FRASE

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Busca de alvos



 


Introdução


No cenário da guerra moderna, a máxima "quem atira primeiro e com precisão sobrevive" define o ritmo do combate de alta intensidade. Nesse contexto, a Artilharia de Campanha, desempenha um papel decisivo na destruição, neutralização e interdição das forças oponentes, sendo a responsável pelo volume de fogo nos campos de batalha. Contudo, o poder de fogo dos obuses, foguetes e mísseis é inútil sem a capacidade de identificar exatamente onde o inimigo está. É aqui que entra a busca de alvos, o subsistema de inteligência, vigilância e reconhecimento que atua como os "olhos" da arma provedora de fogos do Exército.


A busca de alvos é o conjunto de procedimentos, táticas e meios tecnológicos empregados para detectar, identificar, localizar e realizar a análise de danos de alvos em proveito do apoio de fogo terrestre. Longe de ser uma atividade estática, é um processo dinâmico e contínuo que opera em profundidade no campo de batalha, antecipando-se aos movimentos do oponente.


Sua missão primordial é transformar a incerteza do terreno em coordenadas geográficas precisas e dados de identificação confiáveis para a neutralização de talvos como tropas, áreas logísticas e artilharia inimiga, repassando essas informações em tempo real para as Centrais de Tiro.


A busca de alvos na artilharia é o elo que une a inteligência militar à letalidade do apoio de fogo. Diante de ameaças cada vez mais móveis e dispersas, a capacidade de vasculhar os mortíferos campos de batalha da atualidade através de sensores eletromagnéticos, acústicos e visuais, tornou-se o fator crítico para a sobrevivência das tropas e para a conquista da superioridade tática em qualquer conflito contemporâneo.


Histórico


A evolução global da busca e aquisição de alvos na artilharia confunde-se com a própria história da tecnologia militar. Ela transformou-se de uma atividade puramente visual e intuitiva em uma complexa guerra de algoritmos, sensores e automação. Até 1914, a artilharia atirava apenas no que os olhos podiam ver na linha de frente. Com a introdução do tiro indireto em massa e a ocultação das baterias atrás de colinas, criou-se a necessidade de criar os primeiros métodos de localização sistematizados. 


Desenvolvido por físicos britânicos e franceses, o método “Sound Ranging” ou Triangulação Acústica, consistia em posicionar microfones ao longo da linha de frente. Ao registrar a diferença de milissegundos com que o estrondo do disparo inimigo atingia cada microfone em filmes fotográficos, calculava-se a posição exata da peça com precisão surpreendente (margem de 10 a 25 metros). O métido “Flash Spotting” ou observação por clarão consistia em postos de observação distantes que usavam cronômetros e goniômetros coordenados. Ao avistarem o clarão do disparo à noite, cruzavam os ângulos visuais para obter as coordenadas por trigonometria. O reconhecimento aéreo também era usado, valendo-se dos balões amarrados e biplanos com câmeras fotográficas analógicas para mapear trincheiras e baterias camufladas.


A era eletrônica e os primeiros radares na 2ª Guerra Mundial e Guerra Fria induziram um grande avanço nesta atividade. O salto na velocidade dos blindados exigiu que o tempo de localização caísse de "horas" para "minutos". O Surgimento do Radar Ground-Role foi decorrente da percepção de operadores de radar de defesa aérea que notaram que as telas sofriam interferências quando morteiros eram disparados nas proximidades. No final do conflito, os EUA adaptaram radares como o SCR-584 para rastrear a trajetória de obuses e projéteis em plena órbita balística. Os batalhões de observação de corpo de exército foram criados durante a Guerra Fria, quando as grandes potências dedicaram unidades inteiramente à busca de alvos. O foco era puramente a guerra de contrabateria. Os radares analógicos pesados e sensores acústicos robustos eram posicionados para detectar e contra-atacar a artilharia nuclear e convencional soviética antes que ela mudasse de posição.


