FRASE

sexta-feira, 19 de julho de 2024

O Sistema Artilharia de Campanha *153


A Artilharia de Campanha é um sistema relativamente complexo, que ao contrário de um grupo de combate de infantaria (GC) ou um pelotão de carros de combate (tropa de cavalaria) que pode combater de forma isolada, necessita de pelo menos 3 operadores sem os quais não tem como realizar o tiro.

São estes a linha de fogo (LF), o observador avançado (OA) e a central de tiro (CTir). A Artilharia age em seu emprego padrão em proveito das armas-base, e posiciona-se à retaguarda destas, pronta para atender seus pedidos de fogo, embora possa também atuar em missões de aprofundamento do combate atendendo à pedidos de fogo do escalão superior. Esta distância depende do alcance do material disponível, que não é empregado no seu limite quando do posicionamento das baterias, pois esta prática sacrificaria a flexibilidade do tiro que tem como uma de suas características a capacidade de ser transportado rapidamente de um ponto a outro sem que os obuses tenham que trocar de posição. Vale lembrar que sempre que existir o risco de fogo de contrabateria, deve-se trocar de posição imediatamente após a missão de tiro ter sido concluída.



Uma bateria de Artilharia posiciona-se alguns quilômetros à retaguarda da tropa apoiada, geralmente protegida por uma massa de cobertura (elevação) quando esta existir, e dispara seus projéteis em trajetória balística nos alvos que lhes forem designados, muitas vezes por cima das cabeças dos combatentes que estão em contato direto com o inimigo, em proveito destes.

Devido a esta distância, é impraticável que as baterias possam visualizar seus alvos, cabendo esta função ao observador avançado (OA). Este acompanha ou não os pelotões da tropa apoiada e em contato com seus comandantes, elabora os pedidos de tiro com base nas necessidades táticas destes. Estes pedidos são transmitidos à central de tiro (CTir), que os transforma em elementos de tiro (deriva e elevação), que por sua vez são alimentados nos aparelhos de pontaria das baterias para que as missões de tiro possam ser desencadeadas. Estes pedidos de tiro são transmitidos tradicionalmente via rádio ou telefone, e mais recentemente via link de dados, o que denota a importância de um eficiente sistema de comunicações que apoie o trabalho dos operadores do tiro. Podemos considerar estas ligações de direção de tiro (comunicações) como um quarto operador do sistema de artilharia de campanha.

Uma missão de tiro inicia-se com um pedido de tiro vindo do OA, de um componente da arma-base, da artilharia divisionária, do comando do escalão superior ou outro ator que necessite de apoio de fogo. São repassados neste pedido as coordenadas do alvo no caso de outros "clientes", e em se tratando do OA, cuja posição no terreno é conhecida pela CTir, do ângulo do alvo em relação ao norte partindo da sua posição e a distância que o alvo encontra-se deste. Utilizando-se de meios modernos esta posição pode ser determinada automaticamente por dados de GPS transmitidos via data-link, e o pedido é inserido automaticamente no computador do coordenador de fogos, seja da artilharia divisionária ou de exército (central de tiro de alto escalão cuja função é administrar a distribuição às diversas linhas de fogo, os pedidos de tiro vindo de inúmeras fontes) ou do próprio grupo de artilharia, dependendo da vinculação operacional em que se esteja inserido.


De posse das coordenadas do alvo, informadas ou calculadas a partir da posição do OA, a CTir mede a distância do alvo ao centro de bateria obtendo o alcance a ser utilizado, e consultando tabelas de tiro pré-calculadas para cada alcance obtém a alça (ângulo de tiro) a ser alimentando na peça de artilharia, assim como determina a carga necessária (quantidade de carga de projeção - pólvora a ser utilizada). Mede também o ângulo horizontal (deriva) em relação ao ponto de referência que está sendo utilizado para a pontaria da bateria. Calcula ainda o ângulo de sítio que é negativo se a bateria estiver em um plano mais alto que o alvo e positivo em caso contrário. Podemos visualizar o ângulo de sítio imaginando um triângulo-retângulo no plano vertical e cujas extremidades da hipotenusa sejas as posições do alvo e do centro de bateria. O ângulo formado pela hipotenusa e o plano horizontal é o ângulo de sítio. Este ângulo de sítio é somado a alça anteriormente calculada pela tabela de tiro, resultando na elevação a ser alimentada nos aparelhos de pontaria das peças.


Este elementos de tiro (elevação e deriva) são informados ao comandante de linha de fogo (CLF) que os utiliza para efetuar a pontaria das peças. Utilizando-se de meios modernos todo este processo pode ser automático, visto que as peças, o alvo e o OA tem suas posições determinadas por GPS e são de conhecimento do computador balístico. Este pode apontar a peça ou auxiliar na sua pontaria. O OA informa ainda as características do alvo para que a CTir determine a modalidade de tiro e o tipo de munição a ser usada, bem como a especificação da espoleta para aquela missão, e o número de disparos a ser desencadeado por cada peça.



O CLF após apontar sua bateria e comandar que as peças sejam carregadas autoriza o disparo de acordo com a modalidade de tiro. O tiro, após cumprir sua trajetória balística e ser informado ao OA seu desencadeamento, impacta na área do alvo, é observado pelo OA que comanda a C Tir sua correção, para a esquerda ou direita, mais longo ou mais curto até que satisfaça as especificações de letalidade e precisão, quando é desencadeado na sua forma final de eficácia.

Todo este processo pode se dar por comandos manuais ou de forma altamente automatizada, dependendo da tecnologia disponível. Modernamente utiliza-se localizadores GPS, binóculos com telêmetros eletrônicos para a determinação de distâncias, computadores de coordenação de fogos e balísticos que calculam de forma rápida e precisa os elementos de tiro, tudo interligado por enlaces de dados (NCW). Os alvos são alimentados a partir de uma infinidade de fontes nos computadores de coordenação de fogos, selecionados e priorizados em centrais especialmente dedicadas como as centrais das artilharias divisionárias e de exército, e autorizados conforme sua prioridade.

Uma vez que a linha de fogo (LF) está sob a comando do CLF (oficial que atua como auxiliar do comandante de bateria, e este, além do emprego tático se ocupa de tarefas administrativas), cabe ao comandante da bateria a tarefa de reconhecimento de rotas e posições de troca, de forma que a bateria conta com um plano de emprego constantemente atualizado. Neste reconhecimento o oficial comandante leva em consideração as facilidades de acesso e espaço para desdobramento, resistência do terreno e sua capacidade de suportar o desdobramento da bateria, cobertura e ocultação, contaminação, distâncias e tempo para as percorrer, obstáculos e forças inimigas. Uma equipe, que pode contar com o CLF, pode chegar a nova posição e apontar a bateria, mesmo ela não estando lá ainda.

Um sistema completo de artilharia de campanha envolve ainda elementos de busca de alvos mais sofisticados que podem incluir meios aéreos como drones, operadores de topografia e meteorologia, componentes logísticos e de comando e controle tático. Se houver tempo de realizar um trabalho de topografia, as baterias contarão com elementos de tiro bem mais precisos. Esta descrição procura apenas explicitar de forma simplificada o funcionamento do sistema de observação e fogo, que são o mínimo para que o tiro se realize.



quinta-feira, 18 de julho de 2024

Valor Militar do Terreno *005



Aspectos Estratégico-Operacionais

Toda operação militar se dá no terreno, e sua análise é um dos primeiros fatores a ser considerado no planejamento militar. Suas características irão ditar as linhas de ação dos comandantes militares, pois em função delas se dará toda a manobra pretendida, bem como se desdobrará o suporte logístico necessário. Ao analisarmos o terreno sob a ótica das operações militares, podemos dividir esta análise em dois aspectos distintos, o tático e o estratégico-operacional.

A análise estratégico-operacional do terreno deve ser efetuada por todos aqueles envolvidos no Processo de Planejamento Militar (PPM), sendo praticada principalmente pelos Estados-Maiores das unidades. Quanto maior o escalão envolvido, maior se torna sua importância. Seja na articulação de um sistema de defesa de tempos de paz, ou no planejamento da ocupação de um terreno já defendido pelo inimigo, os estrategistas de uma força armada devem conhecer cada particularidade do terreno que servirá de teatro de operações a fim de que sua características possam ser aproveitadas em benefício da operação. Seu uso racional e inteligente tende a minimizar esforços logísticos desnecessários e prevenir surpresas por parte do inimigo e das condições locais, evitando armadilhas e minimizando perigos que possam se apresentar. As linhas de ação adotadas devem fazer uso das vantagens táticas oferecidas pelas condições já existentes, viabilizando uma manobra eficaz, proporcionando economia de meios e recursos militares limitados, poupando vidas humanas e esforços desnecessários, permitindo a consecução dos objetivos estratégicos em tempo reduzido e causando o menor impacto a população e infraestrutura locais, além de permitir que as forças envolvidas operem dentro do maior nível de segurança possível.

