FRASE

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Artilharia de Tubo em Áreas Urbanas *234


A artilharia de tubo é um dos multiplicadores de combate mais poderosos em um teatro de operações. Em todo o espectro de operações ofensivas, defensivas e de estabilização, ela serve como um meio de apoio de fogo orgânico, oportuno, disponível o tempo todo, sob quaisquer condições climáticas. Embora a artilharia de tubo seja um dos muitos sistemas de armas capazes de utilizar munições de precisão, sua qualidade única vem da capacidade de pronta resposta com um alto volume de fogo, com várias combinações de projéteis e espoletas.

As operações em terreno urbanos, devido às suas peculiaridades, vem demonstrando a preferência dos comandantes de substituir o poder de fogo representados por sistemas complexos, por homens com capacidades de atuação mais pontual e específicas, e o emprego da artilharia de tubo se faz adequado e necessário. Iniciativas de modernização melhoram continuamente o equipamento em uso, adequando-o às novas demandas, e o combate urbano atual exige engenhosidade no uso dos equipamentos disponíveis para preencher lacunas de capacidade, com a incorporação paulatina de novos e mais adequados equipamentos. O sucesso em combates urbanos requer aplicação criativa e conhecimento do básico. Isso inclui “competência transferível”, ou a capacidade de aplicar competências a novos ambientes e situações. A iniciativa dos comandantes de baixo escalão e a rápida adaptação ao campo de batalha são fundamentais para o sucesso neste cenário cada vez mais presente.

O Ambiente Operacional

Emprego da Artilharia de Tubo no Ambiente Urbano

É necessário analisar o emprego neste ambiente sob os seguintes aspectos: Escolha e Ocupação das Posições de Bateria, Dispersão e Técnicas de Emprego; Comunicações e Operações Degradadas; Segurança da Bateria; Fogo Direto e Logística.

Escolha e Ocupação das Posições de Bateria

Com os requisitos da missão e considerações de apoio necessárias, as operações urbanas de artilharia de tubo são inevitáveis. Os comandantes podem considerar operar das periferias, mas muitas áreas urbanas são grandes demais para a execução de fogos destas distâncias, assim como os fogos defensivos a partir de seu interior que também se farão necessários. 

Sejam quais forem as características do terreno, a escolha e ocupação das posições de bateria serão determinadas pelos requisitos da missão. Os critérios padrão não diferem no terreno urbano, mas há um aumento inerente na complexidade de operação nestes locais. As exigências de comunicações, segurança, trafegabilidade e manobrabilidade assumem um papel de apoio, mas são vitais neste esforço. A velocidade de progressão da tropa apoiada é particularmente vital nestas análises: o ritmo da manobra tende a ser lento e deliberado em algumas situações, com combates quarteirão a quarteirão, ou pode ser rápido, no contorno de áreas urbanas, com movimentos diretamente para objetivos selecionados. 

Os ambientes urbanos apresentam grandes massas de cobertura e problemas de mascaramento imediatos. No uso de munições convencionais de saturação de área, o espaço morto é tipicamente 5 vezes a altura dos edifícios para tiro mergulhante e metade desta altura para tiros verticais. Isso causa uma maior propensão para os fogos em tiro vertical de forma a aumentar a eficácia no ataque às áreas desenfiadas entre os edifícios. Para munições convencionais de saturação de área, isso cria uma diminuição na precisão e no alcance. Missões de tiro vertical também exigem mais tempo de trajetória. Essas complexidades adicionais tornam difíceis os engajamentos de alvos de oportunidade e possivelmente até de alvos previstos. Se houverem considerações mais rígidas das regras de engajamento (ROE), as considerações de danos colaterais também podem limitar a capacidade destes fogos de saturação, embora essas considerações possam ser limitadas e minimizadas dependendo da situação. 

Uma análise criteriosa das áreas urbanas é necessária para facilitar os fogos oportunos e maximizar as comunicações, bem como as considerações de segurança. Cada tipo de área urbana apresenta desafios e oportunidades únicos.

As regiões centrais das áreas urbanas apresentam problemas significativos para a artilharia, pois geralmente são muito pequenas e compactas para fornecer áreas de posicionamento. Se a missão exigir ocupação dentro de áreas centrais, os comandantes devem considerar o posicionamento dos obuseiros nas ruas ao longo das linhas de tiro até o alvo, principalmente se a área urbana seguir um padrão radial ou de grade. Como as áreas centrais normalmente restringem o movimento, os comandantes também devem considerar a quantidade de escombros na área de posição e na seleção do local. Estruturas revestidas pesadas são mais propensas a entulho e existem com maior frequência nas regiões mais antigas das áreas centrais, bem como estruturas mais leves são menos propensas a entulho e estão nas regiões mais novas das cidades, especialmente na periferia central. As áreas centrais também podem ter problemas significativos no que se refere à campos de observação. Finalmente, a natureza densa e multidimensional destas áreas tende a dificultar a segurança das baterias.

As áreas de arranha-céus periféricas são semelhantes às áreas centrais, apresentando problemas significativos de comunicações. A diferença está nas grandes áreas abertas, como estacionamentos e parques que separam áreas periféricas de arranha-céus. Essas áreas podem ser grandes o suficiente para ocupações por pelotões e baterias, mas também são propensas ao assédio do inimigo. Os comandantes devem considerar os vários sistemas de transporte coletivo que caracterizam as áreas periféricas de arranha-céus. Estes podem representar vias de aproximação de alta velocidade para as forças inimigas que operam na área.

As áreas militares existentes nos locais podem fornecer espaços de posicionamento adequados para baterias de tiro, pois a defesa será facilitada pelas fortificações permanentes e instalações subterrâneas existentes. Os aeródromos também podem fornecer excelentes áreas de posicionamento e/ou podem funcionar como zonas de pouso de helicópteros ou zonas de coleta. A infraestrutura de comunicações interna ali existentes, podem fornecer um meio de comunicação adicional e redundante. Quanto aos riscos apresentados nas áreas militares, estas podem possuir armas de destruição em massa, gerando risco à força e preocupações com danos colaterais. Além disso, como as áreas militares podem ser um centro de gravidade para as forças inimigas, a chance de ataques complexos e de assédio pode aumentar.

As áreas comerciais podem permitir que a artilharia de tubo seja desdobrada nos corredores, utilizando as vias que cruzam as diferentes áreas urbanas. Em áreas comerciais, os estacionamentos podem ser as posições mais adequadas, mas o espaço de ocupação para obuses rebocados sofrerá restrições. Obuses rebocados terão que plantar suas pás de conteira contra o asfalto ou concreto, entulho ou paredes de construção, ou, alternativamente, encontrar uma área gramada onde se desdobrar. Finalmente, civis podem estar transitando nas proximidades, e áreas residenciais próximas podem existir, aumentando o risco do inimigo usar a população civil como cobertura e ocultação.

A áreas Industriais podem fornecer áreas de posição ideais, com espaços abertos grandes o suficiente para ocupações de pelotões e baterias. As áreas industriais também costumam fornecer ocultação adequada em grandes fábricas e armazéns de teto plano. Essas fábricas e armazéns também podem oferecer excelentes posições de cobertura e ocultação ou, se orientadas na linha de fogo, posições de tiro. Semelhante às áreas periféricas de arranha-céus, os comandantes devem considerar as vias de acesso de alta velocidade facilitadas por vários sistemas de transporte coletivo dentro e ao redor das áreas industriais. Esses centros de transporte comercial geralmente são de natureza multimodal, incluindo aeródromos e as principais rotas marítimas, fluviais, ferroviárias e rodoviárias. As forças militares que operam dentro ou ao redor destas áreas devem tomar cuidado especial com a presença de produtos químicos industriais tóxicos por ali armazenados.

