FRASE

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Planejamento Militar - O Exame da Situação (Parte 2) *205



Parte 1 - Generalidades

1ª Etapa - Exame da Situação

O exame da situação é a base de todo o processo de planejamento militar. O comandante concebe as linhas mestras daquilo que será executado. Se dá em 5 fases: 

1. Recebimento da missão e sua análise (reconhecimento do problema),

2. Entendimento da situação e sua compreensão (coleta e análise das restrições e suas relações com o problema),

3. Identificação das possibilidades do inimigo com suas possíveis linhas de ação (comparação das restrições e sugestão de possíveis soluções),

4. Comparação das linhas de ação propostas com àquelas que o inimigo possivelmente adotará (comparação entre as possíveis soluções) e

5. Tomada de decisão (escolha da solução).


Fase 1 - Análise da Missão (reconhecimento do problema)

Ao receber a missão o comando designado partirá para o seu entendimento, buscando conformar-se à intenção de seus superiores e aos problemas que desafiarão cada um de seus subordinados.

Neste momento procura-se formar uma ideia clara e completa do problema militar, compreendendo a situação que seu comandante busca e seus efeitos desejados, tanto do comando como os seus próprios. A partir da origem da missão a primeira linha que o comandante escreverá será o enunciado de sua tarefa e deduzirá o seu propósito, sempre de modo claro e preciso; enunciado este que poderá conter mais de uma tarefa e mais de um propósito, porém sempre unidos por uma única expressão “a fim de”, o que caracteriza uma única missão com um só planejamento. Cada missão tem seu processo específico. O comandante deverá procurar entender de forma abrangente a missão de seu superior e, se possível, a dos escalões mais elevados, formando um quadro abrangente do problema militar no maior nível possível, que resulte em conclusões amplas em que se possa identificar eventuais desvios para fora das diretivas recebidas e limitações que poderão afetar o planejamento.

Ao analisar a própria missão, o comandante deverá evitar análises vagas com pouca objetividade e que levem a planejamentos volumosos e confusos, com o enunciado da missão e seus propósitos sempre em vista. 

Um pequeno roteiro pode auxiliar em um resultado mais desejável:

1. Identificação dos efeitos desejados: Uma meta específica, realista e clara

2. Identificação dos objetivos principais e eventuais:

3. Contribuição para o efeito desejado pelo comando superior: Compara sua missão às dos outros comandantes de mesmo escalão, identificando se está realizando o esforço principal ou de apoio; Compara se sua linha de ação pode interferir na ação de outras unidades e toma medidas para corrigir a interferência; e por fim identifica as possibilidades de sua ação contribuir marginalmente para o esforço principal, e potencializa, se possível, esta contribuição

 4. Verifica se os objetivos eventuais contribuirão para a obtenção do efeito desejado do escalão superior, e se é conveniente executá-los;

5. Identifica se sua tarefa consiste em uma linha de ação pré-definida. Por exemplo: Uma patrulha de defesa aérea está lá para garantir a defesa de um determinado espaço aéreo em uma situação de conflito aberto, e se houver aeronaves inimigas, os caças em CAP deverão destruir estas aeronaves com seus mísseis (ação pré-definida).

6. Dados importantes relativos ao problema: São condicionantes impostas pelo superior com influência sobre o planejamento.

7. Limitações sobre o planejamento: A violação das limitações impostas ou existentes tornará a linha de ação inadequada.

8. Tempo: urgência e grau de prioridade da operação; tempo disponível para o planejamento e duração da operação, além de horário limite para o início;

9. Se a tarefa é estratégica, operacional ou tática, ofensiva, defensiva ou de apoio;

10. Quais as forças disponíveis, sua disponibilidade e grau de prontidão, onde estão e se devem ser deslocadas.

11. Regras de engajamento.

12. Relação da operação com outras em andamento.

13. Outras limitações impostas pelo comandante. Este deverá procurar impor o menor número de restrições possíveis, evitando reduzir a flexibilidade e amplitude das soluções.

14. Hipóteses Básicas (HB) são situações que podem se materializar ou não, das quais não se pode ter certeza devido à informações não consistentes. São formuladas pelo comandante, que fará suposições a respeito da operação futura e da situação presente. Quanto maior for o escalão, maiores serão os prazos de execução e a necessidade de hipóteses básicas. As hipóteses básicas do escalão superior serão tratadas como fatos pelo planejador subordinado. O comandante planejador formulará suas hipóteses baseadas em suas impressões, experiência e conhecimento. Estas hipóteses tomarão o lugar de um conhecimento imprescindível que não está disponível, e são fundamentais para que se complete a análise. A consideração da hipótese básica poderá ser desconsiderada se o planejamento levar em conta a situação mais desfavorável possível.

Para cada possibilidade existirá uma HB, e para cada uma deverá ser elaborado um plano de contingência (“plano B”). Estas hipóteses só deverão ser formuladas se estritamente necessárias, evitando-se esforços demasiados com planos desnecessários. A regra para validar uma hipótese básica é a possibilidade de interferência de forma significativa no plano que está sendo montado, caso se concretize ou não, e caso seja negativa deve ser descartada. Um plano abrangente e bem elaborado pode reduzir, ou mesmo eliminar o número de hipóteses básicas.

A formulação de uma hipótese básica requer conhecimento profundo da situação, experiência e conhecimentos profissionais, sendo que sua redação deverá descrever precisamente a situação que envolve o planejamento em curso.

Relação da missão com as de outros comandantes, suas interferências e possibilidades de sinergia;

15. Os efeitos desejados pelo inimigo devem ser considerados como o oposto dos efeitos desejados pelo comandante. É comum considerar-se que o inimigo possa fazer tudo o que de pior possa realizar dentro de suas limitações. Qualquer consideração mais branda deverá estar baseada em dados de alta confiabilidade.

16. Um resumo dos tópicos mais importantes já analisados facilitará consultas posteriores, visto que as missões são cíclicas e contínuas.


Fase 2 – Entendimento da Situação

Nesta fase o Comandante e seu Estado Maior, analisarão a Área de Operações e os meios e forças disponíveis, relacionando-os aos fatos já elencados. As conclusões desta análise servirão de lastro para a tomada de decisão.

O pequeno roteiro a seguir mostra de forma sintética o caminho para a tomada de decisão:

O Esboço da Situação

Faz-se um esboço da situação, listando todos os fatores considerados relevantes para a tomada de decisão. Este memento será elaborado pela seção ou turma de informações à disposição do comandante, e depois de ser aprovado, será distribuído às demais seções do EM.

Relatórios complementares a este memento sobre forças amigas e inimigas serão elaborados pela Seções de Inteligência (S2), e pelas Seções de Logística (S4) e de Operações (S3) e outras seções se houverem, apontando o parecer de cada uma dessas seções em suas áreas específicas. Serão gerados relatórios diversos sobre as forças amigas, o inimigo, aspectos logísticos, comunicações, guerra eletrônica, mobilidade e contramobilidade, ameaça aérea, aviação de apoio, apoio de fogo, guerra submarina, assuntos civis, etc....

O Esboço da Situação servirá ao EM como ponto de partida para seus esforços de coleta de dados, limitando seu campo de trabalho ao que realmente interessa ao cumprimento da missão do Comandante.

Posteriormente todos estes pareceres e dados coletados serão integrados pela seção de operações (S3) em um único documento de Exame da Situação feito pelo comandante.

A Área de Operações

Veja Valor Militar do Terreno

A análise da área de operações identificará sua influência na missão e que medidas afins deverão serem tomadas. Deve-se ater somente aos fatores relevantes à missão. Um processo específico de Integração Missão-Inimigo-Terreno-Condições Meteorológicas-Tempo-Tropas Disponíveis e Assuntos Civis (METT-TC no USArmy) será útil nesta compreensão, pois resulta numa série de mapas e gráficos envolvendo estas variáveis.

Fatos Pertinentes (FP) são dados ou acontecimentos, evidentes ou comprováveis, que estarão diretamente relacionados com a Missão do Comandante, ou exercerão influência sobre ela. Consequências são os desdobramentos de um FP. Estes desdobramentos nada mais são do que uma dedução possível do FP inicial, tornando-se um novo FP, que será novamente analisado até que se esgote, resultando em alguma conclusão que será considerada ou descartada como irrelevante. Poderá ser considerado isoladamente ou ser agregado ao FP inicial.

A Conclusão é um resultado desta análise pela qual, com base em FP(s): As vantagens e/ou desvantagens; limitações e possibilidades das forças do comandante e do inimigo; e os procedimentos que poderão ser implementados durante a operação.

Os tópicos mais relevantes concluídos na análise da Missão na Fase 1, serão àqueles utilizados pelo EM e se constituirão nos FP(s) ao Problema Militar que está sendo analisado. Deve-se tomar cuidado para não se apresentar como conclusão um fato já conhecido, lembrando de que fato é aquilo que já é real, que não pode ser mudado e conclusão é o resultado de uma análise, algo ainda não concretizado e poderá variar.

Ao final um estudo das Características da Área de Operações deve-se apresentar os FP(s), e a partir destes se fazer uma análise de como eles poderão influenciar a operação, resultando em conclusões que apontem as vantagens e desvantagens, possibilidades, limitações ou procedimentos. Um único FP pode gerar diversas Conclusões; diversos FP(s) podem gerar uma única Conclusão; ou um FP pode não gerar Conclusão alguma porque indica, por si só, um procedimento a seguir.