Um processo específico de Integração Missão-Inimigo-Terreno-Condições Meteorológicas-Tempo-Tropas Disponíveis e Assuntos Civis (METT-TC no USArmy) será útil nesta compreensão, pois resulta numa série de mapas e gráficos envolvendo os aspectos do terreno propriamente dito relacionados aos demais aspectos ali presentes.



Ocupando o Terreno

A ocupação militar de um terreno pode-se dar através de um desembarque administrativo, quando não existe perigo de resistência inimiga, onde os modais de desembarque estão dominados por forças amigas, e as forças o ocupam de forma tranquila através da utilização de estradas, portos e aeroportos já defendidos ou não ameaçados. Ou através de um assalto, onde o inimigo espera a invasão e oporá resistência, demandando uma operação militar complexa e traumática, que poderá fracassar se mal implementada, como ocorreu na operação "Market-Garden" na Segunda Guerra Mundial.

Um primeiro aspecto a ser observado é a forma de se chegar ao local das operações, se através de praias ou portos, aeroportos e bases aéreas, fronteiras secas usando estradas e pontes, rodoviárias e ferroviárias. Estes terminais. mesmo os secundários, deverão ser ocupados o quanto antes, pois será através deles que toda a logística fluirá ao longo da campanha, e não somente no dia D da operação de ocupação. Quanto mais adequados forem os terminais, mais facilmente o apoio chegará a frente.

Verificar as condições locais permitirão a ocupação ou se providência devem ser implementadas, que características possuem, se estão defendidos ou não, se comportam o volume da invasão, se as tropas que chegam terão espaço suficiente para estacionamento, se recursos valiosos como fontes de água potável e energia elétrica existentes podem ser utilizados, etc... Uma vez ocupado o terreno e estabelecida a chamada cabeça de ponte, deve-se desdobrar o aparato logístico necessário ao suporte às tropas na velocidade suficiente para que possa suportar as forças em ocupação de forma que estas possam resistir com sucesso aos contra-ataque dos defensores. A proximidade de fronteiras de países aliados ou hostis deve ser observada e as consequências desta consideradas.

Áreas de estacionamento específicas para o aparato logístico e combatente devem ser estabelecidas, sempre próximas à linhas de comunicação adequadas e suficientes, como malhas várias e ferroviárias, aeródromos e portos com capacidades compatíveis às demandas, áreas de segurança em torno desta vital retaguarda e rotas de fuga que se fizerem necessárias. Uma avaliação imprecisa do terreno pode condenar tropas por falta de suprimento, imobilizar colunas motorizadas por deficiência de malha rodoviária ou atolamentos, criar congestionamentos entre unidades impedindo, por exemplo, uma uma tropa em reforço chegue a tempo em uma área de contato com o inimigo. Outro fator que deve ser alvo de atenção são os obstáculos, evitando por, exemplo que um rio não possa ser transposto porque sua ponte foi destruída ou as portadas ainda não desembarcaram do navio. Todo este planejamento se dará através do PPM, já citado.

Organização do Terreno

Todo o terreno ao ser ocupado demandará uma organização tática, de forma a aproveitar suas características no sentido de aumentar o poder combativo da força ocupante, permitindo-lhe o melhor emprego de suas armas e poder de manobra e mobilidade, além de obras de infraestrutura necessárias. Também se busca restringir as possibilidades de atuação do inimigo buscando-se implementar ações de proteção como a construção de fortificações, implementação de dispositivos de camuflagem, construção de obstáculos e outras ações.

Os trabalhos de fortificações de campanha geralmente são realizados em contato com o inimigo ou quando este contato é iminente. Diferenciam-se dos trabalhos de fortificação permanente, realizados em tempo de paz ou quando o inimigo está longe, por serem mais sumários. Enquanto a fortificação permanente é obra de especialistas, a de campanha é missão de todas as tropas de combate, apoio ao combate ou de serviço.

A camuflagem consiste em todos os trabalhos e medidas destinados a proteger a tropa e as instalações contra s observação inimiga. Deve ser encarada como vital e levada a efeito simultaneamente com os trabalhos de fortificações.

Centro Urbanos

De todos os ambientes que se apresentam em uma operação, o ambiente urbano apresenta uma combinação de dificuldades raramente encontradas nos demais. Suas características distintas resultam de uma topografia intrincada e alta densidade populacional. A complexidade da topografia decorre das características artificiais e da infraestrutura de suporte sobreposta ao terreno natural. Centenas, milhares ou milhões de civis podem estar próximos ou misturados com soldados amigos e inimigos, e muitas vezes pode ser difícil distinguir quem é um simples civil e quem é o inimigo. Este segundo fator, e a dimensão humana que representa, é potencialmente o mais importante e desconcertante para os comandantes e os seus Estados-Maiores compreenderem e avaliarem.

Embora as áreas urbanas possuam semelhanças gerais, cada ambiente é distinto e reagirá e afetará a presença e as operações das forças operativas de forma diferente. Uma técnica ou tática eficaz em uma área pode não ser eficaz em outra área devido a diferenças físicas, como padrões de ruas ou o tipo de construção existentes. Uma política aplicada de forma popular à um grupo urbano pode não ser bem aceita por outro devido à diferenças culturais. Todas os ambientes apresentam dificuldades, mas estas são potencializadas nas operações em áreas urbanas. Entra as os dificultadores deste ambiente temos a presença humana que dificulta a manobra sem efeitos colaterais e muitas vezes em precárias condições, as múltiplas possibilidades de emboscadas e esconderijos ao inimigo, a grande quantidade de obstáculos causado por explosões e demolições, a intrincada rede de vias, e outras. Assim, os comandantes em todos os níveis fazem esforços extraordinários para avaliar e entender o ambiente urbano particular para planejar, preparar e executar operações eficazes (combate em localidade).


As áreas urbanas variam em função da sua história, das culturas dos seus habitantes, do seu desenvolvimento económico, do clima local, dos materiais de construção disponíveis e de muitos outros fatores. A mistura em constante mudança de características naturais e artificiais em áreas urbanas apresenta aos comandantes alguns dos terrenos mais difíceis para conduzir operações militares. Embora as áreas urbanas possuam características semelhantes, não há duas idênticas. Operar em Los Angeles, por exemplo, tem pouca semelhança com uma operação em Nova Délhi. Embora conquistar áreas urbanas seja um dos objetivos de muitas operações, sempre que possível devem ser evitadas.

Suprimento de Água, Alimentos, Energia e Recursos Existentes

O suprimento de água é muito importante. As fontes locais, sempre que possível, devem ser utilizadas, pois trazer água de grandes distâncias demanda esforço e dispêndio de recursos que podem ser úteis em outras tarefas, além de oneroso. Deve-se sempre estar atento para a existência de reservatórios, rios e estações de tratamento, e buscar o domínio destes assim que a ocupação for implementada. A ocupação de regiões áridas e com este recurso escasso deve ser cuidadosamente planejada e seu suprimento assegurado. Alimentos "in natura" também podem ser obtidos localmente se existirem e forem de boa qualidade. O suprimento de energia também deve ser aproveitado ao máximo, e o domínio de subestações e linhas de transmissão operacionais pode ser muito útil, além das usinas de produção. Depósitos de combustível, se tomados incólumes, aliviam em muito as necessidades logísticas.

Assuntos Civis

A população local influenciará nas operações de uma forma ou outra, mesmo que de forma passiva e não intencional. Deve-se analisar com detalhes suas características como estruturas, disposição da população de colaborar com as forças amigas e inimigas, organizações relevantes, refugiados, eventos, idiomas, etc...

