FRASE

terça-feira, 27 de março de 2018

Ações Estratégicas *144



Ações Estratégicas

Um governo, ao conduzir uma situação de crise deve seguir uma escala de percepções e ações que permita reagir aos acontecimentos sempre na medida adequada, evitando-se o uso desnecessário de medidas retaliatórias, que possam radicalizar a crise ou mostrar uma reação insuficiente, que demonstre fraqueza e omissão, encorajando a escalada dos fatores adversos. Os analistas dos serviços de inteligência devem estar atentos a fim de recomendarem aos seus “tomadores de decisão”, quais as medidas mais adequadas a serem adotadas em cada tipo de crise, evitando-se a surpresa estratégica.

O planejamento de emprego das expressões do poder de uma nação deve ser constantemente revisto em face a evolução da tecnologia existente e a disponível, a capacidade industrial e seu nível de aprestamento, e a configuração de ameaças possíveis, prováveis e eminentes. A situação política internacional que afete a nação, com suas alianças e antagonismos deve servir de norte a este planejamento.

As medidas a serem adotadas em situação de crise deverão ser diretamente proporcionais a discrepância do poder relativo entre os antagonistas e a importância do objetivo a ser perseguido, bem como a liberdade de ação de cada um. Empreender uma ação militar contra a Coréia do Norte por parte dos EUA, por exemplo, é totalmente diferente de tomar tal atitude em relação a Cuba, primeiro porque a primeira é supostamente uma potência nuclear, e segundo porque está sob a esfera de influência da China. Quando o Iraque invadiu o Kwait a resposta se deu prontamente, porém quando a Rússia invadiu a Criméia a reação foi bem diferente.

Nos cenários de grande liberdade de ação pode-se optar pela ação militar diretamente, resolvendo a crise rapidamente. Quando o poder militar inimigo é considerável, geralmente opta-se pelas retaliações e ações militares mais comedidas e de pequena envergadura. Neste caso podem ocorrer atritos localizados, porém evita-se um engajamento total, principalmente se houver a posse de armas nucleares pelo inimigo.

Estratégias Gerais

Estratégia da Dissuasão 

A estratégia da dissuasão é muito usada quando a capacidade de retaliação contra o inimigo é grande, e este evita o confronto, ou quando ambos são fortes e o confronto resultaria em grandes prejuízos a ambos. Esta estratégia foi muito usada na Guerra Fria e sua filosofia baseava-se na certeza da destruição mútua, pois as capacidades nucleares de ambos eram muitas vezes superiores às realmente necessárias. Ambos os lados sabiam que não haveria vencedores, o que garantia, desta forma que ninguém desse o primeiro tiro. Quando se trata de armas nucleares é uma estratégia perigosa e um pequeno erro ou acidente pode resultar em consequências severas. A dissuasão também é usada pelo mais forte contra o mais fraco, pois a simples ameaça de uso de um poder avassalador pode fazer este a aceitar as condições impostas.

Estratégias de Pressão

Quando o objetivo não é vital e o poder militar não é supremo, procura-se intimidar através de estratégias de pressão. Neste caso também evita-se o confronto direto mesmo o poder militar sendo muito superior, se a liberdade de ação for pequena. A crise dos mísseis cubanos é um exemplo de pressão, pois apesar da URSS ser dona de grande poder militar, recuou seus navios diante de um adversário igualmente poderoso cuidando de seu “quintal”. Neste caso ações no campo diplomático e da propaganda são mais eficientes, como as demonstrações de força e os desdobramentos e retóricas das chancelarias.

Estratégia da Resistência

Os conflitos propriamente ditos são usados quando o objetivo tende a ser muito importante, e mesmo o poder militar estando aquém do desejável, ele preocupa o inimigo.  Neste caso países poderosos aplicam poder militar avassalador como os EUA em sua invasão ao Iraque e os Nazistas em sua invasão a Polônia, com conflitos sendo decididos em tempos reduzidos. Conflitos de longa duração são desgastantes e muito caros, e tendem a ser evitados na atualidade, porém se o objetivo for muito importante e o poder militar fraco, de ambos os lados, estes tendem a acontecer. As guerras do Oriente Médio, ainda não resolvidas, são um exemplo destes conflitos de desgaste. Este tipo de conflito é geralmente norteado pela estratégia da resistência. Esta estratégia visa degradar moralmente um inimigo mais poderoso, inflingindo-lhes baixas não decisivas, mas que gradativamente diminuem sua vontade de lutar. A FNLV (Viet Cong) e o EVN usaram esta estratégia no conflito do Vietnam, e apesar da inferioridade militar, venceram o conflito.

A estratégia da resistência consiste em manter-se operacional, mesmo com meios limitados, estrategicamente manter-se na defensiva evitando-se o dispêndio de recursos que não existem em ações de grande vulto e taticamente na ofensiva com constante fustigação das fileiras inimigas através de ações de guerrilha. Isto obriga o inimigo a dispersas forças e facilita a ação dos atacantes.

Estratégia das Ações Sucessivas

Quando o objetivo é importante e os meios limitados, bem como a liberdade de ação pequena, adota-se a estratégia das ações sucessivas, onde uma série de ações em todos os campos de atuação possíveis complementam-se, buscando-se um objetivo final e importante a partir da conquista de objetivos menores e aparentemente não muito importantes. Ações políticas, diplomáticas, psicológicas e militares, aplicadas sucessivamente, em intensidades diferentes, servem de apoio umas às outras. A busca de objetivos aparentemente não importantes, não despertará no inimigo um grande empenho em sua retomada; ações militares pontuais, rápidas e violentas consolidarão estes objetivos que servirão de trampolim para o objetivo final. Esta estratégia combina a ação direta (militar), o conflito violento, a pressão indireta, e a estratégia de resistência. As ações políticas, de natureza diplomática e psicológicas se mostrarão dominantes nesta modalidade estratégica. Esta forma tende a ser a mais usada na gestão de crises que envolvam o confronto direto entre forças não hegemônicas, sendo uma empreitada longa, e vence aquele que tiver maior resiliência.

Planejamento Militar de Guerra

A estrutura de defesa deve adotar a concepção de emprego conjunto de todas suas forças e agências, incluído forças policiais e órgãos da administração civil. Um preparo coordenado e integrado das forças

terrestre, naval, aeroespacial e outras instituições deve permitir o seu emprego em situação de interoperabilidade, não se admitindo mais que cada força trave sua guerra particular como aconteceu em vários conflitos no passado.

A preparação deve ser realizada desde os tempos de paz, por meio da implementação de uma estrutura de fácil transição das atividades destes tempos para um quadro operacional de guerra, incluídos as forças armadas e a sociedade civil. Ações estratégicas devem ser previstas, planejadas e implementadas para que se possa atingir rapidamente uma capacidade operacional capaz de responder a altura de qualquer situação que venha a surgir. A mobilização, seja da infraestrutura como da indústria, bem como dos reservistas, deve se dar de forma natural e rápida, de forma em que os efetivos e capacidades possam atingir uma condição operacional plena para qualquer conflito e para a manutenção do pós-guerra. 



sábado, 17 de março de 2018

Estado-Maior e Ordens #143


O comandante militar é o responsável pela operação. É dele que partem todas as ordens para que as forças combatentes e de apoio cumpram a missão. Ele planeja e controla todas as ações, corrige rumos e disponibiliza apoio logístico para que cada ator exerça seu papel no momento e local oportuno, com a segurança adequada e devidamente abastecidos.

