FRASE

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Supressão de Defesas - Missões SEAD *201




Todos os alvos de alto valor, são hoje inevitavelmente protegidos por mortíferas redes antiaéreas compostas em sua última instância, depois de vencida a aviação de caça, por mísseis e canhões com pontaria endereçada por radar e ponto de impacto determinado por computadores balísticos. Neutralizar estes sistemas a fim de permitir que as unidades de bombardeio possam executar suas missões em segurança é o objeto das missões de supressão de defesas (SEAD), vital na guerra aérea moderna e por vezes negligenciada devido ao excesso de confianças nas tecnologias “stealth”.


Aviões de combate são meios valiosos e tendem a ser preservados ao máximo, razão pela qual suas rotas de voo devem ser o mais seguras possível. Além de preservar o valor desta aviação, as missões SEAD (Suppression of Enemy Air Defences - Neutralização de Defesas Antiaéreas Inimigas) constituem peça fundamental da própria missão de bombardeio, pois se não forem eficazes, o próprio bombardeio poderá ser frustrado. Os sistemas de defesa antiaérea (IADS - Integrated Air-Defense System) são a segunda arma de defesa de uma nação ou força armada, só precedidas pela aviação de caça e interceptação. O coração destes sistemas são os seus radares de direção de tiro, os quais são alertados da aproximação de seus alvos pelos radares de vigilância de área e alerta antecipado. Não menos importantes são seus centros de comando e controle, baterias de tiro, redes de comunicações e apoio logístico - notadamente as fontes de energia; porém neutralizar a operacionalidade dos radares, são a forma mais usual de se executar esta modalidade de missão aérea, sem os quais as armas propriamente ditas ficam virtualmente "cegas" ou descoordenanas. Destruir um radar de vigilância de área faz com que as baterias tenham que ligar seus radares para busca, tornando-se vulneráveis aos mísseis ARM.

Os campos de batalha modernos são caracterizados por vários sistemas integrados de defesa antiaérea e as missões SEAD fornecem acesso a esses ambientes protegidos. Na Segunda Guerra Mundial o poder aéreo provou ser uma ameaça significativa e crescente às forças terrestres e navais, bem como às cidades e centros de manufatura. Essa tecnologia de amadurecimento rápido impulsionou o desenvolvimento e o uso tático precoce do radar pelas potências aliadas e pelo Eixo. A introdução desses sistemas de radar primitivos, representou uma ameaça maciça para estas missões diurnas e noturnas, detectando-as antes que fosse capazes de atacar. Seu desenvolvimento criou a necessidade de contramedidas mais complexas para derrotar esta tecnologia nova e em evolução. No início da guerra, essas contramedidas táticas envolviam bombardeios e técnicas simples de coleta de informações e, a princípio, provaram ser bem-sucedidas nas primeiras operações. Isso marcou o início da missão que mais tarde seria conhecida como Supressão das Defesas Aéreas Inimigas (SEAD).

Estas missões nasceram com o advento de seu alvo, o radar. Já na II Guerra Mundial os bombardeiros alemães foram os primeiros a enfrentar o sistema de alerta britânico, e as primeiras missões antiradar foram desencadeadas. Rapidamente foram conseguidos avanços nos meios de guerra eletrônica e não demorou muito para que as primeiras missões de destruição fossem desencadeadas. Antes do desenvolvimento de uma plataforma dedicada, as missões SEAD eram realizadas por vários tipos de aeronaves que foram adaptadas para atender a uma necessidade imediata, mas as suas raízes cresceram a partir das táticas básicas desenvolvidas durante a Segunda Guerra Mundial. A detecção de radares naquela época tinha uma taxa de sucesso aproximada de 50/50. Bombardeiros e caças aliados tinham liberdade para atacar seus alvos ou serem descobertos e posteriormente atacado por artilharia antiaérea guiada ou enxames de caças vetorados por radar. Precisando priorizar seus alvos para acompanhar o fluxo da guerra, as aeronaves que voavam em missões de supressão de defesas inimigas redirecionaram seus esforços para localizar e atacar sítios de radares inimigos.

No teatro do Pacífico, os B-24 Liberators e B-29 Superfortress foram equipados com equipamento de alerta-radar muito primitivos e enviados para o território ocupado pelos japoneses a partir de 1944. Do ponto de vista estratégico, essas missões foram apelidadas de “furão de radar”, especialmente por causa da capacidade das aeronaves que eram equipadas para localizar sítios de radar inimigos “desentocando-os”, para serem destruídos pelos atacantes que vinham logo depois. Foi também neste teatro que equipes de “caçadores-assassinos” B-25 Mitchell foram montadas, e desenvolveram táticas e procedimentos básicos que seriam usados por futuras gerações de pilotos, e instituiu-se a frase “o primeiro a entrar, o último a sair”, uma frase que descreve a natureza abnegada da tática dos “ Weasel”. Um líder B-25 usaria seu equipamento de detecção de radar para localizar sítios de radar japoneses. Uma vez localizados, as equipes “Hunter-Killer” voariam em baixa velocidade, atacando seu alvo com bombas retardadas para destruir o local do radar e seu equipamento de apoio. A missão SEAD obteve sucesso constante ao longo dos estágios finais da Segunda Guerra Mundial, mas viu muito pouco uso durante as subsequentes batalhas de superioridade aérea da Guerra da Coréia. Foi só com o advento do sistema de mísseis SAM guiados por radar da URSS que estas missões evoluíram para a era do jato. O desenvolvimento continuou durante a Guerra da Coréia de forma muito acanhada, e foi no Vietnam com o aparecimento do SAM SA-2 Guideline que as missões SEAD alcançaram sua maioridade.

Com a Guerra do Vietnam em curso, as aeronaves e as táticas americanas avançaram, assim como a tecnologia usada pelos norte-vietnamitas. Estes sítios SAMs vitimaram muitas aeronaves e controlaram os céus durante os estágios iniciais da Guerra. Ao longo de vários experimentos e sucessos, tanto no Vietnam como na Tailândia, o papel das missões SEAD evoluiu, assim como as aeronaves que o desempenharam. O F-4G Phantom II chegou tarde demais para o conflito do sudeste asiático e foi o herdeiro das missões “Weasel”, período em que estas missões foram relegadas a segundo plano, mas não chegou a ver combate real, e na década de 1990 este programa da USAF tomou um rumo diferente. Após a operação “Desert Storm” o F-4G deixou o serviço ativo e os F-16CJ assumiram as missões SEAD da USAF. Criticado como aeronave inferior aos F-4, provou na operação “Iraqi Freedom” que os críticos, mais uma vez, estavam errados.



Os Alvos

Como dito, os alvos das missões SEAD são os radares de alerta antecipado da defesa aérea e os diretores de tiro de SAMs e canhões AAé. A finalidade destas missões não é destruir os radares e sim impedir que o inimigo use seus meios antiaéreos de forma eficaz, ainda que na maioria das missões a destruição seja o resultado final, o que é desejável pois impede seu uso futuro. Destruir os radares deixa a bateria inoperante, porém destruir toda a bateria impede que ela volte a operacionalidade com outro radar. Para que sejam combatidos com eficácia é necessário que os sistemas antiaéreos sejam conhecidos, e este reconhecimento é frequentemente efetuado em tempos de paz através de ações de EW estratégica que registram os diversos parâmetros de operação destes sistemas. Em tempos de guerra as ações de busca de alvos desta natureza são intensificadas com prioridade a localização e presença destes, uma vez que seus parâmetros quase sempre são bem conhecidos, a exceção daqueles que constituírem "novidades".

É virtualmente impossível desdobrar defesas eficazes em todos os locais que se façam necessárias, de forma que seu número e poderio será diretamente proporcional a importância do alvo que defendem. Montar este mapa, identificando brechas é a primeira tarefa dos envolvidos no combate SEAD. Se o defensor tentar cobrir tudo com defesas antiaéreas, fatalmente as tornará rarefeitas favorecendo o atacante que pode concentrar seus meios. São dispostas geralmente de forma escalonada, de forma a proporcionar a absorção gradual da ameaça com engajamentos múltiplos evitando a saturação do sistema. Este dispositivo também permite alerta antecipado às defesas posicionadas mais a retaguarda, dando-lhes maior tempo de reação. Desdobradas nas prováveis rotas de ataque, geralmente não cobrem todos os flancos e são limitadas em número. Outras contramedidas a SEAD são aumentar a mobilidade dos sistemas, conectar radares em rede, utilizar-se de detecção passiva e multiespectral e emitir apenas em períodos muito curtos

As baterias SAMs de longo alcance geralmente defendem alvos de valor estratégico e imóveis como postos de comando de alto escalão, radares de vigilância, refinarias, usinas de força, fábricas, bases aéreas, portos e áreas de desdobramento logístico. Esta muitas vezes são defendidas por baterias de SAM menores e canhões. Os sistemas táticos defendem concentrações de tropas, pontos de tráfego de grande valor, baterias costeiras e outros alvos de médio valor; e são dispostos em locais mais elevados. Os sistemas de bombardeio SEAD geralmente contam com recursos informatizados com a maioria dos sistemas memorizados, provenientes tanto das ações de tempo de paz que priorizam "envelopes de operação", como àquelas efetuadas durante a campanha que priorizam presença e localização. Num campo de batalha típico, muitos dispositivos antiaéreos operam simultaneamente, tanto amigos quanto inimigos, e cabe a estes sistemas subsidiar o operador de guerra eletrônica na escolha daqueles que constituem as maiores ameaças, bem como evitar de atingir sistemas amigos.



As Armas

Para se neutralizar um radar é necessário que ele fique inoperante durantes alguns momentos, para que a aviação de ataque possa transpor seu espaço aéreo em relativa segurança, e para tal as unidades de SEAD devem interferir eletronicamente de forma que ele perca sua eficácia ou coloquem um petardo qualquer, que não necessita ter uma potência muito grande, próximo o bastante para que seja posto fora de ação, neste caso em definitivo. Estes petardos podem ser bombas convencionais, dirigidas ou mísseis de emprego especializado. Estes últimos podem ser engenhos teleguiados ou de guiagem passiva com os ARMs (anti-radiation missile), que como o próprio nome diz, buscam a radiação emitida pelos seus alvos (radares de busca e direção de tiro). Apesar de seguirem um conceito simples, são poucos os modelos produzidos até hoje e os mais famosos são os HARM, Shirke e Standard norte-americanos; os Martel, ARMAT e ALARM europeus e alguns modelos russos como o AS-6 e AS-12. No Brasil foi desenvolvido o modelo MAR-1 para a FAB. São engenhos especialistas concebidos especialmente para este tipo de missão.

O uso de bombas não é aconselhável devido a necessidade de aproximação do atacante, e é usado como recurso extremo. Os ARMs devem ser projéteis muito rápidos devido a possibilidade do defensor desligar o radar, o que desorientaria o míssil.  A capacidade de "lembrar" a posição do alvo é útil nestas situações, e alguns modelos mais sofisticados as possuem. Outra característica destas armas é o longo alcance, a fim de não expor a aeronave lançadora através do disparo além do alcance das armas inimigas. Tecnologias como o data-link e os UAV são muito interessantes nestas missões, pois proporcionam troca de dados em tempo real com tempo de reação reduzido e baixa vulnerabilidade para os pilotos. A neutralização de sistemas anti-aéreos valendo-se apenas de interferidores eletrônicos também é possível e dependem das características dos equipamentos empregados. Porém o uso desta técnica não impede que os radares e suas baterias de SAMs sejam usados posteriormente.

As missões SEAD (Wild Weasel) no Sudeste Asiático

Este conflito protagonizou as primeira missões SEAD depois da Segunda Guerra, quando estas missões deram seus primeiros passos. Durante a Guerra do Vietnã, a principal ameaça às aeronaves de ataque era o SAM V-750 (S-75) Dvina, o primeiro míssil soviético realmente eficaz. Mais conhecido pela designação da OTAN por SA-2 Guideline, o míssil foi desenvolvido em meados dos anos 1950 e foi usado para derrubar o U-2 de Gary Powers sobre a URSS em 1960 e o U-2 do Maj. Rudolph Anderson sobre Cuba em 1962. O Vietnam do Norte começou a receber SA-2s logo após o início da Operação Rolling Thunder, e em 24 de julho de 1965, e um Guideline abateu um F-4C, a primeira das 110 aeronaves da USAF perdidas para SAMs no Sudeste Asiático. Após seu aparecimento, o SA-2 ameaçou interromper as operações aéreas sobre o Vietnam do Norte: na verdade, enquanto voavam baixo para evitar SAMs, os caças-bombardeiros ficavam mais vulneráveis ??ao fogo mortal da artilharia antiaérea (AAA), que os forçava a lançar suas bombas cedo ou descartá-las de qualquer forma. Além disso, os locais SA-2 eram cercados de AAA, o que os tornava ainda mais perigosos para ataques, como comprovam as perdas de aeronaves americanas sofridas no primeiro ataque contra 2 baterias SAMs conduzido em 27 de julho de 1965, quando 6 de 46 F -105s envolvidos na missão, foram abatidos e muitos mais danificados por AAA.

Para suprimir e destruir essa ameaça, a USAF lançou mão da coragem e habilidade dos “Wild Weasels”, que não só voaram algumas das missões mais perigosas no Sudeste Asiático, mas também se tornaram pioneiros nas operações de Supressão das Defesas Aéreas Inimigas (SEAD) em formato mais moderno, herdeiros dos aviadores da Segunda Guerra Mundial. As primeiras surtidas “Wild Weasel” foram realizadas no outono de 1965 e foram planejadas em torno do conceito de "caçador-assassino" usando 2 aeronaves: uma tinha que localizar as baterias SAM inimigas, enquanto a outra tinha que destruí-las fisicamente. A primeira, com a missão de caçar os SAMs, foi o F-100F, enquanto o avião assassino era o F-105. Em janeiro de 1966, o F-105F de 2 lugares foram escolhidos para substituir o F-100F e melhorar o desempenho de ambos os membros da equipe.