Forças Marginais

Grupos de ativistas armados, guerrilheiros, carteis de organizações criminosas e outros grupos armados e de ativismo político, marginais às operações, podem estar presentes na área que se vai operar e representarem uma ameaça. Estar bem informado sobre estes grupos é importante, pois eles podem empreender ações hostis às tropas. Se necessário, empreender ações de segurança pode ser essencial na defesa contra esses grupos. Ente outras, deve-se empreender reconhecimentos constantes da área de retaguarda; patrulhamento agressivo nas áreas de defesa e entre as instalações; apoio mútuo entre forças vizinhas; defesa de instalações e zonas críticas; escoltas armadas; emprego de civis como guias; etc... Em situações especiais estes grupos podem aturem como aliados, como no caso da Resistência Francesa e Partisans na Segunda Guerra Mundial, pois geralmente detém um conhecimento apurado do terreno e podem atuar como guias. Forcas policiais devem ser consideradas.

Deve-se buscar informações sobre bases de guerrilhas, líderes dos guerrilheiros e seus colaboradores civis, meios de comunicações e fontes de suprimento. Sua eficiência depende de informes atualizados, e cuidados especiais para impedir que eles os obtenham sobre as operações das forças amigas, instalações e movimentos de tropas devem ser empenhados. Deve ser prestada atenção particular à segurança das comunicações.

Especial atenção deve ser dada às medidas para impedir o apoio logístico à força de guerrilha. Ela não pode operar eficientemente, a menos que obtenha, de algum modo, o apoio da população local. Deve-se envidar esforço continuado para que seja impedido esse apoio nas operações contraguerrilhas.

Aspectos Táticos


Sob o aspecto tático o terreno tem que ser considerado por todos os escalões. Seja no planejamento ou na execução da operação. O comandante militar deverá usá-lo para deslocar e posicionar suas tropas com segurança e efetividade. As características do relevo, vegetação, natureza do solo, hidrografia, obras de arte, localidades e vias de transporte são de suma importância. Dentre o que deve ser minuciosamente analisado estão os corredores de Mobilidade, Acidentes Capitais e Vias de acesso, bem como campos de observação e de tiro, cobertas e abrigos, obstáculos, acidentes capitais, prováveis áreas de engajamento ou de emboscada e outros.


Aspectos Sanitários

Aspectos singulares de cada região não devem ser negligenciados: doenças endêmicas devem ser previnidas, como por exemplo a presença de mosquitos que podem ser muito danosos as forças, transmitindo malária, dengue e outras. Águas não tratadas podem transmitir cólera e outras doenças parasitárias. Doenças podem minar totalmente o poder de combate de uma força inteira.

Mobilidade, Obstáculos e Cobertura

Estradas são de importância vital em qualquer ocupação, e embora forças militares contem com veículos "off road", este tipo de deslocamento só é viável em percursos pequenos. Seu domínio, bem como seus entroncamentos são objetivos primários de qualquer força ocupante. É importante assegurar os pontos críticos dos itinerários como pontes, túneis e locais de afunilamento.

Terrenos restritos como áreas muito acidentadas com abundância de elevações íngremes, desfiladeiros e áreas pantanosas são propícios à defesa por obrigar a passagem em pontos pré-definidos, e podem amenizar a provável superioridade numérica do atacante. Estes locais são propícios a construção de obstáculos e canalização do movimento, facilitando o escalonamento de um dispositivo de defesa em profundidade. Terrenos planos e amplos facilitam a ação de forças mecanizadas e são mais difíceis de defender. Áreas minadas são especialmente adequadas a prover segurança neste tipo de terreno, porém demandam campos minados extensos.


Rios podem ser grandes obstáculos ao deslocamento e excelentes posições defensivas. O domínio de suas pontes é importante e a inoperância ou inexistência destas pode criar grandes problemas ao deslocamento de tropas amigas, exigindo esforços da engenharia, muitas vezes em áreas pesadamente defendidas que exigem grande preparação para travessia, que além do trabalho dos pontoneiros demandam medidas extremas de segurança como a obtenção da superioridade aérea relativa.

Outros obstáculos como barreiras provocadas pelo desabamento de encostas e campos minados exigem esforços de engenharia para ser removidos e podem demandar tempo para serem transpostos. 

Áreas de cobertura são necessárias, principalmente na prevenção a observação aérea. O terreno deve proporcionar esta cobertura através de matas e florestas e instalações subterrâneas, áreas urbanas onde o número de locais cobertos é grande são muito úteis. Áreas urbanas também facilitam a ocultação de tropas numerosas. Em áreas florestais, a vegetação, se densa, pode inviabilizar o movimento motorizado "off road" e sua remoção exigirá esforços de engenharia.


Pântanos devem ser evitados por serem de difícil transposição e abrigarem animais perigosos como crocodilianos e mosquitos. Áreas inundáveis devem ser prevenidas, pois podem causar estragos de grande monta se o inimigo puder manipular comportas e diques.


Elevações e Terreno Alto

O terreno alto propicia o comandamento da região, facilitando a observação e o comando. Posições de tiro, observadores de artilharia, desdobramentos de redes de comunicação e controladores aéreos avançados, também farão bom uso dele. O terreno alto também propicia massa de cobertura a tropas em reserva, áreas de retaguarda e posições de artilharia. O controle destes pontos é importante para se operar em torno deles.


Montanhas e Terreno de Altitude


Operações em áreas montanhosas são revestidas de características próprias. Desprovidas de estradas são uma obstáculo quase intransponível, apenas à tropas a pé especialmente treinadas, muitas vezes servindo como barreira natural. O terreno restringe de forma significativa a manobra, que fica limitada à rede de estradas, se existirem. Montanhas baixas (cerca de até 1500 m) apresentam principalmente restrições ao movimento e queda significativa de temperatura, porém altitudes mais elevadas apresentam frio extremo com rápidas mudanças na temperatura, ventos fortes, ar rarefeito que afeta de forma mais perceptível combatentes e motores a combustão, radiação solar e ultravioleta são mais intensas, tempestades violentas e acúmulo significativo de neve podem ocorrer podendo causar isolamentos por uma ou mais semanas, neblina igualmente intensa ocorre frequentemente, assim como avalanches e deslizamento de rochas. Em altitudes superiores a 3.000 m temos ausência total de árvores.

Altitudes extremas são mais perigosas para as condições físicas do combatente que o fogo inimigo. Um ferimento comum em terreno normal como de um projetil ou estilhaço, pode ser fatal em grandes altitudes. Deslocamentos em alta montanha resultam, com alguma frequência, em ossos quebrados, lacerações profundas, contusões e ferimentos internos causados por quedas ou deslocamentos de pedras. Ulcerações causadas pelo frio e a hipotermia são perigos constantes. O mal da montanha agudo e os edemas pulmonares e cerebrais são frequentemente, podendo ser fatais, e a aclimatação é sempre necessária.

A respiração difícil resultante da baixa pressão atmosférica e do oxigênio rarefeito é outro problema enfrentado pelas tropas. Aqueles que irão operar neste ambiente devem ser selecionados por sua condição física que deve ser acima da média. Soldados de baixa estatura são mais adaptados que os altos e musculosos. Devem ter inteligência acima da média para adaptação mais rápida ao terreno, pois a habilidade mental e física decresce a grande altitude, existindo a possibilidade de ocorrências de desordens de personalidade. Perde-se peso rapidamente. Um programa de aclimatação é o primeiro passo para operar de forma efetiva neste ambiente e demora de 2 a 3 semanas. É necessário fazer um rodízio das tropas em altitudes elevadas a cada 10 dias.

Equipamentos não funcionam como deveriam e as viaturas tem sua capacidade reduzida em 25%, consumindo até 75% a mais de combustível. Motores à diesel não configurados perdem sua eficácia a 3.000 m e podem deixar de funcionar completamente pela insuficiência de oxigênio. A artilharia perde seus parâmetros devido a menor resistência do ar, com os disparos alcançando distâncias maiores, tornando as tabelas de tiro inúteis. Os lubrificantes podem congelar.

O terreno inclui alturas que dominam estradas e vias, as passagens entre as montanhas e os vales, facilitando a vigilância quando não há neblina. Os helicópteros são de muito valor para o movimento da tropa e o transporte do equipamento no terreno difícil, porém perdem sustentação em grandes altitudes, e o transporte feito por animais adaptados pode ser uma alternativa interessante nos extremos. Armas que têm um elevado ângulo de tiro são mais eficientes e pequenos efetivos, em operações descentralizadas são os mais adequados.