Esta atividade é comumente designada no meio militar como “Comando e Controle” (C2) e é a alma de qualquer operação. Unidades militares sem C2 são apenas um grupo bem disciplinado de indivíduos armados sem saber o que fazer. Cabe ao comando providenciar para que cada unidade ou indivíduo esteja no local de sua missão no horário previsto, com o equipamento adequado e devidamente instruídos de sua parte, inteirados da situação como um todo e com o suprimento necessário.

Uma operação militar é tanto mais complexa quanto maior for o escalão envolvido. Uma missão atribuída a um GC demanda alguma munição, alguma comida e talvez uma ou duas viaturas para transportá-lo, um objetivo simples que provavelmente será atingido em poucas horas; enquanto que uma missão a cargo de uma força-tarefa, divisão ou corpo de exército demanda recursos para manter em combate milhares de militares com milhares de equipamentos diferentes, com seus consumos de combustível, munição e alimentos, demandas médicas e de manutenção, além de um sem número de manobras e escaramuças envolvendo forças diversas de terra, unidades aéreas e navais. Tudo tem que ser coordenado e seu desfecho conferido, para que uma próxima fase possa ser implementada. Pode durar dias ou meses e serão necessárias milhares de decisões e ordens.

Comandar um GC ou pelotão pode ficar a cargo de um sargento ou oficial, mas a medida que o escalão aumenta se faz necessário a descentralização das atividades, com a segmentação das atividades operacionais e logísticas. A partir do nível subunidade (companhia) os comandantes militares contam com algum “staff”, um colegiado de oficiais que o auxiliam na divisão da complexa tarefa que é administrar uma operação militar. A este “staff” denomina-se no meio militar de Estado-Maior. O Estado-Maior possibilita ao comandante a descentralização da atividade de C2, poupando-lhe de se preocupar com detalhes operacionais e possibilitando-lhe que se concentre nas decisões mais importantes. Assim temos oficiais encarregados da produção de inteligência, de logística, de pormenores administrativos como o recompletamento de pessoal, de ligação com outras unidades, no planejamento e pormenorização das decisões táticas e operacionais tomadas, na segurança e vigilância e na avaliação de resultados, além de outras atividades consideradas necessárias.

O trabalho do Estado-Maior consiste em buscar soluções para os problemas e desafios que se apresentem, colher inteligência a respeito destas situações, analisá-los à luz da inteligência disponível e propor a solução destes ao comandante, considerando todas as linhas de ação possíveis e elencando a mais adequada, justificando causas e conseqüências de cada uma, vantagens e desvantagens, sempre fazendo contato prévio com todas as unidades envolvidas. A sugestão por um ataque aéreo deverá ser precedida por uma consulta de disponibilidade da unidade aérea que realizará o ataque, por exemplo. Ao comandante deverão chegar as sugestões de forma objetiva sem documentação volumosa, com conclusões claras e concisas, para que ele possa escolher, aplicando a solução se necessário, sua experiência e conhecimento pessoal, e uma vez tomada a decisão que ela siga na forma de ordem para pronto cumprimento. Ordens secundárias ou de menor importância deverão ser prontamente despachadas pelos oficiais do Estado-Maior e seus auxiliares, poupando desta forma o comandante dos detalhes operativos.




A estrutura de um Estado-Maior varia de acordo com a força a que serve e a situação que deverá ser enfrentada. Esta estrutura será composta por um chefe de estado maior, que poderá ser o sub-comandante da unidade ou não, e as diversas seções operativas, cada qual comandada por um oficial dedicado, que por sua vez será assessorado pelos oficiais adjuntos em funções específicas. No Exército Brasileiro, por exemplo, um Estado-Maior típico ou geral consiste em 5 seções, sendo a 1ª Seção encarregada da organização e administração de pessoal, a 2ª Seção ocupa-se da produção de inteligência, a 3ª Seção é a de operações e responsável pelas linhas de ação da unidade e adestramento de pessoal, a 4ª Seção encarrega-se do apoio logístico e a 5ª Seção cuida da comunicação social e dos assuntos civis. Outras estruturas podem ser implementadas.

Os oficiais adjuntos ou auxiliares constituem o Estado-Maior especial e cada um cuida de uma subseção específica, subordinados aos oficiais do Estado-Maior geral e atuando por exemplo, nas áreas de defesa antiaérea, apoio de fogo, guerra química e biológica, ambiente nuclear, engenharia de construção e combate, controle de tráfego aéreo, polícia, guerra eletrônica, comunicações, força aérea, aviação do exército, forças aeronavais, forças navais, prisioneiros de guerra, justiça militar, ajudância geral, segurança de área,  controle de aeródromo, controle de terminal portuário e tráfego aquático, propaganda, ações diversionárias, defesa anticarro, forças especiais, ligação com outras unidades, saúde e apoio médico, transporte e controle de tráfego terrestre, agências externas, e outras áreas que se façam necessárias.

O advento da tecnologia digital e da NCW permitiu a automatização de muitas tarefas desempenhadas pelos estados-maiores e postos de comando, agilizando muitas das decisões. Por exemplo a execução de uma missão de tiro pela artilharia, alimentada em um sistema informatizado pode demandar o ressuprimento de munição de uma área remota sem qualquer intervenção humana, dependendo dos sistemas disponíveis.

Os estados-maiores compõem os postos de comando da unidades e grandes-unidades e juntamente com o comandante são a parte operativa dos mesmos, que funcionam em uma estrutura física provida pelas subunidades de comando e serviços desta unidades. São alvos prioritários das forças inimigas e a neutralização dos estados-maiores e seus postos de comando poderá acarretar na inoperância tática de seus comandados, total ou temporária, por falta de ordens.



domingo, 7 de janeiro de 2018

O Obuseiro #142


veja Também: Morteiros

O obuseiro é o sucessor nos campos de batalha das catapultas medievais, e surgiu no século XVII como uma arma de cerco, tal qual sua antecessora. Com uma lenta introdução durante o século seguinte, consolidou-se como uma arma capaz de disparar projéteis explosivos, ao contrário dos canhões da época que disparavam projéteis cinéticos. Estas bocas de fogo passaram a acompanhar as tropas em campanha a medida que adquiriam a mobilidade necessária, e tanto no cerco como no campo podiam endereçar invólucros de metal recheados de pólvora, variando seu ângulo de tiro, o que demandou o desenvolvimento de uma técnica para que o projétil atingisse seu alvo. Dessa forma sua operação era mais complicada que a dos morteiros e canhões, o que demandou guarnições capazes de realizar cálculos, resultando em uma arma muito mais flexível que seus similares, utilizando-se de trajetórias variadas. Os projéteis cinéticos esféricos cederam lugar aos cilíndricos explosivos, capazes de carga equivalente (em volume) com calibres bem menores.

O século XX trouxe a esta arma a maturidade, após uma longa gestação entre armas de alma lisa ou raiada, com aplicação de sítio ou em campanha. A guerra de trincheiras do início do século XX demandou trajetórias altas com ângulos de impacto pronunciados, os tubos tornaram-se mais longos com os alemães adotando modelos de 105 mm e 16 e 22 calibres. Ao mesmo tempo canhões de 77 mm capazes de ângulos mais altos foram entregues, assumindo parte da função dos obuseiros. O entre-guerras resultou na tendência de fusão de ambos os tipos. A grande guerra que se seguiu consolidou o uso da artilharia como arma principal nas forças soviéticas, sendo estes parte fundamental de sua doutrina. Surgiram os freios de boca para redução do recuo e estas armas consolidaram a tendência de canos longos, cargas de projeção múltiplas e escolhidas conforme o alcance, altas velocidades iniciais e ângulos de tiro superiores aos 45º. O obuseiro passou a compor as fileiras de todos os exércitos modernos.


