FRASE

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Guerra Mecanizada - O Grupo de Combate de Infantaria Blindado *113



DEFESANET

Prof. Eduardo Atem de Carvalho, Ph.D
Universidade Estadual do Norte Fluminense

Prof. Rogério Atem de Carvalho, D.Sc
Instituto Federal Fluminense


Resumo
           
O campo de batalha contemporâneo apresenta características de guerra assimétrica, onde o tempo é o fator crucial. E recai sobre uma das unidade básicas blindadas do Exército a responsabilidade de dominá-lo.

Para tal é condição fundamental o emprego de um Veículo de Combate de Infantaria (IFV) que apresente características de proteção similar a um Carro de Combate (CC) e ainda ofereça apoio de fogo, ressuprimento, informes sobre posicionamento do inimigo e possibilidade de retração sob fogo. Sem esta capacidade um exército perde o controle do tempo e por fim sofre uma derrota no nível estratégico, ainda que tenha sido capaz de vencer em nível tático.

O preço pago pela adoção destes IFVs pode ser a perda da capacidade expedicionária em um primeiro momento, das Brigadas de Infantaria Blindada (Bda de Inf Bld), até que toda a linha de transporte e suprimento possa ser adequada aos novos meios.

Breve Histórico
           
A imagem romântica e obsoleta que se tem da Infantaria Blindada (Inf Bld) vem da Segunda Guerra Mundial: os infantes progredindo ao lado ou em cima dos Carros de Combate (CC) em território inimigo. Romântica porque escondia o perigo imenso de se estar próximo a um objeto que seria alvo prioritário do inimigo e obsoleta porque aferra o infante à percepção do combate exposto, desembarcado, conquistando o terreno e sofrendo pesadas baixas no processo.
           
O surgimento das armas Anti-Carro (AC) e o emprego de minas magnéticas para a destruição dos veículos, ainda naquele conflito, deram origem a todos os dispositivos AC hoje existentes. Tentativas de sobreviver a estes também. Foguetes com ogivas (ou cargas) ocas derivam do Panzerfaust alemão, as blindagens compostas apareceram com o uso de concreto corrugado, usado para impedir que soldados russos fixassem minas AC magnéticas nos CC alemães e por fim as munições de alta velocidade com os canhões AC.
          
Naquele conflito a Infantaria dispunha de pouco mais do que veículos tipo meia-lagarta protegidos por chapas de aço simples nas laterais e abertos em cima. Sua função era meramente transportar os combatentes no mesmo ritmo e pelo mesmo terreno que os CC, protegidos contra estilhaços de obuses e fogo de armas portáteis. Em caso de confronto entre CCs, a Infantaria permanecia na retaguarda.

Em caso de fogo de armas AC - na forma de lança-rojões, ou passagem por regiões habitadas, com ruínas ou concentrações urbanas, não era raro que os combatentes passassem para o topo dos CCs e lá ficassem protegendo a coluna até a mudança de cenário. Nas operações onde a primazia do esforço cabia à Infantaria, a exposição ao armamento inimigo era mais intensa ainda. A proporção típica de uma divisão Panzer alemã era 3:1 entre efetivos equivalentes a Btls de Inf Bld e RCCs (usando a nomenclatura brasileira). Essa proporção se revelaria vitoriosa ao longo do conflito, ao contrário da Britânica, era quase que exclusivamente composta de CCs.

Cenário Contemporâneo
           
No Pós-Guerra, os conflitos no Oriente Médio têm servido de laboratório em larga escala para estudos de emprego de formações blindadas. Outros conflitos, onde o emprego de blindados foi em menor escala, como a Guerra Indo-Paquistanesa e no Vietnam, e mais recentemente a Chechênia, tem referendado os novos conceitos surgidos dos conflitos Árabes-Israelenses.

Evoluiram em paralelo os mísseis e foguetes AC equipados com ogivas ocas. Os projetistas e estrategistas começaram uma corrida CC x Ogiva, com o aumento da espessura e adição de camadas de materiais compósitos às blindagens dos CCs a cada aumento de potência e capacidade de penetração das novas ogivas. Enquanto isto, os veículos destinados à Infantaria continuavam presos aos velhos paradigmas da Segunda Guerra. O exemplo mais comum no ocidente é o M-113, de fabricação americana, leve, barato, fácil de operar, feito de alumínio, expedicionário e pouco útil no campo de batalha contemporâneo e híbrido.
      
Na atualidade, os exércitos são forçados a se preparar para conflitos de natureza convencional que podem criar conflitos assimétricos, ou vice-versa. De novo, o Oriente Médio é o melhor laboratório de estudos e suas conclusões não podem ser ignoradas, sob pena de se conseguir custosas vitórias táticas nos campos de batalha ao mesmo tempo que se sofre fragorosa derrota estratégica.


           
Compreendendo a Distância Crítica
           
Dentro do conceito observado nos conflitos recentes ocorridos no Oriente Médio e Asia, surge a Força Tarefa (FT) Infantaria/Carro de Combate/Engenharia de Combate e nesta, cabe basicamente a Infantaria a destruição das armas AC e de qualquer indivíduo cujas ações possam representar ameaça à integridade da Força Tarefa. À Engenharia cumpre-se remover qualquer obstáculo que atrase ou paralise o movimento da FT. E por fim aos CC, cabe romper a linha adversária, isolando e destruindo qualquer meio móvel ou fixo do adversário, seja na guerra simétrica ou assimétrica.

Nos campos de batalha da Segunda Guerra, o infante combatia a poucos metros do CC, fazendo uso do telefone ou mesmo gritos para informar à guarnição da viatura sobre ameaças e possíveis alvos. Com o passar das décadas, os mísseis foram afastando a Infantaria Blindada cada vez mais dos CC, de centenas de metros para diversos quilômetros. Operados por 2 ou 3 combatentes, uma posição de mísseis pode receber o apoio de arma automática e fazer uso do terreno, em uma combinação onde um número reduzido de homens pode ser capaz de imobilizar uma força tarefa atacante, levando sua progressão a um impasse e causando grande atraso até a destruição da arma AC.

Um conjunto desta posições, infiltradas em uma área densamente urbana, é o pesadelo do comandante de força blindada moderna, com repercussões estratégicas e políticas incontroláveis e em constante aceleração, fora do campo de batalha. O processo de impedir que isto ocorra se apoia em diversos fatores, todos decisivos, no pequeno escalão:
  • características do IFV;
  • efetivo, armamento e comunicações do GC; e,
  • apoio de fogo local.          

No campo de batalha contemporâneo não há mais lugar para uma Infantaria que se retire do mesmo diante da presença de CCs, pontos de resistência considerados “duros”, ou mesmo áreas com presença de armas automáticas, mas para tanto, é preciso empregar os novos IFVs descritos anteriormente.


