FRASE

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O ARA San Luis na Guerra da Falklands/Malvinas *071



artigo publicado no blog Poder Naval


Por Jorge R. Bóveda


O ARA San Luis foi uma das duas unidades submarinas enviadas no princípio de abril de 1982 e o único a enfrentar cara a cara a poderosa força-tarefa inglesa. Sua moderna tecnologia e sofisticados sensores faziam prever que, em curto prazo, terríveis perdas  seriam impostas ao inimigo.

Inexplicavelmente, depois de 74 dias de luta, nenhum navio britânico foi afundado por um torpedo argentino. Este artigo pretende, sobre a base do testemunho dos protagonistas, lançar luz sobre aqueles dramáticos 39 dias de patrulha, nos quais o ARA San Luis disputou (sem êxito) a supremacia naval com a Royal Navy, no Atlântico Sul. É, portanto, o testemunho de uma batalha sem precedentes entre “David e Golias “, que se projetou além do conflito e valiosas conclusões podem ser tiradas para o futuro da arma submarina argentina.


O galante desempenho do San Luis em condições de extrema adversidade, contra um inimigo várias vezes superior, em quantidade e qualidade de meios anti-submarino, mostra a alta qualidade dos tripulantes. A incrível capacidade do San Luis para superar tais circunstâncias adversas faz parte das mais profundamente enraizadas tradições da Armada Argentina e vai, sem dúvida, constituir um exemplo para as novas gerações de submarinistas.


Desde sua aposentadoria do serviço ativo em 1995, o ex-comandante do ARA San Luis, Capitão (RE) Fernando Azcueta Maria, tem cultivado um perfil discreto e raramente aborda a espinhosa questão do conflito no Atlântico Sul, fora do seu círculo de amigos.
Há alguns anos, Azcueta rejeitou uma oferta tentadora para colocar no papel suas experiências da guerra e suas muitas entrevistas que concedeu. Desde então, nunca tratou o tema com todos os detalhes que são revelados na história a seguir, que mostra pela primeira vez, algumas situações dramáticas daqueles 39 dias em patrulha, nos quais disputou a supremacia naval com a Royal Navy, no Atlântico Sul.

Preparação relâmpago


Quando o capitão-de-fragata D. Fernando María Azcueta, filho de um proeminente mergulhador, assumiu o comando, no final de dezembro de 1981, do moderno submarino classe 209 ARA San Luis, das mãos do capitão-de-fragata D. Miguel C. Miguel C. Rela, não podia sequer imaginar que, em pouco mais de três meses, seria travada uma guerra contra a terceira potência naval do mundo.
E, menos ainda, poderia ter previsto as graves limitações operacionais de que sofria sua unidade, e que isso iria comprometer seriamente a sua eficácia como unidade de combate.
Em meados de março de 1982, enquanto Azcueta e os seus homens estavam se exercitando com as corvetas tipo A-69 ARA Drummond e ARA Granville, ao largo da costa de Mar del Plata, recebeu a ordem para interromper a comissão e regressar ao porto, mas sem receber qualquer explicação para esta ordem incomum.
Pouco depois, observou na Base Naval a preparação do ARA Santa Fé, comandado pelo capitão-de-corveta Horace Blicaini, mas não conseguiu tirar deste nenhuma informação que pudesse aliviar a enorme incerteza em que se encontrava. Só na manhã do dia 2 de Abril foi revelado ao público, por rádio e televisão em todo o país, o desembarque argentino nas ilhas Malvinas.

No entanto, Azcueta teve que esperar mais 24 horas para ser recebido pelo COFUERSUB (Capitão Eulogio Moya Latrubesse) que lhe ordenou: “preparar-se no menor tempo possível para suspender (zarpar).” A partir daquele momento, começou uma frenética corrida contra o relógio para toda a tripulação deixar o navio com a melhor condição possível de funcionamento.

Na foto acima, vê-se o San Luis em sua base, com o NAe 25 de Mayo aparecendo ao fundo