As áreas residenciais estão dispersas pelas áreas urbanas e podem ser difíceis de evitar. Essas áreas podem fornecer áreas de posição ideal para a artilharia, mas exigem uma compreensão e respeito da(s) cultura(s) da área. Finalmente, como as favelas geralmente não contêm vias públicas ou serviços públicos, geralmente apresentam problemas de manobrabilidade/trafegabilidade, particularmente durante e após a ocupação, devendo ser evitadas devida a seus traçados altamente irregulares e não planejados.


Técnicas de Dispersão e Emprego

O combate urbano tem considerações únicas para técnicas de dispersão e emprego, exigindo uma análise cuidadosa do ambiente operacional. O terreno urbano ditará as técnicas de dispersão e poderá limitar o emprego aos escalões abaixo do pelotão, tornando a iniciativa do líder subalterno cada vez mais importante. A adaptação rápida para maximizar a capacidade de sobrevivência e dos fogos eficazes, como o uso de esconderijos e ataques, também podem ser táticas inevitáveis em combates neste ambiente. O espaço físico, as massas de cobertura próximas e as considerações de mascaramento podem ditar a necessidade de emprego em escalões abaixo do pelotão. Operar de forma tão capilarizada aumenta a capacidade de resposta, mas diminui o espaço disponível para fogos de saturação mais emassados. As operações nestes escalões são especialmente adequadas para o uso dos modernos sistemas digitais de direção de tiro dos obuses, mas os fogos emassados em operações degradadas – uma potencial inevitabilidade em combates urbanos – ficam mais difíceis de executar.

Operar com pequenos escalões também aumenta a vulnerabilidade ao assédio de forças terrestres inimigas. As técnicas de dispersão variam de acordo com a ameaça e o terreno. No terreno urbano, as áreas funcionais urbanas e os padrões de ruas surgem como 2 dos pontos vitais de discussão. Diferentes técnicas de dispersão são mais adequadas para áreas urbanas e padrões de ruas com base no espaço disponível, massa de cobertura, mascaramento, segurança e trafegabilidade. Por exemplo, as formações em linha das baterias ou as formações escalonadas em W fornecem controle máximo, mas devido a considerações de espaço, elas podem ser limitadas em áreas periféricas de arranha-céus e áreas centrais. Por outro lado, os comandantes podem considerar o uso das formações em cunha ou estrela em áreas centrais e de arranha-céus porque os edifícios circundantes fornecem cobertura artificial e ocultação de ameaças aéreas e contrabateria. Os espaldões são semelhantes às técnicas, táticas e procedimentos usados em áreas abertas, com seções de armas escalonadas, e em seguida, movendo-se da mesma forma para um posições de troca. Armazéns, pátios ferroviários, celeiros ou oficinas de automóveis podem ser ótimos abrigos. Se posicionadas dentro do alcance operacional da bateria, essas áreas também são excelentes posições de linha de fogo. Quando possível, os comandantes devem considerar abrigos fora das áreas urbanas para evitar a detecção. Abrigos propensos ao emprego de munições termobáricas devem ser evitados.

A proeminência do ataque de artilharia de tubo no combate urbano também pode se tornar uma tática inevitável. Há duas razões principais para esta proposição. Em primeiro lugar, com os problemas de localização até as massas de cobertura e de mascaramento inerentes às áreas urbanas, as formações de artilharia podem ter que trocar de posição rapidamente para apoiar as forças de manobra. A segunda é a natureza letal da ameaça. A realidade é que os sistemas de armas e sensores inimigos sejam tão capazes de encontrar e atacar unidades amigas que se é forçado a empreender missões de tiro deliberadas e/ou apressadas. A sobrevivência pode depender da capacidade de ocupar rapidamente uma posição, executar a missão de tiro necessária, e em seguida retornar rapidamente para trás da linha avançada para outra área de posição ou desenfiamento.

Comunicações e Operações Degradadas

A discussão sobre comunicações e operações degradadas no combate urbano são elencadas em 4 tópicos. Primeiro, planos de comunicação eficazes são essenciais. Em segundo lugar, pode ser necessária flexibilidade para o uso de plataformas e meios de comunicação mais antigos em conexão com meios mais tecnológicos para preencher as lacunas de capacidade criadas por novas tecnologias e demandas. Terceiro, pode haver a necessidade de minimizar as assinaturas eletrônicas. Quarto, as formações de artilharia de tubo devem ser proficientes em operar em modos degradados e analógicos. Pois não importa o ambiente e os meios disponíveis, as missões de tiro tem que ser executadas.

As capacidades inimigas e o terreno urbano podem degradar as comunicações em futuros combates urbanos. Arranha-céus, linhas de energia, transformadores ou outras estruturas urbanas podem interromper os sinais eletromagnéticos necessários para as comunicações. Outros sinais, como telefones celulares, serviços de emergência e outras redes táticas, também podem degradar as comunicações. O espectro eletromagnético Inimigo e os recursos cibernéticos também estão avançando rapidamente, cada um com a capacidade potencial de interromper, degradar ou negar sistemas de comunicação amigos. Planos eficazes maximizam o uso simultâneo dos sistemas de comunicação disponíveis, modernos e tradicionais, monitorando e nivelando-os conforme necessário. Os planos de comunicações bem elaborados minimizam as interrupções nas comunicações, maximizando assim os disparos eficazes e facilitando os mecanismos inter-relacionados de C2.

Os planos de comunicações podem não eliminar todos os gargalos inerentes às comunicações. Consequentemente, são vitais a flexibilidade dos meios C2 que devem permitir a execução descentralizada das missões de tiro. As unidades de artilharia devem ter a capacidade de empregar o maior número de meios simultâneos de comunicações do nível do grupo para o nível da bateria dentro de uma arquitetura flexível. Esses tipos de sistemas disponíveis são o rádio ar-terra-ar, o rádio de alta frequência (HF) e o rádio com link de satélite. A integração bem-sucedida desses 3 sistemas pode determinar a eficácia do apoio de fogo entre os usuários. A capacidade das unidades em executar fogos precisos e oportunos exige o uso eficaz de todos esses 3 sistemas. O rádio tático é o sistema mais abundante nas unidades. Com o uso de um amplificador de potência, estes sistemas são capazes de comunicações de voz até 40 km e dados até 20 KM. O terreno urbano, no entanto, pode restringir severamente o emprego nestes alcances. Equipes de retransmissão podem flexibilizar estes meios sobre ou ao redor de obstáculos para permitir disparos efetivos. Estas equipes devem estar equipadas com o maior número possível de sistemas afins para operar em emprego prolongado, e devem garantir que os locais de retransmissão possam entrar em contato com todos os nós necessários. Como cada sistema requer uma antena para cada rádio na configuração, a situação eletromagnética e operacional destas equipes pode ficar insustentável em algumas situações. Por esse motivo, é vital que elas entendam a missão, e tenham capacidade de uso de locais alternativos e suplementares.

Os comandantes também devem fornecer anexos de segurança às equipes de retransmissão devido às considerações de segurança inerentes ao terreno urbano. O uso de Sistemas Aéreos Não Tripulados para fornecer uma capacidade de retransmissão pode reduzir o risco. Como alternativa a uma equipe de retransmissão, as unidades podem usar outras unidades amigas para retransmitir mensagens quando a comunicação direta não for possível. Os rádios HF fornecem voz à unidade e comunicações digitais que transmitem sobre obstáculos e longas distâncias. Infelizmente, os rádios HF são limitados, mas podem ser necessários para facilitar fogos de longo alcance atendendo às necessidades do terreno urbano. Os rádios satelitais transmitem comunicações de voz e dados em distâncias muito longas. Os grupos de artilharia devem considerar o uso sempre que possível de rádios satelitais para suas baterias, de forma a aumentar a redundância nas comunicações.