O obuseiro é a peça padrão da artilharia de campanha moderna no que diz respeito a artilharia de tubo, e uma das principais armas do campo de batalha da atualidade. É a principal arma provedora de fogos apoio, e equipa a grande maioria das unidades de artilharia. As outras armas que, ao lado do obuseiro também compõem as unidades de artilharia, são os morteiros e os lançadores múltiplos de foguetes (MLRS Multiple Launch Rocket System). Estes primeiros são armas mais simples e baratas, e ainda com peso reduzido em relação ao obuseiro, porém não alcançam a mesma precisão nos impactos. Os morteiros de 120 mm rivalizam com os obuseiros de 105 mm em alcance e são empregados em tropas leves ao lado dos mesmos, onde a maneabilidade torna-se o principal fator. Os MLRSs são armas mais poderosas e caras, que exigem estruturas logísticas para remuniciamento mais complexas, e provocam efeitos mais devastadores, sendo empregados em unidades de escalão superior e não são adequadas ao apoio de fogo às armas-base.

Idêntico ao canhão tradicional aos olhos do leigo, o obuseiro diferencia-se deste por sua capacidade de realização do tiro balístico, por cima das cabeças da tropa apoiada, valendo-se de técnica de tiro mais elaborada uma vez que as baterias não visualizam seus alvos, e material que emprega velocidades iniciais e pressões de tubo inferiores.  O obuseiro possui ainda a capacidade de realizar o tiro vertical (acima dos 45º), tal qual os morteiros. Muitos o designam erroneamente como “obus”, porém vale salientar que este termo designa a munição, e não o reparo lançador da mesma, embora existam interpretações diversas. Vocacionado para a realização do tiro balístico, o obuseiro pode, inopinadamente, realizar o tiro tenso ou direto, tal qual um canhão tradicional, possibilidade esta impossível aos morteiros.



O obuseiro opera compondo baterias de tiro, geralmente de 4 ou 6 unidades, que disparam seus fogos de forma coletiva obedecendo a elementos de tiro comums e disparos simultâneos, a fim de proporcionar volume de fogo na área de impactos (no alvo). O obuseiro não é uma arma de precisão, sendo seus impactos considerados “no alvo” quando atingem determinada distância deste, geralmente de 50 m, dependendo do calibre do material e do raio de ação dos arrebentamentos (no material de 105 mm é de 25 m). Operando a retaguarda dos “fronts” de combate, e sem visualizar seus alvos, as baterias de obuseiros contam com os olhos dos observadores avançados (OAs) para dirigir seus disparos e verificar sua eficácia. Os OAs inimigos por sua vez, estão de olho nas baterias e tem nelas seus principais alvos, razão pela qual as baterias de tiro devem sair rapidamente de posição após cumprirem a missão de tiro, exigindo tanto do equipamento quanto das guarnições elevada mobilidade e agilidade, sempre que a ameaça do tiro de contra-bateria estiver presente.




Os obuseiros podem ser montados tanto sobre plataformas autopropulsadas como rebocadas, sendo os primeiro destinados a acompanhar forças mecanizadas e blindadas, e os segundos componentes de tropas mais leves e menos móveis. Os modelos rebocados podem ser aerotransportados com maior facilidade, possuindo mobilidade estratégica superior aos seus pares autopropulsados, pois apresentam peso reduzido em relação aos primeiros, tanto por aeronaves de asa fixa como por helicópteros. Podendo nos helicópteros valer-se de aerotransporte em suspensão abaixo da aeronave, prática essa usada para deslocamentos táticos de curta distância e reposicionamento de baterias no terreno.

A pontaria de um obuseiro é realizada com o auxílio de pranchetas de tiro baseada em mapas do terreno. Uma luneta de tiro com graduação angular tem sua pontaria “amarrada” a uma baliza, cujo ângulo registrado pela visada nesta baliza representa um ângulo real em relação ao norte. Ao de se designar uma missão de tiro, uma central de tiro calcula na prancheta o novo ângulo a ser registrado na luneta, que ao ter sua visada realinhada a baliza faz com que o tubo por conseqüência se realinhe também, apontando na direção do alvo. O alcance é calculado a partir de tabelas pré-determinadas e materializado a partir da elevação dada ao tubo e da carga de projeção usada.



Devido a fluidez da guerra moderna e a já citada necessidade de atirar rapidamente a abandonar a posição, os equipamentos mais modernos contam com facilidade tanto nos sistemas de pontaria como nos de carregamento. Estes incorporam sistemas integrados digitais que contam com localizadores inerciais e GPS ou similares que dão a posição exata da peça e a distância do alvo, podendo apontar os tubos automaticamente ou fornecerem em tempo reduzido os dados para tal. Contam ainda com medidores de velocidade inicial dos disparos proporcionando mais precisão nos disparos, com dados integrados por computadores balísticos. Alguns modelos permitem a fantástica capacidade de efetivar alguns disparos (geralmente 3) em seqüência e em ângulos diferentes para um mesmo alcance, de forma que os projéteis alcancem o alvo ao mesmo tempo, com os primeiros descrevendo trajetórias mais longas que os últimos, causando um efeito superior.

Taticamente falando, o obuseiro é uma arma incrivelmente flexível, pois sem trocar de posição pode transportar seus fogos de seu alcance mínimo até o máximo em minutos, em qualquer direção. Isto permite que uma bateria de artilharia efetue um grande número de missões de tiro sem deixar a posição atual, atirando por exemplo, a 10 km para oeste, em seguida 30 km ao noroeste e em poucos minutos 15 km para o norte, se seu alcance permitir. Esta forma de atuação tática só é possível se não houver risco do inimigo em empreender fogo de contrabateria como eram nas bases de fogo do US Army no Vietnam.  

A tendência moderna é a padronização dos calibre em 105 mm mais leve e 155 mm padrão, amplamente usados no ocidente e tendência esta sendo seguida por países de outras partes do mundo, embora outros calibre também estejam em uso. O modelo de tubo mais usado pelo membros da NATO é o de 155 mm de 52 calibres, e que representa a tendência mundial. Transportar munição de 155 mm (volumosa) nas quantidades necessárias às missões requeridas exige grande esforço logístico, sendo que estas armas (mesmo as de 105 mm), exigem grande esforço de remuniciamento. Mesmo no ocidente as peças de 105 mm vem perdendo espaço para as 155 mm, ficando exclusivas para tropas mais leves como tendência.


 Os obuseiros modernos podem lançar granadas comuns a 30 km ou mais, dependendo do modelo no calibre de 155 mm, e cerca de 18 km nos modelos de 105 mm, com alcance de 10 a 15 km adicionais quando usando granadas assistidas. As granadas usadas também variam por função existindo as de alto-explosivo (HE), as fumígenas, iluminativas, anticarro, de propaganda, químicas, nucleares, etc. Na guerra do Vietnam o US Army lançou através de sua artilharia sensores que denunciavam a aproximação inimiga, através da medição de vibrações no terreno.

Os obuseiros e morteiros compartilham com a aviação de CAS, a artilharia naval e os MLRSs a incumbência de proporcionar volume de fogo nos campos de batalha modernos, porém os demais nem sempre estão disponíveis e a artilharia orgânica está diretamente sob o comando dos comandantes de campo, o que garante flexibilidade na sua utilização e a certeza destes comandantes que contarão com o fogo de que necessitam a hora que lhes for conveniente.


sábado, 9 de dezembro de 2017

A Logística no Desembarque na Normandia *141



Vinícius Valgas De Nadai

1. INTRODUÇÃO 

A Segunda Grande Guerra ou Segunda Guerra Mundial iniciou-se no ano de 1939, quando a Alemanha Nazista comandada por Adolf Hitler, pretendia junto aos países que formavam o Eixo, Itália, Japão e Alemanha, continuar a expandir seu território, recuperando parte das terras perdidas durante a Primeira Grande Guerra. Neste período, a logística mostrou-se indispensável durante os eventos militares, estes que evidenciaram sua complexidade em todo o período de guerra (CAMPOS, 1965). Inúmeros obstáculos foram detectados no processo de fornecimento de suprimentos para a frota militar em plena guerra, fazendo com que houvesse busca pela agilidade e aperfeiçoamento estratégico, buscando adotar métodos pré-determinados para evitar contratempos durante os acontecimentos. 