           
Características das Armas AC
           
Os IFVs sofrem ameaças ao seus deslocamentos e integridade de diversas fontes, e devido à natureza da guerra contemporânea qualquer forma de atraso ao movimento das colunas blindadas implica em tempo maior de duração do conflito, aumento de baixas e crescente oposição interna e externa às forças amigas. Portanto meros fossos AC podem se tornar armas estratégicas em uma luta onde o campo de batalha físico é apenas uma parte dela, na guerra assimétrica ou não convencional. Assim sendo, temos as seguintes categorias de armas AC:
  • Foguetes  - projéteis relativamente simples, providos de ogiva em formato de carga oca revestida por cobre, tem sua capacidade de perfuração associada com o diâmetro da ogiva, principalmente. Tem baixo custo e não são guiados após o disparo. Os mais simples são os antigos RPG-7 russos e os mais modernos os Panzerfaust 3 alemães. Um mero RPG-7, equipado com granada tipo PG-7V pode perfurar 260 mm de aço balístico plano rolado. No outro extremo, o mesmo lançador, usando uma moderna granada em tandem tipo PG-7VR, pode penetrar até 750 mm de aço, segundo seu fabricante. Estes dados parecem ser corroborados por fontes ocidentais. Já os avantajados Panzerfausts 3 podem chegar a penetrar 900 mm de aço, destruir bunkers e devastar regiões próximas ao alvo. O alcance de ambos é de cerca de 200 m, embora as granadas-foguetes atinjam 900 m.
  • Mísseis – nascidos na Segunda Guerra Mundial, com o Ruhrstahl X-7 “Chapeuzinho Vermelho”, os mísseis anti-carro evoluíram continuamente após esta. Neste campo, das armas AC, diversas gerações de mísseis filo-dirigidos (guiados por fios) foram introduzidos. Sendo os mais famosos: SS-10 francês, Malkara britânico-australiano, Milan franco-italiano etc. Em princípio o alcance não ia muito além de cerca de 1000 m e a maior parte dos mísseis atingia o solo ao invés do casco dos CCs. Mas as gerações passaram e hoje os nomes conhecidos são Spyke, Javelin, Kornet E etc. Este último, de fabricação russa, tem posto em cheque a noção de que CCs ocidentais de última geração resistem a impactos de mísseis AC no arco frontal. Seu alcance máximo é de 8 km.
  • Explosivos Improvisados (IED) – Armadilhas nos campos de batalha não representam novidade, mas o acesso à arsenais de governos e o apoio de países simpatizantes faz com que pequenos grupos em luta tenham acesso a explosivos de grande potência e em grande quantidade. Na invasão do Iraque os americanos lidaram com granadas de artilharia e obuses em profusão, obtidos dos paióis dos antigo exército iraquiano, e que eram escondidos nas margens de rodovias e passagens movimentadas do país, causando explosões tão fortes, que eram capazes de despedaçar as viaturas Humvee, caminhões, IFVs Bradley e mesmo imobilizar alguns CC Abrams M1. Toda viatura que se coloque hoje como sendo capaz de operar em cenários de guerra assimétrica ou convencional, terá que ser preparado desde a concepção do projeto para lidar com isto.
  • Obstáculos – Tão antigos quanto as guerras, continuam sendo usados com sucesso. E mais ainda agora, onde cada segundo a mais de duração do conflito conta contra a força regular. Ressalta dramaticamente o fato de que a Engenharia de Combate Blindada, agora parte da FT moderna é absolutamente necessária para que a velocidade da coluna e os tempos de execução não sejam alterados.



Um Cenário Hipotético de Emprego
           
Um cenário simples, hipotético, mas baseado em relatos sobre confrontos recentes, seria como à seguir. Em uma região densamente povoada o inimigo irregular se oculta em casas, hospitais, escolas, igrejas etc. Espalhadas por esta região se encontram um número restrito de combatentes inimigos, porém existe uma arma automática, diversos fuzis AK-47, RPG-7 e uma unidade de mísseis AC, com alcance útil de 3 km. Fosse um conflito tradicional, o poder devastador da Artilharia entraria em ação e a coluna Bld continuaria seu avanço até o rompimento da linha adversária, mas neste caso, o emprego da artilharia é proibido por razões políticas, sendo o apoio de fogo máximo disponível o de morteiros 120 mm embarcados em viaturas tipo M-113. Mas apenas com autorização do escalão superior. A tropa de Inf Bld portanto estaria imobilizada, sujeita a pesadas baixas no nível de fração e subunidade. E o tempo escoando sem uma vitória decisiva, contribuindo para derrota estratégica, mesmo que diante de uma vitória tática posterior.

As soluções que hoje se apresentam vem de Israel e Rússia e convergem para o uso de IFVs com características já descritas. A solução fica da forma: o IFV deve ser capaz de resistir a impactos diretos por mísseis e foguetes AC, permitir o desembarque seguro da tropa, avançar até a distância de emprego de suas próprias armas, que sendo de tiro direto e menor poder de destruição, tendem a ocasionar menos danos colaterais. Então deve engajar o inimigo, fornecendo ao infante agora desmontado apoio de fogo decisivo, além da possibilidade de retração rápida sob fogo, ressuprimento de munição e víveres, rede rádio extendida e inteligência, através do uso de seus sensores montados na torre automatizada.

As torres ELBIT UT-30BR e REMAX são exemplos disponíveis no Brasil destas torres automatizadas. É questão de tempo até que os Exércitos regulares sejam capazes de reproduzir cenários semelhantes em guerras convencionais, onde o emprego tático da Artilharia será bastante limitado, porém de alta precisão.



O GC e os Meios Necessários Para Cumprimento da Missão
           
Desta forma, recai sobre o menor elemento individual da Inf Bld, o Grupo de Combate (GC), a responsabilidade de vencer o conflito, da mesma forma que nas guerras assimétricas “clássicas”, ou de quarta geração.
           
Quais são as missões que podem ser determinadas para um GC de um pelotão de Inf Bld? A partir da missão básica da Infantaria, no contexto de uma Força-Tarefa (FT) blindada, pode-se argumentar que uma das missões básicas será a de proteger os CC dos ataques da Infantaria inimiga. Na Ofensiva, a missão da Infantaria é a de imobilizar/destruir as armas AC do inimigo, sejam elas posições de mísseis, foguetes não guiados e elementos operando/implantando Dispositivos Explosivos Improvisados (IED). Na Defensiva, o oposto ocorre, devendo se evitar o engajamento da força blindada decisivamente e de forma prematura, cabendo a Infantaria garantir a mobilidade da coluna ante armas AC.
           