No entanto, essa transferência requer treinamento sobre o uso desses sistemas. O combate urbano pode exigir engenhosidade usando plataformas e acessórios de comunicação “desatualizados” e/ou existentes para preencher as lacunas de capacidade criadas pelas novas tecnologias. Por exemplo, sistemas de telefonia celular ou fixos civis podem ser usados em caso de emergência, e sistemas fio podem ser desdobrados através de esgotos e edifícios. Com relação às antenas de campo, os comandantes são limitados apenas pela imaginação. As antenas de campo podem ser colocadas em árvores, amarradas a balões de ar ou colocadas em andares superiores de edifícios para aumentar o alcance. As antenas, no entanto, podem revelar as posições das unidades, de modo que os comandantes devem evitar posições de silhueta.

Por outro lado, o combate urbano pode ditar a necessidade de minimizar as assinaturas eletrônicas. Nesse caso, os comandantes podem considerar períodos de silêncio de rádio para evitar assinatura eletrônica. O silêncio de rádio é um status em que todos os rádios em uma área são solicitados a parar de transmitir, dependendo de uma necessidade imperiosa. Da mesma forma, as equipes de retransmissão permitem que as unidades reduzam a saída de radiofrequência para reduzir as assinaturas eletrônicas em suas posições. Reduzir ou eliminar brevemente as assinaturas eletrônicas reduz o risco de detecção de posições de soldados e unidades. No recente conflito na Ucrânia, a Rússia realizou ataques de artilharia contra o exército ucraniano, visando seus sinais eletrônicos. Os militares dos EUA não tiveram que lidar com essa capacidade durante as guerras no Iraque e no Afeganistão.

As capacidades eletromagnéticas inimigas podem interromper, degradar ou negar os Sinais GPS necessários para sistemas digitais, forçando a artilharia de tubo a operar em modos degradados. Operar em ambientes urbanos requer uma consideração adicional: em modos degradados, os instrumentos magnéticos serão prejudicados e sua precisão degradada em áreas construídas. Essa degradação aumentará nas áreas periféricas de arranha-céus e núcleos, onde existem muitos edifícios altos com estrutura de aço. A precisão é especialmente mais necessária no combate urbano não apenas por causa de considerações de danos colaterais, mas também porque o combate urbano geralmente apresenta alcances de combate direto de fogo inferiores a 100 metros. O ciberespaço e as capacidades eletromagnéticas também podem interromper o comando de missão e o processo de direcionamento de unidades de artilharia amigas, forçando métodos analógicos na eliminação de fogos e gerenciamento do espaço aéreo. Como as redes degradadas reduzem a consciência situacional, os ensaios antes e mesmo durante as operações são vitais – principalmente quando se opera como parte de uma coalizão multinacional.

A Segurança das Baterias

A segurança das baterias em terreno urbano tem uma natureza dupla de desafios e oportunidades: o terreno urbano oferece um ambiente multidimensional para projetar a defesa, porém esta mesma sua natureza multidimensional o torna inerentemente difícil de defender. É necessária uma abordagem holística para reduzir os desafios e maximizar as oportunidades. As iniciativas de modernização para criar uma força mais móvel e ágil aumentarão a capacidade de sobrevivência.

A aplicação criativa do terreno urbano fornece alerta precoce, defesa em profundidade e dispersão. Posições fortificadas podem ser instaladas em edificações abandonadas, e prédios de vários andares podem fornecer ótimos pontos de observação e de rádio-operação, e os principais sistemas de armas podem ser posicionados de forma criativa para fornecer fogos diretos eficazes. A natureza canalizadora e compartimentada do terreno também pode oferecer aos comandantes áreas de engajamento ideais. Finalmente, em terrenos urbanos, os comandantes podem usar a cobertura fornecida por estruturas de vários andares ou podem dispersar suas seções. Em terreno aberto, os comandantes podem optar por dispersar suas pelas em intervalos de 100 metros ou mais, e ainda mais para o comando de linha de fogo (CLF). Em áreas urbanas densas, seja nos centros ou em áreas periféricas de arranha-céus, os edifícios altos podem fornecer cobertura mascarando os sistemas de fogo indireto do inimigo, permitindo uma ocupação mais compacta. Consequentemente, a ocupação em áreas urbanas densas frequentemente exige a execução de fogos verticais (acima de 45 graus).

Além de estabelecer uma defesa padrão, os encarregados da segurança também devem varrer as edificações para cima e para baixo em seus setores para cobrir edifícios de vários andares e outras estruturas altas. Devido a essas complexidades inerentes, uma força de reação rápida designada é vital para a sobrevivência no caso de uma violação do perímetro. Os comandantes também devem coordenar com as unidades adjacentes para aumentar seus planos de segurança, e solicitar anexos de segurança adicionais. Dependendo do tempo disponível, as peças podem individualmente preparar posições suplementares para cobertura de fogo direto em rotas críticas para a posição da bateria

Os sensores dos adversários e os sistemas de armas de fogo indireto também tornam os critérios de movimento de sobrevivência e a capacidade de deslocamento rápido absolutamente críticos. Apesar da agilidade da artilharia rebocada em ataques aéreos e operações aerotransportadas, elas possuem limitações inerentes nos tempos de deslocamento e proteção das guarnições. De certa forma, isso limita sua viabilidade em campos de batalha urbanos.

Há um argumento crível de que sistemas de obuseiros leves e móveis são necessários devido à necessidade premente de ocupações e deslocamentos mais rápidos. Mesmo se operado dentro dos padrões de tempo. Os atuais sistemas de armas rebocadas se deslocam taticamente em um ritmo muito lento para sobreviver no campo de batalha urbano cada vez mais exigente. Além disso, a fadiga da tripulação nos atuais sistemas de armas rebocadas é uma preocupação.

Da mesma forma, as capacidades inimigas e o denso terreno urbano exigem postos de comando (PC) mais móveis e menores. As limitações de comunicação do terreno urbano exigem PCs ágeis e móveis para manter fogos eficazes e C2 eficientes. Preocupações com a sobrevivência, especialmente aquelas relativas aos fogos de contrabateria, também ditam a necessidade de movimentos frequentes e rápidos. Com as exigentes configurações de pessoal e equipamento inerentes aos grupos, deve haver um maior equilíbrio entre eficácia e capacidade de sobrevivência.

A defesa da bateria no terreno urbano também deve seguir uma abordagem holística. Pontos vitais adicionais de discussão incluem, mas não estão limitados à técnicas de emprego e seleção de área de posição. A robótica usada na defesa e reconhecimento de baterias também pode eventualmente ser um tópico de discussão; no entanto, há uma maior necessidade dessas formações de manobra e os custos associados de projeto e desenvolvimento são altos.

Fogo Direto

Embora não seja sua missão principal, a artilharia de tubo pode fornecer uma capacidade de fogo direto de grande calibre que é eficaz na guerra urbana. Durante a Primeira Batalha de Grozny, de dezembro de 1993 a março de 1994, as forças russas utilizaram tiros de canhão indiretos para moldar e suprimir os arredores da cidade. Depois que as forças de manobra conquistaram seus objetivos iniciais, os russos utilizaram parte de sua artilharia autopropulsada em um papel de fogo direto, fornecendo um fogo de longo alcance contra bunkers, fortificações pesadas ou posições inimigas reforçadas em edifícios de concreto. Isso se mostrou eficaz, com o benefício adicional de que o fogo direto produzia menos escombros nas ruas do que o fogo indireto, permitindo maior liberdade de manobra às forças russas que avançavam.

Obuses em uma função de fogo direto trazem capacidades significativas para aumentar os sistemas de armas orgânicas de fogo direto. Muitos MBTs em função de apoio são incapazes de se elevar para engajar alvos nos andares superiores dos edifícios, e os sistemas de armas de artilharia, por sua própria natureza, podem engajar em qualquer elevação. Projéteis de 155 mm podem penetrar até 38 polegadas de tijolo e concreto não armado e até 28 polegadas de concreto armado com danos consideráveis além da parede. Projéteis de 105 mm causarão danos significativos a edifícios construídos com material leve e podem penetrar em paredes de pedra e tijolo de camada única ou concreto armado leve. Essa capacidade é especialmente significativa nas tropas de Infantaria leve e paraquedistas, porque essas formações carecem de sistemas orgânicos de armas de fogo direto de grande calibre.

