FRASE

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Elementos de Combate, de Apoio ao Combate e de Apoio Logístico *190



Ao contrário dos tempos antigos, onde os combates se davam pelo enfrentamento direto de dois ou mais exércitos ou frotas, os combates modernos seguem objetivos predeterminados, matematicamente calculados, procurando obter a superioridade militar através do fogo e da manobra, lançando mão do engodo e da ciência a fim de atingir estes objetivos com o menor custo pessoal e material.

Não mais a destruição do oponente é buscada, mas sim a sua incapacitação como força de combate fazendo-o que procure perder o ímpeto e a vontade de combater. Lança-se mão de forma intensiva de ações de cunho psicológico como primeiro ato de qualquer guerra ou crise, com propaganda intensiva por todas as mídias possíveis, sendo a verdade sempre a primeira vítima de qualquer conflito. Mobilizar a opinião pública tornou-se fator de primeira importância no esforço de guerra, procurando apoio popular e unir a população em torno de uma causa legítima ou supostamente legítima. Assim foi na Guerra da Falklands/Malvinas de 1982, onde usou-se uma guerra para desviar a atenção de problemas internos, por exemplo. Os nazistas usaram deste artifício poderoso a fim de unir sua nação em torno de uma causa nacionalista, porém de índole questionável que resultou em uma catástrofe humana. A propaganda sempre foi e será um valioso instrumento de guerra.

Uma vez deflagradas as ações de combate deve-se procurar neutralizar o poder inimigo no menor espaço de tempo possível, pois quanto mais uma guerra durar, maiores serão os malefícios humanos, políticos e econômicos das nações envolvidas. O pensador "Sun Tzu" enunciou que a guerra é o assunto mais importante do estado, e como tal deve ser tratada, pois uma guerra mal administrada pode ser a ruína da nação.


Para tal esforço, os governos e suas forças militares lançam mão de estruturas complexas e altamente especializadas a fim obterem informações vitais em tempo real, sem as quais todo o esforço de combate pode ser em vão e ineficaz; travar contato com o inimigo em condições de superioridade a fim de alcançar o sucesso em tempo reduzido e minimizar as chances de fracasso; proporcionar facilitadores, suporte a condições ideais a este contato a fim de que recursos vitais não faltem no momentos em que forem necessários. Estas estruturas são resumidas em três elementos: de combate, de apoio ao combate e de apoio logístico.

Elementos de combate são aqueles que travam o contato direto com o inimigo, e através da combinação de fogo e movimento (manobra) buscam alcançar a superioridade militar. A caracterização de um elemento como sendo de combate depende muito do contexto em que está inserido, podendo um mesmo elemento ser de combate em determinada situação e de apoio em outra.

Os elementos de apoio ao combate são aqueles que atuam como facilitares a ação dos elementos de combate, através de ações que visem debilitar o inimigo como por exemplo executar ações de bombardeio e contra-mobilidade, prover inteligência a fim de apoiar as estruturas de comando e controle, facilitar as ligações de comando e controle através do desdobramento de redes de comunicações de todos os níveis e atividades de guerra eletrônica, proporcionar condições de mobilidade as forças em movimento através de obras de engenharia, criar condições de segurança e cobertura a outras forças em combate através do desdobramento de bloqueios terrestres e navais, aéreos e anti-aéreos, por exemplo. 




Os elementos de apoio logístico são todos aqueles que proporcionam apoio administrativo aqueles envolvidos nas operações. Cabe aos elementos de apoio logístico proporcionar treinamento e recompletamento de pessoal, suprimento de combustíveis e munições, reposição de equipamento perdido ou desgastado, fornecimento de equipamentos novos, fornecimento de alimentação, assistência religiosa, serviços médicos e de saúde, banho e lavanderia, serviços funerários, tratamento de prisioneiros de guerra, triagem e encaminhamento de salvados de guerra, fornecimento de água potável, construção e manutenção de estradas e vias de acesso, construção de instalações e terminais, transporte de todos os níveis, desdobramento e manutenção de serviços de reparos e conservação de equipamentos de todos os tipos, etc...

A seguir listamos os diversos atores presentes em teatros de operações de todo o mundo e que participam como elementos de combate, apoio ao combate e apoio logístico:


