FRASE
sábado, 17 de março de 2018
Estado-Maior e Ordens #143
sábado, 18 de março de 2023
Fator Militar *238
- A Logística é a capacidade de manutenção de uma força combatente. Cabe a ela suprir as forças em todos os ítens imagináveis e necessários ao combate. Alimentação, munição, combustíveis, suprimentos médicos, reposição de pessoal, equipamentos e materiais dos mais diversos; além do transporte, estocagem e distribuição destes ítens, nos locais e momentos adequados. A logística ainda engloba a manutenção de equipamento, seja de serviço ou corretiva, a instalação e manutenção de hospitais de campanha e serviços de transporte, a triagem de feridos e serviços funerários, a manutenção e construção de vias de acesso e áreas de estacionamento, a manutenção de instalações de cunho estratégico como portos, bases aéreas, centros de comunicações, usinas de provimento de energia e água, e outras que se mostrarem importantes às operações. Pode-se dizer que o fator logístico é o pilar central de toda e qualquer campanha, sendo sua importância diretamente proporcional a duração das operações. O próprio foco de qualquer operação continuada é a inviabilização do sistema logístico do inimigo, fator que decidiu quase todas as operações listadas pela história.
- O Comando é o agregador de todos os elementos do fator militar. Cabe ao comando a implementação de uma situação de sinergia de todos os elementos operativos. Um comandante deve desenvolver continuamente seu caráter, capacidade, experiência profissional e características de liderança. Conhecer as características do comandante inimigo é importantíssimo na medida que se deseja antecipar suas decisões. Uma força privada do seu elemento de comando continua detentora de seu potencial orgânico, porém está totalmente incapacitada de aplicá-lo, e se o fizer será de maneira limitada e desordenada.
- O Estado-Maior é o "Staff" do comandante. Cabe ao Estado-Maior ocupar-se dos detalhes da missão, permitindo que o comandante se concentre nas linhas de ação principais. Fator multiplicador do poder de combate, um Estado-Maior eficiente pode ser a diferença entre a vitória e o fracasso. Um Estado-Maior típico constitui-se de uma seção de pessoal (1ª seção), de informações (2ª seção), de operações (3ª seção) e de logística (4ª seção); podendo conter outras como de instrução, ações psicológicas, assuntos civis, comunicação social e o que mais se achar necessário. A missão do Estado-Maior é transformar a intenção do Comando em ordens operacionais.
- A Tropa é o elemento operativo propriamente dito. Caracteriza-se pelo seu número, nível de adestramento, padrões sanitários e motivação. Uma tropa desmotivada ou mal assistida no quesito de saúde não desempenhará a contento. Uma tropa em número insuficiente poderá sucumbir facilmente a não ser que outros fatores como a tecnologia e o adestramento compensem esta deficiência.
- O equipamento é o conjunto de recursos materiais, nos aspectos quantitativo e qualitativo, postos a disposição da tropa. Material Bélico, Suprimentos e materiais de toda ordem fazem parte deste item. Um aspecto material que assume especial importância são os meios de comunicações disponíveis, vitais ao exercício do comando. Sem elas operando plenas, o comando terá dificuldades em bem reger a orquestra posta a sua disposição. Fica mudo e impotente. A experiência histórica tem demonstrado, em guerras recentes, que exércitos dispondo de bom equipamento, não foram capazes de tirar rendimento satisfatório dos mesmos, por deficiências culturais da tropa.
- O terreno influi diretamente no grau de dificuldade de uma operação, e repercute sensivelmente no Fator Militar. Seus elementos topo-táticos servem para a pesquisa e estudo crítico de uma operação militar. O sucesso da operação está diretamente relacionado a capacidade de superar os obstáculos existentes, a capacidade de utilizar o terreno para ludibriar a percepção inimiga da situação e impor dificuldades a sua manobra e reação.
- As condições meteorológicas como chuva, neve, ventos, nevoeiro, fases da lua, partes do dia, temperaturas, crepúsculo, etc., influem diretamente nas operações e repercutem no Fator Militar, e devem ser consideradas com atenção.
- Os imponderáveis da guerra são circunstâncias imprevisíveis num combate, influindo decisivamente em seus resultados. Um incêndio florestal, condições meteorológicas adversas, uma revolta não esperada de populares, o assédio de criminosos, animais selvagens, um terremoto, etc... podem influir, dependendo das circunstâncias nas operações.
