro carro de combate da história moderna. Na forma de um veículo motorizado denominado Mark I, armado com canhões e metralhadoras, e protegido por uma couraça de metal capaz de deter o fogo da infantaria daquele momento. Este veículo, para desespero das fileiras alemãs, podia avançar sobre trincheiras, arame farpado e outros obstáculos impunemente, de forma a dar fluidez e solução aos estáticos embates entre os ocupantes trincheiras daquele conflito. Construído para avançar sob o fogo das armas da infantaria da época, este primeiro carro de combate introduziu o uso da blindagem cinética moderna nos campos de batalha.

Desde então iniciou-se uma disputa de engenharia para vencer o novo desafio. Armas anticarro começaram a ser desenvolvidas, blindagens foram vencidas por estas armas, assim como novas blindagens resistentes a elas armas foram desenvolvidas e assim sucessivamente até os dias atuais. 

Os blindados Mark I, construído com chapas de aço de 6 a 12 mm era invulnerável às armas da infantaria daquela tempo, feitas para perfurar com seus projéteis o corpo humano ou algo um pouco mais duro, e portanto munidas de baixa energia. Como era inevitável, devido a sua baixa velocidade e pioneirismo de seu projeto, logo alguns exemplares foram capturados pelos alemães, quando soldados podiam subir neles e atirar pelas frestas existentes. Logo armas para parar estes veículos foram desenvolvidas, assim como novas versões resistentes a estas armas, corrigindo as deficiências das primeiras versões. Desde a introdução desta blindagem de primeira geração, outras tecnologias foram sendo desenvolvidas e acrescentadas, sem no entanto fazer com que esta deixe de ser usada. A primeira blindagem era constituída por chapas de aço, e as mais modernas blindagens também são constituídas por chapas de aço, com ligas de muito melhor qualidade e com o acréscimo de inovações como veremos a seguir.

As blindagens de primeira geração eram chapas de aço unidas por rebites, que quando impactados, quebravam e eram projetados para dentro, matando ou ferindo os tripulantes. No final da década de trinta ocorreu a primeira grande evolução neste design, quando os russo passaram a soldar as chapas e as montarem com um ângulo de inclinação em relação a trajetória dos projéteis. 

Um impacto que não se dá a noventa graus (ângulo reto) do alvo não tem a mesma eficiência, e portanto pode não perfurar a blindagem. Se penetrar terá que percorrer a chapa blindada em sua diagonal, ou seja, terá que percorrer um caminho maior e consequentemente dissipará mais energia. O simples ato de inclinar a chapa blindada aumenta a sua espessura sem aumentar o peso. Quanto menor for este ângulo, menor a energia dissipada pelo projétil que tenderá a ricochetear em ângulos mais acentuados, e buscar uma nova trajetória. Uma chapa de 50 mm, impactada a 45 graus equivale a uma chapa de 140 mm impactada a 90 graus. O T-34 foi o primeiro carro de combate a usar este tipo de blindagem, que com chapas soldadas de 27,6 mm, tinha o desempenho de uma blindagem de 70 mm graças a sua angulação.

Este padrão de blindagem homogênea predominou durante a segunda grande guerra até a década de 50, sendo que veículos melhor protegidos apenas tinham chapas de aço mais grossas, com consequente ônus no peso do veículo. Porém tornou-se necessário melhorar esta proteção que não mais fazia frente as armas anticarro que eram desenvolvidas, como as panzerfaust alemãs.

Surgiram as homogêneas de segunda geração, blindagens com chapas bimetálicas soldadas e fundidas em forma de sanduíche; sendo a externa de face endurecida por processos térmicos e a outra mais mole e deformável para absorver a onda de choque. esta blindagem passou a equipar os carros de combate no pós-guerra como os Leopard I e M60. 

Porém veio a década de 60 e as blindagens bimetálicas começaram a perder espaço para as ogivas HEAT de carga oca, sendo a popular RPG soviética sua grande representante. Estas munições injetam um jato de alta velocidade de cobre derretido em um pequeno ponto da blindagem, derretendo-o. Em face a esta ameaça os construtores de blindagens introduziram a blindagem espaçada, que nada mais é do que uma segunda blindagem afastada alguns centímetros da blindagem principal. Esta pré-barreira tinha por intenção acionar as ogivas que a impactavam, fazendo que detonassem precocemente, dissipando sua energia em seu rompimento e fazendo com que chegassem a blindagem principal, além de mais tênue com ângulo menor que os eficientes 90 graus ideais. Esta blindagem equipa os Leopard IA5 do Exército Brasileiro.