Ataques frontais devem ser evitados e a infiltração é a manobra mais usada, demandando forças especialmente treinadas. Forças aeromóveis são muito adequadas para os desbordamentos de maior amplitude. Blindados são pouco efetivos neste locais, mas seu poder de fogo é desejável, sendo a infantaria a estrela neste ambiente. Flancos, desfiladeiros, estradas e os centros de comunicações devem ser sempre protegidos. As operações em montanha são normalmente utilizadas para defender ou conquistar regiões de passagem não sendo um objetivo final. A vigilância aérea é de grande utilidade como um meio de segurança. Embora os contra-ataques sejam operações difíceis, podem ser decisivos.



Meteorologia

Fatores meteorológicos influenciam significativamente nas operações, podendo até inviabilizá-las. Seu entendimento não deve ser negligenciado, especialmente em áreas muitos instáveis. O desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial foi adiado em um dia por causa da meteorologia. Devem ser prevenidos ainda calor ou frio excessivos, particularidades do clima como as chuvas de monções e nevascas que possam inviabilizar a mobilidade. As características do solo que pode ser barrento ou excessivamente fofo também podem prejudicar a mobilidade. Terrenos congelados em fase de derretimento podem gerar lamaçais capazes de imobilizar exércitos inteiros.

Também devem ser considerados os riscos sanitários como a presença de insetos perigosos como mosquitos transmissores de doenças e animais selvagens que ofereçam risco.



O Terreno Ideal

Não se escolhe o terreno em que se vai operar. A situação é que toma esta decisão. Porém quando se tem características diversas em um mesmo local, opta-se pela mais favorável, e o conhecimento do terreno subsidia esta decisão. No aspecto geral o terreno deve ser aproveitado no sentido de proporcionar cobertura as forças, abrigá-las do fogo inimigo, permitir o deslocamento rápido e eficiente valorizando a mobilidade das tropas, Não conspirar contra estas através de particularidades indesejáveis como doenças e revoltas de forças subterrâneas, fornecer sempre que possível recursos diversos e água em abundância, facilitar a manobra e a consecução do objetivo. 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

O Míssil "Hipersônico" - Míssil de Cruzeiro *242


Mísseis hipersônicos são mísseis de cruzeiro (cruise missiles) que deslocam-se à velocidades muito altas, acima de mach 5 (6.000 km/h), e por esta característica são muito difíceis de interceptar. Seguem uma trajetória atmosférica não balística, voando entre 18 e 60 m de altitude. Esta capacidade de manobra e altitudes incomuns podem resultar em sua invisibilidade para os sistemas de alerta precoce durante grande parte de sua trajetória. Em contraste, os mísseis balísticos (BM) voam em altitudes muito mais altas do e seguem trajetórias relativamente previsíveis. Um BM típico viajará no espaço exoatmosférico em uma trajetória parabólica.

Os mísseis hipersônicos seguem uma trajetória não parabólica (de cruzeiro, como um bombardeiro); eles operariam em altitudes significativamente abaixo das dos mísseis balísticos. São capazes de manobrar durante todo o voo. É possível prever a trajetória de qualquer ogiva balística em voo, usando sistemas de alerta antecipado baseado no espaço ou na superfície. Somente se equipados com um veículo de reentrada manobrável (MARV), eles oferecem a chance de manobrar na fase terminal de seu voo (30 segundos antes do impacto).

Os mísseis hipersônicos podem ser usados ​​para ataques rápidos visando ativos de alto valor e urgentes com aviso mínimo, ataques de precisão de longo alcance em alvos bem defendidos a uma distância segura, e melhorar a dissuasão nuclear fortalecendo a capacidade de contornar as defesas antimísseis, embora isso ainda seja um assunto em debate.

Eles representam desafios significativos para os atuais sistemas de defesa antimísseis, como a detecção tardia pelo seu voo em baixa altitude e alta velocidade reduzindo o tempo de detecção, a sua alta manobrabilidade que dificulta a interceptação, exigindo interceptadores mais ágeis e avançados e um consequente tempo de engajamento reduzido para os sistemas de defesa responderem, devido às suas altas velocidades e trajetórias imprevisíveis.

Os desafios técnicos são grandes e envolvem superar obstáculos significativos de pesquisa e desenvolvimento. Dentre os requisitos temos o de Materiais resistentes ao calor, onde as velocidades hipersônicas geram temperaturas extremas, necessitando de materiais avançados como cerâmica para suportar o estresse decorrente. O design aerodinâmico tem que ser otimizado com perfis capazes de minimizar a resistência do ar e gerar as menores temperaturas, dentro das propriedades dos materiais disponíveis. Os motores “scramjet” Garantindo uma mistura eficiente de ar e combustível em um ambiente altamente turbulento, semelhante a “manter um fósforo aceso em um furacão”. A formação de plasma que criam uma nuvem ao redor do míssil, interferindo nos sistemas de comunicação e orientação. E por fim os testes de voo no mundo real que são caros e exigem ampla infraestrutura.

Esses mísseis são caros e tecnicamente exigentes para desenvolver, e seus usos e eficácia ainda estão sendo avaliados. Eles apresentam desafios potenciais para os sistemas de defesa de mísseis existentes devido à sua velocidade, manobrabilidade e altitude, o que pode diminuir o tempo disponível para interceptação.

Tipos

Existem 2 tipos básicos:

Os HGVs (Hypersonic Glide Vehicle - veículos planadores hipersônicos) que são lançados de forma semelhante a um míssil balístico e uma trajetória inicial e depois assume um perfil de planador até o alvo. É um veículo sem motor capaz de deslizar na atmosfera superior, sendo equipado com um pequeno sistema de propulsão para orientação e controle direcional. Montado no topo de um lançador, geralmente um tipo existente de ICBM, que o impulsionará em velocidades hipersônicas. A liberação do foguete de reforço pode ocorrer entre 40 a 100 km acima da superfície da Terra. Em seguida, ele deslizará até seu alvo ao longo de uma trajetória relativamente plana (em cruzeiro).

Os HCM (mísseis de cruzeiro hipersônicos) que são propulsados por motores “scramjets” que são propulsores aspirados, Voando de 20 km a 50 km de altitude. Em conceito, esses sistemas consistem em 2 estágios: uma propulsão à foguete no primeiro estágio e o segundo estágio alimentado pelo “scramjet” que gera empuxo de um fluxo de ar supersônico. Operam em altitudes mais baixas do que os HGVs, ou seja, entre 19 a 48 km acima da superfície.


Alerta Antecipado

Os sistemas de alerta antecipado baseados no espaço podem rastrear um míssil balístico na sua fase de impulsão. Isso permite que um oponente faça uma primeira avaliação do alvo do míssil e calcule o tempo de alerta à sua disposição. Após a detecção por sistemas de satélites, um míssil balístico seria detectado a milhares de quilômetros de distância por poderosos radares de alerta antecipado baseados em terra, o que confirmaria ainda mais a trajetória e o ponto de impacto. Estima-se que os recursos espaciais garantiriam um tempo de aviso de aproximadamente 30 minutos no caso de um ICBM viajando das bases russas de Dombarovsky ou Tatishchevo para a base da Força Aérea Warren dos EUA.

Já os mísseis hipersônicos, como ICBMs, serão detectáveis em sua fase inicial de impulso por sistemas de alerta antecipado por satélite. Depois disso, voando em altitudes mais baixas do que os mísseis balísticos, eles deixarão de ser detectáveis. Após a fase "não observável", os mísseis hipersônicos voando em alturas entre 29 e 40 km se tornarão detectáveis ao viajar a cerca de 400 a 600 km de um radar terrestre. Mesmo se detectados, haverá um alto grau de incerteza sobre seus destinos. Em um contexto em que um radar de alerta antecipado, como o radar Pave Paws dos EUA ou o radar russo Voronezh, é o alvo, o tempo de alerta antecipado seria limitado a 2,5 minutos para um penetrador cruzando a Mach 10.



A Necessidade de Dissuasão Hipersônica

Armas hipersônicas existem desde meados do século XX. Mísseis balísticos são um exemplo, pois operam nestas velocidades. O que diferencia as capacidades hipersônicas de hoje é que, diferentemente dos mísseis balísticos, os HGVs não seguem uma trajetória parabólica até seu alvo, tornando sua reentrada na atmosfera da Terra muito mais rápida e em uma altitude muito menor. Eles podem subsequentemente planar até seu alvo enquanto executam manobras evasivas avançadas sob voo guiado. Além disso, os HGVs podem ter alcances de até milhares de quilômetros, efetivamente os tornando equivalentes a mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs). Recentemente a Rússia utilizou seu modelo Khinzal na guerra da Ucrânia demonstrando o valor destas armas e sua importância que terá em guerra futuras.