- A incerteza da situação está baseada no fato de que, normalmente, o comandante não dispõe de informações suficientes para lastrear seu Estudo de Situação. As medidas de contra-informação do inimigo restringem a ação de seu setor de informações. Daí decorre o risco calculado. Prejudicar a observância de um princípio de guerra em beneficio de outro. Churchill já afirmava "não se pode conduzir uma guerra na base da certeza". O chefe, nestas ocasiões, procura apoiar-se nos princípios de guerra da Segurança e da Economia de Forças, para precaver-se contra a incerteza.
- A confusão no combate estará sempre presente. Situações não previstas (imponderáveis) podem acontecer pondo abaixo todo um planejamento. O comando e a tropa têm que estar preparados e com as cabeças frias, para exercitarem o espírito da iniciativa, em situações confusas de combate, contornando de forma eficiente os problemas que vierem a aparecer. Um bom método de fazer isto é reunir várias cabeças e pedir para que relacionem tudo aquilo que pode acontecer, elencar as situações mais prováveis ou nocivas e precaver-se contra elas. É na ausência de ordens, que a criatividade e a iniciativa dos comandantes mais capazes podem fazer a diferença.
- Observância dos mandamentos e preceitos da guerra, que fundamentam as decisões de campo é de vital importância ao sucesso operacional que se está buscando. Iniciativa é sempre bem vinda e fará a diferença em qualquer situação, porém deve ser responsável e competente, sem deixar a disciplina de lado.
- O grau de operacionalidade é a capacidade de uma força em aplicar de forma plena seu poder militar. Uma força deverá dispor de comandante e estado-maior conhecedores de seu ofício e se possível experientes, tropa bem adestrada, equipamento moderno e bem manutenido, moral elevado, etc... para bem poder desempenhar suas atribuições. Deverá também saber operar em conjunto com outras forças que se façam presentes.
- O moral é a pré-disposição para lutar. Quanto mais elevado, maior será a qualidade do Fator Militar. É o combatente motivado para a luta. Influem no moral da tropa e por consequência no seu rendimento, fatores como alimentação, notícias do andamento das operações e da segurança de seus familiares, o sentimento da sua importância junto a seus comandantes, estresse a que está submetida, serviço de saúde de que dispõem, perspectiva do desenvolvimento das operações, sentimento em relação a própria segurança, exposição a cenários como de morte intensa, genocídios, amigos e colegas feridos em níveis degradantes, e outros.
- Espírito crítico e criatividade fazem parte do pensamento militar. É o estado de espírito que deve dominar todos os integrantes de uma força. Pensar para rejeitar, modificar, aperfeiçoar, inovar e progredir. A capacidade de criticar sadiamente ideias previamente aceitas, visando a rejeitá-las, ou modificá-las. Todos os conceitos da doutrina militar resultaram do pensamento militar criador. Todas as inovações na doutrina militar foram em determinada ocasião uma ideia revolucionária de um comandante ou pensador militar. Este espírito sempre enfrentará a tradicional resistência à mudanças, constante no meio militar, e deve ser empregado com cautela e conhecimento. Deve-se tomar cuidado para não se ferir a hierarquia e a disciplina, pilares da doutrina militar.
- A tecnologia sempre fará a diferença. A qualidade do Fator Militar depende muito do grau tecnológico dos equipamentos disponíveis, que não deve ser superior a capacidade dos soldados de utilizá-la.
sábado, 27 de julho de 2019
Operação Chromite - Desembarque em Incheon *173
GUERRA DA CORÉIA - 1950
Sempre que um exército subjuga um inimigo mais fraco, O comandante vitorioso vê-se tentado a aproveitar ao máximo essa situação vantajosa, avançando tão rapidamente quanto possível. Mas isso aumenta a distância a ser coberta, dificultando as comunicações e o reabastecimento das tropas em ação na linha de frente.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
O Teatro de Operações *227
Denomina-se Teatro de Operações ao espaço do Teatro de Guerra onde são desenvolvidas as operações militares principais e afins, ou seja, onde a ação efetivamente acontece englobando todas as fainas de ar, mar e terra de uma mesma situação. Teatro de Guerra é a agregação de todos os ambientes que possam desenvolver operações militares ou influir diretamente em seu curso, considerando um determinado conflito. Um Teatro de Guerra pode ser constituído por um ou mais Teatros de Operações. Na Segunda Guerra Mundial tivemos o Teatro de Operações do Atlântico, do Norte da África, da Normandia e outros, todos componentes do Teatro de Guerra do maior conflito da humanidade. Fazem parte do Teatro de Operações também as áreas de apoio logístico e retaguarda afins. É o destino final das operações de deslocamento estratégico e deverá contar com terminais aéreos e portuários robustos, que comportem o deslocamento de meios, e se possível servido por ramais rodoviários e ferroviários.