A introdução dos computadores digitais portáteis nos anos 1970, permitiu processar trajetórias balísticas parabólicas complexas em tempo real. A revolução "Firefinder" no final dos anos 1970, os EUA introduziram a família de radares AN/TPQ-36 e AN/TPQ-37. Pela primeira vez, um computador acoplado ao radar calculava instantaneamente a origem do disparo inimigo e transmitia a coordenada digital diretamente para a linha de fogo, criando o primeiro ciclo automatizado de contrabateria. Como os radares de busca de alvos tornaram-se rápidos demais, as artilharias dos exércitos foram forçadas a atirar e mover-se imediatamente (shoot-and-scoot) para não serem destruídas em menos de 3 minutos pela resposta automatizada do inimigo.


A busca de alvos contemporânea descentralizou-se e integrou-se ao conceito de Guerra Centrada em Redes (NCW). Os radares mecânicos antigos foram substituídos por modelos AESA, capazes de rastrear milhares de projéteis, drones e aviões ao mesmo tempo. Softwares de IA fundem dados de satélites comerciais, interceptação de comunicações de rádio (EW) e radares para sugerir ao comandante qual alvo priorizar. Pequenos drones de reconhecimento com câmeras térmicas e designadores laser tornaram-se o meio primário e mais barato de aquisição de alvos, eliminando pontos cegos do terreno de forma persistente, e atuando também para confirmação dos alvos designados pelos radares.


O emprego e as possibilidades de uma Unidade de Busca de Alvos (Bia BA) traduzem-se em ações táteis essenciais para a sobrevivência e superioridade de fogo de uma força militar no campo de batalha moderno.


Emprego e Possibilidades destas Unidades


O emprego principal dessas unidades baseia-se no conceito de aquisição de alvos e contrabateria, com monitoramento constante das zonas de ação inimigas em profundidade, localizando em tempo real as baterias inimigas assim que disparam de forma a proporcionar resposta imediata a ação destas. Apoio às unidades de artilharia amigas, ajustando os impactos dos disparos em tempo real com o uso de drones e radares e verificando a eficácia dos ataques desfechados contra as posições inimigas.


Além do fogo de contrabateria e do ajuste de impactos em tempo real, estas unidades, integradas ao conceito moderno de Vigilância e Aquisição de Alvos (STA - Surveillance and Target Acquisition), monitoram o campo de batalha em profundidade para localizar uma vasta gama de alvos estratégicos e táteis. Através do emprego combinado de radares de vigilância terrestre, sensores óticos/térmicos, sensores acústicos e sistemas de aeronaves remotamente pilotadas (RPVs), essas unidades são capazes de detectar os seguintes tipos alvos como postos de comando, centros de comunicação, depósitos de munição e combustível, linhas de comunicação e suprimento como pontes, entroncamentos ferroviários, rodoviários ou portos fluviais. Colunas de veículos logísticos em deslocamento para a linha de frente. Áreas de concentração de infantaria e forças de reserva inimigas antes de serem lançadas ao combate. Elementos de cavalaria mecanizada ou blindada (tanques e carros de combate) estacionados ou em vias de progressão, radares de busca aérea e posições de lançamento de mísseis ou canhões antiaéreos inimigos, estações de EW, trincheiras fortificadas, bunkers, postos de observação blindados e abrigos fortificados, áreas preparadas para canalizar tropas amigas, que podem ser batidas pelo fogo após a identificação de pontos vulneráveis.


As capacidades e horizontes de atuação dessas unidades variam conforme o uso integrado de seus sensores e incluem a capacidade de cruzar dados acústicos, de radares e ópticos para confirmar um alvo com precisão métrica; o emprego de radares e sensores térmicos/infravermelhos que operam sem restrições à noite, com chuva, névoa ou fumaça; a detecção de trajetórias de munições inimigas em pleno voo, disparando alarmes para que as tropas amigas busquem abrigo antes do impacto, a capacidade de estender os olhos e ouvidos da força terrestre a dezenas de quilômetros além da linha de contato por meio de drones e radares de longo alcance; e a transmissão automática de coordenadas de alvos via sistemas digitais de comando e controle, reduzindo o tempo entre a detecção do inimigo e o disparo da resposta.