“Checklist” das Características da Área de Operações

Fatores Gerais

Os fatores gerais são tão mais relevantes quanto maior for o escalão de planejamento. São agrupados em fatores Políticos, Econômicos, Sociais e Tecnológicos.

Fatores Gerais: Políticos

São os fatores que definem o cenário político da área de operações e que poderão influenciar na missão. Podemos listar alguns fatores, porém outros poderão se fazer relevantes. Temos como exemplo deste tópico o nível de estabilidade política interna, atividades subversivas e seu controle; o nível de oposição interna ao governo local; os acordos políticos e alianças militares; as relações exteriores e o nível de interesse externo na situação local; reivindicações territoriais e marítimas; aspectos referentes ao  direito internacional; ideologias políticas: partidos políticos, facções, grupos paramilitares, associações sindicais, organizações não-governamentais (ONG), movimentos populares, lobbies, etc.

Por exemplo: o uso de uma base aérea em um país amigo para viabilizar as operações pode ser condição fundamental a estas, porém este país, apesar de amigo, pode não cedê-la para não se envolver politicamente no conflito. O FP é a neutralidade política e a consequência a não cessão das bases.

Fatores Gerais: Econômicos

Aspectos econômicos são de suma importância em uma operação militar. Eles podem influenciar de forma significativa muitas das decisões sobre uma missão. Temos por exemplo o nível de industrialização; a capacidade de mobilização da indústria, para apoio às hostilidades; a disponibilidade de recursos humanos e materiais; as fontes de matérias-primas; a localização dos principais parques industriais e centros financeiros e comerciais; o nível de dependência externa para a manutenção do esforço de guerra; a capacidade de produção agropecuária e segurança alimentar; as capacidades e localização das fontes de energia, a integração energética do território; os acordos econômicos, etc...

Por exemplo: Na área de operações passa um importante oleoduto que abastece uma importante região do planeta, e a interrupção de sua operação poderá provocar um desequilíbrio que trará sérias consequências. O FP é que a operação do oleoduto terá que ser garantida e a consequência é que sua interrupção poderá provocar questões com países neutros, não desejáveis.

Fatores Gerais: Sociais

São os fatores pertinentes à população da área de operações onde a missão se desenvolverá. Temos como exemplo a influência da mídia sobre a população; o nível sócio-econômico da população como a escolaridade, a renda “per capta”, desemprego, distribuição de renda, etc...; etnias; idiomas; religiões e seus desdobramentos; conflitos latentes; raças; valores; sensibilidades; humor em relação ao governo; aspirações; moral; empatia com as forças armadas; situação das forças armadas locais considerando adestramento, condição geral e fidelidade ao comando. Estes fatores normalmente estão presentes em todas as situações, e devem ser considerados com atenção especial, podendo ser explorados em benefício da missão ou ser um obstáculo.

Por exemplo: A área de operações abriga várias tribos antagônicas entre si há vários séculos e da mesma forma hostis ao governo local. Esta situação poderá provocar reações destas tribos contra nossas próprias tropas.

Fatores Gerais: Tecnologia

Estes são fatores pertinentes ao nível de desenvolvimento da região. Como exemplo temos: A sofisticação do armamento das forças locais e dos meios instalados; centros de pesquisa e desenvolvimento; meios industriais; instalações nucleares, químicas e biológicas; tecnologias de sensoriamento como satélites; redes de dados; usinas de força; etc...

Por exemplo: As forças inimigas contam com infraestrutura de sensoriamento por satélite e dificilmente será possível iniciar a operação sem que seja percebida.

Fatores Físicos

São as características físicas da Área de Operações que influenciarão mais diretamente a missão, oferecendo possibilidades e limitações.

Fatores Físicos – Hidrografia

Incluiu todos as variáveis pertinentes à operação de meios aquáticos como meios anfíbios, submarinos e afins. Considera profundidades e gradientes; correntes marítimas; marés; navegabilidade; facilitadores e dificultadores como obstáculos naturais ou não, faróis, etc...; condições de propagação do som, incluindo salinidade e camadas de propagação; arrebentação; etc...

Por exemplo: A praia escolhida para o desembarque apresenta uma barreira de arrecifes de forma parcial, que pode provocar encalhes e danos às embarcações, sendo que sua trajetória deverá ser minuciosamente planejada e conduzida.

Fatores Físicos – Topografia

O terreno onde uma tropa atuará apresenta uma série de particularidades que influenciarão sobremaneira todo o desenrolar da operação. Suas características podem constituir obstáculos ou facilitadores, e devem ser analisadas criteriosamente, procurando fazer cada ponto como um aliado quando possível. Deve-se considerar a vegetação; o relevo; as linhas de costas; os cursos d’água e suas possibilidades de travessia; praias, consistência do terreno para suportar tráfego, etc...

Por exemplo: A única linha de progressão possível sobre a área Foxtrot constitui-se da estrada 45, construída sobre um aterro feito para ela, em uma grande área pantanosa. Não é possível de ser desviada, o que constituí fator de grande vulnerabilidade às colunas que ali trafegam. Uma manobra de segurança de flancos deverá ser previamente implementada antes de sua travessia.

Fatores Físicos – Meteorologia e Fatores Climáticos

Os fatores climáticos influem diretamente nas operações. Chuvas e neve podem provocar alagamentos e prejudicar a trafegabilidade; frio intenso afeta diretamente o moral do combatente e pode provocar mal funcionamento do equipamento, provocar ulcerações e hipotermia; Neblina, chuva e tempestades afetam ou mesmo inviabilizam operações aéreas. Um bom planejamento deve levar os fatores climáticos em conta considerando incidência de ventos, chuva e neve; visibilidade; temperatura do ar e da água; radiação solar; neblina; condições de navegação marítima e aérea; temperaturas; etc...

Por exemplo: A única linha de progressão possível sobre a área Foxtrot constitui-se da estrada 45, construída sobre um aterro feito para ela, em uma grande área pantanosa. Não é possível de ser desviada, o que constituí fator de grande vulnerabilidade às colunas que ali trafegam. Há previsão de chuvas intensas o que pode provocar seu alagamento e possível intransitabilidade, tornando as tropas que ali estiverem extremamente vulneráveis pela imobilidade e falta de condições de abrigo.

Fatores Físicos – Períodos

São os fatores decorrentes do ciclo dia-noite e suas implicações como os períodos de claridade e escuridão, fases lunares e eclipses. É importante que sejam tabuladas as horas do nascer e pôr do sol e da lua, os períodos de claridade e escuridão, a duração do crepúsculo e as fases da lua.

Por exemplo: Durante os dias x e y haverá lua cheia, o que permitirá uma maior visibilidade para as marchas noturnas programadas, não sendo necessários equipamentos de visão noturna para os motoristas.

Fatores Físicos – Pontos Notáveis

Todos os fatores físicos do terreno que podem prejudicar ou potencializar a missão. Estradas; bases militares, instalações de apoio, fábricas, pontes, posições de tropas e armas, áreas de estacionamento, depósitos, etc... Estas posições deverão ter suas distâncias aéreas, terrestres e marítimas plotadas nas cartas, bem como suas características relevantes. Estes pontos considerados são de natureza estática, não devendo ser confundidos com os fatores de tempo e distância da missão, que serão vistos nos planejamentos propriamente ditos, relacionados ao tempo e a velocidade dos operadores e das forças inimigas.

Por exemplo: O destacamento Delta fará um marcha motorizada de Alfa 1 até Alfa 2 cuja distância supera em muito a autonomia dos veículos. No entanto, ao longo do itinerário existem 3 postos de controle com capacidade de reabastecimento, não sendo necessário o acompanhamento de viatura com combustível para reabastecimento destas colunas.

Fatores Físicos – Linhas de Comunicações

Estes fatores dizem respeito a todas as linhas de comunicações que podem servir para a execução da missão, seu apoio e seu suporte logístico. Considera-se aqui as rotas terrestres rodoviárias e ferroviárias; as rotas marítimas, fluviais e de águas interiores, tais como lagos, baías, canais e rios; rotas aéreas e respectivos aeródromos; linhas de transmissão de energia e de telefonia; gasodutos, oleodutos, aquedutos etc. Devem ser identificados pontos sensíveis que se explorados pelas nossas forças ou do inimigo, poderão interromper ou atingir alguma das linhas de transporte ou de suprimento, além de colocarem nossas forças ou as do inimigo em posição de vulnerabilidade.

Por exemplo: Após a marcha motorizada com término em Alfa 2, o destacamento Delta se reunirá no aeródromo local e embarcará nas aeronaves do destacamento 32 da força aérea do país Azul, que apoiará a transposição por via aérea da cordilheira Vagalume até o aeródromo de Alfa 3. Se as condições meteorológicas não permitirem a decolagem, o destacamento deverá permanecer em Alfa 2 até que seja possível, pois as rotas terrestres através desta cordilheira estão ocupadas por forças subterrâneas hostis, e as colunas de marcha estarão sujeitas a emboscadas.

Fatores Físicos – Fatores Médico-Sanitários

Devem ser considerados os aspectos que possam afetar a saúde das nossas forças, do inimigo e da população levando em conta: condições climáticas capazes de afetar a saúde como o frio intenso; a qualidade da água e alimentos; as doenças endêmicas, como aquelas transmitidas por mosquitos, por exemplo; as facilidades médicas e de pessoal especializado disponíveis na área, etc...

