FRASE

domingo, 13 de maio de 2018

Apoio Aéreo Aproximado (Close Air Support - CAS) *147



Relativamente desconhecida do público em geral antes das guerras do Iraque e do Afeganistão, esta missão existe desde dos primórdios da aviação. Mas o que é o CAS? como é vista pelos pilotos e por aqueles que se beneficiam dela, as forças terrestres? Estas perguntas ajudam a entender o que realmente é esta missão e ajudam a dissipar alguns mitos que a cercam.


O apoio aéreo aproximado (close air support - CAS) é o nome dado à missão ar-terra executada por aeronaves que estão próximas à forças terrestres amigas, geralmente a pedido e em proveito destas, e com integração detalhada a cada movimento com o fogo e a manobras destas forças. Qualquer aeronave que possa empregar munições pode prover apoio a forças no solo, sejam balões de ar quente na Primeira Guerra Mundial aos atuais vetores estratégicos como os B-1Bs dos EUA, se puderem prover artilharia de qualquer tipo à tropa no solo esta missão caracteriza-se como CAS.


Esta afirmação se faz importante porque muitos pensam que somente aeronaves como os Thunderbold A-10 e seus semelhantes são capazes de executar este tipo de missão. Enquanto estas aeronaves tenham sido concebidas para esta missão e a desempenhem com proficiência, não são as únicas capazes de fazê-lo, e sua atuação representa um pequeno número nas missões desta natureza que acontecem nos dias de hoje.


O CAS é uma das poucas missões igualmente executadas por todas as forças. A instrução JP 3-09.3 é a bíblia do CAS paras as forças dos EUA. Apesar da US Navy e a USAF, de forma anacrônica, divergirem tanto na forma como veem a tática, provavelmente aquecidos numa fogueira de vaidades, quando se trata do CAS os pensamentos convergem para um mesmo objetivo comum. Os helicópteros do US Army não são considerados como atores de CAS, e sim com elementos de manobra, assim como um carro de combate ou uma peça de artilharia, embora em última análise o sejam, mas como são tripulados por integrantes da tropa apoiada e pensam como esta, não precisam de controladores qualificados para realizar seus fogos.

Existem três elementos chave em uma missão de CAS: o comandante da tropa em terra, o controlador aéreo avançado (FAC nos US Marines e JTAC nos US Army/ Navy/ Air Force) e os elementos aéreos de apoio (aeronaves). O comandante terrestre é o responsável pela manobra das forças no solo e determinante dos movimentos e objetivos desta, sendo a sua intenção o objetivo dos fogos de CAS, e estes executados a partir de sua determinação. O FAC é o representante deste comandante junto aos pilotos, aquele que entende as duas linguagens, e sua função é traduzir as intenções deste comandante terrestre nos procedimentos de fogo aéreo praticado pelas aeronaves de apoio.




Os FACs atuam integrados com as unidades terrestres, em terra ou em aeronaves de observação e fazem a ligação entre estes "dois mundos", transformando demandas táticas em fogos de apoio, tal qual um observador de artilharia de campanha, guardadas as proporções. Cabe aos FACs coordenar a chamada "pilha", quando várias aeronaves CAS estão presentes acima da área de operações em altitudes desconectadas, e em condições de executarem a mesma missão, através da marcação de alvos e autorizando aos elementos aéreos liberarem suas "warheads" e fogos de rajada, sempre em estreita sincronização com o comandante da manobra (comandante terrestre).


O CAS é uma missão dinâmica e de ocasião, geralmente desempenhado por aeronaves que estão sobrevoando a área de operações com esta finalidade, mas sem nada planejado especificamente. Não se sabe quais alvos aparecerão, nem se tem rotas específicas de entrada e saída, apenas aguardando-se o chamado do FAC. É a missão aérea mais fácil de se planejar, apenas sabendo qual os prováveis tipos de munição que se irá utilizar e as regras de engajamento do momento.


Esta missão se apresenta de duas formas básicas: Por demanda ou pré-planejada. Em uma missão pré-planejada a aeronave decola já sabendo quais serão seus alvos, como por exemplo um comboio a cavaleiro de uma via de importância tática e que tem relação com a manobra amiga. Nestas missões se está apoiando uma operação específica e não se decola com a garantia de que as armas serão usadas, apenas se está lá para ser usado conforme a conveniência desta missão. 

Nas missões por demanda as aeronaves aguardam em um aeródromo próximo ou sobrevoam a área de operações ou suas adjacências, nada específico existe e se faz parte da "pilha", atuando como uma força de reação rápida com seus fogos endereçados a alvos que forem convenientes ao comandante da manobra, que poderão ser alterados de forma dinâmica.




Por fazerem uso de armas genéricas, as missões de CAS demandam planejamento mínimo, são as missões aéreas mais fáceis de serem planejadas e podem ser executadas por qualquer aeronave, desdo os vetores mais especializados como o A-10 Thunderbolt II e o Su-25, até os bombardeiros estratégicos como os poderosos B-1B, dada a sofisticação de suas suítes eletrônicas. As armas mais usadas são as bombas guiadas por GPS ou laser, as de emprego geral e os mísseis ar-superfície, além dos canhões orgânicos. A seleção das armas a serem empregadas é resultado da experiência do FAC e a disponibilidades destas para serem empregadas nos cabides das aeronaves.

É comum  a ideia de que CAS é uma missão de cenários de baixa ameaça, como as campanhas na Síria, Iraque e Afeganistão; onde os meios aéreos circulam livremente sem se preocuparem com complexas malhas de SAMs de médio e longo alcance e baterias de alto desempenho, onde predominam os MANPADS e as armas leves. Porém nem sempre esta situação se materializa e as tropas estão operando em "zonas quentes", onde missões SEAD e táticas especiais se fazem necessárias.


CAS em áreas de alta ameaça é um negócio de risco, como em hipotéticos conflitos envolvendo a OTAN, o Japão, a China, as Coreias do Norte e do Sul e a Rússia, entre outras. Sejam quais forem as dificuldades ou o cenário, no entanto os atores tendem a se adaptar, e os vetores engajados nestas missões certamente não serão deixados em seus aeródromos, principalmente àqueles mais especializados.




Fazendo Fogo


Uma missão CAS começa no seu centro de operações de apoio aéreo, onde os pilotos tomam ciência sobre a missão ou prováveis missões, a situação e as unidades que apoiarão. Informações sobre o voo e outras aeronaves na área poderão ser passadas. A medidas que as aeronaves se aproximam do objetivo trocarão a frequência do controle de voo para a frequência dos FACs e passarão a fazer um "check-in" junto a estes. Os FACs estabelecerão as regras de engajamento e orientarão os pilotos a se integrarem a "pilha" de aeronaves que estão disponíveis na área, determinando uma altitude de espera se for o caso e um circuíto a cumprir, ou autorizarão que se entre em ação imediatamente.