Na sua fração Grupo de Combate, diversos autores e instituições apresentam suas posições quanto ao tamanho ideal desta fração, obviamente determinado pelo tipo de missão a ser cumprida. A Inf Bld pode usar a mesma formação da Inf Mec. Os IFVs atuais levam um grupo único de 6 a 7 combatentes. Este número foi determinado para o cenário de guerra simétrica. Os israelenses consideram insuficiente para a nova realidade da guerra assimétrica e o Namer transporta 9 combatentes.

O novo gigante russo Armata T-15 IFV (não confundir com o CC da mesma família, T-14) vai pelo mesmo caminho. Partindo do principio básico de que a força blindada será contida por outra força blindada do inimigo, ou será empregada em uma região densamente defendida e armadilhada por um inimigo não-regular, a presença de um GC de 9 homens, divididos em duas esquadras, parece ser mais efetivo do que os GC compostos de uma esquadra só. Uma das esquadras porta a arma automática do GC, sua munição extra e explosivos para “atravessar” paredes; a outra porta uma arma AC de emprego geral tipo AT-4, para remoção de pontos “duros” sem a destruição excessiva causada pelo apoio de fogo de artilharia clássico.

Haverá também um Cb com curso básico de caçador, operando um fuzil (fz) tipo M-24. Essa combinação permite que uma esquadra cubra o avanço da outra nos ambientes de guerra regular ou irregular. Na viatura permanecem, o comandante da viatura, o operador da arma automática pesada remota (metralhadora .50 ou canhão 30 mm) e seus sensores e o motorista, que a mantém em segurança, com as usuais técnicas de posicionamento.
           
A falta de blindagem nas viaturas americanas disponíveis, devido à prematura declaração de vitória e remoção do efetivo blindado da região, na Segunda Guerra do Golfo (ou Invasão do Iraque), levou a um número elevado de baixas, o que só foi contido com a entrada em serviço dos chamados MRAP (Mine-Resistant Ambush Protected) Vehicles, ou seja, em livre tradução: Veículos Protegidos Contra Emboscadas e Resistentes à Minas. E mesmo assim estes tiveram que receber a chamada blindagem “gaiola” para sobreviver aos ataques dos modestos RPG-7.
           
No auge da insurgência no mesmo conflito, o Exército Britânico patrulhava as áreas vermelhas com CC Challenger 2, que sofriam desgaste e não eram adequados à missão, mas sobreviviam aos ataques de todos os tipos.


           
           
Os debates sobre a atuação de Ariel Sharon no contra-ataque sobre Suez ainda geram intensa polêmica em Israel, dada a colossal perda material e humana ocorrida decorrente daquela vitória. Mas o que teria de fato ocorrido se as vtr M-113 da Inf Bld tivessem chegado a tempo naqueles dias? A pista pode ser achada a partir da chamada Guerra do Líbano, onde os israelenses passaram a chamar o M-113 de “Mobile Crematorium”, dado ao fato de que um simples disparo de foguete tipo RPG-7 podia causar a morte de diversos ocupantes do veículos e sua inutilização.

Pode-se imaginar, então, o efeito devastador de um míssil AC. E quão ameaçador é um RPG-7 no cenário sul-americano? Basta lembrar que o tubo lançador custa cerca de US$ 200 e cada granada (no mercado negro do Afeganistão, por exemplo) a modestíssima quantia de US$ 120. O preço oficial fica obviamente bem abaixo. Qualquer governo ou grupo criminoso/revolucionário pode adquirir lotes desta arma, se for ao contato certo.
           
A partir desta amarga realidade e sem verbas para adquirir ou fabricar novos veículos que pudessem sobreviver nos campos de batalha, os israelenses tentaram transformar seus M-113 em viaturas capazes, mas foi em vão. A natureza do M-113, feito de duralumínio, impede que as modificações requerida fossem feitas e estas acabariam por eliminar o próprio M-113 no processo, gerando uma nova viatura, caso todas as necessidade básicas fossem atendidas.

A solução encontrada foi aproveitar os cascos dos CC retirados da linha de frente ou capturados nas diversas guerras e escaramuças anteriores: Centurion britânicos, M-48 americanos e T54/55 russos. Todo o esforço foi feito para se manter a relação peso/potência na faixa dos 22 HP/ton, valor considerado como operacional para os terrenos da região - valores menores se revelaram ineficientes. Para pressão sobre o solo, algumas fontes apresentam este valor como sendo da ordem de 1.0 kgf/cm2.
           
As modificações básicas consistiram em remover a torre e cobrir o orifício deixado, reposicionar o motor e a transmissão de forma que houvesse um espaço para saída pela traseira, reforçar a blindagem no arco dianteiro, substituir o motor por um mais potente. Nascia assim os “Achzarit”. O fabricante alega que no arco frontal a viatura é capaz de resistir a disparos de munição cinética (APDSFS) até no calibre de 125 mm russo. Seu peso oscila em torno de 44 toneladas. As limitações e vantagens deste tipo de solução podem ser encontradas em publicações disponíveis ao público.

O colossal Namer. O IFV israelense pesa 60 ton e usa o casco do Merkava, basicamente à prova de todas as armas AC atualmente existentes, podendo porém ser imobilizado e confrontado pelo Kornet E russo.
  
Os Achzarit estão sendo substituidos nas linhas de frente pelos “Namer”, que são fabricados à partir do casco do CC Merkava, pesam cerca de 60 ton e incorporam todas as modificações e modernizações de seus sucessores, mais um sistema autonômo (ativado por inteligência artificial) de proteção contra misseis e foguetes AC.

Os russos chegaram às mesmas conclusões após a sangrenta batalha por Grosny, em 1995. A partir deste ponto, se iniciou um esforço para introdução de IFVs pesadamente blindados, capazes de suportar os mesmos impactos que os CC, dando origem ao T-15, já mencionado. O mesmo também pode ser dito das forças envolvidas na invasão do Iraque, na posterior “pacificação” daquele país. Com diversos estudos em andamento, porém sem resultados palpáveis.
           
No Brasil, o CC atualmente disponível é o Leopard 1A5, que apresenta relação peso/potência de 19.8 HP/ton e exerce uma pressão sobre o solo de 0.88 kgf/cm2. O CC Leopard 2, por exemplo, bem mais pesado, tem a relação peso/potência de 27 HP/ton e exerce pressão sobre o solo de 0.83 kgf/cm2, menor que a do Leopard 1A5. Estes valores parecem ser adequados aos terrenos encontrados nas Hipóteses de Emprego (HE) existentes. Então podem ser tomados como base para um futuro projeto de IFV brasileiro.