A década de 70 viu a introdução das cargas em tandem nas ogivas HEAT, onde a primeira carga perfurava a pré-blindagem e a carga principal perfurava a blindagem principal. Estas blindagem permaneceram nos veículos mais leves atuais, sendo os carros de combate, além de incluí-las, passaram a contar com couraças de aço cada vez mais grossas, sendo os carros cada vez mais pesados, onde os explosivos passaram a se mostrar ineficientes.

Contra estes passou-se a utilizar então da força bruta, com as munições de energia cinética (APDSFS). Este tipo de munição sem explosivo, viaja a grande velocidade (1.400 m/s) e ao impactar seus alvos em área reduzidas produziam grande temperatura (cerca de 1.800 graus Celsius) e violenta onda de choque, atravessando todas as camadas de blindagem, e podendo, dependendo do alvo, sair do outro lado a atingir outro carro que esteja atrás do primeiro. Estes projéteis são feitos de materiais muito duros como o carbeto de tungstênio e o urânio exaurido, e tem que ser disparada por canhões de alta pressão que lhe imprimem grande velocidade, necessária à sua eficiência.

Fez-se necessários novos desenvolvimentos para enfrentar esta ameaça, pois as blindagens usadas até então, não mais faziam frente aos projéteis de nova geração. Engenheiros ingleses deram o primeiro passo na 3ª geração de blindagens, inovando com o uso pela primeira vez de materiais não metálicos. Conhecida como blindagem Chobhan, nome da cidade em que foi desenvolvida, estas nova blindagem eram inovadora pois acrescentou aos modelos já existentes novas tecnologias. Consiste de um sanduíche de placas de cerâmica (óxido de alumínio), kevlar, titânio, blindagens espaçadas com placas de borracha em forma de colmeias, e outros materiais, muitos ainda sob um véu de sigilo. Embora os russos com seu T-64 tenham usado cerâmicas, estas só se tornaram eficientes com o arranjo inglês da década de 70. Esta blindagem mostrou-se eficiente contra os poderosos projéteis tipo flecha (APDSFS), além é claro dos projéteis explosivos (químicos), mais fracos.

Os componentes de cerâmica possuem ponto de fusão entre 2500 e 3000 graus. O Impacto da um projétil tipo APFSDS pode gerar uma onda de choque de 3000 graus se parar instantaneamente. A cerâmica, que é 70% mais leve que o aço e tem uma resistência balística (dureza) 5 vezes maior, é montada na parte externa das viaturas a fim de quebrar a ponta dos projéteis, diminuindo dessa forma a pressão que exercerá sobre as placas metálicas e consequente diminuição da temperatura que irá atingir, muitas vezes insuficiente para derrete-las. Não havendo derretimento não haverá perfuração. Porém se passar, camadas de kevlar com suas propriedades tentarão segurá-lo, e se ainda assim continuar penetrando as blindagens espaçadas preenchidas com colmeias de borracha absorverão a onda de choque e dissiparão o calor, evitando a detonação de munição estocada, fatal para a tripulação. Esta borracha age ainda no primeiro impacto atuando como amortecedor daquele primeiro conjunto, provocando uma desaceleração gradual e absorvendo parte da energia. Após ter sua energia diminuída, o projétil encontrará um segundo conjunto de blindagem e o processo recomeçará, desta vez com a energia despotencializada, certamente deformado e sem ponta,  não conseguindo atravessar mais este obstáculo.

As blindagens de 4ª geração são feita de materiais "high tech" e podem ser aparafusadas nas blindagens já existentes ou incorporadas aos novos projetos. A blindagem do Leclerc por exemplo é feita de um material que se expande ao impacto, aumentando sua espessura, do qual se sabe muito pouco. As blindagens aparafusadas podem ser facilmente substituídas em caso de avarias.