Meios de Busca de Alvos


Historicamente baseada na observação visual humana através de binóculos e telêmetros, a busca de alvos evoluiu para um ecossistema altamente tecnológico e multi-espectral. Os meios de busca de alvos na artilharia moderna dividem-se em diferentes categorias com base na tecnologia e no tipo de sensor utilizado. Na atualidade os exércitos se valem de variadas fontes para a designação de alvos. Temos meios optrônicos e visuais, meios de sensoreamento remoto com drones e satélites, sensores eletromagnéticos e acústicos, recursos de EW, tropas no terreno e outros.


Dentre os meios optrônicos e visuais temos os que operam no espectro visível e IR. Captam a luz ambiente ou a assinatura térmica (IR) de motores e tropas sem revelar a própria posição. Essa é uma das principais vantagens destes sensores, que por serem totalmente passivos, oferecem uma enorme vantagem tática, permitindo localizar o inimigo sem emitir nenhuma assinatura eletromagnética que denuncie a sua própria posição.


Os sistemas de espectro visível dependem da luz ambiente (solar, lunar ou estelar) para gerar imagens, e são usados para identificação visual direta, leitura de placas, contornos e símbolos, por tropas e observadores avançados. Binóculos de alta potência, lunetas de observação e periscópios. Câmeras acopladas a mastros terrestres ou em gimbals de drones, com potentes zooms ópticos e digitais. Amplificadores de luz noturna (como o brilho das estrelas) no espectro visível e no infravermelho próximo (NIR). Telêmetros Laser emitem feixes de luz concentrada para obter a distância exata do alvo por meio do tempo de reflexão do pulso, usam o laser e podem denunciar sua posição pelo seu perfil ativo.


No espectro IR temos os sistemas que ignoram a luz visível e detectam a radiação térmica emitida por qualquer corpo que possua temperatura acima do zero absoluto. São fundamentais para furar camuflagens, fumaça, poeira e escuridão total. Sensores FLIR (Forward Looking Infrared) são câmeras térmicas de alta resolução que geram imagens baseadas nas diferenças de temperatura do terreno. Assinatura térmica de motores são importantes fontes IR de atividade inimiga e os sensores detectam instantaneamente o calor gerado pelo escapamento e blocos de motor de blindados, caminhões e geradores. O calor do corpo humano contra o fundo frio da vegetação ou do solo, mesmo que o soldado use farda camuflada, mostra-se bem “visível” a estes sensores. O pico extremo de calor gerado no cano de um obuseiro ou morteiro no exato milissegundo do disparo, revela de maneira inconfundível sua posição.


Dentre os meios de sensoriamento remoto temos as plataformas aéreas, como aeronaves e drones, que carregam sensores optrônicos ou radares, estendendo as vistas do comandante além da linha de visão da superfície. Os drones revolucionaram a busca de alvos. Eles estendem o alcance visual do comandante para além das linhas de crista e da cobertura vegetal, transmitindo coordenadas georreferenciadas exatas e permitindo a correção dos tiros em tempo real. Plataformas orbitais de imageamento óptico, radares de abertura sintética (SAR) ou inteligência de sinais, focadas em alvos estratégicos e de grande profundidade são importante meios de vigilância e designação de alvos baseados no espaço.


Sensores Eletromagnéticos como os radares, que incluem radares de contrabateria (como o Arthur ou o AN/TPQ-36) e radares de vigilância terrestre. Sistemas de radar avançados varrem o horizonte para detectar projéteis de morteiros, granadas de artilharia ou foguetes, ainda em pleno voo. Ao rastrear a trajetória balística por frações de segundo, o computador do radar calcula retrogradamente o ponto exato de onde o disparo partiu, permitindo que a artilharia amiga responda com fogo de contrabateria antes mesmo que o projétil inimigo toque o solo. Sensores acústicos dotados de redes de microfones de alta sensibilidade que captam a onda de choque e o som do disparo de peças de artilharia inimigas para triangulação. Ao mensurar a diferença de milissegundos com que a onda sonora de um disparo chega a cada sensor, o sistema triangula a posição da peça de artilharia inimiga.


Recursos de EW (Guerra Eletrônica) através de sistemas de MAGE (Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica) que interceptam e triangulam as emissões de rádio e radar do inimigo (Electronic Intelligence e Communications Intelligence), atuam de forma passiva não denunciando suas posições.