Peso x Expedicionaridade
           
A contrapartida da opção por um IFV que seja capaz de cumprir as missões da Infa Bld no cenário descrito pode ser um comprometimento na capacidade conhecida pelo Exército Brasileiro como “Expedicionaridade”, ou seja, peso compatível com a capacidade dos meios de transporte aeronavais, manutenção modular e simplificada, munição de calibre comum com os aliados etc. Para minimizar este efeito, algumas soluções já despontam no horizonte. A principal parece ser o desenvolvimento de sistemas automáticos de interceptação de projéteis de baixa velocidade, já em operação inicial em Israel ou protótipo na Alemanha (Puma) e Rússia (T-15).

Com isso, a necessidade da blindagem composta, de gaiola ou similar, seriam eliminadas, reduzindo em muito o peso total do IFV.  Outras opções exploradas simplesmente abrem mão da blindagem extra, empregam torres automatizadas, reduziram tamanho ao mínimo e aceitam baixas decorrentes da opção, como Inglaterra (Warrior) e Alemanha (Wiesel). Para o Brasil talvez a opção seja a especialização, reservando a missão descrita neste trabalho para as Bda de Inf Bld, deixando às Bda Inf Mec, o ônus do pronto emprego, até que as Bda Inf Bld possa ser deslocadas para apoiá-las.
           
Conclusões

As conclusões que se pode chegar, do ponto de vista de um observador distante, são as que se seguem:
           
  • Os campos de batalha modernos exigem viaturas de transporte que suportem impactos diretos de CC inimigos, foguetes, mísseis, explosivos improvisados, minas terrestres, armadilhas etc.
  • Para atender atender às exigências do campo de batalha contemporâneo, o IFV deverá compartilhar com o CC o casco e a blindagem do mesmo, com todas vantagens e desvantagens que isto acarreta.
  • A busca de IFV expedicionário, mas sem as características descritas neste trabalho, implicará em uma viatura de emprego limitado, como ressaltado em conflitos recentes.
  • A relação peso potência necessária se encontra na faixa de 20 HP/ton e a pressão sobre o solo não deve exceder 0.8 kgf/cm2.
  • O IFV deve ser visto como um posto de comando e apoio móvel, atuando bem à frente, junto ao GC, oferecendo apoio de fogo, informes de posicionamento do inimigo através de seus sensores, proteção imediata em caso de recuo ou avanço inesperados, ressuprimento e comunicações com escalão superior em caso de perda de comunicação local.


Reflexões Teóricas Sobre Conflitos Assimétricos: *112



Reflexões Teóricas Sobre Conflitos Assimétricos: 
Introdução ao Momento Atual

DEFESANET


Prof. Rogério Atem de Carvalho, D.Sc
Instituto Federal Fluminense

Prof. Eduardo Atem de Carvalho, Ph.D
Universidade Estadual do Norte Fluminense


O campo de batalha contemporâneo apresenta características da dita guerra assimétrica, onde o tempo passou a ser um fator crucial, superando o domínio do terreno em vários casos. Os Exércitos precisam manter o controle sobre o tempo para evitar uma derrota no nível estratégico, ainda que tenha sido capaz de vencer no nível tático. Este artigo busca comentar brevemente os principais pontos da guerra contemporânea e servir de introdução para uma série de outros que tratarão de aspectos basilares desse tipo de conflito.

Escopo

O cenário aqui compreendido é o da chamada guerra híbrida, termo entendido como abrangendo uma combinação de guerra irregular, terrorismo e crime organizado para alcançar objetivos políticos, onde o caso mais recente parece ser a ação russa na tomada da Criméia. Assim, considerar-se-á que a guerra contemporânea é do tipo híbrida.
           
Cenário Contemporâneo

Na atualidade, os exércitos são forçados a se preparar para conflitos de natureza convencional que podem criar conflitos assimétricos, ou vice-versa. O Oriente Médio é o melhor laboratório de estudos para este tipo de conflito e suas experiências não podem ser ignoradas, sob pena de se conseguir custosas vitórias táticas nos campos de batalha ao mesmo tempo que se sofre fragorosa derrota estratégica.

Nos conflitos contemporâneos, como previsto no campo filosófico por Paul Virilio, o tempo passou a ter prevalência sobre o terreno no processo decisório, tornando-se senhor absoluto no nível estratégico, em todos os conflitos.

Na guerra convencional os custos progressivos ao longo do tempo do conflito correm contra os exércitos regulares; na guerra não-convencional o tempo passa a ser regulado não pelo custo financeiro e humano do conflito, mas pelo custo político, cabendo às forças regulares a eliminação do inimigo em um prazo muito mais curto que o desejável, antes que a máquina de propaganda do inimigo comece a desgastar a imagem da força regular, com informação multimídia manipulada e plantada em redes sociais e meios de comunicação.

A Guerra da Chechênia foi o primeiro evento onde uma nova forma de lutar claramente emergiu, baseada em uma combinação de atores não-estatais agindo em pequenos grupos – clássica das guerrilhas – com um poder de fogo ampliado pela ação em rede, fazendo uso de uma pletora de atividades que vão do ativismo ao terrorismo, passando pelo crime organizado em nível estratégico, a dita netwar.



Chechênia: Caso Emblemático

Basicamente todos os problemas encontrados pela OTAN no Iraque e no Afeganistão foram enfrentados, em menor escala e por um período mais curto, anos antes na Chechênia pelos russos. Nesse conflito ficou latente como o modo castrense de pensar das forças regulares se vê desafiado por duas forças:

  1. O aumento expressivo da velocidade das ações força a tomada de decisão pelos escalões inferiores ou, não o fazendo assim, cria uma espécie de apoplexia operacional que leva a uma consequente perda da iniciativa no combate, e,
  2. O uso cada vez maior de forças irregulares, tornado a guerra cada vez mais “civil”, como também já havia previsto Conner.


O primeiro ponto tem como principal problema o fato de os escalões inferiores usualmente não terem maturidade nem visão do todo suficientes para tomar as melhores decisões, ainda mais em cenários de não-guerra, onde o volume de informações a lidar é muito maior.

O segundo ponto tem como fator de pressão o fato de que a melhor maneira de se combater forças irregulares é com forças especiais, mas que país consegue formar FEs na quantidade suficiente para enfrentar populações hostis inteiras? Não dispor de FEs em quantidade significa que forças convencionais farão seu papel, um típico dejavú.

Mas como dar combate a irregulares em ambientes onde usualmente estes se misturam e fazem parte da população civil, impedindo a artilharia de realizar seu devastador apoio de fogo? Assim como o poder decisório, o poder de fogo teve que ser levado aos escalões inferiores, e também num nível de precisão, de detalhamento maior. A resposta estaria na tecnologia.