Em cenários movimentados poderá haver uma grande quantidade de aeronaves na área de operações em condições de prestar apoio CAS, que podem ser desde RPVs, passando por aeronaves de ataque ao solo especializadas e de apoio aproximado, até bombardeiros estratégicos e aeronaves singulares como o AC-130.

O piloto ao aproximar-se da zona de combate passa ao FAC um "briefing" onde informa seu número de missão, número e tipo de aeronave, posição e altitude, munição e sensores disponíveis, tempo que pode permanecer a disposição e o indispensável código de aborto. Este código permite ao FAC interromper de forma rápida e eficaz um bombardeio iminente e autorizado quando se constata que não deve acontecer.

O FAC por sua vez passará aos pilotos sua informações como a situação geral, os alvos presentes e os objetivos pelos quais as forças em terra estão operando, os tipos de ameaças e seus locais prováveis ou conhecidos, como MANPADS, baterias de tubo e SAMs de maior porte e suas altitudes de segurança, as posições amigas e outras informações e restrições vigentes.

De todas elas a informação mais relevante são as posições das forças amigas, as quais as aeronaves devem apoiar, e garantir sua segurança é fundamental. Todo piloto de CAS deve, sempre que o tempo permitir, fazer um sobrevoo visual sobre elas para certificar-se que seus fogos serão endereçados para longe delas. A noite esta tarefa é ainda mais fácil para aqueles que dispões de NVGs, especialmente se as tropas estiverem empregando marcadores infravermelhos estroboscópicos para marcarem sua posição. Se esta checagem não for possível os pilotos irão proceder a marcação destas posições em seus mapas e tentar obter confirmação visual através dos sensores da aeronave.

Em cenários tanto de alta ameaça como de baixa, os pilotos irão obedecer pontos de retenção longe do alvo, sendo que na maioria das operações modernas as aeronaves orbitam sobre o alvo em altitudes de segurança. O tipo de órbita depende do tipo de aeronave: Os F-16 da USAF, por exemplo, orbitam a direita porque seus pods Litening estão montados no queixo direito desta aeronave, enquanto nos Hornet da US NAVY a órbita se dá no sentido inverso devido a disposição de seu sensor ATFLIR. As distâncias ainda são variáveis de acordo com a velocidade e as características da aeronave, com uma ou cinco milhas, por exemplo, e as altitudes dependem dos limites de segurança e da "pilha" existente.

Um grande mito das missões CAS é que suas aeronaves devem voar baixo e serem lentas para serem eficazes. Com os sensores modernos os pilotos podem estar muito longe e muito altos e mesmo assim serem eficazes. Pode-se lançar um bombardeio, mesmo estando acima de vetores mais lentos como UAVs e helicópteros, com eficácia e segurança. Acima dos três mil metros as aeronaves ficam foram da zona de engajamento da maioria dos MANPADS e das armas leves, além de chamar menos atenção em missões que envolvem o sigilo. Evidente que este perfil de missão só é possível a aeronaves e "warheads" de alta tecnologia, que sejam seguramente precisas e não coloquem em risco as tropas amigas.

Uma vez dentro do circuito, o líder e seu ala se separarão, com o líder concentrado na manutenção do circuito e o ala no objetivo de solo, geralmente em altitudes levemente diferentes, usando o rádio ou mais recentemente o datalink para desengajar. 


O FAC dispõem de 3 modos de controle, sendo que no primeiro ele vê tanto a aeronave quanto o alvo durante todo o ataque para assegurar-se que os fogos estão sendo endereçados ao objetivo correto; no segundo modo ele visualiza somente o alvo ou o piloto, e depois que o piloto transmitir seu "pronto", o FAC replicará com a indicação de que o alvo está frente e o fogo está liberado. No terceiro modo o FAC não visualiza nenhum deles e o usa para bombardeiros longe das forças amigas e transmite ao piloto que a área está livre para engajamento. 





O piloto por sua vez conta com 2 modos de ação indicados pelo FAC: no primeiro o FAC passa coordenadas precisas ao piloto, que as alimenta em seus sistema de fogo para liberar armas de precisão nestas coordenadas. No outro modo as coordenadas não são precisas e o piloto deve conferir visualmente ou por sensores onde soltará suas bombas.



Informações poderão ser trabalhadas de várias formas, conforme a doutrina de cada força. Um conjunto normalmente usado são o ponto inicial (PI) para a corrida, o indicativo do alvo, a distância de algum ponto de referência que pode ser a própria aeronave, a direção a ser tomada, as coordenadas na forma de latitude e longitude, a altitude do alvo, a posição do alvo plotada em um sistema de referência militar, a forma de marcação (fumaça por exemplo), a distância mínima a partir da tropa amiga, o ponto de regresso (onde deverá estar após o ataque) de onde retornará ao aeródromo ou ao circuíto de espera.

O FAC é a autoridade máxima durante o ataque e será responsabilidade dele a segurança da tropa amiga, cabendo-lhe estabelecer a linha de segurança a partir da qual o bombardeio poderá se dar, bem como as restrições que devem ser observadas, como armas autorizadas, tempo de ataque e horários-limite. O alvo também poderá ser usado como referência, como a pista de um aeródromo por exemplo, onde a cabeceira da pista serve de ponto de partida para cálculo do ponto de impacto. Se sistema inteligentes estiverem disponíveis a introdução das coordenadas do alvo no sistema, facilita em muito o trabalho dos bombardeiros. Sistemas com Datalink pode dar a visão do piloto ao FAC, e se este estiver usando designadores laser ou IR será como se fosse um tiro direto. Palavras chave como ""contato" ou "visual" também podem ser usadas, deixando claro o status da operação naquele momento, evitando confusão entre o que é alvo e o que é tropa amiga.


Uma vez o ataque definido caberá ao lider (piloto) determinar as regras entre as aeronaves da esquadrilha (ou com o ala). As comunicações passam a ser entre estes, o lider se assegura que seus parceiros estão em sintonia com a missão que foi definida, passando a regras do ataque. Os dois (ou mais) bombardearão ou um bombardeará e o outro proverá cobertura mantendo-se em órbita? que armas usarão e que métodos (provavelmente já definidos), bombardearão juntos ou em intervalo de quantos segundos? de que forma desengajarão para evitar colisão ou ameaças em terra?


Apesar de parecer um processo complicado, e é, tripulações treinadas executam rapidamente, sendo treinamento e prática constante essenciais, estando os pilotos especializados mais capacitados (como os de A-10 e AC-130) a este tipo de operação. Sistemas montados no capacete (HMD) são especialmente úteis neste tipo de missão.


Uma vez completa esta fase de designação o piloto iniciaria sua corrida, transmitindo ao FAC uma mensagem com seu codinome, a designação do alvo, o modo de ataque e se tem as tropa amigas no visual ou não, por exemplo. O FAC responderia para que ele se mantivesse na corrida (não liberado) ou que o "fogo está liberado", geralmente em jargão próprio, o que dá segurança às mensagens. As coisa então acontece rapidamente, e neste momento palavras-chave são "mágicas". Ao iniciar a recuperação, o FAC procurará observar se alguma ameaça tipo MANPADS não foi disparada, alertando o piloto. Informará também se necessário uma segunda passagem ou se pode retornar ao "circuíto" e próximo alvo. A sequencia se repete até que a aeronave fique sem munição ou combustível, ou ainda atinja um horário determinado. O fator psicológico é alto, pois o piloto pode ouvir pela fonia do FAC o fogo sendo trocado, e sente que seu apoio é importante, desejando fazer o que está ao seu alcance para aliviar a ameaça inimiga.