Tropas no terreno pode identificar alvos durante sua progressão. Elementos humanos infiltrados ou na linha de contato, como os Observadores Avançados (OA), equipes de reconhecimento de artilharia e forças especiais.


A Busca de Alvos nas Principais Forças


Nos exércitos mais avançados, a busca de alvos para a artilharia — amplamente conhecida pela sigla STA (Surveillance and Target Acquisition) ou integrada ao conceito ISTAR (Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvos e Reconhecimento) — é operada por unidades altamente tecnológicas que combinam radares, drones, guerra eletrônica e forças especiais.


Embora variem em nomenclatura, as potências globais organizam essa atividade por meio de estruturas muito bem definidas:


No U.S. Army temos os batalhões de aquisição de alvos (TAB - Target Acquisition Battalions): Unidades orgânicas das brigadas de artilharia; as equipes de apoio de fogo (FIST - Fire Support Teams), integradas na linha de frente com a infantaria e forças de blindados. O British Army conta com o 5th Regiment Royal Artillery, que é um regimento especializado voltado especificamente para Surveillance and Target Acquisition (STA). Eles gerenciam radares de localização de armas de longo alcance (MAMBA), sensores acústicos e drones para coordenar os contra-ataques táticos da artilharia. O Australian Army conta com o 20th Regiment, Royal Australian Artillery, uma unidade inteiramente dedicada ao fornecimento de inteligência e aquisição de alvos (STA Regiment). Operam radares de contrabateria táticos (AN/TPQ-36) e frotas de drones integradas diretamente com os sistemas de fogos. O Esercito Italiano tem o 185º Regimento de Reconhecimento e Aquisição de Alvos, uma abordagem diferente e altamente especializada. Esta é uma unidade de Forças Especializadas/Operações Especiais na qual os militares (chamados de "Acquirenti") infiltram-se profundamente atrás das linhas inimigas para identificar alvos estratégicos e guiar missões de fogo de artilharia pesada e mísseis. A Rússia possui subunidades de reconhecimento de artilharia (Artilleriyskaya Razvedka), que são integradas nativamente em cada brigada de artilharia. Os russos dependem fortemente do complexo Strelets (um sistema de computadores de mão interligado com rádios que os soldados na linha de frente usam para enviar coordenadas instantâneas, operando em conjunto com radares de contrabateria Zoopark-1M e drones Orlan-10.


Como podemos notar o mundo todo usa basicamente as mesmas estruturas de busca de alvos, com nuances locais e abordagens específicas.


O Ciclo de Busca e Designação


Frequentemente integrado à metodologia internacional conhecida como D3A, é um processo dinâmico e contínuo que transforma dados brutos de inteligência em ordens de tiro precisas para as baterias de artilharia. O ciclo moderno é estruturado em 4etapas principais:


A Diretriz é a 1ª fase e ocorre durante o planejamento da operação. Nela, o comandante e seu Estado-Maior definem as prioridades de engajamento: Quais alvos são mais valiosos (centros de comando, pontes, baterias de artilharia inimigas) e devem ter prioridade sobre quais quer outros. Um exemplo foi na operação tempestade do deserto onde (neste caso a aviação) caçava prioritariamente as baterias Astros II iraquianas devido a sua ameaça imediata. Definição das Áreas de Interesse de Vigilância (NAI - Named Areas of Interest), ditam em que locais existe a maior probabilidade de encontrar estes alvos específicos. A determinação se o alvo deve ser destruído, neutralizado ou apenas monitorado, dependendo de suas característica e interesse.


A 2ª fase é a busca e aquisição, onde no terreno utilizando os meios operacionais se procura localizar de fato estes alvos usando meios diversos, principalmente drones e tropas de reconhecimento.Drones (RPVs) sobrevoam as áreas, radares de contrabateria monitoram o espaço aéreo e observadores avançados vigiam a linha de frente. O inimigo é localizado e suas coordenadas geográficas, atitude e dimensões são estabelecidas com precisão. Estes dados são alimentados em um sistema que os prioriza junto às baterias de comando divisionárias e de exército.