O Republic F-105 Thunderchief foi projetado para substituir o F-84F como um caça-bombardeiro para o TAC, graças aos seus aviônicos, possuindo capacidade de voo para qualquer tempo. Para servir como “Wild Weasel”, o “Thud” (como o F-105 foi apelidado por suas tripulações) foi equipado com o equipamento ATI (Applied Technologies Inc.) que contava principalmente com o dispositivo RHAW (Radar Homing And Warning) para monitorar diferentes frequências de radar. Essas aeronaves foram chamadas não oficialmente de EF-105Fs e oficialmente designadas como F-105F WW-IIIs (com WW-III significando Projeto Wild Weasel III). Para evitar o sobrevoo do alvo pelo F-105F, a USAF armou esta variante do Thunderchief com o míssil anti-radiação AGM-45 Shrike, que poderia ser lançado a até 10 milhas do alvo e, graças à sua alta velocidade, tinha um tempo de voo de menos de 60 segundos. Apesar de todas essas características, o Shrike tinha uma taxa de letalidade de apenas 25%, devido a sua pequena ogiva de fragmentação e um ataque sobre o alvo era frequentemente necessário para destruir o resto do complexo, pois o míssil apenas o danificava. O F-105F voou as suas primeiras missões em meados de 1966. Essas missões foram as mais perigosas da guerra porque os “Wild Weasels” tinham que chegar à área alvo antes da força de ataque e ficar por lá até que todas as aeronaves de ataque tivessem atingido seu alvo (daí o seu lema “primeiro a entrar, último a sair”), sendo exposto ao fogo inimigo (MiGs, AAAe SAMs) mais tempo do que qualquer outro. A força de ataque entrava e saía o mais rápido possível, enquanto os “Weasels” ficavam por ali por longos períodos. Após ter voado como piloto caçador de F-100F, o Coronel Edward Rock voou nas operações “Iron Hand” com o Thud. Ele se lembra de sua primeira surtida com o F-105F em seu livro “First In. Last Out”: “Minha primeira missão de combate em 11 de julho de 1966 ... foi normal, exceto que foi a primeira vez que vi um equipamento de alerta-radar (RWR) acender como uma árvore de Natal, com todos os radares dali tentando nos rastrear e engajar. Além disso, cada radar emitia seu próprio som particular. O radar SAM tinha uma assinatura muito distinta que parecia uma cascavel prestes a atacar. As luzes e o barulho eram suficientes para assustar você. " Esta impressão é dramaticamente confirmada pelas perdas do F-105F WW-III no primeiro mês de missões: na verdade, em julho de 1966, 11 Thuds estavam ativos no Vietnam, mas dentro de um mês 5 foram perdidos devido à ação hostil. Essa taxa de perda garantiu que nenhum piloto pudesse completar um tour de 100 missões como “Wild Weasel”.

Para reduzir as perdas, várias melhorias foram introduzidas, como o míssil AGM-78 Standard, com uma ogiva de 220 libras que podia ser disparada contra o alvo a uma distância de 60 milhas. Mas a característica mais importante foi a introdução do pod ALQ-101 ECM para reduzir a eficácia das defesas direcionadas por radar: com este pod permanentemente montado, o F-105F foi designado F-105G. Ainda assim, apesar de todas essas melhorias, as missões “Wild Weasel” continuaram sendo muito arriscadas para as tripulações dos F-105 e algumas delas foram premiadas com a Medalha de Honra por causa da coragem que demonstraram em combate. Como aconteceu com Merlyn Dethlefsen e seu EWO (oficial de guerra eletrônica) Mike Gilroy, em março de 1967: “Apesar de terem sido danificados por AAA, suas ações resultaram em tornar ineficazes os locais de SAM e AAA defensivos do inimigo na área do alvo e possibilitaram a garantia de que caças-bombardeiros pudessem atacar com sucesso.




A Natureza das Missões SEAD

Quando as forças de coalizão lideradas pelos EUA em 2003 operaram na libertação do Kuwait, a fim de expulsar o exército invasor do Iraque; foram as forças aéreas que fizeram a ponta de lança dos engajamentos, onde como preconiza a moderna doutrina militar, o poder aéreo destruiu a maior parte das forças invasoras muitos dias antes das forças em terra adentrarem o território kuwaitiano, onde encontraram um inimigo muito debilitado pelos seus algozes do ar. O sistema de defesa antiaérea do Iraque foi neutralizado em apenas 3 dias, reduzindo seu poder a armas de curto alcance, desvinculadas de um sistema integrado.

Em 1965 a USAF colocou em serviços seus primeiros esquadrões especializados em missões SEAD, denominados “Wild Weasel”, no Vietnam a fim de contrapor a extensa rede de defesa aérea de origem soviética com seus SAMs posta a serviço do exército do Vietnam do Norte. Relatos não oficiais dentro da comunidade “Weasel” dão conta de mais de 250 radares postos fora de combate por estas unidades. Porém como é comum na atividade humana, as valiosas experiências obtidas são logo esquecidas até que se precise delas novamente, e sejam recuperadas a um custo mais alto. Após o conflito, as capacidades de guerra eletrônica (EW) que permitiram alcançar este sucesso foram relegadas ao esquecimento, sem substituição. Em 1999 sobre a Sérvia não houve degradação do sistema de defesa aérea integrada após 78 dias de combates, porém em um ambiente de guerra assimétrica e irregular, estas deficiências foram pouco percebidas, tampouco o foram no Afeganistão, onde a defesa aérea era precária, descoordenada ou inexistente.

Em 2003 uma campanha de ataques letais destruiu por completo um sistema altamente integrado de SAMs e radares, de origem russa. Na ausência de uma ameaça moderna, a falta de capacidade implícita da USAF na Supressão das Defesas Aéreas Inimigas (SEAD) passou despercebida. Em um ambiente em que os EUA tinham uma supremacia aérea inconteste, o Pentágono esqueceu por completo que a superioridade aérea é necessária e como ela é alcançada.

Implicações Operacionais

A superioridade aérea é pré-requisito fundamental em qualquer campanha militar, em um ambiente onde o inimigo tenha capacidade de contrapor o controle do espaço aéreo. É possível conduzir operações eficazes quando nenhum dos lados tem a superioridade aérea, mas é efetivamente impossível se o adversário tiver o controle do ar (supremacia aérea). Na esteira da Operação “Desert Storm”, os grandes operadores globais foram lembrados do fato imutável da ameaça aérea e fizeram desde então grandes investimentos em defesas antiaéreas. A Rússia e a China lideraram a empreitada, colocando em prática dezenas de novos sistemas destinados não apenas a conter o poder aéreo, mas especificamente a combate-lo. As implicações abrangem uma série de missões da USAF, incluindo, e especialmente, contraofensiva aérea, interdição e apoio aéreo aproximado (CAS) em um ambiente “duro”. A doutrina “Wild Weasel” na época da Guerra do Vietnam era mirar os radares de aquisição dos SAMs, privando a defesa aérea divisionária soviética de endereçamento e forçando os operadores a adquirir alvos visualmente. Na Europa, com tetos muito baixos, visibilidade ruim e terreno ondulado, essa era uma boa aposta quando combinada com operações de baixa altitude. E valeu a pena na Operação “Desert Storm”, quando a tríade de combate eletrônico (F-4G, EF-111A e EC-130) destruiu as partes dependentes de radar dos sistemas de defesa aérea iraquianos integrados.

Da mesma forma, os aspectos não-SEAD das operações de contraofensiva aérea (SEAD é um subsistema do sistema de contraofensiva aérea) também dependem da supressão robusta e eficaz destas defesas. Até mesmo aeronaves furtivas como o F-22 exigirão um suporte SEAD robusto, assim como os F-117 e os B-2 fizeram durante a Operação “Allied Force” na Iugoslávia. As aeronaves não-furtivas são vulneráveis à detecção tanto por radar como ótica (incluindo IR) em alcances muito longos, mas as aeronaves com características furtivas não estão totalmente imunes à exigência de suporte SEAD eficaz. Sua assinatura varia em 3 dimensões com base no ponto de vista do observador. A realidade de se lidar com uma defesa antiaérea integrada é que não se pode manobrar para minimizar a assinatura contra todas as ameaças o tempo todo. É possível manobrar contra uma única ameaça, aérea ou terrestre; porém todas as outras têm um ângulo de visão diferente. Se os radares da ameaça não forem suprimidos, um deles obterá uma visada boa o suficiente do alvo para obter um rastreamento estável e consistente. Uma vez que um radar se fixe em um alvo, a quantidade de potência que ele pode alocar no alvo poderá aumentar em magnitude, e com mais força vem uma detecção mais clara. Qualquer que seja sua missão de contraofensiva aérea, quem estiver constantemente engajado, não a estará cumprindo.

Uma missão de interdição se deparará com o pior de todos os cenários possíveis. Quase por definição, um alvo de interdição é aquele que vale a pena destruir e, portanto, vale a pena ser defendido. É improvável que o alvo esteja secundariamente protegido pelo sistema integrado de defesa aérea. Geralmente está bem no meio, o que significa que as aeronaves que penetrarem estarão rodeadas de ameaças. Os sistemas de armas de ponto são impossíveis de suprimir a não ser por bombardeio direto, altamente vulnerável, mas são de curto alcance. Da mesma forma são os SAMs IR, também de curto alcance, que não funcionam com mau tempo e, como a artilharia antiaérea, não são fáceis de empregar de forma eficaz à noite. Se um defensor antiaéreo deseja cobrir grandes áreas de território com um sistema baseado em solo, ou fazê-lo à noite ou com tempo ruim, o radar é uma necessidade. Uma aeronave em uma surtida de interdição não só é incapaz de gerenciar os pontos delicados de manobra para maximizar a redução de assinatura, mas estará sempre rodeado de ameaças à espreita. Por outro lado, os ataques a estes alvos costumam ser “uma passagem”, onde a imprecisão não é pré-requisito. Apenas a primeira aeronave trará consigo o elemento surpresa, e quando as outras aeronaves aparecerem, todos os artilheiros já fizeram seus cálculos e chegaram à conclusões óbvias.

Em face de um baixo estado de prontidão em tempo de paz, aeronaves furtivas podem transpor através do espaço aéreo inimigo sem serem observadas. O mesmo acontece com as aeronaves sem estas características. O MC-130 é a aeronave usada para inserir e apoiar forças de operações especiais nas profundezas do território inimigo - e pode ser o mais eficaz penetrador do espaço aéreo de todos os tempos. O C-130 é a antítese de uma aeronave furtiva do ponto de vista de design. Ainda assim, nem os voos de reconhecimento individuais, nem os infiltrados do Comando de Operações Especiais estão tentando penetrar em um sistema de defesa aérea denso e alerta em números significativos o suficiente para surtir efeito. Contra uma rede de defesa aérea moderna, uma capacidade SEAD robusta, redundante e capaz não é um luxo - é uma necessidade.


As SEAD como Missão Componente

A experiência no Vietnã demonstrou que a supressão das defesas inimigas é uma missão dinâmica, que exige intenso treinamento e equipes dedicadas. A mistura da tripulação, combinando um piloto com um oficial de guerra eletrônica (EWO), foi a primeira de seu tipo, e foi mantida até a aposentadoria do F-4G “Advanced Wild Weasel”. Se o programa “Follow-on Wild Weasel” não tivesse sido cancelado, ele também teria um piloto / tripulação EWO. Os esquadrões “Weasel” não eram verdadeiras unidades multifuncionais, embora mantivessem altos níveis de proficiência em outras funções de combate aéreo. Esta especialização requer um grande investimento em treinamento realista, mas paga grandes dividendos em combate.

Não seria correto medir a eficácia de um esforço SEAD contando o número de radares neutralizados. O objetivo da supressão é tornar os mísseis ineficazes, enquanto as aeronaves aliadas ficam vulneráveis ao engajamento. A métrica não é o número de radares postos na inoperância, mas o número de aeronaves não perdidas. Neutralizar uma bateria de defesa antiaérea é a cereja do bolo e significa que ela não estará disponível no dia seguinte, mas uma missão SEAD é cumprida com sucesso apenas tirando o radar do ar por um curto período.

