FRASE

sábado, 18 de agosto de 2018

Controle do fogo de infantaria *152




O Combate de infantaria é um empreitada dinâmica, perigosa e violenta, e o combatente deve reagir a ele de forma a preservar a integridade física sua e de seus companheiros, e ao mesmo tempo saber aplicar sobre o inimigo a fração de poder militar que lhe compete em tempo real. O poder militar é aplicado em combate através do fogo, que deve ser desencadeado pelo indivíduo obedecendo a critérios internalizados na mente do soldado através de seu treinamento, maximizando seus efeitos e evitando colocar-se em situação de vulnerabilidade, através de regras pré-definidas, consagradas pela doutrina, porém sem tolher a iniciativa de cada um que deve ser incentivada. O treinamento constante e adequado elucidará, na mente do combatente, a diferença entre a desejável iniciativa e o excesso dela que pode resultar em imprudência.

Ao empregar seu poder de fogo, o infante deverá procurar fazê-lo seguindo as diretrizes de seu comandante imediato, tendo consciência de onde estão ou estarão seus companheiros e minimizando sua exposição, maximizando a segurança de todos. A prioridade de fogo deverá visar a ameaça mais imediata e perigosa, através do emprego da arma mais adequada à situação e sem dispensar excesso de munição sobre um alvo inutilmente. O emprego combinado de 2 ou mais armas sobre um mesmo alvo poderá ser o mais adequado em determinadas situações, onde a massificação dos disparos trará efeitos superiores e resultados mais satisfatórios. Deve-se ter ainda em mente a disponibilidade de munição e um plano de contingência para o caso desta escassear. Cabe a todos e especialmente ao líder zelar por estas práticas em observação aos princípios da massa, proteção e economia de meios. 

O líder controlará os fogos de seus subordinados, seja através de diretrizes temporárias, que podem ser de ordem tática, técnica ou legal, sempre dentro das Regras de Engajamento da situação. Algumas razões para este controle são a quantidade limitada de munição, a disciplina de segurança do local em questão e a disciplina de sigilo da operação, entre outros.

Os fogos podem ser de efeito massificado ou de precisão, e a situação tática ditará qual deles usar. A metralhadora e as granadas são os responsáveis pelo maior volume dos fogos, a aos fuzis caberá a função de cobertura. Aos alvos mais “difíceis” reserva-se o fogo dos lança-rojões, e quando assim o exigir a complexidade da situação ou pela insuficiência das armas orgânicas, solicita-se o apoio dos morteiros, artilharia de campanha e naval, carros de combate e aviação de apoio. Os fogos de precisão são geralmente reservados aos atiradores com fuzis especiais e seus aparelhos de pontaria mais apurados, e na ausência destes aos fuzileiros com fuzis padrão. Um grupamento qualquer, operando no terreno, tem um ganho significativo em sua segurança se cobertos pelo fogo de 1 ou 2 atiradores de precisão posicionados em um lugar elevado a retaguarda deles.

O combate requer superioridade de fogos, que é obtida através da massificação deles em pontos críticos, através do emprego combinado dos meios disponíveis, na busca de resultados decisivos. Ao entrar em combate, deve-se fazê-lo com violência e objetivo, a fim de se alcançar resultados decisivos em tempo mínimo, poupando meios e reduzindo os riscos. Os fogos devem ser aplicados sempre em parceria com a manobra, atirando para poder manobrar e manobrando para posicionar-se nos melhores locais para fazer fogo. Na busca da superioridade de fogos os fuzileiros atiram em setores predefinidos para cada um, com campos de tiro sobrepostos, apoiando-se mutuamente, combinando armas de tiro tenso e curvo, sempre focando em pontos mais vulneráveis, com munição de natureza variada de acordo com a situação tática. Alvos podem ser pontuais ou de área, com cada um demandando a arma e munição mais adequadas.


Ao líder de infantaria caberá a avaliação dos fogos de preparação, que devem ser requisitados sempre que disponíveis e adequados, de forma a oferecer ao infante um alvo já debilitado. A artilharia de campanha, os morteiros orgânicos, os carros de combate e a aviação tática estão ali para isso, e devem ser usados. Seja no ataque ou na defesa, estes fogos de apoio contribuem significativamente par reduzir os riscos e facilitar a sua manobra e eficácia.

Os fogos de apoio devem ser inicialmente intensos, prontamente ajustados e cronometrados para que cessem no tempo previsto. Seus efeitos tendem a diminuir com o tempo pois o inimigo adapta-se a eles. Grandes volumes entregues em tempo curto causam danos e choque máximos. Fogos longos retardam o avanço e podem permitir ao inimigo reposicionar-se, recuperar-se e reagir.

Os primeiros fogos devem ser concentrados de forma a permitir o movimento, e para tal são definidos setores de fogo e corredores de manobra, sempre procurando o centro de gravidade tático do momento. Neste momento procura-se alcançar posições ocultas e cobertas, maximizando a proteção da tropa, e ao mesmo tempo permitindo a instalação de boas bases de fogo. A avaliação feita a partir daí definem as capacidades e intenções inimigas, a partir da observação própria e de elementos de vigilância e reconhecimento. Por fim, empenha-se junto ao inimigo o esforço decisivo com ações sincronizadas entre os meios orgânicos e de apoio para aplicar o poder de combate necessário a um desfecho favorável, rápido e procurando manter a integridade da tropa. Uma unidade que sofreu pouco atrito estará pronta para o próximo embate antes de outra mais "cansada".

Toda manobra, seja qual for seu porte contará com um plano de fogo que levará em conta a situação tática e a natureza dos alvos, a munição e os meios disponíveis, a necessidade de fogos não orgânicos e sua duração, o uso de fumígenos e munição especial e os meios de comunicação. Prioriza-se os alvos que representem maior ameaça e os mais próximos, levando em conta o alcance útil de cada uma das armas disponíveis. Fogos excessivos desperdiçam munição que pode fazer falta mais tarde. O uso de marcadores de alvo (eletrônicos, IR, traçantes) é útil em situações de visibilidade limitada.

Os líderes e os operadores devem conhecer as possibilidades e efeitos de cada tipo de arma e munição, de forma a melhor avaliar seus efeitos sobre o alvo. Por exemplo: um ATGW com ogiva HEAT não pode perfurar a blindagem frontal de um MBT moderno, mas pode sim danificar seu trem de rolamento e imobilizar o veículo; metralhadoras médias são efetivas contras veículos não blindados até 1000 m e lança-rojões até 450 m. O fogo deve ser desencadeado o mais cedo possível, com as armas de maior alcance disparando primeiro e forçando o inimigo a reagir o quanto antes, desembarcando e impedindo que sigam seus planos. Deve-se usar cada sistema de armas dentro de seu alcance efetivo, escalonando a profundidade do fogo, debilitando o inimigo a medida que se aproxima, evitando que o combate aproximado seja contra um oponente organizado.



Ao fazer fogo os combatentes devem procurar manter o mínimo de exposição, e quando o fizerem procurar os momentos em que o fogo de cobertura estiver ativo, sempre fazendo com fogo efetivo, sem hesitações. Dobras do terreno, sejam naturais ou preparadas, oferecem abrigo natural; e engajamento pelos flancos e retaguarda, disparo de múltiplas posições e disparos curtos e inesperados reduzem a exposição.

Saber onde está seu companheiro, sua tropa amiga, evita o fogo amigo, bem como conhecer os planos de ataque e manter comunicações constantes. Aos líderes cabe esta tarefa de coordenar seus comandados a fim de evitar acidentes, orientando-os e sabendo onde estão cada uma de suas subunidades. O campo de batalha moderno é multidimensional e muitas vezes não existe “front” definido, exigindo uma coordenação espacial mais apurada de cada elemento. 

Durante progressões sob condições de visibilidade limitada pode-se usar marcações térmicas ou por IR para sinalizar o progresso de cada fração, evitando que frações adjacentes disparem umas contra as outras. Luzes químicas podem ser ligadas em seqüência para marcar um corredor já percorrido, porém deve-se assegurar que estas marcações não possam ser vistas pelo inimigo, por exemplo, se ele dispuser de capacidade de visão noturna infravermelha.