Numa 3ª fase se passa a designação e processamento, quando o alvo precisa ser transmitido e preparado para o fogo. Os dados são enviados para a Central de Tiro (C Tir) via sistemas digitais de dados ou rádio. A central analisa se o alvo está dentro do alcance das peças de artilharia, calcula os dados de tiro (elevação, carga, azimute) e seleciona o tipo de munição ideal (explosiva, fumígena, guiada por laser), e se for o caso qual bateria cumprirá a missão.


Finalizando procura-se avaliar os danos para saber se a missão foi cumprida. O ciclo se fecha avaliando a eficácia do fogo com drones ou observadores que verificam os efeitos do fogo no local do impacto. Determina-se se o alvo foi neutralizado com sucesso ou se é necessário um reengajamento.


Nos conflitos modernos, a eficácia desse ciclo é medida pela velocidade da cadeia Sensor-to-Shooter (do sensor ao atirador). Quanto mais automatizados forem os sistemas digitais de artilharia, menor é o tempo entre detectar o alvo com um drone/radar e o primeiro projétil atingir a posição inimiga.


Os Operadores de Busca de Alvos


A busca de alvos para a artilharia é operada por estruturas organizadas em diferentes níveis táticos, integrando militares especialistas e subsistemas tecnológicos. A execução é dividida entre órgãos especializados de coordenação e equipes de campo:


Dentre as unidades especializadas, geralmente alocadas no nível divisão e exército temos as Baterias e Batalhões de Busca de Alvos que são unidades dedicadas exclusivamente a essa função. Geralmente vinculada a uma artilharia divisionária (AD) ou a um comando de artilharia de um exército. Dentro dessa unidade, os operadores atuam divididos em frações especializadas como aqueles que operam radares de contrabateria e vigilância terrestre para rastrear trajetórias de tiros inimigos. Operadores focados em sensores acústicos e ópticos para triangulação de disparos através de som e clarão e operadores de RPVs (Drones) com militares treinados no manuseio de sistemas aéreos remotamente pilotados para reconhecimento aéreo.


As equipes de observadores avançados (OAs) são constituídas de oficiais e sargentos de artilharia integrados diretamente às tropas de infantaria ou cavalaria na linha de frente. Eles visualizam os alvos e transmitem as coordenadas em tempo real para a mesa de tiro, podendo também transformarem em pedidos de tiro as demandas dos comandantes das armas-base. Oficiais de ligação de artilharia atuam junto aos estados-maiores das forças apoiadas, coordenando as necessidades de fogos.


Outra forma de designação de alvos é através dos oficiais de inteligência das unidades de artilharia que centralizam e analisam os dados coletados por todas as fontes para atualizar a Lista de Alvos Prioritários do comandante, através de um sistema de coordenação de fogos.


A Bateria de Busca de Alvos


A unidade mais comum nesta atividade é a bateria de busca de alvos, sendo os batalhões com esta função apenas estruturas que agregam várias destas baterias com organização semelhante. A composição típica de uma unidade de busca de alvos (comumente organizada a nível de Bateria de Busca de Alvos - Bia BA na artilharia militar) é estruturada de forma modular para detectar, identificar e localizar ameaças em profundidade.


A sua estrutura divide-se em componentes de comando, coordenação e as seções operacionais especializadas em diferentes tipos de sensores:


Primeiro como toda unidade conta com um elemento de comando e controle (C²) com uma seção de comando que é responsável pelo planejamento tático, administração, logística e coordenação direta com o comando da Artilharia Divisionária ou Brigada, operando intimamente ligada ao comando da artilharia divisionária (AD). Uma seção de processamento de alvos centraliza os dados brutos recebidos dos sensores, analisa a relevância das ameaças e transmite as coordenadas precisas para as unidades de disparo (fogo de contrabateria ou mísseis e foguetes). Esta atividade se mescla com a atividade fim das baterias de comando das ADs.