Mísseis de cruzeiro hipersônicos voam em altitudes consideravelmente mais baixas, normalmente em torno de 90 metros acima do solo , e também possuem manobrabilidade e velocidade aprimoradas. Consequentemente, armas hipersônicas podem contornar a maioria dos sistemas de defesa tradicionais, e sua detecção representa um sério desafio. Por exemplo, o radar terrestre não pode detectá-los até o final de seu voo. A ameaça é reforçada pelo fato de que eles são capazes de transportar qualquer ogiva, tanto convencionais como nucleares.

Embora vários países, incluindo Austrália, Índia, França, Alemanha, Coreia do Sul, Coreia do Norte e Japão, estejam desenvolvendo ativamente tecnologia de armas hipersônicas, os Estados Unidos (EUA), China e Rússia fizeram o maior progresso até agora. A principal razão para isso, particularmente no caso da China e da Rússia, parece emanar da retirada dos EUA do Tratado de Mísseis Antibalísticos em 2001, e da crescente preocupação de que os EUA podem simplesmente interceptar quaisquer mísseis lançados contra eles.

Conforme discutido anteriormente, o fato de que armas hipersônicas são extremamente difíceis de rastrear e interceptar pelos sistemas de defesa existentes é o que as torna uma nova forma de armamento particularmente perigosa. Os EUA desenvolveram navios Aegis equipados com a capacidade de terminal baseado no mar (SBT), que pode engajar algumas ameaças hipersônicas na última parte da trajetória de voo do míssil, o que é conhecido como fase terminal. O Aegis SBT é a única defesa ativa para combater ameaças de mísseis hipersônicos no momento.

A Agência de Desenvolvimento Espacial dos EUA (SDA) está trabalhando em uma constelação de Camada de Rastreamento que é imaginada como uma rede global de sensores destinados a atuar como um escudo de defesa contra mísseis balísticos e hipersônicos. A missão de segurança nacional da Agência de Defesa de Mísseis (MDA), designada USSF-124, inclui 6 satélites projetados para rastrear mísseis hipersônicos. 4 deles são para a Camada de Rastreamento da SDA, enquanto mais 2 são para o próprio programa Sensor Espacial de Rastreamento Balístico e Hipersônico (HBTSS) da MDA, que foi lançado recentemente. Os sensores HBTSS são projetados para manter rastros de alta fidelidade das ameaças e fornecer os dados para mísseis interceptadores que tentariam derrubá-los. Tanto a Camada de Rastreamento quanto o HBTSS são peças de uma arquitetura de defesa de mísseis multicamadas planejada. A tecnologia de controle de fogo que o HBTSS está buscando demonstrar é necessária para interceptar armas hipersônicas. Os sensores HBTSS são projetados para manter rastros de alta fidelidade das ameaças e fornecer dados aos mísseis interceptadores que tentariam derrubá-los.

As armas hipersônicas estão prontas para desempenhar um papel dominante na guerra futura graças à sua velocidade e manobrabilidade, o que as torna particularmente difíceis de detectar, sem mencionar sua capacidade de transportar ogivas nucleares. Dada a ameaça constante representada pela China e sua crescente proeza no desenvolvimento de armas hipersônicas, a Índia precisa acelerar seus esforços não apenas em armas hipersônicas, mas também na dissuasão. Seria prudente para o DRDO incorporar a defesa hipersônica em seu programa BMD. A Organização de Pesquisa Espacial Indiana (ISRO) também pode servir como uma candidata viável para o desenvolvimento de sensores baseados no espaço, que poderiam ser desenvolvidos ao longo das linhas do projeto em andamento da SDA dos EUA no campo.



O Kh-47M2 Kinzhal Russo

O Kh-47M2 Kinzhal é um míssil balístico russo lançado do ar, com capacidade nuclear. Embora não esteja claro quando seu desenvolvimento começou, esquemas conceituais de mísseis russos Iskander instalados no caça MiG-31 começaram a circular online por volta de 2010. Com base nesses esquemas conceituais, bem como nas capacidades e na aparência geral do míssil, analistas dizem que ele provavelmente é derivado do míssil balístico de curto alcance 9K720 Iskander-M lançado do solo. Os benefícios de criar uma variante de lançamento aéreo incluem maior alcance, capacidade de implantação e flexibilidade em relação aos mísseis Iskander baseados em terra. Além disso, uma animação do Kinzhal foi mostrada mirando navios de guerra, então ele também pode ter (ou planeja-se desenvolver) capacidades antinavio.

A Rússia provavelmente desenvolveu o míssil exclusivamente para atingir mais facilmente infraestruturas europeias críticas (por exemplo, campos de aviação, armazéns, centros de comando, etc.) e para combater as defesas antimísseis de teatro dos EUA, como o THAAD. A capacidade de uma aeronave de lançar de direções imprevisíveis forçaria radares setorizados (não 360 graus), como os atualmente implantados com o sistema Patriot. Além disso, se o Kinzhal realmente tiver capacidades antinavio, ele também pode representar uma ameaça aos porta-aviões dos EUA e da OTAN.

Especificações

O Kinzhal tem um alcance relatado de 1.500-2.000 km enquanto carrega uma carga nuclear ou convencional de 480 kg. Acredita-se que o alcance do míssil excederia 3.000 km se equipado no bombardeiro Tupolev Tu-22M3. Ele tem dimensões semelhantes ao OTK 9M723 Iskander-M; de acordo com um relatório, o Kinzhal tem um comprimento de 8 m, um diâmetro de corpo de 1 m e um peso de lançamento de aproximadamente 4.300 kg.8 No entanto, há características principais distintas do Iskander baseado em terra, incluindo uma seção de cauda redesenhada, lemes reduzidos e um toco especial na cauda do míssil projetado para proteger os bicos do motor durante combates em alta velocidade.9

Após o lançamento, o Kinzhal acelera rapidamente para Mach 4 (4.900 km/h), e pode atingir velocidades de até Mach 10 (12.350 km/h). Essa velocidade, em combinação com a trajetória de voo errática do míssil e sua alta manobrabilidade, pode complicar a interceptação. Vale a pena notar que a designação russa do Kinzhal como um míssil “hipersônico” é um tanto enganosa, já que quase todos os mísseis balísticos atingem velocidades hipersônicas (ou seja, acima de Mach 5) em algum momento durante seu voo.

Histórico de Serviço

O míssil teria entrado em período de testes em campos de aviação no sul da Rússia em dezembro de 2017. Em 11 de março, a mídia russa divulgou imagens de um suposto teste de disparo do Kinzhal, que mostrou o míssil equipado em um caça MiG-31 modificado. O vídeo não mostra o ataque resultante, mas o Ministério da Defesa da Rússia anunciou um sucesso: “O lançamento foi normal; o míssil hipersônico atingiu o alvo predefinido no local de teste”. Relatórios russos indicam que o míssil entrou em serviço, e relatórios de 2018 indicaram que seis MiG-31s ​​foram modificados para transportar os mísseis e estão baseados em Akhtubinsk, no sudoeste da Rússia, cerca de 150 km a leste de Volgogrado.

Em 19 de março de 2022, o Ministério da Defesa russo alegou ter disparado um míssil Kinzhal em um depósito de munições ao redor da cidade de Deliatyn, no sudoeste da Ucrânia. Isso marca o primeiro uso conhecido da arma em combate. Os Estados Unidos conseguiram rastrear o míssil “em tempo real” durante seu voo, de acordo com a CNN citando autoridades do governo dos EUA.


terça-feira, 9 de julho de 2024

Munição APFSDS *029


Munição APFSDS

O projétil APFSDS (Armor-Piercing, Fin-Stabilized, Discarding Sabot): Munição perfuradora de blindagem, estabilizada por aletas e de cinta descartável, é um tipo de munição perfurante de atuação por energia cinética que, como o próprio nome diz, não usa explosivos e causa seus efeitos através da intensa dissipação de energia cinética decorrente de seu impacto, através de um elemento de altíssima densidade, ao qual é imprimida enorme aceleração.