Um Teatro de
Operações moderno tem em seus terminais modais suas portas de entrada. Se as
operações forem em território pátrio, se desenvolverão a partir das bases fixas
existentes; porém em território expedicionário a força-tarefa o adentrará pelos
aeródromos, portos, ferrovias e estradas de rodagem, que devem ser conquistados
e assegurados, ou simplesmente ocupados. Alguns casos, como nas ilhas Falklands/Malvinas ou na Normandia de 1944, invadidos através das praias, uma
operação difícil e delicada. Imediatamente a estas “portas de entrada” se
desdobrará uma Zona de Operações, ou se a ocupação for administrativa uma Área
de Retaguarda com o desdobramento de toda a estrutura logística que suportará
as operações, e imediatamente a frente desta, as unidades operativas formarão
seu dispositivo tático. Em teatros assimétricos, geralmente a ocupação é
administrativa, com áreas mais seguras onde se instalam as bases, e as
operações de combate se dão de forma não linear, sem frentes definidas, mas com
existência de áreas mais “quentes e perigosas” e outras mais seguras.
Uma força em
campanha terá sempre um comandante de Teatro de Operações, que será autoridade
suprema naquele ambiente, e ao qual todas as forças aliadas e agências civis, de todos os tipos
ali operando, estarão subordinadas. Este comando terá total autonomia, apenas
limitada pelas suas regras de engajamento, e caberá a ele estabelecer a
organização territorial, designar as responsabilidades administrativas e
operacionais de seus atores. Um oficial general de maior patente será designado
para este comando, podendo ser um general do exército ou um almirante, conforme
o Teatro de Operações for predominantemente terrestre ou naval.
O comandante do
Teatro de Operações será assessorado por um Estado Maior Combinado, que deve
incluir todos os tipos de especialistas. Integrantes dos 3 ramos das forças
armadas, de forças aliadas quando em operações combinadas e de agências civis
que esteja operando ali, devem constituir este Estado Maior. Um grande Comando
Logístico poderá ser constituído, dependendo do vulto da operação. Diferenças
doutrinárias, de língua e orientação política poderão ser obstáculos ao
funcionamento deste Estado Maior. Deve-se primar pela simplicidade e unidade da
cadeia de comando, e pela flexibilidade e liberdade de ação dos escalões
subordinados. As tarefas devem ser claras a cada comando, evitando-se
duplicação de esforços ou conflito de competências. Muitas vezes unidades
operando próximas podem nutrir rivalidades entre si, sejam históricas ou
momentâneas, competindo por um mesmo objetivo apenas para satisfazer egos, o
que deve ser incisivamente coibido.
A primeira tarefa
pertinente ao Teatro de Operações é sua organização territorial. Normalmente se
estabelece uma Zona de Operações e uma Área de Retaguarda. Estas Áreas devem
levar em consideração as necessidades operacionais e logísticas, os requisitos
de segurança operacional de todo o dispositivo, as áreas ocupadas pelo inimigo
e suas possibilidades de ação, as áreas onde se localizam os objetivos
estratégicos que normalmente estarão ocupadas pelo inimigo, o espaço aéreo e
sua defesa e a população local. As áreas de retaguarda serão ocupadas pelas
atividades logísticas e pelas tropas em missões de segurança de área, em
reserva ou descanso.
A Zona de
Operações é a parte do Teatro de Operações à frente do(s) limites(s) de
retaguarda das forças em Campanha, onde atuam os atores envolvidos à condução
das operações. Inclui áreas terrestres, marítimas e espaço aéreo, onde os
comandantes interferem nas operações e empregam seu poder de fogo e manobra.
Abrange o território controlado pelo inimigo, desde as linhas de contato até as
áreas onde estão os objetivos estratégicos designados. Estas zonas por sua vez
se subdividem em zonas de combate de responsabilidade de cada unidade ali
presente. Quanto menor esta área for, menores as responsabilidades de seus
comandantes.