Entra a Tecnologia 

Para resolver a questão da rápida tomada de decisão, foi adotado o conceito de Network Centric Warfare (NCW, Guerra Centrada em Redes), originalmente surgido no cenário aéreo e posteriormente transposto para o mar e a terra.

O NCW visa prover, simultaneamente, maior consciência situacional ao combatente individual e aos escalões decisórios, através do emprego de comunicações seguras, sensores diversos e de fusão de dados, de maneira a manter o combatente individual conectado na rede de Comando e Controle enquanto que,  através da agregação, tratamento e fusão de dados, cria rápida e dinamicamente, representações sintéticas do campo de batalha para o comando.
           
Para resolver a questão de forças convencionais adquirirem melhor capacidade de combater irregulares, a tecnologia veio na forma de Carros Blindados de Transporte de Pessoal (CBTP) com maiores e melhores blindagens, maior poder de fogo e capacidade de se integrar ao ambiente NCW e fabricados com características semelhantes aos Carros de Combate - inclusive blindagem, torre de tiro automática, comunicações digitais e sensores ópticos e térmicos.

Conclusões
           
As rápidas conclusões que se pode chegar são as que se seguem:
           
- Os tempos nos campos de batalha contemporâneos são bastante curtos. E determinados pela magnitude e sucesso da ofensiva midiática do oponente. Este tem que estar derrotado antes que o alienado médio urbano comece a reagir ao conflito, motivado pelos porta-vozes adversários.
           
- A tecnologia passa a ser cada vez mais fator preponderante para aumentar a coordenação entre os meios e dar poder decisório aos escalões inferiores, enquanto que se mantém as ações no campo alinhadas aos objetivos estratégicos. A tecnologia supre também armamento e munições de menor poder destrutivo mas maior precisão, de maneira a fazer ataques concentrados em alvos dispersos em meio à população e instalações civis.
           
- Cada vez mais as fronteiras entre civil e militar, entre guerra e não-guerra se tornam difusas e dinâmicas: os cenários mudam com a velocidade da Comunicação.
           


domingo, 29 de novembro de 2015

O Fuzil de Assalto #111



O fuzil de assalto surgiu na Segunda Guerra Mundial quando os alemães constataram que a maioria dos embates de infantaria aconteciam a menos de 400 metros, e desenvolveram o Sturmgewehr 44 (StG-44) que combinou o poder de fogo de uma metralhadora com a precisão e o alcance de um fuzil, calçando um novo calibre 7,92 x 33 mm no lugar do 7,92 x 57 mm (8 mm Mauser) usado desde 1905 e com potência muito superior a necessária para este alcance.

A doutrina alemã considerava o fuzil como uma arma secundária, sendo a metralhadora a principal arma da infantaria, carregando os soldados mais munição para esta que para seus próprios fuzis. As inovadoras táticas da blitzkrieg forçaram os soldados a usarem mais seu fuzis individuais que se mostraram inadequados a uma tropa em avanço, que enfrentaram defesas dotadas de metralhadoras fixas e mais eficazes. O StG-44 proporcionou a infantaria alemã um devastador poder de fogo, que depois de vencida a resistência de Hitler à sua fabricação e a troca de calibre dos de pistola inicialmente tentados, muito pouco potentes, fez enorme sucesso nas fases finais do conflito.



O moderno fuzil de assalto é uma arma de fogo seletivo com capacidade para disparos automáticos, e mundialmente usada pela infantaria de nossos dias, operada por recuo indireto dos gases em sua maioria, e permite grande controle de disparos mesmo em modo automático. A munição de tamanho menor permitiu ao soldado carregar mais unidades e depender menos das linhas de suprimento, visto que o volume de fogo alcançado é sensivelmente maior que o praticado pelos fuzis de geração anterior.

O combate moderno pode se dar em qualquer lugar, desde campo aberto, florestas ou áreas urbanas e confinadas, necessitando o soldado disparar sua arma muitas vezes de forma repentina e não contando com o apoio de metralhadoras de emprego coletivo. Para ambientes muito restritos como o interior de edificações a submetralhadora se mostra superior devido a ser curta e ter volume de fogo alto. Sua munição também não tem que atravessar grande distâncias nem o tiro requer pontaria apurada, sendo disparada na maioria das vezes na altura da cintura. O fuzil de assalto é uma arma intermediária entre esta e seu antecessor construído para fogo de longo alcance em campo aberto.



O fuzil de assalto moderno se caracteriza por ser uma arma de uso individual que tem capacidade de fogo seletivo; tiro a tiro ou automático ou ainda em rajadas curtas; calçar um calibre que permita potência de fogo de alcance superior ás pistolas e submetralhadoras, mas mais leves que os antigos calibres dos fuzis de geração anterior, volumosos e pesados e de desempenho desnecessário para o padrão dos combates modernos; possuir alimentação por carregadores de cofre metálico, mais práticos que as fitas das metralhadoras médias que podem prender-se a pequenos obstáculos e poder atirar com eficácia a distâncias médias de 300 metros.

A guerra no front russo foi a grande forja do conceito alemão do fuzil de assalto. Os soviéticos também perceberam a necessidade de uma nova arma e introduziram a PPSh-41, uma submetralhadora mais adequada a este tipo de combate de curta distância. O StG-44 impressionou os russos e depois da guerra desenvolveram o AK-47 baseado no fuzil alemão, calçando o calibre 7,62 x 39 mm e produzido em grande escala. É o fuzil de maior sucesso de todos os tempos e usado desde 1950 pelo exército vermelho até os dias de hoje por muitos no mundo inteiro.



Os norte-americanos, após a guerra realizaram estudos e chegaram às mesmas conclusões de alemães e russos, mas mantiveram uma linha conservadora em relação aos seus calibres .30 que se mostraram de baixa potência durante a guerra. Buscou-se um projétil potente e de alta velocidade baseado neste, que resultou naquele que se tornou padrão da NATO, o 7,62 x 51 mm, adotado nos Rifles M14, metralhadoras M60 e MAG belga, nos HK G3 alemães e FN FAL belga, e ainda a metralhadora Rheinmetall MG3 alemã.

A Guerra do Vietnam assistiu os primeiros embates entre o M14 e o AK-47. Enquanto os AK-47 mostraram-se eficientes e populares entre os seus usuários  o M14 não teve a mesma sorte, apresentando-se incontrolável em fogo contínuo e sua munição não podia ser transportada em número suficiente. Buscou-se então uma nova arma mais adequada as condições daquele cenário. Desenvolveu-se em 1957 uma versão 5,56 x 45 mm (.223) do fuzil Armalite AR-10 de 7,62 mm denominado AR-15 (M16 na designação do US Army), pesando 2,7 kg e com carregador de 20 tiros. Apesar da superioridade do AR-15 o US Army insistiu no M14 até 1963 quando foi adotado por ordem do secretário McNamara, sendo o AR-15 ainda imperfeito e melhorado ao longo dos anos e usado intensivamente no Vietnam. Em 1970 os EUA recomendaram a seus aliados (NATO) a adoção do novo calibre. Em 1980 os países europeus adotaram a versão belga deste cartucho, mais potente e com melhor poder de penetração.