Por exemplo: A área Mike-November onde se localiza o aeródromo de Alfa 3 é uma região endêmica da febre-amarela com grande quantidade de mosquitos presentes, sendo necessária a vacinação com antecedência da tropa que lá desembarcará, conforme os protocolos médicos.

Fatores Físicos – Fatores Operativos

Se refere ao estudo e conhecimento de meios e instalações de interesse operativo, tais como bases diversas, aeródromos, posições de artilharia de costa e antiaérea, redes radar e de AEW, dispositivos defensivos de ponto forte, postos de controle, etc... É importante em alguns casos identificar os recursos ou características especiais de uma base ou instalação de grande valor ao inimigo e verificar a possibilidade de que estes lhes sejam negados.

Por exemplo: A rota Charlie foi minada em ambos os lados em pontos alternados, com cobertura de fogo supressivo destes pontos e armas ATGW dificultando sua varredura e canalizando o tráfego em pontos específicos. Se faz necessário um reconhecimento de engenharia a fim de prover rotas seguras a esta travessia, bem como a neutralização dos pontos de fogo supressivo por destacamentos de assalto a ponto forte.

Fatores Físicos – Meios de Comunicações Eletrônicas

Devem ser relacionados todos os meios de comunicação eletrônica disponíveis na área da missão, que possam ser usados para facilitá-la ou que possam ser usados pelo inimigo para frustrá-la, tais como: estações de rádio civis e militares, Centro de C2, redes de radiogoniometria, redes telefônicas e de telefonia celular, instalações de apoio ao tráfego aéreo e marítimo, sistemas militares de comunicações, cabos submarinos, linhas telegráficas, estações de SATCOM, etc... Estes meios de comunicações considerados não se referem aos meios orgânicos, mas os presentes na área de operações. Devem ser analisadas também a capacidade de interferência eletrônica do inimigo em nossos meios e vice-versa.

Por exemplo: O destacamento de assalto a instalação Foxtrot deverá certificar-se de que a guarnição deste ponto forte não alerte seu comando, neutralizando as torres de telefonia celular da área, bem como cortando a energia do local em ação preliminar ao assalto.

Fatores Físicos – Sistemas e Recursos Presentes no Local

Deve-se analisar a presença de sistemas de armas de alto poder e sistemas e recursos de apoio como mísseis, artilharia, aviação aerotática, engenharia de combate, forças locais amigas (partisans que podem fornecer inteligência de combate) e outros que possam interferir na missão, seja em apoio ou como força de resistência, e a possibilidade de emprega-las em proveito da missão ou de sua neutralização.

Por exemplo: O assalto a instalação foxtrot utilizará uma rota de acesso que transporá uma área de segurança em torno da instalação que poderá conter minas. A Força Golf presente na área possui uma unidade de engenharia de combate que poderá disponibilizar um destacamento para apoiar a transposição deste segmento.

Comparação de Meios Disponíveis

Esta análise visa construir um paralelo entre o poder combatente do inimigo e o das nossas forças, estabelecendo um comparativo de capacidades e deficiências de forma a mensurar os meios necessários para sobrepujar as forças inimigas no cumprimento da missão. Como no item anterior (A Área de Operações) deverá elencar vantagens e desvantagens, limitações e possibilidades das forças em questão, a fim de identificar fatores de força e fraqueza, e possibilitar a formulação da linha de ação (L Aç).

Esta comparação se dá analisando as forças combatentes (próprias, amigas e inimigas), sua competência de comando e controle (C2) pela análise de suas capacidades de comunicações e meios eletrônicos, sua capacidade logística e os fatores que envolvem tempo e distância.

As forças combatentes devem ser comparadas em amplo aspecto dentro do envelope de influência na missão, considerando forças navais, aéreas, terrestres, capacidade de fogo e adestramento. Devem ser analisados suas diversas características como velocidades, autonomia, alcance dos sistemas de armas, radares e sensores, aeronaves, resistência e condições do equipamento, localização, sistemas de controle, suscetibilidade a contramedidas, nível de instrução, moral, capacidades de liderança, experiência, doutrina, resiliência e adaptação ao terreno, estruturas de logística e suprimentos disponíveis, meios navais e outros.

Por exemplo: A Força-Tarefa 21 dispõem de mísseis antinavio Saturno helitransportados a partir de suas escoltas de superfície com alcance de 50 km, superiores em alcance aos mísseis SAM Mercúrio das fragatas inimigas com alcance de 30 km. Dessa forma o assédio a estes navios pelos helicópteros Matador e seus mísseis Saturno é recomendado. Trata-se de uma recomendação ao comandante e não um procedimento já definido. Vale salientar que a comparação deve ser feita sempre entre sistemas que se opõem (helicóptero e seu míssil x míssil SAM) e não entre sistemas paralelos (míssil SAM próprio x míssil SAM inimigo).

A comparação deve considerar os meios e não o contexto, pois a intenção é possibilitar que o Comandante e seu EM tirem conclusões das capacidades relativas para o cumprimento da sua Missão. Na análise de interações é que se levará em consideração as LAs e seus desdobramentos, abordando o aspecto dinâmico das capacidades, considerando-se um possível apoio que poderá ser recebido, o ambiente da ação e os fatores de tempo e distância.

O Comando e o Controle (C2) da operação se dará utilizando-se as ferramentas de comunicações e EW (guerra eletrônica) e um exame das características dos equipamentos disponíveis e sua doutrina, de ambos, determinarão quais recursos poderão ser empregados e com que proficiência.

Os meios logísticos definirão o alcance operacional da missão e a capacidade de resistência do inimigo. Deve-se listar todos os meios fixos e móveis que poderão ter influência na missão como bases (com sua localização e meios de acesso), capacidade de transporte e disponibilidade de suprimentos como combustível, munição e outros que se façam importantes.

Por exemplo: O bombardeio de um grande depósito de combustível poderá manter um frota no porto e inviabilizar seu emprego numa ação de resistência, podendo ser mais proveitoso e eficiente que bombardear a frota propriamente dita. O bombardeio a Pearl Harbour na Segunda Guerra Mundial visou a frota no porto e deixou de lado os grandes depósitos de combustível dessa frota. Como parte dela estava no mar com todos os seus navios-aeródromo, a capacidade da frota continuou existindo quase que totalmente e seu poder de reação permaneceu intacto, servindo o bombardeio apenas como ato de provocação. Foi um grande erro dos japoneses. A Logística sempre será um fator relevante em todas as operações, seja de quais tipo forem. A estimativa de logística deverá conter informações o mais minuciosas possíveis, cobrindo todos os aspectos da operação.

Os fatores que envolvem tempo e distância são o início do estudo da dinâmica da missão. Eles possibilitam a visualização das possíveis linhas de ação própria e do inimigo e devem ser considerados em todos os estágios do planejamento e em qualquer tipo de operação.

Devem ser analisados o tempo necessário ao planejamento, a mobilização, de adestramento específico das forças, ao desdobramento e posicionamento de meios, os tempos limites para execução da missão, os períodos de vulnerabilidade a ameaça como a aérea e submarina, o tempo necessário a reabastecimentos de todos os tipos, os limitares a atividade aérea e naval como as tempestades e o período noturno, os tempos de carga e descarga, o tempo de recomposição de forças pós-atrito, o tempo para chegada de reforço e outros que se façam necessários. A análise das distâncias está intimamente ligada ao fator tempo pela velocidade das ações.

Pontos a Considerar no PPM

Depois de analisar os dados disponíveis e enumerar as hipóteses sobre aquilo que não se sabe ainda, o comandante deverá reavaliar suas conclusões e rever os aspectos mais importantes e que merecem uma revisão.

  • Deficiência de informações:

Muitos aspectos importantes a uma missão não são totalmente conhecidos, e embora muitas vezes seja possível deduzir de forma bem provável que se deem de determinada maneira, esta dedução poderá não ser totalmente condizente com a realidade. Dessa forma, sempre que possível, deve-se lançar mão de maneiras de obter estas informações faltantes, sejam através de missões de reconhecimento, dados de informantes colhidos nos locais respectivos, missões de sensoriamento, etc... Estes elementos de inteligência que comporão o “quebra-cabeças” do planejamento e que ainda não estão disponíveis, deverão ser listados e sua obtenção demandada, cabendo à unidade de inteligência do comando executante da missão determinar a melhor forma de obtê-los.

Por exemplo: Uma brigada de paraquedistas será lançada junto a ponte de Arnhem na Holanda (Operação Market-Garden, Segunda Guerra Mundial) para garantir o domínio desta ponte até que as colunas blindadas aliadas possam transpô-la. Acredita-se que a forças alemãs no local sejam pouco potentes e a brigada às dominará sem muita dificuldade. Existem rumores, porém, que uma divisão panzer da SS está “descansando” neste local, e embora sejam apenas rumores, um reconhecimento aerofotográfico será de grande valor para uma melhor avaliação das forças ali estacionadas.