Nevoeiro denso, chuva, tempestades de areia e o uso de fumígenos pelo inimigo podem reduzir significativamente a capacidade do líder de controlar os fogos diretos dos seus. Nesta condições deve-se fazer o uso máximo do equipamento disponível como miras térmicas e sistemas de visão noturna que permitem aos esquadrões manterem o contato com o inimigo como se o engajamento fosse em dia claro.

Nada se faz sem um plano, e nele se considera todos os ativos disponíveis, sempre com medidas alternativas para o caso de equipamento ou pessoal ter sido colocado fora de combate. Capacidades redundantes e ocorrências mais prováveis devem ser a diretriz principal, como por exemplo, setores de fogo alternativos para o caso de elementos ficarem incapacitados.

O combate se vence pelo fogo bem administrado e efetivo, quebrando o poder de combate do inimigo e preservando a integridade dos meios a disposição e do pessoal que integra a tropa própria e aliada.



domingo, 12 de agosto de 2018

O Míssil Antirradiação (ARM) #151




O Míssil antirradiação (ARM) é um projétil destinado a neutralizar sistemas emissores de radiação como radares de vigilância e diretores de tiro a fim de inviabilizar a operacionalidade de baterias antiaéreas, através da busca da radiação emitida pelo alvo, operando desta forma sensores passivos de busca. É um equipamento complexo e difícil de desenvolver, porém de altíssimo valor militar e tecnicamente destina-se a realizar as missões de supressão de defesas (SEAD).

Contrapor a ameaça aérea é uma das grandes prioridades de qualquer força armada, pois ela representa a ponta de lança de qualquer ação militar e seu poder de destruição é verdadeiramente devastador. Na guerra moderna as forças em combate tem como missão inicial a conquista da supremacia aérea, que nada mais é que o domínio do espaço aéreo para que os meios aéreos próprios ou aliados possam voar suas missões de combate em relativa segurança (superioridade aérea) ou mesmo em segurança absoluta (supremacia aérea).

A campanha inicia-se com ações aéreas suportadas por intenso apoio de EW a fim de neutralizar a aviação de defesa aérea inimiga, seja em combates ar-ar abatendo os caças no ar, ou bombardeando bases aéreas com sua infraestrutura de alerta e detecção, bem como a aviação que se encontra em terra. Esta ação inicial pode se dar de duas formas: a primeira em condição de surpresa total com a maioria das aeronaves em terra e cujo protagonista será o bombardeio das bases e suas defesas de ponto, ou uma condição em que o inimigo esteja esperando o ataque, e neste caso, com uma parcela significativa de seu elemento de alerta voando em patrulhas de combate aéreo (CAP). Um exemplo clássico da primeira condição foi materializado na Guerra dos Seis Dias em 1967, onde a aviação de Israel destruiu em terra a quase totalidade da aviação egípcia.

Uma vez alcançada esta condição de liberdade operacional, onde a aviação de defesa aérea do inimigo não representa mais uma ameaça significativa, ou mesmo quando o alerta aéreo inimigo está relaxado e a defesa baseada em terra é o meio de reação mais imediato, os atacantes aéreos tem que se preocupar com os sistemas de defesa aérea localizados em torno das bases aéreas em momentos iniciais, e posteriormente numa segunda fase da campanha em pontos sensíveis como parques industriais, bases militares, usinas de energia e outros alvos ganham importância, e estão cobertos por redes antiaéreas baseada em terra.

Estes sistemas de defesa antiaérea, geralmente baseados em SAMs de médio e longo alcance e canhões de tiro rápido, tem seus disparos endereçados por sistema de radar. Sejam radares de vigilância e alerta antecipado ou diretores de tiro, neutralizar a capacidade destes sistemas significa colocar as armas propriamente ditas (SAMs) em condição de “cegueira” operacional, impedindo que sejam disparadas com efetividade.



O míssil antirradiação (ARM) visa alcançar estas antenas de sistemas RADAR e colocá-los foram de combate antes que qualquer ação de defesa aérea possa ser implementada, uma vez que é guiado através da radiação emitida por estas antenas, não alertando o inimigo sobre sua aproximação, salvo de for captado pelo próprio RADAR. São utilizados por aeronaves que voam a frente dos escalões de bombardeio propriamente ditos, e disparados a fim de criar um corredor livre de alerta aéreo para que o “grosso” destes possam alcançar em relativa segurança seus alvos no solo, que poderão inclusive ser as próprias baterias antiaéreas.

Estes mísseis são construídos para seguir a radiação inimiga, e portanto não são eficazes contra qualquer outro tipo de alvo. As antenas deste sistemas-ameaça são alvos pouco resistentes, de forma que os mísseis não precisam carregar uma carga explosiva muito potente, sendo que até um impacto sem explosão pode ser suficiente para colocar o sistema inoperante. Aeronaves que portam ARMs geralmente levam também outros petardos para destruir fisicamente o restante do sistema, depois da antena do alerta estar neutralizada.

Muitas vezes os operadores dos sistemas de alerta ao simplesmente "desconfiarem" da aproximação destes mísseis, os desligam para evitar “impacto”, cegando seus “seekers”, fazendo com que o sistema de defesa fique inoperante e míssil mesmo assim cumpra sua missão, pois neutralizou o sistema. Outra forma de contramedida é a instalação de chamarizes (mais de uma) nas imediações do radar atacado que transmitam na mesma RF do RADAR-alvo. Os chamarizes emitem pulsos em intermitência com o radar verdadeiro, fazendo com que o foco do míssil comece a vagar não selecionando qualquer um deles. Modelos mais sofisticados tem a capacidade de “memorizar” a posição do alvo captada antes de seu desligamento, fazendo que voo se dê a um ponto provável.

Os primeiros ARMs como o AGM-45 Shrike usado na Guerra das Falklands/Malvinas não possuíam a capacidade de acertar seu alvos se o RADAR desligasse suas antenas. Modelos posteriores com o AGM-78 Standard e AGM-88 Harm passaram a contar com sistemas INS que permitem a memorização da posição do alvo e seu curso até lá. O modelo europeu ALARM possui um paraquedas que permite que desça lentamente até que o RADAR volte a ser ligado, quando volta a acender seu motor.

Possuem modos diversos de operação, podendo ter seu alvo designado por “travamento” através do RWR da aeronave, por inserção de coordenadas em sua memória de forma manual valendo-se de seu GPS e INS. Podem ainda ser lançados sem alvo definido esperando-se que o adquiria durante o voo num engajamento de oportunidade (Stand-Alone).

Na década de 2010 A FAB solicitou aos EUA a compra de um lote de mísseis AGM-88 Harm, o qual foi negado sob a alegação de que não era interessante (para eles) a introdução deste tipo de arma no cenário latino-americano. Em resposta o DCTA partiu para o desenvolvimento de um modelo nacional, hoje denominado MAR-1 e já operacional. É um projeto ainda envolto em mistério mas sabe-se que é capaz de detectar radares de baixa potência como o Skyguard a 500 km de distância, possui um ogiva de 90 Kg e alcance desconhecido, especulado em torno de 60 km. Sua velocidade é próxima a do som e dimensões similares ao ALARM, porém menor que este, pesando 266 kg.



domingo, 5 de agosto de 2018

Os Soldados de "Omaha Beach" *150




No dia 06 de junho de 1944, 34 mil soldados norte-americanos embarcaram em uma missão decisiva. Em média eles tinham 22 anos e muitos acreditavam que não conseguiriam voltar. A Europa estava ocupada pelos nazistas, e os Exércitos Aliados lançaram a maior operação anfíbia da história, visando a reconquista deste território, contra um litoral fortemente defendido pelas forças alemãs. A "Operação Overlord" iniciou-se com um lançamento em massa de cerca de 3 divisões aeroterrestres e o assalto anfíbio à 5 praias denominadas "Utah", "Omaha", "Sword", "Gold" e "Juno", nome este código para efeito militar. Aos paraquedistas cabia proteger os anfíbios quanto a chegada de reforços, e aos anfíbios a consolidação de uma cabeça de praia para possibilitar que o "grosso" das tropas aliadas pudessem desembarcar em segurança. Era uma chance única e não podia dar errado.