Finalizada a missão, o FAC transmite todos os detalhes possíveis (debriefing) para que os pilotos levem a informação de volta à base. Os pilotos, sabendo que as tropas vão continuar lá lutando, farão o máximo para voltarem o quanto antes para dar continuidade ao apoio. As missões de CAS são muito variadas e dinâmicas, nenhuma sendo igual a outra.





Missões Complementares

O CAS, no entanto, não é só bombardeio puro e simples, e pode envolver, por exemplo, voo de intimidação. As vezes o bombardeio não é alternativa como numa área povoada e a realização de voos rasantes podem fazer o inimigo a "sentir a morte" vinda de cima,  desistindo de lutar ali. Esta prática também pode servir para reforçar a moral das tropas amigas, potencializando sua vontade de lutar. Não requer interação com o FAC.


O passo seguinte é a demonstração de força, que deve ser coordenado entre o piloto e o FAC, e consiste no disparo de armas em alvos visíveis, no intuito de forçar a desistência inimiga. É usado em shows aéreos e pode funcionar como forte fator psicológico junto a insurgentes. Pode ser muito arriscado se houver a possibilidade da presença de MANPADS na área.


Outra missão que pode ser necessária é o CAS improvisado, onde alguém em terra solicitou apoio aéreo através de seu rádio sem ter as devidas qualificações para tal. É uma prática perigosa e a possibilidade de fratricídio está presente em alto nível, porém pode ser a única alternativa. Neste caso os pilotos procuram fazer acontecer de uma forma mais lenta, passo a passo, porém sem deixar o pessoal no terreno sem apoio, de forma a mitigar o risco de atingi-los involuntariamente.


Mais recentemente temos as missões CAS digitais onde todo o processo se dá via software e datalink, com coordenadas precisas e liberação de armas pelo sistema. Os FACs podem visualizar o que o piloto vê, armas podem ser lançadas de grande altitudes, com mau tempo em em terreno cobertos. O risco ainda existe, pois pode-se por exemplo inserir um coordenada imprecisa e chamar o fogo para cima de si, pois nenhum sistema é perfeito. Neste caso, como nos outros, o treinamento é chave do sucesso.


Qualquer aeronave pode fazer CAS, e a eficiência de cada uma estará diretamente relacionada a quem as opera. Aeronaves especializas em CAS são operadas por tripulações (pilotos e FACs) igualmente especializados, e estes farão a diferença. Então tanto faz seu temos um A-10 ou um F-35, as pessoas e seu treinamento ditarão a eficiência de cada missão. 



Veja também: CAS: Qual a aeronave certa?



terça-feira, 24 de abril de 2018

Fogos e Apoio de Fogo *146



Baseado no MC EB20-MC-10.206

O apoio de fogo é um elemento essencial em qualquer empreitada de combate, aplicando-se mais especificamente às manobras terrestres e anfíbias. É através dos fogos que coloca-se o inimigo numa situação de saturação operacional, privando-lhe de seus meios e capacidade de manobra, seja pela destruição ou indisponibilidade temporária. Os fogos podem ser disponibilizados por elementos aéreos, navais ou terrestres e aplicados em conjunto com a manobra, através de adequado elemento de comando e controle (C2), constituindo estes o tripé fundamental de qualquer força em combate. Fogos e manobra são inseparáveis na dinâmica de uma operação militar, atuam de forma mutuamente complementar e visam alcançar a superioridade tática sobre o inimigo e a proteção mútua entre as unidades. Um cria a condição para que o outro possa efetivamente ser aplicado no ambiente operativo, sendo os fogos os donos da palavra final, pois atuam diretamente como elemento incapacitante definitivo das possibilidades físicas do inimigo, reduzindo sua vontade de combater.

A aplicação do binômio fogo-manobra requer um ambiente onde as forças amigas sejam capazes de manter a superioridade aérea. Fogos podem destruir, suprimir, degradar, retardar, negar, separar ou neutralizar forças, sistemas de combate e instalações, bem como em conjunto com unidades de engenharia barrar ou desviar a manobra inimiga, bloquear áreas, fixar tropas e retardar reforços, potencializando o valor do terreno e do espaço de batalha.

Os fogos podem ser orgânicos ou não, sempre desencadeados a pedido do elemento apoiado, e requerem minuciosa coordenação e planejamento de forma contínua e detalhada em todos os escalões, visando atender aos modernos teatros não lineares e altamente exigentes, evitando o desperdício de munição escassa, em alvos não interessantes, reduzindo as possibilidades de fratricídio e efeitos colaterais em civis, além de  evitar sobrecarregar a estrutura de apoio logístico.

Fogos eficazes requerem a capacidade de adquirir, discriminar e engajar alvos. A capacidade de aquisição consiste na detecção e localização de alvos com precisão suficiente ao emprego dos sistemas de fogo; a discriminação é a capacidade de priorizar os alvos mais importantes em meio a muitos presentes, e o engajamento é o processo de aplicar o efeito desejado ao alvo, seja por ação letal ou desejada.

Os fogos podem ser superfície-superfície, ar-superfície, superfície-ar, podendo ainda incluir-se neste conceito ações de ataque eletrônico e cibernético. Podem ser cinéticos através do lançamento de artefatos (projéteis de vários tipos) e com finalidade tática, ou não cinéticos como aqueles usando meios eletrônicos e cibernéticos com finalidade de incapacitação dos meios inimigos congêneres.



Os fogos devem ser planejados e coordenados, estando todos os meios terrestres, aéreos e navais atuando sob um mesmo sistema de forma que o meio mais adequado seja designado para bater determinado alvo da forma mais eficiente e dentro de uma escala de prioridade, evitando a duplicação de esforços e desperdício de munição; executados com sincronização, rapidez e precisão, sempre procurando a preservação da segurança das tropas amigas.

Fogos navais são lançados a partir navios de guerra e conduzidos por observadores de tiro navais. Fogos aéreos partem de plataformas aéreas (bombardeiros, helicópteros e RPVs) e são conduzidos por controladoresaéreos avançados (FAC), e os terrestres pela artilharia de campanha (morteiros,obuseiros e MLRSs), dentro de suas possibilidades.

Fogos são desencadeados no nível estratégico a fim de desorganizar a atividade industrial-militar por exemplo, contribuir para a proteção estratégica e causar efeito psicológico; e no nível tático-operacional para contribuir com a manobra e impedir a do inimigo. Podem ser de apoio a pedido da unidade apoiada e conduzidos de forma a integrar sua manobra, devidamente observados e em ligação com esta; e de proteção, visando atuar sobre a manobra inimiga e segundo as necessidades dos escalões mais altos; podem ser ainda diretos ou indiretos de acordo com sua característica balística.