Usando a estratégia de “Guerra Relâmpago”, de codinome Blitzkrieg, primordialmente, a Alemanha Nazista havia conquistado consecutivas vitórias. Mesmo com muita relutância dos combatentes Aliados, sendo eles Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, a Alemanha tomou posse de grandes áreas territoriais, pretendendo conquistar e aumentar ainda mais sua predominância, chegando a um ponto que ultrapassaram as conquistas esperadas. A invasão da Normandia, considerada uma das batalhas de maior magnitude logística dos últimos tempos, ocorrida em 6 de junho de 1944, no noroeste da França, é, até hoje, considerada a maior invasão marítima da história, que envolveu um contingente de três milhões de soldados. 

Nesta batalha, a Alemanha foi desfavorecida por não possuir informações suficientes sobre as ações dos inimigos, não tendo conhecimento da data em que a invasão aconteceria e apresentando divergências quanto ao local do desembarque. Erwin Johannes Eugen Rommel, experiente militar alemão e comandante de exército na França, acreditava, ao contrário da maioria, que a invasão aconteceria na região da Normandia e assumiu a localização que lhe foi delegada, preparando um arsenal de defesa que se denominou “Muralha do Atlântico”, dificultando à logística dos Aliados durante a invasão. (KEEGAN, 1994) A “Muralha do Atlântico” era uma estrutura de defesa do Eixo que abrangeria a faixa litorânea da Dinamarca à Espanha, protegendo toda a costa tomada pelos alemães. Essa muralha constituía-se num conjunto de casamatas e áreas minadas posicionadas para dificultar ou impedir a suposta invasão ao continente europeu pelos Aliados.



2. HISTÓRIA

2.1. Decisões pelo Dia D 

Conhecido como o Dia D, aquele 6 de junho de 1944 entrou para a História. Foi o dia em que os Aliados invadiram a França pelas praias de Normandia para dar início a uma grande reintegração de posse territorial contra o exército nazista. A tomada de decisão pelas datas do grande ataque duraram anos, sendo motivo de muitos pleitos entre os Aliados. No começo, não houve consenso em relação à proposta da União Soviética para a abertura de uma segunda frente de batalha na Europa Ocidental, com a intenção de diminuir perdas russas nos enfrentamentos contra as Forças Armadas Alemãs. (COLLINS, 2005) Quando 1943 chegava ao fim, foi decidido pelo planejamento da Operação Overlord, que ocorreria durante a próxima primavera européia, definido também que a invasão aconteceria numa faixa de oitenta quilômetros de extensão, situados entre Cherbourg-Octeville e a foz do Rio Sena, região da Baixa Normandia. Esta batalha seria, posteriormente, considerada o maior combate aeronaval da História da Logística Militar. 

Passados meses desde a decisão pela invasão, mais de três milhões de combatentes britânicos, norte-americanos e canadenses se aglomeravam ao sul da Inglaterra para se preparar para o ataque aos alemães na costa norte da França. Para a operação, foram designados dez mil aviões, sete mil navios e centenas de tanques “anfíbios”, além de outros veículos específicos para guerra. A área de desembarque foi dividida em cinco praias, com codinomes e localizações para desembarque definidos como: 

  • Utah Beach, entre Pouppeville e La Madeleine; 
  • Omaha Beach, entre Saint-Honorine-des-Pertes e Vierville-sur-Mer; 
  • Gold Beach, em Arromanches-les-Bains; 
  • Juno Beach, de Courseulles-sur-Mer a Saint-Aubin-sur-Mer; 
  • Sword Beach, de Saint-Aubin-sur-Mer a Ouistreham; 


As duas primeiras, Utah e Omaha eram de tropas americanas, Gold e Sword eram formadas por tropas britânicas e Juno, canadenses.

2.2. O dia do Desembarque 

Foi anunciada pelo rádio a chegada do Dia D, o Dia da Decisão, em 6 de junho de 1944. Depois de ser adiado, por 24 horas, por problemas relacionados ao mau tempo no Canal da Mancha, o desembarque, por pouco, não foi suspenso. Ainda durante a madrugada, paraquedistas e caças aéreos já haviam dado início ao bombardeio de barricadas alemãs e devastado as vias de comunicação. Com cerca de 6.500 navios militares, houve ataques em praticamente 100 quilômetros de costa litorânea da Normandia, localizada a noroeste da França. Com o primeiro dia de invasão chegando ao fim, observou-se que mais de 150 mil soldados e vários tanques anfíbios alcançaram o continente europeu. Com a superioridade aérea dos Aliados, foi factível o rompimento da “Muralha do Atlântico”, que era considerada a grande barreira naval de Hitler, quando então foram constituídas as primeiras pontes de ataque (KEEGAN, 1982).

2.3. A Reação Alemã 

A Alemanha Nazista previa uma invasão, mas certamente não sabia onde ocorreria, nem mesmo chegou a um consenso interno sobre a forma correta de confrontá-la. Em decorrência do clima desfavorável do local, eles presumiram que o ataque seria adiado para o verão europeu, porém, devido a táticas realizadas pelos Aliados, fez-se acreditar que a invasão ocorreria na parte mais estreita do Canal da Mancha, onde, Hitler, contrariando avisos do marechal de campo Erwin Rommel, ordenou a concentração do décimo quinto Exército.

Outras tropas do Eixo mantiveram-se no interior do país, ao invés de serem relocadas para a costa, como havia solicitado, em vão, Erwin Rommel. Em razão desses problemas estratégicos, os Aliados esquivaram-se de uma provável contraofensiva nazista (HASTINGS, 1984). Devido ao despreparo alemão para enfrentar a invasão, no fim do primeiro dia as perdas humanas (cerca de doze mil) foram consideradas menores do que o esperado pelos Aliados. Mesmo com a evidente inaptidão momentânea por parte dos alemães, a evolução das tropas Aliadas sofreu grande relutância pelas tropas do Eixo. A resistência nazista no interior da França, só foi rompida no dia primeiro de agosto, uma semana após o previsto.

2.4. As Libertações 

Liderado por Dwight Eisenhower (Comandante Supremo das Forças Aliadas), o Dia D foi o ataque logístico tático que daria o golpe fatal nas forças nazistas instaladas em grande parte do território europeu. "Esse desembarque faz parte de um plano coordenado pelos aliados ocidêntais – em cooperação com o grande aliado russo – para libertar a Europa. A hora da libertação chegou", previa Eisenhower, no dia 2 de junho de 1944. No dia 25 de agosto, foi libertada Paris, já em 2 de setembro foi a vez de Bruxelas. O limite de fronteira alemã, anterior ao começo da guerra, foi ultrapassado pelos Aliados em Aachen no dia 12 de setembro, simultaneamente com os bombardeios aéreos em combate a municípios industriais alemães. Logo no início de 1945, norte americanos (pelo oeste) e soviéticos (pelo leste), começaram uma corrida em direção à Berlim, para comemorar a conquista absoluta sobre a Alemanha nazista.