  • Postos e Graduações
    • Cabos e soldados: São a mão de obra braçal das unidades de combate. Possuem instrução militar básica e geralmente são especializados em uma atividade específica como fuzileiro, rádio-operador, motorista, mecânico de armamento, etc... Os cabos são soldados mais especializados e possuem alguma capacidade de comando de pequenas frações de tropa.
    • Sargentos: São a mola mestra das unidades militares. Cabe a eles fazer com que as ordens vindas dos oficiais sejam cumpridas pela tropa. Possuem alta especialização nas atividades da unidade a que pertencem e nível de instrução próximo ao dos ofíciais subalternos, podendo substituir estes quando de sua ausência.
    • Oficiais subalternos (tenentes): São oficiais começando a carreira que valem-se da experiência de seus sargentos mais antigos para aprimorar sua formação. São o primeiro nível de planejamento na hierarquia militar e comandam pequenas frações de 20 ou 30 militares. Cabe aos tenentes as decisões corriqueiras do dia-a-dia das unidades e das ações táticas imediatas quando em combate. Integram também os "grosso" das fileiras de pilotos de aeronaves.
    • Oficiais intermediários (Capitães): São o primeiro nível de comando realmente experiente de qualquer unidade. Comandam subunidades de nível companhia em todas as armas e serviços, atuando no estado maior das unidades quando providos dos cursos de aperfeiçoamento. São os responsáveis pela maior parte das decisões tático-operacionais quando em combate e os oficiais mais importantes da tropa, pois estão em contato direto com os sargentos.
    • Oficiais superiores (majores e Coronéis): São os integrantes dos estados-maiores e comando das unidades e responsáveis por todo o planejamento das atividades e ações destas. Comandam batalhões, navios e unidades aéreas. Atuam quando detentores dos cursos de aperfeiçoamento, nos estados-maiores das grandes unidades comandadas por oficiais-generais.
    • Oficiais generais: São a elite de qualquer força armada. As comandam em seus mais alto nível e são responsáveis por todas as decisões estratégicas, administrativas e operacionais das forças. Quando em combate são os planejadores das estratégias gerais. São designados almirantes nas marinhas e brigadeiros nas forças aéreas.
  • Tropas 
    • Infantaria: Caracterizada pelo soldado e seu fuzil como elemento básico. São uma tropa capaz de cumprir as missões relativas a ocupação do terreno, seja para conquistar ou mantê-lo. Possuem alta mobilidade tática proporcionada pelo deslocamento a pé, mobilidade operacional de acordo com sua constituição, e mobilidade estratégica proporcionadas por qualquer meio que lhes seja posto a disposição como aeronaves e navios. Podem ser amplamente fracionadas para emprego e transporte. São a tropa mais numerosa, de menor custo e com o maior índice de baixas em combate. Juntamente com a cavalaria são denominadas armas-base.
      • Infantaria motorizada, mecanizada e blindada: Tropa de infantaria dotada de meios orgânicos deslocamento, possuem alta mobilidade operacional, podendo deslocar-se por longas distâncias com meios próprios. Podem ser equipadas com veículos blindados que lhe proporcionam proteção e apoio em combate. Carecem de estradas e terrenos que permitam o deslocamento motorizado.
      • Infantaria das forças aéreas: Tropa destinada a prover segurança a bases aéreas e instalações de sua força.
    • Cavalaria: Tropa dotada de meios para combate caracterizado pela velocidade e deslocamento. São as operadoras dos carros de combate e as tropas especializadas em reconhecimento e busca de informações.
      • Cavalaria ligeira: Tropa dotada de meios de alta velocidade capaz de se deslocarem a frente das formações a fim de manterem seus comandantes informados do que encontrarão pela frente, evitando surpresas. Operam veículos rápidos, carros de combate leves e entram em combate em ações de apoio a forças principais.
      • Cavalaria de choque: Tropas operadoras de carros de combate pesados e a mais potente das forças terrestres. São ponta de lança de ações que exijam alto poder de choque.
    • Artilharia de campanha: Tropa dotada de meios de bombardeio balístico, e opera em apoio a a manobra da infantaria e cavalaria, e a pedido destas. É a responsável pela maior parte das baixas inimigas em combate e vital para a manobra das armas-base (infantaria e cavalaria). Podem também efetuar bombardeio estratégico em escalões superiores, como fazem as unidades dotadas de foguetes balísticos. Operam sempre a retaguarda das armas-base.
    • Artilharia anti-aérea: Tropa dotadas de radares, mísseis superfície-ar e canhões de tiro rápido endereçados por radar, que destina-se a prover proteção contra assédio da aviação inimiga. São desdobradas principalmente na proteção de instalações importantes, bases logísticas, bases aéreas e navais, grandes formações blindadas e mecanizadas, centros de comando e controle, industrias e usinas e outras instalações importantes.
    • Artilharia de costa: Tropa destinada a proteção de faixas de litoral contra a aproximação de forças anfíbias e forças de bloqueio próximas ao litoral.
    • Comunicantes: Tropa altamente especializada em sistemas eletrônicos e reponsável por todas a ligações de comando e controle das demais unidades militares. Geralmente esta tropa também opera os sistemas de guerra eletrônica. Vitais em qualquer estrutura militar, sem elas não existe interação, coordenação e transmissão de ordens.
    • Engenharia de combate: Tropa especializada em serviços de engenharia e infraestrutura. Conservam estrada, constroem instalações e apoiam as forças em campos construindo obstáculos ou removendo-os, como campos minados e barreiras. Praticam demolições, constroem pontes temporárias e permanentes e outras estruturas. Tropas de engenharia especializada em infraestruturas são denominadas engenharia de construção.
    • Inteligência Militar: Indivíduos e unidades especialistas em coletar e tabular inteligência militar. Aviação de reconhecimento, tropas de vanguarda, meteorologistas, unidades de análise e tabulação de dados, infiltrados (espiões, indivíduos do staff inimigo trabalhando para o outro lado, etc...), observadores e todo e qualquer ator do teatro e operações e fora dele que vise a coleta e análise de dados.
  • Tropas com Características Especiais
    • Fuzileiros navais: Também conhecida como infantaria de marinha, estas tropas são especializadas em assaltos a partir do mar, e tem por missão fundamental consolidar as chamadas cabeças de praia para que o "grosso" das tropas possam desembarcar em segurança.
    • Guerrilheiros: Tropas de combatentes não convencionais que lutam por uma causa e não pertencem a exército nenhum. Podem auxiliar um exército constituído ou lutar contra um. Valem-se da surpresa, pequenas ações, e artimanhas subterrâneas como sequestros e saques para levarem sua luta adiante.
    • Mercenários: Soldados que lutam por dinheiro, sem compromisso com a causa. Podem facilmente mudar de lado se lhe for oferecido mais que estão ganhando. Geralmente servem a regimes autoritários de países periféricos.
    • Tropas aeromóveis: Tropas similares as tropas paraquedistas em constituição (tropas leves), destinadas a serem deslocadas por aeronaves de asas rotativas e ocuparem objetivos a retaguarda inimiga.
    • Tropas de montanha: Tropas leves especialmente ambientadas ao combate em ambiente montanhoso, seja pelo terreno íngreme e difícil, seja pela atmosfera rarefeita e baixas temperaturas.
    • Tropas de selva: Tropas ambientadas para combate na selva tropical, local dominados por cursos d'agua e falta de estradas, animais perigosos, mosquitos e doenças endêmicas, falta de pontos de referência e dificuldade de suporte logístico, além de grande umidade ambiente e altas temperaturas.
    • Tropas paraquedistas: Tropas especializadas em assaltos aeroterrestres. Operam a retaguarda do inimigo, isoladas das demais forças a fim de garantir objetivos importantes até que as tropas convencionais cheguem. Não se sustentam por muito tempo devido ao seu isolamento e devem ser substituídas em pouco tempo. Não possuem armamento pesado e seus veículos são poucos ou nenhum. Seus integrantes devem ter grande resistência física a fim de suportarem grandes deslocamentos a pé carregando todo o seu equipamento.
  • Tropas Auxiliares
    • Quadros de material bélico: Tropas especialmente constutuídas no quesito técnico  e destinam-se a prover apoio de manutenção ao equipamento dos demais. Integram esta tropa mecânicos, armeiros, técnicos de sistemas especializados e todos aqueles afins.
    • Serviços de saúde: Tropa constituída por médicos, paramédicos, enfermeiros e afins, como a finalidade de prover serviços de saúde preventiva e curativa as demais tropas. São responsáveis pelo desdobramento de hospitais de campanha, prevenção de doenças próprias das áreas de combate como aquelas transmitidas por mosquitos, exposição a radiação e agentes químicos e tratamentos médicos em geral.
    • Capelães: Tropa destinada a dar apoio espiritual e psicológico aos combatentes, constituída por rabinos, padres, pastores, e religiosos em geral.
    • Quadros de intendência: Tropa destinada a operar todo o apoio administrativo a tropa em campo, proporcionando os serviços de ressuprimento e material e pessoal, transporte, armazenamento, triagem, tratamento de prisioneiros de guerra, serviços funerários, banho, padaria, lavanderia, correspondência, registro e controle e demais atividades administrativas.
    • Aguadeiros: Tropa destinada a prover água potável aos demais. Em algumas forças esta função é executada pelas tropas de engenharia.
  • Unidades Aéreas
    • Aviação de combate: Denominação do "grosso" da aviação de combate de uma força. Opera aeronaves de interceptação, ataque ao solo e bombardeio estratégico.
    • Aviação de caça e interceptação: Ramo da aviação de combate destinada a combater outras aeronaves em voo, proporcionando proteção de espaço aéreo e escolta de aeronaves de bombardeio. Aeronaves de ataque geralmente são denominadas também como aeronaves de caça, uma vez que uma mesma aeronave muitas vezes desempenha as duas funções.
    • Aviação de ataque: Ramo da aviação de combate destinada a atacar o campo de batalha, geralmente em proveito da tropa em terra e a pedido desta.
    • Aviação de bombardeio estratégico: Ramo da aviação de combate destinada a bater alvos de valor estratégico que vise diminuir a capacidade de combate do inimigo. Geralmente objetivos de apoio logístico e valor estratégico como usinas, pontes, terminais, áreas logísticas, fábricas, etc...
    • Aviação de transporte: Unidades especialidades em prover transporte aéreo, lançamento de carga aérea, lançamento de paraquedistas e funções afins. Em algumas forças operam as funções de reabastecimento de aeronaves em voo.
    • Aviação de asas rotativas: Aviação constituída pelos helicópteros militares e destina-se a prover o resgate de pilotos abatidos (combate-SAR), transporte tático de tropas e suprimento e outras tarefas como ligação, por exemplo.
    • Aviação naval: Aviação que opera em proveito da força naval e é subordinada a esta. Pode operar embarcada em porta-aviões e outros navios, ou com bases em terra.
    • Aviação naval de asas rotativas: Ramo da aviação naval que opera aeronaves de asas rotativas, principalmente no combate antissubmarino e podem embarcar na maioria da belonaves.
    • Aviação de patrulha marítima: Ramo da aviação naval, geralmente de asas fixas, que destina-se a patrulhar em tempos de paz ou guerra grandes extensões marítimas a fim de manter o alerta sobre estas áreas. Podem combater naves de superfície e submarinas, sendo que para estas devem ser especialmente constituídas.
    • Aviação do exército: Aviação subordinada a força terrestre e que opera em proveito desta. Geralmente utiliza-se de asas rotativas nas missões de transporte, reconhecimento, apoio de fogo e combate anticarro.
    • Aviação de instrução: Destina-se a formação dos pilotos militares.
    • Aeronaves sem piloto: Aeronaves de pequeno porte que operam um grande número de missões, geralmente de vigilância e reconhecimento, pilotadas remotamente com capacidade de manterem-se no ar por longos períodos. Podem aperar como portadora de armas e vem ganhando destaque nos cenários atuais.
  • Unidades Navais
    • Fragatas e destróieres: Navios de guerra convencionais dotados de capacidades anti-aérea, anti-submarina e anti-superfície, geralmente com ênfase em uma delas. Os navios assim denominados confunde-se e sua distinção tem se torna cada vez menos clara.
    • Corvetas: Navios semelhante as fragatas, porém com deslocamento muito menor e sistemas de armas mais limitados.
    • Navios Anfíbios: Navios de vários tipos destinados a apoiar o desembarque da tropa anfíbia.
    • Navios de guerra de minas: Pequenas embarcações especialmente construídas para limpar águas minadas e/ou proceder a minagem destas. Também denominadas navios mineiros.
    • Navios logísticos: navios de vários tipos destinados a dar apoio logístico à frota. Desempenham tarefas de transporte, reabastecimento de combustível, hospitais, oficinas, etc...
    • Porta-aviões: Grandes navios destinados a servir como aeródromos flutuantes. São o tipo de navio mais poderoso da atualidade.
    • Submarinos de propulsão convencional: Submarinos propulsados por motores diesel-elétricos. Dependem do ar atmosférico para sua operação o que os obriga a virem a tona em intervalos regulares de tempo, expondo-os. São muito difíceis de detectar e representam grande ameaça, principalmente em águas costeiras, mas também em ambiente oceânico.
    • Submarinos de propulsão nuclear: Submarinos propulsados por reatores nucleares. São independentes da atmosfera e só tem que vir a tona para o reabastecimento de víveres e armas. Produzem sua própria atmosfera, água e eletricidade por tempo indefinido. São mais barulhentos que os diesel-elétricos, porém devido a sua exposição sensivelmente menor que aqueles são tão ou mais perigosos.
    • Submarinos lançadores de mísseis estratégicos: Submarinos destinados a portarem mísseis estratégicos, na sua maioria de propulsão nuclear e de altíssimo valor devido ao seu devastador poder de fogo.
  • Operadores
    • Atiradores de precisão: também denominados snipers, franco-atiradores ou caçadores, são atiradores capazes de acertar seus alvos a distâncias muito grandes. Atuam em apoio a uma força de infantaria batendo alvos de oportunidade multiplicando seu poder de combate, ou sozinhos cumprindo missões específicas.
    • Comandos: Forças altamente treinadas que atuam em missões de difícil execução, como sabotagens, coleta de informações, e outras.
    • Controladores avançados: Observadores especialmente treinados para dirigir o fogo da aviação de ataque e os tiros das baterias de artilharia (observadores), geralmente a partir de posições no solo.
    • Controladores de tráfego aéreo: Pessoal especialmente treinado para manter a coordenação e segurança do tráfego aéreo.
    • Forças especiais: tropas altamente treinadas em missões atrás das linhas inimigas, geralmente de coleta de informações. São capazes de operar isoladas do resto da força e com apoio mínimo.
    • Mergulhadores de combate: Modalidade de forças especiais especializadas em operações de combate a partir do meio aquático, com especialidade em operações de mergulho.
    • Mergulhadores de marinha: Mergulhadores destinados a cumprirem missões inerentes às marinhas de guerra que exijam operações de mergulho, como por exemplo o resgate de artefatos nucleares perdidos no mar, o resgate de submarinos sinistrados e o reparo de embarcações abaixo da linha d'água.
  • Sistemas
    • Satélites de comunicações: São satélites destinados a prover links de comunicações entre estações terrestres. A comunicação via satélite é impossível de ser interceptada, como demonstraram os ingleses nas Falklands/Malvinas.
    • Satélites de navegação: São satélite posicionados em órbita baixa que destinan-se a prover sinais que auxiliem sistemas de navegação e psoicionamento na superfície terrestre.
    • Satélites de sensoriamento: São os chamados satélites espiões e destinam-se monitorar a superfície do globo através de fotografias, filmagens, imagens radar e de exploração de outras faixas do espectro como infravermelho e ultravioleta a fim de coletar informações demandadas. Orbitam em órbita baixa.
    • Sítios de radar: Estações fixas de radar destinadas a compor as redes de vigilância aérea.
  • Outras
    • Forças de foguetes estratégicos: Unidades estratégicas operadores de mísseis de longo alcance dotados de ogivas nucleares. Servem de forças de dissuasão e não se envolvem com a manobra tática-operacional. Os submarinos portadores de mísseis estratégicos também se enquadram aqui.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Guerra Eletrônica (2) - O Espectro Eletromagnético *189