Os problemas antes de sair


Durante as provas de mar realizadas nas águas próximas à Base de Submarinos, foi descoberto o primeiro de uma série de problemas, quando verificou-se que o San Luis não poderia desenvolver velocidades em imersão superiores a 14,5 nós.
Uma inspeção mais detalhada do navio revelou que não só o casco e hélice estavam cobertos com incrustações de pequenos crustáceos conhecido como “cracas” ou “dentes de cachorro”, mas os tubos de refrigeração dos motores diesel também tinham sido atingidos. Isto fazia com que os motores parassem por superaquecimento, devido à falta de fluxo da água de refrigeração.
Como não havia tempo para pôr o navio na doca seca para limpar o casco – dada a urgência de zarpar -, Azcueta teve que recorrer aos alunos da escola de mergulho vizinha, para providenciaram respiradores de baixa profundidade do tipo “narguil” e realizarem a raspagem do casco “à mão”, em turnos rotativos de 8 horas de trabalho contínuo, “para livrar o casco daquelas pragas ” .
Uma das causas do problema teve origem em 1974, com a construção do “paredão”, que separa o cais dos submarinos do cais civil de Mar del Plata.
Esta foi construída para impedir que a nova classe de submarino 209 colidisse contra o cais em períodos de mar grosso, permanecendo amarrados, uma má experiência que já havia sido experimentada com os velhos submersíveis tipo “Fleet” e os veteranos “Guppy”, mas que, graças ao seu design, tinham sido “estaqueados” no porto, o que permitia a imobilização do navio.
Embora louvável, a construção de um paredão gerou mudanças ecológicas com a falta de circulação de água do mar, o que favoreceu a formação de grandes colônias de cracas, que desde então fixaram-se aos submarinos incorporados atracado no cais.
No San Luis, dos quatro motores diesel, apenas três estavam funcionando, aumentando o tempo de recarregamento das baterias e a exposição do snorkel, tornando-o extremamente vulnerável às emissões dos radares de busca do inimigo.
A avaria do motor nº 1 ocorreu no início de 1974, pouco depois da adesão à Força submarino. Para repará-lo, seria necessário cortar o casco resistente, uma tecnologia que a Marinha Argentina não tinha na época.
O TF Somonte, chefe de propulsão da embarcação, em conjunto com a Direção de Material da Armada e de Tandanor, tinham conseguido “safar” o motor, utilizando-o até o final de 1978, quando decidiram mantê-lo fora de serviço por razões de segurança.
Para piorar, nem o comandante ou o chefe de armamento do submarino haviam tido  acesso a um relatório de meados de dezembro 1981, que detalhou o resultado dos lançamentos de torpedos por submarinos da classe “Salta”, durante o período compreendido entre agosto e dezembro do mesmo ano, com especial ênfase sobre o desenrolar do exercício com torpedos SST-4.
O relatório mostrava que de todos os lançamentos realizados durante este período, apenas uma única vez o torpedo tinha concluído a corrida na forma prevista.
Uma escandalosa percentagem de lançamentos foi errática, como resultado de várias fatores (por exemplo, rompimento no cabo de guiagem, inundação do torpedo, ruptura do cinto, etc), sem que se pudesse identificar as causas que levaram ao mau funcionamento da arma.
O relatório em questão tinha sido divulgado pelo gabinete do Comandante da Frota do Mar, escalão de que dependia a Força de Submarinos, sem ter conseguido reverter a situação. Como veremos mais tarde, as verdadeiras causas do problema só viriam à luz após o conflito.
Apesar destas limitações graves, Azcueta fortemente pressionado pelo contexto político/militar em que vivia, informou ser capaz de fazer-se ao mar no dia 11 de abril.
O submarino zarpou no final da tarde, com os seus minúsculos compartimentos abarrotados de alimentação e água para uma prolongada patrulha de guerra, com 10 torpedos SST-4 antisuperfície, de fabricação alemã e 14 torpedos antisubmarine MK-37 Mod 3, americanos.
Suas regras de engajamento vedavam, até aquele momento, qualquer confronto com as unidades inimigas, uma vez que se considerava que uma ação ofensiva iria comprometer as negociações que estavam em curso nas Nações Unidas.
O trânsito para a área de operações nas Malvinas foi aproveitado para concluir algumas pequenas reparações e prosseguir com o treinamento do pessoal na utilização do sonar passivo, do qual dependeria de agora em diante, a sobrevivência do submarino, tendo este último que operar dentro de uma área marítima inteiramente controlada pelo inimigo.
Em 17 de abril de 1982, o ARA San Luis chegou com segurança em seu “santuário fixo” ou área de espera, designado com o nome código de “Enriqueta”, localizada a cerca de 130 milhas ao norte da zona de exclusão estabelecida pelos britânicos em torno das ilhas.
Dois dias depois, enquanto permanecia naquela estação, ocorreu uma avaria no computador de direção de tiro VM8-24. Apesar dos esforços da tripulação, não havia como reparar o computador com os recursos disponíveis a bordo.
A dotação do navio incluía dois cabos especializados em direção de tiro, que também tinham o dever de reparar o sistema em caso de avaria. Esta função era anteriormente ocupada por suboficiais experientes, mas em abril de 1982 só havia disponível pessoal muito moderno, sem capacitação para reparar o sistema, além de trocar placas de circuito impresso.
A consequência imediata desta grave limitação na utilização do sistema de armas foi que a partir dali, os disparos de torpedos seriam feitos com cálculos manuais, com o submarino sendo capaz de controlar apenas um torpedo de cada vez, ao invés de três que o sistema permitia quando funcionava normalmente.
Com o computador avariado, o submarino operaria em “emergência”, o que doutrinariamente servia apenas para auto-defesa, dada a baixa probabilidade de gerar impactos.
Paralelamente aos esforços levados a cabo a bordo para tentar restaurar o sistema, autoridades navais no continente fizeram uma consulta ao Chefe do Arsenal, em River Plate (CF Edgardo P. Meric), para buscar assessoria técnica. Mas isso exigiria que o ARA San Luis enviasse por rádio longas mensagens que o sistema apresentava, para que os técnicos em terra pudessem diagnosticar o problema.
A mera possibilidade de que o submarino pudesse revelar sua presença na área de operações através destas mensagens fez com que a ideia fosse imediatamente rejeitada.
Dada a impossibilidade de consertar o computador, o comandante Azcueta enviou uma mensagem urgente para o COFUERSUB, colocando o Alto-Comando a par da situação e solicitando instruções.
Contra todas as probabilidades previsíveis, foi ordenado que o San Luis deveria ficar onde estava até novo aviso, porque eles achavam [indevidamente] que o inimigo poderia perceber sua ausência do teatro se o navio fosse reparado.
No final do conflito, vários submarinistas consultados expressaram que os danos poderiam ter sido reparados em Puerto Madryn, simplesmente transferindo para bordo o pessoal técnico e as peças exigidas.
Em retrospectiva, essa idéia parece ter tido boas perspectivas de sucesso naquele momento [19 abril], pois apenas um pequeno número de submarinos nucleares operava a oeste das Falklands e as unidades de superfície ainda não tinham chegado na área de operações [chegaram em 22 abril], de modo que a capacidade anti-submarino do inimigo na área focal de Puerto Madryn era inóqua.
Enquanto o San Luis prosseguia na sua rota para o sul, demandando sua área de operações, os rebocadores Tehulche e Querandí sob comando do Teniente de Navío Araujo (então imediato do Aviso ARA Irigoyen) foram enviados de Puerto Belgrano, com o objetivo de escoltar o submarino ARA Santiago del Estero (foto abaixo), um Guppy IA que havia sido desativado em 1981, em trânsito de volta para o porto, com a intenção deliberada de confundir o inimigo sobre o sua real estado de funcionamento.

Para assegurar toda a operação, foi decidido que os rebocadores deveriam tomar o porto de Mar del Plata após 19h, em 22 abril, devendo zarpar novamente em 72 horas. Não houve necessidade de esperar tanto tempo.
Apenas cinco horas mais tarde, às 00h20 exatamente, o submarino ARA Santiago del Estero começou a navegar na superfície rumo a Puerto Belgrano, com seus próprios motores, mas incapaz de mergulhar.
A operação de traslado para a principal base naval da Argentina foi realizada sem problemas e com toda a pressa, para tirar vantagem das condições meteorológicas favoráveis.
O submarino chegou ao seu destino com segurança no dia seguinte à noite, onde foi cuidadosamente escondido entre dois grandes navios mercantes que se reabasteciam, convenientemente escondido para não ser visto por satélites ou aviões.
O ardil foi bem sucedido, a julgar pelas entrevistas dadas pelo pessoal inimigo capturado na Geórgia do Sul. Os britânicos estavam muito preocupados em saber o paradeiro do gêmeo ARA Santa Fe.

Na área de operações


Faltando poucas milhas para entrar na área de patrulha, um forte barulho de batida foi ouvido no “espaço livre de circulação”, ou seja, no espaço entre o convés e casco de  resistência, que é completamente inundado em imersão. O comandante Azcueta decidiu então emergir rapidamente antes do pôr do sol, para investigar a origem do ruído, uma vez que estes aumentam a indiscrição do navio.
O mistério foi revelado logo ao emergir: uma pistola de solda que algum operário desavisado tinha esquecido na rápida preparação do navio. O movimento do submarino fazia com que a ferramenta batesse continuamente contra o casco, dando a impressão de que era algo muito mais grave.
Também foi detectado que havia se soltado uma tampa de acesso a uma válvula, que foi prontamente consertada. Toda a operação não levou mais de 15 minutos, depois retomou-se a navegação com segurança.