  • Disciplina de Informações visando a Segurança

A disciplina de informações deverá igualmente ser tratada com o máximo de cautela, pois o vazamento de informações a respeito do que se está planejando poderá fazer com que o inimigo tome precauções que poderão vir a inviabilizar a missão ou dificultá-la, cobrando um custo maior a sua execução. Desta forma deve-se restringir ao mínimo os conhecedores de intenções e planejamentos, bem como se adotar uma disciplina de tráfego de informações que dificultem ao máximo sua interceptação, usando criptografia, equipamentos dotados de ECCM eficientes e outras medidas como o controle de emissões visando frustrar os esforços de COMINT inimigos.

Por exemplo: o conhecimento pelo inimigo da simples demanda do reconhecimento aéreo de uma determinada área, obtida através da interceptação da mensagem pedindo este reconhecimento, pode induzi-lo a reforçar a guarnição e as medidas de segurança deste local, inviabilizando a missão.

  • Fatores de Força e Fraqueza

Os fatores de força e fraqueza, capacidade e incapacidade, de ambos os contendores, na obtenção dos efeitos desejados, devem ser listados e comparados em forma de síntese que expressem as conclusões obtidas e levem a correção daquilo que for avaliado como necessário ao cumprimento da missão.

Por exemplo: O assalto a cota 312 necessitará a transposição de um corredor que está coberto por 3 posições de metralhadoras, que inviabilizam sua utilização, sendo que as mesmas encontram-se bem fortificadas em casamatas de concreto, dificultando sua neutralização. Recomenda-se que sejam neutralizadas através de bombardeio dirigido aos seus pontos fracos, pois um bombardeio convencional de saturação poderá não produzir os efeitos desejados. Não é uma determinação que assim seja feito, mas uma orientação do que pode ser o melhor a se implementar, cabendo a decisão ao comandante.

Não se deve considerar como fatores de força ou fraqueza fatos, e sim conclusões. Relacionar como fator de força, por exemplo, algo que se tem, mas que não se pode usar em uma missão específica será irrelevante. Por exemplo: Em uma missão de varredura de minas em um canal que dá acesso a um porto, não é um fator de força relacionar que se tem um navio de desembarque anfíbio à disposição fundeado ali perto. Não é fator de fraqueza aquilo que não se dispõem, nem fator de força aquilo que se dispõem (organicamente), a não ser que esta relação seja importante. Não se deve relacionar como fator de força aquilo que já tenha sido relacionado como fator de fraqueza do oponente, e vice-versa. Pode-se relacionar como fator de força ou fraqueza um mesmo fator para ambos os contendores, desde que não se oponham. Por exemplo: poderá ser solicitado o apoio de um pelotão com mísseis anticarro de uma unidade amiga, sendo que o inimigo conta com um pelotão semelhante, porém não será fator de fraqueza do inimigo seus carros de combate serem vulneráveis a estes mesmos mísseis. Os fatores de força devem ser explorados ao máximo, bem como os de fraqueza evitados, procurando se contornar com outras soluções, e vice versa.

  • Determinação da Composição da Missão

O comandante já está em condições de fazer a composição inicial da missão neste momento, sabendo do que necessita para cumpri-la com sucesso e das vulnerabilidades do inimigo, que deverá explorar. As linhas gerais de ação já podem ser definidas e usadas como base do planejamento detalhado da operação.



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Planejamento Militar - Introdução ao PPM (Parte 1) *204



Generalidades

O planejamento militar é o conjunto de percepções e intenções que surgem quando um problema militar tem que ser resolvido, entendendo como problema militar uma situação em que forças antagônicas de naturezas diversas estão predispostas a impedir que a intenção do comando, seja ela qual for, seja cumprida. Cabe ao Estado Maior (EM) das forças encarregadas de resolver o problema, executar o planejamento que deve resultar em um plano de ação factível, realista e que traga as mínimas consequências colaterais possíveis, sempre buscando poupar vidas e integridade ambientais e das estruturas. A solução do problema militar é o restabelecimento de uma condição anterior ou a criação de uma nova condição desejável, e é de responsabilidade do comandante designado, que deverá emitir as diretrizes de um plano de ação e orientar seu planejamento, durante o detalhamento pelo EM, que identificará as particularidades deste plano e encaminhará a solução de seus problemas.

Uma ação militar envolve a movimentação de tropas e meios militares, seja com ou sem resistência, que deverá contar com todo o apoio necessário, dentro de um envelope de segurança aceitável com riscos calculados, devidamente coordenado e com seus efeitos avaliados, e se necessário com a implementação de ações complementares que visem aproximar estes efeitos da condição desejada, visando cumprir os objetivos traçados, sempre buscando a eficiência máxima.

O comandante e seu EM planejarão sua ação e transmitirão ordens operativas, que devem ser claras e objetivas (vide Princípios de Guerra). Este planejamento dar-se-á em todos os escalões de comando, envolvendo militares de diversas patentes, sendo atribuição dos oficiais, porém poderá envolver praças se aqueles não estiverem disponíveis e a situação assim o exigir, pois na guerra nem sempre os meios que se tem são os desejáveis.

Uma ação militar bem executada é aquela que cumpre seu objetivo preservando a integridade material e pessoal dos fatores envolvidos ao máximo, preservando a vida de civis e soldados, bem como a integridade das estruturas e atingindo a condição política desejável. A habilidade dos planejadores é o primeiro passo para se alcançar este objetivo.

O Processo de Planejamento Militar (PPM) é a ferramenta que os oficiais planejadores utilizam para conduzirem sua atividade. O PPM não desenvolve no comandante e em seus oficiais, habilidades individuais ou criatividade e perspicácia, mas se vale das ideias e capacidade de resolver problemas dos que já possuem estas habilidades, não se prestando a criá-las.

A complexidade da guerra moderna decorrente de toda a estrutura tecnológica de que é dependente, torna impeditiva a condução de uma operação militar unicamente pelo comandante, mesmo que brilhante, tão complexos os problemas que se apresentam. A volatilidade das situações e mesmo a possibilidade do comandante estar impedido por qualquer razão de exercer sua autoridade, além da necessidades de coleta de inteligência, análise e síntese, requer a presença de uma assessoria na forma do EM, afinal um grupo trabalha melhor que a soma de cada um de seus integrantes isoladamente.

Consciência Situacional

Decisões oportunas e eficazes são a base de um plano bem arquitetado, tomadas com base no julgamento preciso dos conhecimentos e das informações disponíveis. Desenvolver a mais apurada consciência situacional possível é um fator essencial para que um comandante e seu EM possam conduzir um planejamento eficaz, avaliando ações com precisão e tomando decisões adequadas à situação, para se chegar à planos de ação eficazes.

Consciência situacional consiste na percepção precisa e permanentemente atualizada do quadro de situação no qual o comandante ou qualquer outro militar se encontra ou tem que enfrentar. A integração de diversas fontes de conhecimentos, inteligência e da experiência profissional dos planejadores e operadores contribui para uma melhor percepção do ambiente operacional. A capacidade de agregar na percepção do quadro de situação, cada elemento que possa ter influência em relação à missão atribuída, contribui para que esta condição seja atingida da forma mais abrangente. A menor distância entre a situação percebida e a situação real é a condição mais desejada e contribui significativamente para um processo decisório mais pragmático.

A Intenção do Comandante

Ao receber uma missão do escalão superior, um comandante militar inicial seu ciclo de planejamento. De forma totalmente mental ele procura entender o problema militar a ser solucionado e visualiza genericamente como enfrentá-lo. Da mesma forma, se a missão for primeiramente recebida pelo seu EM. este pode também mentalmente, absorver sua essência e ao encaminhar a designação recebida ao seu comandante, sugerir possíveis formas de abordagem. A absorção de um problema militar requer que o comandante e seu EM lancem mão de seus conhecimentos acadêmicos, suas experiências tanto no campo do planejamento como da execução, das características do ambiente operacional e das forças envolvidas; além é claro de pragmatismo, bom senso e capacidade empreendedora.

Todas as circunstâncias que envolvem a situação serão posteriormente avaliadas durante o PPM. Para que o comandante possa mentalizar o entendimento do ambiente operacional presente e do problema militar que lhes foi confiado, deve fazê-lo com seus conhecimentos já adquiridos e informações conhecidas, deixando para o PPM a busca de informações completas, detalhadas e oportunas. Um planejamento conceitual inicial ajudará o comandante a obter uma compreensão do ambiente operacional e do problema, permitindo, conceber uma ideia base para a confecção de sua diretriz inicial ou carta de instrução e chegar até a linha de ação mais adequada mais à frente.

Uma vez alcançada a compreensão inicial quanto ao ambiente operacional e ao problema militar designado, parte-se para a visualização da situação final desejada e das possíveis alternativas possíveis para sua resolução. Este processo mental definirá a visão do comandante, que poderá ser refinada através de troca de ideias com seu EM e comandantes subordinados, e fornecerá a base para a diretriz citada. A sequência deste primeiro entendimento será descrita ao EM e aos comandantes subordinados, caso ainda não tenham este conhecimento, a fim de nivelar o entendimento da missão por todos antes do início do PPM propriamente dito. É importante que todos compreendam o problema, antes de iniciar o planejamento. Este entendimento deverá gerar uma diretriz inicial, expressa de forma escrita e também oral se desejar, que será usada como base para o início do PPM, e deve ser clara e de fácil memorização, de forma a poder ser distribuída aos escalões inferiores.