Existem ainda outros tipos de blindagem como a blindagem tipo gaiola, que consiste em uma grade de barras espaçadas e se destina na evitar a detonação de projéteis de baixa velocidade, disparados por armas tipo RPG. Ao penetrar na grade, os dispositivos de detonação não batem em nada, e o corpo mais largo do projétil fica preso na grade sem detonar. Este tipo de blindagem está sendo muito usado nas guerras de baixa intensidade, como as do Iraque a Afeganistão.

As blindagens reativas (ERA) são blindagens espaçadas dotada de explosivos que detonam ao impacto, criando uma onda de choque em sentido oposto a trajetória do projétil, contrapondo o jato da explosão e espalhando-o, impedindo de chegar a blindagem principal.

 

A Blindagem Moderna

O maior problema das blindagens é seu peso, pois devem resistir a castigos de grande monta em combate. A blindagem de veículos militares modernos de emprego geral foca em proteger tropas contra ameaças como tiros de armas leves, estilhaços e minas, usando materiais como aço balístico e vidro laminado, com tecnologias que incluem proteção modular, sistemas contra minas (até 6kg de explosivos), sendo mais leves que a blindagem composta de carros de combate principais (MBTs), mas essenciais para mobilidade segura em zonas de combate. Porém devem ter um peso compatível com o emprego do veículo e sua estrutura e potência.

Os tipos de proteção adotados são o aço balístico, onde chapas de aço tratadas termicamente ou com ligas especialmente desenvolvidas para resistir a projéteis de calibres variados e ogiva perfurante (7.62mm, 12.7mm). O vidro balístico se apresentam em múltiplas camadas de vidro e policarbonato. Kits de blindagem adicionais que podem ser acoplados para aumentar a resistência contra ameaças mais potentes (anti-RPG). A proteção contra minas (V-Hull/Piso) visa dissipar a energia de minas terrestres e dispositivos explosivos improvisados (IEDs). Muitos veículos dispõem de filtros e sistemas para proteger contra agentes químicos, biológicos, radiológicos e nucleares (gás, radiação). 

A Blindagem Espaçada

A blindagem espaçada é uma técnica que usa camadas de diferentes materiais (metais, cerâmicas, plásticos, ar) separadas por um espaço, visando desestabilizar ou destruir projéteis, especialmente os de carga oca (HEAT) antes que atinjam a blindagem principal, com composições que variam de placas metálicas simples a módulos complexos com cerâmicas e estruturas elásticas, como a blindagem Chobham (uma blindagem composta de origem britânica), sendo mais leve e volumosa que blindagens homogêneas de peso equivalente, mas eficaz contra ameaças modernas. 

Diferente da blindagem homogênea (uma única placa metálica muito grossa), a espaçada dispõem de espaço vazios, permitindo que o projétil se desloque ou exploda prematuramente. É usada tanto em blindagens mais simples como nas compostas e combina materiais como chapas de aço e cerâmicas extremamente duras, entre outras.

O efeito contra Munição HEAT (Carga Oca) funciona com a camada externa induzindo a carga moldada a detonar prematuramente, espalhando o jato de metal líquido antes que ele atinja a blindagem principal, ou esmagando-o, anulando sua capacidade de penetração. Contra munição cinética (APFSDS) o projétil (ou penetrador) de alta velocidade é desestabilizado, com sua trajetória desviada, e perde energia com sua ponta comprometida ao atingir as diferentes camadas e espaços, reduzindo seu poder de perfuração. 

A blindagem espaçada explora a física da interação projétil-material, usando diferentes densidades e propriedades mecânicas em camadas separadas para neutralizar as ameaças mais modernas, diferentemente da blindagem homogênea que depende apenas da espessura de um único material. 


A Blindagem Composta

A composição exata das blindagens modernas mais avançadas é um segredo militar guardado à "7 chaves"; no entanto, sabe-se que é uma composição de camadas de materiais diversos, que geralmente envolve uma matriz de cerâmica ultradura intercalada com outros materiais, como aço balístico, camadas elásticas/polímeros (borracha/plástico) e, em algumas versões, ligas de urânio empobrecido ou titânio. Elas baseiam-se na combinação de diferentes materiais para oferecer proteção superior contra uma ampla gama de ameaças, especialmente munições de alto explosivo antitanque (HEAT) e penetradores de energia cinética (KE). 