Nos anos 70 os soviéticos desenvolveram uma versão mais leve de seu AK-47 calçando o cartucho 5,45 x 39 mm denominado AK-74 com características semelhantes aos modelos ocidentais, seguido por Israel, Africa do Sul, Finlândia a Suécia com modelos todos baseados no rifle soviético, porém no calibre ocidental. Nos anos 90 os russos lançaram o AK-101, um desenvolvimento do AK-74 com calibre ocidental para exportação. Bulgária, Checoeslováquia, Hungria, Polônia e Iugoslávia produziram seus modelos localmente.



Em 1977 a Aústriaca Steyr produziu seu modelo bullpup com grande sucesso, adotados por mais de 20 países e validando este conceito. Seguiram-se com modelos bullpup  o FAMAS francês, o Tavor judeu, o QBZ-95 chinês,  o L85 britânico e outros

Em 2012 o Exército Brasileiro começou a substituição de seus cansados IMBEL FN FAL de 7,62 mm por modelos de configuração convencional IMBEL IA-2 em duas configurações de calibre: o 5,56 x 45 mm para as tropas convencionais e o 7,62 x 51 mm para as tropas de selva. O fuzil IA-2 é o resultado de anos de desenvolvimento da IMBEL que passou pelo modelo MD-97.



O fuzil de assalto segue como a principal arma dos exércitos modernos, seja nas configurações convencional ou bullpup, proporcionando aos infante alto poder de fogo individual a curtas e médias distâncias, fazendo-se um importante complemento ao fogo das metralhadoras e imprescindível no combate moderno.



Muitos outros modelos de sucesso estão no mercado como o FN SCAR, o HK G36, o Beretta ARX-160 e outros, sendo que quase todos podem incorporar uma série de acessórios modulares como miras óticas e eletrônicas, câmeras de TV, punhos especiais, lançadores de granadas, carregadores especiais e outros.



domingo, 15 de novembro de 2015

Munição HEAT - High Explosive Anti Tank - Ogiva #110



HEAT - High Explosive Anti Tank - Alto Explosivo Anti Tanque é uma ogiva de ação química destinada a perfurar a couraça de carros blindados, não sendo efetiva conta a blindagem dos modernos carros de combate principais (MBTs), que só são perfuradas pelas munições de energia cinética (APFSDS). É muito usada nas armas anticarro de infantaria devido e também por carros de combate para fogo contra blindagens de média resistência, como as do VBTPs.

Sua ação independe da velocidade de tiro e se dá pela ação de uma carga moldada (sharped charge) montada em uma ogiva dotada de um cone oco invertido (efeito Munroe-Newmann). A explosão exerce uma pressão junto ao cone a partir de seu vértice invertendo-o até derrete-lo e direcionando um jato de metal extremamente quente (estado de plasma segundo alguns, não há consenso) sobre uma área muito pequena na couraça derretendo-a. Esta ogiva também é conhecida como ogiva de carga oca (Hollow Charge) devido a este espaço vazio a frente da carga explosiva.




Esta ogiva tem poder efetivo contra armadura de 4 a 10 vezes o seu próprio diâmetro, dependendo das características do alvo, do material componente do cone e da quantidade de explosivo e suas características. Devem ser detonada a uma certa distância do alvo para maior eficiência, razão pela qual suas espoletas são inicializadas por dispositivos montados a frente a ogiva, de sorte que instantes antes da ogiva tocar o alvo o iniciador a o tocou iniciou a ação de deflagração da carga explosiva. O material do cone é muito importante pois é ele que vai formar o jato perfurante, sendo o cobre de uso mais comum, mas o alumínio, o tântalo, o molibdênio, e o urânio exaurido também podem ser usados.

Podem ser usadas, além da ação anticarro contra fortificações, em minas terrestres e torpedos, por exemplo. Como sua ação independe da velocidade podem compor cargas estáticas de demolição, como os alemães fizeram para abrir passagens no assalto a fortaleza de Ebem Emael durante a II Grande Guerra. Seu uso mais comum é na ogiva de lança-rojões como as RPGs russas e em mísseis anticarro. Devido a sua velocidade inferior a probabilidade de acerto a um veículo em movimento decai muito quanto maior for a distância de disparo, quando compondo granadas de tubo, perdendo muito em eficiência para as munições APFSDS que possuem velocidades muito maiores, a medida que a distância do alvo aumenta.

As blindagens do tipo ERA (reativas) tendem a dissipar o jato deste tipo de ogiva, sendo que sua montagem em tandem (duas cargas uma atrás da outra) se mostrou uma medida efetiva para preservar a validades deste tipo de ogiva. Uma primeira carga menor dispara a blindagem ERA e a segunda mais potente produz seus efeitos perfurantes com o caminho desobstruído. Outra medida que tem se mostrado eficaz é monta-la em um vetor que a direcione a parte de cima dos veículos, onde a blindagem é menos resistente, estratégia usada no ATGW TOW2B.



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Operações Ofensivas - Manobra Tática Ofensiva #109



Operações Ofensivas - Formas #


Manobra é a combinação harmônica de fogo e movimento, sincronizados no tempo e no espaço, de forma a posicionar as forças em condição de superioridade tática em relação ao inimigo, a fim de neutralizar seu poder de combate, seja pela sua fuga, destruição ou rendição. É através da manobra tática ofensiva que se trava o contato com as forças oponentes e deve ser executada com surpresa, choque, iniciativa e domínio do campo de batalha.

É através de movimentos bem planejados e executados, que se alcança o posicionamento para alocação de fogo eficazes, criamdo-se um volume de problemas progressivo ao inimigo, fazendo-o reagir a situações inesperadas e frustrando continuamente o seu planejamento. Enquanto o inimigo tiver problemas a resolver, dificilmente terá oportunidade de criar situações em seu favor.

O contato com o inimigo no campo de batalha, quando buscado de forma ofensiva, se dá através do choque frontal (ataque frontal) a suas posições defensivas, quando estas estiverem sabidamente débeis e incapazes de oferecerem resistência considerável. Alternativamente ao ataque frontal, que pode ser extremamente custoso ao atacante se as defesas estiverem fortalecidas, pode-se empreender uma manobra de envolvimento, fazendo-o combater em mais de uma frente através de uma manobra de cerco e assediando seus pontos mais vulneráveis, no flanco e a retaguarda. 