No final de 28 de abril, às 8h, o ARA San Luis entrou furtivamente em sua área de patrulha, nome código “Maria”, ao norte da Ilha Soledad, muito próximo à costa. No dia seguinte, como consequência direta do ataque surpresa britânico a Grytviken, no sul da Geórgia, se levantaram as restrições à utilização de armas.
Se o comandante Azcueta tinha alguma dúvida sobre a existência ou ausência de atividade inimiga na área, esta foi dissipada em torno de 09:40h de 1º de maio, quando seu sonar detectou um ruído imediatamente classificado como um “escolta tipo 21 ou 22″, “baseado no ritmo de suas hélices e emissão do seu sonar tipo 184″. O alvo operava com helicóptero e navegava a 18 nós.
Azcueta então ordenou postos de combate e aumentou a velocidade ao máximo, para encurtar a distância do alvo: 13.000, 12.000, 11.000, 10.000m, içou o periscópio brevemente, mas uma espessa neblina o impediu de ver alguma coisa.
Quando o alvo estava a uma distância inferior a 9.500 metros, Azcueta ordenou o lançamento do seu primeiro torpedo SST-4, o primeiro lançado pela Armada Argentina em tempo de guerra, parando as máquinas no último momento para facilitar a guiagem manual do torpedo.
Eram 10h15. Dois minutos após o lançamento foi recebido o sinal “cabo cortado” e nenhuma evidência de que o alvo tinha sido atingido. Quase imediatamente o submarino começou as manobras evasivas, antecipando um possível contra-ataque inimigo, mas ele nunca aconteceu. Aparentemente, os ingleses nunca souberam de sua presença.
Para economizar combustível e evitar ser detectado por helicópteros anti-submarino que estavam operando nessa área, o San Luis pousou no leito marinho em torno das 16h25 e lá permaneceu nas cinco horas seguintes.
Quase todos os dias foram obrigados a jogar gato e rato com os navios de superfície e helicópteros anti-submarino britânicos que se movimentavam através da área, tendo que repetidamente interromper abruptamente a recarga das baterias, por causa dos contatos hidrofônicos constantes mantidos com o inimigo.

Mais problemas



Em 4 de maio, outro revés operacional atingiu o San Luis: um de seus dois conversores de 400 Hz ficou inesperadamente indisponível.
Sem um dos seus conversores, o submarino ficou ainda mais limitado, impedido de operar plenamente os seus equipamentos mais essenciais, como sonar, radar, os emissores, a giro, e o próprio sistema de armas.
Com mais este problema, além de outras falhas, que a tripulação teve de reparar precariamente, com os poucos elementos disponíveis a bordo do submarino, tornou muito mais arriscada a operação, apesar do moral da tripulação e a disposição do comandante de continuar lutando não diminuírem em nada.
Naquele mesmo dia, dois jatos Super Étendard pertencentes à Segunda Escuadrilla Aeronaval de Caza y Ataque foram vetorados por um antigo bimotor P-2H NEPTUNE, até um grupo de alvos que navegavam a 100 milhas ao sul de Puerto Argentino, em missão de “piquete-radar”. Por volta de 11h05, os aviões argentinos dispararam mísseis Exocet AM39 simultaneamente, para alcançar o destróier tipo 42 HMS Sheffield, de 3.660 toneladas.
No primeiro momento os britânicos acreditaram terem sofrido um ataque de torpedos, mas um voo de reconhecimento realizado dez minutos depois  do ataque revelou um enorme buraco de 3 metros de diâmetro acima da linha d’água, a boreste do navio, que só poderia ter vindo de míssil ar-superfície.
Não só mostrou que o grupo de batalha britânico estava vulnerável à aviação argentina, como provocou pânico nos altos comandos militares ingleses, por mostrar a possibilidade de perder-se um dos seus dois valiosos porta-aviões, o que até então era considerado impensável.
O submarino ARA San Luis recebeu o relato sobre o  HMS Sheffield às 21h14 [hora argentina] e recebeu ordens de ir à toda velocidade para a última posição conhecida do navio inimigo, a fim de confirmar o afundamento dele e obter alvos de oportunidade. Inexplicavelmente esta ordem foi revogada em poucas horas, permanecendo o San Luis na zona de operações.

Novos alvos


Quatro dias mais tarde, os sensores acústicos captaram outro alvo, desta vez no setor de popa do submarino, com todas as características de um contato inteligente e, portanto, hostil.
Um tripulante relatou: “Nós sentimos muito perto do casco acima da popa, embora não possa garantir que não era um torpedo”. De qualquer maneira, o comandante ordenou imediatamente manobras evasivas e lançamento de engodos (chamarizes) para evitar a ameaça iminente.
No dia 8 de maio, às 21h42, o alvo foi detectado a uma curta distância e o comandante Azcueta decidiu lançar um torpedo MK.37, a uma distância inferior a 2.500 metros. A explosão ocorreu 16 minutos após o lançamento, mas não foi possível especificar o seu resultado.
Esta ação despertou depois da guerra, críticas injustificadas daqueles que eram encarregados de avaliar as ações de combate, sem levar em conta a experiência mínima disponível da “Força de Submarinos” na classificação de alvos pois, na esmagadora maioria dos casos, os navios modernos da Armada não eram aproveitados para o treinamento dos submarinos, relegando a estes apenas o treinamento de combate submarino versus submarino.
A terceira oportunidade de ataque surgiu ao amanhecer do dia 11 de maio, quando se obteve um novo contato hidrofônico de dois alvos de superfície que navegavam próximo à boca do Estreito de San Carlos. O destino tinha colocado o San Luis entre os dois navios inimigos, numa ótima posição para um ataque com torpedos.
Na superfície reinava uma escuridão total, impossibilitando a visualização das embarcações através de periscópio. O comandante Azcueta decidiu primeiro atacar o alvo localizado mais ao sul, uma vez que era menor a probabilidade de erro na estimativa da direção e da distância.
Por volta de 01h40, a uma distância de 8.000m, ordenou lançamento a partir do tubo nº 1, mas com falha deste, teve que lançar com o nº 8, com a distância do alvo já reduzida para 5.200 metros. Após 3 minutos de corrida do torpedo, o sinal luminoso de “cabo cortado” foi recebido no console de direção de tiro.
San Luis então se dispôs imediatamente a atacar o segundo alvo, localizado um pouco mais a norte, mas desta vez o alvo deixou o local em alta velocidade e Azcueta decidiu abortar o lançamento.
Pouco depois da operação, o comandante enviou uma mensagem para a COFUERSUB dando conta do seu ataque frustrado e sobre o comportamento errático do último torpedo. Apesar de ter excelentes informações do alvo e uma posição para fazer o disparo, concluiu que “o sistema de armas não era confiável “.
Esta mensagem finalmente convenceu o Alto-Comando naval argentino que o San Luis tinha que voltar para casa.
Para evitar a interferência com outras unidades que estavam operando em águas próximas da costa Argentina, foi feita uma rota direta para o extremo sudeste da área de treinamento de submarinos em frente a Mar del Plata e a partir dali, tomou-se uma rota costeira para o acesso ao canal da Base Naval de Puerto Belgrano.
Na noite de 19 de maio, o ARA San Luis regressava à sua base, depois de 39 dias de patrulha e 864 horas de imersão. Após algumas horas depois de atracado, seu segundo conversor de 400 Hz também ficou completamente fora de serviço.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Arma Guiada Anticarro (ATGM/ATGW) #070



Os ATGM (Anti-tank guided missile – Míssil guiado Anticarro) ou ATGW (Anti-tank guided weapon – Arma guiada Anticarro) são sistemas de armas destinados prover a infantaria de fogo anticarro a médias e longas distâncias, onde armas não guiadas leves não teriam efetividade, e vieram para ocupar o lugar dos canhões anticarro da II Guerra Mundial. 

São concebidas em tamanhos diversos, podendo ser lançadas do ombro de um soldado como FGM-148 Javelin norte-americano com alcance de 2.500 metros a sistemas mais pesados como o AGM-114 Hellfire II com alcance de 8.000 metros, que são lançados de reparos mais pesados ou montados em veículos e aeronaves. 