Deverá conter a intenção do comandante, a diretriz de planejamento e os elementos essenciais de inteligência. A intenção do comandante deverá expressar a finalidade da operação e o resultado final desejado. Proporcionará foco para o trabalho do EM e auxiliará os comandantes subordinados e elementos de apoio a agirem para a busca dos resultados desejados sem a necessidade de novas ordens, mesmo quando a operação não se desenvolver como foi planejada. Durante o planejamento, a intenção do comandante direciona o desenvolvimento das linhas de ação; durante a execução, permite a aplicação da iniciativa dos subordinados diante de situações imprevistas ou no combate de ameaças. A diretriz de planejamento transmitirá ao EM a essência da visão do comandante, descrevendo de forma geral – O QUE, O QUANDO, O ONDE e O COMO (opcional) – o comando pretende empregar o seu poder de combate para cumprir a missão. Incluirá uma abordagem operativa, que se constituirá na base do conceito da operação. Descreverá também as lacunas existentes em sua visualização, indicando quais são os elementos essenciais de inteligência a serem buscados e quais informações devem ser protegidas, que se obtidas por força oponente, podem comprometer o cumprimento da missão.

Etapas do PPM

O PPM se dá em 3 etapas: Primeiro a análise da situação com a inserção da missão no cenário existente e a coleta de inteligência para subsidiar esta primeira etapa, elencando os desafios e obstáculos para se chegar ao objetivo; depois se parte para a coleta de inteligência para verificar a exequibilidade das ideias e hipóteses iniciais, com o desenvolvimento do plano de ação e emissão das ordens de execução subsequentes; e finalmente, já durante o curso da operação, o seu controle e avaliação dos resultados em tempo real.

A primeira etapa é a base do processo. Reconhece-se o problema militar, analisa-se minuciosamente a missão, e se coaduna as conclusões iniciais com as características da área de operações e seus fatores. Considera-se o tempo e forças disponíveis, as distâncias envolvidas, condições meteorológicas e do terreno. Analisa-se também as possibilidades de reação do inimigo, identificando linhas de ação prováveis e decide-se qual a melhor estratégia a adotar, demandando os serviços de inteligência necessários a tomada de decisão.

Na segunda etapa, baseada na linha de ação adotada, parte-se para a elaboração de um plano detalhado, tão detalhado quanto a situação o exigir, e expedição de ordens aos diversos operadores deste plano. Novamente serviços de inteligência necessários ao detalhamento do plano serão demandados.

Na terceira etapa acompanha-se em tempo real o desenrolar da operação, efetuando correções onde se fizerem necessárias, com avaliação dos resultados.

Características do PPM

O PMM é flexível, cíclico e contínuo. Flexível porque pode ser usado na solução de qualquer problema militar, simples ou complexo, operacional ou tático, não sendo suas etapas rígidas, podendo ser desenvolvidas ou mesmo eliminadas. O método (PPM) é que deve adaptar-se ao problema, e não o contrário. Cíclico porque pode-se desenvolver partes já desenvolvidas tantas vezes quanto for necessário, a luz de novos fatos ou melhor análise. Contínuo porque o planejamento só cessa com a resolução do problema ou seja, o cumprimento da missão.

Um PMM deve ser conduzido à luz de preceitos fundamentais. Primeiro que somente se aceite como verdadeiro aquilo que se apresentar claro e indiscutível. Segundo deve ser analisado em partes, tantas quanto necessárias, a fim de simplificar cada ponto a facilitar sua análise e encaminhamento. Terceiro que cada decisão em particular deve ser somada às outras a fim de partir do simples para o complexo. Quarto que todos os fatos e conclusões devem ser enumerados, permitindo que tantas revisões quanto necessárias sejam efetuadas, eliminando a possibilidade de se desconsiderar aspectos relevantes.

Os planejadores devem sempre ter em mente que estão planejando uma "operação militar", que por natureza é perigosa e com grandes chances de "dar errado", que ariscarão a vida de pessoas, utilizarão equipamento caro e muitas vezes difícil de obter ou repor, onde cada detalhe pode ser vital no sucesso ou fracasso da missão.

A sistematização do PPM confere confiança a quem o executa, reduz a subjetividade das conclusões e traz mais confiabilidade ao plano.

Ao empreender um PPM os oficiais planejadores concluem suas sínteses e análises elencando o que as forças devem fazer, na forma de ordens que na prática são a missão de cada uma das tropas ou atores envolvidos. Um quadro sistemático será elaborado com as tarefas serem realizadas e os efeitos que se deseja de cada uma, sendo a soma destes efeitos a condição que se espera, que culminará no cumprimento da missão.

A Emissão de Ordens

As ordens podem ser emitidas determinando qual tarefa a se cumprir, ou qual o resultado que se espera, ou ambos. Por exemplo, o comandante do batalhão pode determinar que a 1ª Cia Fuzileiros domine uma “cabeça de ponte” sobre um determinado rio (tarefa a ser realizada), ou determinar que seja garantida a transposição deste rio para que uma coluna mecanizada possa transpô-lo sem problemas, sem dizer como (efeito desejado), ou ambos.

É importante que os operadores da missão se concentrem em seu objetivo principal (transpor o rio ou dominar a ponte) não perdendo tempo e recursos com objetivos não relacionados a missão. Objetivos eventuais, por exemplo um comboio logístico inimigo casualmente encontrado, podem ser atacados desde que não coloque em risco o cumprimento do objetivo principal. No filme “O Resgate do Soldado Ryan” o Capitão Miller ordenou o ataque a uma posição alemã casualmente encontrada. Seu argumento foi que o objetivo era vencer a guerra e qualquer ação contra os alemães somava. No entanto se seu ataque resultasse na inoperância de seu grupo, sua busca pelo paraquedista perdido não seria levada a efeito, ou seja, sua missão (objetivo principal) não seria cumprida. Além do objetivo principal podem ser designados objetivos secundários, tarefas que podem ser cumpridas se possível, mas não tem a importância do objetivo principal (se der execute, se não deixa pra lá). Por exemplo, no caminho para a ponte tem um transformador de alta tensão que supre uma instalação inimiga e deve ser neutralizado, destruam-no se possível (se der coloquem explosivos nele, senão depois mandamos alguém fazer isso). Desta forma deverá estar claro aos operadores qual é o objetivo da missão (vide Princípios de Guerra).

Assim podemos definir missão como sendo o binômio “tarefa a cumprir + propósito” unidos pela expressão “a fim de”. Dizer “o que fazer” e “porque fazer” é a função do enunciado da missão.  Por exemplo, a missão da 1ª Cia de Fuzileiros poderia ser de “Estabelecer o controle sobre a ponte sobre o Rio Diamante a fim de garantir que a FT Blindada Azul possa transpô-lo imediatamente”. Uma missão poderá conter mais de uma tarefa e mais de um propósito, mas deverão estar sempre unidos por esta expressão, uma única vez. Uma missão poderá ser imposta pelo escalão superior ou empreendida por iniciativa do próprio comandante, sendo que esta deverá estar dentro dos propósitos dos objetivos perseguidos e ser plenamente factível, não sendo admitidas aventuras duvidosas.

A Diretiva é o nome do documento que contém a missão, e é composta, normalmente, por 5 títulos principais e numerados como segue (modelo sugerido, existem outros):

1. Situação
0. Forças Inimigas
1. Forças Amigas
2. Meios
3. Hipóteses Básicas
2. Missão
0. (tarefa) + “a fim de”
1. (propósito)
3. Execução
0. (decisão)
1. (tarefa das forças componentes)
0. força a
1. força b
2. etc..
4. Logística
5. Comando, Controle e Comunicações
6. Outros (administração e assuntos civis por exemplo)

Cada comandante subordinado deverá retirar da diretiva vinda do escalão superior a tarefa que deve empreender (sua missão designada – item 3.2), sendo seu propósito a decisão de seu superior (item 3.1), para elaborar sua própria diretiva. No título “3. Execução” cada parágrafo refere-se a uma força componente a cada comandante deverá identificar o seu.

Quando a decisão da diretiva superior (ítem 3.1) for igual ao propósito (ítem 2.2) da diretiva do comandante subordinado, este propósito deverá ser retirado diretamente da missão (item 2.1) da diretiva superior, pois cabe a este comandante desenvolver o esforço principal. Se o comandante não estiver sozinho no empenho do esforço principal ou estiver em missão de apoio/proteção, seu propósito sempre se iniciará com a expressão “contribuir para”.

Por exemplo: a 10ª Bda Inf Bld expede uma ordem de operações cuja missão é "Desdobrar meios para transposição do Rio dos Remédios pela rodovia 880, a fim de permitir que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780". No título Execução diz: 

  1. O 101º Btl Eng Cmb Bld desdobrará seus meios de transposição de curso d'agua a fim de permitir às forças designadas a transposição do Rio dos Remédios na rota 670 em D+3, 
  2. O 110º Btl Inf Bld ocupará a área de transposição designada pelo 101º Btl Eng Cmb Bld a fim de contribuir para a segurança da transposição do Rio dos Remédios pelas forças designadas, 
  3. A 120º Bia AAAé proverá segurança antiaérea à transposição desde o início dos trabalhos de desdobramento de meios, a fim de contribuir para a segurança antiaérea da transposição do Rio dos Remédios pelas forças designadas.