É vital a coordenação entre os meios de apoio de fogo de superfície e meios de controle de espaço aéreo, proporcionando máxima segurança a todos os atores, e sincronizados no tempo e no espaço com os demais sistemas de combate, a fim de contribuir com a manobra e contar com a segurança proporcionada pelas demais unidades.

Os fogos atuam sob coordenação do sistema operacional de comando e controle, que coaduna a arte de comandar à ciência de controlar. Este sistema é uma organização de pessoal, inteligência de rede, comunicações e sistemas de automação que atuam em apoio ao comandante e seu Estado Maior (EM). Devem apoiar este esforço os sistemas de inteligência fornecendo informações de combate e apoiando a sua compreensão, sistemas de proteção como a artilharia antiaérea e outras unidades de combate (carros de combate por exemplo),os fogos de contra-bateria e o sistema de apoio logístico que supre os sistemas de apoio de fogo e ao mesmo tempo são protegidos por estes. Estes permitem aos fogos manterem-se atirando (durarem na ação), suprem-nos com serviços diversos e garantem o suporte médico e sanitário adequado, cabendo-lhes antecipar as necessidades dos artilheiros e aviadores.




Os fogos podem ser estratégicos, operacionais ou táticos de acordo com a importância que seu efeito causará na operações, se será decisivo ou facilitador. Podem ser de aprofundamento (operacionais) que visam áreas de retaguarda como as logísticas e industriais por exemplo, de interdição e contra instalações de C2; de apoio (táticos) em proveito da manobra da tropa amiga e de contrabateria (proteção).

Quanto a finalidade podem ser de preparação, que são fogos intensos e previstos desencadeados em horários estipulados a fim de apoiar um ataque ou desorganizar defesas e seus meios de apoio, ou ainda interromper comunicações. De intensificação que são fogos planejados de grande escalão em apoio aos fogos do escalão inferior, e de contra-preparação que visa desorganizar uma mobilização inimiga.

Quanto a forma podem ser de concentração que consiste em um volume significativo de fogo sobre um determinado alvo, de barragem que visam a proteção impedindo a passagem do inimigo e disparados sucessivamente em linhas escalonadas, e por peça que visa atingir alvos específicos.

Podem ainda ser previstos (parte de um planejamento) ou não (alvos de oportunidade), observados ou não (este último não permite avaliação de danos, como os fogos de inquietação por exemplo),

Quanto aos efeitos desejados podem ser de neutralização, que visa degradar a capacidade do inimigo, de destruição para colocar alvos definitivamente fora de combate, de interdição que visam impedir o inimigo de usar temporariamente uma área ou meio como os tiros de barragem, de inquietação que visam minar a moral do inimigo através de bombardeios contínuos e baixa intensidade privando-lhes de sono por exemplo, e de efeitos especiais como os de iluminação de campo de batalha, de balizamento com granadas fumígenas e IR, propaganda e outros.

Podem ser disparados a pedido ou com horário pré-determinado (tiros hora no alvo – HNA), com detonação instantânea e efeito imediato (HE por exemplo), com detonação instantânea e efeito persistente (fogos fumígenos por exemplo) e de detonação retardada (bombas cluster).


Os fogos são os senhores do campo de batalha e para aplicá-los que as unidades de combate são treinadas e equipadas, visando a supremacia tática-estratégica-operacional. Os fogos terrestres caracterizam-se pela grande disponibilidade por estarem as unidades em permanência no campo, independência aos fatores meteorológicos, pronta resposta e alta flexibilidade, sendo sua maior deficiência seu alcance menor. Os fogos lançados do ar são mais poderosos mas nem sempre estão disponíveis, sofrem limitação das condições meteorológicas e são de coordenação mais complexa, porém dispõem do alcance muito superior dos vetores aéreos. Os fogos de origem naval são limitados a áreas próximas ao litoral, normalmente atuam em proveito de operações anfíbias e não tem a precisão dos fogos terrestres. Suas plataformas também são mais facilmente identificáveis. Fogos de longo alcance como aqueles implementados por mísseis de cruzeiro e balísticos podem adentrar em muito o meio terrestre, mesmo lançados do ambiente naval.

Os meios de apoio de fogo são na força terrestre os morteiros das armas-base geralmente de 60 e 81 mm, nada impedindo que elas usem modelos mais pesados. O comandante de infantaria e cavalaria dispões destes meios como artilharia orgânica e disponível em todos os momentos. A artilharia de campanha usa os morteiros de 120 mm em suas unidades de maior mobilidade estratégica como as forças aerotransportadas e de selva, e obuseiros de 105 e 155 mm, sejam rebocados ou autopropulsados, como unidades padrão. Forças russas e chinesas possuem modelos similares. Estes sistemas são um conjunto de pessoas, meios e processos que atuam de forma integrada através de subsistemas de busca de alvos, C2, logística e baterias de tiro.  Da mesma forma as unidades de lançadores múltiplos (MLRS) atuam em proveito dos escalões mais elevados, e constituem, por si só, valioso meio de projeção no campo de batalha e alvo dos sistemas de proteção inimigos.

Outros sistemas de fogo da força terrestre são as unidades de artilharia antiaérea com unidades dotadas de mísseis e canhões endereçados por computador, e as aeronaves da aviação do exército.  Cabe àquela a proteção contra a ameaça aérea em complemento aos interceptadores da defesa aérea, seja contra bombardeiros ou mísseis inimigos, sendo que suas armas automáticas também podem ser usadas, secundariamente contra alvos de superfície. Além destas, armas de tiro direto como carros de combate e mísseis de infantaria compõem a dotação de bocas de fogo desta força.

A força aérea dispõem de aeronaves de bombardeio que são imbatíveis em alcance e poder de fogo, e podem operar em proveito da manobra terrestre e naval. E por último as forças navais podem usar seu também considerável poder antinaval de mísseis e torpedos, e canhões para apoio de fogo terrestre próximo ao litoral, como nas manobras de desembarque anfíbio. O apoio de fogo aéreo é especialmente aplicado por sua elevada flexibilidade de emprego, capacidade de ataque a alvos localizados em profundidade e grande poder de fogo. Por essa razão, quando disponível, é considerado um meio nobre, devendo ser planejado com antecedência e critério. Mísseis balísticos e de cruzeiro podem equipar todas as forças e são um formidável meio de bombardeio.



Planejamento e Coordenação

Os sistemas de fogos devem estar coordenados por um comando único, podendo atuar em proveito de suas unidades orgânicas, serem prontamente empregados em proveitos do escalão superior quando este os solicitar, e após retornarem ao seu comando usual. Este sistema é uma reserva fácil, segura e de rápida aplicação que possibilita ao escalão superior intervir rapidamente no combate. Deve ser empregado com oportunidade e de forma contínua, atuando prontamente sempre onde se mostrar necessário, o que demanda a capacidade de atirar imediatamente e concluir a missão de tiro em tempo mínimo, de forma a estar sempre disponível para a próxima. A superioridade de fogos deve ser buscada, sendo que uma das primeiras missões em campanha é procurar e neutralizar os pontos mais fracos dos sistemas de fogos do inimigo, pondo-os inoperantes.