A tríade do combate eletrônico era uma coleção de várias contramedidas projetadas para atacar um sistema de defesa aérea em vários pontos. Os “Wild Weasels” de 2 lugares, originalmente os F-100F Super Sabres e, eventualmente, F-4G Phantoms, destinavam-se a localizar radares emissores e suprimi-los ou destruí-los usando mísseis ARM (anti-radiação) ou munições de queda livre, um avanço em relação aos foguetes do F-100F e armas burras. O EF-111A Raven dispunham dos mesmos poderosos bloqueadores de radar que o EA-6B da Marinha, e foi projetado para evitar que os radares de aquisição detectassem aeronaves e as passassem para os radares de controle de fogo. O subestimado EC-130H “Compass Call” começou a vida em 1981 como um bloqueador de comunicações, projetado para obliterar as comunicações de voz e dados para interceptores soviéticos e SAMs móveis. Posteriormente, foi atualizado para incluir seus próprios bloqueadores de radar. Todos os 3 sistemas, funcionando juntos, pretendiam trazer um sistema integrado de defesa aérea a um estado em que os radares não pudessem ver, os pilotos e controladores não pudessem falar e as atribuições de alvos não pudessem ser feitas - enquanto mantinha-se uma ameaça letal sobre as cabeças dos operadores de radar inimigos. Assim como o fogo supressor usando armas pequenas, o objetivo era obrigar os operadores inimigos a manter a cabeça baixa e prejudicar seu desempenho, caso decidissem tentar. O mesmo ocorria com os SAMs. A supressão ocorria nas mentes dos operadores de defesa aérea inimiga, lembrando estes operadores de que existe uma tripulação de caça bem armada e equipada com sensores que tem como missão principal colocar os sistemas de radar fora de ação. Um sistema SAM totalmente autônomo não poderia ser suprimido de forma eficaz se os computadores não se importassem com a autopreservação. Na Operação “Desert Storm”, os operadores de defesa antiaérea que perderam de vista os requisitos de preservação do sistema, morreram nas primeiras 72 horas. Operadores sobreviventes frequentemente respondiam à presença de interferência desligando seus radares com base na teoria de que, se havia um bloqueador lá fora, logo atrás dele estava um “Weasel”. Eles frequentemente estavam certos. Quanto mais cedo um operador descobria isso, maior a probabilidade de sua bateria sobreviver à guerra.

Esse nível de intimidação foi alcançado apesar de um ambiente em que se poderia pensar que o SAM levava vantagem. Afinal, o engajamento começa no momento da escolha da bateria, contra um alvo escolhido pelo operador, em condições onde é sempre uma surpresa para a tripulação. As condições podem se equalizar muito rapidamente, e um sistema SAM que ativa seu radar não é apenas revelado, mas destacado. Na Operação “Desert Storm”, diante de tripulações bem treinadas e muito agressivas, os sistemas SAM foram rápida e efetivamente alvejados em tempo real, mesmo quando os próprios “Weasels” eram os alvos. Durante esta campanha, houve 21 engajamentos documentados por um SAM contra um F-4G em que o operador não abandonou o engajamento no meio do caminho. Em 14 desses confrontos, a bateria SAM foi neutralizada pelo ala da aeronave alvo, sendo que nenhum F-4G foi abatido.

Alguns efeitos supressivos duram muito além do combate imediato, desde que uma ameaça letal e crível esteja presente. Os defensores antiaéreos sérvios planejavam mover-se após cada engajamento, tivessem sucesso ou não. O lançamento de um míssil ARM, era o sinal para a bateria do SAM abandonar qualquer disparo, desligar, embalar e se mover antes uma aeronave da OTAN aparecesse. Os sistemas de radar que permaneceram no local por muito tempo porque foram danificados, imobilizados ou simplesmente porque tinham operadores imprudentes, foram caçados e mortos pelos F-15E. Os defensores antiaéreos sérvios permaneceram vivos irradiando pouco e se movendo muito, e tudo isso prejudicou sua capacidade de defender seu espaço aéreo.


O Desafio da Mobilidade

Um dos resultados da Operação “Desert Storm” foi que as defesas antiaéreas mudaram sua doutrina de posições estáticas para uma condição de mobilidade. Começando em 1967 com o SA-4 Krug notoriamente incapaz, os soviéticos colocaram em campo SAMs móveis para proteção das unidades em manobra. O SA-6 Kub, colocado em campo no mesmo ano, era um sistema muito mais capaz e provou ser a ruína das aeronaves da IDF (Força de Defesa Israelense) sobre o Sinai em 1973. Os sistemas de acompanhamento eram móveis porque pretendiam defender as forças terrestres em avanço, não porque eles precisavam evitar ser atacados. Isso mudou depois de 1991, quando a mobilidade foi abraçada como um meio de evitar as consequências de ter emergido do esconderijo. Muitos sistemas antes estáticos, foram reorganizados em mais plataformas móveis. Hoje, apenas o enorme SA-5 Gammon permanecem imóveis, e por boas razões. Entre os países com redes de defesa antiaérea, a Coréia do Norte está sozinha em não abraçar uma doutrina de mobilidade, em vez disso, opta por fortificar seus sistemas, com o ônus de que não podem apoiar movimentos terrestres ofensivos com SAMs guiados por radar.

A campanha no Kwait significou o fim do sistema do radar estático. Hoje, todos, desde radares VHF de banda baixa até baterias SAM de longo alcance, são móveis. Mas a mobilidade tem um preço. Com exceção dos sistemas de alcance muito curto, como o SA-15 Gauntlet (Tor-M1) ou os sistemas Tunguska, os radares móveis não podem fazer capturas em movimento, muito menos atirar nesta condição. Sistemas SAMs em movimento, especialmente os sistemas de longo alcance, não podem operar, ficando inúteis nesta condição. Um elemento SEAD suficientemente agressivo pode forçar um adversário a uma postura defensiva em que os sistemas devem se mover após cada combate para evitar retaliação. Isso só pode ser realizado se o adversário acreditar que a retaliação contra uma posição revelada seja inevitável e eficaz. A mobilidade do sistema é um atributo, não uma restrição.


Manutenção da Capacidade de Penetração

O desafio de penetrar no espaço aéreo bem defendido não está sujeito a simples soluções tecnológicas. Não há "bala mágica" que de repente tornará obsoletos os sistemas modernos que estão em aperfeiçoamento desde antes de 1991. A negligência quanto a guerra eletrônica, atrasando atualizações de aeronaves e reduzindo horas de voo devido à ausência de ameaças momentâneas implicará em tempo e muitos recursos para se adquirir novamente estas capacidades. Independentemente dos formatos das forças futuras, sejam elas pesadas ou leves, a capacidade SEAD será um ingrediente indispensável para um implemento de poder aéreo confiável. Não apenas é necessário ter uma tríade de combate eletrônico moderna, mas esta deve ser explicitada a aliados e adversários em potencial. Em um ambiente dominado por SAMs avançados e redes integradas, são necessárias soluções personalizadas neste tipo de combate.

A Evolução da Ameaça

Desde a Guerra do Golfo, o ambiente de defesa antiaérea mudou radicalmente. As capacidades de guerra eletrônica americana destruíram as defesas antiaéreas do Iraque. O F-117A foi capaz de penetrar com relativa facilidade através de uma defesa antiaérea iraquiana construída sobre sistemas soviéticos que foram colocados em campo entre 1955 e 1970. O design furtivo do F-117 provou ser mais do que um desafio para os defensores aéreos iraquianos, mas esta vantagem foi transitória. Na Operação “Allied Force”, a USAF sofreu sua primeira perda em combate de uma aeronave stealth, abatida por SAMs sérvios com um par de sistemas de radar antigos que datavam de antes da Guerra do Vietnam. Estes sistemas que os iraquianos também tinham em seu inventário quase uma década antes.

Assim que os EUA mostraram suas novas capacidades, os russos e chineses sabiam exatamente o que a indústria de defesa americana havia feito e por quê - e começaram a tentar contra-atacar. Eles conheciam a física e entendiam perfeitamente que, mudando a frequência de seus radares para níveis inferiores, poderiam anular grande parte da vantagem dos EUA em relação à discrição de suas aeronaves.

A USAF estava presa em uma armadilha criada por ela mesma. Tendo abandonado em grande parte suas capacidades de guerra eletrônica (EW) comprovadas em combate para financiar a aquisição de aeronaves stealth, a mais poderosa força aérea do mundo se encontrava sem uma capacidade de combate eletrônico robusta, exatamente quando sua vantagem em stealth estava se desgastando. O desaparecimento de sua tríade (F-4G, EF-111A e EC-130) de combate eletrônico causou a perda de pessoal experiente, deixando poucos operadores na força com experiência em combate com os F-4G e EF-111A aposentados há muito tempo. Como resultado, a USAF demorou a reconhecer que foi tecnologicamente superada. Combinado o esvaziamento de sua força de caça devido a um quarto de século de negligência e subfinanciamento, correu o risco de retornar aos dias sombrios de 1965,quando enfrentou perdas sem precedentes de uma ameaça que deveria ter visto chegando nos céus do Vietnam. A ameaça evoluiu, e os dias de aeronaves furtivas fornecendo uma derrota decisiva acabaram. Em quase todos os aspectos, o equilíbrio relativo entre as capacidades dos EUA e a ameaça é pior do que há 25 anos. Entender isso é um passo necessário para restaurar uma capacidade de supressão de defesa capaz de permitir operações aéreas em face de uma ameaça de defesa antiaérea moderna.

Os Primeiros Experimentos

O radar surgiu como um meio de detectar e engajar aeronaves (e navios) na Segunda Guerra Mundial. Ele atua refletindo uma onda de rádio em um alvo que é medida pelo seu receptor. Assim que os sistemas de radar foram colocados em campo, os cientistas começaram a trabalhar em métodos para contrapô-los. Um desses métodos o de negar a reflexão, ou seja, através de um conjunto de técnicas totalmente passivas denominada tecnologia furtiva, reduzindo a quantidade de energia proveniente do radar que se refletiu em um alvo. Os EUA aplicaram o stealth (tecnologia furtiva) em uma parcela muito pequena de suas aeronaves de combate. Em 1991, havia 3.926 aeronaves de caça/ataque convencionais na USAF, incluindo aeronaves da reserva e da Guarda Aérea Nacional, em comparação com 55 F-117 furtivos. Essas 55 aeronaves foram apropriadamente consideradas uma reserva estratégica incomparável com qualquer lugar do mundo, mas os analistas da época previram que essa vantagem teria vida curta. Em 1985, a “Central Intelligence Agency” (CIA) publicou uma estimativa de inteligência nacional especial intitulada “Soviet Reactions to Stealth” que previu os rumos prováveis da pesquisa contra-stealth soviética. Não foi uma decisão difícil da CIA - a física teórica envolvida era bem compreendida pelos cientistas soviéticos.

Como um lembrete, quanto maior a frequência de um radar, menor o comprimento de onda. Frequências altas eram frequentemente preferidas para radares de controle de fogo, porque os feixes podiam ser estreitados e os comprimentos de onda mais curtos forneciam informações de alcance mais estreito. A compensação era clara - radares de baixa frequência (2.000 MHz e abaixo) podiam viajar mais longe e carregar mais energia, mas não podiam localizar alvos com precisão suficiente para atirar neles. Portanto, os radares foram efetivamente separados por função - os radares de alerta antecipado detectariam aeronaves a longas distâncias e, em seguida, os transferiram para um controle de fogo de alta frequência mais preciso ou para radares de rastreamento de alvos. Foram nestes radares de rastreamento de alvos que os projetos stealth americanos se concentraram, porque eram eles que direcionariam as armas. Foram os radares de baixa frequência que ofereceram a melhor chance de detectar aeronaves, mas se eles não podiam atirar (e não podiam), as defesas antiaéreas não se beneficiavam deles. Simplificada, a defesa aérea requer detecção básica (alerta antecipado) de aeronaves inimigas antes que as armas (SAMs e AAA) possam ser guiadas por radares de controle de fogo de alta fidelidade que rastreiam o alvo com mais precisão.

As bandas de rádio chamadas de “frequência muito alta” (VHF) e “frequência ultra-alta” (UHF) são, curiosamente, bandas de frequência relativamente baixas. Em 1978, quando foi tomada a decisão de produzir a aeronave F-117A, haviam 4 sistemas operacionais de radar de vigilância soviéticos que operavam na banda de VHF, 2 dos quais haviam sido copiados pelos chineses. Os radares UHF estavam em serviço generalizado. Mesmo assim, nenhum desses radares tinha capacidade de localização de altura e sua resolução era ruim, tanto em azimute quanto em alcance. Chamados de radares 2D, eles foram a última geração de radares desenvolvidos sem qualquer processamento de sinais digitais. Em suma, eles eram incapazes de fornecer a precisão necessária para guiar um míssil SAM. Sem um localizador de altura VHF (que não existia), esses radares de alerta precoce de baixa frequência não podiam nem mesmo determinar a altitude de qualquer aeronave furtiva que um operador de radar muito atento e habilidoso pudesse ter detectado. Os operadores de defesa antiaérea soviéticos (e seus clientes iraquianos), portanto, não estavam equipados para localizar o F-117, um fato que se tornou dolorosamente óbvio em 1991.

Mas os designers soviéticos não estavam dormindo. Na Guerra do Golfo, os soviéticos já haviam instalado 2 radares de alerta 3D modernos na faixa de VHF. “Tall Rack”, que foi referenciado no estudo da CIA de 1985, estava operacional antes do F-117, e os radares Soviéticos “Box Spring” e “Chinese Type 408C” foram colocados em campo antes da Guerra do Golfo.

Hoje, os russos e chineses construíram meia dúzia de novos sistemas VHF, atualizaram sistemas mais antigos e implementaram uma dúzia de novos sistemas nas bandas UHF e L. Algumas dessas capacidades, particularmente os radares mais antigos atualizados, foram amplamente exportadas. Como os sistemas de defesa antiaérea que eles suportam, esses sistemas mais novos são móveis e, em alguns casos (Vostok-E), podem estar em movimento em até 8 minutos após o desligamento. Os bons velhos tempos em que os caças stealth podiam contar com um ambiente esparso de radares de alerta precoce não apenas se foram - eles se foram há duas décadas.