Mas para cada um dos soldados americanos que desembarcou em "Omaha Beach", só o fato de chegar em terra já era uma conquista, pois foi uma corrida pela sobrevivência. Esta batalha épica de 12 horas pelas conquista de uma cabeça de praia na mais "difícil" das 5 escolhidas, marcou esta grande operação de retomada da Europa Ocidental, que mesmo minuciosamente planejada apresentou muitas falhas, tal sua magnitude e a dificuldade de se implementar um assalto sem precedentes.

Fatores surpreendentes e artimanhas extraordinárias marcaram esta operação que tantas vidas custaram aos exércitos envolvidos. Não foram apenas homens e armas, mas truques de ilusionismo e invenções bizarras como carros de combate adaptados como viaturas anfíbias de forma improvisada, paraquedistas falsos que explodiam e mensagens passadas através de pombos-correio. Fatores como a previsão do tempo ou a fivela do arnês dos paraquedas influenciaram significativamente o que estava por vir. Mesmo em um episódio onde defesas engenhosas a estratégias clássicas de defesa espalhadas ao largo de 300 metros de areia exposta, o desfecho dependeu de liderança e bravura, onde a determinação de homens, que vendo seus colegas tombarem sob o incessante fogos de morteiros e automáticas alemães, lograram por conquistar seu objetivo a duras penas.

Após 5 anos do início da 2ª Guerra Mundial o futuro da Europa estava ameaçado. O Nazistas de Hitler ocuparam todo o continente e os Estados Unidos e a Inglaterra encabeçavam uma luta de oposição aos invasores, juntamente com seus aliados. Eram 06:00 AM ao largo do litoral norte francês, e uma primeira onda de 8 companhias do US Army posicionava-se para desembarcar em “Omaha Beach” e iniciar uma das mais memoráveis batalhas de todos os tempos. Centenas de homens apreensivos aguardavam, cientes de enfrentariam uma empreitada difícil e que muitos não voltariam. Era o batismo de fogo da maioria e o silêncio imperava dentro dos lanchões de desembarque, pois todos sabiam o que iriam enfrentar.



Um contingente de 1.200 militares alemães defendiam esta praia, equipados com a mais rápida metralhadora do mundo, a excepcional MG 42, que possuía uma cadência 2x maior que a Browning dos assaltantes.  Seus tiros não podem ser ouvidos individualmente e seu som assemelha-se a um tecido sendo rasgado. Seu ferrolho dotado de cilindros deslizantes lhe proporcionava uma cadência de 1.500 tpm a 880 m/s, disparando 50 tiros em 2,5 s e requerendo troca de cano a cada 400 disparos para evitar superaquecimento. 5 destas armas começaram a atingir incessantemente os lanchões, antes que qualquer soldado saísse deles, com 125 projéteis chegando a cada segundo. O sucesso do desembarque dependia do silenciamento delas, o mais rápido possível. Este foi um grave erro de planejamento: um veículo blindado e especialmente adaptado para o desembarque, para neutralizar as MG 42 deveria fazer a ponta de lança do assalto, e ainda deveria ter acontecido intensa preparação por parte da artilharia naval, o que não aconteceu, pois confiou-se nos bombardeios aéreos. Esqueceram que nuvens não estão nem aí para planos militares. Mergulhadores de combate poderiam ter minado os obstáculos anti-desembarque, para que os carros de combate pudessem fazer a vanguarda.

O mar estava desfavorável, com forte balanço e água entrado no interior dos lanchões. A US Navy, no intuito de aumentar o moral dos soldados, lhes serviu uma refeição pesada algumas horas antes. Esta refeição aliada ao balanço constante da embarcação, dentro da qual os soldados tiveram que esperar alguma horas, acabou por enausear boa parte da tropa, debilitando sua capacidade de combate. Às 06:40 AM os soldados já desembarcavam. Com frio, molhados, enuseados, carregando cerca de 50 kg de equipamento e sob o assédio da MG 42. Assim que a rampa abaixava o fogo alemão era para ali dirigido, abatendo os assaltantes como que num matadouro. Para fugirem do fogo mortal que ali se abatera muitos soldados começaram a pular pela lateral, caindo dentro da água com cerca de 3 m de profundidade, prática esta que foi advertida para que não fosse implementada. Sua carga de equipamentos e a profundidade fez com que muitos se afogassem. Muito entraram na guerra para não disparar um único tiro, morrendo ali mesmo. Muitos se livraram do equipamento, da jaqueta molhada e da munição e conseguiram voltar a superfície. Aqueles que voltavam a superfície reencontravam a saraivada de projéteis de 7,92 mm, que eram mortais até 30 cm sob a água. A resistência da água é tão grande que um projétil destes para totalmente em menos de um metros de trajetória subaquática. Manter esta distância vital pode ter, involuntariamente, salvado a vida de muitos. Dos cerca de 1.450 homens da primeira leva, estima-se que cerca de 450 morreram nos primeiros momentos. Toda esta carnificina ocorreu ainda dentro da água, sem que os homens sequer chegassem a praia, a parte mais difícil. Atravessar os 300 metros de praia repleta de obstáculos e sob o fogo incessante era o desafio que estava por vir. Cavalos de frisa e estacas, arame farpado e campos minados eram os principais meios de retardamento, expondo as vítimas para as MG 42 e os obuses. Após estes obstáculos vinham as dunas e seria a partir daí que a luta ficaria mais equilibrada.



Colocar carros de combate na praia antes da infantaria teria evitado o desastre inicial, porém os estrategistas consideraram que as embarcações que os transportariam eram muito vulneráveis. Blindados Sherman denominados “tanques DD” foram construídos especialmente, e nada mais eram que este carro de combate montado dentro de uma saia de lona que o fazia flutuar e com propulsores, e seria abaixada assim que chegasse a praia. Era uma adaptação de tempos de guerra e não um veículo dedicado, porém apresentou-se promissora nos testes realizados. O plano era colocar um “tanque DD” a cada 45 metros, apoiando a infantaria, totalizando 32 veículos. O problema é que eles foram testados em lagos e não em um mar revolto e agitado. As ondas no Canal da Mancha tinham quase 2 m de altura, e o tempo mostrava-se adverso já há dias. Porém a concentração no sul da Grã-Bretanha para o desembarque era difícil de ser ocultada, e os aliados não podiam esperar mais, sob o risco de serem descobertos. A 3.200 km dalí, dias antes, navios meteorológicos indicaram o dia 06 como climaticamente mais favorável, e este dia seria único e não poderia ser adiado. A decisão foi tomada, o tempo melhorou, mas o mar continuou agitado. A 5 km da praia a embarcação dedicada lançou seus “tanques DD” e as ondas altas e a pressão da água cobraram seu preço. Os blindados começaram a afundar e dos 29 lançados, 27 não chegaram a praia, deixando a infantaria por conta própria. Alguns soldados, principalmente motoristas afundaram com seus veículos.

No topo das dunas 14 “bankers” de concreto infernizavam a vida dos norte-americanos que chegavam a praia, com suas automáticas. As guarnições de defesa estavam ali há meses e tanto soldados quanto oficiais não acreditavam que o assalto ocorresse na Normandia, tal qual o alto comando. Eram instalações confortáveis e com boa comida. Esta sensação de que o ataque não seria ali deveu-se a um bem orquestrado plano de engodo e dissimulação. Foi criado uma força de invasão falsa próximo à Pas de Calais, no ponto onde o Canal da Mancha é mais estreito, fazendo com que os alemães concentrassem suas forças neste ponto, a cerca de 300 km do intencionado. Depois de 2 semanas do desembarque os nazistas ainda acreditavam em um desembarque em Calais. Infláveis simulando veículos e aeronaves, instalações falsas, pesado tráfego de comunicações e a participação do Gen George Patton deram credibilidade ao embuste, arquitetado por um ilusionista profissional. O Marechal de Campo Erwin Rommel, no entanto, não negligenciou as defesas deste setor e reforçou as defesas. Na manhã do dia D os defensores alemães, habituados a uma rotina de um dia depois do outro, depararam-se com uma frota monumental na linha do horizonte.