O sistemas de apoio de fogo deverão estar em condições de atirar desde o primeiro momento, antes mesmo do contato, com fogos de profundidade, bem como manter a pressão sobre o inimigo, frustrando a operação de seus sistemas. A aviação e a os MLRS são os meios mais adequados ao início do assédio às fileiras inimigas antes do contato, sendo que todos podem fazê-los, de forma que as forças em avanço encontrem uma resistência debilitada. Os fogos mais eficazes se dá quando as unidades inimigas estão concentradas, ou seja antes do início do combate.

Os fogos são planejados a partir do levantamento de necessidades, considerando aquisição, análise e seleção de alvos, emissão de pedidos de apoio e autorizados seguindo uma ordem de prioridade/disponibilidade, sempre partindo do escalão de emprego e consolidados nos escalões superiores. Devem levar em conta fogos diretos, morteiros, artilharia de campanha, artilharia antiaérea e de costa, aéreo e naval, assim como os meios de guerra cibernética e eletrônica. A priorização dos fogos parte do escalão que o necessita, e se este não puder efetivá-los, a solicitação segue para o escalão superior. Todos os escalões manterão planilhas, de preferência integradas eletronicamente, de suas necessidades e prioridade de fogos.



O planejamento deverá prever a possibilidade de concentrar fogos de mais de uma unidade sobre um mesmo alvo numa mesma missão de tiro ou desencadear fogos simultâneos sobre mais de um alvo por uma mesma unidade. Para tanto este planejamento deverá ser simultâneo, com todos os escalões o executando ao mesmo tempo, concorrente com os fogos não possíveis repassados ao escalão superior, coordenado e unificado entre os diversos escalões, contínuo com a adição de novos alvos constantemente e alteração da situação tática, levando em consideração o tempo disponível e os meios em disponibilidade, além de outras variáveis. Os alvos elencáveis obedecerão a diretrizes previamente definidas. Serviços de informações listarão os alvos possíveis que virão a compor o planejamento inicial de grande escalão, cada um com indicação de importância, mobilidade e situação tática.

Iniciada a missão, os comandantes deverão manter reuniões freqüentes com vistas a corrigirem seus rumos e atualizar suas prioridades de fogo. 

A coordenação do apoio de fogo é o ato ou efeito de dispor o planejamento e a execução do fogo de tal sorte que os alvos sejam atacados, com oportunidade, pelos meios ou armas disponíveis, mais apropriados e eficazes, realizando a integração dos fogos com a manobra. O apoio de fogo solicitado deve ser executado pelo menor escalão que disponha dos meios necessários, com a rapidez e segurança necessárias.

Os planos terão demarcações que viabilizam o controle de fogos com zonas de responsabilidade e seus limites, linha de alcance mínimo para dos diversos sistemas de fogos (LSAA), áreas de fogos livres, restritos e proibidos, entre outras. Os fogos devem ainda seguir uma matriz de sincronização para evitar que sejam lançados onde estão as tropas amigas em determinado momento, e surtirem seus efeitos no momento desejado.

O sistema de apoio de fogo é composto primeiramente pelo sub-sistema de inteligência e busca de alvos, que envolve detecção, identificação e localização de alvos. Os resultados deste trabalho resultam em um mapeamento do campo de batalha, dando ao comando um mapa bidimensional que permite-lhe usá-lo tanto para orientar a manobra como para aplicação do poder de fogo pelos meios cinéticos e não cinéticos (guerra eletrônica). Aqueles alvos selecionados para aplicação do poder de fogo deverão apresentar detalhes que permitam batê-los com precisão e oportunidade. Quanto mais próximo do combate, mais sumária será esta análise, priorizando-se a produção de resultados em tempo real.


Os meios consistirão de radares de campo e localizadores sonoros, reconhecimento aéreo, observadores avançados, imagens de satélites, tropas de todos os tipos, etc... Depois de obtido o alvo, torna-se necessária a sua identificação e a confirmação de sua existência para, então, selecionar o meio apropriado de batê-lo. O resultado desse trabalho será o conhecimento da natureza, composição, localização e dimensões do alvo a ser engajado. Alvos móveis requerem atenção especial pela sua fugacidade e dificuldade de adquirir.

Após a designação de um alvo virá e sua análise que consiste na avaliação da importância militar, determinação da oportunidade de ataque, seleção do meio, e definição do método para a aplicação dos fogos. A importância é definida pela influência dele com a missão, que pode variar com a mudança da situação tática. A oportunidade leva em consideração a mobilidade, a recuperabilidade e a limitação do alvo. Nem sempre se ataca primeiro um alvo de maior prioridade e nem sempre é melhor atacar um alvo logo após a sua localização. O meio usado será o de menor escalão capaz de produzir o efeito desejado, sendo indicado, em ordem de prioridade, o morteiro, a artilharia, o fogo naval e o fogo aéreo. São observadas as características do alvo, o efeito desejado, as influências do terreno e das condições meteorológicas, além das características, possibilidades e limitações dos meios disponíveis. A precisão do sistema também influencia, o emprego do fogo naval e os MLRSs, por exemplo, quando empregados em áreas próximas às tropas amigas, que são menos indicados em razão de sua precisão menos apurada, dispersão ou necessidade de ajustagem. Alvos de fogo aéreo próximos às linhas amigas devem estar sinalizados, bombardeiros devem conhecer a localização das tropas, sempre orientados por um FAC. O método de aplicação procuram maximizar sua eficácia, batendo alvos com densidade e intensidade adequadas, valorizando a surpresa e prevendo as medidas de proteção.

Os fogos de contrabateria são uma das mais importantes missões da artilharia de campanha e da aviação tática para a proteção da tropa. Devem ser executados com prioridade, oportunidade e eficiência, pois representam uma decisiva ação de proteção aos meios que apoiam à manobra. A expressão contrabateria se refere aos procedimentos necessários para localizar, identificar e atacar posições de artilharia de todos os tipos que ofereçam ameaça. Os modernos sistemas constituem um desafio para a atividade de contrabateria, em virtude de que sua capacidade de entrar em posição, realizar o fogo e sair da área em tempo mínimo, tornando-os praticamente imunes à as estes fogos. Estes fogos dependem de radares que localizam a origem dos disparos através da análise da trajetória dos projéteis. Também podem ser desencadeados a pedido dos observadores, que poder estar em aeronaves, mas esta possibilidade é mais remota visto que depende destes saberem onde as baterias estão, geralmente além de seu campo de observação.