Implicações Operacionais

Os radares de baixa frequência não são usados principalmente como uma solução antifurtiva; eles são amplamente utilizados onde o longo alcance é necessário e as soluções de controle de fogo não. Relatórios surgiram apontando de que o F-22 pode ser visto nos radares de controle de tráfego aéreo da “Federal Aviation Administration” (FAA). Esses relatórios são negados pela USAF ou ditos como sendo de pouca importância porque os radares nesta faixa não estão associados ao controle de fogo, uma afirmação categoricamente falsa. Os radares ASR-9 e ASR-11 da FAA operam na mesma banda S usada pelos radares “Fan Song” B / F (SA-2) e “Fire Can” (AAA) vietnamitas. Entre 1965 e 1971, SA-2 abateu pelo menos 130 aeronaves americanas. O número de aeronaves abatidas pelo “Fire Can” ou SA-2B / F de 1972 a 1973 não está totalmente claro. As bandas inferiores podem e detectam aeronaves com assinaturas de baixa radiofrequência (RF), mas podem e devem engajar aeronaves de caça.

Mesmo se um radar de alerta precoce não puder guiar um míssil, ele ainda pode guiar caças ou sinalizar outros sensores que possuam a precisão necessária para disparar um SAM. Os radares de defesa aérea modernos têm envelopes de incerteza muito pequenos, recursos concedidos com formas de onda complexas e processamento de sinais digitais. O maior valor da tecnologia furtiva é a capacidade de evitar a detecção. Uma vez detectado, esse valor é perdido. Pode ser que os radares de alerta antecipado não possam identificar imediatamente uma aeronave detectada, mas isso é irrelevante. Esses radares podem entregar aeronaves detectadas para outro sistema fazer o engajamento ou direcionar um interceptador. Os projetistas de radares russos e chineses pensaram nisso em detalhes ao longo de muitos anos. Em um sistema de defesa aérea denso como os da China ou da Rússia, um engajamento acabará acontecendo.

Por muitos anos, os sistemas SAM foram projetados para operar em frequências mais altas. Os radares de rastreamento de alvos SA-3, 5, 6, 10, 11, 12, 15, 17 e 20 operavam em bandas C ou X, com o SA-8 e SA-19 de curto alcance nas bandas Ku e K. Dado que esses sistemas estão amplamente proliferados, parecia que a baixa observabilidade otimizada para as frequências mais altas seria um bom investimento.

Mas, como os radares de alerta antecipado mencionados acima, os radares de engajamento viram uma mudança semelhante nas frequências de operação, particularmente em projetos chineses. Na última década, nenhum radar SAM chinês foi colocado em campo na banda I (banda X inferior), tão favorecida pelos designers soviéticos. Em vez disso, os sistemas chineses diminuíram de frequência e os russos adotaram a diversidade de frequência. O “Nebo M” russo, um sistema lançado em 2012, tem como objetivo específico detectar e engajar o F-35 usando um conjunto de 3 radares nas bandas VHF, L e X. Este é o primeiro sistema projetado como um conjunto integrado em vez de depender da integração de sistema externo usando um comando vinculado e arquitetura de controle, e é projetado para se conectar diretamente a uma bateria SAM no nível de subunidade ou (mais provavelmente) de brigada. Os sistemas de detecção passivos provavelmente podem ser integrados em uma configuração de bateria “Nebo M”. À medida que os sistemas SAM mais antigos envelhecem, o mesmo ocorre com a preferência pelos radares de banda X.

Para piorar a situação, os russos desenvolveram um radar de banda L para os caças Sukhoi Su-27/30/35 Flanker, uma banda de baixa frequência normalmente usada por radares terrestres. Buscando uma solução para combater os caças stealth, a Tikhomirov NIIP apresentou um radar AESA na banda L em 2009. Instalado nas bordas de ataque das asas e cauda do caça, foi o pioneiro de seu tipo no arsenal russo. Anteriormente, os radares de baixa frequência eram instalados apenas em sistemas aerotransportados de alerta antecipado, como o israelense Phalcon e o Gulfstream 550 Eitam, o indiano A50EI, o australiano Wedgetail, o chinês KJ-2000 e o novo E-2D da US Navy. Equipar caças com radares de baixa frequência é uma tentativa explícita de permitir que caças russos enfrentem caças stealth norte-americanos, como o F-22 e o F-35.

Felizmente para a USAF, ela não teve que aprender sobre essa ameaça da maneira mais difícil, ainda. Os EUA nunca enfrentaram um SAM de “2 dígitos” em batalha. O SA-10 foi colocado em campo em 1980, mas nunca foi exportado para o Iraque ou a Sérvia. Consequentemente, a USAF nunca teve que lidar com uma ameaça altamente móvel, capaz de envolver vários alvos simultaneamente com mísseis hipersônicos. Hoje, os sistemas SAM de longo alcance são protegidos por SAMs de curto alcance, que podem ser defendidos por baterias de ponto. Além do radar, os sistemas passivos de detecção de radiofrequência estão se tornando mais acessíveis e melhores. Pode-se comprar uma câmera térmica pela internet. Cientistas chineses estão explorando técnicas de detecção de alvos multiespectrais para a esteira de exaustão emitida pelos jatos. Os métodos para localizar aeronaves estão recuperando o equilíbrio perdido quando o F-117 explorou sua vantagem de baixa detectabilidade. Reduzir a assinatura de uma aeronave sempre fornece algum tipo de benefício de sobrevivência, mas esses benefícios têm um custo que pode ser inaceitável em combate. Considere o F-117, que tinha uma assinatura muito baixa em vários espectros, mesmo além do radar, porém era muito limitado em carga útil, não podia agir cooperativamente, não possuía capacidade ar-ar e era fundamentalmente bom apenas para atingir grandes alvos fixos vulneráveis com armas na classe de 2.000 libras em um alcance relativamente próximo. Uma aeronave muito específica para alvos muito específicos, com flexibilidade operacional muito pequena.


Os Efeitos da Redução da Assinatura

A redução da assinatura-radar ainda continua válida; com todas as outras variáveis se mantendo, ela reduz o alcance no qual uma aeronave pode ser engajada por uma ameaça específica. Isso é mais importante para algumas aeronaves do que para outras. Embora usar dados de código aberto para calcular intervalos de detecção seja um negócio arriscado, as curvas de detecção têm todas a mesma forma. Reduzir a seção transversal do radar (RCS, ou assinatura do radar de uma aeronave) de 10 metros quadrados (F-4) para um metro quadrado (B-1B) tem um efeito muito grande na faixa externa do envelope de detecção, mas reduções subsequentes em assinatura tem efeito progressivamente menor na faixa de detecção absoluta. Por exemplo, para em um moderno sistema de defesa antiaérea de curto alcance (SHORADS), uma aeronave com um RCS de 10 metros quadrados (menor que um F-4 Phantom) pode ser vista pelo radar a 48 milhas náuticas. No momento em que o RCS desce para 0,1 metros quadrados (aproximadamente o tamanho de um drone), o radar de aquisição pode detectar o alvo cerca de 30 segundos antes de atingir o alcance máximo do míssil. Contra um alvo de RCS genuinamente baixo, o alcance de detecção está dentro do alcance do míssil, o que significa que no momento em que a aeronave é detectada, o SAM desistiu de seu envelope de engajamento, assumindo que o alvo não foi visto por sensores ópticos.

Calculando o Alcance

A equação de alcance do radar é bem conhecida. Não há dúvidas sobre as implicações da redução das assinaturas de radar entre os adversários dos EUA, mas falta um pouco o conhecimento equivalente sobre os desenvolvimentos de ameaças enfrentadas pelo poder aéreo. Com a aposentadoria dos meios de guerra eletrônica, a USAF se desfez de uma comunidade de aviadores que possuíam profundo conhecimento da ameaça adversária. Isso, por sua vez, levou a uma dependência excessiva da furtividade-radar, em detrimento de outras capacidades que podem ajudar na penetração do espaço aéreo defendido.

Para os sistemas SAM mais poderosos, a invisibilidade do radar sem assistência pode não permitir que uma aeronave chegue mais perto, mesmo em voos baixos. Sobre a água, um caça a 200 pés de altitude atinge o horizonte do radar do Vostok E a 25 milhas náuticas, o que requer uma enorme redução de assinatura. Para um operador sem armas de longo alcance, é muito trabalhoso manobrar para se afastar de um alvo bem defendido. Mas existem técnicas testadas pelo tempo que podem complicar ainda mais o desafio para um defensor aéreo, como o ataque eletrônico (bloqueio) ou supressão de defesa letal usando mísseis ARMs. Independentemente das medidas usadas para atrasar o engajamento, a SEAD ainda é um atributo-chave do campo de batalha moderno.

Deve estar claro para as forças aéreas agora que a abordagem sem suporte de média altitude imaginada pelos partidários de aeronaves furtivas é simplesmente inviável contra uma matriz de ameaça que é móvel, interligada e usa múltiplas modalidades de sensores para detecção de alvos, identificação e ameaça avaliação. Os conceitos atuais para lidar com um ambiente de negação de área são sutis em detalhes de execução, com muitos procedimentos operacionalmente não executáveis. As forças aéreas que quiserem ter alguma capacidade de penetrar no espaço aéreo bem protegido com massa crítica suficiente para realmente alcançar efeitos significativos, terá que adotar técnicas mais antigas e reconhecer que o ambiente de ameaça hoje é qualitativamente diferente da ameaça enfrentada pelo F -117A há um quarto de século. A ameaça evoluiu, e as forças aéreas também devem fazê-lo.








Executando a Missão

O perfil de um missão SEAD difere de uma força a outra, de acordo com as doutrinas específicas de cada uma. No entanto, pode-se descrever um roteiro genérico que adaptados as especificidades de cada força, mostra de uma forma bem sintética como estas missões são executadas:

Para que possam ser disparadas, as armas antiaéreas devem ser alimentadas com os chamados elementos de tiro, ou seja, uma deriva e uma elevação. Devido a fugacidade de seus alvos, um projétil antiaéreo deverá "adivinhar" em que local do espaço aéreo seu alvo estará quando ele lá chegar, ou no caso dos mísseis ser capaz de corrigir sua trajetória de acordo com o deslocamento e as manobras daquele. Tais elementos são determinados baseados em dados como distância, altura, velocidade e trajetória do alvo obtidos por radares de direção de tiro. Estes "dados brutos" são processados por um computador balístico que os transforma nos elementos de tiro, os quais são fornecidos para as armas propriamente ditas "fazerem fogo" de forma eficaz. Toda esta operação transcorre em frações de segundo.

O objetivo específico de uma missão de supressão de defesas é atingir estes radares diretores, sem os quais as antiaéreas a SAMs deixam de ser eficientes, ficando literalmente "cegos" e atirando a esmo. Como toda missão militar, as SEAD começam com as incursões de reconhecimento, neste caso com aeronaves especializadas em EW a fim de identificar equipamentos e determinar localizações, de forma que um plano de ataque eficiente possa ser montado.

Para atingir estes radares usam-se os chamados mísseis anti-radiação (ARMs), projéteis que são guiados pela radiação emitida pelo próprio radar-alvo. É importante que o radar esteja ligado para orientar o míssil. Estes normalmente ficam desligados evitando denunciar sua posição ao inimigo, sendo ligados por breves instantes e novamente desligados. Ao serem alertados pelo radar de vigilância da aproximação de aeronaves, os artilheiros ligam seus radares, colocando-se em condições de disparo. Neste momento a aeronave fica extremamente vulnerável, razão pela qual deve-se usar uma aeronave-isca (normalmente uma não tripulada), capaz de simular eletronicamente as aeronaves esperadas pelos artilheiros. Se estes desconfiarem do engodo desligarão imediatamente os radares-diretores, frustrando a manobra. A aeronave pode usar defesas próprias como contramedidas eletrônicas (CME), chaffs e flares como última instância de defesa. A forma ideal de neutralizar os alvos deve ser primeiramente por todos os meios de ECM de longa alcance e ARMs. Uma outra maneira de diminuir o tempo de reação é lançar um ARM contra áreas suspeitas a frente da força de ataque.

Uma segunda aeronave armada com o míssil ARM, voa no alcance da posição do radar-alvo, a baixa altura protegida pelo terreno. A manobra deverá ser coordenada por um posto de comando, geralmente um AWACS, que chamará o bombardeiro no momento em que a primeira aeronave começar a ser rastreada pelo radar-diretor. Esta eleva-se de sua proteção expondo seus sensores. Se estes detectarem o radar inicia-se o ataque, caso contrário volta para a proteção reiniciando o procedimento. Uma vez detectado o radar, o bombardeiro desce para elevar-se novamente de uma posição inesperada, quando dispara seu míssil. Este, guiado pela radiação do radar-alvo, dirige-se a ele. O bombardeiro realiza manobras evasivas para evitar contra-ataque e retorna a posição protegida.

Uma vez atingido o radar-alvo, o posto de comando aciona outros bombardeiros armados com bombas convencionais ou direcionadas ou ainda mísseis ar-superfície para destruírem as armas propriamente ditas, liberando a área para outras aeronaves operarem em segurança. Ser for necessário caças de superioridade aérea devem dar cobertura a operação, neutralizando ameaças aéreas. Outras aeronaves como as de guerra eletrônica, sempre que disponíveis, darão apoio especializado.



quarta-feira, 19 de agosto de 2020

A Luta pelas Colinas do Golan *200

 

Morashá
 
A monotonia do Yom Kippur foi quebrada por fortes explosões provenientes de um pesado bombardeio aéreo e de artilharia por volta das 14:00 horas do dia 06 de outubro de 1973, sobre posições israelenses ali estacionadas em guarnição ao longo da fronteira com a Síria. Começara as luta pelas Colinas do Golã. Não era possível imaginar a ferocidade dos combates que se seguiriam, e as condições nas quais foram travados, tampouco o desgaste físico e mental a que foram submetidos os soldados israelenses. Em apenas 18 dias de luta, 772 deles morreram e 2.453 ficaram feridos, muitos dos quais gravemente.
 