3. LOGÍSTICA

3.1. Preparação 

Sem dúvidas, houve imenso planejamento logístico para a realização da operação de desembarque. Toneladas de suprimentos foram transportadas da Inglaterra para as praias da Normandia, utilizando centenas de embarcações de tamanhos variados. Considerando de caráter logístico todos os aspectos da operação, determinar o tamanho da força tarefa, objetivos táticos e estratégicos, locais de desembarque, e as necessidades de abastecimento de curto e longo prazo é necessário para melhor planejamento.

veja: Portos Mulberry

Para dar início a força tarefa, houve grande preocupação com a chegada de suprimentos suficientes em terra, pois ali assegurados, conseguiriam estabelecer portos para o desembarque de mais tropas e suprimentos. Enfatizando a importância do desembarque e distribuição de suprimentos, somente os americanos atribuíram à operação logística sete brigadas com um montante de vinte mil homens cada, estes desembarcados em diferentes fases da operação, sendo responsáveis pelo transporte de 3.300 toneladas de suprimentos por dia, e designados a desembarcar estes itens na praia, carrega-los para os caminhões ou tanques principais e leva-los para a tropa na linha de frente. 

O sucesso ou fracasso desta invasão dependia do desempenho de suprir as tropas à frente, visando o acúmulo de suprimentos para executar uma futura ofensiva (CAMPOS, 1952). Os líderes tentaram reduzir a incerteza nos planos do processo logístico, explicando detalhadamente o sistema de distribuição, contando com uma estratégia logística precisa e meticulosa. Cada material recebeu sua própria prioridade e com elas o nível necessário de reabastecimento, fazendo o processo de acumulação de reservas se tornar cada vez mais complexo à medida que a força dos Aliados aumentava seu poder de realizar operações de ofensivas (COLLINS, 2005).

3.2. Problemas Logísticos da Operação 

No primeiro dia de invasão, 150.000 homens Aliados se chocaram contra as defesas alemãs do Eixo, e mesmo com as dificuldades encontradas em Omaha no começo da operação, ao anoitecer as tropas Aliadas ja se encontravam solidamente estabelecidas no continente. No terceiro dia de invasão (D+3), os Aliados começaram a sair das praias em direção ao continente, onde se iniciaram as operações de desembarque em grande escala, levando os Aliados a se depararem com uma grande gama de problemas logísticos. Identificou-se a necessidade de uma quantidade maior de embarcações de menor porte para transportar os suprimentos dos navíos até as praias, pois não tinham caminhões anfíbios suficientes (tipo DUKW) e nem ferries (Rhino), contando que estes transportes já estavam sobrecarregados e sendo usados com mais frequência do que o planejado, mesmo assim não sendo suficiente para mover o montante demandado. 

Dado este obstáculo, o processo de desembarque de suprimentos se tornou um caos. À medida que o fluxo de desembarque começou a atrasar, embarcações que precisavam partir tinham que esperar, porém outros carregamentos de tropas e abastecimentos chegavam de acordo com o cronograma inicial, tendo que esperar, atrasando o seu retorno à Inglaterra para ser recarregado, resultando em um enorme “congestionamento” e aumento no tempo de descarga de suprimentos. O caos se manifestou em todo o sistema logístico, impactando nos portos de embarque da Inglaterra, onde a equipe da intendência iniciou o carregamento das embarcações com todos os tipos de insumos misturados, sem ter o cuidado de separar apropriadamente os carregamentos delegados a cada embarcação. (CAMPOS, 1965) 

Para exemplificar a desordem daqueles primeiros dias de invasão, temos a busca desesperada dos americanos pelos projéteis de 81 milímetros para suas armas. Os registros indicavam que grande quantidade desta munição se encontrava nas embarcações que já estavam na costa, porém estas não eram localizadas. Depois de alguns dias de tormento e graças a enormes esforços de todos envolvidos, a situação começou a se normalizar e em seguida melhorou substancialmente. Para o décimo oitavo dia (D+18), as acumulações de tropas e suprimentos finalmente ultrapassaram o montante previsto em tonelagem. Até o final de junho, mais de 42 mil soldados, 70 mil veículos e 289 mil toneladas de carga foram recebidos (respectivamente 71,8%, 64,5% e 80,5% do desembarque planejado).



3.3. A Importância da Operação Overlord para Logística 

A Operação Overlord foi um acontecimento muito importante da Segunda Guerra Mundial na região da Europa Ocidental. Simplesmente pelo fato de ter desembarcado na França, os Aliados ocidentais abriram uma segunda frente de guerra, com fortes implicações para a Alemanha. A operação logística foi monumental, uma tarefa sem precedentes na História. Mesmo com erros em sua concepção e execução, a operação obteve êxito, apesar das dificuldades. Detalhes específicos e falta de flexibilidade foram as causas da destruição alemã. Em 27 de julho, no quinquagésimo primeiro dia (D+51), as tropas norte americanas perfuraram o exercito alemão em St. Lo, região da Baixa Normandia, e de lá começaram a perseguição de seus inimigos que não se conteria até alcançar a fronteira da Alemanha.

3.4. Rápido Avanço dos Aliados 

O avanço até a Alemanha foi extremamente interessante e a rapidez do avanço dos próximos dez meses teria como consequência uma enorme pressão sobre o sistema logístico dos Aliados, que, por sua vez, teve que fornecer suprimentos para mais de um milhão de soldados e milhares de veículos de todos os tipos ao longo de centenas de quilômetros, esta, outra tarefa sem precedentes. (MASSON, 2003) No centésimo dia (D+100), 14 de setembro de 1944, o primeiro Exército Aliado estava chegando à fronteira alemã, perto da cidade de Aachen, uma área que só esperava-se alcançar no dia D+330. 

Esta rapidez se chocou com outro problema inesperado, a falta de transporte dos suprimentos que já estavam acumulados nas praias da Normandia para as tropas avançadas. No final de agosto, 90% do fornecimento dos Aliados ainda se encontrava em armazéns na Normandia, a uma distância de 500 quilômetros das tropas de frente. O planejamento logístico do avanço dos Aliados na Europa Ocidental baseou-se na forma de resolver problemas no carregamento de suprimentos às tropas, utilizando vários modais, como o rodoviário, com caminhões, o aeroviário, com aviões e o dutoviário, com os dutos de combustível. Nos meses críticos, de agosto e setembro, os caminhões foram utilizados para transportar a maior parte dos itens demandados das praias da Normandia até a linha de frente da batalha, porque a infraestrutura de transporte de alto volume, como trens e dutos não se encontravam prontos para o funcionamento. As linhas férreas no oeste de Paris tinham sido bastante danificadas devido a bombardeios anteriores a invasão, e demorariam meses para serem reconstruídas enquanto os dutos de combustível levariam algum tempo para serem instalados (CAMPOS, 1965).

3.5. Rumo ao Interior do Continente 

Anteriormente, no período em que os Aliados permaneciam nas redondezas das praias, as distâncias eram curtas, tornando a distribuição de suprimentos simples. Porém, a partir do momento que quebraram as barreiras alemãs na Normandia, a distância não parava de crescer. E à medida que as tropas se afastavam das bases de abastecimento, o nível de reabastecimento diminuía. 