Cabe ao comandante que ordenou o fogo providenciar para que os resultados sejam avaliados a fim de verificar se os efeitos alcançaram o objetivo, ou se será necessário repetir o fogo. É uma atividade difícil e seus resultados têm uma exatidão variável, devendo-se empregar todos os meios que foram usados na busca de alvos. Os resultados obtidos nesta avaliação são função do tipo de meios de informação; da experiência do pessoal; da distância; do grau de conhecimento sobre o objetivo; da visibilidade; da capacidade de detecção do inimigo; e do prazo de tempo imposto disponível.

A aplicação de fogos é a mais clássica forma de um comandante intervir no combate. A moderna doutrina preconiza as operações como uma seqüência de ações de cunho ofensivo e initerruptas, onde a manobra em ações simultâneas em toda a profundidade do espaço de batalha deve ser empregada, com atividade diuturna sob quaisquer condições meteorológicas, sempre buscando a iniciativa e a surpresa. A artilharia de campanha atuará neste contexto de forma contínua, devendo ter a mobilidade das forças apoiadas para que seus fogos estejam sempre onde o comando os desejar. Os fogos visam anular ou diminuir a capacidade de combate do inimigo; facilitar o movimento amigo; diminuir, impedir ou dificultar os fogos do inimigo; e impedir ou dificultar a atuação de suas reservas.

O fogo aéreo deve complementar o terrestre, atuando tanto no combate aproximado em proveito da tropa como em fogos mais longos a retaguarda das frentes inimigas, As principais missões destes são determinadas pelo seu grande alcance, sua variedade de armas, sua precisão e velocidade de resposta, efetuando fogos contra objetivos em movimento ou não, determinados com precisão; distantes ou que não podem ser observados; com forte proteção e a instalações industriais e logísticas. Helicópteros armados são um sistema móvel e flexível que podem ser empregados para apoio das unidades no combate aproximado, como contra objetivos situados em profundidade, fundamentalmente no apoio às ações aeromóveis e de desembarque aéreo, assim como contra objetivos em movimento, principalmente meios blindados ou mecanizados.

O fogo naval pode ser usado nas operações próximas à costa, que contribui de forma semelhante ao apoio dos meios terrestres, devendo ser integrado com o restante do apoio de fogo disponível. Pode bater alvos de dimensões reduzidas e com forte proteção.


domingo, 22 de abril de 2018

Explosões, Efeitos das *145




Explosões no cinema são incríveis: elas fazem carros atravessarem abismos antes intransponíveis, e servem como um ótimo plano de fundo para o herói andar em direção à câmera. Na vida real, explosões de qualquer tamanho apreciável são terrivelmente fatais. Isto é o que realmente acontece quando você fica muito perto de uma explosão.

Explosivos fortes, como bombas caseiras e morteiros de artilharia, operam em uma escala de energia muito diferente do que balas de revólver ou fogos de artifício. Estes apenas estouram formando uma onda subsônica. Mas explosivos fortes causam uma detonação: isto é, a energia irradia a partir do local da explosão, viajando acima da velocidade do som. Quando você vê heróis do cinema saindo de um lugar que virou uma bola de fogo, aquilo é uma reação muito menos energética do que detonações – e, visualmente, impressionam mais.

Quando um bomba detona, a energia liberada irradia em todas as direções ao mesmo tempo, em velocidades entre 3 km/s e 9 km/s. À medida que esta esfera de energia se expande, ela comprime e acelera as moléculas de ar ao redor em uma onda de choque supersônica. Esta pressão extra só existe por alguns milissegundos, mas é a principal causa de lesões e danos materiais causados por explosivos. Quanto mais perto você estiver da fonte da explosão, mais grave é a pressão.

A força inicial da onda de explosão é imediatamente seguida por ondas de choque de alta velocidade, que dão mais energia a tudo o que atravessam – seja um muro de concreto ou seus órgãos vitais. À medida que uma onda de choque passa por uma área, ela literalmente não deixa nada para trás: essa parede de ar supersônico deixa um vácuo quase perfeito. Então, um segundo depois que seu corpo é severamente comprimido, ele é submetido a uma força oposta de despressurização igualmente massiva.

Infelizmente, a explosão ainda não acabou. O ar imediatamente entra para preencher o vazio atmosférico deixado pela onda de choque, puxando detritos e objetos de volta para a fonte da explosão. Esta rajada de vento é forte o suficiente para lançar um corpo humano a vários metros de distância. Quem for atingido em pé pelo vento da explosão fica mais vulnerável a ser levado pelo vento. Mas não é o vento em si que machuca: é o trauma físico que você sofre ao cair de cara no chão à velocidade de um carro na rodovia. É por isso que se esconder atrás de um objeto grande e pesado, para tentar se proteger contra a onda de choque, só funciona nos filmes.

Este golpe danifica seus órgãos, especialmente os órgãos cheios de ar – como os pulmões, ouvidos e estômago – assim como as articulações e ligamentos, onde os tecidos de densidades diferentes se encontram. Isto muitas vezes leva a hemorragia, e pode mesmo resultar em ruptura de órgãos. Os pulmões ficam especialmente em risco de hemorragia e edema (inchaço causado por acúmulo de líquido).

O cérebro não se sai muito melhor. Médicos militares que estudam os efeitos de barotrauma nas Forças Armadas dos EUA comparam os efeitos de uma explosão no corpo humano ao ato de apertar um tubo de pasta de dente: o sangue e os fluidos corporais são forçados em direção ao seu cérebro e crânio, resultando em edema.

Há também, evidentemente, uma grande quantidade de perigo indiretamente associado à força da explosão. Você poderia ser atingido por projéteis: um risco mortal, sejam eles detritos de explosão ou fragmentos de uma granada. Você poderia se queimar até ficar tostado pela bola de fogo que acompanha certos tipos de explosivos. Ou você poderia ser esmagado por um edifício em desmoronamento.

Mas, supondo que a explosão dê o mais certo possível, o corpo humano é bastante resistente, capaz de suportar uma quantidade surpreendente de força sem morte instantânea. Por exemplo, uma explosão relativamente pequena, como de uma bomba caseira, pode produzir uma sobrepressão de cerca de 1 psi e ventos de cerca de 65km/h. Isso é o suficiente para quebrar vidro, mas só causaria ferimentos leves. A explosão de um carro-bomba pode gerar mais de 2 a 3 psi (e vento a uma velocidade de até 160km/h), potencialmente causando grandes danos estruturais, lesões grave, e danos o suficiente para matar algumas pessoas.

Um pico de sobrepressão de 5 psi, por exemplo de uma ogiva nuclear 1MT, garante ferimentos generalizados e muitas fatalidades. A força é suficiente para aniquilar várias cidades e derrubar tudo – exceto estruturas solidamente reforçadas – sem mencionar que ela estouraria seus tímpanos. Em uma explosão com uma sobrepressão máxima de 10 psi, com os ventos de quase 500 km/h que ela produz, nem mesmo concreto reforçado conseguiria aguentar.