O Golã era, sem dúvida alguma, a frente mais preocupante naquela que seria a mais difícil guerra travada por Israel. Apesar de não ser tão forte quanto o egípcio, o exército sírio representava a maior ameaça. Enquanto que os egípcios teriam que atravessar quase 240 km de deserto antes de chegar a uma área pouco povoada no extremo sul do território israelense, os sírios estavam a apenas 32 km da Galileia.
 
O plano da Síria era tomar as estratégicas colinas que dividiam os 2 países num único dia, saturando a limitada defesa israelense ali presente. 2 divisões da infantaria síria atacariam simultaneamente toda a extensão dos 65 km da “Linha Roxa”, a linha de cessar-fogo após a Guerra de 1967. O plano previa tomar os postos de observação e os 10 pontos altamente fortificados que Israel mantinha ao longo da fronteira. Com a construção de um sistema de obstáculos e fortificações no extremo Leste do platô e uma trincheira antitanque ao longo de toda a extensão da “Linha Roxa”. Logo atrás desta trincheira, construíram postos de observação (POs) e bunkers de concreto para ter uma contínua observação de qualquer força que se aproximasse pelo Leste. Os pontos fortes e de observação localizados no Norte estavam a cargo da Brigada Golani, e os do Sul, do 50º Batalhão de Paraquedistas. As fortificações e defesas israelenses nas Colinas eram formidáveis, quando totalmente guarnecidas com o número adequado de infantaria e tanques – só que esse não foi o caso em outubro de 1973. Em cada ponto forte Israel tinha entre 10 a 20 soldados da infantaria, e a dotação de armamento ali existente, bem como de munição era insuficiente para fazer frente a um ataque mais pesado.
 
A estratégia síria contava com a assustadora disparidade que havia entre as forças israelenses e sírias até a chegada dos reservistas ao Golã: 200 soldados da infantaria israelense teriam que enfrentar 40 mil sírios e 177 tanques israelenses, 1.400 sírios. Não fosse pela chegada da 7ª Brigada de Blindados do General Ben-Gal, a proporção de tanques não teria sido de 8 para 1, mas de 18 para 1. A estimativa síria era que levaria ao menos 24 horas para que os reservistas israelenses chegassem à frente com o domínio da posição antes disso.


 
As Primeiras Horas do Dia 6 de Outubro
 
No Golã, ao contrário do ocorrido na Península do Sinai, onde uma mensagem interceptada de um posto de observação da ONU alertara as forças israelenses sobre o iminente ataque da artilharia egípcia, não houve aviso algum. O bombardeio iniciado às 14:00 horas, simultaneamente ao ataque ao Canal de Suez pelos egípcios, durou 50 minutos. Logo em seguida, uma densa coluna de tanques sírios e de VBTPs (veículos blindados para transporte de pessoal) começou a avançar. Os sírios acreditavam que, ao alvorecer, menos de 16 horas após o início das hostilidades, o Golã estaria em suas mãos.
 
Enquanto as primeiras explosões sacudiam a região, 4 helicópteros sírios decolaram em direção à posição israelense, no Monte Hermon. Seu topo, ocupado por Israel durante a Guerra dos 6 Dias, era um dos principais alvos sírios. Israel construíra no alto da montanha uma plataforma super-avançada de Inteligência. Às 14:45 horas os atacantes chegaram à plataforma. Dos 55 israelenses estacionados no Hermon, apenas 12, pertencentes à Brigada Golani, eram encarregados da defesa. Os demais eram elementos da Inteligência militar e técnicos. Em sua primeira tentativa de investir contra a posição em um ataque frontal, os sírios sofreram 50 baixas. Reagruparam-se e voltaram a atacar. Os israelenses, em inferioridade numérica, foram dominados: 13 israelenses morreram e 31 foram aprisionados, com 11 conseguindo fugir pelas encostas da montanha. A captura do Monte Hermon foi um revés potencialmente fatal para as IDF. Além de sua importância simbólica como “Os olhos de Israel”, os modernos equipamentos eletrônicos lá instalados monitoravam toda a atividade ao longo da fronteira e também em áreas tão distantes como a capital síria, a uns 25 quilômetros à Leste.
 
Nas primeiras e extremamente críticas horas da guerra, o General Yitzhak Hofi, Comandante Geral do Comando Norte, o segundo no comando e os comandantes de divisão estavam reunidos em Tel Aviv com o Estado Maior. Até o Gen Hofi retornar ao centro de comando em Nafach – por volta das 16:30h – o Tenente Coronel Uri Simhon tomou decisões estratégicas. Sua decisão de deslocar 3 batalhões de blindados para o Setor Norte e dois para o Sul, sem deixar nada na reserva, determinaram o rumo da batalha que viria a seguir, para o melhor ou para o pior. Sua decisão foi em parte tomada porque o Comando Norte acreditava que caso houvesse um ataque sírio, este ocorreria no Norte, pois caso conseguissem penetrar, os sírios poderiam rapidamente alcançar Nafach – a principal base de comando israelense no Golã – e a ponte de B’not Yaacov, que era a principal passagem entre o Golã e Israel, propriamente dito.  De volta a Nafach, Hofi dividiu a frente de batalha: a Sétima Brigada do Coronel Ben-Gal seria responsável pelo Norte do Golã e a 188a Brigada de Blindados e a Brigada Barak, do Cel. Yitzhak Ben-Shoham, pelo Sul.
 
Após cruzar a “Linha Roxa”, as forças sírias enfrentaram forte resistência israelense. Ao longo de toda a fronteira, as tropas de Israel lutaram uma batalha desesperada com coragem e determinação, sabendo o que estava em jogo. Atos de extraordinária bravura foram registrados. Nos pontos fortes, apesar de não estarem preparados para enfrentar um ataque mais pesado, os soldados da infantaria repeliram o inimigo. Apenas o Monte Hermon caíra. O profissionalismo das tripulações de blindados e suas táticas, sua pontaria apurada e seu curtíssimo tempo de reação, comparados com as equipagens sírias, contrabalançaram a disparidade das forças e o choque sofrido com a surpresa do ataque. Mas isso nem sempre bastou; em muitos casos, os israelenses foram vencidos pela mera superioridade numérica dos sírios.
 
Acima do campo de batalha, barreiras de mísseis SAM-6 impediam aos A-4 Skyhawks da Força Aérea de Israel realizar com êxito missões de suporte para deter o ataque sírio. Posteriormente, alguns observadores da ONU estacionados ao longo da “Linha Roxa” relataram que os primeiros aviões da IDF apareceram sobre o Golã poucos minutos após o irromper da guerra. 4 Skyhawks voaram baixo em torno do Hermon, mas antes de poderem atingir qualquer alvo sírio, dois deles explodiram nos céus atingidos pelos SAMs. Ao entardecer, parecia que a determinação israelense conseguira desacelerar a ofensiva síria. Um grande número de blindados inimigos havia sido destruído e, no Norte, a situação estava sob controle. As informações tranquilizadoras recebidas pelo Comando Central, no entanto, provaram ser temporárias.


 
Madrugada de 6 para 7 de Outubro – Maciça Infiltração Síria
 
Independente da resistência encontrada e das baixas sofridas, os sírios continuavam a pressionar. Antes do anoitecer, 2 de suas brigadas atacaram o Setor Norte e 4, o Sul, onde uma brigada israelense, com um pequeno número de tanques, teve que enfrentar 600 blindados sírios. Durante toda a noite de 6 para 7, tanques sírios começam a se infiltrar maciçamente entre os pontos fortes. Pelotões israelenses tiveram que enfrentar batalhões inteiros do exército sírio. E, assim que escureceu, os israelenses perceberam que teriam que lutar em grande desvantagem. Seus tanques Centurion não tinham visão noturna – como os tanques soviéticos equipados com faróis e projetores infravermelhos, que podiam iluminar os alvos sem que os israelenses sequer tivessem ideia de que estavam sendo iluminados. Os israelenses podiam contar apenas com um escasso número de artifícios de iluminação e alguns binóculos infravermelhos de uns poucos comandantes de tanques. Isto significava que, à noite, as forças de Israel estavam “cegas” para o que acontecia além de sua frente imediata. Lutaram, no entanto, com garra, contornando a falta de visão noturna com táticas criativas.
 
Ao perceber que a linha de defesa no Sul era mais “porosa” que no Norte, os sírios intensificaram o ataque no Sul, cabendo ao pequeno contingente de tanques israelenses que havia na área um enfrentamento bem maior de tanques sírios. A luta travada no Sul testemunharia a garra e coragem dos soldados e dos comandantes de campo israelenses. Enquanto o desânimo e a falta de coordenação havia tomado conta do Comando Geral, pequenos e isolados grupos de soldados guiados por sua perícia e motivação pessoal continuaram a combater.
 
A capacidade do exército israelense de rapidamente se reagrupar e formar novas unidades de combate, conforme a necessidade, e de seus homens se adaptarem a novas circunstâncias, foram essenciais na luta contra o inimigo. Após o fim da guerra, um líder de pelotão de tanques afirmou: “Logo na primeira hora de combate ficou claro que a batalha ficara nas mãos dos comandantes de companhia e de pelotão, e dos comandantes de blindados, individualmente (...). Para quem lutava, havia apenas duas opções: sucumbir ao choque ou se tornar um tigre feroz e continuar lutando”.
 
Pouco mais de 12 horas após o início da contenda, as forças sírias tinham-se infiltrado maciçamente entre os pontos fortes e já havia forças inimigas no interior do Golã, pelas estradas que levavam ao Lago Kineret (Mar da Galileia). Uma brigada síria chegara ao assentamento religioso de Ramat Magshimim menos de uma hora depois que os estudantes de uma Yeshivá tinham sido evacuados. Exceto por um pequeno contingente que estava a alguns quilômetros, não havia nada para impedi-los de chegar ao Vale do Jordão, ou de descer para as margens do Lago Kineret. Este, no entanto, não era o plano de Damasco, cujo principal objetivo era Nafach – onde estava o Comando Central do Norte, e a Ponte B’not Yaacov.


 
Não Haverá Retirada de Ramat HaGolan
 
Apesar da ferocidade do ataque sírio desde as primeiras horas do conflito, sua dimensão só ficou clara para o Gen Hofi depois da meia-noite. A situação no Sul era crítica. As forças engajadas na batalha poderiam contar com a chegada de um número significativo de reservistas somente à tarde e ele não sabia se seus homens aguentariam até lá.Preocupado, ele alertara o Estado Maior, o Gen Elazar e a Moshé Dayan que havia a possibilidade das tropas não conseguirem manter o controle sobre as Colinas. Logo na manhã do dia 7 de outubro, Dayan fora à sede do Comando do Norte para se reunir com Hofi para ver “se Israel perderia o Golã”. Deprimido com a situação de suas tropas, Hofi repetiu sua preocupação. A resposta de Dayan foi uma frase que ele iria repetir inúmeras vezes nos dias seguintes: “Não haverá retirada de Ramat HaGolan”.
 
Apesar de suas palavras, Dayan sabia que a situação era crítica. Ele contata então o General Benjamin Peled, comandante da IAF, e, ao saber que estava sendo preparado para aquele dia um ataque aéreo para eliminar as plataformas de SAMs egípcias estacionadas no Canal de Suez, disse-lhe: “Esqueça, há apenas areia no Sinai e o Canal do Suez está a quase 240 quilômetros de Tel Aviv. O Terceiro Templo (metáfora que Dayan utilizava ao se referir ao Estado de Israel) está em extremo perigo. Os tanques sírios romperam as linhas das Colinas do Golã e estão avançando rumo ao Vale do Jordão. Precisam ser detidos. Se nossos aviões não atacarem até o meio-dia, os sírios poderão chegar ao Vale do Jordão”.
 
A decisão de cancelar o ataque aéreo no Sinai e transferir os aviões para o Golã iria afetar o curso da Guerra de Yom Kipur. A maioria do staff de Peled se opôs à decisão, argumentando que não fazia sentido suspender um ataque que havia sido cuidadosamente planejado e que poderia desestabilizar as forças egípcias. Ademais, não haveria tempo útil para preparar uma investida no Golã. Os helicópteros, com equipamentos eletrônicos que seriam utilizados para “despistar” os radares dos SAMS, estavam no Sinai, além do que era impossível realizar uma missão fotográfica para confirmar se as baterias SAM-6 ainda estavam onde haviam sido fotografadas na tarde anterior. No final da manhã do dia 7 de outubro, 60 Phantoms executaram voos rasantes sobre as Colinas do Golã, investindo contra a concentração de blindados sírios e as baterias SAM. A operação foi um fracasso.
 
Apesar dessa primeira investida não ter tido êxito, os pesados sacrifícios feitos pela IAF nos 2 primeiros dias da guerra tiveram um importante papel na luta pelo Golã. Os persistentes ataques da aviação israelense mantiveram as forças sírias ocupadas com a defesa de seu espaço aéreo. Os céus de Israel foram mantidos a salvo de aviões hostis, permitindo aos reservistas chegar às frentes de combate sem interferência inimiga. Estes sucessos, no entanto, não aliviavam a angústia das tropas engajadas na batalha que olhavam para o céu se perguntando: “Onde estava a força áerea?”. A IAF controlava os céus sobre toda a Síria e todo o Egito, exceto na estreita faixa sobre as zonas de batalha dominadas pelos SAMs. Mas era ali que a Guerra de Yom Kipur seria vencida ou perdida.