É usada para perfurar as armaduras mais avançadas dos blindados modernos de primeira linha, e constitui na principal munição usada pelos MBTs quando em combate direto com seus pares inimigos. Estes projéteis são formados por um núcleo de metal muito duro, como o carbeto de tungstênio ou o urânio empobrecido, e subcalibrados a fim de concentrarem sobre seus alvos uma impressionante carga de energia cinética em área mínima, rompendo as armaduras através do intenso estresse decorrente do impacto, que atinge cerca de 1.800 graus Celcius, e provocando o estilhaçamento e derretimento da armadura, pulverizando com fragmentos o interior dos veículos.



Ela surgiu a partir do aperfeiçoamento nas munições APDS, a fim de obter um tipo de munição para emprego contra as blindagens mais modernas da atualidade. Mesmo sendo eficientes, as munições APDS eram limitadas quanto a sua evolução no acréscimo do seu poder destrutivo, o que se mostra necessário face à crescente evolução das blindagens, que limitadas pelo peso, conseguem se potencializar pela tecnologia agregada. Buscou-se assim um modelo de munição que permitisse um poder de fogo superior através da utilização da energia cinética, uma vez que a munição química atingiu, pelo menos ao que se observa, seu limite contra os carros de combate e suas armaduras de última geração. As características estruturais das modernas couraças permitiram, de forma significativa, superar as munições anticarro até então em uso.

Em relação à munição APDS, mudou-se o formato do penetrador alongando-o, e como consequência reduzindo de forma desejável seu diâmetro, resultando na aplicação de uma massa maior em uma área reduzida, concentrado significativamente a energia cinética resultante do impacto para a penetração da blindagem. 



A capacidade de penetração de um projétil em uma armadura é uma relação direta de sua densidade, massa e velocidade (e=mc2) e a densidade e espessura do alvo. Estes projéteis requerem velocidades iniciais muito altas, o que demandam pressões internas igualmente grandes, não sendo possível dispará-los de qualquer arma. Um penetrador efetivo, além de ser muito denso deverá ser dúctil suficiente para não se quebrar no impacto, e ter a capacidade de sobreviver às altas acelerações do lançamento. Por fim deverá ainda alcançar o alvo em ângulo favorável e sobreviver a contramedidas como as armaduras reativas.

Quanto mais comprida for a haste penetradora, maior será sua massa e consequentemente a energia que transmitirá. O comprimento dos penetradores, no entanto, gira em torno de 30 vezes seu diâmetro para as munições mais modernas. Contudo, projéteis com uma relação comprimento-diâmetro maior que 30, tendem a se deformar após a separação do "sabot" e se partir em contato com blindagens espaçadas. Quanto maior for seu diâmetro, maior será seu arrasto induzido e menor a velocidade de impacto. Como uma haste longa de metal é aerodinamicamente instável, o núcleo conta com barbatanas (aletas) que lhe dão estabilidade em voo, razão pela qual também é conhecida como munição “flecha”. Podem ser disparadas de canhões de alma lisa ou raiada, estes porém, imprimem ao projétil uma rotação que ao mesmo tempo que produzem um efeito estabilizante, reduzem sensivelmente seu desempenho, pois o arrasto decorrente faz com que chegue ao alvo com menor velocidade e consequente impacto menos potente. Canhões de alma raiada também sofrem desgaste excessivo devido à alta pressão, sendo os da alma lisa preferidos para esta munição pois podem disparar seus projéteis sem imprimir giro a eles, razão pela qual os principais MBTs passaram a adotá-los. Apesar das barreiras encontradas, as atuais munições APFSDS já alcançam penetrações de quase 700 mm, o que significa aproximadamente 6 vezes seu próprio calibre, considerando um canhão de 120mm.

O núcleo duro é montado no interior de um invólucro (Sabot -invólucro descartável) que tem por função adequar-se ao diâmetro do cano e é descartado imediatamente depois que deixa a alma da arma, quebrando pelo estresse provocado pela intensa pressão do disparo. Este “Sabot” requer um material extremamente resistente, em sua maioria, confeccionado de uma liga de alumínio de alta resistência. Nos disparos a partir de armas de alma raiada estes invólucros são dotados de obturadores de deslizamento, que permitem que o núcleo gire a uma taxa muito inferior e eles, com sensíveis ganhos aerodinâmicos, pois uma rotação muito alta sobre as aletas produz um arrasto significativo. residual (material radiativo). O tungstênio continua mais abundante e barato, sendo usado pela maioria.


Um “Sabot” usado para lançar um projétil de tungstênio não se presta ao lançamento de um projétil de urânio, mesmo que tenham exatamente a mesma forma. Os dois materiais se comportam de maneiras diferentes sob altas pressões e forças de aceleração elevadas, de modo que o “sabot” é completamente diferente em sua integridade estrutural. Estes projéteis operam a velocidades de 1.400 m/s a 1.900 m/s, porém o comprimento da peça é mais importante do que a velocidade de impacto, embora esta seja fator significativo e uma velocidade mínima essencial. O modelo M829 dos EUA voa a 200 m/s mais rápido que o modelo M829A3 mais novo, porém possui apenas a metade do comprimento e é inadequado a penetração de armaduras compostas de última geração.

Um dos maiores desafios de engenharia ao projetar “sabots” na atualidade é a necessidade de lançar penetradores excessivamente longos (cerca de 800 mm), pois seu peso extrapola o desejado e subtrai velocidade de todo o projétil, chegado a quase a metade da massa de todo o conjunto, além do custo de materiais mais resistentes. Os fragmentos do “sabot” ao serem descartados quando deixam o tubo, também viajam a velocidades muito altas em trajetórias imprevisíveis, oferecendo perigo real às tropas e veículos leves, requerendo seu disparo a observação de critérios mínimos de segurança nos primeiros 1.000 metros.

No que tange à estabilização do projétil, o canhão de alma lisa inicialmente foi essencial para a utilização das APFSDS. Contudo, ele impedia o disparo de outros tipos de munições que requerem rotação, como a APDS e a maior parte das munições de energia química. Para resolver esse problema, foi criada, nos EUA, a munição APFSDS XM578, que continha uma “cinta de escorregamento” (slipping driving band), permitindo à munição ser disparada por um canhão de alma raiada com uma rotação muito menor, que não atrapalhava o desempenho do penetrador. Esta redução de deu da ordem de 780 RPS para 30 a 60 RPS de um típico projétil APDS.

Os primeiros penetradores APFSDS americanos, como os do canhão 90 mm T208, ainda eram feitos de Carbeto de Tungstênio. Este material, por apresentar um altíssimo grau de dureza, porém não tanto de tenacidade, tendia a se partir no impacto, caso o penetrador fosse muito longo. Isso se mostrou um impeditivo para o aumento da relação comprimento diâmetro, que ainda era relativamente baixa (em torno de 8:1). Apesar disso, essa munição alcançava uma velocidade inicial acima de 1500 m/s, o que já era um grande avanço se comparada às APDS. Para melhorar ainda mais seu desempenho, buscou-se desenvolver materiais mais adequados para os penetradores. Foram criadas novas ligas de Tungstênio, com maior tenacidade e densidade do que o Carbeto desse elemento.

Nos EUA e na URSS, o avanço foi ainda maior, vindo-se a utilizar Urânio empobrecido (Depleted Uranium – DU), o mesmo descartado por usinas de energia nuclear, para construir os projéteis. Além de ter uma maior densidade (aproximadamente 18.600 Kg/m³), possui propriedades mecânicas que favorecem sua eficiência. Foi observado, por exemplo, que os buracos feitos por projéteis de urânio empobrecido têm um diâmetro menor que dos projéteis de Ligas de Tungstênio, fazendo assim, com que uma menor quantidade de energia seja utilizada para a perfuração de uma mesma espessura de blindagem, deixando que uma maior parte da energia seja espalhada dentro do blindado inimigo, vindo a lhe infringir o máximo de danos. Além disso, o Urânio empobrecido torna-se pirofórico quando alcança altas temperaturas. Isso significa que o material entra em combustão durante o impacto, fazendo com que o Urânio derretido e seus fragmentos sólidos levem uma grande quantidade de chamas para dentro do blindado atingido, aumentando as chances de incendiar elementos inflamáveis dentro deste, como óleos lubrificantes, combustível e munição empaiolada.