E em sobrepressões acima de 20 psi, pode esquecer. Mesmo 15 psi provoca danos pulmonares graves, mas em 20 psi, as mortes são comuns. Qualquer coisa que não foi destruída pela explosão inicial será soprada pelos ventos da explosão a 800km/h. Aqui entramos no território de armas nucleares muito grandes – em testes de algumas bombas de hidrogênio, os cientistas registraram efeitos de até 100 psi.

A única coisa que pode proteger você dessas ondas de choque mortais é a distância. Elas são incrivelmente fortes de perto – e na verdade ficam ampliadas em espaços confinados -mas estas ondas se dissipam rapidamente enquanto viajam. É por isso que os carros-bomba conseguem demolir a fachada do que está estacionado em frente, mas mal chacoalham as janelas das casas a uma quadra de distância. Então, se um dia você ficar no meio de uma explosão, não ande sem preocupações como um herói. Largue o que você estiver fazendo, coloque as mãos sobre suas orelhas, e corra o mais rápido possível na direção oposta.

terça-feira, 27 de março de 2018

Ações Estratégicas *144



Ações Estratégicas

Um governo, ao conduzir uma situação de crise deve seguir uma escala de percepções e ações que permita reagir aos acontecimentos sempre na medida adequada, evitando-se o uso desnecessário de medidas retaliatórias, que possam radicalizar a crise ou mostrar uma reação insuficiente, que demonstre fraqueza e omissão, encorajando a escalada dos fatores adversos. Os analistas dos serviços de inteligência devem estar atentos a fim de recomendarem aos seus “tomadores de decisão”, quais as medidas mais adequadas a serem adotadas em cada tipo de crise, evitando-se a surpresa estratégica.

O planejamento de emprego das expressões do poder de uma nação deve ser constantemente revisto em face a evolução da tecnologia existente e a disponível, a capacidade industrial e seu nível de aprestamento, e a configuração de ameaças possíveis, prováveis e eminentes. A situação política internacional que afete a nação, com suas alianças e antagonismos deve servir de norte a este planejamento.

As medidas a serem adotadas em situação de crise deverão ser diretamente proporcionais a discrepância do poder relativo entre os antagonistas e a importância do objetivo a ser perseguido, bem como a liberdade de ação de cada um. Empreender uma ação militar contra a Coréia do Norte por parte dos EUA, por exemplo, é totalmente diferente de tomar tal atitude em relação a Cuba, primeiro porque a primeira é supostamente uma potência nuclear, e segundo porque está sob a esfera de influência da China. Quando o Iraque invadiu o Kwait a resposta se deu prontamente, porém quando a Rússia invadiu a Criméia a reação foi bem diferente.

Nos cenários de grande liberdade de ação pode-se optar pela ação militar diretamente, resolvendo a crise rapidamente. Quando o poder militar inimigo é considerável, geralmente opta-se pelas retaliações e ações militares mais comedidas e de pequena envergadura. Neste caso podem ocorrer atritos localizados, porém evita-se um engajamento total, principalmente se houver a posse de armas nucleares pelo inimigo.

Estratégias Gerais

Estratégia da Dissuasão 

A estratégia da dissuasão é muito usada quando a capacidade de retaliação contra o inimigo é grande, e este evita o confronto, ou quando ambos são fortes e o confronto resultaria em grandes prejuízos a ambos. Esta estratégia foi muito usada na Guerra Fria e sua filosofia baseava-se na certeza da destruição mútua, pois as capacidades nucleares de ambos eram muitas vezes superiores às realmente necessárias. Ambos os lados sabiam que não haveria vencedores, o que garantia, desta forma que ninguém desse o primeiro tiro. Quando se trata de armas nucleares é uma estratégia perigosa e um pequeno erro ou acidente pode resultar em consequências severas. A dissuasão também é usada pelo mais forte contra o mais fraco, pois a simples ameaça de uso de um poder avassalador pode fazer este a aceitar as condições impostas.

Estratégias de Pressão

Quando o objetivo não é vital e o poder militar não é supremo, procura-se intimidar através de estratégias de pressão. Neste caso também evita-se o confronto direto mesmo o poder militar sendo muito superior, se a liberdade de ação for pequena. A crise dos mísseis cubanos é um exemplo de pressão, pois apesar da URSS ser dona de grande poder militar, recuou seus navios diante de um adversário igualmente poderoso cuidando de seu “quintal”. Neste caso ações no campo diplomático e da propaganda são mais eficientes, como as demonstrações de força e os desdobramentos e retóricas das chancelarias.

Estratégia da Resistência

Os conflitos propriamente ditos são usados quando o objetivo tende a ser muito importante, e mesmo o poder militar estando aquém do desejável, ele preocupa o inimigo.  Neste caso países poderosos aplicam poder militar avassalador como os EUA em sua invasão ao Iraque e os Nazistas em sua invasão a Polônia, com conflitos sendo decididos em tempos reduzidos. Conflitos de longa duração são desgastantes e muito caros, e tendem a ser evitados na atualidade, porém se o objetivo for muito importante e o poder militar fraco, de ambos os lados, estes tendem a acontecer. As guerras do Oriente Médio, ainda não resolvidas, são um exemplo destes conflitos de desgaste. Este tipo de conflito é geralmente norteado pela estratégia da resistência. Esta estratégia visa degradar moralmente um inimigo mais poderoso, inflingindo-lhes baixas não decisivas, mas que gradativamente diminuem sua vontade de lutar. A FNLV (Viet Cong) e o EVN usaram esta estratégia no conflito do Vietnam, e apesar da inferioridade militar, venceram o conflito.

A estratégia da resistência consiste em manter-se operacional, mesmo com meios limitados, estrategicamente manter-se na defensiva evitando-se o dispêndio de recursos que não existem em ações de grande vulto e taticamente na ofensiva com constante fustigação das fileiras inimigas através de ações de guerrilha. Isto obriga o inimigo a dispersas forças e facilita a ação dos atacantes.

Estratégia das Ações Sucessivas

Quando o objetivo é importante e os meios limitados, bem como a liberdade de ação pequena, adota-se a estratégia das ações sucessivas, onde uma série de ações em todos os campos de atuação possíveis complementam-se, buscando-se um objetivo final e importante a partir da conquista de objetivos menores e aparentemente não muito importantes. Ações políticas, diplomáticas, psicológicas e militares, aplicadas sucessivamente, em intensidades diferentes, servem de apoio umas às outras. A busca de objetivos aparentemente não importantes, não despertará no inimigo um grande empenho em sua retomada; ações militares pontuais, rápidas e violentas consolidarão estes objetivos que servirão de trampolim para o objetivo final. Esta estratégia combina a ação direta (militar), o conflito violento, a pressão indireta, e a estratégia de resistência. As ações políticas, de natureza diplomática e psicológicas se mostrarão dominantes nesta modalidade estratégica. Esta forma tende a ser a mais usada na gestão de crises que envolvam o confronto direto entre forças não hegemônicas, sendo uma empreitada longa, e vence aquele que tiver maior resiliência.