 
A Chegada dos Reservistas
 
No início do segundo dia de combate o alto comando sírio recebeu a informação de que os reservistas israelenses haviam chegado ao Golã, em um prazo bem menor do que o estimado. Se os israelenses estavam adiantados pelo cronograma dos sírios, estes estavam bem atrasados, pois não haviam conseguido pressionar e romper as linhas de defesa de Israel quando ainda estavam em posição de vantagem.
 
Diferentemente da Guerra dos 6 Dias, quando os reservistas israelenses haviam tido 3 semanas de treinamento, dessa vez estavam indo para a guerra sem nenhum preparo adicional. Ao subir em direção às Colinas, muitos eram ainda civis em uniforme; mas, quando chegaram ao topo, eram soldados prontos para a luta. Mesmo após a chegada dos reservistas, o Comando do Norte havia iniciado os preparativos para uma eventual evacuação, caso as defesas falhassem. Entre outras providências, os engenheiros estavam preparando uma barreira de minas antitanques à margem sul do Lago Kineret, e os bulldozers estavam prontos a interromper as estradas que desciam das Colinas.
 
Combates pesados continuaram ao longo do dia 7 com muitas perdas de ambos os lados. O Gen Elazar pediu a Hofi que formasse uma segunda linha. “É vital manter a presença no Golã até a chegada da Divisão de Reserva do General Moussa Peled”. Hofi respondeu que não tinha certeza se poderia fazê-lo.
Ao anoitecer, o General Dan Laner e o General Raful Eitan chegaram a um acordo para divisão de comando no Golã. A linha divisória foi estabelecida aproximadamente a um quilômetro ao Sul da estrada B’not Yaacov-Kuneitra. Eitan comandaria as forças israelenses ao Norte daquela linha inclusive, e Laner ao Sul.
 
Batalha do Vale das Lágrimas
 
Uma das mais sangrentas batalhas foi travada na área ao Norte de Kuneitra, entre o Monte Hermonit e uma cadeia de montanhas ao Sul, chamada de “Booster”, em Israel, ou Tel el Mekhafi, em árabe. No primeiro dia de guerra, uma Divisão síria atacou a Brigada Barak. Era o início de uma amarga batalha por território vital, ao qual os israelenses posteriormente chamariam de “Vale das Lágrimas”, em hebraico, Emek Ha-Beka’a, em virtude do grande número de tanques queimados e destroçados que foram abandonados no local.
 
Um dos heróis dessa batalha foi o Tenente-coronel Avigdor Kahalani. Na tarde do dia 6 ele deslocou sua unidade, sob forte fogo de artilharia e ataque aéreo, para posições de bloqueio no Booster e rapidamente entrou em ação. A disparidade entre as forças sírias e israelenses era enorme: cerca de 500 tanques sírios contra 40, sob o comando de Kahalani.
 
A luta no Vale do Beka’a durou vários dias e foi implacável. Os israelenses repeliram os ataques dos blindados sírios, um atrás do outro. Ainda que suas baixas fossem pesadas, os sírios continuavam determinados – se conseguissem se juntar à infantaria no setor El Rom, não haveria nada que se interpusesse entre eles e Kiryat Shmona, no Norte de Israel.
 
Os israelenses também tinham sofrido baixas do intenso fogo de artilharia inimiga. No quarto dia, Ben-Gal comunicou-se por rádio com o Gen Eitan, informando que não acreditava que a Sétima Brigada fosse aguentar muito mais. Eitan prometeu que logo receberiam reforços. Os sírios, percebendo a possibilidade de uma iminente vitória, estavam tentando penetrar para além da linha das rampas de blindados israelenses abandonados. Quando só restavam às forças israelenses apenas 12 tanques e praticamente nenhuma munição, uma nova unidade de reserva – a do Tenente-coronel Yossi Ben-Hanan, que voltara de sua lua-de-mel direto para os campos de batalha – juntou-se à luta.
 
De repente, os israelenses recebem de um ponto forte a informação de que as colunas de suprimentos sírias estavam batendo em retirada. A batalha pelo Booster estava terminada e Israel saíra vencedora. O General Eitan, que observava a batalha do alto de um espigão na montanha, fala pelo rádio com Ben-Gal e seus homens : “Vocês salvaram Israel”. Os sobreviventes da Sétima Brigada de Blindados estavam sem dormir há 80 horas e tinham lutado, sem parar, durante mais de 50 horas. Só tinham restado 12 de seus tanques; contudo, eles derrubaram 260 tanques sírios e 500 outros veículos.


 
Batalha de Nafach
 
Um dos principais alvos da ofensiva síria era Nafach. Caso conseguissem tomá-la, além de capturar o Centro de Comando do Golã, poderiam facilmente tomar a ponte B’not Yaacov no rio Jordão. Se Nafach caísse em mãos inimigas, Israel perderia o controle da Região Norte e Central do Golã. Na noite de sábado, 6 de outubro, o Tenente Zwi ‘Zwicka’ Greengold, com um único tanque, conseguira bloquear o avanço sírio pela Tapline1. Mas, no início da tarde seguinte havia blindados sírios às portas de Nafach. Apesar do Gen Hofi e outros oficiais já terem deixado o local para estabelecer o Comando Central numa localidade mais ao Norte, o Gen Eitan ainda permanecia no bunker do Comando. Através de uma enigmática mensagem – pois não podia deixar que o inimigo soubesse que o comandante de uma Divisão israelense estava preso em Nafach – o Gen Eitan alertou o Cel. Ori Orr, comandante do 679º Batalhão da Reserva. Ori, que estava a alguns quilômetros de distância, e equipes de blindados que haviam ouvido a mensagem de Eitan, dirigiram-se imediatamente para Nafach, atingindo o perímetro com os sírios já nos portões. Abriram fogo até que não houvesse mais em quem atirar.
 
O Gen ‘Raful’ Eitan não costumava bater em retirada perante o inimigo. Posteriormente Eitan confessaria que tinha resolvido por conta própria que, acontecesse o que acontecesse, ele não se retiraria do Golã. Mas, claramente, a base não era segura para servir de posto de Comando de Divisão e transferiu seu QG para o Norte. Brigadas de Blindados dos 2 países enfrentam-se numa dura batalha. Unidades de blindados israelenses que convergiam de direções distintas passaram a preencher o vazio pelo qual a Divisão Síria havia conseguido penetrar e, ao cair da noite, Orr tinha garantido o domínio sobre Nafach. O Comando Norte foi informado de que “não havia tanques sírios em funcionamento” nas proximidades imediatas da cidade. Em seu livro, Chaim Sabbato, que lutou como franco-atirador no Batalhão sob o comando de Orr, relata suas palavras aos jovens soldados prestes a lutar: “Perdemos muitos tanques... Mas venceremos. Não temos escolha”.
 
A luta por Nafach é um exemplo das características que permitiram às forças israelenses recuperar seu equilíbrio e vencer o inimigo. Pequenos grupos, operando de forma independente com guarnições reunidas aleatoriamente, não hesitavam em se arremeter contra um inimigo bem mais numeroso, com coragem, motivação e profissionalismo exemplares. Naquela mesma noite, Orr conseguiu estabelecer uma linha de defesa estreita, de 6 km de comprimento, em terreno elevado que corria paralelo à estrada Nafach–Kuneitra – a primeira no Golã Central desde o início da guerra.
 
Os israelenses sabiam que precisavam deter os sírios até que suas formações de reserva chegassem à frente, caso contrário a Galileia do Norte seria devastada pelos blindados sírios. Mas a situação das IDF era muito difícil; a escassez de munição estava tão premente que os jipes voavam de um destroço de tanque a outro para resgatar os cartuchos ainda intactos. Na tarde do dia 7 de outubro, enquanto as batalhas no Sul e no Norte estavam sendo travadas, o Alto Comando da Síria realizava uma fatídica reunião em Katana, seu QG de campo. O eixo Norte, pelo qual eles tinham contado com a tomada rápida da jugular do Golã – Nafach e a Ponte B’not Yaacov – estava bloqueado e a batalha ainda corria solta. Mas, no Setor Sul, apesar da forte resistência que retardou seu cronograma durante horas e destroçou vários batalhões, ainda assim os sírios tinham conseguido infiltrar centenas de tanques capazes de alcançar as pontes do Jordão praticamente sem oposição. Uma brigada síria estava a 1.200 m da El Al, e outra, na Yehudia Road, a menos de 10 km do Lago Kineret. Contudo, tinham sofrido pesadas baixas, particularmente quando se aventuraram para além de seu guarda-chuva de SAMs e dessa forma oferecendo alvos fáceis à IAF. A reunião chegou a uma decisão de importância crucial: as forças sírias no Sul do Golã teriam que suspender o combate às 17:00h. Quando os sírios decidiram retomar seu avanço, suas chances de alcançar o Rio Jordão “já eram”...
 
Apesar de os israelenses ainda estarem em situação muito difícil, nas batalhas os sírios já haviam mostrado falhas táticas e de comando, e suas forças, ao contrário das israelenses, não tinham grande flexibilidade tática no campo de batalha. Ao anoitecer de 7 de outubro, um novo ânimo desponta nas tropas de Israel, após a chegada ao Golã da Divisão de Reserva do General Moshe Peled (Moussa). As IDF decidem lançar um grande contra-ataque pouco mais de 36 horas após o início da ofensiva síria.


 
O contra-ataque de Israel
 
As IDF iniciaram o contra-ataque às 08:00h do dia 8. Por volta do meio-dia, após enfrentar uma pesada luta, o Gen Moussa Peled alcança Tel Faris. À noite, o Cel. Orr toma Tel Ramtania, um espigão altamente fortificado nos montes Khushniyah. A Divisão do Gen Laner conseguia, também, gradualmente, ir empurrando os sírios em direção ao Sul.Na terça-feira, 9 de outubro, e na quarta, em um esforço conjunto – coordenado, ao Norte, por Laner e, ao Sul, por Peled, os israelenses encurralaram as forças sírias em Khushniya. Após um feroz embate, 2 brigadas da Primeira Divisão Blindada síria haviam sido destruídas. Os remanescentes do Exército Sírio bateram em retirada, grandes contingentes atravessando a Linha de Cessar Fogo. À noite, não havia uma única unidade síria em território à Leste da “Linha Roxa”.
 
No platô do Golã, os sírios haviam deixado atrás de si quase 900 tanques, muitos dos quais T-62s, centenas de metralhadoras e de VBTPs, milhares de veículos e quantidades enormes de equipamentos. A ofensiva lançada em 6 de outubro terminara em uma esmagadora derrota e os sírios estavam de volta no ponto de partida, e Israel estava prestes a lançar forte contra-ataque em território sírio.
 
A eficiente reação da IAF foi de grande importância nessa fase da guerra. Em 8 de outubro, aviões israelenses bombardearam as bases aéreas sírias. Dentro de uma semana, praticamente todas estavam inoperantes. No dia 9, em resposta ao ataque sírio de uns 10 mísseis sobre alvos israelenses, a IAF lançou uma ofensiva estratégica contra a Síria, que incluiu um raid aéreo bem sucedido, com 8 Phantoms, que atingiram o QG da Força Aérea síria, em Damasco.Nos dias seguintes, a FAI passou a bombardear a Síria infligindo pesados danos táticos e estratégicos sobre sua infraestrutura, inclusive sobre o sistema gerador de força e a indústria de petróleo. Até o final da primeira semana de guerra, com o sistema de mísseis SAMs praticamente destruído, os aviões israelenses atingiam Damasco e outras cidades sírias, e portos do Mediterrâneo. Israel sabia que para reduzir sua vulnerabilidade, seus inimigos tinham que levar intensos golpes, cujas consequências econômicas seriam sentidas por muitos anos.
 
A Contraofensiva Israelense
 
Na noite de 10 de outubro, o gabinete israelense, orientado por seu Chefe do Estado Maior, Gen Elazar, tinha que decidir, se explorava seu sucesso contra a Síria ou concentrar-se-ia no Egito. As recomendações do Estado Maior, transmitidas por Moshé Dayan a Golda Meir, eram para que se avançasse através da “Linha Roxa” para penetrar 20 km. Desta forma, colocariam Damasco na mira da artilharia de longo alcance. Esperava-se, assim, infligir uma fragorosa derrota aos sírios, sem, no entanto, provocar a intervenção soviética. Golda Meir deu seu consentimento e o planejamento se desenrolou de imediato. A intenção de Hofi era não dar tempo aos sírios de se recuperarem, mas isso também significava atacar com forças que tinham pouco ou nenhum tempo para se reorganizar, após exaustivos combates. O plano israelense se baseava na economia de esforço no Centro e no Sul do país, de modo a concentrar as forças no Norte, ameaçando a capital síria. O eixo do avanço centrava-se na rota mais curta para Damasco.
 
A Hora H foi fixada para as 11:00 horas de 11 de outubro. O Exército sírio estava, então, perante um inimigo revigorado, pronto para entrar em seu território. Na noite anterior, Ben-Gal reunira seus comandantes e lhes dissera que sua entrada na Síria lhes permitiria vingar a morte de seus camaradas tombados na desesperada defesa de seu país. O grosso das tropas sírias estavam concentradas nos arredores de Damasco, ao passo que os aliados árabes que haviam se juntado à luta – marroquinos, sauditas, iraquianos e jordanianos – recebiam a tarefa de retardar a investida israelense.Na sexta-feira, dia 12, as forças israelenses já estavam dentro do território sírio rumo a Damasco, encontrando maciça resistência. À medida que a divisão comandada por Laner ampliava sua penetração, unidades iraquianas passam a lutar ao lado dos sírios. O ataque iraquiano foi facilmente repelido. Os israelenses continuaram a avançar, atingindo a região próxima a Kfars Shams. No dia seguinte, paraquedistas capturaram o estratégico monte de Tel Shams, com um saldo de apenas 4 feridos. No domingo, 14, as IDF suspenderam a ofensiva e consolidaram suas posições dentro da Síria com Damasco sob mira de sua artilharia. Forças árabes tentaram frear o contra-ataque israelense, mas as IDF já haviam estabelecido uma forte linha defensiva, difícil de ser rompida.
 