Estas armas, juntamente com suas pares não guiadas, deram a infantaria a capacidade de enfrentar carros blindados a distâncias maiores. Os carros de combate principais modernos (MBTs), possuem blindagens poderosas e são imunes a estas armas, porém suas lagartas ainda se mostram vulneráveis.

A II Guerra Mundial viu o nascimento desta arma de forma muito limitada, na forma do X-7 Rotkappchen alemão que podia alcançar seu alvo a cerca de 1.200 metros transportando um ogiva HEAT de 2,5 kg de HE e capaz de perfurar uma armadura de até 205 mm. Era lançado pela infantaria a partir de um trenó, guiado por fio (MCLOS) e controlado por um joystick. Pesava 9 kg e viu combate no final de 1944, em pequena escala. Sua precisão em intervalos mais longos era prejudicada pela incapacidade do operador de saber se o míssil tinha passado ou não do alvo, pelas limitações da visão humana. Girava enquanto voava e foi efetivo quanto aos número de blindados atingidos. 

Surpreendentemente não houve desenvolvimentos pelo aliados no pós guerra, sendo o primeiro míssil deste período o SS.10 francês de 1955, adotado pelos US Army. Pesava 15 kg, foi desenvolvido a partir do aprendizado com o X-7 e estabeleceu o padrão para os desenvolvimento subsequentes. Girava enquanto voava, era igualmente guiado por fios e controlado por joystick, e podia atingir seus alvos a cerca de 1.600 m. Sua ogiva de 5 kg HEAT podia perfurar armaduras de até 400 mm. Eram difíceis de operar e foram usados de forma eficaz contra os blindados egípcios pelo exército judeu.


Como o SS.10 da Nord-Aviation era um programa privado, o exército francês desenvolveu o Entac, uma arma que podia alcançar alvos a 2 km e perfurar armaduras de 650 mm, sendo menor e mais leve que seu conterrâneo. Possuia asas enflechadas, o que lhe proporcionava mais fluidez em meio a folhagem que que o SS.10 de asas de ponta cega, que se enredava nos obstáculos de voo. Foi adotado por 14 países no período de 1958 e 1974, entre eles os EUA que o utilizou como MGM-32.

Em 1951 os EUA desenvolveram o Dart de 45 kg, pesado e ineficiente foi um fracasso. Em 1958 ingleses e australianos desenvolveram o Malkara, um engenho ainda maior de 94 kg, tinha uma ogiva de 26 kg HESH desnecessária. Serviu no British Army e foi aposentado na década de 60. Em contrapartida os suecos desenvolveram o Bantam, um míssil de 8 kg, com asas dobráveis de ogiva de 2 kg HEAT. Foi um sucesso junto a infantaria, sendo adotado também pelo exército suíço.



Esta primeira geração de mísseis usavam a orientação nominada de MCLOS (Manual Command to Line of Sight – Comando manual para linha de visada). O operador deve guiar manualmente o míssil através de um controle Joystick até o mesmo atingir encontrar seu alvo, observando-o através de um conjunto ótico e visando um flare existente a retaguarda do projétil, que facilita seu acompanhamento visual. São difíceis de operar e não permitem qualquer distração sob pena de perder o míssil, sua é precisão relativa ditada pela habilidade do operador e as limitações do acompanhamento visual. 

Integram ainda esta geração de mísseis o Cobra e o Mamba Alemães, o KAM-3D japonês e o inglês Vigilant, leve e poderoso, um projeto efetivo que substituiu o Malkara no British Army, com uma ogiva HEAT de 6 kg, alcance de 1.370 m e capacidade de penetração de 576 mm de armadura.

Os russos desenvolveram o 3M6 shMet (AT-1 Snapper) MCLOS de 22 kg e ogiva HEAT de 6+ kg, alcançava 2 km e podia penetrar armaduras de 530 mm (não os 350 mm subestimados pela OTAN). O 3M11 Falanja (AT-2 Swatter-A), que foi produzido em 3 versões. Comandado por rádio MCLOS é disparado de veículos e helicópteros até o alcance de 2,2 km, pesa 25 kg e pode penetrar armaduras de 500 mm. Era complexo e de baixa confiabilidade. Foi sucedido pelo 9M17 F (Swatter B) de segunda geração com 3,5 km de alcance.


O melhor míssil dessa geração, no entanto, foi o SS.11 francês. Pesado demais para a infantaria foi feito para uso montado em veículos e helicópteros, podendo ser operado por infantes em equipes de 4. Pesava 30 kg, voava duas vezes mais rápido que o SS.10 e tinha apenas 50 cm de envergadura com asas enflechadas. Foi adotado por 35 países e chamado de M22 nos EUA.


A Nord-Aviation saiu na frente novamente e deu o passo para a geração seguinte de ATGW. Procurando superar a dificuldades de operação do sistema MCLOS, que era agravada pelo estresse de combate, foi desenvolvido um sistema onde o operador tinha apenas que manter o alvo dentro do aparelho de pontaria do lançador, alinhado em sua linha de visada. Um sensor mede a os sinais IR do míssil, calcula seu desvio em relação a visada e corrige sua trajetória, mantendo-a em direção ao alvo.


O sistema SACLOS (Semi-Automatic Command to Line of Sight – Comando Semi-automático para linha de visada) caracteriza a segunda geração dos sistemas de guiagem de mísseis. Neste sistema todas as correções de direção vertical e horizontal são calculadas automaticamente pelo processador instalado no reparo de lançamento, cabendo ao operador a bem mais simples tarefa de manter o alvo dentro do retículo de mira.

Este sistema se apresentou de 4 forma distintas: a primeira manteve a guiagem por fio (fibra ótica) que é imune a interferências eletromagnéticas mas apresenta restrições para operação em áreas restritas como florestas. pode ainda ser guiado por rádio, que livra a operação de fios que podem enroscar ou romper, mas está suscetível a interferência. 

Existe ainda a guiagem por laser onde um operador ilumina o alvo designando-o, com um feixe de laser que é buscado pela cabeça do míssil, e pode ser bloqueado por fumígenos de bloqueamento específico. Outra forma mais eficaz deste tipo de guiagem e a beam rider, onde o feixe de laser é dirigido a um receptor no míssil, que transmite as informações de correção de trajetória, sendo imune a contramedidas. A guiagem por radar também é usada em alguns modelos, onde um radar de ondas milimétricas ilumina o alvo e o míssil monta este feixe e se dirige até o alvo.

O primeiro míssil russo de 2 geração foi o 9M17P (At-2 Swatter C), que era uma versão SACLOS radar do Swatter B e podia alcançar 4 km. O 9M14 Malyutka (AT-3 Sagger) pesava 11,3 kg foi produzido em versões MCLOS e SACLOS e foi o míssil russo mais produzido de todos os tempos, causando grandes perdas aos blindados israelenses na Guerra do Yom Kippur em 1973. O 9K111 Fagot (AT-4 Spigot) alcança 2 km, pesa 12,5 kg com uma ogiva HEAT de 1,7 kg. O 9M113 Konkurs (AT-5 Spandrel) entrou em serviço em 1974, possuia uma ogiva de 2,7 kg HEAT e penetrava 680 mm de armadura. O Irã produziu uma versão chamada Tosan. O 9K114 Shturm (AT-6 Spiral) é um míssil grande de 31 kg e ogiva HEAT de 5,3 kg e penetra até 560 mm, existindo uma versão termobárica, orientação SACLOS rádio, e alcance de 5 a 7 km, feito para se usado no helicóptero Mi-24.