As Áreas de
Retaguarda compreendem desde o(s) limite(s) de retaguarda da(s) força(s) na
Zona de Operações e o limite do Teatro de Operações, onde se desdobram todos os
meios e instalações que irão proporcionar o apoio logístico às forças em
operação. Nesta área ficam estacionados também os postos de comando de alto
escalão. É uma área muito sensível e deve ser fortemente defendida, pois um
colapso no suporte logístico ou na cadeia de comando condenará toda e qualquer
operação. Esta área deverá contar com vias amplas e apurada disciplina de
tráfego, a fim de evitar congestionamentos inoportunos.
As forças
presentes em um Teatro de Operações deverão apoiar-se mutuamente, seja em prol
de sua segurança ou do êxito das operações que visam conquistar os objetivos
estratégicos. A aviação de superioridade aérea garantirá a proteção do Teatro
contra a ameaça aérea do inimigo, proporcionando segurança a tropa em terra,
que por sua vez impedirá que o inimigo ataque por terra os aeródromos que
servem de base a esta aviação, por exemplo. Às estruturas de comando e controle (C2), cabe exercer a coordenação de todo o dispositivo.
A cada unidade presente no teatro caberá a responsabilidade de buscar sua logística junto ao escalão superior, salvo determinação contrária, cabendo às unidades especializadas levarem a logística às unidades sob sua responsabilidade, como por exemplo, as unidades responsáveis por instalar postos de banho. Todo o apoio logístico será planejado, integrado e controlado pelo Comando Logístico constituído, sendo que em operações em território pátrio será facilitado pela existência de instalações logísticas permanentes das forças armadas.
sábado, 18 de maio de 2019
Fundamentos das Operações Militares *170
A guerra é a resolução de um conflito por meio da força, situação onde se esgotou o poder da palavra e da negociação. Ela se faz através de uma sequência de operações militares planejadas no tempo, no espaço e na finalidade, de magnitudes diversas e correlacionadas, onde cada lado procurar adquirir a superioridade estratégica sobre seu oponente, através da aplicação do poder militar, até se chegar a um ponto onde a situação tende a se tornar irreversível, configurando a vitória de um dos contendores.
- A Missão que nada mais é do que um objetivo a ser alcançado. Ao receber uma missão, o comandante militar deverá reunir em um plano de ação factível, baseado no bom senso, preceitos de doutrina, conhecimentos e treinamento que possui, sempre consultando os manuais de campanha afins, tudo aquilo que for necessário para cumpri-la.
- Para buscar a melhor forma de cumprir a missão recebida, o comandante procede a análise do Terreno onde será executada. Leva em consideração todos seus aspectos topo-táticos, como observação e campos de tiro, cobertas e abrigos, obstáculos, vias de acesso, acidentes capitais, condições meteorológicas, assuntos civis e outros; identificando nele seus objetivos.
- Uma vez familiarizado com o terreno onde irá desdobrar seus meios, o comandante da operação passa a estudar o Inimigo, analisando suas capacidades e limitações, organização, equipamento, instrução e forças morais, concluindo sobre suas deficiências, vulnerabilidades e possibilidades.
- O quarto aspecto que será levado em consideração serão os Meios disponíveis, onde o comandante e seus estado maior farão um estudo crítico da própria situação, sobre o mesmo enfoque anterior, para concluir sobre suas deficiências, vulnerabilidades, pontos fortes e possibilidades reais.
- Após tomar pé de toda a situação, passa-se então a coadunar as principais idéias formuladas dentro do Tempo em que deverá ser concluída a missão. Toda operação deve ser viabilizada em tempo hábil e com suas diversas operações devidamente sincronizadas, de forma a não permitir que o inimigo consolide sua situação e que o elemento surpresa possa ser explorado ao máximo. Ações subsequentes poderão depender do sucesso de sua missão, e em alguns casos o não cumprimento do prazo poderá inviabilizar as ações que seguirão, parcial ou totalmente.
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Perdendo a Superioridade Aérea *224
Um estudo de caso da Segunda Guerra Mundial
A perda da superioridade aérea sobre o território nacional
A perda da superioridade aérea sobre o território nacional
Na tentativa de dar uma solução a essa problemática, o comando da Luftwaffe tomou diversas decisões drásticas em termos de políticas de pessoal. As escolas de formação de pilotos, já com efetivo incompleto, foram obrigadas a abrir mão de mais instrutores, e todos os pilotos de caça fisicamente capazes, servindo em postos de estado-maior, foram convocados para missões de combate.