No dia seguinte, os israelenses transferem a prioridade dos suprimentos e do poder aéreo militar para o Deserto do Sinai, contra os egípcios. 2 dias depois, com as forças israelenses com suas posições já consolidadas dentro da Síria, a artilharia de longo alcance continua bombardeando os arredores de Damasco. Durante os 4 dias que seguem, as tropas sírias, iraquianas e jordanianas montam ataques descoordenados e ineficazes contra posições israelenses. O Monte Hermon foi reconquistado no dia 22 de outubro. Israel conseguiu encerrar a guerra recuperando o controle de seus estratégicos “Olhos sobre o Sinai”, que permitiam o domínio de todas as áreas de combate e colocavam a capital síria ao alcance de sua artilharia. Este era o cenário quando Damasco aceitou o cessar-fogo em 22 de outubro. Durante a luta, os sírios perderam mais de 3.500 homens.
 
A brilhante defesa travada pela Sétima Brigada e Brigada Barak nos primeiros dias da guerra continua sendo um dos feitos militares mais extraordinários do século 20, e entrou para a História como uma das grandes batalhas defensivas de todos os tempos, igual à batalha do Somme na 1ª Guerra Mundial ou a de Monte Cassino, na 2ª Guerra.
 
A natureza defensiva da batalha, no entanto, expôs as IDF à plena fúria da artilharia síria, que cobrou um preço punitivo e pesado principalmente sobre os comandantes dos tanques, que representaram quase 2 terços das vítimas israelenses no Golã.


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Falklands/Malvinas - Lições a Serem Consideradas *199



Entre abril e junho de 1982, argentinos e ingleses disputaram pelas "vias de fato", a posse do remoto arquipélago das Falklands, chamadas pelo sul-americanos de Ilhas Malvinas, localizadas no remoto Atlântico Sul ao largo da costa argentina,a cerca de 500 km da base aérea argentina mais próxima. Uma das últimas colônias britânicas, foi invadida pelas forças argentinas e recuperadas pelas forças de sua majestade, após um duro e rápido embate de forças aeronavais num episódio inédito, entre doutrinas ocidentais com equipamentos similares.

Foi a ação naval mais quente da Guerra Fria, e o episódio mais instrutivo sobre como as coisas poderiam ter sido se ela "esquentasse". Para os EUA, houveram 3 níveis de aprendizado distintos: O primeiro nível foi o nível político-estratégico, onde duas nações aliadas suas confrontaram-se usando armas ocidentais. Os conflitos até então davam-se entre aliados dos EUA ou ele próprio, contra aliados soviéticos com armas fornecidas por estes, como era o caso do Oriente Médio, com Israel em constante beligerância com seus vizinhos árabes. Não foi o que aconteceu nas Falklands/Malvinas, onde grande parte das armas eram inglesas, além de francesas e norte-americanas. O sistema SAM Sea Dart, por exemplo, teve a Argentina como único comprador. No nível político a Argentina apostou no contínuo e lento declínio do Império britânico, e que uma reação em local tão distante por um pedaço de terra aparentemente sem muita importância seria improvável. Os soviéticos também acreditavam, erroneamente, no declínio da hegemonia dos EUA, pensando que ainda tinham "gás" para sobreviver.

Porém não era assim que pensavam Ronald Reagan e Margareth Thatcher, que determinou a imediata formação de uma força-tarefa para a restauração do orgulho britânico. Mesmo em alto-mar, muitos a bordo não acreditavam que seriam autorizados e engajar-se na guerra. Foi um grande teste à popularidade da primeira-ministra, que viu muitos dos seus concidadãos a apoiarem e a fortalecerem politicamente. O soviéticos ficaram surpresos ao constatarem que o ocidente continuava sendo uma ameaça aos seus objetivos, e iniciativas como a "Star Wars" do governo dos EUA deviam ser levadas a sério. Muitos governos ligados a NATO também aceitaram a instalação de mísseis Pershing e Tomahawk em seus territórios, talvez encorajados pelo exemplo britânico.

O impacto sobre os rumos soviéticos também foi significativo. Eles estavam cientes de que tinham pela frente uma nova revolução na tecnologia militar com base nos microprocessadores, até então uma novidade. No conflito do sul do mundo, a frota britânica estava lançando mão de mais poder de computação, por exemplo, que os soviéticos tinham em todas as suas frotas. Sua economia era uma sucessão de erros não corrigidos por anos a fio, e não tinham como competir nos novos termos com o Ocidente, continuando a apostar, sem alternativa, nos tipos existentes de armas que já possuíam. Dentro de alguns anos, um novo líder soviético seria escolhido especificamente porque ele prometeu modernizar a URSS, Mikhail Gorbachev. Sua tentativa de resolver o problema econômico soviético acabou por destruí-los como instituição.

Outro nível afetado foi o tático. A Guerra das Falklands/Malvinas foi particularmente interessante porque era uma versão em miniatura da guerra que os estrategistas navais norte-americanos pensavam que poderiam ter que lutar. Com a suas aeronaves de ataque armadas com mísseis e seus submarinos, os argentinos eram uma espécie de versão em pequena escala da ameaça que os soviéticos apresentariam contra as forças de ataque navais da NATO no Mar da Noruega. A força-tarefa britânica era uma versão em pequena escala de uma força maior dos EUA e seus aliados tentando ir para o norte, para executar sua estratégia marítima. Os argentinos fizeram muito do que os soviéticos teriam que fazer: Eles tinham para detectar, rastrear e atacar uma força-tarefa britânica que se aproximava. Em última análise, os britânicos tiveram que desembarcar tropas em face a ameaça de poder aéreo e forças terrestres argentinos. 

Muitos fatos inesperados se caraterizaram com este conflito, mostrando que qualquer planejamento pode ser desafiado. Para os britânicos, a principal surpresa era a necessidade de combater em um cenário totalmente diversos daquele considerado em seu planejamento militar, que se concentrava completamente no "front" Central na NATO. A Grã-Bretanha constatou que ainda tinha responsabilidades globais. Isso não era exclusivamente pelo legado de seu império; alguns anos depois do episódio das Falklands/Malvinas, a Royal Navy encontrava-se operando em patrulhas de proteção ao tráfego petroleiro no Golfo Pérsico. Esta operação não se deu porque haviam colonias britânicas lá ou uma dependência estava com problemas, mas porque, como parte da aliança ocidental, a Grã-Bretanha tinha interesse na manutenção desta rota de transporte de petróleo. Posteriormente a US Navy passou a operar lá também.

Na véspera da guerra os britânicos estavam experimentando uma nova série dos intermináveis comentários do ministro da defesa visando reduzir os custos de defesa. O ministro John Nott considerava que navios de guerra de superfície eram inúteis em uma guerra da NATO, na teoria de que uma guerra na Europa seria longa e os reforços por via marítima chegariam. Ele também rejeitou o argumento da Royal Navy que a sua força de superfície deveria executar uma função dissuasiva essencial durante todo o período de preparação para a guerra. Portanto, Nott planejou, entre outros, vender os novos HMS Invincible e cancelar seus 2 navios irmãos. Ele também pretendia vender toda a frota anfíbia. Para ele, o único futuro aceitável estava na frota dos submarinos de ataque nuclear. Na véspera da guerra, o Invincible foi vendido para a Austrália. Isto deixou a Royal Navy com apenas o HMS Hermes.

Quando irrompeu a guerra, a venda foi cancelada. O Invincible tinha sido concebido como um navio-aeródromo limitado, com funções anti-submarino, com a teoria de que em uma guerra, forças navais da NATO poderiam ser protegidas por aeronaves em terra. Embora isso não tenha funcionado durante os exercícios, a teoria foi mantida, provavelmente porque ao admitir que a defesa aérea proporcionada pelo navio-aeródromo  implicaria em manter a despesa com defesa em níveis elevados. Esta teoria de ficção claramente não poderia aplicar-se a uma frota enviada a milhares de milhas das Ilhas Britânicas. Felizmente a aeronave suportada por estes navios, o Harrier, tinha capacidade ar-ar, embora seu desempenho fosse uma incógnita, principalmente pela ausência de mísseis BVR. Infelizmente, esta teoria "furada" tinha impedido qualquer tentativa de se desenvolver uma capacidade de alerta antecipado aerotransportado (AEW) para guarnecer os navios, dando-lhe a capacidade de detectar e rastrear alvos aéreos abaixo do horizonte radar da frota (cerca de 49 km). Descobriu-se que, mesmo sem cobertura de radar aéreo, o Sea Harriers foram o elemento mais útil na defesa aérea da esquadra da Royal Navy durante a guerra.



Antes da força-tarefa chegar na área de operações, um Boeing 707 argentino de uso civil, a avistou. A força-tarefa se mostrou incapaz de derrubá-lo, sendo que, no dia seguinte ela foi atacada sem ser atingida. O incidente foi interessante na medida em que os argentinos foram capazes de enviar o 707 para interceptar a força-tarefa sem a realização de um grande esforço de inteligência, pois eles sabiam mais ou menos onde ela estava. Descobriu-se que uma universidade argentina havia percebido que os navios que utilizam comunicações via satélite podem ser monitorados de forma passiva (esta mesma técnica foi redescoberta várias vezes).

Até 1982, acreditava-se que os satélites resolveriam um problema fundamental: como se comunicar livremente a longa distância, sem ser rastreado. A ideia era era que o feixe do navio não poderia ser facilmente detectado. Os únicos meios alternativos de comunicação de rádio de longa distância, eram a alta frequência (HF), que facilmente poderia poderia ser rastreada. Na verdade, há tempos que a US Navy tinha que disciplinar sua comunicação HF de longo alcance especificamente para frustrar o rastreamento soviético. Ficara claro que a mudança para satélites não era suficiente; a ligação de um sistema de satélite e navio transmitindo muita informação (sob a forma de Doppler) não era tão discreta assim. Demorou cerca de uma década para resolver o problema com novos satélites (Em 1991 os soviéticos aparentemente usaram a técnica argentina para acompanhar os movimentos no Golfo, mas que podem ter sido exploração de comunicações de navios mercantes via satélite).

A ironia da localização por satélite era de que a Royal Navy, muito mais do que outros países da NATO, enfatizou o silêncio de rádio. Durante as duas guerras mundiais, a Royal Navy se beneficiou consideravelmente a partir da interceptação de sinais de rádio inimigo. Embora tenham sido aprovados links de dados digitais com as outras marinhas da aliança, a Royal Navy preferiu não usá-los, e parece que os seus operadores não estavam familiarizados com seus benefícios.

A visão britânica de silêncio de rádio foi demonstrada quando, o capitão do HMS Hermes ordenou que suas emissões do TACAN (navegação aérea táctica) fosse orientada abaixo do mastro. A função do TACAN é assegurar que as aeronaves de um navio-aeródromo possam encontrá-lo. Sem o TACAN, os pilotos podem ficar "cegos" em relação ao seu navio base em más condições meteorológicas. O HMS Hermes perdeu 2 de seus Harriers para o mar pelo mau tempo na rota para as Ilhas, e parece que a ausência do farol TACAN foi a culpada.
 
A perda do HMS Sheffield pode ser imputada a falta de familiaridade com os links de dados. Um link de dados fornece a todos os navios de uma força uma imagem tática consolidada, com dados coletados por todas as unidades. Se o radar de um navio não vê um alvo qualquer, o link irá mostrá-lo se qualquer outro navio o detectou. O USS Stark (FFG 31) demonstrou a importância deste recurso (NCW - Guerra Centrada em Redes). As condições de radar no Golfo eram notoriamente ruins, e o próprio alcance do radar do Stark era muito limitado. No entanto, um avião AWACS da Arábia Saudita detectou um caça do Iraque se aproximando do navio norte-americano, que recebeu os dados através de um link padrão. Aconteceu que a informação não foi considerada como devia, mas eles estavam conscientes de que um avião estava em aproximação antes de ser atingido.

O HMS Sheffield não teve a mesma sorte. No dia em que foi atingido, estava como piquete próximo ao Hermes. Dada a sensibilidade que a Royal Navy tem sobre emissões eletrônicas, o Sheffield no lugar do Hermes, foi encarregado pela comunicação por satélite com Londres. Como todos os outros navios, seu link de satélite funcionava na faixa de frequência de seu equipamento radar. Para evitar falsos alarmes, ele desligou seu equipamento de ECM e seus radares de busca, que poderiam interferir com o link. O oficial tático do navio considerou desnecessário permanecer no seu posto de comando sem estes sensores operando, pois seu navio estava efetivamente cego, situação esdrúxula para um navio operando como piquete . Ele fez uma pausa para o café, sem saber que um voo armado com o míssil antinavio Exocet pelos Super Étendard argentinos estavam a caminho. Na verdade, outros navios da força-tarefa haviam detectado e estavam monitorado os radares, tanto do ataque Super Étendard como do avião de patrulha marítima Neptune que apoiava o ataque francês. Esta informação foi compartilhada no datalink da frota, e o Sheffield deveria a ter recebido, mas a Royal Navy não tinha o costume habitual de utilizar os dados do mesmo modo como a US Navy o faz.