As seções de sensores táticos realizam a aquisição de alvos propriamente dita, e utilizam diferentes tecnologias para cobrir o campo de batalha. A seção de radares de contrabateria e vigilância é equipada com radares que rastreiam a trajetória de tiros inimigos de trajetória balística como o de obuses, morteiros e foguetes para calcular instantaneamente o ponto exato de origem do disparo. A seção de reconhecimento por RPVs empregam sistemas de aeronaves remotamente pilotadas dotados de câmeras eletro-ópticas, térmicas e infravermelhas para vigilância visual e designação de alvos em tempo real além das linhas inimigas. A seção de localização pelo som  utiiliza redes de sensores acústicos espalhados pelo terreno para captar e processar as ondas sonoras de disparos de artilharia, calculando a posição do inimigo pela triangulação do som. E a seção de localização pelo clarão são unidades de observação visual e optrônica encarregadas de detectar emissões de luz e clarões gerados pelas armas inimigas ao disparar à noite ou em condições de baixa visibilidade.


Finalmente estas unidades contam ainda com elementos de apoio e serviços com as seções de manutenção de eletrônicos, dedicada exclusivamente a manter os radares, softwares de processamento, rádios e sensores calibrados e operacionais; a de reconhecimento e segurança, encarregada de realizar a segurança física dos locais de desdobramento dos sensores e avaliar previamente as áreas de posicionamento. Além destas temos as tradicionais seções de apoio logístico comum a todas as unidades.


A Segurança da Unidade No Teatro de Operações


A segurança destas unidades no terreno é uma missão crítica e complexa. Como essas unidades emitem fortes sinais eletromagnéticos (radares) e operam com equipamentos caros e de alta tecnologia, elas são alvos prioritários para a artilharia, aviação e forças especiais inimigas. Sua proteção baseia-se em 5 pilares estratégicos:


Posicionamento descentralizado com sensores (radares, postos acústicos e equipes de drones) operando afastados uns dos outros e longe do posto de comando central. Os radares ligam, rastreiam os tiros inimigos por poucos minutos e mudam imediatamente de posição antes que o inimigo consiga triangular suas emissões. Cada sensor possui locais previamente reconhecidos para onde pode se deslocar rapidamente em caso de ameaça.


O controle de emissões (EMCON) e a camuflagem desempenham papel primordial. Os radares permanecem desligados a maior parte do tempo, sendo acionados apenas quando há inteligência de que a artilharia inimiga está ativa. Os operadores ficam blindados em um veículo posicionado a centenas de metros da antena do radar, que é o alvo provável de mísseis antirradiação. O uso de redes térmica que bloqueiam assinaturas de calor, dificultam a detecção por drones e satélites inimigos.


A defesa perimetral e emprego de força de proteção é atividade comum com as outras unidades militares em operação. A própria bateria possui frações de infantaria encarregadas de patrulhar o perímetro e montar postos de bloqueio contra infiltrações. A coordenação com unidades de artilharia antiaérea (mísseis portáteis MANPADS ou canhões) para proteger os sensores contra drones e helicópteros é constante e a bateria posiciona-se sempre abaixo do “guarda-chuvas” destas. A construção de abrigos subterrâneos e barreiras físicas para proteger o pessoal e as viaturas contra estilhaços de bombardeios asseguram uma grau de segurança mais acentuado, porém estas fortificações dependem muito do tempo disponível e do tem que a unidade ficará na posição.


A integração com a infantaria da zona de retaguarda potencializa a segurança, e normalmente estas unidades desdobram seus meios na zona de retaguarda das brigadas ou divisões. Elas dependem da coordenação com as forças de infantaria que controlam a área para garantir que rotas de evacuação estejam livres e seguras.


Os Mísseis Antirradiação – O Maior Inimigo


Os mísseis antirradiação e as táticas de evacuação de emergência representam os 2 lados de uma mesma moeda: a ameaça eletrônica extrema e a resposta de sobrevivência da unidade. O míssil antirradiação (como o norte-americano AGM-88 HARM ou o russo Kh-31P) é projetado especificamente para caçar e destruir radares. O míssil não emite sinais; ele funciona como um "ouvido" sintonizado na frequência exata do radar inimigo e voa em direção à fonte de emissão. Os mísseis modernos possuem sistemas GPS/INS integrados. Se o radar perceber a ameaça e desligar, o míssil memoriza as últimas coordenadas e continua o ataque. Geralmente voam a velocidades supersônicas ou hipersônicas (acima de Mach 3) para dar o mínimo de tempo de reação aos operadores.