Em 21 de agosto, o transporte de suprimentos foi organizado e denominado “Red Ball Express”. (BEEVOR, 2009) O uso de caminhões para suprir a demanda de suprimentos, se converteu em um problema logístico de grande magnitude. O efeito do rápido avanço Aliado na batalha foi extremo. Conforme a distância aumentava, os caminhões necessitavam de um maior tempo para completar a viagem de volta aos depósitos, demorando mais para chegar, novamente, à linha de frente. Cada quilômetro avançado pelas tropas evidenciava a diminuição da quantidade de caminhões a disposição. De fato esses veículos conseguiam transportar apenas o mínimo demandado pelo exército, excluindo a possibilidade de acúmulo de reservas, e eventualmente, deixando de arcar com as necessidades posteriores. No dia 9 de setembro, o combustível recebido pelas tropas de frente, era menor do que o consumo diário, fazendo com que o avanço de muitas unidades parasse abruptamente, além de que o consumo de combustível era apenas um dos problemas. 

Em meados de setembro, a artilharia precisaram racionar a quantidade de projéteis de todos os calibres que podiam disparar, para apoiar as unidades nas tropas avançadas. No final de setembro, a situação ficou ainda mais crítica, obrigando os Aliados a parar os avanços para conseguir tempo suficiente para coletar e acumular suprimentos e reiniciar o avanço em direção à Alemanha na primavera de 1945. (CAMPOS, 1965) O aparato de intendência logística Aliado teve grandes dificuldades para reabastecer combustível e munição, embora houvesse graves problemas em algumas áreas, tais como a manobra de distribuição de roupas de inverno (sendo, em alguns casos, tarde demais), processos como distribuição de alimento, água e vestimentas eram, ao contrario do esperado, de fácil execução. A crise do reabastecimento das tropas, só foi solucionada quando o sistema de ferrovias conseguiu dar início ao carregamento de parte substancial dos suprimentos, no final de novembro. Um trem poderia facilmente transportar 1.000 toneladas de suprimentos, o equivalente a 400 caminhões com 2,5 toneladas cada, o maior caminhão disponível dos Aliados.



3.6. O Triunfo dos Aliados 

A clara habilidade e dedicação dos envolvidos, cujo afinco, tanto das tropas de batalha, como das tropas de serviço, forneceram contribuição fundamental para o triunfo dos Aliados. No dia 6 de junho de 1944, as manobras logísticas realizadas foram as mais eficazes até então conhecidas, contando com o apoio dos aparatos de guerra mais poderosos da época. [...] Nunca anteriormente, os exércitos haviam avançado com tamanho apoio logístico e com tanta velocidade, tanto por terra como pelo ar, como também jamais a potência de choque de forças combatentes havia sido tão oportunamente suprida pelas tropas de Serviços. Dwight Eisenhower (CAMPOS, 1965 – p.195). Tropas dos serviços de abastecimento cumpriram, com astúcia e aptidão, as inúmeras missões a eles delegadas, trabalhos pesados, muitas vezes triviais e ocasionalmente miseráveis. Os esforços realizados pelos órgãos e tropas de suprimentos, mostraram-se tão importantes e fundamentais para o sucesso quanto ao das forças combatentes, igualando sua contribuição na conquista da vitória.

CONCLUSÃO 

Um sistema logístico é essencial para garantir a eficiência de um evento como o abordado neste artigo, para suprir as necessidades de abastecimento das tropas e o transporte de equipamentos em geral, podendo determinar o triunfo ou a derrota de ambas as partes. Foram milhares de homens exercendo tarefas em todas as funções, enfrentando nobremente, tanto atribulações de batalha, quanto a exaustão. 

Durante toda a invasão, foram necessárias operações de abastecimento, e se não fosse por elas, o triunfo dos Aliados sobre o Eixo talvez não se consolidasse. Demonstrando as razões estratégicas do êxito, estavam os muitos elementos atuando em harmonia entre si no decorrer da empreitada dos Aliados. 

Evidenciou-se a habilidade, abrangendo todos os serviços, para se colocarem acima das condições desfavoráveis. Ao apontar as razões do triunfo, temos que considerar, não somente as proezas durante a batalha, mas também a cautela e o planejamento antecipado ao dia D, que levou anos para ser elaborado. O sucesso foi consequência do preparo meticuloso da logística dos Aliados, o apuro do reabastecimento das tropas na linha de frente e dos aparatos anfíbios, além da eminente organização que outorgava as extraordinárias façanhas do Serviço de Suprimento e Manutenção. O desempenho estratégico logístico, em conjunto com os problemas administrativos internos do Eixo, culminou na vitória dos Aliados, mais do que qualquer supremacia material ou quantitativa, desempenho, hoje, devidamente reconhecido em 6 de junho, intitulado Dia Internacional da Logística.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Submarinos #140



Submarinos são os navios que tem a maior relação efetividade x capacidade de sobrevivência das marinhas modernas. Eles operam submersos, longe do alcance dos radares, satélites e olhos humanos; e mesmo para os modernos sonares, podem passar desapercebidos, dependendo das condições do oceano e da perspicácia de suas tripulações, além é claro, da qualidade de seu projeto. 

Seu grande trunfo é o silêncio, e fazer o menor ruído possível é condição fundamental a sua operação e a chave de sua sobrevivência. Operam indiferentes às condições climáticas e com apoio logístico reduzido, e a simples possibilidade de sua presença demanda junto ao inimigo grande esforço de vigilância e restrição de operações. Dispensam escolta, seja naval ou antiaérea, sendo vulneráveis apenas quando estão atracados ou entrando e saindo de suas bases.

Foram empregados pela primeira vez em maior escala na grande guerra mundial da década de 1910, fazendo algumas incursões também na guerra civil norte-americana, tendo desde lá experimentado uma grande evolução tecnológica e compondo as fileiras de todas as marinhas mais importantes. Embora o advento da propulsão atômica nos anos 50 tenha desencadeado previsões que os submarinos de propulsão convencional tenderiam a desaparecer, eles continuam atuantes e presentes.



São naves extremamente limitadas em espaço físico interno se comparadas aos navios de superfície (assista ao filme "Das boot" - "Barco - O inferno no Mar" que mostra a vida dentro de um submarino alemão da Segunda Guerra), estando seus tripulantes sujeitos e uma rotina relativamente desconfortável, onde os espaços mais improváveis são utilizados para acomodar a tripulação e seus objetos pessoais.

O termo “submarino” é genérico e designa naves de diferentes tamanhos e características. O tipo mais numeroso e acessível é o submarino de ataque de propulsão diesel-elétrica (SSK), que equipa a maioria das marinhas do mundo, principalmente àquelas que não tem recursos para operar naves de propulsão nuclear. São mais silenciosos que estes e utilizam energia oriunda de motores diesel, convertidas em energia elétrica e armazenadas em grandes baterias. 

Podem deslocar-se a velocidades entre 30 e 45 km/h (15 a 25 nós) dependendo do modelo, porém a estas velocidades o sonar fica inoperante pelo barulho produzido, ficando as velocidade de patrulha em torno de 18 km/h (10 nós).



Quando em operação navegam com os motores diesel desligados e propulsados por motores elétricos, extremamente silenciosos, tendo sua autonomia condicionada a capacidade de suas baterias, que ao se esgotarem requerem que o submarino suba a profundidade de snorkel e as recarregue com seus motores diesel, barulhentos. Esta exposição é muito perigosa e constitui na principal deficiência deste tipo de propulsão, pois deixa uma esteira junto a superfície, exala fumaça e calor; além de expor o snorkel a detecção pelos radares inimigos. Como contrapartida os submarinos modernos dispõem de equipamento ESM que os alertam se o snorkel ou periscópio estiverem sendo iluminados por algum radar hostil. A média é que fiquem 1/20 do tempo de operação com o snorkel exposto, podendo esta faina durar até 5 horas. Quanto mais lento o deslocamento do SSK, maior sua autonomia, pois a resistência da água é muito grande e aumenta exponencialmente.