Guerra Eletrônica - Generalidades

Denomina-se espectro eletromagnético (EEM) ao conjunto de frequências de radiação eletromagnética, utilizáveis ou não, que compõem o universo desta importante componente física. É utilizado militarmente na transmissão de informações e endereçamento de armas através de enlaces de rádio, na construção de armas de pulso eletromagnético e nas operações de sensoriamento de todos os tipos como a operação de radares e dispositivos MAGE, sendo o elemento principal na coleta de informações de combate, marcação de alvos e comunicações militares entre outros, e seu uso é vital aos sistemas de guerra modernos. Devido a sua velocidade de propagação (próxima aos 300.000 km/s – velocidade da luz) se presta a conexão instantânea ou próximo disto, aos enlaces de transmissão de informações de todos os tipos nas distâncias terrestres, e com atrasos crescentes nas distâncias extraterrestres. É o campo de batalha das operações de guerra eletrônica (EW).

Antes do advento dos “tempos modernos”, marcados pela tecnologia mais recentemente dominada nos últimos séculos, a parte do espectro utilizada pelo homem sempre foi a luz visível, embora sem se dar conta que ela era componente de um conjunto de radiações bem mais amplo. A radiação infravermelha (IR) também foi utilizada intensamente pelos séculos de forma primária, pois é através que o calor se propaga. Os gregos antigos fizeram os primeiros estudos do comportamento da luz visível e registraram as primeiras teorias, incluindo os fenômenos da refração e reflexão, comum a todos os tipos de ondas. William Herschel fez as primeiras descobertas em 1800 além da luz visível, teorizando que “raios caloríficos” não visíveis eram um tipo de luz além da luz, descobrindo a radiação infravermelha (IR) em um extremo do espectro visível. A radiação ultravioleta (UV) foi descoberta por Johann Ritter em seguida, como uma forma de “radiação química”, que induzia certas reações químicas, no outro extremo do espectro visível.

Em 1845 Michael Faraday relacionou radiação eletromagnética com eletromagnetismo, e em 1860 James Maxwell desenvolveu equações relacionais, percebendo que a radiação deslocava-se em velocidades próximas à da luz e sugerindo que a própria luz é uma forma desta radiação. Maxwell previu um número infinito de frequências e sua inserção em um coletivo maior que foi denominado espectro eletromagnético. Por volta de 1886 Heinrich Hertz descreveu as ondas de baixa frequência (rádio) e as micro-ondas situando-as abaixo do IR, e em 1895 Wilhelm Rontgen descobriu os raios-X no outro extremo do espectro, e em 1900 Paul Villard identificou os raios gama em altíssima frequência, com Willian Henry Bragg demonstrando em 1910 estes também serem radiação eletromagnética e não partículas, como sugerido.

A radiação eletromagnética viaja pelo meio através de ondas e todas estas ondas são basicamente a mesma forma de radiação. Todas elas podem transpor o espaço vazio ao contrário das ondas sonoras que são mecânicas, e deslocam-se à velocidade da luz no vácuo do espaço cósmico. A diferença básica entre os tipos de radiação são as diferentes frequências. Cada frequência tem um comprimento de onda associado. À medida que a frequência aumenta em todo o espectro, o comprimento de onda diminui. A energia transportada também aumenta com a frequência. Por esse motivo, frequências mais altas penetram na matéria mais rapidamente. A frequência é inversamente proporcional ao comprimento de onda, e qualquer forma desta radiação também pode ser representada por sua faixa de comprimentos de onda.

As ondas eletromagnéticas podem variar de comprimentos de muitos quilômetros ou até anos-luz, a tamanhos subatômicos. Quanto maior a frequência de uma onda, menor é seu comprimento e mais tecnologia é necessária para que seja utilizada e manipulada. Cada faixa de frequências é vocacionada para um conjunto de aplicações específicas, podendo estas se sobreporem com suas vantagens e desvantagens, e nominadas em 7 grandes grupos distintos, sendo que estes grupos se sobrepõem em seus extremos, que possuem características de ambos os grupos, o que torna dificílimo estabelecer um limite claro entre eles.

Estes grupos são:

1. Ondas de rádio,
2. Micro-ondas,
3. Infravermelho (IR),
4. Luz visível,
5. Ultravioleta (UV),
6. Raios X
7. Raios gama.

Ondas de Rádio

As faixas de menor frequência do espectro são as denominadas “ondas de rádio”, que podem ser recebidas e emitidas por antenas comuns, sendo a parte mais facilmente manipulável. A atmosfera é transparente a estas ondas de forma relativa, pois permite que elas viajem de uma antena a outra, porém camadas da ionosfera podem refleti-las dependendo da frequência. Esta reflexão permite que estas ondas tenham um longo alcance à custa de interferência atmosférica mais pesadas nas frequências de maior alcance, e permite transmissões como a dos radares OTH e rádio de ondas médias. Acima das ondas de rádio vem a faixa de micro-ondas que não tem a propriedade de reflexão atmosférica e viajam como a luz visível.

A faixa de frequências mais baixa do EEM é a de Ultra Baixa Frequência (ULF), que vai de 300 Hz a 3 kHz e podem viajar tanto pela atmosfera quanto pela água sem grande atenuação, penetrando inclusive camadas de terra sólida. É usada na comunicação com submarinos e dispositivos subaquáticos, na exploração de minas e possui a desvantagem de carregar pouca informação como por exemplo o código morse, sendo a largura da banda muito estreita. Antenas inseridas no solo podem ser usadas para conectar receptores em alcances limitados, como já experimentado por radioamadores, e sistemas mais modernos pode fazer o papel de “GPS” para localização e orientação dentro de ambientes confinados. Suas ondas são muito longas e exigem grandes antenas. Observou-se que grandes terremotos são precedidos por picos de emissões ULF, sendo que esta frequência poderá vir a ser utilizada também para este fim, assim que o fenômeno for melhor compreendido.