Galland vasculhou unidades de combate noturno, de ataque ao solo e a frente russa em busca de pilotos treinados. O curso da guerra aérea sobre o Reich impôs enormes exigências a uma organização já sobrecarregada.
Muitos filmes gravados pelas câmaras acopladas às metralhadoras dos Mustangs e Thunderbolts da AAF mostram ataques efetuados a aeronaves, com frequência equivocadamente identificadas como “Me-109”, que eram, de fato, aeronaves de treinamento Arado 96 – normalmente com um atordoado piloto em formação no controle. Para fazer frente a essa situação, a Seção de Treinamento emitiu novas instruções enfatizando vigilância redobrada por parte dos pilotos (“sonhar acordado leva à morte”).
Os comandantes das bases da Luftwaffe adotaram diversas medidas de defesa passiva, incluindo a construção de barreiras de proteção e o aumento do uso de camuflagem visual e cortinas de fumaça, além de enterrar cabos elétricos e de comunicação importantes que atendiam aos postos de comando e instalações radar. Trincheiras estreitas e profundas foram construídas nos aeródromos e o combustível e a munição armazenados em túneis. Postos adicionais de vigilância visual e uma reorganização do serviço de informações sobre aeronaves incursoras propiciaram uma capacidade crucial de alerta antecipado. No último mês da guerra, algumas unidades aéreas operaram a partir de trechos das vias expressas alemãs, abrigando suas aeronaves sob viadutos.
A seção de operações do estado-maior da Luftwaffe observou, com satisfação, o depoimento de pilotos da AAF capturados sobre os perigos associados ao metralhamento de alvos. De fato, em 1944 a AAF perdeu 1.293 caças no teatro de operações europeu em ação contra caças inimigos, tendo perdido 1.611 face à artilharia antiaérea – em sua maioria durante missões a baixa altura.
Durante os últimos 5 meses da guerra, os abates de caças da AAF pelo fogo antiaéreo excederam, a uma razão de quase 4 contra 1, os provocados por caças da Luftwaffe.
Publicações oficiais da Luftwaffe, incluindo periódicos de ciência militar e mesmo diretrizes operacionais, as quais, até 1944, possuíam relativamente pouco conteúdo político explícito, começaram a referir-se à luta em termos ideológicos. Algumas diretrizes afirmavam que somente “a cosmovisão nacional socialista” poderia prover a “força interior” necessária para vencer o inimigo. As fontes primárias dessas “armas espirituais” foram a Divisão Militar da Liderança Nacional Socialista, que contava com “oficiais políticos” (semelhantes aos comissários do Exército Vermelho) nas unidades da Luftwaffe e do exército, e a Seção de Ciência Militar do Estado-Maior Geral da Luftwaffe.
Embora essa seção tenha produzido análises operacionais valiosas e estudos históricos tradicionais de campanhas recentes, em 1944, ela estava mais preocupada em inculcar na oficialidade da Luftwaffe uma apropriada postura nacional socialista. Tomaram-se as medidas mais extremadas para retomar dos Aliados a superioridade aérea nesse ambiente ideologicamente carregado.
A unidade foi finalmente dispersa depois de extenso treinamento e doutrinamento político. Não obstante, as propostas e os programas para ataques de colisão contra formações de bombardeiros persistiram durante toda a guerra, culminando em um desesperado ataque de colisão em massa pela unidade Schulungslehrgang Elbe, rapidamente formada, em 7 de abril de 1945. 120 Bf-109 engajaram uma formação da AAF, destruindo, no máximo, 13 bombardeiros a um custo de 53 caças alemães. Muitos dos pilotos alemães insuficientemente treinados nunca chegaram a engajar a formação da AAF.
Durante o último ano da guerra na Europa, os caças alemães de emprego diurno destruíram 703 bombardeiros pesados da AAF; de junho de 1943 a maio de 1944, uma força muito menor havia destruído 1.579 aeronaves. Todas as medidas vigorosas estabelecidas pelo comando da Luftwaffe para combater a ofensiva de bombardeio diurno fracassaram.
Lidando com a superioridade aérea aliada: as frentes de combate
A Luftwaffe desenvolveu um complexo esquema para reforçar o setor de invasão assim que os Aliados iniciassem a Operação Overlord. Ao receber a frase-código Drohende Gefahr West (Perigo Iminente a Oeste), esquadrões das forças de defesa do Reich deveriam deslocar-se para aeródromos previamente identificados no norte da França. O maior número possível de aeronaves de combate deveriam ser dotadas de pilones para bombas de modo a poderem participar diretamente na batalha terrestre.