O primeiro ATGW desenvolvido pelo US Army foi o MGM-51 Shillelagh disparado do canhão de 152 mm do M551 Sheridan e pesava 27 kg. Possuia guiagem SACLOS e também foi usado pelo M60A2. Para a infantaria os americanos desenvolveram o M47 Dragon de 6 kg e guiagem SACLOS. O míssil definitivo para os norte-americanos foi o TOW BGM-51 um míssil de 21 kg e 3,7 km de alcance. Possui uma ogiva de 3,9 HEAT, considerada suficiente  para penetrar os blindados dos anos 80. Existem ainda o Swingfire inglês de 27 kg e 4 km de alcance; o RBS56 Bil sueco que perfura a blindagem mais fina da parte superior dos blindados, o HOT de 27 kg e o Milan de 7 kg, ambos da euromissile.

O ATGW mais importante dos EUA na atualidade é o AGM-114 Hellfire de 43 kg, feito para ser lançado dos helicópteros Apache.  Possui ogiva HEAT de 9 kg em tandem, orientação SACLOS laser e alcança 8 km, podendo calçar várias ogivas. Existem ainda outros modelos pelo mundo de desempenho semelhante.


A guiagem ACLOS (Automatic Command to Line of Sight – Comando automático para linha de visada) é considera a características de terceira geração de sistemas de guiagem de mísseis, sendo o próprio míssil encarregado de todo o procedimento pós-disparo, caracterizando os dispare e esqueça. Normalmente utilizan-se de caçeas IR e podem ser interferidos. São sistemas mais caros que os sistemas SACLOS e apresentam a vantagem do operador poder abandonar a posição após o disparo, evitando fogo de retaliação. Temos atualmente valendo-se da orientação ACLOS o FGM-148 Javelim dos EUA. O 9M123 Khrizantema russo (AT-15 Spinger) pode ser guiado pela forma SACLOS e ACLOS radar, atinge 6km, e perfura blindagens de 1200 mm ERA e possui ogiva termobárcia. Pesa 54 kg. O 9K121 Vikhr (AT-16 Acallion) é o mais novo sistema ATGW russo com 10 km de alcance, guiagem SACLOS beam rider e ogiva HEAT em tandem.
Sistemas russos (Plano Brasil)



Sistemas ATGW
  • Argentina 
    • Mathogo
    • MARA
  • Belarus
    • Shershen
  • Brasil
    • MSS-1.2
  • China
    • HJ-10
    • HJ-8
    • HJ-9
    • HJ-12
    • HJ-73
    • Tipo 98 anti-tanque de foguete
    • Tipo 78/65
  • Croácia
    • RL90 M95
  • Canadá 
    • Eryx
  • França
    • Entac
    • Eryx
    • SS.10
    • SS.11
    • MILAN
    • HOT
  • Alemanha
    • Cobra
    • Cobra 2000
    • Mamba
    • MILAN
    • HOT
    • PARS 3
  • Hungria
    • 44M húngaro
  • Índia 
    • DRDO
    • Nag
  • Irã
    • RAAD (com base na AT-3B Sagger)
    • Toophan
    • Toophan 2
    • Toophan 5
    • Saeghe 1-2
    • Towsan
    • Dehlavie
  • Israel [editar]
    • (atualizado BGM-71 TOW-2)
    • MAPATS
    • Lahat - disparadp p/ tubo do Merkava
    • Espigão
    • Nimrod
  • Itália 
    • Mosquito
  • Japão
    • Type 64 MAT
    • Type 79 Jyu-MAT
    • Type Chu-MAT
    • Type 96 MPMS
    • míssile Multi-Purpose
    • Type 01 LMAT
  • Paquistão
    • Baktar Shikan
  • Sérvia
    • Bumbar
    • ALAS (míssil)
  • África do Sul
    • ZT3 Ingwe
    • Mokopa
  • União Soviética e Rússia
    • Drakon, usado com o IT-1 tanque míssil que viu muito pouco serviço.
    • Taifun, um míssil protótipo que nunca viu a produção.
    • AT-1 Snapper (3M6 Shmel)
    • AT-2 Swatter (3M11 Falanga)
    • AT-3 Sagger (9M14 Malyutka)
    • AT-4 Spigot (9M111 Fagot)
    • AT-5 Spandrel (9M113 Konkurs)
    • AT-6 Spiral (9M114 Shturm) --lançado do ar
    • AT-7 Saxhorn (9M115 Metis)
    • AT-8 Songster (9M112 Kobra) - disparado p/ tubo doT-64 e T-72
    • AT-9 Spiral-2 (9M120 Ataka) - ar-lançado
    • AT-10 Stabber (9M117 Bastion) - disparado p/ tubo raiado do T-55
    • AT-11 Sniper (9M119M Svir / Refleks) - disparado p/ tubo do T-64, T-72 / T-80, T-84 e T-90 
    • AT-12 Swinger (9M118 Sheksna) - disparado p/ tubo do T-62
    • AT-13 Saxhorn-2 (9M131 Metis-H)
    • AT-14 Spriggan (9M133 Kornet)
    • AT-15 Springer (9M123 Khrizantema)
    • AT-16 Scallion (9A1472 Vikhr / Vikhr-M?)
  • Suécia
    • Brigão
    • BILL 1
    • BILL 2
    • MBT LEI
  • Turquia
    • Cirit (Laser Guided mísseis anti-tanque) [1]
    • Mizrak-O (Medium Faixa de mísseis anti-tanque) [2]
    • Mizrak-U (Long Range mísseis anti-tanque) [3]
  • Reino Unido
    • Malkara
    • Red Planet
    • Swingfire
    • Brimstone (lançado do ar)
    • Vickers Vigilant
  • Estados Unidos
    • M47 Dragão (já não está em serviço)
    • Javelin (em serviço)
    • SRAW (em serviço)
    • BGM-71 TOW (em serviço)
    • AGM-114 Hellfire (em serviço)



domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - parte 2 - As máquinas 069



Por Reinaldo V. Theodoro

Os alemães depositaram grandes esperanças em suas novas máquinas. A principal delas, sem dúvida, era o Panzer VI Ausf.E “Tigre”, o tanque pesado que havia sido peça fundamental no contra-ataque de Manstein poucos meses antes. O“Tigre” I que participou da batalha de Kursk pesava 56 toneladas, tinha blindagem de até 100 mm e era armado com o canhão KwK 36 L/56 de 88 mm, além de duas metralhadoras de 7,92 mm.


O Panzer V Ausf.D “Pantera” chegou a Kursk mais como uma promessa do que como uma ameaça real, pois ele ainda sofria de sérios problemas mecânicos. Ele equipou um batalhão da Grossdeutschland e a 10ª Brigada Panzer (a 2ª Divisão SS Das Reich também recebeu algumas unidades dele). Era armado com um canhão KwK 42 L/70 de 75 mm e 2 metralhadoras de 7,92 mm. Seu peso era de 45,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 100 mm.

O cavalo-de-batalha da arma blindada alemã, porém, continuava sendo o Panzer IV, então nos modelos G e H. Este era armado com um canhão KwK 40 L/48 de 75 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 23,5 toneladas e sua blindagem máxima era de 80 mm, além de placas verticais de 5 mm fixadas nas laterais do chassi e da torre, para evitar armas anti-tanques de carga oca.