Outra forma de se enfrentar um defesa bem estruturada, geralmente quando os flancos estão inacessíveis, é concentrar um choque muito potente em uma pequena fração da frente inimiga, procurando um ponto menos defendido e provocando sua ruptura (penetração), por onde penetram forças altamente móveis e potentes e provocam seu alargamento de dentro para fora.

A infiltração de forças é um quarta forma de combate ofensivo, que visa pontos específicos e é implementada em campos de batalha com linhas de contato porosas ou mal definidas. Outra alternativa é o de evitar o contato direto com os pontos fortes da defesa inimiga, contornando-os e atacando pontos secundários que venham a enfraquecer os pontos defensivos principais (desbordamento).



  • Ataque Frontal
O ataque frontal é a forma mais óbvia de contato com o inimigo e consiste em cerrar poder de combate diretamente sobre as linhas defensivas. É empregado somente em situações onde o inimigo tem nítida condição de inferioridade, pois suas linhas frontais serão sempre as mais bem defendidas e difíceis de transpor. Emprega-se poder esmagador a fim de neutraliza-lo por destruição ou captura, e deve sempre ser evitado contra dispositivos defensivos bem organizados, pois o atrito subsequente tenderá e impor pesadas perdas aos atacantes. A doutrina ocidental recomenda a superioridade de 3 para 1 em uma manobra ofensiva, porém posições bem preparadas e eficazmente defendidas podem exigir efetivos muito superiores, com baixas previstas equivalentes. Esta situação deve sempre ser evitada.

Um ataque frontal é organizado em grupos de forças ocupando-se de objetivos secundários que contribuam para a conquista do objetivo principal. Estas forças serão dimensionadas de acordo com cada objetivo. O ataque principal será o objetivo mais vantajoso e receberá forças mais potentes, sendo os ataque secundários potencializadores do ataque principal, e contarão com forças necessárias e suficientes.

Parte da força deve ser mantida em reserva para atuação no momento decisivo e aproveitamento do êxito. Esta reserva será constituída de acordo com a situação tática: quando ela for clara e o inimigo tenha possibilidades limitadas pode ser de pequeno valor, enquanto que se a situação for obscura e duvidosa poderá ser constituída até pelo grosso da tropa atacante, pois esta deverá decidir a situação quando empregada. Deve-se tomar cuidado para não se constituir demasiadas reservas que enfraqueçam o ataque principal.

Os multiplicadores do poder de combate como artilharia, aviação de apoio, engenharia de combate e guerra eletrônica devem ser empregados na sua totalidade, não constituindo a reserva, pois seu emprego poupa as armas-base de um atrito mais intenso. A preparação de artilharia deverá levar em conta a perda da surpresa, e deve ser avaliada com cautela. O bombardeio de artilharia e aviação de apoio deverá ser o mais intenso possível, pois poupa as forças atacantes de baixas maiores.

Devem ser designados objetivos principal e secundários, ponto de partida e hora do ataque, eixos e direção de progressão e pontos de controle. Deve ser dada liberdade de ação aos comandantes subalternos sem perder o controle da operação. A sincronização e simultaneidade dos assaltos, fogos de apoio, interferência eletrônica e fogos de contrabateria, assaltos aeromóveis e ações de comandos, entre outras, resultarão em uma maior probabilidade de colapso do dispositivo inimigo em prazo mais curto do que se as ações fossem sucessivas.

Todo ataque deve ser contínuo e obedecer a uma velocidade compatível. Ataques que se mostrarem lentos devem ter sua direção alterada a fim de se buscar maior fluidez no avanço. O alinhamento de forças deve ser preterido a velocidade de avanço, sempre tomando o cuidado para que forças de vanguarda não se distanciem e sejam isoladas. a Impulsão deve ser priorizada com a ultrapassagem de pontos de resistência e alocação de fogos de apoio onde forem necessários, com ação da engenharia de combate para superar obstáculos mais complicados.

O ataque deverá ter cobertura de flanco e retaguarda, porém existem um certo grau de risco e a impulsão não deve ser prejudicada por este. Focos de resistência ultrapassados devem ser fixados e mantidos sob vigilância, para posterior neutralização. O ataque deve ser contínuo, dia e noite, e unidades cansadas devem ser substituídas por outras. A não exploração de vantagens conquistadas podem permitir ao inimigo reorganizar-se com maior presteza. Cada unidade deve ter prevista hora e local de interromper seu avanço quando sera substituída por outra. Os congestionamentos devem ser previstos e evitados, através de planos de deslocamento bem elaborados.




  • Envolvimento
O envolvimento é uma manobra onde se contorna a força defensora por terra ou ar, e a cerca atacando seus dispositivos de retaguarda. Esta tem que abandonar seu dispositivo a combater em local de escolha do atacante. As forças envolventes normalmente se afastam de outras forças de apoio e devem ter capacidade para operarem independentemente, sendo as tropas aeroterrestres e aeromóveis vocacionadas para este tipo de operação. Esta manobra pode deixar os atacantes vulneráveis, e uma ligação com o grosso da tropa em pouco tempo pode ser necessária. Mobilidade superior ao inimigo, sigilo e dissimulação são essenciais neste tipo de manobra.





  • Penetração
A penetração é uma manobra realizada quando os flancos estão inacessíveis e/ou o inimigo tem largas frentes. Necessitam de pesado apoio de fogo e consistem ruptura de uma pequena frente e a abertura de um corredor em um ponto do dispositivo inimigo por onde forças superiores (muito potentes) dividem as forças inimigas em duas ou mais partes desmassificando-as, como no caso de penetrações múltiplas. Após o rompimento as forças procuram alargar a brecha e destruir os focos de resistência, buscando alcançar os pontos capitais previstos e oportunos, desorganizando seu dispositivo e fixando seus pontos fortes para posterior neutralização.




  • Infiltração
A infiltração é uma manobra do campo de batalha não linearizado, onde forças de pequeno efetivo ocupam pontos capitais de forma dissimulada a retaguarda do dispositivo inimigo, utilizando-se tanto de meios aéreos ou terrestres, ou mesmo a pé. Infantaria motorizada ou leve, assim como paraquedistas, são as tropas mais vocacionadas a este tipo de manobra. Esta manobra visa objetivos específicos como pontos de estrangulamento de trânsito, centro de comando e controle e áreas logísticas e deve contribuir para o esforço principal. Áreas com observação e vigilância restritas e de difícil trafegabilidade são as mais adequadas a este tipo de manobra como florestas e pântanos. Medidas de controle especiais devem ser implementadas para a tropas infiltrantes atuarem juntas evitando o fogo amigo, com códigos especiais, pontos de controle e zonas de reunião. Deve-se tomar o maior cuidado para que o inimigo não identifique o objetivo da infiltração. É de difícil execução, exige sincronização apurada e dificilmente pode ser modificada uma vez iniciada.