As unidades de terra desenvolveram técnicas sofisticadas de camuflagem, dissimulação, dispersão e mobilidade como meios de redução de perdas de material e pessoal por ataques aéreos. Baseada em sua experiência no território alemão, a Luftwaffe deslocou baterias antiaéreas móveis, em especial o canhão quádruplo antiaéreo de 20 mm. Essa arma útil, frequentemente montada em reboques, caminhões, meia-lagartas ou mesmo chassis de carro de combate, prestaram apoio de fogo concentrado e altamente flexível a alvos importantes, incluindo aeródromos, pontes e ferrovias.
Para proteger as unidades terrestres, os alemães concentraram suas baterias antiaéreas, com suas armas aprestadas, à frente e à retaguarda das colunas. Os comandantes alemães conceberam procedimentos de resposta rápida a alarmes aéreos; quando uma aeronave inimiga era avistada, a coluna interrompia seu avanço e as viaturas portadoras das armas antiaéreas eram dispostas nas laterais das rodovias, provendo fogo antiaéreo concentrado contra as aeronaves aliadas “Jabos” que voavam a baixa altura.
As comunicações por cabos terrestres na zona de invasão foram desorganizadas do dia-D em diante em virtude tanto dos ataques aéreos quanto das atividades da Resistência Francesa. Os alemães responderam por meio do aumento de comunicações via rádio, se bem que, por serem tão dependentes da máquina de cifrar Enigma, tais medidas tornassem as intenções alemãs ainda mais transparentes à inteligência Aliada.
A superioridade aérea aliada tornou a transferência organizada de unidades da Luftwaffe para o teatro de operações uma empreitada extremamente difícil.
Os verdadeiros problemas para essas aeronaves iniciavam com sua chegada à cena de ação, já que os ataques aéreos aliados tinham danificado muitos de seus aeródromos. A força de caça alemã foi atraída para uma batalha perdida para manter seus índices de disponibilidade em face de intensa atividade aérea inimiga.
Os alemães reforçaram fortemente seus sistemas de alarme contra incursões aéreas, já que os ataques levados a efeito pelos caças-bombardeiros aliados frequentemente ocorriam com pouco ou sem aviso. Camuflagem e dispersão tornaram-se quase que uma arte, com as aeronaves sendo descobertas imediatamente antes de uma surtida e rapidamente cobertas depois que suas hélices paravam de girar. As forças antiaéreas eram subordinadas a um comandante da defesa da base, responsável por treinar, implementar novas medidas defensivas e, com efeito, dirigir as operações no caso de a base ser atacada.
Os comandantes de artilharia antiaérea tomaram proveito do fato de os caças-bombardeiros aliados atacarem tudo que se movia nas estradas da Normandia e criaram engenhosas “armadilhas para aeronaves que voassem a baixa altura”. Desdobraram simulacros de lona móveis equipados com painéis de vidro para simularem o reflexo de pára-brisas de veículos. Quando os caças-bombardeiros mergulhavam para atacar, um conjunto emassado de canhões de artilharia antiaérea (AAA), costumeiramente camuflados como arbustos, abriam fogo.
No início de agosto de 1944, a Luftwaffe teve que retirar suas unidades de caça dos aeródromos avançados, já que, como relembra um comandante, seus caças estavam “presos ao solo” pelas aeronaves aliadas. Essas novas bases – localizadas a sudoeste de Paris – embora um pouco menos vulneráveis a ataques diretos pela aviação aliada, obrigavam a Luftwafe a percorrer grandes distâncias, utilizando, dessa forma, combustível precioso e diminuindo o tempo sobre os alvos. A esperança de utilizar caças em “tarefas-alternadas” de aeronaves de ataque ao solo mostrou-se fútil: os pilones para bombas eram rapidamente alijados à medida que os caças se concentravam sobre unidades alemãs selecionadas para proverem um mínimo de cobertura aérea.
Eles também tentaram abater aeronaves de observação aérea aliadas, as quais corrigiam o tiro de artilharia convencional e naval contra as forças terrestres alemãs sob grande pressão.