Por causa da densidade e das propriedades mecânicas do Urânio empobrecido, penetradores desse material são capazes de perfurar, em média, 10% a mais que um penetrador similar de liga de Tungstênio. Outra vantagem desse material em relação à Liga de Tungstênio seria o menor custo, porém ele é alvo de críticas humanitárias, devido à sua associação com armas nucleares e com a energia nuclear. Além disso, há preocupação com resquícios de radioatividade e toxicidade, apesar de que os produtores neguem que isso exista em suas munições. Devido a tais preocupações, países como Alemanha e Áustria proíbem a produção e compra de munições de DU. A maioria dos países simplesmente não fazem a utilização, mas não têm legislação proibitiva para isso. Hoje, apenas os EUA e Rússia utilizam flechas de Urânio empobrecido. Contudo, a utilização de DU nos penetradores não é um pré-requisito para a excelência da munição.

Nota-se a pouca diferença de penetração entre as distâncias de 5200 e de 1000 m. A razão para isso é à baixa perda de velocidade da flecha em função da distância percorrida. Ela pode, assim, conservar a energia cinética do disparo e sua letalidade por grandes distâncias. Isto demonstra a alta eficiência aerodinâmica obtida após décadas de evolução das munições de energia cinética. Atualmente, o desenvolvimento dessas munições parece estar latente ou muito vagaroso. O impasse para sua evolução demonstra um aparente limite que ainda não foi possível ultrapassar.

O desenvolvimento de armaduras mais complexas de natureza composta e ação reativa provocaram o desenvolvimento de penetradores mais complexos, com complexas ligas de tungstênio e urânio empobrecido, ambos duros, dúcteis, muito densos e fortes. Porém cada material tem suas particularidades, como o urânio que tem propriedades pirofóricas e seus fragmentos tendem a inflamar no impacto quando em contato com o ar e incendiar combustível e munição do alvo, contribuindo para a letalidade do impacto. Apesar destas características que o tornam um pouco mais efetivo que os projéteis de tungstênio, apresenta inconvenientes sérios e controversos, devido a emissão de radiação residual (material radiativo). O tungstênio continua mais abundante e barato, sendo usado pela maioria.

O urânio empobrecido é um subproduto do processo de criação do urânio mais raro e enriquecido usado em combustível e armas nucleares. Embora muito menos poderoso que o urânio enriquecido e incapaz de gerar uma reação nuclear, o urânio empobrecido é extremamente denso – mais denso que o chumbo – uma qualidade que o torna altamente atrativo como projétil.


sábado, 6 de julho de 2024

Engenharia Militar *241



A Arma de Engenharia, uma da 5 armas-componente presentes em qualquer exército moderno, tem por missão apoiar a manobra das demais tropas no que tange a serviços e informações especializadas, proteção, mobilidade e contramobilidade, além de executar serviços de infraestrutura de toda ordem.

Os meios de Engenharia de uma força armada terrestre devem ser capazes de acompanhar a força a qual apoiam, garantindo seu avanço durante as operações através dos obstáculos que se configurem, permitindo-lhe sua progressão ininterrupta através do terreno, necessitando dessa forma possuir a mesma mobilidade das demais unidades.

Para tanto as tropas de Engenharia sempre compõem a vanguarda de qualquer avanço, colhendo informações técnicas através das atividades de reconhecimento especializado e trabalhando para a consecução de estradas e vias de transposição de terreno sólidas e capazes de suportar o pesado tráfego demandado pelos veículos militares, além de pontes e outros dispositivos necessários a superação de pontos críticos como rios, depressões, terrenos difíceis, florestas densas, campos minados, etc...

Devido as estas condições de emprego, onde o risco de contato com o inimigo está no mesmo nível daquele encontrado pelas tropas das armas-base, as tropas de Engenharia devem dispor de meios e treinamento adequados à sua sobrevivência, sendo uma força combatente com capacidade técnica para serviços especializados, podendo se for necessário, engajar com o inimigo em situações de autodefesa, ou mesmo em reforço às tropas das armas-base.

Além do fundamental apoio a mobilidade desempenhado, as tropas de Engenharia proporcionam também apoio a contramobilidade em combate, através de ações que visem dificultar a manobra inimiga no terreno, como a construção de obstáculos (campos minados, obstrução de vias, alagamento de áreas, etc...) e obras de infraestrutura e proteção.



Reconhecimento de Engenharia

A Engenharia produz dados de inteligência, quer para subsidiar a inteligência militar ou de forma mais especializada com dados importantes às operações das unidades apoiadas. Produzir estes dados é um processo contínuo e permanente. Uma coluna motorizada, por exemplo, não pode deslocar-se por uma via desconhecida sem saber se as pontes suportarão o peso dos veículos, especialmente se estes veículos forem caminhões ou blindados pesados. Este reconhecimento deverá ser intimamente coordenado pelo pessoal de inteligência do escalão superior, o qual agregará aos planos operacionais, através de sua seção de informações, os dados que julgar pertinentes.

Busca-se, através da Engenharia informações sobre meteorologia, topografia, localidades, hidrografia, corredores de mobilidade, itinerários em rodovias e ferrovias ou mesmo “off road”, acidentes capitais relevantes, obstáculos, pontes, vaus, balsas, portos, aeródromos, túneis, campos de observação, campos de tiro, cobertas e abrigos, locais de construção, material e equipamentos de Engenharia, dados sobre suprimento de água e outros itens relevantes. Todas as fontes são úteis como reconhecimento aéreo e terrestre, radares, cartas e fotografias, imagens de satélite, civis e prisioneiros de guerra, dados fornecidos por outras unidades, panfletos e outros.

O reconhecimento, invariavelmente, é executado em áreas próximas ao inimigo, e estes destacamentos que contam com capacidade plena de combate e autodefesa, devem fazê-lo sem engajarem-se em combate se este puder ser evitado, pois não é esta sua missão, salvo ordem contrária. Pode-se obter informes de caráter geral em determinada área ou informes detalhados para uma tarefa específica, sendo que estes seguem-se ao primeiro. O terreno e sua influência nas operações é um dos principais componentes do estudo de situação no PPM (Processo de Planejamento Militar). Determinar sua influência e das condições meteorológicas nas operações é de vital importância.



Emprego Tático

A tropa de Engenharia atua no apoio à mobilidade dos elementos de manobra, executando todos os trabalhos que visem permitir a manobra da força apoiada como a remoção de obstáculos, construção de pontes, demolições necessárias, abertura de brechas em campos minados, consolidação de vias de tráfego e outros que se façam necessários. Atua também no apoio à contramobilidade dificultando a manobra do inimigo através da demolição de pontes, lançamento de campos minados, construção de obstáculos diversos, inundação de áreas alagadiças e outras ações afins. Uma terceira forma de apoio aos elementos são os serviços de proteção que visem reduzir sua vulnerabilidade contra o inimigo e as intempéries, como a construção de fortificações e serviços de camuflagem, construção de instalações que aumentem o bem estar dos combatentes, bloqueio de vias por onde o inimigo possa acessar áreas mais vulneráveis de retaguarda, infraestruturas diversas e outros.

É sempre desejável que a tropa de Engenharia de combate opere sob coordenação de um escalão superior da mesma arma, onde se obtém maior eficiência operacional, podendo no entanto, que destacamentos possam operar vinculado a elementos de manobra quando este operar isoladamente. Este destacamento será normalmente, por exemplo, de um pelotão de Engenharia de combate para um batalhão de infantaria. Poderá ainda esta tropa ser destacada como um elemento de trabalho para cumprir uma tarefa específica, sendo que nesse caso, a composição será variável de acordo com a natureza da tarefa a ser executada.

Enquanto as unidades de Engenharia de combate atuam junto às tropas em apoio a estas, a Engenharia de construção atua normalmente nas áreas de retaguarda em apoio aos grandes comandos logísticos do teatro de operações, que são à princípio zonas mais seguras, em tarefas mais técnicas e planejadas, como as já citadas obras de infraestrutura, fortificações de campanha elaboradas e campos de prisioneiros de guerra. Cabe salientar que em um teatro de guerra nenhum lugar é totalmente seguro e os cuidados com a vigilância e proteção devem sempre ser considerados.

Uma das missões mais importantes da Engenharia é a manutenção em condições de tráfego das vias de transporte. As operações, impõem às vias de transporte um volume de tráfego intenso e vias precárias deterioram-se rapidamente, e cabe à Engenharia manter estas vias operacionais e criar novas se necessário, elaborar cartas rodoviárias e ferroviárias, identificar e precaver-se sobre eventuais obstáculos (pontes, locais de queda de barreiras, pistas inferiores, etc...). A construção, a reparação e a conservação das pontes fixas e o desdobramento de pontes provisórias, em um teatro de operações, constituem uma das mais importantes e complexas missões da Engenharia, sendo as pontes vitais para a manobra terrestre. As pontes demandam ainda proteção e controle de tráfego. Todos os tipos de edificações a serem executadas de qualquer natureza, sejam novas ou reparações, também são atribuições da Engenharia.