As Camadas de Cerâmica são o núcleo da eficácia destas blindagens e compõem-se de placas de cerâmica extremamente duras, que são a primeira camada a ser atingida após a placa de cobertura. A cerâmica absorve muita energia e se estilhaça com o impacto do projétil, dissipando a força e desestabilizando o jato de plasma de uma munição HEAT e quebrando a ponta dos projéteis cinéticos, aumentando a área onde este vai aplicar sua energia cinética, dissipando seu poder de penetração. 

Uma estrutura metálica (placas de aço) envolvem as camadas de cerâmica ligadas a uma placa de apoio (backing plate), que proporciona integridade estrutural e resistência a fragmentos. Placas de aço são cruciais para a resistência geral. As camadas elásticas (polímeros/borracha) são intercaladas entre as placas de metal, e a função dessas camadas é amortecer o impacto e, crucialmente, permitir que as placas de aço se movam e flexionem para desviar e quebrar o jato formado pelo ataque de munições HEAT. Outros materiais foram adicionados nas versões mais avançadas usadas em tanques como o M1 Abrams dos EUA que incorporam ligas de urânio empobrecido para proteção adicional, enquanto o Challenger 2 britânico pode usar inserções de tungstênio. 

Esta blindagem funciona como um "sanduíche" de materiais que combinam propriedades diferentes para resistir à penetração: a dureza da cerâmica, a tenacidade do aço e a flexibilidade das camadas elásticas que trabalham em conjunto para deformar, quebrar e dissipar a energia do projétil, tornando-a muito mais eficaz do que uma blindagem de aço maciço de peso equivalente. Versões de natureza modular (em "tijolos" ou módulos) permite a sua substituição em campo se danificada. Estas versões compostas são mais pesadas e geralmente equipam MBTs, e veículos derivados destes.


A Blindagem Reativa

A blindagem reativa é um sistema de proteçãoque usa blocos com explosivos (ERA) ou materiais não explosivos (NERA/NxRA) para neutralizar projéteis antitanque, como os de carga moldada, detonando em reação ao impacto (em direção oposta) para dissipar a energia do projétil e impedir a perfuração. Existem variações explosivas (ERA/SLERA) e não explosivas (NERA/NxRA), sendo as não explosivas capazes de resistir a múltiplos impactos, enquanto as explosivas são de uso único por local, mas mais eficazes contra certos tipos de ameaças, como os projéteis APFSDS. 

Contra Cargas Moldadas (HEAT) ela faz detona um explosivo (em ERA) ou a reação do material (em NERA/NxRA) que faz com que uma placa metálica se mova rapidamente, interceptando e desviando o jato de plasma do projétil, que é o principal mecanismo de perfuração. Contra penetradores de energia cinética (APFSDS) a explosão gera estilhaços que atingem o projétil, diminuindo sua velocidade e energia, e desviando-o, embora sejam necessários blocos maiores e mais potentes para isso. 

Estas blindagens aumentam drasticamente a proteção do veículo contra armas antitanque, como RPGs, a um custo relativamente baixo em comparação com blindagens espessas, a um peso reduzido. Pode ser "derrotada" por munições de carga em tandem (duas cargas ocas em sequência) ou múltiplos tiros no mesmo ponto, comprometendo a blindagem naquele local. 


O Blindagem Tipo Gaiola (slatted/cage armour)

Esta blindagem é projetada especificamente para proteger veículos blindados contra granadas antitanque tipo RPG (sigla em inglês para Rocket-Propelled Grenade). Atua como uma forma de blindagem espaçada, que funciona provocando detonação Prematura. A estrutura de barras ou ripas metálicas é projetada para fazer com que a ogiva do RPG colida e detone a uma distância segura da blindagem principal do veículo. Quando a ogiva detona longe da superfície, o jato de material fundido, que é o principal responsável por penetrar a blindagem, perde rapidamente energia e foco na distância entre a gaiola e o veículo (em centímetros), que reduz drasticamente seu poder de penetração. 