  • Desbordamento
O desbordamento é uma manobra que visa o contorno de posições principais para ataque a posições secundárias. É executado sobre flancos vulneráveis e depende de surpresa e mobilidade. É adequado as capacidades de forças aeromóveis e visa forçar o inimigo a combater em mais de uma direção. Um duplo desbordamento em ambos os flancos resulta num cerco. É uma manobra de difícil execução e muito boa para fixar dispositivos inimigos restringindo seu espaço para manobrar. Se não for possível ocupar toda a linha de cerco deve-se ocupar as principais rotas de fuga.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Operação Overlord - As Forças Aliadas *108



Juan Carlos Losada

A minuciosidade com que o desembarque foi preparado, assim como os intensos trabalhos prévios de destruição de ferrovias e estradas pode ser explicada pelas dúvidas dos Aliados em relação a conclusão da operação. O sucesso dependia de os Aliados poderem desembarcar um número suficiente de efetivos e garantir as praias antes da chegada dos temíveis reforços alemães (que estavam a postos no interior, preparados para socorrer, principalmente, Calais). O plano aliado dependia em grande parte do desempenho das três divisões de comandos e paraquedistas, duas norte-americanas e uma britânica, que somavam cerca de 27 mil homens, e deveriam cair de surpresa sobre a retaguarda alemã, atrás das praias, para desorganizar as já devastadas linhas inimigas, cortando conexões telefônicas, destruindo ninhos de artilharia e tomando pontes e estradas de acesso para o interior.

Essas divisões deveriam saltar horas antes do início do desembarque, para que houvesse tempo de facilitar a operação principal o máximo possível, por meio de ações de sabotagem. As forças deveriam agir também como uma espécie de almofada amortecedora contra possíveis e inesperados reforços inimigos, de forma que os grupos que chegassem às praias tivessem mais tempo de se organizar e ganhar posições sobre o terreno. Assim que alcançassem este objetivo, os paraquedistas deveriam atacar as linhas alemãs próximas da costa que estivessem impedindo o avanço aliado que progrediria vindo das praias. A ideia era atacar as forças nazistas a partir dos dois lados, para que entrassem em colapso. A importância que o Alto-Comando aliado havia dado a essas unidades era tal que o treinamento delas foi realizado de forma intensiva, nos três meses anteriores à operação, e usou fogo verdadeiro - o que resultou em mortos e feridos, mas também em homens capazes de correr a 10 km/h, levando seu equipamento, com a força e habilidade necessária para passar por obstáculos com arame farpado, surpreender forças fixas e ultrapassar barricadas.



As forças aliadas que deveriam chegar com diferentes ondas de desembarque eram significativas. Dez divisões, das quais duas de reserva, totalizando cerca de 250 mil homens entre britânicos, norte-americanos e canadenses, desembarcariam na primeira onda, a bordo de 7 mil barcos e 2,6 mil planadores e aviões. Seriam seguidos por 30 outras divisões nas horas e dias posteriores, formada, além de norte-americanos e britânicos, por três divisões canadenses, uma polonesa e outra francesa. Todas estariam protegidas por uma formidável força aérea composta por mais de 12 mil aviões entre caças, bombardeiros e aviões de transporte, que seriam imbatíveis contra as escassas 500 aeronaves de que os alemães dispunham para defender a área.

Enquanto isso, outros 3 milhões de homens, principalmente britânicos e norte-americanos, estavam na Inglaterra à espera de suas transferências para a França, depois que o sucesso dos desembarques estivesse garantido e se conquistasse terreno suficiente. Junto a eles, em hangares secretos e perfeitamente camuflados entre florestas e edifícios, esperavam mais de mil locomotivas, pontes pré-fabricadas, milhares de quilômetros de trilhos e 20 mil vagões de trem que substituiriam, nas semanas posteriores, o equipamento ferroviário francês totalmente destruído pelos bombardeios aliados, mas que seria essencial para o movimento posterior das forças. 

Para sustentar esse deslocamento seriam necessárias toneladas de combustível que deveriam ser transportadas rapidamente para o continente. Para viabilizar esse transporte, os engenheiros militares construíram 1,6 mil quilômetros de oleodutos e dezenas de estações de bombeamento na costa inglesa, disfarçadas como fazendas ou garagens. Desta forma, dezenas de oleodutos permitiram o transporte de milhares de toneladas de combustível da costa britânica para a França. Estes engenhos foram batizados de Pluto (da sigla em inglês para Pipe Line Under The Ocean, encanamento sob o oceano).

É importante assinalar que os ingleses, com menor potencial demográfico do que os norte-americanos e defasados pelas enormes perdas sofridas na Primeira Guerra Mundial, especialmente durante o frustrado desembarque em Gallipoli, estavam obcecados em minimizar o máximo possível seu número de efetivos. Sabendo que a abertura de uma frente na França iria enfrentar uma resistência considerável, em maio de 1943, Churchill encarregou o general Percy Hobart, comandante da 79ª Divisão Blindada e um especialista em guerra de blindados, de elaborar um projeto especial de novos carros de combate, com base em modelos já existentes, destinados a abrir uma brecha na Muralha do Atlântico e aplanar o caminho para a infantaria desembarcada. Para os norte-americanos, eles pareciam superficiais e extravagantes, mas, no final, foram úteis e contribuíram para que houvesse menos baixas nas praias onde os britânicos desembarcaram do que onde os norte-americanos o fizeram. 

As inovações variavam: iam de tanques flutuantes - carros de combate Sherman que foram impermeabilizados, a carros de combate dotados de duas hélices, assim como de uma lona inflável, a única inovação que despertou interesse dos norte-americanos. Foi desenvolvido também o tanque Bobbin, que tinha em sua parte dianteira, enrolado, 34 metros de tecido resistente de 3 metros de largura, o que permitia que o carro seguisse em frente e não ficasse preso na areia e lodo; o Crab (caranguejo), um carro equipado com correntes giratórias que se movimentavam à frente do tanque e provocavam a explosão das minas que encontrasse, limpando o caminho para o avanço dos soldados; o Churchill AVRE, que tinha uma ponte acoplada que lhe permitia cobrir fossos de até 9 metros de largura, o Flying Dustbin (lixeira voadora), equipado com um morteiro que lançava projéteis de 18 kg três vezes por minuto, capaz de demolir os bunkers inimigos; e o Crocodile, tanque equipado com um lança-chamas de 110 metros de alcance, com um depósito de mais de mil litros de combustível acoplado.