Na faixa de 3 kHz até os 30 kHz temos as chamadas Muito Baixa Frequência (VLF), também muito limitada na transmissão de informações porém com bandas mais largas, e utilizada em sistemas de navegação e comunicação submarinas com penetração de 10 a 40 m dependendo da frequência e salinidade, mas ainda muito estreita para carregar sinais de áudio, prestando-se como a anterior à transmissão de códigos. É refletida pela ionosfera e pode ser usada para conexões de grandes distâncias, em sinais de navegação e nas aplicações citadas na banda anterior como a conexão em minas e radioamadores.

Acima dos 30 kHz até os 300 kHz temos a Baixa Frequência (LF) ou “ondas longas”, banda esta que tem a propriedade de poder se propagar na atmosfera em torno do globo, por reflexão na ionosfera ou na própria superfície, assim como as VLF, podendo ser usadas nas comunicações de longa distância por transpor montanhas e seguir os contornos do globo. Está sujeita no entanto, a interferência atmosférica de forma intensa como todas aquelas que são refletidas, carregando consigo muito estática que deteriora em muito a qualidade das transmissões. Foi usada em radiofaróis (LORAN-C 100 kHz, Decca 70 e 129 kHz) e possuem a propriedade, como as bandas inferiores, de penetração submarina nas frequências abaixo dos 50 kHz, são usadas ainda pelos rádio-amadores e telemetria de GPS nos 283 e 325 kHz. Propaga-se por até 2000 km pelo solo.

Acima dos 300 kHz até os 3 MHz temos a Média Frequência (MF) ou “ondas médias” que são refletidas pela ionosfera de forma mais acanhada que as LF, porém no período noturno permite que estações de rádio (rádio AM) alcancem centenas e até milhares de km. É usada na radiodifusão AM, sinais de rádio de navegação , comunicação marítima navio-terra e controle de tráfego aéreo transoceânico. Permite a transmissão digital com qualidade semelhante ao VHF (FM).

Entre os 3 MHz até os 30 MHz temos a Alta Frequência (HF), banda também conhecida como “ondas curtas”, usada para o radiocontrole devido a possibilidade de codificar mais informações a medida que a frequência sobe. Assim como as LF e MF também são usadas na comunicação de longa distância por sua propriedade de reflexão na ionosfera.

Acima dos 30 MHz até os 300 MHz temos a Muito Alta Frequência (VHF), usadas na transmissão de rádio FM e canais de TV, comunicações militares táticas e comunicação e navegação aérea (VOR e ILS). Apresenta boa qualidade de transmissão e baixa interferência atmosférica, capaz de realizar transmissões digitais. Não pode ser refletida pela ionosfera e propaga-se em distâncias livres de obstáculos, não tendo por este motivo alcances muito longos.

Logo após temos dos 300 MHz aos 3 GHz a Ultra Alta Frequência (UHF) com as mesmas aplicações do VHF, porém com um número de canais muito maior devido à largura da banda. Usado em transmissões de rádio e TV, comunicações militares e aeronáuticas, GPS, telefonia celular entre outras.

Micro-ondas

As faixas subsequentes são as “microondas”, assim denominadas devido ao seu pequeno comprimento em relação às da primeira faixa, embora é claro, existam frequências da primeira faixa localizadas próximas a estas e que partilham de características semelhantes. Medem de 100 mm a 1 mm de comprimento são ondas de rádio muito curtas, e se propagam pela linha de visão com alcance máximo de 64 km em uma extremidade e não mais que 1 km na extremidade superior, não sendo capaz de se refletir na ionosfera, transpor montanhas ou se propagar pelo solo, sendo muito atenuadas pela umidade atmosférica e pela chuva. Convencionadas como as integrantes das faixas SHF e EHF.

SHF Super Alta Frequência (super high frequency) que comporta as bandas NATO F, G, H, I, J e K (esta última ondas milimétricas) no intervalo de 3 até 30 GHz, usadas na comunicação terrestre e com satélites, radares de todos os tipos e comunicação omnidirecional.

EHF Extra Alta Frequência (extremely high frequency) também conhecidas como “ondas milimétricas” (acima dos 20 GHz) que comporta as bandas NATO L e M no intervalo entre 30 e 300 Ghz, sendo a faixa mais altas das radiofrequências. Possuem alcance muito curto por serem altamente atenuadas pela umidade atmosférica, o que permite que sejam reutilizadas. Permite a produção de antenas muito pequenas que podem produzir feixes muito estreitos, difíceis de monitorar e com alta resolução de sinais. Existem janelas de 35, 94, 140 e 220 GHz que permitem alcances maiores.

As micro-ondas não podem ser manipuladas por antenas comuns, tendo as suas próprias, e necessitando de dispositivos denominados válvulas (válvulas termoiônicas) Krystron e Magnetron para sua utilização, que aquecem muito e demandam por consequente mais energia. Como as ondas de rádio de menores frequências podem penetrar as superfícies, embora com menor poder. Não podem ser conduzidas por fios tradicionais e utilizam dispositivos denominados guias de ondas para seu manejo. As frequências EHF ainda não são muito usadas para comunicação via rádio, devido à dificuldade tecnológica de codificar e decodificar amplitude e modulação de frequência tão altas.

Infravermelho (IR)

A faixa subsequente do espectro (infravermelho – IR) cobre as frequências de 300 GHz a 400 THz ( 1mm a 750 nm) e é separada em 3 sub-faixas: O infravermelho (IR) distante de 300 GHz a 30 THz que ainda se confunde com as micro-ondas. É uma faixa de radiação denominada terahertz ou sub-milimétrica na faixa de 100 GHz a 30 THz que engloba uma porção da faixa anterior, até então pouco utilizada, e que está sendo estudada na construção de dispositivos de incapacitação de meios eletrônicos inimigos. Esta região do espectro é fortemente atenuada pela atmosfera (que fica opaca) não se prestando a aplicações de longa distância. Algumas pequenas janelas nesta faixa permitem aplicações na astronomia por possibilitarem alguma forma de transmissão. O IR médio vai de 30 THz a 120 THz e é usada pelos irradiadores de calor, que é fortemente absorvida pelos corpos em geral e usada nos mísseis guiados pelo calor mais antigos, por exemplo. O IR próximo vai de 120 THz a 400 THz e se comporta de modo semelhante a luz visível. É usada para sensoriamento de imagens de estado sólido e na guiagem dos mísseis IR mais recentes (IIR), que trabalham com formação de imagens. Uma aplicação mais recente são os sensores IRST, que se comportam como radares passivos, já muito empregado na aviação de caça. Os FLIR trabalham com a elaboração de imagens e também atuam nesta faixa do IR.

Espectro Visível (luz)

Ocupando a próxima faixa do espectro vem a luz visível imediatamente acima da radiação IR, onde o sol atua no seu pico de potência, que também emite radiação IR em grande quantidade, entre outras. É a faixa do espectro que pode ser captada pelo olho humano, limitada em seu extremo inferior pela radiação vermelha e no superior pela radiação violeta, e ocupa a faixa dos 400 THz até os 790 THz. Como o olho humano capta toda esta faixa ao mesmo tempo, sua combinação resulta na luz branca, que é uma combinação de várias frequências luminosas. As guias de fibra ótica podem utilizar esta radiação, mas comumente usam as do IR próximo.

Radiação Ultravioleta (UV)

Acima do espetro visível a aplicação militar é pouco significativa, vem a radiação ultravioleta (UV) e que tem o poder de ionizar átomos, usada na manipulação de reações químicas. Juntamente com a radiação de raios-X e raios gama é chamada de radiação ionizante, e sua exposição pode danificar o tecido vivo. Juntamente com a luz visível provoca o fenômeno da fluorescência. A faixa intermediária da radiação UV não tem poder de ionização, mas pode quebrar ligações químicas, tornando as moléculas extraordinariamente reativas. As queimaduras solares, por exemplo, são causadas pelos efeitos perturbadores da radiação UV de médio alcance nas células da pele, que é a principal causa do câncer de pele. Os raios UV na faixa intermediária podem danificar irreparavelmente as complexas moléculas do DNA.