Apesar de obsoleto, mais de 460 Panzer III ainda estavam em serviço como tanques de 1ª linha, nas versões J, L e M, armados com o canhão de 50 mm longo. De fato, a batalha de Kursk marcou o último emprego do Panzer III como tanque de batalha, sendo relegado depois apenas para a função de apoio, tendo uma versão, a N, especialmente produzida para essa função. Era armado com um canhão KwK 39 L/60 de 50 mm e 3 metralhadoras de 7,92 mm. Pesava 22,3 toneladas e sua blindagem máxima era de 50 mm, tendo recebido também placas verticais extras de 5 mm no chassi e na torre. A sua versão de lança-chamas (Flammpanzer) também participou da batalha.


O canhão autopropulsado “Ferdinand”, baseado no protótipo recusado da Porsche para o “Tigre”, pesava 65 toneladas e sua blindagem chegava a 200 mm. Era armado com o devastador canhão Pak 43/2 L/71 de 88 mm, que podia penetrar 226 mm de blindagem a 30º à distância de 450 metros. Porém, ele não tinha armamento secundário, o que fazia dele uma presa apetitosa para os grupos de destruidores de tanques soviéticos.


O Sturmpanzer “Brummbär” era um canhão de assalto pesadamente blindado destinado à destruição de fortificações. Era armado com um obuseiro StuH 43 L/12 de 150 mm, pesava 28,2 toneladas e sua blindagem chegava a 100 mm.


Também participaram da batalha de Kursk os canhões autopropulsados de campanha “Wespe” e “Hummel”, presentes em bons números pela primeira vez, o estreante caça-tanques “Hornisse”, ao lado de modelos mais antigos como o Marder II, e o canhão de assalto StuG III.


Os aviões alemães ainda eram os mesmos tipos que participaram da “Barbarossa” dois anos antes, embora em modelos mais recentes. Os caças alemães eram principalmente o Fw 190A-5 e o Me 109G-6 “Gustav”. Entre os aviões de ataque ao solo, enquanto o novo Henschel Hs 129B, avião anti-tanque, fazia a sua estréia em bons números, o veterano Ju 87 Stuka (nas versões D e G) fazia a sua despedida da função de bombardeiro de mergulho, pois ele só podia sobreviver onde a Luftwaffe tinha a supremacia aérea, o que já estava se tornando coisa do passado. Os bombardeiros de nível ainda eram o He 111 e o Ju 88, nas versões H-16 e A-4, respectivamente.


Do lado soviético, o T-34 foi o tanque onipresente em toda a batalha. Em Kursk, o Modelo 1942, de torre hexagonal soldada, já se fazia presente em grandes números. Ele pesava 27,8 T e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 2 metralhadoras de 7,62 mm. Sua blindagem máxima, na torre, era de 65 mm.


Apesar de menos numeroso (cerca de 200 unidades em Kursk), o KV-1 ainda estava em serviço em meados de 1943, embora já estivessem em vias de produção o KV-85 (um KV com uma nova torre e um canhão de 85 mm) e seu sucessor definitivo, o JS. Ele pesava 42,5 toneladas, tinha blindagem máxima de 82 mm e era armado com 1 canhão F-34 Modelo 1940 de 76,2 mm e 3 metralhadoras de 7,62 mm.


Os soviéticos depositaram uma grande parcela da tarefa de deter os alemães às suas armas antitanques. Embora fossem utilizados calibres de 45 e 57 mm, o canhão anti-tanque mais importante dos soviéticos nessa ocasião era o ZiS-3 de 76,2 mm, que participou da batalha em carreta de campanha ou na versão autopropulsada, o SU-76. Este pesava 11,2 toneladas e sua blindagem máxima era de 35 mm. Equipava os regimentos de canhões AT autopropulsados e podia atuar como antitanque ou como apoio de infantaria. Lançado em janeiro de 1943, o SU-122 era um canhão de assalto baseado no chassi do T-34. Inicialmente, equipou com pequenos números os regimentos de SU-76. Era excelente contra pontos-fortes, mas não tinha bom desempenho como antitanque. Ele era armado com 1 canhão M-30S de 122 mm, tinha blindagem máxima de 45 mm e pesava 30 toneladas.


Kursk também marcou a estréia do SU-152, um SU-122 armado com canhão de 152 mm, que esteve presente em pequena quantidade. Os soviéticos contavam também com tanques leves T-70 (inúteis contra tanques) e alguns modelos fornecidos pelos aliados ocidentais, em particular o tanque médio M3 “Lee” americano e o tanque pesado Churchill britânico. Considerados muito inferiores aos seus próprios modelos, foram mesmo assim lançados em batalhas importantes como em Stalingrado e Kursk, às vezes em unidades de Guardas.


A aviação soviética finalmente começava a apresentar aparelhos tão bons quanto seu inimigo. Entre os caças, o Yak-3 fazia a sua estréia, combatendo ao lado de aparelhos como o Yak-1M, o Yak-9D e o La-5FN. O Il-2m3 “Shturmovik” era então considerado o melhor avião de ataque ao solo do mundo, armado com dois canhões antitanques de 37 mm e bombas. O versátil Pe-2 era o bombardeiro leve padrão da Força Aérea Vermelha e o Pe-8 e o DB-3F, bombardeiros de nível da Força Aérea Estratégica, também deram sua contribuição.

Parte 1      Parte 3

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Batalha de Kursk - Parte 1 *068




Por Reinaldo V. Theodoro


INTRODUÇÃO: 

A 2ª Guerra Mundial foi uma hecatombe sem paralelo na história da Humanidade. Ela representou uma violenta ruptura entre o mundo colonialista pós-revolução industrial e o atual, não apenas nos campos social, político, técnico e geográfico, mas, não menos importante, no militar. 

Neste, o grande conflito deixou claro que a máquina havia se tornado o senhor do campo de batalha. Movendo-se no solo ou sobrevoando-o, atacando ou defendendo, a máquina de guerra tornou-se o fator determinante na definição do vencedor. E a vitória sorriria certamente para o lado que soubesse dispor melhor de suas máquinas em função de sua qualidade, quantidade e organização. E embora os combates corpo-a-corpo, idênticos aos travados durante séculos ainda acontecessem, as batalhas decisivas foram disputadas entre homens que não viam os rostos dos homens que estavam matando. 

Nesse aspecto, a batalha de Kursk é um clássico. Poucas vezes na História, 2 exércitos se lançaram com todos os seus meios materiais numa batalha de “tudo ou nada” como essa. Uma batalha em que o primordial não era conquistar ou matar, mas simplesmente destruir as máquinas inimigas. Mais de 10.000 veículos blindados (entre carros de combate, canhões autopropulsados e transportes blindados) se chocaram numa orgia de destruição sem precedentes. Do desfecho dessa batalha, dependia o resultado da luta no front russo, deste desfecho dependia a vitória ou a derrota na guerra. 

A vitória ou a derrota na guerra definiria como a Europa – e o mundo – viveriam as décadas seguintes. Neste aspecto, Kursk pode mesmo ser considerada uma batalha mais importante que Stalingrado ou que toda a campanha do Mediterrâneo. E, no entanto, sem que ninguém soubesse, já estava decidida desde o primeiro disparo. 