Considerações adicionais para obuses empregarem fogo direto incluem capacidade de sobrevivência, tempo de ocupação de posição e deslocamento, precisão e mobilidade. Os obuseiros autopropulsados (SPGs) são sem dúvida a melhor opção, mas não oferecem a mesma proteção que um MBT a suas tripulações. As peças de artilharia rebocadas são relativamente vulneráveis, pois não fornecem proteção às suas tripulações e são mais lentas nas movimentações. Sistemas de obuseiros móveis em vez de sistemas rebocados atuais podem reduzir essa lacuna de capacidade.

Os comandantes só devem optar por empregar artilharia de tubo em uma função de fogo direto após uma análise cuidadosa da adequação, viabilidade e aceitabilidade do uso de artilharia para completar o fogo dos MBT ou outras armas de fogo direto. Quando os obuses são retirados de seu papel tradicional, a capacidade de apoiar forças de manobra e moldar objetivos futuros é degradada. Os comandantes devem pesar o esforço principal e realizar uma análise de custo-benefício dos riscos associados à utilização de obuses em uma função de fogo direto.

Logística

Devido à natureza híbrida e letal das ameaças, as dificuldades logísticas das brigadas serão ampliadas em terreno urbano. Como visto na batalha de Aachen durante a Segunda Guerra Mundial, o desafio logístico resultante para igualar este aumento acentuado de munições é significativo. Operações engenhosas e planejamento eficaz são necessários para manter fogos oportunos e eficazes. As futuras iniciativas de modernização auxiliarão no atendimento da demanda logística.

Manter o ritmo com linhas de abastecimento difíceis em grandes terrenos urbanos podem exigir que as baterias operem com uma logística limitada. Durante a invasão do Iraque em 2003, os Marines operaram sem leitos, sem sacos de dormir e, às vezes, com apenas uma refeição pronta para comer por dia. Estes regimentos também foram equipados com kits de teste de combustível para capturar e utilizar combustível inimigo, e veículos e equipamentos foram mantidos escrupulosamente.

A capacidade da artilharia de tubo de fornecer apoio de fogo eficaz depende de sua capacidade de prever efetivamente seu consumo de munição. Áreas urbanas podem ditar uma maior necessidade de certas munições, e certos conjuntos de missões requerem diferentes combinações de espoletas, por exemplo, espoletas de retardo para penetrar no concreto, granadas fumígenas usadas em operações de abertura e passagem de brechas, minas espalhadas para isolar formações inimigas de suas linhas logísticas fora da cidade, munições de precisão para alvos de alta prioridade, etc. Garantir a quantidade e o tipo corretos de munição no lugar e na hora certos é fundamental. O S3 (oficial de operações) e os comandantes de linha de fogo (CLFs) devem identificar esses requisitos no início do processo de planejamento (análise da missão) para garantir tempo suficiente para encomendar e entregar munição.

Mas apesar dos riscos à força e missão causados pelas dificuldades logísticas inerentes ao combate urbano futuro, 3 tendências tecnológicas emergentes merecem destaque. A primeira é o uso de técnicas de manufatura adaptativa, como a impressão 3D, para reduzir custos e aprimorar significativamente o trem logístico, fornecendo ressuprimento antecipado de peças e outros materiais. A segunda é usar inteligência artificial (IA) ou plataformas não tripuladas operadas por humanos para complementar os atuais trens logísticos, reduzindo o risco de força e missão em movimentos logísticos. O terceiro são os avanços tecnológicos na geração e armazenamento de energia para diminuir a dependência dos serviços logísticos em relação ao combustível. Uma dependência reduzida de combustível reduzirá significativamente os requisitos de transporte e comboios logísticos.



domingo, 26 de junho de 2022

Planejamento Militar - Diretivas e Controle da Ação (Parte 5) *233


Planejamento Militar - O plano de ação  (Parte 4)

Diretivas

Uma diretiva é um conjunto de instruções para execução de um plano. O objetivo do PPM é a construção de um plano de ação visando o cumprimento da missão designada. Uma vez que este plano está consolidado, emitem-se as diretivas, que são documentos contendo instruções a respeito do plano.

A cada operador pode ser emitida uma diretiva diferente, dentro do mesmo plano, uma vez que cada um terá uma tarefa diferente a cumprir. As diretivas não estão condicionadas à formas rígidas, e devem ser tão sucintas quanto possível, expondo de forma clara, simples e concisa, a L Aç selecionada a quem deve executá-la. Deve limitar-se a conter as informações necessárias para que os comandos subordinados a compreendam de forma inequívoca, servindo de base para a preparação de planos e ordens destes. Um plano é o registro de uma intenção complexa e sistemática, enquanto que uma ordem é a designação para uma ação imediata e que deverá ser cumprida no prazo designado.

Como exemplos mais comuns de diretivas temos as cartas de Instrução; planos de campanha; planos de operação; plano de contingência; plano preliminares; ordens de operação; ordens de movimentação; ordens preparatórias e de instrução; planos complementares; etc...

Uma carta de instrução ou diretriz inicial é uma diretiva expedida para fins de orientação do planejamento dos comandos subordinados. Expõe a situação e indica a missão e a decisão do expedidor, as tarefas atribuídas, as relações de comando e a área de operações. Também transmite instruções especiais, tais como as relativas às comunicações, adjudica meios, define responsabilidades e especifica os relatórios a serem elaborados, que permitem o controle da ação planejada.

Um plano de campanha é uma diretiva formulada pelo comandante de um teatro de operações para expressar a sua decisão, em termos de operações específicas a serem planejadas, realizadas durante um período de tempo definido para a conquista e manutenção de objetivos estratégicos estabelecidos para a hipótese de emprego. Ele especifica operações de grande envergadura, indica os meios necessários, para a fase inicial da campanha, adjudica as forças, organiza os comandos, atribui as tarefas e estabelece as normas básicas para sua coordenação.

Um plano de operação é um tipo de diretiva relativa a operações a serem realizadas em futuro não imediato, envolvendo tempo e espaço consideráveis. O plano de operação é expedido por um comandante de força para transmitir orientações aos comandos subordinados para o preparo de seus planos ou ordens dela decorrentes. Pode destinar-se a uma única operação ou a uma série de operações relacionadas, a serem executadas simultânea ou sucessivamente. Pode ser usado para fins de adestramento, desde que expresse a solução dada pelo comandante a um problema militar, concebido com aquela finalidade, representando uma simulação de operações de guerra. Nesta circunstância, deve ser claramente mencionada a sua condição de documento de exercício.

Um plano de contingência é um plano expedido por um comandante de força, que estabelece o procedimento a ser seguido, caso não se confirme a suposição acerca de uma situação existente, determinada ocorrência ou condição prevista ou pressuposta (hipótese básica) formulada no seu plano de operações distribuído pela referida autoridade.

Um plano preliminar é um esboço geral antecipado de um determinado plano, apresentando os pontos primordiais que devem orientar a elaboração do plano a que se refere. Em uma operação anfíbia, por exemplo, é uma diretiva que marca a passagem da sua fase do planejamento preliminar, onde são tomadas as decisões fundamentais, para a fase do planejamento detalhado. Conterá as informações necessárias ao início do planejamento formal dos elementos subordinados, desta forma viabilizando que estes analisem as tarefas e meios recebidos e possam concluir pela sua capacidade de cumpri-las ou pela necessidade de meios adicionais, a qual será repassada, analisada e consolidada pelos comandos superiores.

Uma ordem de operação é uma diretiva expedida, com a finalidade de determinar a execução coordenada de uma operação específica a ser realizada imediatamente ou em futuro próximo. Trata-se de uma ordem efetiva para a realização de determinada operação, não devendo, portanto, conter hipóteses básicas. Uma ordem de operação pode ser elaborada para complementar um plano de operação já distribuído ou, ainda, para determinar sua execução. Ocasionalmente, ao serem completados todos os preparativos para uma operação, um comandante pode substituir um plano por uma ordem de operação. Esta diretiva pode ser utilizada para fim de adestramento, desde que expresse a solução a um problema militar, concebido com aquela finalidade, representando uma simulação de operações de guerra.