Planejamento Militar de Guerra

A estrutura de defesa deve adotar a concepção de emprego conjunto de todas suas forças e agências, incluído forças policiais e órgãos da administração civil. Um preparo coordenado e integrado das forças

terrestre, naval, aeroespacial e outras instituições deve permitir o seu emprego em situação de interoperabilidade, não se admitindo mais que cada força trave sua guerra particular como aconteceu em vários conflitos no passado.

A preparação deve ser realizada desde os tempos de paz, por meio da implementação de uma estrutura de fácil transição das atividades destes tempos para um quadro operacional de guerra, incluídos as forças armadas e a sociedade civil. Ações estratégicas devem ser previstas, planejadas e implementadas para que se possa atingir rapidamente uma capacidade operacional capaz de responder a altura de qualquer situação que venha a surgir. A mobilização, seja da infraestrutura como da indústria, bem como dos reservistas, deve se dar de forma natural e rápida, de forma em que os efetivos e capacidades possam atingir uma condição operacional plena para qualquer conflito e para a manutenção do pós-guerra. 



sábado, 17 de março de 2018

Estado-Maior e Ordens #143


O comandante militar é o responsável pela operação. É dele que partem todas as ordens para que as forças combatentes e de apoio cumpram a missão. Ele planeja e controla todas as ações, corrige rumos e disponibiliza apoio logístico para que cada ator exerça seu papel no momento e local oportuno, com a segurança adequada e devidamente abastecidos.

Esta atividade é comumente designada no meio militar como “Comando e Controle” (C2) e é a alma de qualquer operação. Unidades militares sem C2 são apenas um grupo bem disciplinado de indivíduos armados sem saber o que fazer. Cabe ao comando providenciar para que cada unidade ou indivíduo esteja no local de sua missão no horário previsto, com o equipamento adequado e devidamente instruídos de sua parte, inteirados da situação como um todo e com o suprimento necessário.

Uma operação militar é tanto mais complexa quanto maior for o escalão envolvido. Uma missão atribuída a um GC demanda alguma munição, alguma comida e talvez uma ou duas viaturas para transportá-lo, um objetivo simples que provavelmente será atingido em poucas horas; enquanto que uma missão a cargo de uma força-tarefa, divisão ou corpo de exército demanda recursos para manter em combate milhares de militares com milhares de equipamentos diferentes, com seus consumos de combustível, munição e alimentos, demandas médicas e de manutenção, além de um sem número de manobras e escaramuças envolvendo forças diversas de terra, unidades aéreas e navais. Tudo tem que ser coordenado e seu desfecho conferido, para que uma próxima fase possa ser implementada. Pode durar dias ou meses e serão necessárias milhares de decisões e ordens.

Comandar um GC ou pelotão pode ficar a cargo de um sargento ou oficial, mas a medida que o escalão aumenta se faz necessário a descentralização das atividades, com a segmentação das atividades operacionais e logísticas. A partir do nível subunidade (companhia) os comandantes militares contam com algum “staff”, um colegiado de oficiais que o auxiliam na divisão da complexa tarefa que é administrar uma operação militar. A este “staff” denomina-se no meio militar de Estado-Maior. O Estado-Maior possibilita ao comandante a descentralização da atividade de C2, poupando-lhe de se preocupar com detalhes operacionais e possibilitando-lhe que se concentre nas decisões mais importantes. Assim temos oficiais encarregados da produção de inteligência, de logística, de pormenores administrativos como o recompletamento de pessoal, de ligação com outras unidades, no planejamento e pormenorização das decisões táticas e operacionais tomadas, na segurança e vigilância e na avaliação de resultados, além de outras atividades consideradas necessárias.

O trabalho do Estado-Maior consiste em buscar soluções para os problemas e desafios que se apresentem, colher inteligência a respeito destas situações, analisá-los à luz da inteligência disponível e propor a solução destes ao comandante, considerando todas as linhas de ação possíveis e elencando a mais adequada, justificando causas e conseqüências de cada uma, vantagens e desvantagens, sempre fazendo contato prévio com todas as unidades envolvidas. A sugestão por um ataque aéreo deverá ser precedida por uma consulta de disponibilidade da unidade aérea que realizará o ataque, por exemplo. Ao comandante deverão chegar as sugestões de forma objetiva sem documentação volumosa, com conclusões claras e concisas, para que ele possa escolher, aplicando a solução se necessário, sua experiência e conhecimento pessoal, e uma vez tomada a decisão que ela siga na forma de ordem para pronto cumprimento. Ordens secundárias ou de menor importância deverão ser prontamente despachadas pelos oficiais do Estado-Maior e seus auxiliares, poupando desta forma o comandante dos detalhes operativos.




A estrutura de um Estado-Maior varia de acordo com a força a que serve e a situação que deverá ser enfrentada. Esta estrutura será composta por um chefe de estado maior, que poderá ser o sub-comandante da unidade ou não, e as diversas seções operativas, cada qual comandada por um oficial dedicado, que por sua vez será assessorado pelos oficiais adjuntos em funções específicas. No Exército Brasileiro, por exemplo, um Estado-Maior típico ou geral consiste em 5 seções, sendo a 1ª Seção encarregada da organização e administração de pessoal, a 2ª Seção ocupa-se da produção de inteligência, a 3ª Seção é a de operações e responsável pelas linhas de ação da unidade e adestramento de pessoal, a 4ª Seção encarrega-se do apoio logístico e a 5ª Seção cuida da comunicação social e dos assuntos civis. Outras estruturas podem ser implementadas.

Os oficiais adjuntos ou auxiliares constituem o Estado-Maior especial e cada um cuida de uma subseção específica, subordinados aos oficiais do Estado-Maior geral e atuando por exemplo, nas áreas de defesa antiaérea, apoio de fogo, guerra química e biológica, ambiente nuclear, engenharia de construção e combate, controle de tráfego aéreo, polícia, guerra eletrônica, comunicações, força aérea, aviação do exército, forças aeronavais, forças navais, prisioneiros de guerra, justiça militar, ajudância geral, segurança de área,  controle de aeródromo, controle de terminal portuário e tráfego aquático, propaganda, ações diversionárias, defesa anticarro, forças especiais, ligação com outras unidades, saúde e apoio médico, transporte e controle de tráfego terrestre, agências externas, e outras áreas que se façam necessárias.

O advento da tecnologia digital e da NCW permitiu a automatização de muitas tarefas desempenhadas pelos estados-maiores e postos de comando, agilizando muitas das decisões. Por exemplo a execução de uma missão de tiro pela artilharia, alimentada em um sistema informatizado pode demandar o ressuprimento de munição de uma área remota sem qualquer intervenção humana, dependendo dos sistemas disponíveis.

Os estados-maiores compõem os postos de comando da unidades e grandes-unidades e juntamente com o comandante são a parte operativa dos mesmos, que funcionam em uma estrutura física provida pelas subunidades de comando e serviços desta unidades. São alvos prioritários das forças inimigas e a neutralização dos estados-maiores e seus postos de comando poderá acarretar na inoperância tática de seus comandados, total ou temporária, por falta de ordens.