O Sol emite radiação UV significativa, incluindo radiação UV extremamente curta que pode potencialmente destruir a maior parte da vida. No entanto, a maioria dos comprimentos de onda UV prejudiciais do Sol é absorvida pela atmosfera antes de atingir a superfície. As faixas mais altas de energia (menor comprimento de onda) de UV (chamadas de "UV a vácuo") são absorvidas pelo nitrogênio e, em comprimentos de onda mais longos, pelo simples oxigênio diatômico no ar. A maior parte dos raios UV na faixa intermediária de energia é bloqueada pela camada de ozônio, que absorve fortemente na faixa importante de 200–315 nm, cuja parte de energia mais baixa é muito longa para o CO2 atmosférico absorver. Isso deixa menos de 3% da radiação solar ao nível do mar em UV, com tudo isso nas energias mais baixas. O restante é UV-A, junto com alguns UV-B. A faixa mais baixa de energia UV entre 315 nm e luz visível (chamada UV-A) não é bem bloqueada pela atmosfera, mas não causa queimaduras solares e menores danos biológicos. No entanto, não é inofensivo e cria radicais de oxigênio, mutações e danos à pele. 

Raios X

Acima da faixa UV temos os raios-X que podem atravessar corpos com pouca absorção, permitindo a formação de imagens, muito usados na medicina e astronomia. A atmosfera é opaca aos raios-X, devendo os telescópios que utilizam esta radiação serem colocados fora dela. Uma camada de 10 m de água é suficiente para bloquear a maior parte dos raios-X astronômicos.

Raios Gama

E na camada superior do espectro temos os raios gama (radiação ionizante), com alta capacidade de penetração e muito nocivos ao tecido vivo a aos circuitos eletrônicos. São usados na medicina e agricultura nas funções de esterilização, como por exemplo a radioterapia de tratamento do câncer. São resultantes do decaimento radiativos dos núcleos atômicos, e sub-produto de reatores nucleares e armas que utilizam a divisão do átomo, podendo ser bloqueados de forma criteriosa por materiais densos como chumbo e concreto. No campo de batalha terrestre também estão presentes de forma indesejável nas munições APFSDS feitas de urânio empobrecido, causando danos a saúde dos combatentes, e como subproduto indesejável de explosões nucleares.


sábado, 21 de dezembro de 2019

Estratégia Naval *188


Operando no Mar - Generalidades

Guerra Naval é a disputa pela superioridade militar, em que forças antagônicas se atritam de forma violenta, buscando alcançar a hegemonia sobre um determinado espaço geográfico, que com frequência resulta no engajamento físico de suas diversas unidades. Ela compreende ações desenvolvidas na superfície dos mares e abaixo dela, no espaço aéreo respectivo e nas terras contíguas a estas águas, que de alguma forma influenciem ou sejam influenciadas por estes primeiros elementos. 

Visam a consecução de objetivos tanto no espaço marítimo quanto terrestre, imediatos ou a longo prazo, e envolvem elementos pertencentes ou não ao poder militar. Diferentemente das operações de guerra terrestre ou aérea, onde os meios civis raramente participam de situações de caráter tático, no mar os meios de marinha mercante frequentemente são mobilizados para conduzir operações bem caracterizadas em apoio às forças militares, de acordo com suas possibilidades operativas.

A Importância Político-Estratégica do Mar

A importância do mar na vida dos povos é inquestionável e antiga. Observando a história podemos constatar que a maior parte da atividade humana ao longo dos tempos se desenvolveu ligada a ele. Ocupando 70% da superfície do planeta, continua a ser o cenário de manifestação de poder de um grande número de nações. As maiores cidades do mundo estão junto ao mar ou muito próximas a ele, assim como os países com atividade marítima mais intensa assumiram ao longo da história e mesmo hoje maior importância mundial.

O uso do mar, na atualidade, é permitido apenas aqueles que possuem poder econômico e militar, ou que obtenham a permissão deste poder para fazê-lo. Sob a ótica econômica, o mar é a via de comunicações mais importante do planeta e fonte abundante de matérias-primas essenciais ao abastecimento de muitos países. Mesmo com a intensificação das vias de transporte aéreo e terrestre, não há indícios que num futuro previsível o mar venha a perder sua importância absoluta na movimentação de matérias primas entre as economias modernas. Estima-se que mais de 36.000 navios mercantes transportaram 8,1 bilhões de toneladas de carga em 2008 pelo mundo. O ferro e o petróleo, vitais nos sistemas econômicos modernos são totalmente transportados pelo mar. Muitas nações ainda encontram no pescado uma de suas principais fontes de alimento. A exploração das plataformas continentais adquire maior importância a cada dia como fonte de matéria-prima.




A importância militar também é significativa, pois é através dele que os invasores chegam, e seu domínio constituí uma efetiva barreira para qualquer aventura deste tipo. Os ingleses só deixaram de ser invadidos depois que assumiram o controle do Canal da Mancha, ao passo que invadiram mais tarde todos os recantos do mundo. Nenhuma nação sobrevive apenas de estoques acumulados e o mar é porta de entrada contínua de todos os tipos de suprimento. Base industrial agregada a matéria prima é um dos componentes do poder nacional. Como o poder é sempre relativo, mesmo nações sem dependência direta do mar o consideram estrategicamente, pois muitos de seus aliados ou inimigos estão nesta dependência. A Suíça possui uma grande frota mercante e nenhum litoral, por exemplo.


Para a estratégia naval o mar apresenta-se com duas características importantíssimas quanto a sua utilização:
  • é uma eficiente via de transporte disponível, podendo muitas vezes ser a única aos protagonistas de uma situação de conflito declarado ou potencial; 
  • é uma ampla e flexível base de projeção de poder sobre as bases do poder contrário.

O Domínio do Mar

Entendemos como o domínio do mar a efetiva utilização das superfícies oceânicas pelas forças navais e marinha mercante. Busca-se neste domínio a condição de mínima interferência possível de poderes antagônicos. Este domínio é o objetivo final da guerra naval e em torno dele suas estratégias são traçadas, sendo pré-requisito essencial a obtenção da iniciativa nas ações estratégicas, valendo lembrar que a iniciativa é um dos princípios da guerra. Durante a II grande guerra o domínio do Atlântico, mesmo que parcial, significou condição vital a manutenção das operações no continente europeu, pois de nada valia o enorme poder produtivo da indústria norte-americana, sem a capacidade de transportar este suprimento para a área de operações. Os comandantes aliados sabiam que não haveria a invasão da Europa sem comunicações marítimas seguras, por consequência sem vencer a Batalha do Atlântico. Os Alemães também sabiam disso e colocaram seus U-boats em operação intensa, além de dedicar esforços na construção de meios de superfície como o encouraçado Bismark.




O domínio do mar não pode ser considerado apenas como algo absoluto e em grandes áreas marítimas. Ele pode ater-se à áreas restritas, desde que o domínio destas satisfaçam os objetivos estratégicos. Seu domínio absoluto só existirá se houver total ausência de poderes antagônicos, situação improvável. Na prática considera-se estabelecido o domínio quando as operações militares e suprimentos econômicos podem fluir sem perdas inaceitáveis.

Um fator importante ao domínio do mar é a existência de bases aéreas e navais disponíveis, ou locais onde possam ser instaladas. Assim o domínio de ilhas em grandes extensões oceânicas como o Hawaii no Pacífico, e a ilha de Ascensão no Atlântico, por exemplo, são de vital importância a operação das forças que disputam a guerra neste ambiente. Como o poder é relativo e o domínio global uma condição raramente atingida, cabe à estratégia naval avaliar o grau de controle necessário de cada área e aplicar ali os meios requeridos. Podem haver áreas importantes para um dos lados e totalmente desnecessárias a outro, como foi o caso do Atlântico Norte na II Guerra. Quando esta situação se configura, o lado que não necessita da área marítima, tende a empregar esforços no sentido de negar seu uso ao outro lado. Neste contexto, se este lado não puder vencer a guerra, ainda pode provocar um impasse estratégico e forçar o outro a mesa de negociações.

Algumas áreas marítimas são mais importantes que outras. Como as já citadas áreas que podem abrigar bases aéreas e navais, temos ainda pontos de passagem obrigatória como os canais de Suez e do Panamá, os estreitos como o Bósforo, o estreito de Ormuz, Gibraltar e Bering entre outros; os cabos Horn e da Boa Esperança. Águas interiores como o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, Mar do Caribe e Báltico também assumem importância nas operações. A Rússia, a despeito de sua extensão territorial, tem limitadíssimas opções de acesso ao mar. Ao norte o mar congela ou tem que ser transposto o Báltico com seus estreitos e baixa profundidade; ao sul tem que passar pelo Bósforo para deixar o Mar Negro; e o leste fica distante e no quintal do império japonês. Em contraste, Brasil, Estados Unidos e Chile tem amplo acesso ao mar aberto.