PRIMÓRDIOS:

No verão de 1943, parecia que a Alemanha havia se recuperado do desastre de Stalingrado. Durante fevereiro e março de 1943, a brilhante contra-ofensiva de Manstein havia recuperado Kharkov, detido a ofensiva de inverno soviética e estabilizado a linha alemã. O Alto Comando alemão decidiu então manter a iniciativa, realizando uma nova ofensiva. 

Em 13/03/43, a diretiva para a campanha de verão foi emitida. Ela mencionava que os soviéticos certamente atacariam durante os meses de verão e, portanto, a Alemanha teria que realizar uma ofensiva preventiva. O ponto escolhido era o saliente de Kursk, um bolsão com 175 km de extensão em sua base por 135 km de profundidade. Por vários aspectos, a decisão de atacar ali é bastante compreensível. O saliente de Kursk era um trampolim perfeito para o lançamento de futuras operações dos soviéticos, mas estes só recentemente haviam ocupado a região e ainda estavam consolidando o seu perímetro de 580 km. 

Além disso, o ataque, que recebeu o nome código de Fall Zitadelle (“Operação Cidadela”), não foi planejado originalmente para ser um ataque decisivo. Ele seria apenas um de uma série de ataques locais ao longo do front russo.

Contudo, com o passar do tempo, “Cidadela” recebeu cada vez mais prioridade, sendo destinados a ela mais e mais recursos. Tendo em vista a resistência esperada, considerou-se essencial a concentração do maior número possível dos novos blindados, ainda saindo das fábricas. Isso provocou meses de atraso. Se realizada na primavera, ela teria boas condições de sucesso. Mas, quando foi desencadeada, em julho, a situação no bolsão de Kursk havia mudado drasticamente.

A “Cidadela” foi controversa desde a sua concepção. O General Heinz Guderian, Inspetor-Geral das Tropas Blindadas, não queria nenhuma ofensiva em 1943, visando a plena recuperação da arma blindada alemã; o General Alfred Jodl, Chefe do Estado-Maior do Alto Comando alemão (OKW), queria manter suas reservas à mão para responder aos possíveis movimentos dos aliados ocidentais no Mediterrâneo. Do outro lado, o General Kurt Zeitzler, Chefe do Estado-Maior do Exército (OKH) e os Marechais Erich von Manstein e Günther von Kluge, comandantes, respectivamente, do Grupo-de-Exércitos Sul e do Grupo-de-Exércitos Centro, eram favoráveis a ela. Em face da divergência de seus conselheiros, Hitler adiou a decisão. Ele mesmo chegou a admitir que toda vez que pensava no assunto sentia o estômago embrulhado. O mês de abril passou e nada aconteceu. Após mais alguns adiamentos, a decisão foi tomada a 01/07/43, quando Hitler deu a ordem para iniciar a operação a 05/07/43.

Os soviéticos aproveitaram muito bem a indecisão alemã. Eles haviam recebido informes precisos das intenções inimigas de diversas fontes:  “Lucy”, um espião que agia na Suíça e que recebia informações diretamente de oficiais antinazistas nos altos escalões alemães; o Primeiro-Ministro inglês Winston Churchill, que retransmitia os informes da “Ultra” para os soviéticos (embora sem mencionar a fonte); e do próprio serviço de inteligência soviético, que, por sua vez, capturara máquinas de criptografia “Enigma”.

A questão passou então a se decidir entre esperar o ataque alemão e detê-lo ou atacar primeiro e esvaziá-lo. Os soviéticos decidiram pela primeira opção. Reforçaram e fortificaram o saliente como nunca antes se fizera no front russo. O plano prescrevia que os atacantes seriam desgastados ao máximo e então reservas frescas seriam lançadas numa ofensiva própria, que teria todas as probabilidades de sucesso, uma vez que as reservas alemãs estariam então empenhadas ou destruídas. Mas o sucesso desse plano dependia do Exército Vermelho ser capaz ou não de absorver o impacto da ofensiva alemã. 



OS ATACANTES:

O plano alemão era o tradicional (e manjado) ataque de pinças na base do bolsão, simultaneamente ao norte e ao sul dele. O ataque ao norte seria desfechado pelo 9º Exército, do General Walther Model, parte do Grupo-de-Exércitos Centro. Ele contava com 6 Divisões Panzer, 1 Panzergrenadier e 15 de infantaria, além de um regimento com 90 dos novos canhões autopropulsados “Ferdinand” (656º), um batalhão de “Tigres” (505º) e um batalhão do novo canhão de assalto “Brummbär” (216º). 

Ao todo, ele contava com 1.079 blindados de todos os tipos (excluindo transportes e carros blindados). O 9º Exército tinha ainda 3 companhias de veículos de demolição Borgward B.IV e 2 de “Goliaths” (usados para abrir passagem nos campos minados). Encarregado do ataque ao ombro meridional do bolsão, o Grupo-de-Exércitos Sul, do Marechal Manstein, empregaria o 4º Exército Panzer do General Hermann Hoth e o “Destacamento Kempf”, do General Werner Kempf. Essas forças englobavam 5 Divisões Panzer, 4 Panzergrenadier  e 11 de infantaria, além de uma brigada com 200 dos novos tanques “Pantera” (10ª), um batalhão de “Tigres” (503º) e um batalhão de destruidores de tanques “Hornisse” (560º), totalizando 1.581 tanques e canhões de assalto (incluindo 30 tanques lança-chamas Panzer III “Flammpanzer”).

O poderio das divisões blindadas alemãs então variava muito. Enquanto a 18ª Divisão Panzer somava míseros 75 tanques (dos quais 43 obsoletos), a 3ª Panzergrenadier SS Totenkopf contava com 183 máquinas, incluindo uma companhia com 15 “Tigers".

Ao todo, seriam 900 mil homens, 2.700 tanques e canhões de assalto (63% de todos os blindados  alemães no front russo) e 10.000 canhões. A Luftwaffe tinha então cerca de 1.830 aparelhos em operação na área, divididos entre a Fliegerdivision 1, ao norte, e a Luftflotte IV, ao sul.



OS DEFENSORES:

Poucas vezes na história das guerras, um exército teve tanta antecipação dos planos inimigos e se preparou tanto e tão detalhadamente quanto o soviético para a Batalha de Kursk. Cerca de 300.000 civis foram convocados para trabalhar nas posições defensivas, cavando mais de 5.000 km de trincheiras. As linhas soviéticas foram preparadas com profundidades de dezenas de quilômetros em alguns pontos. Foram organizados vários cinturões de defesa, que consistiam de pontos fortes pesadamente protegidos, com canhões antitanques, morteiros e artilharia. 

Diante desses pontos, extensos campos de minas impediam qualquer tentativa de manobra. Dentro do bolsão, o flanco norte era responsabilidade da Frente Central, do General K. R. Rokossovsky, que contava com cinco exércitos de fuzileiros  (13º, 48º, 60º, 65º e 70º), um de tanques (2º) e um aéreo (16º), além de dois corpos de tanques. 