Para os soldados assaltantes não havia outra alternativa senão enfrentar o fogo das metralhadoras, morteiros e artilharia. Mas os comandantes aliados sabiam o tipo de apoio de fogo de que os alemães dispunham, e foi planejado neutralizar estas armas antes do assalto. Haviam cerca de 30 armas anticarro, 17 morteiros e mais de 20 obuseiros, dispostos dentro de abrigos (“bunkers”) de concreto em “Omaha”. Cerca de 4 horas antes do assalto, bombardeiros aliados decolaram para neutralizar estas ameaças, com mais de 400 aeronaves carregando seus mais de 13.000 petardos, que seriam lançados sobre as defesas na maior missão de preparação de campo de batalha da guerra com bombardeio de precisão, dentro do possível com a tecnológica da época. A USAAF acreditava na capacidade e precisão apurada de seus meios. Porém as nuvens estavam densas e os bombardeiros dependiam do radar, uma novidade na época com sua confiabilidade pouco testada. A Marinha não confiava no radar e temia que as bombas atingissem seus próprios navios. Por conseqüência os bombardeiros receberam ordens para atrasar em até 30 segundos a liberação de suas cargas. Voando a 3.000 m de altura e 240 km/h um atraso de alguns segundos pode mudar tudo. Apenas 5 s significa que a bomba em queda livre cairá 400 m depois do programado, e 30 s o impacto se dará 2,5 km depois. De forma inacreditável a totalidade do bombardeio atingiu o “nada”, deixando as posições alemãs intactas, constituindo uma das maiores falhas de C2 nos plano aliados.

Os soldados perceberam que a paralisia onde estavam, a despeito do fogo inclemente, era uma sentença de morte e começaram a progredir em direção às dunas. Depois de uma hora de desembarque a operação parecia um desastre. A 6 km dali Rangers implementavam a missão mais perigosa do dia. Neutralizar algumas bocas de fogo posicionadas no alto de rochedos, que ameaçavam diretamente os navios ao largo, repletos de soldados. Por todo o litoral haviam armas de grosso calibre posicionadas, constituindo ameaça direta tanto a praia como à frota. Neste rochedo denominado Poinet Du Hoc de 45 m, onde 5 grandes bocas de fogo de 155 mm Skoda, capturadas aos tchecos, ameaçavam tudo num raio de 24 km, incluindo “Omaha”, “Utah” e os meios de desembarque. O ataque a uma colina íngreme, fazendo uso da escalada por cordas, é uma das mais difíceis empreitadas que um infante pode enfrentar. Durante meses este assalto foi praticado, com ganchos lançados por morteiros, porém nos exercícios não havia o fogo das metralhadoras e as cordas estavam secas. Ao desembarcarem, os Rangers tinham que atravessar a praia e chegar ao pé do rochedo sob fogo intenso. Ao alcançarem o rochedo, devolveram o fogo e prepararam seus ganchos-morteiros, cujo lançamento da maioria não atingiu o topo devido ao peso extra das cordas molhadas. Alguns ganchos foram lançados com sucesso, devido a suas cordas secas, permitiram que a escalada fosse realizada. Os soldados que conseguiram subir deram continuidade a batalha, com alguns perecendo e outros logrando avanços. Ao chegar no objetivo, os soldados descobriram que ao canhões não estavam lá, e eram apenas postes telegráficos adequadamente dispostos, simulando uma posição de armas. Frustrados descobriram que se prepararam por meses para nada. Na verdade os canhões foram removidos para posições mais a retaguarda 2 dias antes, por ordem de Rommel, e destruídos na sequência dos acontecimentos, de forma que mesmo assim eles estavam lá.

As 08:30 AM a situação projetava um desastre total nesta praia. Na retaguarda alemã, no entanto, a resistência francesa dava sua cota de apoio ao desembarque. Nos meses que antecederam o desembarque os franceses envidaram um serviço de espionagem, enviado a Londres por vários meios suas observações sobre o dispositivo defensivo alemão. Era um trabalho arriscado e perigoso. Foram usados inclusive os serviços de pombos-correio. Próximos ao dia D os franceses intensificaram ações de sabotagem como a interrupção de linhas de comunicações por fio alemãs e a explosão de composições ferroviárias. Os alemães passaram a atiram em pombos, e membros da resistência foram capturados e executados. Porém os estragos foram feitos e as tropas alemãs na praia encontraram dificuldades em pedir reforços. Já faziam 3 horas que o desembarque havia começado e os sobreviventes estavam presos a um quebra-mar 240 m praia adentro, não haviam mais oficiais e sargentos suficientes e a liderança estava prejudicada, com cada indivíduo cuidando de sobreviver. A sua retaguarda a maré começa a subir.

Na madrugada do desembarque, 8 horas antes do início, um grande número de paraquedistas foi lançado à retaguarda das áreas de desembarque a fim de protegê-los contra a chegada de reforços. Paraquedistas falsos foram lançados em locais afastados para atrair tropas alemãs. O Marechal de Campo Erwin Rommel ordenou a inundação de uma grande área a retaguarda das praias, onde muitos paraquedistas saltaram. Muitos caíram na água e o drama dos anfíbios aconteceu ali também. A dificuldade de soltar o arnês rapidamente fez com que muitos se afogassem. Os arnês britânicos eram de fácil operação, mas os americanos requeriam um trabalho maior. Livrar-se rapidamente do paraquedas para alguém que está dentro da água, com 50 kg de equipamento e cujo velame podia cair por cima era vital. Dos 13.000 paraquedistas, centenas se afogaram.

Para retomar a liderança alguns oficiais ainda embarcados, dentre ele um general, assumiram o papel de capitães e tenentes postos fora de combate e passaram a liderar os soldados retidos no quebra-mar. O general de brigada Normam Cota estava embarcado observando o desastroso avanço da primeira “onda” de soldados na praia e decidiu acompanhar a segunda “onda” de soldados, e ao chegar na praia liderou pelo exemplo, abrindo caminho a frente e ditando palavras de motivação e de comando às tropas que lá estavam. Era o oficial mais velho em terra. Sua liderança surpreendeu aqueles que já estavam na praia, inclusive outros oficiais, e deu ímpeto ao ataque neste local.

A partir do quebra-mar e das dunas começaram a ser transpostos o arame farpado e os campos minados, obstáculos este vencidos com o auxílio dos “Torpedos Bangalore”, tubos de metal contendo explosivos que eram introduzidos na área e abriam brechas por onde os homens passavam. Os soldados estavam exaustos e feridos, porém seus líderes os levaram adiante mostrando a importância do comando competente e motivador. Ao largo, os comandantes navais não tinham autorização para apoiar com fogo o desembarque, pois tinham que proteger os navios, ainda repleto de soldados. Considerou-se desviar estes soldados para desembarcar em outra praia, mas notícias de que as primeiras brechas haviam sido abertas os fez repensar. Após algumas horas de suplício veio o alívio para a infantaria, quando a Marinha autorizou que alguns contratorpedeiros posicionassem-se mais próximos à praia e apoiassem o desembarque com artilharia naval. As situação começou a pender para o lado dos assaltantes.

Este relato mostra um pouco da realidade que os soldados assaltantes enfrentaram no Dia D na praia de “Omaha”, e de como pequenos detalhes podem ter grande influência em uma operação militar. Mostra como um plano deve descer a detalhes aparentemente irrelevantes e que na hora da ação podem fazer toda a diferença. Cordas molhadas ou não, atraso no tempo de lançamento de bombas aéreas e o projeto do arnês dos paraquedas são alguns deles. Enfatiza também o valor da liderança em combate, onde oficiais e sargentos mais experientes podem fazer a diferença quando lideram com determinação e competência. 

Calcula-se que 2.000 americanos morreram naquele dia, com outro tanto de feridos. Ao todo, nas 5 praias 10.000 aliados perderam a vida, cerca de 4.000 alemães e 3.000 civis franceses. Foi o início da retomada da Europa pela frente ocidental.



sexta-feira, 18 de maio de 2018

MAWS - Sistema de Alerta de Aproximação de Mísseis #149


Este sistema faz parte da suite de aviônica das aeronaves modernas mais avançadas, e visa alertá-la quando ameaçada por mísseis anti-aeronaves (AAM ou SAMs). Os sensores do MAWS (Missile Approach Warning System) alertam o piloto sobre estas ameaças para que possa fazer manobras evasivas ou acionar contramedidas, o que também pode ser feito (e deve) de forma automática.