Quando os sistemas de alerta da unidade detectam o lançamento de um míssil inimigo ou o início de um bombardeio de saturação, entra em ação o plano de evacuação de emergência. O radar corta a emissão instantaneamente para tentar quebrar o bloqueio (lock-on) do míssil. Emissores falsos posicionados longe da viatura real são ligados para atrair o míssil antirradiação para uma área vazia. Se o radar for modular, a tripulação de comando desengata os cabos e foge com o veículo de controle blindado, sacrificando apenas a antena transmissora. A unidade executa um deslocamento pré-planejado em velocidade máxima para a posição de refúgio (oculta na mata ou terreno coberto), sem recolher materiais secundários ou camuflagens decorativas.


O alarme de detecção de mísseis antirradiação (ARM) funciona por meio de um sistema automatizado integrado diretamente à arquitetura eletrônica da bateria terrestre. Como o míssil antirradiação é uma arma passiva (ele não emite ondas de radar para não ser descoberto, apenas "escuta" a emissão da própria bateria), o sistema terrestre não pode depender de um alerta de travamento convencional (Lock-on). Ele precisa usar sensores alternativos e algoritmos de trajetória. O alarme é ativado através do cruzamento de 3 tecnologias principais: Sensores de Alerta de Aproximação de Mísseis (MAWS) que cerca a bateria por sensores ópticos e térmicos de última geração espalhados pelo perímetro. No instante em que o caça inimigo dispara o míssil, esses sensores ópticos captam o clarão térmico e a fumaça gerada pelo motor do foguete (assinatura térmica/pluma do míssil). Câmeras panorâmicas monitoram o espaço aéreo em 360 graus constantemente à procura de assinaturas térmicas que se desloquem em velocidades extremas.


Enquanto o radar principal da bateria está emitindo para cumprir sua missão operacional, pequenos radares de vigilância local ou sistemas de varredura eletrônica (AESA) monitoram o espaço aéreo ao redor: O sistema ignora aeronaves normais e foca em objetos com Seção Reta de Radar (RCS) muito pequena (o tamanho físico de um míssil) vindo em direção à bateria a velocidades supersônicas ou hipersônicas (geralmente acima de Mach 3). O computador calcula o vetor da trajetória. Se a linha de rota apontar diretamente para a coordenada geográfica da antena do radar, o alarme de ameaça máxima é disparado automaticamente.


Sistemas de Apoio de Medidas Eletrônicas (ESM) apoiam eletronicamente a defesa. A bateria conta com receptores passivos que conseguem interceptar sinais de comunicação. Se o avião inimigo usar um radar de bordo para mapear a área antes de lançar o míssil, os sensores de Medidas de Apoio de Guerra Eletrônica (MAGE/ESM) da bateria detectam essa atividade eletrônica e colocam os sistemas de defesa em estado de alerta precoce.


A Reação Automatizada do Alarme


No milissegundo em que o alarme confirma o ataque de um míssil antirradiação, ele ativa uma cadeia de contramedidas automáticas sem depender da reação humana. Soa um alerta sonoro estridente para que os operadores busquem abrigos subterrâneos imediatamente. O transmissor do radar principal é desligado instantaneamente para cessar a emissão do sinal que guia o míssil. O sistema liga remotamente emissores falsos (decoys) posicionados a centenas de metros dali para enganar a memória geográfica do míssil.


Os mísseis antirradiação de última geração (desenvolvidos e refinados com base em lições de conflitos recentes) utilizam inteligência artificial (IA), fusão de sensores e sistemas de navegação redundantes para continuar o ataque, mesmo após o radar terrestre desligar e acionar seus alarmes. Eles burlam as defesas da bateria de busca de alvos através das seguintes táticas tecnológicas:


Navegação Redundante por GPS/INS e "Memória de Alvo". No passado, se o radar desligasse, o míssil perdia o sinal e errava o alvo. Hoje, os mísseis modernos possuem sistemas de navegação combinados. Enquanto o radar inimigo está emitindo, o computador do míssil calcula a coordenada geográfica exata da fonte de emissão em tempo real. Se o alarme da bateria cortar a emissão do radar, o míssil muda instantaneamente seu modo de guiamento para o GPS e para a Navegação Inercial (INS). Ele continua voando em direção à coordenada exata memorizada, ignorando o fato de o radar estar "apagado".