Uma ordem de movimentação é uma diretiva usada para determinar a movimentação de forças ou unidades quando não se justifique o emprego de outro tipo de Diretiva.

Uma ordem preparatória ou de instrução é uma diretiva que se destina a alertar os comandantes subordinados sobre operações iminentes, transmitindo-lhes informações já disponíveis e orientações iniciais, além das orientações quanto ao preparo que a tropa deve possuir, e se for o caso, as providências já encaminhadas para que este preparo seja alcançado. Possibilita que medidas preparatórias sejam tomadas, visando a facilitar futuras ações e que estudos e estimativas preliminares sejam iniciados.

Um plano complementar é uma diretiva que complementa um diretiva inicial, à qual normalmente, é anexado. Destina-se a detalhar ações, a orientar a execução ou a estabelecer normas de operações ou serviços específicos mencionados na diretiva básica. A inclusão de alguns assuntos em planos complementares, além de evitar que a diretiva básica fique sobrecarregada com particularidades excessivas, permite também maior flexibilidade no tratamento de matérias que devam ter divulgação mais restrita. Um plano complementar, de acordo com a sua natureza, poderá ter, entre outras, as seguintes denominações: plano de movimento, plano de comunicações, plano de guerra eletrônica (EW), plano de inteligência, plano logístico, plano de minagem e contraminagem, plano de apoio de fogo, plano de ações aéreas, plano administrativo, plano de ação de superfície, plano de ação de submarinos, plano de emprego de aeronaves, plano de embarque, etc...

Uma Diretiva deve interpretar fielmente o pensamento, a decisão e a determinação do comandante que a expedir e ser bem compreendida pelos que a receberem. Para que isso seja possível, é essencial que atenda a requisitos que a façam um documento claro, conciso, completo e que expresse incisivamente a determinação e transmita objetivamente suas intenções e vontade.

A estrutura de uma diretiva depende de seu tipo, que está associado à finalidade. Porém, de um modo geral, as diretivas constam de um documento básico e partes complementares (Anexos). O documento básico, ou corpo da diretiva, normalmente apresenta, além da organização por tarefas, a missão, as ordens e instruções necessárias para dar uma sucinta e clara ideia da situação, da execução e de outras informações essenciais. As partes complementares, por outro lado, contêm procedimentos particularizados e informações mais completas, que ampliam e complementam o contido no corpo da diretiva, e podem ser de interesse específico. As partes complementares poderão ser planos complementares ou conter outros assuntos que, devido à sua complexidade e amplitude, não convém que constem do documento básico, como, por exemplo, um conceito da operação ou uma organização por tarefas muito extensos ou detalhado.



3ª Etapa

O Controle da Ação Planejada

Toda operação deve ser controlada durante sua execução e seus rumos devidamente corrigidos sempre que necessário. Este controle deve ser planejado antes da operação iniciar e realizado durante a sua execução, em processo contínuo.

O Planejamento

O planejamento deste controle é um processo contínuo que se inicia nas primeiras fases do exame da situação e prossegue até o fim da 2ª Etapa. Nas primeiras fases do exame da situação, será verificado quais as informações serão repassadas ao escalão superior na avaliação do progresso da operação por este comando. Os conteúdos não devem ser insuficientes nem excessivos, evitando-se o mascaramento de informações importantes. Na fase 7 da etapa anterior, os relatos desejáveis serão especificados no parágrafo "COMANDO E CONTROLE" da diretiva, e tratarão das informações necessárias a serem repassadas para o controle da operação em tempo real e cumprimento da missão. Esta informação é vital para o sucesso do plano e deve ser formatada especificamente a cada operação, pois relatos padronizados ou de rotina podem não satisfazer. Para conseguir um fluxo de informações eficaz, o conteúdo deve ser ajustado de acordo com cada missão em curso e os seus efeitos desejados em cada tarefa atribuída.

O Controle

Na realização do controle da operação, o comandante acompanha se a ação se desenrola conforme foi planejada. Segundo o estrategista prussiano do século XIX Helmuth von Moltke “Nenhum plano de batalha sobrevive ao contato com o inimigo", e é baseado nessa premissa que se evidencia a importância do seu acompanhamento. Utilizando-se das informações fornecidas através dos relatórios dos comandos subordinados, monitora-se o desenrolar da operação à luz do plano de ação escolhido. 

Caso isso não esteja ocorrendo, o que acontece frequentemente, deve-se identificar as causas das discrepâncias entre a operação planejada e sua execução, para se aplicar o corretivo adequado. Dentre essas causas, podemos citar: alterações imprevistas nos fatores nos quais o plano se tenha baseado; erros de julgamento; perdas ou ganhos inesperados; e alterações na diretiva recebida do escalão superior. Após identifica-las, por meio de um planejamento contínuo e cíclico, deve-se implementar os ajustes necessários, até o cumprimento da missão.

5 perguntas básicas ajudam o acompanhamento da operação:

  • a operação desenvolve-se de acordo com o plano?
  • o resultado atende ao efeito desejado?
  • há necessidade de alteração do plano?
  • há alteração no exame da situação?
  • e a situação foi bem avaliada?

Se a resposta às 2 primeiras perguntas for sim, apenas continua-se o controle da ação em curso para cumprir a missão. Da mesma forma, a resposta não à primeira e à terceira implica apenas prosseguir a operação sem a necessidade de alterar o plano em vigor. As respostas às 2 últimas perguntas definem a extensão de qualquer modificação no plano e, por conseguinte, devem ser cuidadosamente determinadas.

O exame da situação contém os elementos que serviram de base para a escolha da L Aç que serviu como decisão. Dependendo da alteração ocorrida no exame da situação, como o estabelecimento de uma nova relação de comando, mudança nas limitações ao planejamento ou em qualquer outro elemento significativo do problema, o ponto de entrada para a revisão pode estar nas Fases 1, 2, 3 ou 4. O perfeito conhecimento dessas alterações e a familiaridade com o PPM indicam o ponto mais conveniente para iniciar a modificação no planejamento, que poderá conduzir à revisão da decisão. O tempo perdido na reconsideração de um fator alterado, antes de modificar o plano, pode ser mais do que compensado pela confiança em um novo plano, por estar perfeitamente baseado na metodologia do PPM e permitir que os esforços sejam concentrados na obtenção do efeito desejado.

Não existe um padrão para se realizar o exame corrente da situação, e as discrepâncias entre a operação planejada e sua execução podem requerer medidas de complexidade variável. O emprego de sistemas de processamento de dados aumenta a velocidade, o volume, e a precisão e facilidade de interpretação das informações manipuladas no exercício do C2 da ação planejada. Equipes bem adestradas nos COCs (Centros de Operações de Combate) ou PCs (Postos de Comando) são importantíssimas para a manutenção de um quadro atualizado, preciso e nítido do desenrolar das ações. Uma eficiente estrutura de C2 + comunicações eficazes (C3) será de fundamental importância para um bom controle operacional.

O Exame de Situação Abreviado (Parte 6)

terça-feira, 14 de junho de 2022

Planejamento Militar - O Plano de Ação (Parte 4) *232


Planejamento Militar - O Exame da Situação Fase 4 (parte 3)

2ª - Etapa

Desenvolvimento do Plano de Ação e Elaboração da Diretiva Operacional

Uma vez tomada a decisão sobre a L Aç a ser adotada, cabe ao comandante botá-la em prática, ou implementá-la. Nesta fase deverá ser reestudada com maior critério e profundidade a decisão tomada, de modo a viabilizar que as várias tarefas que deverão ser executadas sejam convenientemente implementadas de forma a eliminar possíveis erros presentes em análises precipitadas.