A Segunda Guerra Mundial trouxe estas ameaças aos cenários de combate e nos anos 50 eles começaram a se fazer presente de forma mais significativa. Como é comum na guerra todo ponto gera seu contraponto, ECMs e procedimentos táticos específicos foram aparecendo com bons resultados permitindo às aeronaves maior capacidade de sobrevivência, desde que o alerta com a devida antecedência fosse dado.

Estatísticas da década de 60 demonstravam que a grande maioria dos abates de aeronaves tinham como vilão o míssil guiado a infravermelho (IR). Os mísseis guiados a radar são mais rápidos, manobram melhor, carregam mais explosivos e possuem espoletas de proximidade, porém as contramedidas contra eles foram muito mais fáceis de conceber que contra os primeiros. Os RWR provaram sua eficácia logo que apareceram e aumentaram sobremaneira a taxa de sobrevivência das aeronaves, sendo que aqueles abatidos pelos mísseis IR nunca souberam o que os atingiu.

A partir da década de 1960 começaram a aparecer nos espaços de batalha os MANPADS, SAMs guiados a IR e lançados do ombro do combatentes, compactos, pequenos, baratos e disseminados em grande número, capazes de atingir aeronaves voando baixo. Não demandam infraestrutura de lançamento como os SAMs guiados a radar e por utilizarem um sistema de guiagem passivo não anunciam sua presença. Produzidos desde então em quantidades substanciais, estão disponíveis no mercado negro e consequentemente para milicias "não estatais".



Os MANPADS de primeira geração estavam restritos aos engajamento pelo setor traseiro da aeronave, porém os modelos de segunda e terceira geração que surgiram a partir dos anos 1980, contam com aperfeiçoamentos significativos, com cabeça de busca avançadas e aerodinâmica mais eficiente associada a motores mais capazes. Passaram a um perfil operacional "all aspect", ou seja, podendo serem lançados de qualquer ângulo, tornaram-se mais resistentes a ECMs e com altíssimo potencial de manobra. 

Aeronaves mais lentas como helicópteros e cargueiros militares, além de aviões civis, tornaram-se mais vulneráveis que nunca a estes SAMs, principalmente durante pousos e decolagens. Aeronaves de alto desempenho como caças passam menos tempo dentro desta zona de morte e apresentam menos vulnerabilidade.



MANPADS são armas de curtos alcance, com raio de cerca de 5 km, pequena margem de erro e tempo de impacto a 1 km de cerca de de 3 segundos, e entre 3 e 5 km de cerca 7 a 11 segundos, respectivamente. Fornecer alerta em tempo hábil contra este projéteis é um desafio. Não avisam que vão ser lançados, não dependem de IR ativo ou orientação radar, não são orientados por qualquer tipo de designador com os a laser que sempre emite uma radiação detectável. São do tipo "dispare e esqueça", travando rapidamente em um alvo e destruindo-o em segundos. Seu propulsor queima em intervalo de tempo curto, sendo visível em tempo reduzido, além de possuírem uma RCS muito pequena.

Proteger-se contra estas ameaças tão furtivas depende de um alerta imediato e uma ECM eficiente. Nos modelos de 1ª geração com operação por amplitude modulada, usavam-se jammers IR omnidirecionais sem alerta, que irradiavam continuamente enquanto estavam ligados, com razoável eficácia desde que técnicas corretas fossem aplicadas. As gerações posteriores passaram a operar com modulação de frequência e o papel desta contramedida se inverteu, passando a atrair em vez de enganar.

Em um ambiente onde o tempo é escasso, um MAWS deve mostrar-se confiável a fim de permitir o uso de ECMs apropriadas em tempo real. Os pilotos só o utilizarão se confiarem neles, e apresentar uma baixa taxa de alarmes falsos (FAR) mesmo que iluminado por emissores múltiplos é importante. Tempos de resposta rápidos e FAR baixas são requisitos conflitantes, requerendo uma configuração equilibrada. O desejável é de se ter um "tempo para o impacto" (TTI) longo, com um FAR baixo. O sistema tem que recolher dados e tomar decisões baseadas neles quando um nível de confiança razoável for atingido, sem falsos alarmes, o que demanda uma coleta de dados significativa, o que por consequência resulta em um TTI mais baixo. A probabilidade de sobrevivência depende do TTI, o que leva a tolerância de uma FAR mais alta, desde que não comprometa a operação.

É importante que o sistema tenha precisão azimutal (cerca de 2 graus) e de ângulo de ataque (AOA), pois deve-se saber exatamente de onde vem a ameaça. Contramedidas IR direcionais (DIRCM) exigem esta precisão para contrapor mísseis com sucesso. É importante evitar que a aeronave e os chamarizes dispensados fique dentro de um mesmo "campo de visão" do míssil, pois se este superar os "engodos" ainda assim poderá atingir a aeronave, particularmente se esta for lenta e demorar a se desvincular deles. O AOA preciso também é importante quando da manobra brusca de aeronaves rápidas que buscam se distanciar dos chamarizes. A alta velocidade tende a negar este distanciamento, e a aeronave deve procurar aumentar o ângulo de separação, principalmente se a aproximação da ameaça for pela retaguarda  quando um AOA preciso evita que o piloto vire na direção errada, aproximando-se do míssil.

Este sistema deverá ser compacto, pois assim poderá equipar aeronaves pequenas, consumir pouca energia e não causar arrasto aerodinâmico. Visualização integrada aos displays existentes evita a duplicação destes, podendo coexistir com os RWR, porém com exibições claras e sem ambiguidades. Devem ser exibidos na tela também as chamarizes disponíveis, o modo de funcionamento e o estado de manutenção. Outro fator desejável é a possibilidade de ser integrado aos outros sistemas de EW da aeronave.

Os sistemas em uso atualmente usam radares pulso-doppler, sensores IR e UV, cada um com suas vantagens e desvantagens. Os sistemas Pulso-doppler podem medir a velocidade de aproximação e a distância da ameaça, podendo determinar a TTI e otimizar o tempo da ECM, não depende da IR do míssil e é menos sensível às condições climáticas. Revelam a presença da aeronave e podem não engajar mísseis com baixo RCS, com alerta tardio. Não são muito precisos e podem ser interferidos por outras fontes de RF, podendo ainda interferir em radares de solo e são mais difíceis de integrar.



Os sistemas IR  funcionam melhor em condições atmosféricas favoráveis e em altitudes longe da interferência das fontes de solo, sendo mais precisos para dispensar chamarizes. Sofrem interferência da água e do gelo que debilitam totalmente sua precisão, e aliadas ao fundo de solo distorcem totalmente a interpretação dos sensores. Altos níveis computacionais são necessários para compensar os alarmes falsos em condições desfavoráveis. Sensores de duas cores são usados para atenuar a interferência de fundo a FAR mais altas, mas encarecem os sistemas e oferecem complicações técnicas. Não podem medir o alcance nem a velocidade, tem campos de visão estreitos e requerem matrizes de 360 graus, que oneram o sistema. Demandam sensores refrigerados e podem ser ineficientes em motores de novas tecnologias IR/UV.

O sistema UV é imune a alarmes falso naturais por operar nesta faixa do espectro, sendo mais eficiente que os IR no que diz respeito a interferências de fundo. Opera bem em condições adversas e com a presença de umidade, tem campo de visão largo e opera com precisão, sendo o sistema mais simples de todos. Não requer refrigeração nem alta capacidade computacional, com baixo custo de ciclo de vida. Requer que os motores estejam queimando para serem detectados, sendo mais efetivo contra SAMs que contra mísseis ar-ar. Não fornece informações de alcance, mas pode alertar quanto a TTI pela variação da amplitude do sinal. Pode se mostrar ineficiente, tal qual os IR, em motores de nova geração.



terça-feira, 15 de maio de 2018

Movimento Tático de Infantaria #148



A infantaria se movimenta no terreno usando formações táticas, quando em condição de provável contato com o inimigo, de forma a minimizar as chances de ser surpreendida e sofrer baixas, além de poder responder ao fogo de forma eficiente se o engajamento for estabelecido. O movimento tático antecede a manobra, e cessa com o inicio desta, que se dá com o estabelecimento do contato. Movimentar-se de forma disciplinada e usando a técnica adequada faz a diferença entre a vida e a morte.