No seguimento o comandante do 101ª Btl Eng Cmb emite sua diretiva: Desdobrar meios para transposição do Rio dos Remédios em D+3 a fim de permitir que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780; e o 110ª Btl Inf Bld a sua: Prover segurança a área de transposição a fim de contribuir para que as forças designadas possam fincar posição ao norte deste, entre as cotas 678 e 780.

Outras formas de diretivas são possíveis e poderão apresentar-se em formatos rígido ou não, cabendo neste caso aos comandantes subordinados extraírem suas tarefas do local onde estiverem dispostas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O Míssil Antinavio *203


A Evolução do Míssil Antinavio
(Jon Lake)

O míssil antinavio já percorreu um longo caminho desde as armas guiadas rudimentares testemunhadas pela primeira vez durante a Segunda Guerra Mundial.

Há uma gama espantosa de sistemas de armas otimizados para a destruição de embarcações de superfície. No auge da Guerra Fria, a aeronave Blackburn Buccaneer da RAF tinha um arsenal que incluía mísseis Matra Martel guiados por radar e TV, mísseis antinavioBAE (agora MBDA) Sea Eagle de longo alcance, Texas Instruments (agora Raytheon) Paveway bombas guiadas a laser e armas nucleares táticas, enquanto durante a Guerra das Malvinas, os corajosos e altamente habilidosos pilotos argentinos causaram estragos na força-tarefa naval britânica - em grande parte usando 'bombas de ferro' não guiadas. A Royal Navy (RN) foi salva do desastre em grande parte porque algumas dessas armas não haviam se armado no momento em que atingiram seus alvos. Durante um confronto entre a US Navy e as forças iranianas em 1988 (Operação Praying Mantis), Aeronaves dos EUA atacaram navios inimigos usando mísseis AGM-84 Harpoon, bombas propelidas por foguete AGM-123 Skipper, bombas guiadas por TV Walleye e bombas não guiadas de 1.000 libras (453 kg).

Mas com a sofisticação e a letalidade crescentes das defesas antiaéreas de hoje, os ataques antiaéreos são melhor realizados sem ter que sobrevoar o alvo e, idealmente, a partir de um alcance significativamente maior, e para fazer isso requer o uso de mísseis antinavio (AShMs).

Eles variam de pequenas armas destinadas ao uso contra pequenos barcos rápidos e ágeis a mísseis balísticos projetados para derrubar um navio da capital. Existem sistemas que podem ser disparados de outros navios, ou de plataformas terrestres, ou de helicópteros ou aeronaves de asa fixa, enquanto alguns mísseis possuem variantes para cada uma dessas classes de plataforma de tiro. Essas várias armas antinavio empregam diferentes tipos de orientação, usam diferentes tipos e tamanhos de ogivas e seguem uma ampla variedade de perfis de voo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as aeronaves antinavio aliadas usaram canhões, foguetes não guiados, bombas e torpedos teleguiados contra navios inimigos, mas a Alemanha desenvolveu os primeiros mísseis antinavio operacionais, que usavam orientação de comando de rádio. Armas como o Henschel Hs 293 e o sem motor, perfurante Fritz X, obtiveram algum sucesso, especialmente no Teatro Mediterrâneo, de 1943 a 1944, afundando ou danificando gravemente pelo menos 38 navios, incluindo o encouraçado italiano Roma e o cruzador USS Savannah. O Hs 293B guiado por fio e as variantes do Hs 293D guiado por televisão foram desenvolvidos para combater o congestionamento de rádio aliado, mas nenhum deles alcançou o serviço operacional.

Do lado dos Aliados, a US Navy implantou a bomba planadora guiada por radar ASM-N-2 Bat, que foi considerada a primeira arma antinavio autônoma do mundo dirigida por radar, e a usou operacionalmente contra os japoneses em Abril de 1945. O McDonnell LBD-1 Gargoyle motorizado não teve uso operacional.

Durante a Guerra Fria, as Marinhas Ocidentais estavam mais preocupadas em enfrentar ameaças aerotransportadas e subaquáticas do que em engajar navios de guerra inimigos, uma vez que as capacidades de 'água azul' da Marinha Russa eram relativamente limitadas, enquanto a missão antinavio tendia a cair para submarinos, usando torpedos, e para plataformas aerotransportadas - particularmente jatos rápidos - usando praticamente as mesmas armas que empregaram contra alvos terrestres. Por muitos anos, a tecnologia de mísseis foi insuficientemente avançada para permitir o desenvolvimento de mísseis antinavio eficazes, embora algumas aeronaves maiores (como o soviético Tu-16 'Badger' e Tu-95 'Bear') carregassem grandes mísseis de cruzeiro (geralmente nucleares) destinado ao uso contra grandes alvos navais como porta-aviões dos EUA.


Mísseis antinavio modernos ganharam destaque após o naufrágio do destróier israelense Eilat (o antigo HMS Zealous ) por barcos com mísseis egípcios em 1967, enquanto modelos lançados do ar foram usados ??na Guerra das Malvinas de 1982. Cinco mísseis Exocet foram entregues à Argentina antes da guerra e foram usados ??para afundar o destróier britânico Tipo 42 HMS Sheffield em 4 de maio de 1982. O relatório oficial do Conselho de Investigação da Royal Navy afirmou que as evidências indicavam que a ogiva não havia detonado - demonstrando a letalidade dos AShMs modernos. Um único Exocet que não explodiu deixou um Destroyer inoperante na água e que afundou 4 dias depois. Outros 2 Exocets foram então usados para afundar o navio porta-contêiner de 15.000 toneladas Atlantic Conveyor em 25 de maio.

Durante a longa Guerra Irã-Iraque na década de 1980, o Irã e o Iraque almejaram os navios mercantes um do outro, especialmente os petroleiros, no que ficou conhecido como Guerra dos Tanques. A Força Aérea Iraquiana usou MiG-23s, Mirage F1s e helicópteros Super Frelon armados com mísseis Exocet durante a primeira fase desta campanha, antes que a França fornecesse Dassault Super Etendards em 1984, permitindo ao Iraque aumentar o alcance de seus Exocet. Um petroleiro liberiano, o Neptunia, foi atingido por um Exocet iraquiano em fevereiro de 1985, tornando-se o primeiro petroleiro a afundar como resultado de um ataque com míssil. Em 1987, uma fragata de mísseis guiados da Marinha dos EUA, USS Stark, foi atingida por um Exocet disparado por um Mirage F1 iraquiano.

A maioria dos primeiros mísseis antinavio lançados do ar eram derivados de armas originalmente desenvolvidas para o combate navio contra navio, incluindo o US AGM-84 Harpoon, o chinês YJ-83, o francês AM39 Exocet, o italiano Marte, o norueguês Penguin, O russo Zvezda Kh-35 e o sueco RBS-15, embora alguns mísseis dedicados lançados pelo ar também tenham sido desenvolvidos e implantados, incluindo o anglo-francês Martel e seu derivado Sea Eagle ativo de radar-homing e turbojato.

Enquanto os primeiros mísseis antinavio usavam orientação por comando de rádio, a maioria dos mísseis modernos são do tipo 'dispare e esqueça' e usam infravermelho ou radar ativo, muitas vezes em conjunto com orientação inercial.

Escumadores do Mar

A maioria dos mísseis antinavio segue uma trajetória de voo um pouco acima da superfície do mar, muitas vezes com uma corrida final supersônica, embora alguns mísseis balísticos tenham sido reaproveitados ou projetados para uma função antinavio, especialmente pela Marinha do Exército de Libertação Popular da China . Mísseis balísticos antinavio se aproximariam de seus alvos a uma velocidade enorme, com energia cinética suficiente para paralisar ou destruir um grande navio da marinha (incluindo os maiores porta-aviões) com um único golpe, mesmo com uma ogiva convencional, além de ser muito difícil de interceptar.

Como um golpe direto é necessário para ser eficaz, eles precisariam de um sistema de orientação terminal preciso e de alto desempenho. Essas armas também podem ser lançadas do ar. O Kh-47M2 Kinzhal da Rússia, por exemplo, foi desenvolvido para atingir navios de defesa contra mísseis balísticos e pode ser carregado por bombardeiros Tu-22M3 ou interceptores MiG-31K.


Quer sejam balísticos ou de trajetória de cruzeiro, os modernos mísseis antinavio são difíceis de se evitar uma vez que o alvo foi adquirido. Para conter a ameaça, a moderna nave de superfície deve evitar ser detectada, ou deve enganar ou destruir todos os mísseis que se aproximam ou suas plataformas de lançamento de mísseis - idealmente destruindo o último antes mesmo de os mísseis terem sido disparados.

Um míssil que se aproxima não tem as coisas "à sua maneira", no entanto, e terá que superar as defesas em várias camadas, talvez começando com o patrulhamento de porta-aviões ou aviões de caça baseados em terra transportando mísseis de longo alcance. Seu alvo provavelmente será equipado com sistemas integrados de controle de fogo por computador para mísseis superfície-ar (SAMs), guiados por sistemas de radar poderosos e ágeis, e pode ser capaz de rastrear, engajar e destruir simultaneamente vários mísseis antinavio de entrada ou aeronaves hostis. O míssil também terá que lidar com contramedidas eletrônicas, chaff e iscas, e uma "camada interna" de defesas de mísseis, usando mísseis de curto alcance como o Raytheon Sea Sparrow ou o Rolling Airframe Missile (RAM). Até mesmo o armamento principal da própria nave alvo pode ser usado defensivamente, bem como sistemas dedicados de armas próximas (CIWS), usando armas de disparo rápido.