O nível de domínio do ambiente marítimo pretendido por determinada nação deve estar definido em sua estratégia naval. Esta, define quais os objetivos a serem alcançados através das operações navais para que este domínio se consolide. O nível de domínio do mar se dá em 4 graus distintos:
  1. Não existe nenhum domínio do mar, e os atores do poder antagônico tem total liberdade sobre o ele, podendo inclusive negar seu uso a quem o desejar;
  2. O seu uso é negado aos atores do poder antagônico, porém não é possível utilizar o espaço marítimo pois aqueles detêm capacidade semelhante;
  3. O domínio do mar está em disputa e pode-se utilizá-lo, porém com risco proporcionado por capacidades reais do poder antagônico que as utilizará se conseguir transpor as barreiras de segurança adotadas;
  4. O domínio do mar está consolidado, podendo o espaço marítimo ser utilizado sem grande interferência do poder antagônico, que não pode utilizá-lo pois esta capacidade lhe é negada. É o oposto diametral da primeira situação.


O Poder Marítimo

O poder marítimo é capacidade de uma nação se fazer presente nos mares com maior ou menor expressão, capacidade esta resultante de uma série de fatores condicionantes. São eles:

  • o poder naval constituído pela força aérea e marinha de guerra e suas bases de apoio e instalações estratégicas, 
  • sua geografia, 
  • a marinha mercante e suas agências de comércio marítimo, 
  • seus portos, estaleiros e bases de reparação, e toda base industrial,
  • a qualificação de seu pessoal envolvido com a atividade marítima ou que a dê suporte
  • a índole nacional e sua capacidade de organização
  • além de suas alianças estratégicas que envolvam a atividade marítima.

O Poder Naval

Poder naval é a capacidade de uma nação impor sua estratégia marítima e naval através de meios de guerra naval e poder marítimo, empregando suas marinhas de guerra e mercante. O emprego do poder naval dá-se a partir do grau de domínio do mar que foi alcançado, e busca a efetivação de 5 objetivos básicos:
  • Negar o uso do mar ao inimigo para deslocamento de sua força militar, impedindo sua aproximação de solo pátrio ou ultramarino de interesse, o que inviabiliza qualquer tipo de invasão;
  • Pressionar militar e economicamente o poder antagônico, impedindo que receba pelo mar todo e qualquer recurso que facilite seu esforço de guerra, ou que despache pelo mar seu comércio, sufocando desta forma suas finanças e inviabilizando a compra de suprimentos de guerra, bem como pressionar as nações neutras que estejam dispostas a participar de tal comércio;
  • Proteger do assédio do poder antagônico o tráfego marítimo amigo que realiza o apoio a atividade econômica que participa do esforço de guerra;
  • Assegurar à força militar amiga o acesso às cabeças de praia no território do poder antagônico e sua projeção para o interior, bem como de suas linhas de suprimento;
  • Apoiar a manutenção de territórios costeiros conquistados, permitindo o livre acesso às áreas do interior de todos os meios oriundos do mar, em apoio às forças terrestres que estejam em operação neste locais.
Estes objetivos devem ser buscados simultaneamente a fim de atingir o intento final que é solucionar o conflito na condição de superioridade, sendo que a intensidade aplicada a cada item será calibrada pela dimensão tático-estratégica de cada situação específica. As marinhas de guerra possuem diferentes capacidades para aplicação do poder naval, cada qual operando de acordo com suas capacidades proporcionadas pelos meios disponíveis.



Operando no Mar - Generalidades
Operações de Guerra Naval

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Operando no Mar - Generalidades *187


Adaptação do Guia de Guerra Naval do site Sistemas de Armas

A guerra naval, tal qual a terrestre, é um jogo de fogo e movimento, onde as forças procuram surpreender suas oponentes, colocando os meios daquelas dentro do alcance de seu fogo, evitando assumir a mesma condição. É uma sequência de escaramuças baseadas em alta tecnologia e muita astúcia, onde o equipamento menos capaz quase sempre é sinônimo de fracasso, podendo em raras ocasiões ser compensado pela perspicácia dos comandantes mais astutos e bem treinados. 

As marinhas do mundo buscam constantemente equipar-se da melhor forma possível, porém o custo dos sistemas navais mais modernos reservam o domínio dos mares àquelas mais abastadas. Um exemplo clássico desta situação ocorreu um 1982, quando submarinos nucleares britânicos forçaram a pequena esquadra argentina a ficar imóvel e inútil em suas bases, mesmo não estando ainda presentes de fato, pois a simples suspeita de sua presença anunciada, obrigou os argentinos a reguardarem seus meios, incapazes de contrapor a ameaça representada pelos submersíveis. O disparo de uma arma no cenário naval é tão somente o coroamento de uma sequência de escaramuças, combinando movimento contínuo para obter o melhor posicionamento a uma atividade intensa de operações de esclarecimento, usando meios navais, aeronavais e de guerra eletrônica, incluindo o sensoriamento por satélites.

Em contraponto aos espaços restritos e repletos de recursos de ocultação dos teatros terrestres, as vastidões marítimas são o grande trunfo das forças navais para manterem-se incógnitas.  Monótono e desprovido de acidentes naturais, o mar exige a vigilância constante por aeronaves, submersíveis e sensores eletrônicos com detecção a grandes distâncias, sendo a ocultação permitida apenas pela curvatura do planeta e pela submersão dos meios capazes de tal manobra. Quando operando próximas à costa, as formações navais ainda conseguem alguma proteção dos acidentes do terreno, porém também podem ser surpreendidas por ameaças surgidas a partir deles. No teatro marítimo, meios eletrônicos modernos e sistemas no estado da arte são a diferença entre ganhar ou perder.



O primeiro recurso que uma força naval dos nossos tempos coloca em ação é o esclarecimento marítimo através da aviação de patrulha de longo alcance e do sensoriamento por satélites, se disponível. Pequenos navios patrulheiros e aeronaves, baseadas em terra ou mesmo em escoltas e navios porta-aeronaves, patrulham os mares a procura de forças que possam representar ameaça, pois o quanto antes se detectar o inimigo, mais tempo se terá para preparar-se para enfrentá-lo. 

Patrulheiros aéreos baseados em terra formam a primeira linha de defesa de uma nação contra incursões vindas do além-mar e são vitais na segurança de qualquer país com fronteiras marítimas. Estas aeronaves são vulneráveis ao assédio de caças inimigos, porém devido à imensidão marítima estes teriam que ter raios de ação improváveis ou contarem com o suporte de navios-aeródromos. Vigiar o mar com radares baseados em navios é perigoso e deve ser feito com critério, pois o radar diz ao atacante exatamente onde está. Mesmo denunciando sua posição, o radar é elemento vital na guerra naval e amplamente usado nestas operações, sendo àqueles aerotransportados (AEW) mais fugazes e difíceis de serem plotados, além de terem um horizonte maior. Aeronaves AEW operando em proveito de uma força naval são elementos valiosos. Na batalha de Midway, ao contrário dos porta-aviões norte-americanos, os japoneses não possuíam esclarecimento por radar, cabendo às aeronaves e aos olhos de seus pilotos este papel. Esta condição lhes custou caro, pois as forças dos EUA lograram surpreender a frota nipônica quando esta não mais podia reagir, afundando 3 naves em poucos minutos e revertendo em instantes o rumo da guerra no pacífico, na maior batalha naval da história.

As principais missões navais são o controle de área marítima e a negação do uso do mar, que é o contraponto da primeira. A partir do mar também se lança o poder sobre terra, operação que deve partir de um espaço marítimo sob controle e dentro de uma esfera de segurança relativa. A mobilidade de uma força naval é fator chave para sua sobrevivência, pois uma força estática pode ser rapidamente localizada e virar alvo, de forma que ela deve estar sempre em movimento, salvo em áreas onde o domínio é total. Na Guerra das Falklands/Malvinas a esquadra britânica se manteve em segurança a leste das ilhas onde a aviação argentina não a alcançava, porém ao custo da autonomia de seus caças Harrier. Como neste caso, aeronaves baseadas a grandes distâncias de sua área de operações acabam por permanecerem pouco tempo engajadas em combate, devendo retornar para abastecer. Reabastecedores aéreos podem prolongar sua presença.

As esquadras operam como um único corpo, com seus diversos navios proporcionando segurança um ao outro. Quando um deles dispara, seja suas armas ou sua radiação eletromagnética, sua posição fica logo conhecida e a mudança de posição, bem como o movimento contínuo são inevitáveis. Pode-se operar em grupo em um dia, dispersar-se em seguida para evitar detecção e reagrupar-se novamente muito longe de onde se estava anteriormente. Distâncias muito longas (maiores que 40 km que é o horizonte-radar para naves de superfície) podem prejudicar os links de comunicação se a frota não contar com o enlace por satélites, neste caso sendo necessárias retransmissões por aeronaves.