Formações Táticas

São utilizadas 7 formações pré-definidas, cada uma empregada de acordo com a situação tática do momento, onde se leva em consideração as necessidades de velocidade de avanço e fluidez de deslocamento, necessidade de fazer fogo a frente ou para os lados de forma mais eficaz, probabilidade de contato imediato e provável quadrante de contato, entre outras. Ao deslocar-se a infantaria deve manter a coesão do grupo, permitir a comunicação entre seus membros, manter o ímpeto do movimento e alcançar máxima proteção mútua entre seus membros e outros grupos adjacentes. A formação também deve permitir que uma vez estabelecido o contato o grupo possa migrar para uma situação defensiva de forma natural e sem grandes contratempos.

Cada membro do grupo ocupa uma posição padrão na formação de forma que todos possam estar em contato permanente com seu lider imediato e este seu lider superior, além é claro de poder cumprir sua função. As formações não devem ser rígidas, mas sim flexíveis de forma a poder variar se necessário, ao comando de um gesto do líder. As formações em linha, em coluna e em escalão são as menos flexíveis.

As formações são escolhidas de acordo com os fatores largura e profundidade requeridos, sendo que a vantagem de um dos fatores representa desvantagem do outro. Uma coluna de infantaria pode se dispor em coluna, em linha, em V, em cunha, em diamante , em caixa ou em escalão. As formações podem contar com um elemento guia ou com mais de um. A primeira torna o controle mais fácil, porém reduz a superioridade de fogo a frente e vice-versa.

A formação em linha consiste em todos os elementos postados lado a lado, dispondo o grupo com máxima largura e mínima profundidade. Todos podem, de forma otimizada, observar e fazer fogo a frente, com prejuízo dos flancos. O caminho percorrido por um indivíduo ainda não o foi por outro, podendo por exemplo haver uma mina ali, requerendo cautela e esforço de limpeza de itinerário. O movimento deve se dar tendo como base o movimento do líder ou ao seu comando, sendo o controle difícil e é usada quando o contato é iminente. Esta formação implica em baixa velocidade e é inviável em terreno restrito, dificulta a manobra escalonada, favorece a dispersão e alta assinatura. O comando para esta formação é dado quando o líder estica ambos os braços.

A formação em coluna é o oposto da anterior. Os elementos postam-se em fila e assim se deslocam, sendo o terreno relativamente seguro depois da passagem do elemento à frente. Um elemento é destacado para ir um pouco a frente do grupo oferecendo segurança aos demais. Possui poder de fogo máximo nos flancos a mínimo a frente, bem como a observação. É a formação mais fácil de controlar, desde que o elemento a frente não se distancie em muito do líder, e que oferece maior fluidez, mesmo em terrenos mais restritos.  É vulnerável a ataques aéreos e ao fogo de metralhadoras se pouco dispersa. É empregada quando se tem a velocidade como prioridade e o contato com o inimigo é pouco provável, pois a capacidade de manobra fica restrita. O comando para esta formação é um giro de 360 graus com o braço estendido, partindo do alto.

O terceiro tipo á a formação é a em V ou cunha invertida. É similar a formação em coluna, porém oferece mais flexibilidade de manobra pois coloca 2 elementos a frente em vez de 1 só. Possui maior capacidade de fogo e observação à frente, porém mantém a segurança dos flancos em bom nível e oferece boa dispersão. É utilizada quando se quer priorizar a velocidade, porém o contato com o inimigo é mais provável. O controle é similar a formação em coluna, mas um pouco mais complicado. O comando para esta formação são os braços erguidos acima do ombro.

A formação em caixa dispões seus elementos tal qual o formação em cunha invertida na frente e repete esta disposição nos elementos de retaguarda. Possui as mesmas características desta. É uma formação que maximiza a segurança do grupo.

A formação de cunha pode ter 2 variações: cunha a direita ou a esquerda tendo um elemento a frente, dois de um lado de forma escalonada e outro do lado oposto. É usada em situações indefinidas com um elemento a frente. Proporciona alta grau de controle e bom poder de fogo, relativa facilidade em terreno restrito e facilidade de transição para formações de linha ou coluna. Em terrenos muito restritos requer frequente transição para formação em coluna. O comando para esta formação são os dois braços abaixados em 45 graus.

A formação em diamante tem as mesma características da formação em cunha com o quarto elemento disposto à retaguarda do elemento que se desloca a frente.

A sétima formação usada é a formação em escalão, que como a formação em cunha pode ser a direita ou a esquerda. Consiste em escalonar os elementos de forma diagonal a sentido do deslocamento para um dos lados, aquele de onde vem a ameaça. Permite fogo e observação ótima para o lado escalonado e para frente, com segurança debilitada para o lado oposto. É usado quando se tem segurança que a ameaça virá só de uma lado, como na composição de formações maiores com outros grupos que proporcionam segurança mútua, sendo de difícil controle. O comando para esta formação é um braço acima e outros abaixo, sempre no sentido do escalonamento.

Dentro do grupo, os infantes compõem uma equipe de fogo, que nada mais é do que uma atribuição de responsabilidades de cada um de vigiar um quadrante específico, de forma a proporcionar segurança a todo o grupo. casa elemento deverá ter conhecimento de seu quadrante e dos quadrantes de seus companheiros, conhecimento este que concatenado com a formação usada evita que se atire na direção dos parceiros evitando fratricídio. As equipes de fogo guardam um distância de segurança (dispersão) de seus parceiros até o limite do controle, distância esta que é ditada pela situação tática do momento.

A cunha é a formação básica da equipe de fogo, com seus integrantes mantendo um espaço de cerca de 10 metros, variando de acordo com as condições do terreno. Os integrantes da equipe agem de acordo com as ações do líder sem necessidade de ordens explícitas, sendo fundamental que todos tenham sempre o líder em seu visual. Em terrenos seriamente restritos como dentro de edificações e em condições de visibilidade muito limitada se usa a coluna em formação cerrada, pois a cunha é impraticável.

O Itinerário a ser usado

Estabelecer contato no momento e local escolhidos pelo inimigo será sempre desastroso, de forma que entender as peculiaridades do terreno em que se irá operar e selecionar as rotas mais adequadas é vital. Também é importante se deslocar no tempo certo, com a disposição adequadas das armas disponíveis e com o grupo disposto na formação adequada, de forma a chegar ao local escolhido no momento desejado em condições de integridade do grupo e com total potencial de combate.

Quando o movimento não tem por objetivo o engajamento em combate, como aquele praticado por grupos isolados atrás de linha inimigas procurando um reposicionamento, busca-se a máxima segurança e o controle, praticando o contato apenas quando inevitável, movendo-se por rotas ocultas e cobertas que ofereçam poucas possibilidades de emboscadas. Deve-se ainda lançar mão de todos os recursos de camuflagem e disciplina de ruído, manter vigilância em todas as direções e valer-se de recursos como ocultação por fumaça e aplicação de fogos diretos e indiretos quando necessário.

As formações táticas da infantaria determinam o espaçamento entre os membros do grupo, seus setores de fogo e as responsabilidades de cada um. Dentro da formação as técnicas de movimento definem o nível de segurança que um soldado oferece a outro, a posição dos GCs uns em relação aos outros, quem faz fogo e quem se desloca.

Tão importante quanto as outras tarefas do líder, é a habilidade de planejar e selecionar uma rota de deslocamento. Deslocar-se por um itinerário que seja o mais seguro possível, demandem o menor esforço e atinjam o objetivo do deslocamento no tempo adequado é importante. Um deslocamento eficiente começa com uma seleção de rotas bem selecionadas que exige um análise pormenorizada do terreno e termina com uma capacidade de navegação competente. Planejamento e preparação são inúteis se não se consegue encontrar o caminho para o objetivo.

Terrenos perigosos devem ser evitados. Expor-se a observação ou ao fogo, ou ambos também. O planejamento da rota deve levar este fator em consideração e se for inevitável atravessar estas áreas deve-se fazê-lo o mais rapidamente possível e com cautela máxima. 

domingo, 13 de maio de 2018

Apoio Aéreo Aproximado (Close Air Support - CAS) *147



Relativamente desconhecida do público em geral antes das guerras do Iraque e do Afeganistão, esta missão existe desde dos primórdios da aviação. Mas o que é o CAS? como é vista pelos pilotos e por aqueles que se beneficiam dela, as forças terrestres? Estas perguntas ajudam a entender o que realmente é esta missão e ajudam a dissipar alguns mitos que a cercam.