Seus suprimentos de água potável e oxigênio, se esgotados quando submerso, também deverão ser repostos a custa da energia armazenada, sendo normalmente captados durante as exposições. Prestam-se de forma mais efetiva ao combate em águas próximas e confinadas, constituindo-se neste ambiente grande ameaça a todos os outros tipos de naves de guerra ou civis. Os modernos SSK tem deslocamento variados, deslocam cerca de 4.000 ton (classe Kilo russa – designação OTAN), 2.200 ton (classe Scorpene – Marinha do Brasil), 3.300 ton (classe Collins – Royal Australian Navy) e 1.450 ton (classe Tupi/IKL-209 – Marinha do Brasil), entre outros.



Sistemas híbridos denominados AIP permitem que os SSK que os possuem permaneçam submersos por muito mais tempo. A US Navy denomina SSP aos SSK dotados de sistemas AIP. Vale lembrar que o sistema propulsor dos SSN também é um tipo de AIP.

Durante a primeira metade do século XX os submarinos vinham a superfície para combater, submergindo para escapar ao contra-ataque. As armas ASW eram relativamente ineficientes. A II GM dotou navios e aeronaves de radares capazes e a submersão passou a ser mais exigida. A necessidade de renovar sua atmosfera e recarregar suas baterias mantinham a necessidade de vir a tona, tarefa executada no período noturno. 

Para contornar este problema os EUA lançaram na década de 1950 o USS Nautilus movido a propulsão nuclear.  A naves dotadas deste tipo de propulsão e denominadas de submarinos de ataque de propulsão nuclear (SSN) possuem um reator nuclear que produz uma quantidade ilimitada de calor, que vaporiza uma quantidade de água em circuito fechado e move com este vapor as turbinas que movimentam o navio. Alguns modelos podem usar motores elétricos para maior discrição, pois as turbinas não são tão silenciosas.



Este sistema eliminou a necessidade do submarino lançar seu snorkel, pois o reator não necessita de ar atmosférico para funcionar. Além do mais, a energia produzida ainda é capaz de alimentar sistemas de dessalinização e purificação da água do mar e produção de atmosfera para a tripulação, estando dessa forma o período de submersão limitado aos víveres e munição em estoque e a condição psicológica da tripulação.

A propulsão nuclear proporciona velocidades significativamente mais altas, da ordem de 55 km/h (30 nós), permitindo ás naves patrulharem áreas muito maiores em tempo reduzido. Porém como já foi dito velocidades altas geram ruído e só são executadas em deslocamentos a grandes profundidades, onde a pressão atenua o ruído, ficando a patrulha restrita a velocidades mais baixas.

Velocidades baixas de patrulha demandam mais unidades nesta atividade. Uma vez detectado um SSK, a velocidade do SSN mostrará sua superioridade que permite-lhe evadir-se sem ser perseguido e posicionar-se novamente para desferir um ataque. Outra vantagem do SSN é na escolta de comboios ou forças navais, pois os SSK não podem empreender perseguições e retornarem rapidamente a formação.



Maiores que seus similares SSK, os SSN da classe Virginia dos EUA deslocam cerca de 7.900 ton, a classe Trafalgar do Reino Unido 5.300 ton e a classe Yasen russa 13.800 ton. O aspecto logístico também é relevante na operação de SSNs, que exigem instalações especializadas para as fainas de troca do combustível do reator, além dos custos significativamente maiores.

Um terceiro tipo de submarino são os SSBNs, submarinos dotados de propulsão nuclear e construídos para portar e lançar mísseis balísticos (SLBMs) dotados de ogivas nucleares a partir de posições submersas, o que o torna o mais letal e perigoso sistema de armas que existe, pelo simples fato de permanecerem em patrulha a grandes profundidades por longos períodos, muito difíceis de serem rastreados a capazes de lançar sua carga mortal de posições totalmente inesperadas. Conceitualmente são SSNs com cascos alongados para acondicionarem este arsenal extra de cerca de 16 (classe Vanguard britânica), 24 (classe Ohio dos EUA), 20 (classe Akula/Typhoon russo) SLBMs. São armas de cunho estratégico e não compõem grupos de batalha ou atuam como “killers”, navegando solitários e incógnitos, provocando em seus inimigos aquele sentimento que convencionou-se chamar de “dissuasão nuclear”.



São vulneráveis quando chegam ou saem de suas bases e talvez a maneira mais eficaz de combatê-los é posicionar SSNs para acompanhá-los desde este momento durante toda a sua patrulha, se é que isto é possível. Este momento também conta com a escolta de destróieres e fragatas para proporcionar cobertura antiaérea. Bem maiores que os SSNs, deslocam 15.900 ton (classe Vanguard britânica), 18.750 ton (classe Ohio dos EUA), 33.800 ton (classe Akula/Typhoon russo). Alguns exemplares de SSBNs foram adaptados para vetorar mísseis de cruzeiro, e por este motivo foram redenominados SSGNs. Os SSBNs (e SSGNs) também portam torpedos como seus congêneres SSNs, e podem atuar como caçadores se necessário, embora esta atividade possa comprometer seu anonimato e não seja usual. O mais comum é que se destaquem SSNs para servirem de escolta para eles. Os SSNs e SSK também podem lançar mísseis de cruzeiro e antinavio, seja por lançadores especialmente destinados pelos tubos de torpedos se os mísseis forem compatíveis como o são os Tomahawk dos EUA.

A missão primária dos submarinos é a de atuar como caçadores, e tanto SSKs como SSNs desempenham este papel, cada um dentro de suas características de velocidade, logística e desempenho. Os SSNs são mais oceânicos, e os SSK mais vocacionados a águas próximas, embora nada impeça este de desempenhar missões mais longas e ser motivo de preocupação das marinhas mais abastadas. Um SSK pode, por exemplo, posicionar-se no fundo do oceano próximo a rota de uma frota mais poderosa, e numa manobra de tocaia alvejar seus navios capitais, como ficou demonstrado quando um SSK brasileiro (S-31 Tamoio) “afundou” o porta-aviões “Príncipe de Asturias” espanhol, em um exercício da OTAN, fortemente escoltado.



Eles podem empreender patrulhas solitárias na vastidão oceânica em missões de ameaça a rotas comerciais e logísticas como os U-boots nazistas o fizeram no Atlântico-Norte durante a II GM. Podem participar da cobertura de grupos de batalha navegando a frente e a retaguarda para impedir que outros submarinos ameacem seus navios capitais, na posição de piquetes. Durante o conflito anglo-argentino de 1982, os SSKs argentinos eram motivo de preocupação da frota britânica, e os SSNs britânicos forçaram a frota portenha a permanecer em suas bases, principalmente após o HMS Conqueror torpedear o ARA Gen Belgrano, pondo-o à pique.

As características operacionais que tornam o submarino um sistema de armas notoriamente furtivo e muito difícil de ser  rastreado, permitem-lhe agir majoritariamente na iniciativa de suas ações, podendo operar em áreas sob controle do inimigo sem ser percebido. A simples possibilidade de sua existência leva os defensores a dispender grande esforço na busca e vigilância desta mortal ameaça. Desempenham igualmente tarefas de esclarecimento e de infiltração e exfiltração de forças especiais.

O submarino moderno opera a grandes profundidades, estimando-se que os modelos de propulsão nuclear (SSNs e SSBNs) chegue a 600 m, porém os valores reais são mantidos em segredo, sendo a profundidade de colapso do casco próxima ao dobro deste número. Os modelos SSK operam a profundidades menores, da ordem de 300 m. Estas profundidades, mesmo as menores, representam pressões altíssimas e requerem grande resistência estrutural.