O desenvolvimento de novos mísseis antinavio lançados pelo ar diminuiu após o fim da Guerra Fria, à medida que as marinhas operavam cada vez mais na zona litorânea e à medida que a necessidade de se preparar para combates entre pares deu lugar à necessidade de engajar pequenos , barcos manobráveis e outras ameaças assimétricas - até mesmo homens-bomba usando jet skis. Isso, no entanto, levou ao desenvolvimento de uma classe totalmente nova de mísseis leves e baratos para uso contra essa classe de alvo. A chance de confrontos entre pares ou quase-pares (cada vez mais envolvendo guerra marítima navio-contra-navio) parecia aumentar com o aumento das tensões entre os EUA e seus aliados de um lado, e China e Rússia do outro, e isso levou a alguma renovação ênfase no desenvolvimento e aquisição de mísseis antinavio maiores.

A maioria da nova geração de AShMs são furtivos, altamente supersônicos e autônomos, e muitos deles carregam grandes ogivas - suficientes para infligir uma morte por manobra até mesmo nos alvos maiores, e capazes de cortar navios menores pela metade. Eles vêm gritando nas alturas do mar, dando às defesas pouco tempo para reagir e apresentando um alvo difícil para os sistemas defensivos.

O conjunto russo-indiano PJ-10 Brahmos tem uma ogiva de 660 lb (300 kg) e é considerado o míssil de baixa altitude mais rápido do mundo, ao mesmo tempo que desfruta de um alcance de 500 km. O Brahmos é movido por um motos de 2 estágios, com um foguete de combustível sólido fornecendo o primeiro estágio, acelerando o míssil a velocidades supersônicas e com um jato de combustível líquido como o segundo estágio, acelerando-o para Mach 2.8 na altura do topo das ondas. O BrahMos-II, é uma versão hipersônica com velocidade de Mach 7-8. O teste deve começar em 2020.

O novo ASM-3 do Japão concluiu os testes e deve entrar em serviço em breve, equipando inicialmente os caças Mitsubishi F-2 do JASDF e, talvez, mais tarde, o F-35A e o Kawasaki P-1. O XASM-3 é um míssil furtivo de deslizamento do mar com desempenho hipersônico, seu foguete de combustível sólido e ramjet integrado que o impulsionam a velocidades de até Mach 5. O alcance está sendo alargado para 400 km, mas o peso exato da ogiva permanece secreto.

Menos Velocidade; Maior Discrição

Mas nem todos os novos AShMs são hipersônicos ou mesmo altamente supersônicos. O Míssil de Ataque Naval Kongsberg da Noruega (alegado ser o primeiro míssil antinavio de 5ª geração do mundo) depende de furtividade em vez de velocidade e é considerado "totalmente passivo", não usando sensores ativos para rastrear alvos e não emitindo infravermelho ou radar poderia ser detectado por navios inimigos. O míssil é movido por um pequeno turbofan (após um impulso inicial de foguete) e tem um alcance de 185 km. Carrega uma ogiva de 125 kg. Um derivado, o JSM (Joint Strike Missile) de desenvolvimento, é projetado para ser capaz de missões ar-solo e antinavio. O JSM vai caber no compartimento de armas interno do Lockheed Martin F-35.

Outro engenho relativamente lento é o Míssil Antinavio de Longo Alcance Americano (LRASM), destinado a ser um sucessor e um substituto do Harpoon AGM-84. LRASM é um derivado do míssil de cruzeiro JASSM-ER usado pelos bombardeiros da USAF e é furtivo e resistente a interferência, não produzindo nenhum retorno de radar rastreável e nenhuma assinatura IR real. O LRASM usará essa baixa observabilidade e seus recursos autônomos para detectar e atacar alvos enquanto evita suas defesas. LRASM tem um alcance de mais de 500 milhas, em comparação com 67 milhas do Harpoon. Ele pode entregar uma ogiva de penetração de 1.000 libras (453 kg), atingindo alvos com uma precisão de até 3 metros.

Para os EUA e seus aliados, o LRASM promete ser um meio útil de enfrentar a crescente ameaça representada pelas forças navais chinesas no Pacífico Ocidental, protegendo as rotas marítimas internacionais e evitando que a China desvie a área entre sua costa e a cadeia de ilhas que se estende desde o Arquipélago japonês para as Filipinas em uma área proibida para navios aliados e um santuário próprio.

No outro extremo da escala, o desenvolvimento e aperfeiçoamento de armas como o MBDA Brimstone e Sea Venom produziram uma nova geração de mísseis de curto alcance para uso contra alvos marítimos, substituindo AShMs mais leves como o Aerospatiale AS 15 TT e o MBDA Sea Skua. O Sea Venom é um míssil antinavio anglo-francês leve que foi projetado para equipar helicópteros Wildcat da Royal Navy e Pantera da Marinha Francesa e o helicóptero NH90. A arma deve entrar em serviço na Royal Navy no final de 2021.




O Míssil Antinavio em Ação

Os primeiros mísseis antinavio surgiram durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Luftwaffe equipou suas aeronaves com os modelos experimentais Henschel Hs 293 e Fritz X, usando-os contra navios aliados no Mediterrâneo com bons resultados. Todos os modelos eram guiados por rádio, forçando as marinhas aliadas a desenvolverem contramedidas. Os aliados por sua vez também fizeram suas experiências.

Findo o conflito e com o advento da guerra fria, os aliados ocidentais abandonaram estes desenvolvimentos, concentrando-se na consolidação de sua estratégia de aviação naval. Os grandes encouraçados de outrora já haviam cedido seu trono a era dos porta-aviões, que reinam até os dias de hoje como as principais belonaves usadas para projeção de poder e controle de área marítima. Os EUA começaram em 1955 a mobiliar sua armada com estes super-navios capazes de embarcar quase uma centena de aeronaves. As forças da NATO passaram a contar, onde quer que estivessem, com ampla cobertura aérea de longo alcance em torno de suas frotas. Os estrategistas soviéticos consideravam o território da URSS um grande navio-aeródromo e não viam estes navios como uma prioridade, até porquê mesmo com todo o seu tamanho o território russo e das outras ex-repúblicas soviéticas tem acesso limitadíssimo ao mar. Suas numerosas bases aéreas lhes proporcionavam uma presença em grande parte do território mundial e fazer frente às armadas da NATO delineou sua estratégia naval, baseada em submarinos, minas navais e mísseis antinavio. Em caso de bloqueio naval ao território russo os submarinos são os que mais chance tem de "furar" este bloqueio.
A Guerra dos Seis Dias de 1967, um dos episódios mais conhecidos da aparentemente sem fim disputa árabe-israelense, marcou a estréia de uma nova arma. Um projétil até então desconhecido do mundo, o Raduga P-15 Termit de origem soviética, mais conhecido pela sua designação NATO SS-N-2 Styx , atingiu o destróier do país judeu Eilat. Dois FACs da classe Komar (NATO) egípcios dispararam 4 mísseis desde uma distância de 23 km de Port-Said, onde serviam como unidades de defesa costeira. Apesar do fogo defensivo da tripulação do navio, que imaginou estar sendo atacada por aeronaves, já que estas armas eram novidade. 3 Styx o atingiram selando seu destino, que afundou em algumas horas matando 47 e ferindo gravemente grande parte de tripulação. Devido ao ineditismo da situação, o treinamento dos artilheiros para engajar este tipo de arma era inexistente.

O episódio provocou uma reação de surpresa e pânico nos estrategistas ocidentais, que se deram conta que não tinham nada parecido. Claramente os EUA (e a NATO) e seus poderosos porta-aviões estavam vulneráveis ao impacto de um pequeno projétil de pouco mais de 2 toneladas baseado na fuselagem de uma pequena aeronave experimental. Havia um imenso “gap” entre a URSS e a NATO, e esta pôs mãos a obra com o intuito de superá-lo.
O desafio soviético era o de penetrar defesas poderosas e profundas para atingir navios muito grandes, representadas por ampla cobertura aérea vinda dos navios-aeródromos escoltados por sistemas antiaéreos Terrier/ Tartar e Talos e posteriormente pelo que de melhor existem em cobertura antiaérea naval na atualidade, o sistema AEGIS. Durante a 2GM o canhão era a principal arma naval, logo superado pelo avião no pós-guerra, que por sua vez dependia dos grandes e caros navios-aeródromos, só disponíveis às grandes marinhas. Penetrar estas defesas fazendo o uso de aeronaves de bombardeio não era uma tarefa fácil, o que resultou em desenvolvimentos de mísseis de longo alcance, dotados de ogivas potentes e empregados em lançamentos de saturação.
Diante destas necessidades tático-operacionais distintas, os mísseis antinavio soviéticos e ocidentais seguiram uma filosofia própria. Enquanto que os países da NATO desenvolveram engenhos menores, que podiam ser vetorados por caças capazes de levar seus mísseis mais próximos de seus alvos, com o intuito de atingir navios menores como eram aqueles do Pacto de Varsóvia, os soviéticos desenvolveram projéteis até hoje sem equivalentes no ocidente. Como tinham que lançar seus mísseis de alcances maiores acabaram por construir projéteis comparados a pequenas aeronaves pelo seu tamanho, deslocando-se a altas velocidades, por vezes supersônicas, para vencer defesas pesadas provenientes dos navios-aeródromos e com ogivas pesadas, algumas nucleares, para alvejar navios grandes, que por sua vez voavam mais alto e podiam ser mais facilmente detectados e interceptados, além de pouco manobráveis.