Neste momento será estabelecida com precisão como a decisão será implementada, quem a executará, e de forma facultativa, onde e quando. Serão determinadas as instruções aos envolvidos na missão, a organização das unidades e meios, confeccionados e divulgados os documentos contendo instruções, orientações e informações pertinentes. 9 fases orientam e permitem fazer esta organização de forma lógica:

Fase 1 - Reexame da Decisão

Primeiro se procede um reexame da decisão tomada e se monta o conceito inicial da operação, reavaliam-se as hipóteses básicas que embasaram a decisão para checar sua validade, elencam-se as tarefas componentes e de apoio a serem realizadas e quem às executará, determinam-se como cada tarefa componente deverá ser executada, procedem-se a organização das unidades que participarão da missão e o que cada uma fará, tabulam-se as tarefas de cada unidade participante e determina-se seu adestramento específico, identificando-se os gargalos logístico-administrativos e de comando e encaminhando-se sua solução, prepara-se a distribuição de informações a quem interessar e por fim emitem-se as diversas diretivas operacionais aos operadores de todos os níveis.

O detalhamento do plano de ação poderá ensejar a modificação de tarefas já definidas, uma vez que o processo é cíclico. A diretiva operacional é o documento que estabelecerá a instrução de execução de cada tarefa e fornecerá as informações relevantes ou onde encontrá-las aos operadores envolvidos.

Na fase de reexame da operação, os planejadores irão reexaminar a L Aç escolhida de forma mais focada, pois na sua formulação muitas ideias estavam tramitando em suas mentes, não muito bem concatenadas. Ao se formular o conceito preliminar da operação (CPO) buscam-se bases mais sólidas para o planejamento.

Para tanto, busca-se garantir um plano preliminar lógico e consistente, examinando os seguintes aspectos de forma objetiva: 

  • Reexamina-se o enunciado da missão e a decisão tomada; 
  • listam-se os efeitos desejados e os objetivos principais e acessórios, se houverem; 
  • relacionam-se os fatores de fraqueza do inimigo com os fatores de força próprios;
  • relacionam-se os fatores de fraqueza próprios com os pontos fortes do inimigo e busca-se como evitá-los; avalia-se as formas de exploração do princípio fator surpresa;
  • avaliam-se as limitações e facilitadores relativos às operações de apoio no que tangem à comando e comunicações, logística, inteligência, segurança e proteção, mobilidade e outros que se façam necessários. 
Deste reexame resultará um documento interno (CPO), que é um sumário e com ideias mais consistentes, que norteará as fases seguinte do planejamento. Sendo o planejamento um processo cíclico, o CPO poderá ser continuamente modificado no decorrer das fases seguintes.

Fase 2 - Reavaliação da Hipóteses Básicas

A próxima fase consiste em reavaliar as hipóteses básicas (HB), verificando sua validade. As HB devem ser reduzidas ou eliminadas se possível, conferindo mais flexibilidade ao plano, evitando que fique amarrado à condições cujas informações podem ser insuficientes e/ou deficitárias. Para as HB mantidas, deve-se elaborar planos acessórios, reiniciando-se todo o processo já descrito, desta vez de forma focada nas HB em questão. Se for necessário emitir a diretiva imediatamente devido a exiguidade de tempo para execução da operação, as HB não analisadas deverão ser omitidas.

Fase 3 - As Tarefas Componentes

A fase 3 tratará das tarefas componentes. Serão elencadas as operações necessárias para que o plano de ação seja implementado. Todos os requisitos relacionados à L Aç escolhida serão revistos, e identificadas as tarefas necessárias para atendê-los. Primeiramente relacionam-se todos os requisitos (ofensivos, logísticos, defensivos, inteligência e de mobilidade constantes da CPO) com suas respectivas tarefas, quem as executará, meios necessários, etc... em uma matriz auxiliar. Analisam-se as tarefas inerentes a cada requisito, seus meios necessários e que unidades a irão cumprir, bem como a formação de agrupamentos (sub-forças-tarefa). Caso a unidade envolvida não seja orgânica, pertencendo a outro comando ou mesmo outra força amiga, sua disponibilidade deverá ser previamente consultada, bem com sua capacidade de cumprir a tarefa.

Não devem ser elencadas tarefas previamente preconizadas, como por exemplo a defesa antiaérea de um navio feita pelo próprio navio ou a segurança de um estacionamento feita pela unidade estacionada, já que se trata de um procedimento padrão e de execução lógica. Ao final do preenchimento da matriz, deve-se atentar para o surgimento de conflitos, onde uma unidade esteja envolvida em mais de uma tarefa, e encaminhar sua solução. Embora estas tarefas previamente preconizadas pela doutrina sejam problema dos operadores em seus respectivos estudos de situação, o comandante deverá certificar-se que seus subordinados (operadores) terão os meios necessários ao cumprimento destas tarefas. Assim, a análise do Comandante precisa ser conduzida até o ponto em que ele julgue ter essa certeza.

Fase 4 - Formas de Execução de Cada Tarefa

A fase 4 estabelece como cada tarefa componente será executada. Serão determinadas a composição de cada sub-força-tarefa, as possibilidades de apoio mútuo e as medidas necessárias de C2.

Ao se destacar cada sub-força-tarefa e determinar sua composição, deve-se examinar com a máxima precisão quais serão os requisitos de cada tarefa. Este procedimento garantirá que cada operador contará com os meios necessários ao seu cumprimento. Para a situação que se elenca um pequeno número de tarefas a técnica mais adequada é a de se analisar cada uma das tarefas, permitindo visualizar os aspectos de apoio mútuo e coordenação. Quando as tarefas elencadas forem em número grande a técnica mais adequada é estudar as sub-forças-tarefas, individualizando como cada força destacada as executará.

A seguir se relacionam os tipos e o número de meios necessários para a execução de cada tarefa. Portanto, somente agora deve-se desmembrar os meios, relacionados na tabela elaborada na fase anterior, para compor cada grupo, embora sem identificá-los ainda.

Na sequência estabelecem-se as instruções de apoio mútuo e C2 com todas as forças componentes (operadores). Quando o operador for uma força amiga, não subordinada, deve ser verificado se ela está capacitada a cumprir a tarefa que lhe será solicitada e como será feita a coordenação (C2). No quesito coordenação (C2) elaboram-se as instruções relativas a datas e horas, movimentos, pontos de encontro, áreas de operações e outros assuntos referentes às tarefas elencadas, evitando interferências mútuas. Os operadores também poderão elaborar instruções e planos para preencher possíveis lacunas existentes nas diretivas emitidas, bem como para atender às doutrinas e procedimentos padrões em vigor. Sempre que for conveniente, devem ser empregados planos e formaturas doutrinárias.

O comandante tem melhores condições de determinar as necessidades de apoio mútuo na força sob seu comando, ou seja, o apoio de um grupo (sub-força-tarefa) a outro, pois ele tem uma visão global da operação e da participação nela de cada grupamento em particular. Além disso, stá investido da autoridade para ordenar o apoio mútuo. Desse modo, caso julgue essencial, pode atribuir tarefas de apoio, em aditamento às já estabelecidas na fase anterior. Da mesma forma, ele deve considerar a conveniência da coordenação de esforços entre 2 ou mais grupos, pois a coordenação (C2) tem importância vital para uma operação, especialmente naquelas de mais difícil execução como por exemplo assaltos anfíbios ou aeroterrestres e de apoio logístico. O comandante tem a responsabilidade de estabelecer as instruções para a coordenação, uma vez que é ele o superior dos grupos formados e o responsável pela determinação do auxílio a ser solicitado às forças amigas. Quando a operação estiver interrelacionada com as operações de escalões superiores ou do mesmo escalão, o comandante deverá determinar as medidas cabíveis necessárias à coordenação.