O apoio aéreo aproximado (close air support - CAS) é o nome dado à missão ar-terra executada por aeronaves que estão próximas à forças terrestres amigas, geralmente a pedido e em proveito destas, e com integração detalhada a cada movimento com o fogo e a manobras destas forças. Qualquer aeronave que possa empregar munições pode prover apoio a forças no solo, sejam balões de ar quente na Primeira Guerra Mundial aos atuais vetores estratégicos como os B-1Bs dos EUA, se puderem prover artilharia de qualquer tipo à tropa no solo esta missão caracteriza-se como CAS.


Esta afirmação se faz importante porque muitos pensam que somente aeronaves como os Thunderbold A-10 e seus semelhantes são capazes de executar este tipo de missão. Enquanto estas aeronaves tenham sido concebidas para esta missão e a desempenhem com proficiência, não são as únicas capazes de fazê-lo, e sua atuação representa um pequeno número nas missões desta natureza que acontecem nos dias de hoje.


O CAS é uma das poucas missões igualmente executadas por todas as forças. A instrução JP 3-09.3 é a bíblia do CAS paras as forças dos EUA. Apesar da US Navy e a USAF, de forma anacrônica, divergirem tanto na forma como veem a tática, provavelmente aquecidos numa fogueira de vaidades, quando se trata do CAS os pensamentos convergem para um mesmo objetivo comum. Os helicópteros do US Army não são considerados como atores de CAS, e sim com elementos de manobra, assim como um carro de combate ou uma peça de artilharia, embora em última análise o sejam, mas como são tripulados por integrantes da tropa apoiada e pensam como esta, não precisam de controladores qualificados para realizar seus fogos.

Existem três elementos chave em uma missão de CAS: o comandante da tropa em terra, o controlador aéreo avançado (FAC nos US Marines e JTAC nos US Army/ Navy/ Air Force) e os elementos aéreos de apoio (aeronaves). O comandante terrestre é o responsável pela manobra das forças no solo e determinante dos movimentos e objetivos desta, sendo a sua intenção o objetivo dos fogos de CAS, e estes executados a partir de sua determinação. O FAC é o representante deste comandante junto aos pilotos, aquele que entende as duas linguagens, e sua função é traduzir as intenções deste comandante terrestre nos procedimentos de fogo aéreo praticado pelas aeronaves de apoio.




Os FACs atuam integrados com as unidades terrestres, em terra ou em aeronaves de observação e fazem a ligação entre estes "dois mundos", transformando demandas táticas em fogos de apoio, tal qual um observador de artilharia de campanha, guardadas as proporções. Cabe aos FACs coordenar a chamada "pilha", quando várias aeronaves CAS estão presentes acima da área de operações em altitudes desconectadas, e em condições de executarem a mesma missão, através da marcação de alvos e autorizando aos elementos aéreos liberarem suas "warheads" e fogos de rajada, sempre em estreita sincronização com o comandante da manobra (comandante terrestre).


O CAS é uma missão dinâmica e de ocasião, geralmente desempenhado por aeronaves que estão sobrevoando a área de operações com esta finalidade, mas sem nada planejado especificamente. Não se sabe quais alvos aparecerão, nem se tem rotas específicas de entrada e saída, apenas aguardando-se o chamado do FAC. É a missão aérea mais fácil de se planejar, apenas sabendo qual os prováveis tipos de munição que se irá utilizar e as regras de engajamento do momento.


Esta missão se apresenta de duas formas básicas: Por demanda ou pré-planejada. Em uma missão pré-planejada a aeronave decola já sabendo quais serão seus alvos, como por exemplo um comboio a cavaleiro de uma via de importância tática e que tem relação com a manobra amiga. Nestas missões se está apoiando uma operação específica e não se decola com a garantia de que as armas serão usadas, apenas se está lá para ser usado conforme a conveniência desta missão. 

Nas missões por demanda as aeronaves aguardam em um aeródromo próximo ou sobrevoam a área de operações ou suas adjacências, nada específico existe e se faz parte da "pilha", atuando como uma força de reação rápida com seus fogos endereçados a alvos que forem convenientes ao comandante da manobra, que poderão ser alterados de forma dinâmica.




Por fazerem uso de armas genéricas, as missões de CAS demandam planejamento mínimo, são as missões aéreas mais fáceis de serem planejadas e podem ser executadas por qualquer aeronave, desdo os vetores mais especializados como o A-10 Thunderbolt II e o Su-25, até os bombardeiros estratégicos como os poderosos B-1B, dada a sofisticação de suas suítes eletrônicas. As armas mais usadas são as bombas guiadas por GPS ou laser, as de emprego geral e os mísseis ar-superfície, além dos canhões orgânicos. A seleção das armas a serem empregadas é resultado da experiência do FAC e a disponibilidades destas para serem empregadas nos cabides das aeronaves.

É comum  a ideia de que CAS é uma missão de cenários de baixa ameaça, como as campanhas na Síria, Iraque e Afeganistão; onde os meios aéreos circulam livremente sem se preocuparem com complexas malhas de SAMs de médio e longo alcance e baterias de alto desempenho, onde predominam os MANPADS e as armas leves. Porém nem sempre esta situação se materializa e as tropas estão operando em "zonas quentes", onde missões SEAD e táticas especiais se fazem necessárias.


CAS em áreas de alta ameaça é um negócio de risco, como em hipotéticos conflitos envolvendo a OTAN, o Japão, a China, as Coreias do Norte e do Sul e a Rússia, entre outras. Sejam quais forem as dificuldades ou o cenário, no entanto os atores tendem a se adaptar, e os vetores engajados nestas missões certamente não serão deixados em seus aeródromos, principalmente àqueles mais especializados.




Fazendo Fogo


Uma missão CAS começa no seu centro de operações de apoio aéreo, onde os pilotos tomam ciência sobre a missão ou prováveis missões, a situação e as unidades que apoiarão. Informações sobre o voo e outras aeronaves na área poderão ser passadas. A medidas que as aeronaves se aproximam do objetivo trocarão a frequência do controle de voo para a frequência dos FACs e passarão a fazer um "check-in" junto a estes. Os FACs estabelecerão as regras de engajamento e orientarão os pilotos a se integrarem a "pilha" de aeronaves que estão disponíveis na área, determinando uma altitude de espera se for o caso e um circuíto a cumprir, ou autorizarão que se entre em ação imediatamente.

Em cenários movimentados poderá haver uma grande quantidade de aeronaves na área de operações em condições de prestar apoio CAS, que podem ser desde RPVs, passando por aeronaves de ataque ao solo especializadas e de apoio aproximado, até bombardeiros estratégicos e aeronaves singulares como o AC-130.

O piloto ao aproximar-se da zona de combate passa ao FAC um "briefing" onde informa seu número de missão, número e tipo de aeronave, posição e altitude, munição e sensores disponíveis, tempo que pode permanecer a disposição e o indispensável código de aborto. Este código permite ao FAC interromper de forma rápida e eficaz um bombardeio iminente e autorizado quando se constata que não deve acontecer.

O FAC por sua vez passará aos pilotos sua informações como a situação geral, os alvos presentes e os objetivos pelos quais as forças em terra estão operando, os tipos de ameaças e seus locais prováveis ou conhecidos, como MANPADS, baterias de tubo e SAMs de maior porte e suas altitudes de segurança, as posições amigas e outras informações e restrições vigentes.

De todas elas a informação mais relevante são as posições das forças amigas, as quais as aeronaves devem apoiar, e garantir sua segurança é fundamental. Todo piloto de CAS deve, sempre que o tempo permitir, fazer um sobrevoo visual sobre elas para certificar-se que seus fogos serão endereçados para longe delas. A noite esta tarefa é ainda mais fácil para aqueles que dispões de NVGs, especialmente se as tropas estiverem empregando marcadores infravermelhos estroboscópicos para marcarem sua posição. Se esta checagem não for possível os pilotos irão proceder a marcação destas posições em seus mapas e tentar obter confirmação visual através dos sensores da aeronave.