Na guerra naval existe uma distância padrão que é de 38/39 km. Esta distância se refere ao alcance de um radar montado no mastro de um navio qualquer, não importando sua potência. Esta limitação se dá pela curvatura da terra, a partir da qual o navio simplesmente não “enxerga”. Nenhum míssil disparado de uma nave de guerra pode atingir seu alvo além desta distância, simplesmente porque o navio não sabe que ele está lá, razão pela qual, por exemplo, o míssil francês MM38 Exocet foi concebido com alcance similar. Para contornar esta limitação e dispor de um alcance maior para suas armas, as marinhas de guerra tem duas alternativas: contar com suas várias unidades operando em comunicação constante, modernamente na forma de NCW, dizendo umas as outras onde os alvos estão, o que não resolve o problema, pois sempre haverá a nave que está mais à vanguarda, ou contar com meios aéreos que tem um horizonte-radar muito ampliado e podem designar alvos para mísseis com alcance superior ao padrão citado. Estes meios aéreos podem ser aeronaves de patrulha marítima ou AEW baseadas em terra, aeronaves baseadas em navios-aeródromos, helicópteros baseados em todos os tipos de navios, drones, dirigíveis, balões, etc...
A designação do alvo por um helicóptero naval, por exemplo, justifica a existência de mísseis lançados da superfície com alcance superior ao padrão citado. O meio aéreo tem que dizer onde o alvo está, e o míssil chegará até lá guiado pelos dados inseridos em sua memória antes do lançamento e trajetória garantida pelo INS. Ao aproximar-se do alvo, que não estará mais lá, pois deslocou-se e na guerra naval ninguém fica parado, o míssil ligará seu radar de busca e fará o ajuste fino de sua pontaria compensando a mudança de posição do alvo. Dessa forma temos mísseis com alcances bem superiores aos 38 km do horizonte-radar naval. Os mísseis antinavio lançados do ar não estão submetidos a esta limitação, pois o radar de seu lançador pode endereçá-lo diretamente. Por esta razão muitas marinhas que não dispõem de navios-aeródromos equipam seus helicópteros com estes projéteis, podendo helicópteros mais pesados portarem mísseis mais capazes.


Os mísseis soviéticos destacam-se pelo tamanho, alguns baseados em fuselagens de aeronaves já existentes como o Mig-15. Equipam bombardeiros, navios de superfície e submarinos. Possuiam ogivas poderosas e grande alcance como os Raduga KSR-2  (AS-5 Kelt) e Raduga KSR-5 (AS-6), com ogivas de 1 ton ou mesmo nuclear de 350kt, com alcance acima dos 300 km e velocidade acima de mach 3,5, tão grandes que um bombardeiro Tu-16 carregava apenas um deles nos tempos da Guerra Fria. Seguiram-se outros modelos como o P-120 Malakhit (SS-N-9) de mach 0,9 e alcance em torno dos 100 km+, o Raduga P-270 Moskit (SS-N-22) com alcance de até 270 km e velocidade de mach 3 e o P-800 Oniks (SS-N-26) que deu origem ao indiano Brahmos, também supersônicos (mach 2,5) e alcance por volta dos 300 km.

O ocidente adotou o conceito “sea skimming” , com o míssil voando rente a superfície do mar, não detectável, portando, por grande parte de sua trajetória, dificuldade esta acentuada pelo tamanho reduzido dos projéteis. Os modelos Exocet francês e Harpoon dos EUA se valem deste perfil operacional. Esta postura exige do projétil um rigoroso controle de altitude de forma a não se chocar com a superfície do mar, controle este desempenhado por um radar-altímetro. Vôos baixos não combinam com altas velocidades pois o arrasto é muito grande com impacto direto no alcance, e o supersônico Brahmos indiano voa baixo apenas em sua trajetória final.
Mísseis com maior velocidade reduzem o tempo de reação das defesas, porém consomem mais combustível e possuem maior assinatura térmica e radar, além de menor capacidade de manobra. Outra forma de dificultar o trabalho dos defensores é realizar ataques de saturação, onde vários mísseis são lançados ao mesmo tempo sobre um mesmo alvo. A guerra do Atlântico-Sul em 1982 mostrou ao mundo o poder destes projéteis, quando um AM39 Exocet da Armada Argentina fulminou o destróier de sua majestade HMS Sheffield, um pouco acima da linha d’agua, pondo-o a pique, impacto este fruto de uma série de indecisões a falta de efetividade por parte dos defensores. Os últimos anos trouxeram radares capazes de “ver” de forma efetiva os mísseis de voo baixo , que acoplados a sistemas antimísseis automáticos, com mísseis antimísseis ou canhões de tiro rápido, constituíram uma contramedida considerável, o que está forçando os projetistas a considerarem as tecnologias furtivas, pois aquilo que não se pode ver não se pode abater. Considera-se as tecnologias já conhecidas de materiais e formas, porém a operação passiva com disciplina de emissões também é importante.

Os mais populares mísseis do ocidente são Harpoon dos EUA, lançado da superfície, ar ou submarinos, subsônico, com até 250 km de alcance e ogiva de 221 kg, guiagem final por radar ativo. O MM-40/SM-39/AM-39 Exocet da MBDA com até 180 km de alcance, lançamento tal qual o americano e ogiva de 165 kg. Existem outros como o sueco RBS-15 com até 250 km de alcance e ogiva de 200 kg, o italiano Otomat e o britânico Sea Eagle, entre muitos outros.
Um míssil antinavio é um pequeno míssil de cruzeiro, sendo que alguns mísseis de cruzeiro podem ser usados na função antinavio, como o Tomahawk dos EUA, o míssil antinavio de maior alcance do mundo, podendo atingir cerca de 1800 km, porém é um míssil de cruzeiro e custa como um. Outro conceito possível é o do míssil balístico, aventado pelo chineses como operacional. O voo balístico combina altíssima velocidade e impacto cinético, prescindindo de explosivos. Como sabemos velocidades de reentrada superam em muito as marcas hipersônicas, e fica a dúvida quanto a efetividade: como se aponta de forma certeira um projétil balístico sobre um alvo móvel? a resposta pode ser o ataque de saturação, onde muitos projéteis sobre uma frota, pode ser que acerte alguém. Radares ativos e aletas defletoras dirigindo um projétil incandescente? Fica a dúvida. Porém, se forem eficazes, contramedidas terão que ser sofisticadas, para não dizer quase impossíveis. Talvez o futuro pertença a velocidade supersônica ou hipersônica e uma aparentemente incompatível capacidade furtiva.

Mísseis menores da variadas características foram desenvolvidos para equiparem os helicópteros navais, que além de designarem alvos para os vasos de superfície podem portar seus próprios projéteis, de alcance mais curto e ogiva menos potente, como o Penguin norueguês e o Sea Skua britânico. Pesam menos de meia tonelada e geralmente alcançam menos que o horizonte-radar da naves de superfície. Mísseis maiores como o AM39 também podem ser lançados dos helicópteros maiores como EC-725 ou Sea King. Estes Engenhos podem afundar barcos menores ou provocar deterioração nos sistemas e operacionalidade dos maiores. Como já citado o AM39 colocou um destróier britânico fora de combate. Uma pequena ogiva pode provocar uma grande dano se atingir um paiol ou reservatório de combustível, ou um dano operacional sério, se atingir, por exemplo um COC, mesmo em um vaso de grande porte. Ogivas podem ser equipadas com material incendiário para maior efetividade.

O foco na guerra de “águas azuis” da guerra fria passou a ser compartilhado com os conflitos assimétricos e mais próximos da costa dos tempos modernos, o que levou os mísseis antinavio a se adaptarem as peculiaridades deste cenário, cheio de meandros e recortes de litoral onde embarcações velozes e bem armadas reinam, operação esta que só se tornou possível devido a precisão de sistemas como o GPS que permitem que estes engenhos contornem os acidentes naturais. As embarcações de pequeno porte, privadas da operação dos grandes canhões no passado, passaram a contar com poder de fogo compatível. 
Para conter esta ameaça, é vital aos navios da atualidade disporem de contramedidas eficazes. O navio primeiramente tem que evitar ser detectado valendo-se de tecnologias furtivas e disciplina nas emissões. A primeira linha de defesa são as patrulhas de combate aéreo (CAPs), e seus mísseis ar-ar (AAM) geralmente oriundas de navios-aeródromos ou mesmo baseadas em terra, estas de alcance limitado. Estas patrulhas podem alcançar centenas de quilômetros à frente da frota. Para aqueles que passem por esta primeira barreira, ou em grupos de combate desprovidos destes navios, a interceptação fica a cargo dos SAMs de defesa de área e que tem capacidade antimíssil, pois não é para qualquer um, como os Standart dos EUA. Se vencida esta segunda barreira fica ainda uma terceira e última camada representada por mísseis de defesa de ponto como o Sea Ceptor ou canhões de tiro rápido como os CIWS. Outras medidas também entram em ação como o lançamento de engodos (chaffs/flares), além de outras ações de EW e a diminuição do perfil, posicionando o navio de forma a oferecer um alvo menor.