Completando a fase 4, devem ser listadas as demais instruções, cuja necessidade tenham aparecido no decorrer da análise efetuada nesta fase. Essas instruções constarão do próprio corpo da diretiva ou de planos complementares específicos, incluídos como anexos, tais como: plano de inteligência, conceito da operação (instruções sobre como serão executadas as tarefas elencadas), plano logístico, plano de comunicações, plano de guerra eletrônica (EW), e outros que se mostrem necessários. Poderá ocorrer ainda a necessidade de estabelecer instruções sobre o adestramento e ensaio necessários para assegurar um estado de prontidão satisfatório para as forças; instruções sobre os dados a serem encaminhados pelos comandos subordinados, necessários ao controle durante a fase preparatória da operação e durante o controle da ação planejada etc.

As instruções deverão estar de acordo com as diretrizes estabelecidas pelos escalões superiores, nas cadeias de comando operativa e administrativa. No que se refere às instruções sobre necessidades logísticas, é importante considerar sempre o tempo morto entre a determinação das necessidades e a obtenção de material, especialmente aquele julgado crítico para a operação. Nem todos os aspectos indicados como pertinentes a esta fase devem ou podem ser completados antes de se passar para as fases subsequentes.

Fase 5 - Organização por Tarefas

A próxima fase ou fase 5 tem a finalidade de estabelecer formalmente a estrutura de comando e distribuir os meios que constituirão cada força componente, designando agora elementos específicos para compor a organização por tarefas. A organização por tarefas deve atentar para que todos os grupos criados na fase 3, constem com sua(s) respectiva(s) tarefa(s) atribuída(s); deixando a organização das tarefas nas respectivas subdivisões por conta de seus respectivos comandantes subordinados. Entretanto, para assegurar a eficiência do controle, pode ser preferível estabelecer logo uma cadeia de comando mais complexa, com a indicação dos comandos intermediários; sendo que o número de grupos variará de acordo com o escalão do comandante e a complexidade da missão que lhe foi atribuída.

Inicialmente, prepara-se um organograma da força, o qual servirá de base para a organização por tarefas final da força que executará a missão. Este organograma deve basear-se na subdivisão da força concebida na Fase 3, e procurar conter os tópicos coordenação (cada subcomando com suas tarefas, evitando-se duplicidade), amplitude de controle (cada grupo com número de subordinados compatíveis com sua estrutura de C2), homogeneidade (composição do grupos por tarefas e meios similares) e delegação de autoridade (autoridade dos subcomandantes compatível com suas responsabilidades).

No organograma constarão os nomes ou codinomes dos grupos, do mesmo modo que aparecerão na diretiva. Os títulos, normalmente, fazem referência à tarefa principal que o grupamento executará, ou não, dependendo do grau de sigilo requerido. Todos os grupos criados na Fase 3 devem constar do organograma. Naquela ocasião não se havia ainda definido se seriam grupos, unidades ou elementos-tarefa; agora, eles serão assim especificados, em função da posição que ocuparão no organograma.

Deve-se relacionar as unidades que deverão compor cada grupo operativo. Pode ser vantajoso manter no mesmo grupo meios que possuam características semelhantes, tais como: limitação de velocidade, atividade atual, grau de aprestamento, localização física ou fazer parte da mesma organização administrativa (batalhão, esquadrão, base, etc...). Em seguida devem ser designados os comandantes subordinados. Exceto nos altos escalões de comando, ou sob circunstâncias especiais, esta designação deve considerar a precedência hierárquica entre esses comandantes.

Para redigir a organização por tarefas, listam-se os grupos (sub-forças-tarefa) em sequência, precedendo-os por um designativo (a,b,c; 1,2,3). A cada grupo-tarefa é atribuído um número designativo e um título descritivo. O posto e o nome do comandante podem ser mencionados, abreviadamente, ao lado do título. Imediatamente abaixo do título deve constar a sua composição. Indica-se os componentes de cada grupo-tarefa, quando apropriado, pelo uso de títulos abreviados das organizações administrativas, quando seus comandantes estiverem presentes. Também pode-se fazer a indicação por meio do nome da unidade. Quando a organização por tarefas for extensa, é recomendável relacionar, no corpo da diretiva, somente o título dos grupos principais e preparar um anexo, com uma organização por tarefas detalhada.

Fase 6 - Tarefas e Instruções

Na Fase 6 as tarefas e instruções para os subordinados serão formalmente redigidas. Assim, os parágrafos “EXECUÇÃO”, “ADMINISTRAÇÃO” e “LOGÍSTICA", da diretiva, serão completados nesta fase. Além disso, outras instruções ou planos, iniciados na Fase 4, deverão ser concluídos nesta parte do planejamento.

As tarefas dos grupos-tarefa são transcritas mantendo-se a sequência e os indicativos que os precedem na organização por tarefas, preparada na fase anterior. Abaixo de cada grupo relacionam-se as tarefas correspondentes e as instruções individuais, quando necessárias, para prover cooperação ou evitar interferência com outro grupo. Cada um dos grupos com as suas tarefas, na forma e sequência mencionadas, constitui, na diretiva, um subparágrafo do parágrafo "EXECUÇÃO".

As tarefas devem ser redigidas em linguagem formal, nos termos que deverão constar da diretiva, isto é, com o emprego do verbo no infinitivo, ao invés de no futuro, exprimindo uma ordem. Elas devem ser enunciadas de modo claro, conciso e preciso, a fim de evitar falhas de interpretação. Todos os grupos operativos criados devem ter, pelo menos, uma tarefa. Subdividir-se um grupo em grupos menores e atribuir tarefas apenas para o grupo maior é um erro. Isso demonstra que houve um erro na fase 3, quando se dividiu a força em grupos componentes sem que a esses fosse atribuída, pelo menos, uma tarefa.

As tarefas a serem executadas por 2 ou mais grupamentos são relacionadas às instruções gerais, de natureza operativa, serão posteriormente transcritas no subparágrafo "Instruções para Coordenação", da diretiva. Normalmente são instruções relativas à segurança; apoio; horários e duração de eventos; cooperação entre dois ou mais grupos; instruções quanto à entrada em vigor da diretiva e sua saída e, se for o caso, data de cancelamento e a autorização para destruí-la; instruções táticas; e momentos de ativação e desativação de grupos, etc.

É importante que não haja ambiguidade ou dúvida quanto aos grupos a que essas instruções se referem. Se houver necessidade de transmitir instruções mais detalhadas, é conveniente não incluí-las no corpo da diretiva. Evita-se, assim, torná-la extensa, com o acréscimo de pormenores que, via de regra, não são do interesse geral. Essas instruções deverão constar da diretiva como anexos, tais como: Plano de Batalha, Plano de Defesa, Plano de Mobilidade, que deverão ser concluídos nesta fase. Na diretiva, a referência a eles é feita no subparágrafo "Instruções para Coordenação".

As instruções de coordenação necessárias à direção e ao controle do apoio administrativo e logístico constarão do ítem "Administração e Logística". No qual deverão ser estabelecidas as normas e procedimentos de caráter administrativo e logístico, indicando suprimentos, facilidades e serviços existentes, assim como o responsável por provê-los, quando e onde estarão disponíveis. Caso os subordinados tenham recebido essas informações, por meio do plano logístico do superior ou de qualquer outra fonte, basta uma referência a essa fonte. Pelas razões expostas anteriormente, sendo as informações e instruções de logística extensas e detalhadas, elas deverão constituir um anexo à diretiva, denominado "Plano Logístico", ao qual será feita referência no parágrafo "Administração e Logística" da diretiva.

A seguir, inicia-se a elaboração do conceito da operação, que é um documento, sem formatação rígida, a ser divulgado para os subordinados e que contém, basicamente, a ideia de manobra do comandante, abordando detalhes não evidentes nas tarefas atribuídas aos subordinados, tais como: intenções do comandante; duração de eventos; limitações e prazos a respeitar; orientação para a execução de tarefas; e fases da operação, se houverem etc.