Durante uma operação naval as diversas unidades que a compõem manobram e disparam sempre que se julgar oportuno, porém todas, invariavelmente, trabalham o tempo todo na coleta, processamento e disseminação de informações de combate, de forma que todas as unidades estejam continuamente cientes da situação tática, que pode ser bem dinâmica. Os tempos modernos trouxeram os sistemas informatizados e a NCW (guerra centrada em redes), que tornaram as atividades de C3I (comando, controle, comunicações e informações) mais rápidas e tempestivas. A inteligência é a essência das operações, e no mar esta afirmação é acentuada. 



Aeronaves de patrulha marítima, caças e bombardeiros, helicópteros antisubmarinos, navios de superfície e submersíveis operam seus sistemas de ESM (medidas de apoio eletrônico), radares e sonares, na coleta de toda informação que se possa obter sobre o inimigo e situação tática. Armas potentes e precisas, posicionadas com seus alvos teoricamente dentro de seus alcances, de nada valem se estes não puderem ser detectados, identificados, adquiridos e travados, bem como deve-se manter vigilância constante para que as unidades inimigas não se coloquem em posição favorável ao disparo das suas.

O grau de segurança que uma esquadra dispõem é aquele proporcionado por sua mobilidade, complementado por seus sistemas defensivos. Quem detecta primeiro, dispara primeiro e se evade da mesma forma, ficando fora de alcance e ganhando a batalha. Desde o planejamento até o regresso pós-missão o esclarecimento é a principal atividade desempenhada pela frota. Uma vez localizada, a ameaça oferecida por uma formação naval diminui muito, devido principalmente a perda do fator surpresa. Nesta situação o comandante pode empreender um ataque se seus meios forem suficientes e a ocasião conveniente, ou evadir-se em caso contrário. O esclarecimento deve sempre andar de mãos dadas com seu contraponto, que é a negação de informações ao inimigo, com a situação tática e as especificidades operacionais determinando este equilíbrio.

Quando se opera em um ambiente misto, ou seja próximo a costa ou lançando incursões aéreas e anfíbias terra adentro, a topografia dos terrenos adjacentes e de uso potencial adquirem importância tática. Aeronaves utilizam-se das elevações e dos espaços entre elas para traçar suas rotas de ingresso e retorno, rotas estas que também podem servir para que a aviação inimiga lance missões contra a frota. Nas operações anfíbias as praias adquirem relevância, bem como as posições de artilharia contra-desembarque, seja de tubo cujo alvo principal serão os fuzileiros e as embarcações, ou de mísseis antinavio baseados na costa.  As elevações e acidentes do terreno podem ainda abrigar forças de combate. Águas restritas podem servir para forças costeiras montarem emboscadas, lançarem minas navais ou ainda abrigarem os silenciosos e mortais submarinos diesel-elétricos. Barreiras físicas como recifes e bancos de areia também se fazem presentes em ambientes próximos a costa, e constituem obstáculos, bem como a profundidade relativa do local. 

A base naval de Pearl Harbour era considerada segura contra o ataque de torpedos lançados do ar devido a sua baixa profundidade, onde sequer haviam redes antitorpedos. Calculava-se que pela inércia da queda, se chocariam com o fundo. Porém não se considerou a engenhosidade japonesa que criou formas destes projéteis assim lançados evitarem este comportamento e atingirem a frota norte-americana la ancorada durante a Segunda Guerra Mundial.



Conhecer a ordem de batalha inimiga é fundamental ao comandante naval. Saber das capacidades de cada um dos meios à disposição dos comandantes adversários norteará as decisões a serem tomadas e os cuidados que devem ser observados, e o desconhecimento destas poderá resultar em surpresas desagradáveis. A capacidade do inimigo capitalizar as características dos ambientes restritos também dependerá da adequação de seus meios disponíveis a este cenário, porém estes são mais acessíveis e disponíveis a quase todos. Invariavelmente se faz necessário o reconhecimento prévio dos locais onde a frota ou suas unidades operarão, com varreduras aéreas e de superfície a fim de identificar e eliminar ameaças ali presentes, como o já citado submersível de tocaia, a presença de minas, artilharia de costa e lanchas torpedeiras ou com mísseis.

Um comandante competente possui planos de contingência para todas as situações, não importando o quanto elas possam ser remotas, e cumpre sua missão com agressividade e cautela, pois a timidez e a negligência quase sempre levam ao fracasso ou a inoperância. Operar nesta situação de agressividade necessária sem se expor não é tarefa fácil, e exige competência dos comandantes, conquistada pelo conhecimento e treinamento constante.

Manobrar significa posicionar-se para que se possa fazer fogo de forma eficiente, sem se expor, levando em consideração as distâncias a serem vencidas e o tempo disponível. A manobra requer a sincronização no tempo e no espaço dos vários meios navais e aéreos, com base na inteligência disponível e necessária, pesando os riscos envolvidos e o objetivo a ser atingido. 

O centro de gravidade tático deve ser buscado em cada operação e sua identificação é vital ao sucesso da manobra. Deve-se identificar as unidades que representam maior ameaça e os objetivos a serem alcançados para que a missão possa ser cumprida. A simples retirada da força inimiga pode significar o sucesso da missão, algumas vezes sem que um único disparo seja efetuado. Esta situação aconteceu no conflito do Atlântico Sul em 1982, onde o afundamento do cruzador ARA Gen Belgrano, em manobra de assédio às forças britânicas, por um SSN de sua majestade, fez com que toda a frota argentina se recolhessem à suas bases e lá permanecessem até o final do conflito, como dito anteriormente. Salientamos ainda que unidades de maior ameaça são aquelas capazes de interferir de forma significativa na manobra e devem ser priorizadas no quesito segurança, unidades que constituam os objetivos da missão são as mais importantes e devem ser buscadas no quesito finalidade, e unidades muito potentes que se encontrem próximas à área de operações, devem ser tratadas como objetivos secundários. O tempo disponível determinará o grau de flexibilidade que a missão poderá alcançar.

Ao iniciar o deslocamento de uma esquadra ou flotilha, o comandante naval poderá optar por uma rota direta e previsível, ou por uma indireta que os mantenha incógnitos à vigilância inimiga. Poderá ainda realizar um deslocamento emassado ou disperso, todos sempre precedidos de meios precursores, tarefa desempenhada pela aviação, embarcada ou não, e pelos submarinos que tem na sua capacidade de permanecerem ocultos seu maior trunfo nesta vital tarefa de esclarecimento. Estas decisões serão tomadas de acordo com o nível de ameaça que a frota irá enfrentar, sua capacidade de reação, a presença ou não de armas nucleares, o tempo disponível, a presença de submarinos, as áreas patrulhadas pela aviação inimiga, entre outros. A disciplina de emissões eletromagnéticas deve sempre ser considerada, com momentos em que o "silêncio" é fundamental.



Outra decisão que o comandante naval levará em consideração, será de manter contato ou não com as forças inimigas antes dos momentos decisivos. Muitas vezes um contato que leve a provocar um desgaste, seja nos meios inimigos ou em seus estoques de munição e combustível ao custo de danos mínimos, pode ser mais proveitoso que um deslocamento totalmente isento de proximidade. Antecipar corretamente a presença do inimigo e fazê-lo disparar suas armas de modo calculado é uma arte que rende dividendos, porém perigosa se executada de forma inadequada.

Com os meios de combate selecionados e o itinerário definido, a frota se lança para atingir as posições iniciais de combate e completar sua missão. Sempre guarnecida pelo guarda-chuvas proporcionado por seus meios de vigilância de superfície, aéreos, antiaéreos e ASW, e suas armas dedicadas. Também se faz importante a análise da área de operações, suas características geográficas e a capacidade do inimigo em "capitalizar" estas áreas, inclusive o relevo submarino.

Uma vez iniciado o contato, o comandante deve seguir uma ordem de engajamento coerente, priorizando as unidades que oferecem maior ameaça a seus meios, seja enfrentando-as, visando sua neutralização ou as evitando, se o engajamento for muito perigoso, sem perder no entanto o foco no objetivo da missão. Por exemplo, para deter um desembarque anfíbio os alvos prioritários são os transportadores de tropas e meios de desembarque, porém o desembarque se dará coberto por escoltas que devem ser vencidas para se chegar aos objetivos principais, e que pode causar revezes significativos. Nenhum plano sobrevive aos primeiros engajamentos, e cada contato deve ser avaliado com o plano de batalha revisto para se adequar a nova situação.

Aquelas ameaças que poderão interferir de forma significativa no cumprimento da missão ou mesmo impedi-la são consideradas muito perigosas e devem ser controladas. As que não podem interferir de forma tão contundente, mas mesmo assim podem ameaçar a frota ou seus meios individualmente de forma mais séria, também devem tratadas da mesma forma. O comandante deve avaliar constantemente suas prioridades visando a integridade de seus meios sem negligenciar o cumprimento da missão, e alocar cada uma de suas unidades ou grupo delas de forma calculada contra cada fração inimiga, dentro de uma escala de prioridades que permitam atingir o objetivo final. Meios aéreos e submarinos são os mais eficazes em ações de assédio aos meios flutuantes do inimigo e se disponíveis devem ser priorizados, pois são alvos mais difíceis de engajar.