Este tipo de blindagem é comumente instalado em veículos mais leves, como viaturas blindadas de transporte de pessoal e caminhões militares, que não possuem blindagem principal espessa suficiente para suportar um impacto direto de um RPG. É uma solução de proteção adicional eficaz e relativamente leve em comparação com a adição de mais chapas de aço.  É uma solução de defesa relativamente leve e de baixo custo, eficaz contra uma ameaça específica e comum em conflitos modernos. É menos eficaz contra outros tipos de ameaças, como projéteis de energia cinética, e ainda há a possibilidade de a ogiva passar pela abertura da gaiola sem detonar ou a estrutura ser danificada após múltiplos impactos. 

O Kevlar

O kevlar é uma fibra sintética de aramida, incrivelmente resistente e leve, conhecida por ser 5 vezes mais forte que o aço por peso, usada em coletes à prova de balas, equipamentos de proteção, reforço de pneus, cabos e até em componentes aeroespaciais para proteção contra impacto e calor. Sua força vem de uma estrutura molecular com fortes ligações, que absorve e dissipa energia, tornando-a ideal para blindagem e segurança.  Agrega alta resistência a impactos, cortes e perfurações, com resistência à tração superior ao aço. Leveza, que aumenta o conforto em equipamentos de proteção e reduz o peso em composições para veículos, possuindo resistência ao calor. 

É utilizado em blindagens de veículos militares principalmente em aplicações que requerem uma combinação de alta resistência balística, leveza e flexibilidade. Seu uso é focado em proteger contra disparos e estilhaços, sem adicionar o peso excessivo do aço balístico tradicional em todas as áreas. 

É usado em veículos para blindar de áreas específicas. Em vez de revestir todo o veículo apenas com aço pesado, o Kevlar é usado em camadas finas e sobrepostas em áreas críticas para fornecer proteção contra calibres específicos. Isso ajuda a manter o peso total do veículo gerenciável, o que é crucial para a mobilidade militar. É muito eficaz em conter estilhaços de explosões ou fragmentação de projéteis, que podem ser tão perigosos quanto o impacto direto dos projéteis. Mantas de Kevlar são frequentemente usadas como revestimento interno para mitigar os efeitos de "spalling" (a projeção de fragmentos do próprio material blindado para dentro do veículo após um impacto), aumentando a segurança dos ocupantes. Pela sua leveza é utilizado na fabricação de componentes que exigem proteção, mas onde o peso é uma restrição severa, como em certas partes da fuselagem de aeronaves militares ou portas e pisos de veículos.

O  Kevlar permite um design de blindagem mais inteligente e eficiente, onde a proteção é otimizada pelo peso e flexibilidade do material, complementando outros materiais como o aço balístico e vidros blindados.


Sistemas de Proteção “Soft Kill”

Sistemas Soft Kill são contramedidas de defesa que visam interferir ou enganar sistemas de armas guiados (mísseis, drones), fazendo com que errem o alvo, em vez de destruí-los fisicamente (hard kill). utilizam técnicas como(interferência eletrônica (jammers) e decoys (iscas eletrônicas), cortinas de fumaça/chaff (obscurecimento), laser (ofuscamento de sensores) ou decepção IR para mascarar o alvo, garantindo a sobrevivência do veículo ou embarcação com um custo menor e mantendo a integridade da ameaça para análise posterior, como os sistemas MUSS e Shtora-1. Sensores (Laser Warning Sub-Systems - LWSS) detectam a aproximação de uma ameaça guiada (laser, infravermelho, etc.) e identificam a direção e tipo de ameaça, aplicando em seguida a contramedida disponível mais adequada.

Como exemplo destes sistemas temos o Shtora-1 russo que usa jammers infravermelhos potentes e ofuscadores para mísseis SACLOS (Comando Semiautomático na Linha de Visão). O MUSS (Hensoldt) que é um sistema modular para veículos de combate, e combina detecção e contramedidas como fumaça e jammers, e o LEDS 50 MK2 da Saabm que é um sistema terrestre que detecta e obscurece ameaças. Geralmente são mais baratos que sistemas hard-kill, permitem coletar inteligência sobre a ameaça, pois o míssil não é destruído. Podem ainda lidar com múltiplas ameaças e são mais fáceis de integrar em diversas plataformas.

Sistemas soft-kill são uma camada essencial de defesa, complementando as medidas hard-kill para aumentar a capacidade de sobrevivência de veículos e plataformas em ambientes de combate modernos. São complementos e não substitutos das blindagens “Hard Kill”.