Dentre a inúmeras atribuições desta tropa altamente especializada temos a organização do terreno, que consiste em modificar suas características, por meio de construções e destruições, com a finalidade de potencializar o poder de combate amigo e prejudicar o do inimigo, através de ações de fortificações de campanha e camuflagem. A construção de barreiras que são uma série de obstáculos, dispostos em profundidade que barram, restringem ou canalizam as vias de acesso do inimigo em uma determinada direção. Elas aproveitam ao máximo os obstáculos naturais e utilizam o mínimo necessário de obstáculos artificiais, apoiando a manobra tática e aumentando a eficiência dos fogos amigos, impedindo o inimigo de passar, retardando seu avanço ou canalizando-o para uma “zona de morte” onde os fogos amigos podem atuar com maior eficiência.

A destruição de pontos críticos são outra atribuição da Engenharia, que são locais de passagem obrigatórios ao longo de um itinerário, onde a vulnerabilidade da tropa pode chegar a níveis perigosos, facilitando a ação inimiga ou mesmo impedindo o avanço por causas outras, ou ainda que por características próprias coloque a tropa em risco. Estes locais devem ser trabalhados na forma que o risco seja minimizado, seja por obras necessárias, ocupação ou destruições. O lançamento e a abertura de brechas, ou mesmo limpeza de campos minados constituem a guerra com minas. Abrange o emprego de minas contra o inimigo, como também de contramedidas face à utilização de minas pelo mesmo. Compreende todas as formas e todos os processos de utilização de minas. Embora todas a tropas tenham habilidade para evita-las ou utiliza-las de alguma forma, cabe a Engenharia sua manipulação de forma mais abrangente, lançando campos minados ou neutralizando-os.

A Engenharia é responsável ainda por todas as construções militares no teatro de operações terrestre e sua respectiva reparação e conservação, exceto as de comunicações e as obras especificas de outras armas, além dos serviços de tratamento de água, energia e esgoto, e a segurança destes canteiros. Atua em aeródromos, portos e instalações portuárias, oleodutos, instalações ferroviárias, acantonamentos, campos de instrução e de prisioneiros de guerra, instalações de assistência ao pessoal, instalações de comando, instalações logísticas, como depósitos e hospitais; e sistemas de iluminação, de energia e de abastecimento de água. Outras atribuições são a produção de cartas, o suprimento e manutenção de material de Engenharia, a obtenção e otimização de imóveis, a disponibilização de áreas de estacionamento e o combate a incêndios.

Dentre a infindáveis possibilidades desta arma, está ainda a assistência técnica às outras armas na construção de obstáculos; destruições e demolições; minas e armadilhas; serviços de camuflagem; aparelhos de força; abrigos e instalações diversas embarcações fluviais e navegação; organização de posição defensiva, e outras operações especiais.



Operações sob Condições Especiais

Nas operações sob condições de frio extremo atua na limpeza da neve e do gelo das estradas. Com o degelo, as estradas sem revestimento tornam se lamacentas, quase impossibilitando o tráfego de viaturas sobre rodas. Impõe-se, nesse caso, a execução de melhoramentos, que podem ser feitos mediante a utilização de cascalho ou troncos de árvores. As pontes, durante o degelo, devem ser muito bem protegidas e a transposição de rios congelados devem ser cuidadosamente reconhecidos, tendo em vista verificar a capacidade de suporte da camada de gelo. Nas operações em regiões desérticas os pontos de suprimento de água e de campos de minas inimigos são aspectos importantes. Praticamente, nada escapa a observação aérea no deserto e a camuflagem se faz relevante, enterrando-se o que for possível. Pontes, estradas e fortificações são de pouca importância devido a facilidade de deslocamento. Os obstáculos são só aqueles baseados em acidentes naturais e extensos campos minados. A principal missão da Engenharia, nas operações ofensivas, é a abertura de passagens nos campos de minas inimigos, e na defensiva o lançamento de minas e destruição de recursos.

Nas operações nas selvas a conquista, construção e a proteção dos aeródromos e de zonas de pouso de helicópteros podem, muitas vezes, constituir o objetivo inicial das forças empenhadas nas operações. Os reconhecimentos de Engenharia apresentam como principal dificuldade a limitação da observação. A Engenharia executa os trabalhos essenciais de construção e manutenção de estradas e pontes, e devido a humidade constante a drenagem destas se faz de grande importância. Neste ambiente a Engenharia atua em pequenas frações. Equipes de Engenharia devem ser enviadas em incursões para destruir pontes, depósitos, barragens e outras instalações inimigas, devido a facilidade de ocultação e acesso a sua retaguarda. Pontes para pequenos cursos d’agua são construídas pela Engenharia com meios locais, e balsas são necessárias para a transposição dos maiores. As cartas geralmente são precárias e desatualizadas e cabe a Engenharia mantê-las operacionais.

Nas regiões montanhosas o apoio aos elementos de combate deve ser maior que o prestado em operações comuns, devido a hostilidade do terreno. A tropa de Engenharia necessita de um treinamento especial e deve ser dotada de equipamento mecânico (perfuratrizes, serras, marteletes) e transportes (motorizados e cargueiros) mais adequados às condições de emprego do que os que possui normalmente. O equipamento é do tipo mais leve e portátil, porém a reparação de estradas pode exigir equipamento pesado. Sob condições de guerra química, biológica e nuclear (NBC) a Engenharia pode ser designada para missões limitadas de descontaminação de ambientes agredidos, tais como: a descontaminação de um aeródromo ou a desobstrução de uma estrada através de uma área contaminada. Depois de uma explosão nuclear, a Engenharia pode ser solicitada para remover destroços, procurar baixas ou extinguir incêndios.



Unidades de Engenharia

As tropas de Engenharia são organizadas como unidades de Engenharia de combate e unidades de Engenharia de construção, podendo ainda existirem outras unidades com funções mais especializadas, dependendo das necessidades de cada força.

As tropas de Engenharia de combate, tem por missão o apoio direto a mobilidade da tropa apoiada, com meios mais adequados a operar próximos às linhas de contato e capazes de prestar apoio rápido e com sofisticação pouco apurada. Podem ser baseadas em companhia ou batalhões atendendo a escalões específicos, sendo que as unidades orgânicas de escalões menores possuem capacidades mais limitadas a fim de prover apoio mais imediato a tropa em manobra. Operam junto às linhas de contato com alto grau de contato como inimigo. Os meios a disposição da Engenharia de combate deverão ser capazes de atender os requisitos mais imediatos que possibilitem a manobra da tropa apoiada.

As tropas de Engenharia de construção são unidades capazes de serviços mais especializados no que tange a construção de dispositivos diversos como fortificações sofisticadas, pontes permanentes, serviços mais completos de infraestrutura e manutenção de estradas e linhas férreas, demolições de grande monta, lançamento e remoção de campos minados de grande porte, e outras obras relacionadas à constrição civil. Compõem escalões mais elevados e operam em área menos “quentes” do teatro de operações, como as retaguardas onde a situação tática está dominada e o assédio inimigo é menos provável.

Outras unidades de variados portes e especialização específica ainda podem ser constituídas onde se faça, necessárias. Podemos ter unidades especializadas em pontes de diversos tipos e de produção de água potável, ferroviárias, de estruturas, cartografia, concreto, embarcações de emprego especializado, serviços gerais, redes elétricas, equipamentos diversos e outras.

A composição das diversas unidades de Engenharia atende a padrões regulares em tempos de paz, porém em situações de emprego em campanha podem ter constituições variáveis, de acordo com a durabilidade exigida dos trabalhos, de sua progressividade, a profundidade do apoio exigido e dos canais técnicos exigidos.

Normalmente se aloca um pelotão de Engenharia de combate para cada batalhão apoiado, porém estes atuam em conjunto e não subordinados a estes batalhões e sim ao seu escalão superior, constituindo unidade próprias como companhia ou batalhões, sendo esta divisão apenas para fins de dimensionamento. Esta ainda pode variar se a situação assim o exigir. A Engenharia de construção será dimensionada de acordo com as condições gerais do teatro de operações.