A Frente Central contava com 1.647 veículos blindados de combate de todos os tipos, dos quais 1.155 eram tanques médios e pesados. A aviação contava com 455 caças, 241 aviões de ataque ao solo e 260 bombardeiros diurnos. O flanco sul era defendido pela Frente de Voronezh, do General Nikolai Vatutin, também composto por cinco exércitos de fuzileiros (38º, 40º, 69º, 6º de Guardas e 7º de Guardas), um de tanques (1º) e um aéreo (2º), além de dois corpos de tanques de guardas, totalizando 1.843 blindados de todos os tipos, dos quais 1.621 eram tanques médios e pesados. 

A sua aviação contava com 389 caças, 276 aviões de ataque ao solo e 172 bombardeiros diurnos. Além disso, as duas frentes teriam o apoio do 17º Exército Aéreo da Frente Sudoeste e da Força Aérea Estratégica.

Atrás dessa formidável defesa, estavam as forças da Frente da Estepe, do Coronel-General Ivan S. Konev, destinadas a contra-atacar qualquer penetração que os alemães conseguissem ou lançar uma ofensiva própria, conforme as circunstâncias.

Era composta por cinco Exércitos de fuzileiros (27º, 47º, 53º, 4º de Guardas e 5º de Guardas), um de tanques (5º de Guardas) e um aéreo (5º), além de um corpo de cavalaria. A Frente da Estepe tinha ao todo 1.701 veículos blindados, dos quais 1.380 eram tanques médios e pesados.

Toda a batalha estaria sob o controle direto do Marechal Georgi K. Zhukov, provavelmente o militar de folha de serviços mais brilhante da 2ª Guerra Mundial, sem ter uma única derrota em seu rol a partir da batalha de Khalkin-Gol, contra os japoneses, em 1939. Ao todo, estariam diante dos alemães, somente dentro do bolsão de Kursk, cerca de 1.340.000 homens, 3.300 tanques e canhões de assalto, 2.650 aviões, 13.000 canhões de campanha e morteiros, 6.000 canhões anti-tanque e 920 lançadores de foguetes (o famoso “Katyusha”).



AS TÁTICAS:

A tática favorita dos comandantes de blindados alemães era a “Panzerkeil” (Cunha Blindada), uma formação de vários “V” sucessivos, onde os blindados mais pesados avançavam no “V” da vanguarda, com o vértice apontado para a frente, permitindo que os tanques dotados de blindagens mais pesadas – e que suportariam melhor os golpes das defesas – proporcionariam a ruptura da linha inimiga, permitindo então que os blindados mais leves e a infantaria, vindo atrás, aproveitassem para efetuar a consolidação do terreno e a exploração. 

Esta foi a tática adotada pelo Grupo-de-Exércitos Sul. As divisões blindadas de Manstein tinham frentes de apenas cerca de 3 km, o que lhes permitia uma concentração de 30 a 40 carros por quilômetro. Além disso, como a velocidade era essencial, ele deu ordens para não parar nem mesmo para socorrer tripulações de tanques imobilizados (o que se revelou uma sentença de morte para muitas delas). 


Já o 9º Exército, ao contrário, estava bastante ciente de que teria pela frente fortes defesas antitanques. Model apostou suas fichas no trabalho das equipes infantaria-tanques, no emprego maciço de artilharia e no metódico trabalho de eliminação dos pontos-fortes, para só então lançar suas reservas blindadas. Ele tinha menos blindados que seus compatriotas no sul e havia recebido os mais novos canhões de assalto de apoio à infantaria (o “Ferdinand” e o “Brummbär”). Desse modo, a abertura do ataque se faria com nove divisões, reforçadas com canhões de assalto, das quais somente uma era Panzer (a 20ª). As tropas alemãs de todas as armas foram submetidas a intenso treinamento nas semanas que precederam a batalha, utilizando, inclusive, tiro real e campos minados soviéticos reais. 


Os soviéticos, por sua vez, consideravam que toda defesa era, primordialmente, antitanque. Eles desenvolveram a técnica defensiva usada pelos alemães conhecida como “Pakfront” (Frente de Canhões Anti-Tanques). Cerca de 10 canhões antitanques, normalmente de 76,2 mm, eram agrupados em posições fortificadas, cobrindo a frente de vários ângulos diferentes, mutuamente apoiados e perfeitamente camuflados. 

No apoio a eles havia infantaria, morteiros e artilharia de campanha. E, à frente e em volta deles, havia extensos campos minados (ao todo, foram instaladas 503.663 minas antitanque e 439.348 minas antipessoal ao longo do bolsão). A densidade dos campos minados chegava, em alguns pontos, a 1.700 minas antipessoal e 1.500 antitanque por quilômetro de frente. Além disso, havia destacamentos de engenharia que implantariam campos minados novos à frente de unidades inimigas que penetrassem a linha principal. 


A primeira tarefa dos alemães, portanto, era abrir caminho nos campos minados. Mas os sapadores alemães tinham dificuldades extras. Eles não podiam utilizar detetores de metal, pois os soviéticos utilizavam muitas minas de madeira e papelão. Para piorar as coisas, a região de Kursk é rica em magnetita, a tal ponto que as bússolas não funcionavam direito ali. Com isso, os detetores de minas também não funcionavam, de forma que os alemães teriam que remover as minas literalmente “à unha”.

Havia também os grupos de destruidores de tanques, equipados com fuzis antitanque (já obsoletos, mas ainda úteis contra blindados mais leves), minas magnéticas, “coquetéis Molotov” e cargas explosivas. Enquanto os morteiros, as metralhadoras e a artilharia de campanha mantinham a infantaria longe dos seus tanques de apoio, esses grupos aproximavam-se pelos seus ângulos mortos e usavam todos os seus recursos para incapacitar o blindado inimigo. 

Como os alemães, as tropas soviéticas também foram submetidas a treinamento, incluindo as unidades que mantinham a linha de frente, através do rodízio de pequenas unidades. A ênfase de todo o treinamento era a destruição de blindados, a ponto de Krushchev, futuro premier soviético, mas então membro do Soviet Militar da Frente Central, ter declarado que todo soldado devia saber os pontos fracos do tanque “Tigre” tão bem como sabia o “Pai Nosso”.

Os soviéticos também realizaram um prodigioso trabalho de camuflagem, tanto escondendo instalações reais quanto criando posições falsas. Diversos relatos da batalha dão conta de que os atacantes só descobriam estar num campo minado ou próximo a um ponto forte depois que o primeiro tanque explodia.

Os soviéticos, porém, cometeram um pequeno equívoco: concluíram que o esforço principal alemão seria no norte, tendo aí concentrado mais meios que no sul. Mas, em vista das maciças concentrações de recursos em todo o bolsão, esse erro foi quase insignificante. 

Em ambos os ombros do saliente de Kursk, os soviéticos desfrutavam de superioridade numérica em todos os aspectos. No norte, os defensores tinham uma superioridade de 2:1 em artilharia e de 3:2 em blindados. No sul, a superioridade era de 7:3 em artilharia e de quase igualdade em tanques (sem contar com a Frente da Estepe).

Havia ainda a agravante de que a maioria dos tanques soviéticos era o famoso T-34, em contraste com a maioria de Panzer III e IV dos alemães. E embora os novos blindados dessem aos germânicos a superioridade técnica sobre os soviéticos pela primeira vez desde o começo da guerra, não havia número suficiente deles para compensar as massas de T-34 que logo seriam jogadas contra eles. 

Parte 2 - As Máquinas