Em cenários tanto de alta ameaça como de baixa, os pilotos irão obedecer pontos de retenção longe do alvo, sendo que na maioria das operações modernas as aeronaves orbitam sobre o alvo em altitudes de segurança. O tipo de órbita depende do tipo de aeronave: Os F-16 da USAF, por exemplo, orbitam a direita porque seus pods Litening estão montados no queixo direito desta aeronave, enquanto nos Hornet da US NAVY a órbita se dá no sentido inverso devido a disposição de seu sensor ATFLIR. As distâncias ainda são variáveis de acordo com a velocidade e as características da aeronave, com uma ou cinco milhas, por exemplo, e as altitudes dependem dos limites de segurança e da "pilha" existente.

Um grande mito das missões CAS é que suas aeronaves devem voar baixo e serem lentas para serem eficazes. Com os sensores modernos os pilotos podem estar muito longe e muito altos e mesmo assim serem eficazes. Pode-se lançar um bombardeio, mesmo estando acima de vetores mais lentos como UAVs e helicópteros, com eficácia e segurança. Acima dos três mil metros as aeronaves ficam foram da zona de engajamento da maioria dos MANPADS e das armas leves, além de chamar menos atenção em missões que envolvem o sigilo. Evidente que este perfil de missão só é possível a aeronaves e "warheads" de alta tecnologia, que sejam seguramente precisas e não coloquem em risco as tropas amigas.

Uma vez dentro do circuito, o líder e seu ala se separarão, com o líder concentrado na manutenção do circuito e o ala no objetivo de solo, geralmente em altitudes levemente diferentes, usando o rádio ou mais recentemente o datalink para desengajar. 


O FAC dispõem de 3 modos de controle, sendo que no primeiro ele vê tanto a aeronave quanto o alvo durante todo o ataque para assegurar-se que os fogos estão sendo endereçados ao objetivo correto; no segundo modo ele visualiza somente o alvo ou o piloto, e depois que o piloto transmitir seu "pronto", o FAC replicará com a indicação de que o alvo está frente e o fogo está liberado. No terceiro modo o FAC não visualiza nenhum deles e o usa para bombardeiros longe das forças amigas e transmite ao piloto que a área está livre para engajamento. 





O piloto por sua vez conta com 2 modos de ação indicados pelo FAC: no primeiro o FAC passa coordenadas precisas ao piloto, que as alimenta em seus sistema de fogo para liberar armas de precisão nestas coordenadas. No outro modo as coordenadas não são precisas e o piloto deve conferir visualmente ou por sensores onde soltará suas bombas.



Informações poderão ser trabalhadas de várias formas, conforme a doutrina de cada força. Um conjunto normalmente usado são o ponto inicial (PI) para a corrida, o indicativo do alvo, a distância de algum ponto de referência que pode ser a própria aeronave, a direção a ser tomada, as coordenadas na forma de latitude e longitude, a altitude do alvo, a posição do alvo plotada em um sistema de referência militar, a forma de marcação (fumaça por exemplo), a distância mínima a partir da tropa amiga, o ponto de regresso (onde deverá estar após o ataque) de onde retornará ao aeródromo ou ao circuíto de espera.

O FAC é a autoridade máxima durante o ataque e será responsabilidade dele a segurança da tropa amiga, cabendo-lhe estabelecer a linha de segurança a partir da qual o bombardeio poderá se dar, bem como as restrições que devem ser observadas, como armas autorizadas, tempo de ataque e horários-limite. O alvo também poderá ser usado como referência, como a pista de um aeródromo por exemplo, onde a cabeceira da pista serve de ponto de partida para cálculo do ponto de impacto. Se sistema inteligentes estiverem disponíveis a introdução das coordenadas do alvo no sistema, facilita em muito o trabalho dos bombardeiros. Sistemas com Datalink pode dar a visão do piloto ao FAC, e se este estiver usando designadores laser ou IR será como se fosse um tiro direto. Palavras chave como ""contato" ou "visual" também podem ser usadas, deixando claro o status da operação naquele momento, evitando confusão entre o que é alvo e o que é tropa amiga.


Uma vez o ataque definido caberá ao lider (piloto) determinar as regras entre as aeronaves da esquadrilha (ou com o ala). As comunicações passam a ser entre estes, o lider se assegura que seus parceiros estão em sintonia com a missão que foi definida, passando a regras do ataque. Os dois (ou mais) bombardearão ou um bombardeará e o outro proverá cobertura mantendo-se em órbita? que armas usarão e que métodos (provavelmente já definidos), bombardearão juntos ou em intervalo de quantos segundos? de que forma desengajarão para evitar colisão ou ameaças em terra?


Apesar de parecer um processo complicado, e é, tripulações treinadas executam rapidamente, sendo treinamento e prática constante essenciais, estando os pilotos especializados mais capacitados (como os de A-10 e AC-130) a este tipo de operação. Sistemas montados no capacete (HMD) são especialmente úteis neste tipo de missão.


Uma vez completa esta fase de designação o piloto iniciaria sua corrida, transmitindo ao FAC uma mensagem com seu codinome, a designação do alvo, o modo de ataque e se tem as tropa amigas no visual ou não, por exemplo. O FAC responderia para que ele se mantivesse na corrida (não liberado) ou que o "fogo está liberado", geralmente em jargão próprio, o que dá segurança às mensagens. As coisa então acontece rapidamente, e neste momento palavras-chave são "mágicas". Ao iniciar a recuperação, o FAC procurará observar se alguma ameaça tipo MANPADS não foi disparada, alertando o piloto. Informará também se necessário uma segunda passagem ou se pode retornar ao "circuíto" e próximo alvo. A sequencia se repete até que a aeronave fique sem munição ou combustível, ou ainda atinja um horário determinado. O fator psicológico é alto, pois o piloto pode ouvir pela fonia do FAC o fogo sendo trocado, e sente que seu apoio é importante, desejando fazer o que está ao seu alcance para aliviar a ameaça inimiga.


Finalizada a missão, o FAC transmite todos os detalhes possíveis (debriefing) para que os pilotos levem a informação de volta à base. Os pilotos, sabendo que as tropas vão continuar lá lutando, farão o máximo para voltarem o quanto antes para dar continuidade ao apoio. As missões de CAS são muito variadas e dinâmicas, nenhuma sendo igual a outra.





Missões Complementares

O CAS, no entanto, não é só bombardeio puro e simples, e pode envolver, por exemplo, voo de intimidação. As vezes o bombardeio não é alternativa como numa área povoada e a realização de voos rasantes podem fazer o inimigo a "sentir a morte" vinda de cima,  desistindo de lutar ali. Esta prática também pode servir para reforçar a moral das tropas amigas, potencializando sua vontade de lutar. Não requer interação com o FAC.


O passo seguinte é a demonstração de força, que deve ser coordenado entre o piloto e o FAC, e consiste no disparo de armas em alvos visíveis, no intuito de forçar a desistência inimiga. É usado em shows aéreos e pode funcionar como forte fator psicológico junto a insurgentes. Pode ser muito arriscado se houver a possibilidade da presença de MANPADS na área.


Outra missão que pode ser necessária é o CAS improvisado, onde alguém em terra solicitou apoio aéreo através de seu rádio sem ter as devidas qualificações para tal. É uma prática perigosa e a possibilidade de fratricídio está presente em alto nível, porém pode ser a única alternativa. Neste caso os pilotos procuram fazer acontecer de uma forma mais lenta, passo a passo, porém sem deixar o pessoal no terreno sem apoio, de forma a mitigar o risco de atingi-los involuntariamente.


Mais recentemente temos as missões CAS digitais onde todo o processo se dá via software e datalink, com coordenadas precisas e liberação de armas pelo sistema. Os FACs podem visualizar o que o piloto vê, armas podem ser lançadas de grande altitudes, com mau tempo em em terreno cobertos. O risco ainda existe, pois pode-se por exemplo inserir um coordenada imprecisa e chamar o fogo para cima de si, pois nenhum sistema é perfeito. Neste caso, como nos outros, o treinamento é chave do sucesso.


Qualquer aeronave pode fazer CAS, e a eficiência de cada uma estará diretamente relacionada a quem as opera. Aeronaves especializas em CAS são operadas por tripulações (pilotos e FACs) igualmente especializados, e estes farão a diferença. Então tanto faz seu temos um A-10 ou um F-35, as pessoas e seu treinamento ditarão a eficiência de cada missão. 



Veja também: CAS: Qual a aeronave certa?