A Luftwaffe limitou suas missões de ataque ao solo ao amanhecer e ao anoitecer – ou às condições atmosféricas adversas. O Estado-Maior Geral da Luftwaffe concluiu que “aeronaves de ataque ao solo . . . não mais prestavam qualquer apoio decisivo às forças de terra, e as pesadas perdas sofridas elevaram-se, ao final, a um nível desproporcional aos êxitos alcançados”.
Afastada até mesmo dos céus noturnos da Europa Ocidental, a força ofensiva da Luftwaffe dependia cada vez mais de armas sem pilotos – as “bombas voadoras” Fieseler Fi 103 (V-1). Como um substituto para a capacidade de bombardeio convencional, as V-1 tinham várias deficiências, especialmente sua falta de precisão.
Não obstante, o bombardeio levado a efeito por essas bombas voadoras, iniciado em 13 de junho de 1944, comprometeu o emprego de um grande número de aeronaves de caça aliadas e baterias antiaéreas aliadas que, de outra forma, teriam sido empregadas na Normandia.
O estado-maior da Luftwaffe chamou a atenção especialmente para esse benefício colateral em seus memorandos táticos. Mais tarde, na invasão de verão, os mísseis balísticos A-4 (V-2) do Exército entraram em cena. Embora há muito alardeado pelo Programa de Armamentos de Foguetes do Exército como um potencial substituto para o bombardeio estratégico, os V-2 possuíam ainda menos precisão do que as V-1 e (já que nenhuma defesa era possível) não causaram qualquer remanejamento de forças de caça ou antiaéreas aliadas.
Embora a superioridade aérea aliada parecesse ter condenado as forças de reconhecimento da Luftwaffe à mesma irrelevância de suas unidades de combate, neste caso novas tecnologias radicais fizeram surgir uma melhora notável. Embora o interceptador a jato ME 262 não tivesse alterado de forma apreciável o equilíbrio na luta pela superioridade aérea sobre a Alemanha, seu equivalente menos festejado – o bombardeiro/aeronave de reconhecimento a jato Arado Ar 234 – aumentou dramaticamente as possibilidades de sucesso das operações de reconhecimento.
No final de julho e início de agosto de 1944, 2 protótipos do Ar 234 chegaram na área costeira da invasão. O Ar 234 não era armado, levava apenas 2 câmeras panorâmicas de alta resolução e confiava em sua tremenda velocidade e capacidade de operação em elevadas altitudes para evadir-se de interceptações.
O apoio tático prestado pela Luftwaffe às operações terrestres permaneceu esporádico e ineficaz durante o resto da campanha. Mesmo os raros ataques em massa desencadeados pelos caças da Luftwaffe, como ocorreu na Operação Bodenplatte – o ataque surpresa a bases aéreas aliadas no dia de Ano Novo de 1945 — dificilmente compensaram as perdas sofridas.
Nessas regiões, os alemães lançaram mão de algumas das mesmas práticas de camuflagem, dissimulação e técnicas antiaéreas utilizadas no oeste, mas muitas das contramedidas foram de emprego exclusivo no teatro de operações oriental. Uma dessas “soluções de baixa tecnologia” mais interessantes e de uso mais generalizado para o problema da superioridade aérea foi o emprego de aeronaves em missões noturnas de inquietação.
Desde os primeiros dias da campanha no oriente, mesmo quando os alemães ainda dispunham de uma superioridade aérea geral, as unidades da frente de combate do Exército tornavam-se inquietas com o surgimento de biplanos obsoletos soviéticos, operando à noite e frequentemente pilotados por mulheres (as chamadas Feiticeiras da Noite). Embora o efeito material desses ataques fosse mínimo, ataques noturnos com bombas de fragmentação erodiam o moral da tropa, privavam os soldados do sono, ocasionalmente destruíam depósitos de suprimentos e infligiam baixas.
A Luftwaffe explorou extensamente essas aeronaves obsoletas, agrupando-as em unidades de ataque noturno e de ataque ao solo. Virtualmente não detectáveis por radar ou outros meios, essas aeronaves atacaram depósitos de suprimentos soviéticos, acampamentos de tropas irregulares, aeródromos inimigos e outros alvos vulneráveis com bombas leves de fragmentação e o fogo de metralhadoras.