As ameaças a integridade da frota devem ser colocadas em um nível hierárquico e combatidas de acordo com sua periculosidade. Como exemplo podemos definir as ameaças em Poderosa e Prioritária (classe A) como mísseis cruise se aproximando,pois podem provocar danos imediatos aos meios da frota; Apenas Prioritária (classe B) como um SSK detectado pelas coberturas externas e que poderá ou não lançar um ataque; Apenas Poderosa (classe C) como um grupo de ação de superfície detectado a 500 km e está longe demais para uma ação mais decisiva; e Nem Poderosa e Nem Prioritária (classe D) como um FAC ancorado e que não representa ameaça a curto prazo.

As ameaças classe A devem ser imediatamente combatidas e todos os meios disponíveis devem ser alocados para eliminá-la. As ameaças classe B igualmente requerem reação rápida mas não necessitam que a maioria dos meios se engajem na sua neutralização. As ameaças classe C são uma espécie de "zona de conforto" do combate e há tempo de se tomar medidas preventivas antes que atinjam posição de disparo, como adquirir formação para combate-la ou manobrar para evitá-la. As de classe D são alvos de oportunidade, pois sua neutralização evita que sejam usadas no futuro mas não contribuem para o sucesso imediato.

Qualquer plataforma, mesmo naves civis ou sem poder de fogo podem ser uma ameaça de primeira grandeza se puderem denunciar a posição ou acabar com o elemento surpresa, ou mesmo criar vulnerabilidade, como ilustrado no filme "Pearl Harbor", quando o Cel Doolittle ordenou a decolagem dos bombardeiros antes da hora pois o porta-aviões Hornet foi visto por uma pequena nave patrulha japonesa que foi afundada, mas que poderia ter transmitido a posição e alertado as defesas. Além do alerta como exemplificado, uma pequena plataforma, seja uma nave de superfície ou helicóptero, pode passar dados para que outra possa abrir fogo.



Na guerra naval a concentração de meios não é importante e unidades dispersas podem concentrar fogo sobre um mesmo alvo mesmo estando a grandes distâncias uma das outras. Mísseis de longo alcance e sistemas de NCW permitem a coordenação e sincronização destas ações. A concentração passa a ser uma função entre capacidade defensiva x capacidade ofensiva, e a situação estabelecerá esta disposição, além é claro, da natureza da missão. Quando se trata de capacidade defensiva a concentração de meios favorece o apoio mútuo com sobreposição de capacidades, salvo quando se lida com ameaça nuclear onde a concentração favorece o atacante. A dispersão permite que as frações possam ser engajadas separadamente.

Quando duas forças navais de capacidades diferentes se enfrentam, a força superior leva vantagem mantendo-se coesa, dificultando seu engajamento pela força inferior. Ao dispersar-se a força superior permite à inferior engajamentos à suas frações individualmente, porém se manter a coesão permite que a força inferior adquira seus alvos mais facilmente, correndo é lógico um risco maior. Por outro lado, seguindo os princípios da guerra de resistência, a força inferior tenderá a sempre dispersar seus meios para forçar a dispersão da força superior. Ao atacar um elemento da força inferior, a força superior terá de atacar também os outros simultaneamente com todas as dificuldades inerentes a tal empreitada, ou dar chance para que a força inferior manobre os seus para um ataque coordenado à força superior.

O comandante deve estimar de onde podem vir as ameaças à suas forças, e esta estimativa faz sentido para planejar a defesa de uma formação inteira, e não de unidades isoladas. Num primeiro momento faz sentido estimar que a ameaça virá da direção contrária ao deslocamento, porém o mais lógico é fracionar a ameaça em aérea, de superfície e submarina. Por exemplo é possível que as incursões aéreas possam vir somente da direção A, enquanto que as de superfície e submarina possam vir das direções A e B.

Na guerra das Falklands/Malvinas a ameaça aérea à frota britânica só poderia vir do oeste, devido à distância das bases aéreas, porém a ameaça submarina era imprevisível, materializada por um único submersível diesel-elétrico. Considerar que a ameaça pode vir de todas as direções é sempre o mais prudente, porém isto custará a alocação de mais meios defensivos, e se estes forem escassos uma direção terá que ser priorizada.




As naves de guerra modernas possuem capacidade multifuncional, porém isto só funciona em ambientes de baixa intensidade, pois as capacidades da cada elemento em particular sempre priorizam um tipo de ação, sendo as demais limitadas. Ambientes de alta intensidade requerem unidades dedicadas e ao compor uma força-tarefa o comandante deverá construir sua ordem de batalha de acordo com aquilo que espera enfrentar, sem no entanto esquecer que surpresas podem surgir. Manter uma capacidade suficiente de meios ASW e antiaéreos é sempre aconselhável. 

Ao assumir formação de combate, a esquadra ou flotilha assume um dispositivo defensivo em camadas, e este dispositivo depende dos meios disponíveis. A defesa naval geralmente dispõem-se em três camadas. A cobertura externa é composta de navios-piquete, patrulhas de combate aéreo (CAPs) e aeronaves de AEW. A função de piquete é melhor desempenhada pelos submersíveis, que tudo ouvem e são difíceis de serem detectados, que vão à frente, unidades de superfície e as CAPs, que apoiadas pelos AEW, constituem um formidável guarda-chuvas à formação. Marinhas menos abastadas geralmente não dispõem de navios-aeródromo e dependem de cobertura aérea vinda de terra, ficando vulneráveis operando em águas fora do alcance. Esta cobertura estende-se a mais de 300 km do núcleo da flotilha para detecção, e 20 a 40 km para ação. A segunda camada é composta pelas escoltas, geralmente balanceadas em capacidade ASW e mísseis SAM de médio alcance de defesa de área, e tem por missão combater o que os caças-interceptadores e submersíveis deixaram passar, sendo posicionada em contato visual com o núcleo da formação (cerca de 18 km), e por último o núcleo da formação com seus navios-aeródromo, logísticos e anfíbios, além de escoltas próximas, se disponíveis. Estes meios geralmente dispõem de mísseis e canhões de defesa de ponto a alguma capacidade ASW.

Os piquetes de superfície ocupam a posição mais perigosa da formação e devem ser naves de alta capacidade, pois tem que se garantir sozinhos. As coberturas externas devem também ter capacidades completas com ênfase na cobertura ASW, com conjuntos de detecção passiva e helicópteros dedicados. Devem detectar e engajar as ameaças que passaram pelos piquetes de uma forma mais intensa. Meios ASW trabalham melhor nas áreas externas devido à distância do corpo principal gerador de ruído, fator crítico. Os meios aéreos e AAAé da cobertura externa devem dar cobertura aos meios ASW e deter bombardeiros equipados com ASMs antes que atinjam o ponto de lançamento. Os SAMs de cobertura externa tem no alcance seu requisito principal. Aeronaves são mais lentas que os mísseis, e combate-las é mais fácil que a estes, assim deve-se engajar aeronaves hostis antes que liberem seus mísseis, permitindo-se mais engajamentos no mesmo espaço. Quanto mais engajamentos de sucesso, maiores as chances dos atacantes abortarem suas missões. Uma situação hipotética bem provável, ilustrada no filme "A soma de todos os medos", é o ataque a um grupo nucleado por navio-aeródromo com múltiplos bombardeiros disparando múltiplos mísseis de cruzeiro na função antinavio, saturando as defesas, situação muito difícil de contrapor.


Os operadores de ASW que atuam na cobertura interna devem contar com um competente sonar ativo para cobrir adjacências e parte inferior do núcleo da formação, detectando imediatamente qualquer vetor inimigo que tenha penetrado a cobertura externa. Devem levar helicópteros aos pares, pois um deles deverá estar constantemente em voo para ações decisivas e imediatas, não podendo estar ancorado no convês da escolta ou do navio-aeródromo.

Os meios AAé desta camada terão na razão de fogo seu requisito básico, pois tem que atirar muito e rápido a fim de saturar àqueles que penetrarem a cobertura externa em pouco tempo, não sendo tão importante seu alcance. Este intruso provavelmente será um míssil voando muito rápido, e muito provavelmente trará outros com ele. Quanto mais projéteis o inimigo disparar, mais sobrecarregados ficarão os sistemas defensivos, e neste ponto meios AAé de altíssima razão de fogo são importantes.

Operar no mar é um jogo perigoso e além da tecnologia, a competência dos comandantes e o treinamento das tripulações fará a diferença.