Os atacantes disparam seus 2 mísseis Exocet, um dos quais atingiu o Sheffield. Ele não explodiu, mas começou um incêndio que logo alcançou o combustível do navio. A fumaça resultante levou a tripulação a abandona-lo. O fogo não parou os motores do navio, que deslocou-se para fora da área de operações, apenas para afundar no dia seguinte durante uma tempestade. O incidente fez a Royal Navy alterar sua rotina-padrão no uso de dados, e começou a usar os links de dados com muito mais atenção. Após a guerra, foram aprovadas práticas em relação ao data-link mais semelhantes às da US Navy, e também adotados equipamentos mais capazes. Como sempre, espera-se o ladrão entrar para trancar as janelas.

Por seu lado, a US Navy parece ter assumido que qualquer um que esteja atacando um navio armado com mísseis antiaéreos eficazes, iria adotar práticas muito semelhantes as dos argentinos. Em vez de simplesmente procurar o alvo, o atacante iria voar abaixo do radar, apoiado por um meio dotado de radar que lhe forneça a posição do alvo. Quando ao largo da baia de Subic em rota para o Golfo, 6 anos mais tarde, o Capt. Rogers do USS Vincennes (CG 49) foi informado sobre aeronaves com comportamentos idênticos, no caso um P-3 iraniano voando um padrão aparentemente sem rumo, Rogers muito naturalmente assumiu que tinha um alvo e um atacante não detectado. Essa percepção, por sua vez precipitou a ação que destruiu um Airbus iraniano. Nem todas as lições de uma guerra podem resultar em avaliações corretas em situações futuras.

A maioria dos ataques aéreos argentinos foram realizados durante o desembarque britânico sem saber exatamente onde estavam as escoltas. Por outro lado, os britânicos sabiam que as aeronaves dos argentinos iriam operar, e posicionaram seus valiosos navios-aeródromo o mais a leste possível, com a distância definida pela capacidade de seus Harriers intervir no combate. Uma vez que as tropas britânicas ficaram o pé em terra firme, as baterias de defesa antiaéreas dos navios foram reforçadas por SAMs Rapier terrestres.

Isso não deveria ter sido uma situação completamente nova para a Royal Navy. Neste mesmo ano, uma das suas principais missões exercitadas para tempos de guerra, foi apoiar as forças norueguesas lutando contra um ataque soviético em seu território. Por exemplo, o Sea Harrier tinha capacidade nuclear especificamente para que pudesse destruir grandes unidades do Exército Soviético. Lutando em ou perto de um fiorde norueguês, os navios britânicos ao largo certamente teriam se colocado dentro do alcance de baterias SAMs terrestres, e certamente teriam enfrentado ataques aéreos soviéticos. Além disso, quaisquer Sea Harriers certamente teriam tido solicitados para apoiar navios e tropas como nesse caso. A experiência nas Falklands/Malvinas sugere que este tipo de operação não tinha sido pensada. Foi certamente um dos grandes interesses para a US Navy e US Marine Corps na época.

Os navios britânicos tinham 3 tipos de mísseis de defesa aérea. O Sea Dart, globalmente equivalente ao Standard SM-1 dos EUA, de médio alcance, e com com radar semi-ativo. Alguns deles tinham o Sea Wolf, um míssil altamente automatizado para defesa de ponto. Os mais antigos tinham Sea Cat, um míssil de defesa de ponto guiado por comando. O mais próximo que a US Navy tinha do Sea Wolf era o Sea Sparrow. Os argentinos tinham os 2, o Sea Dart que tinham comprado a bordo de 2 destróieres com mísseis, e o Sea Cat, mas não com Sea Wolf. O Sea Dart havia sido concebido com a missão de operar em mar aberto a serviço da NATO. Embora, que em teoria, poderia lidar com alvos em altitudes até cerca de 17 metros (porque era semi-ativamente guiado), mas não poderia lidar com ataques de saturação, pois tinha de dedicar um canal de orientação para cada alvo, desde a detecção à destruição. Os destróieres Type 42 estavam armados com ele e também com canhões individuais de 4,5 polegadas. A solução britânica para as limitações do Sea Dart foi agregar a estes navios uma escolta de navios com mísseis Sea Wolf. Ele não era apenas automatizado, mas tinha ainda capacidade antimíssil. Quanto ao Sea Cat, que tinha sido desenvolvido para substituir armas de 40 mm, não era nem automático e nem supersônico. Embora houvesse relatos iniciais de que derrubaram várias aeronaves argentinas durante a guerra, apenas um abate de Skyhawk foi confirmado.

Os radares britânicos não tinham qualquer capacidade de indicação de alvo em movimento (MTI). Os argentinos, sem dúvida sabiam, uma vez que tinha comprado 2 destróieres Type 42 (equipados com os mesmos radares utilizados pela Royal Navy), que atacar aeronaves com o Sea Dart eram impraticável próximo às ilhas, tendo para isto que deixar o terreno circundante.



O conhecimento argentino sobre o Sea Dart parece ter tido uma consequência interessante. Os argentinos sabiam que podiam evitá-lo, voando baixo, mas que carregavam consigo seu próprio perigo. Um avião voando baixo pode ser destruído pela explosão de sua própria bomba, portanto os argentinos espoletaram suas bombas com retardos relativamente longos. Em vários casos, as bombas passaram por toda extensão dos navios e através destes antes de explodir. Em outros a espoleta falhou, e as bombas ficavam alojadas nos navios. A HMS Antelope sobreviveu ao impacto, para ser destruída quando da tentativa de desativar a bomba.

Em teoria, a defesa aérea sobre o teatro Falklands/Malvinas teve 4 componentes principais distintos: Caças Sea Harriers, SAMs Rapiers em terra, e SAMs Sea Dart e Sea Wolf nos navios. Na verdade, esses elementos não foram suficientemente bem coordenados. Por exemplo, nunca houve qualquer ligação entre os mísseis em terra e da frota. Os Sea Harriers foram controlados pelos navios, e não tinham ligação direta com as baterias em terra. Este arranjo fazia sentido no mar do Norte ou no Atlântico Norte, quando o navio-aeródromo seria apoiado diretamente pelos navios com Sea Dart a distância, mas isso não era a realidade nas ilhas. Os britânicos resolveram este o problema por regras simples de engajamento, que proibiam quaisquer engajamentos enquanto os Sea Harriers estivesse dentro de alcance. Isso fazia sentido na medida em que os Sea Harriers eram muito mais eficazes do que os mísseis contra as aeronaves argentinas.

Os Sea Harriers tiveram que operar em áreas onde faziam sombra aos mísseis. Isto poderia ter consequências, como por exemplo num dia em que o destroier com mísseis Sea Dart HMS Coventry estava em Falkland Sound, acompanhado da fragata HMS Broodsword com mísseis Sea Wolf. 3 aeronaves argentinas apareceram ao longo da costa nas proximidades, com o objetivo de saturar a capacidade de defesa aérea do Coventry. Os arcos de lança-mísseis da Broadsword eram por vezes sombreados pelo Coventry, e outras vezes pela presença de Sea Harriers, que tinham pouca capacidade de se comunicar com o navio. As aeronaves argentinas conseguiram passar e lançar 2 bombas que penetraram no navio. Uma delas explodiu.

Os Sea Harrier tinham resiliência limitada, e não havia nenhuma possibilidade de manter uma CAP (patrulha aérea de combate) contínua sobre Falkland Sound. Em vez disso, os britânicos posicionaram submarinos de ataque ao largo da costa da Argentina (piquetes), o que poderia alertar os ataques argentinos quando eles aparecessem sobre o mar, avisando à frota.

Por outro lado, os argentinos estavam bem conscientes dos limites do desempenho dos Sea Harrier. Eles sabiam que os 2 navios-aeródromo  britânicos eram insubstituíveis e posicionaram-nos tão a leste quanto possível, e os limites dos Sea Harrier se mostraram claros com isso. O único submarino argentino eficaz não teve dificuldade em encontrar os navios. Em exercícios da NATO, submarinos a diesel encontrando navios-aeródromos aconteciam apenas quando eles eram obrigados a ficar estáticos em um lugar, uma restrição artificial usada para garantir que os comandantes de submarinos diesel teriam a oportunidade de fazer ataques. Nesta campanha, os navios-aeródromos britânicos estavam exatamente nesta situação, e o submarino argentino Tipo 209 San Luis atacou o HMS Hermes.
Este ataque, potencialmente fatal, foi frustrado por um lance de sorte dos britânicos, quando os marinheiros argentinos montaram o dispositivo de iniciação do torpedo de forma equivocada, impedindo sua detonação. O alcance dos sonares britânicos era limitado, e a área protegida em torno do navio muito pequena. Provavelmente se o comandante argentino tivesse disparado de uma distância mais curta (e mais vulnerável), ele teria logrado sucesso. A lição mais interessante da guerra anti-submarina (ASW) foi uma já velha conhecida: A qualquer momento, um submarino poderá estar presente, mesmo não estando lá, pois não se pode detectá-lo com precisão absoluta e sempre haverão falsos alarmes. Uma vez que os britânicos consideravam que um submarino argentino estava no mar, eles claramente ficavam desconfortáveis. Antes da guerra, houve muitas tentativas para reduzir as despesas com armas. Torpedos mostravam-se caros, e as estimativas eram de mais e mais reduções, com curtos ciclos de produção e capacidades menores por navio.

Outra lição excelente da ASW foi que essas estimativas eram fantasiosas. Diante da ameaça de submarinos diesel-elétricos, os britânicos tinham que recorrer ao sonar ativo, devido a estes submersíveis apresentarem assinatura acústica ínfima. Uma consequência foi que não se conseguia distinguir as baleias dos submarinos. Não só uma corrida de baleia está próxima a velocidade do submarino, como ela vai voltar-se para escapar a um ruído alto em grande parte da forma como um submarino ao tentar evadir-se.

O submarino argentino podia posicionar-se no leito oceânico. Os britânicos (e outros no âmbito da NATO, incluindo os EUA) não tinham nenhuma arma capaz de detectar e atacar um submarino estático no fundo do mar. A NATO dependia quase inteiramente de torpedos que distinguem os seus objetivos pelo efeito doppler, devido ao movimento do submersível. Não se sabe se este problema foi resolvido logo.
 
A guerra também demonstrou o impacto psicológico do ataque de torpedo sobre os argentinos. Os britânicos decretaram uma zona de exclusão marítima em torno das ilhas quando sua força-tarefa se aproximou. O submarino de ataque nuclear, HMS Conqueror, aplicou a determinação de Londres afundando o cruzador argentino ARA Gen Belgrano quando cruzava através desta zona (ou próximo dela). Este ataque, logo no início da contenda, mostrou o quão determinados os britânicos eram. Os argentinos não engajaram-se em mais nenhuma operação de superfície neste perímetro. A lição maior foi de que uma postura ofensiva sempre mostra sua eficácia, o que pode ter encorajado os EUA a ver que as operações submarinas nas áreas capitais soviéticas poderiam fazer as forças navais vermelhas hesitar, tendo como resultado o reforço naval da NATO no Atlântico. Este pensamento dos EUA já havia sido formulado muito antes da guerra.

No geral, a Marinha dos EUA foi atingida mais fortemente pela rapidez dos ataques aéreos. Como os britânicos, que tinham como padrão a operação em mar aberto, donde os navios teriam tempo de alerta considerável da aproximação de um ataque aéreo. Durante a Guerra do Vietnã, a US Navy vinha procurando um equipamento mais automatizado de defesa, mas em 1982, o único que existia era o sistema Phalanx. A reação imediata à experiência deste conflito foi o de incrementar o programa Phalanx e fornecer aos navios cargas muito maiores de chamarizes. Os trabalhos de armas defensivas, tais como o RAM, também foram acelerados.

A US Navy já tinha lidado com problemas de vulnerabilidade à ameaça aérea. Ela já tinha radares capazes de detectar alvos voando por terra, e já enfatizava o uso de links de dados, e estava trabalhando duro para superar as limitações das ligações existentes.

A questão maior levantada por esta guerra era se as frotas de superfície ainda eram válidas em face a ameaça dos mísseis, como o Exocet que afundou o HMS Sheffield. O míssil antinavio era considerado bem antes desta guerra o epítome do poder naval moderno. A principal lição parece ter sido a de que vários navios britânicos foram neutralizados porque suas superestruturas de alumínio sucumbiu ao fogo. O resultado foi que a nova Classe Arleigh Burke dos EUA, concebido depois da guerra, tinha suas superestruturas de aço. Os Burkes são realmente navios altamente capacitados no ítem sobrevivência, como a experiência do USS Cole depois mostrou, mas que foi devido a muito mais do que a construção apenas da superestrutura de aço - o que em si não teria sido suficiente.

Se a guerra realmente simulou uma frota em miniatura dos EUA contra uma força soviética também em miniatura, o sucesso dos britânicos mostraram que uma frota de ataque operando em grande escala tinha uma excelente oportunidade de levar a cabo a sua missão, uma chance muito melhor do que os críticos da evolução da estratégia de poder naval dos EUA haviam imaginado. Esta estratégia marítima custou muito aos soviéticos, pois teriam que dispender muito mais recursos para se preparar para uma guerra, num momento em que eles estavam mal embasados. A necessidade de um incremento, não apenas naval, mas para outros fins militares, obrigou os soviéticos a tomar medidas para mudar sua economia e seu sistema político. Descobriu-se que o sistema não tinha muito fôlego e que logo entrou em colapso. A Guerra no Atlântico Sul teve sua importância geoestratégica, porque em alguns aspectos importantes foi o começo do fim da Guerra Fria.