Não é de causar surpresa que essas simples aeronaves pudessem operar de forma tão efetiva; mesmo 60 anos depois, em certas circunstâncias, aeronaves leves podem penetrar até mesmo sofisticados sistemas de defesa antiaérea. No outono de 1944, mais de 500 dessas aeronaves estavam em operação, a maioria na Rússia; entretanto, os Aliados também depararam-se com unidades de ataque ao solo de emprego noturno equipadas com aeronaves mais modernas na frente italiana e na frente ocidental.
Conclusão
É possível avaliar a eficácia dessas medidas em vários níveis. Ao criar uma organização para a defesa do território nacional, diante de muitos compromissos onerosos em 3 frentes de combate amplamente separadas, o Alto-Comando da Luftwaffe fez, realmente, um trabalho digno de crédito; de fato, no final de 1943, ele estivera prestes a tornar demasiado cara a continuação das operações de incursão em profundidade da AAF. A indústria aeronáutica alemã certamente elevou-se à dimensão do desafio ao aumentar significativamente a produção de caças – tanto que até o final a Luftwaffe não sofreu da carência de aeronaves desse tipo.
Mesmo sob intensos ataques por bombardeio, os dirigentes da indústria de armamentos da Alemanha Nazista conseguiram operar “um milagre de produção.” O êxito dessas medidas sublinha o nível de resiliência de um estado moderno, mesmo diante das circunstâncias mais adversas.
Mesmo após os desembarques na Normandia, a estratégia de “frente ampla” dos Aliados Ocidentais permitiu que as forças alemãs – a despeito da derrota decisiva sofrida na França – se reorganizassem e não só derrotassem a Operação Arnhem (Market-Garden), em setembro de 1944 mas, também, lançassem uma grande ofensiva nas Ardenas. É improvável que conflitos futuros propiciem a um adversário pausa semelhante para se recompor, durante a qual os alemães implementaram reformas organizacionais e na produção de aeronaves.
Tampouco pode um futuro adversário fiar-se em dispor de tempo para aprestar novas tecnologias, mesmo para limitadas ações de combate. Além do mais, as contramedidas alemãs foram projetadas para infligir uma derrota decisiva às forças aéreas de seus inimigos. Por mais vã que aquela esperança tenha sido, é ainda mais improvável que, no futuro previsível, um adversário venha a engajar a Força Aérea dos EUA em combate semelhante pela superioridade aérea.
Sugerir que a fixação da Luftwaffe por operações ofensivas foi a única – ou principal – causa de sua derrota é simplificar em demasia a situação; contudo, sua aderência a princípios, que lhe eram caros, relativos ao emprego apropriado do poder aéreo certamente retardou e prejudicou sua resposta à perda da superioridade aérea. Os custos de manutenção de uma capacidade ofensiva mostraram-se enormes e, para a Luftwaffe, isso foi, em grande medida, um ferimento infligido a si mesma.
Além disso, os mais relevantes, embora transitórios, êxitos defensivos alemães resultaram do emprego astuto e determinado de aeronaves convencionais, a despeito da fixação por “armas maravilha” no período pós-Guerra.
Ironicamente, a lição mais importante da experiência da Luftwaffe pode ser o emprego de biplanos obsoletos de baixa detectabilidade por radar em missões noturnas de inquietação, do que a incorporação tardia do caça mais rápido do mundo. Recentes experiências de combate americanas ao redor do globo sugerem várias possibilidades de emprego de armamentos menos sofisticados.
Uma vez que as aeronaves aliadas atacavam imediatamente qualquer veículo em movimento, tornou-se fácil atraí-las para armadilhas anti-aéreas bem dissimuladas. Mesmo medidas mais simples como camuflagem, dissimulação, cortinas de fumaça, construção de abrigos antiaéreos e evacuação de áreas críticas não devem passar desapercebidas. Seu efeito cumulativo complicou enormemente a tarefa dos planejadores aéreos aliados. Conforme Milch sumarizou, “Se a última guerra nos ensinou a a cavar trincheiras, essa guerra nos tem ensinado a camuflar.” Baratos e exigindo pouco treinamento e preparação, tais métodos prestam-se rapidamente ao repertório de qualquer nação que venha a confrontar um inimigo que mantenha o domínio do ar.
Além disso, dissimulação e mobilidade podem evidenciar-se como contramedidas efetivas diante de munições guiadas de precisão, já que esses armamentos freqüentemente possuem uma pequena ogiva e dependem de precisão para serem eficazes. Um futuro adversário bem faria em estudar o exemplo alemão.


