Os modelos SSK são movidos por energia elétrica proveniente de grandes conjuntos de baterias, que por sua vez são recarregadas por motores diesel que só podem ser ligados quando o submarino esta em profundidade de snorkel. Os modelos SSN e SSBN são movidos por motores elétricos (quando em movimento furtivo) com energia oriunda de baterias que são recarregadas por turbinas a vapor sob altíssima pressão obtida através do calor gerado pelo reator nuclear, ou diretamente destas turbinas em velocidades mais altas. Os SSK possuem tanques de combustível que ocupam espaço e tem que ser reabastecidos, enquanto os SSN podem navegar por anos de forma praticamente ilimitada com o combustível existente dentro do reator.

As manobras de emersão e submersão se dão através da alteração do deslocamento do submarino, através da variação de seu lastro com a adição ou subtração de água do mar. Uma nave que estiver submersa e desejar emergir, deverá injetar ar sob altíssima pressão (pressão um pouco superior a externa, que não será pequena) para expulsar a água dos tanques de lastro e diminuir o deslocamento (peso) e forçar a subida, tendo para tanto que contar com esta reserva de ar comprimido, que será reposta quando em profundidade de snorkel ou por geradores de ar atmosférico retirado da água, estes no modelos com energia nuclear. Os tanques de lastro são posicionas a frente a atrás do casco, e em menor volume no fundo e nas laterais. O casco conta ainda com hidroplanos que permitem derivar a direção nas 3 dimensões, contribuindo para as manobras, seja de variação de profundidade ou no plano horizontal.

Submarinos militares não possuem vista para o exterior, que seriam inúteis no meio em que opera, além de que comprometeriam a rigidez do casco de pressão. Sendo o meio aquático inviável a operação de ondas eletromagnéticas como as utilizadas pelo radar, e tampouco a operação visual, seja por câmeras ou IR, os olhos destes navios são a perspicácia de seus navegadores e suas cartas náuticas, e seus sonares passivos quando os obstáculos são moveis ou são alvos. O sonar ativo também é usado, mas em menor escala já que denuncia a posição do navio. Determinar distâncias sem o uso do sonar ativo não é possível, pois não se pode determinar o momento em que o som captado partiu. Para contornar este problemas os submarinistas desenvolveram a técnica TMA, onde através de marcações feitas ao longo do deslocamento do submarino e utilizando-se de técnicas de triangulação feita por meios eletrônicos, estima-se a velocidade e posição dos alvos sem denunciar sua presença. Alguns submarinos podem operar sonares rebocados ou “towed array”, com cabos de centenas de metros que mantém o equipamento longe do ruído do navio e facilita a detecção a longas distâncias.



A principal arma de um submarino é o torpedo. Eles utilizam na sua maioria os torpedos pesados de 533 mm, deixando os leves para helicópteros e navios de superfície. Estes operam guiados por fio na primeira parte de sua trajetória, e posteriormente assumem controle próprio tal qual um míssil guiado a radar, com seus sistemas cibernéticos de sonar ativo/passivo próprios. Seus alcances giram em torno dos 25/90 km ( 50 km para Mk 48 ADCAP e e 25 km para o Whitehead A.183 m3) para disparos a baixa velocidade, e menos da metade disso para disparos a alta velocidade. Alguns modelos já foram anunciados com alcance de até 140 km, o que leva a considerar que mesmo que seja possível, a solução de tiro deverá também ter este alcance. Pesam cerca de 1,5 ton com 20% representados pela cabeça  de guerra. Normalmente de 4 a 8 tubos lançadores equipam os submarinos, podendo estar a vante e a ré. Torpedos mais antigos explodiam ao contato, porém os modelos modernos explodem por proximidade embaixo dos cascos, partindo-os através da onda de choque (bolha) gerada, literalmente levantando-os da superfície.

Outro grande problema na operação destas naves é a comunicação com suas bases e outros navios, pois as ondas de rádio não penetram na água, e o submarino tem que expor suas antenas para estabelecer conexão. Além de se expor, se forem efetuadas transmissões a nave abre mão de seu maior trunfo que é o anonimato. È freqüente que operem apenas recebendo mensagens e se mantenham em completo silêncio, sem efetuar confirmações ou questionamentos, o que demanda que as mensagens sejam bem elaboradas para este uso, sem deixar dúvidas ou margem de interpretação. Também é usual que as mensagens sejam recebidas com atrasos, pois a posição de semi-submersão, vulnerável, é praticada a intervalos regulares de tempo, é necessária a esta demanda. Existem técnicas de comunicação submarinas valendo-se dos sonares ativo/passivo.



Outra arma cujo uso vem se acentuando é a do míssil atmosférico lançado a partir dos mesmos tubos de 533 mm dos torpedos, com a nave submersa. Adaptações são necessárias para colocar o míssil acima da superfície em condições de deslocar-se por seus próprios meios, pois não pode simplesmente ser lançado de ambiente inundado.Estes mísseis possuem a função do combate antinavio ou de míssil de cruzeiro para bombardeio terrestre. Como exemplos temos os UGM-84 Harpoon da US Navy e o SM-39 Exocet francês. O míssil de cruzeiro Tomahawk dos EUA também pode ser lançado deste modo e é usado tanto para bombardeio terrestre convencional ou nuclear, como para o combate antinavio em alcances maiores. 

Existem ainda lançadores especialmente construídos para mísseis de cruzeiro, dispostos verticalmente. O SSGN são submarinos especialmente construídos ou adaptados para o lançamento destes mísseis como sua arma principal. Como já citado os SSBNs utilizam-se de mísseis balísticos (SLBMs) para vetoração de ogivas nucleares, como os Trident II UGM-133ª dos EUA com múltiplos veículos de reentrada e alcance de 7 a 12 mil km. Foi veiculado que os SSBNs classe Ohio teriam 2 Trident por submarino convertidos para uso de ogivas não nucleares, com CEP de 10 m e sem explosivos, com a hipervelocidade das ogivas causando efeitos mecânicos devastadores em áreas de 300 m2. Fica a dúvida aos defensores se estão sendo atacados com ogivas nucleares ou não. Submarinos podem ainda usar seus tubos de torpedos para o lançamento de minas navais.



Além de atacar outros navios um submarino tem que poder se defender. Para tanto ele se vale de sua capacidade furtiva, já mencionada, com baixos níveis de emissões de ruídos, disciplina de exposição a superfície, disciplina de transmissões de rádio, disciplina no uso do sonar ativo, cascos amagnéticos e com coberturas anecóicas, sistemas ativos de redução de ruído, e quando sua presença é conhecida e o perigo é iminente ainda existem os engodos para torpedos e mesmo torpedos antitorpedo.

Abandonar um submarino em dificuldades é uma possibilidade e todos possuem alguma capacidade para isso, porém devido as enormes pressões do ambiente subaquático, os meios orgânicos são adequados para pequenas profundidades de até 100 m. Profundidades maiores requerem navios especializados que operem sinos de mergulho ou pequenos submersíveis especialmente construídos para este fim.

Desde sua introdução, o submarino tornou-se o mais temido dos meios navais e fonte permanente de preocupação dos comandantes e planejadores. É a arma naval por excelência e seu uso é crescente em todas as marinhas do mundo que tem capacidade de adquiri-los e operá-los. Aqueles que podem lançar mão dos SSNs o fazem, porém devido ao custo muitos estão limitados aos SSKs. Outro fator que limita o uso de SSNs é político, pois quem os tem só os vende com critério, e dominar esta tecnologia demora e custa muito dinheiro. Outro fator relevante é que devido ao valor militar que tem, os submarinos estão constantemente incorporando tecnologias novas e mesmo os SSKs, mais acessíveis, estão cada vez mais capazes.