Reconhecimento de Imagens por IA (Buscadores Multimodo) é a maior inovação dos mísseis modernos é o uso de sensores ópticos e de ondas milimétricas acoplados a algoritmos de Inteligência Artificial. Na fase final do voo, o míssil aciona uma câmera térmica ou um radar de busca ativo de curto alcance. A IA integrada analisa o formato visual da área. Ela consegue diferenciar o que é uma antena de radar real de uma isca eletrônica (decoy), mesmo que a isca esteja emitindo um sinal de rádio idêntico. O míssil ignora o sinal falso e mergulha visualmente sobre o veículo do radar.


Através do gerenciamento inteligente de emissão e IA antivulnerabilidade os mísseis utilizam lógica algorítmica para antecipar as reações do alarme terrestre. O míssil não emite nenhum sinal de rádio durante quase toda a trajetória, voando de forma totalmente passiva (apenas planando ou usando propulsão sustentada) para não acionar os radares auxiliares ou sensores de alerta da bateria até que seja tarde demais. Se a bateria terrestre tentar inundar a área com ruído eletromagnético para cegar o míssil (Jamming), a IA do míssil identifica a frequência da interferência e a usa como um novo farol de guiamento, voando direto para o gerador de interferência.


Trajetórias imprevisíveis e ataques de alta altitude também podem ser usados. Para burlar os Sensores de Alerta de Aproximação (MAWS) baseados em calor e as defesas antiaéreas o míssil é lançado para altitudes muito elevadas e desce em um ângulo quase vertical (90 graus) sobre a bateria. Isso o coloca fora do campo de visão padrão de muitos sensores ópticos terrestres e dificulta o cálculo de trajetória dos radares auxiliares.


O Fator Humano e as Vulnerabilidades Operacionais Ocultas.


Embora os mísseis antirradiação sejam a ameaça mais tecnológica, os conflitos recentes mostraram que a maior taxa de destruição de radares de contrabateria hoje vem de drones suicidas. Eles são baratos, voam lentamente perto do solo (escapando dos radares de defesa aérea) e caçam os radares visualmente. Se um radar de contrabateria ligar, mesmo que por 2 minutos, o drone suicida na área consegue localizá-lo visualmente e mergulhar contra ele, custando uma fração do preço de um míssil avançado.


Geradores de grande porte são necessários para alimentar as potentes antenas dos radares. Esses geradores produzem muito ruído e uma assinatura térmica (calor) gigantesca, tornando-se alvos fáceis para drones com câmeras infravermelhas. Radares de busca de alvos são equipamentos extremamente sensíveis. Eles não precisam ser diretamente explodidos para serem neutralizados; basta que estilhaços de artilharia comum perfurem as placas da antena ou cortem os cabos de fibra óptica para tirar a unidade inteira de combate. Se o inimigo disparar dezenas de morteiros, obuses e foguetes ao mesmo tempo de pontos diferentes, o processamento de dados da bateria pode sofrer uma sobrecarga (saturação), impedindo que ela determine prioridades de contrabateria a tempo.


Os operadores de uma unidade de busca de alvos sabem que operam o principal "ímã de mísseis" do campo de batalha. O estresse psicológico de ligar o radar e saber que um míssil supersônico ou um drone suicida pode ser lançado contra você em segundos exige um treinamento psicológico extremo e procedimentos de disciplina de luz, ruído e emissão eletrônica impecáveis.

 

Um comentário:

  1. Além desses meios empregados são de extrema importância para o funcionamento de todos os subsistemas em conjunto, o emprego de sistemas de localização pelo som, seção de tratamento de informações de inteligência (imagens de satélite, fotografias aéreas, radares de vigilância terrestres, sistema de meteorologia, para manter atualizado informações de teto de vôo dos ARP).
    Forte abraço

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