A existência de um anexo contendo o conceito da operação deverá ser mencionada no parágrafo após a redação da decisão e antes dos subparágrafos que contêm as tarefas de cada grupo. Caso esse anexo não seja confeccionado, uma sucinta exposição do conceito da operação poderá ser incluída no próprio parágrafo da diretiva, servindo como uma extensão da decisão. Na atribuição de tarefas, deve-se permitir aos subordinados imediatos a máxima liberdade de decisão compatível com a necessidade de coordenar as operações correlatas. Assim, as instruções sobre como cumprir uma tarefa devem ser dadas apenas no grau suficiente à total compreensão e à efetiva coordenação entre os subordinados. Se o comandante desejar transmitir uma orientação, quanto à sua preferência na maneira de executar determinada fase de uma operação, sem pretender atribuir tarefas detalhadas para cada ação concebível, poderá fazê-lo no conceito da operação.

Fase 7 - Informações de Comando e Controle

No parágrafo “Comando e Controle” da diretiva, lista-se os aspectos de comando pertinentes à operação que está sendo planejada. Nesse ítem listam-se o nome do substituto eventual do comandante (subcomandante), a localização do comandante (seu posto de comando e de seu eventual) e as instruções de comunicações que serão constadas em um anexo, se forem extensas. Este parágrafo também poderá conter instruções sobre relatórios que os comandantes subordinados deverão enviar na forma de informações operativas, tais como detecções, resultados de engajamentos, consumos de combustível e de munição, avarias, baixas e outras consideradas relevantes, que permitirão avaliar se a operação está se processando de acordo com os planos e se estes de fato estão conduzindo ao cumprimento da missão, ou seja, possibilitarão o controle da ação planejada. Tais relatórios devem levar consideração a missão de cada comando subordinado e os efeitos desejados a serem obtidos em cada tarefa atribuída.

Outros anexos pertinentes a esta fase, tais como o Plano de Guerra Eletrônica (EW), por exemplo, caso sejam confeccionados, deverão estar concluídos antes de iniciar o estudo da próxima Fase. Outras instruções poderão ser acrescentadas, além das sugeridas nos itens acima, como por exemplo, as relativas à autoridade dos subordinados quanto ao emprego de armamento de elevado poder de destruição, referências especiais a regras de engajamento, etc...

Fase 8 - Informações aos Comandantes Subordinados

O parágrafo “Situação” trará uma descrição sumária e objetiva da situação, situando os comandantes subordinados dentro do problema militar a ser enfrentado. Este parágrafo discorrerá sobre a situação geral, as forças inimigas e amigas, as incorporações e destaques e as hipóteses básicas.

Este deve conter apenas as informações essenciais para o seu perfeito entendimento, porém, pode ocorrer dessas informações serem extensas. Nesse caso, elas devem ser incluídas no anexo "plano de inteligência", fazendo constar neste parágrafo apenas uma referência quanto à existência desse anexo.

Primeiramente se apresenta uma descrição sumária e objetiva da situação geral, com as missões deste comando e do escalão superior, se disponíveis e autorizadas. Detalhes já conhecidos podem ser omitidos. Deve-se neste ítem analisar, selecionar e completar, com critério, as informações contidas no parágrafo correspondente da diretiva do escalão superior. Caso esta diretiva não esteja disponível à todos, deve-se citar as informações relevantes e não apenas fazer referência à elas, de forma que sirvam (sejam úteis) ao planejamento de todos.

As forças inimigas relacionadas à operação e não mais que isso, devem ser descritas, bem como as forças que poderão vir a ter influência. Cada grupo conhecido de forças inimigas deve constar de um item numerado; incluindo forças navais, aéreas e terrestres e contendo a composição, localização e dispositivos caso sejam conhecidos e de forma sucinta. Conhecimentos mais detalhados, se existentes, deverão constar de um anexo "Plano de Inteligência", o qual deverá ser referenciado.

Sobre forças amigas deve-se dispor informações sobre forças navais, aéreas e terrestres que não estão na organização por tarefas, mas que irão contribuir para o cumprimento de sua missão. Deve-se informar sua disposição e como poderão contribuir, de forma suscinta e restritas ao necessário. Devem ser informadas em itens numerados, começando pelo escalão mais elevado e descendo.

Nas incorporações e destaques devem ser indicadas as unidades incorporadas ou destacadas à força no decorrer da operação, especificando a ocasião em que tais incorporações e destaques devem ocorrer. Devem constar apenas as unidades que participam da operação por um determinado período de tempo, ou seja, entrando para a subordinação do comandante que assina a diretiva, vindo de outra; ou saindo da desta subordinação e indo para outra. Nas incorporações e desincorporações, a mudança de subordinação é definitiva, enquanto que nos destaques é temporária. Quando não houver nada previsto, a palavra "Nenhuma" deverá constar deste subparágrafo. Quando forem em grande número, é conveniente que sejam constadas em um anexo bem como seus eventos, citando a existência desse anexo no subparágrafo.

As hipóteses básicas somente constarão dos planos de operações (nunca nas ordens de operação), relacionam-se àquelas conservadas na Fase 2 ou indicadas pela palavra "Nenhuma" se não houverem.

Ao chegar ao final desta fase, é conveniente que se reveja mais uma vez o planejamento, de modo a elucidar pontos ainda pouco claros e eliminar o que for desnecessário, aprimorando o produto de cada fase. Também se for constatado a necessidade de algum apoio externo ainda não previsto, deve-se tomar logo as primeiras providências para que esse apoio esteja disponível quando necessário.

Fase 9 - A Diretiva Operacional

O plano de ação final é exposto em um documento (diretiva) para divulgação aos comandantes subordinados, que deverá seguir um formato padrão familiar a todos. Todo o material necessário para compor o corpo da diretiva e seus anexos estará disponível como fruto do trabalho das fases anteriores.

A diretiva será um documento básico com as informações principais e seus anexos (planos), que conterão informações complementares e detalhadas sobre os tópicos do documento principal, evitando que este fique muito extenso. Os tópicos básicos da diretiva podem ser a situação, missão, execução, logística e C3 (comando, controle e comunicações), contendo ainda a organização da força e outros itens como conteúdos introdutórios e conclusivos, e é claro os anexos.

A leitura dos anexos pode não interessar a todos, já a do corpo principal sim, pois contém instruções de interesse geral, tais como um panorama sucinto e claro da situação, missão, decisão, tarefas atribuídas aos comandantes subordinados etc. Os anexos conterão procedimentos detalhados e informações adicionais que ampliam as informações de caráter geral constantes do corpo da diretiva, e são de interesse específicos daqueles que trabalharão naqueles detalhes. Entre os anexos mais comuns temos: conceito da operação, organização por tarefas detalhada, plano de batalha, plano de comunicações, plano de guerra antiaérea e defesa aérea, plano de guerra anti-submarino, plano logístico, plano de mobilidade, plano de controle de espaço aéreo, plano de desembarque, plano de organização para o combate e outros.


Diretivas e o Controle da Ação Planejada (Parte 5)

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Princípios de Guerra *231



Os princípios de guerra são normas consagradas pelo tempo, não aplicáveis em uma sequência definida, e que devem ser internalizadas pelos comandantes militares de todos os escalões, a fim de nortearem suas decisões. Sua aplicação deve ser adaptada a cada situação de forma flexível, sempre precedida pelo bom senso e constituem-se na base de toda operação militar.

Eles formam a base das operações militares convencionais modernas e foram forjados pela experiência adquirida ao longo dos tempos, sendo enunciados sistematicamente no início do século XX. Variam de acordo com a doutrina de cada força em número e semântica, mas todos convergem para uma mesma conclusão, enfatizando as vocações singulares. Podem variar ainda com o tempo, refletindo a evolução da tecnologia e do pensamento militar.

As forças armadas modernas os adotam como parte da sua doutrina e preconizam que devem ser aplicados independentemente de se estar operando nos níveis estratégico, operacional ou tático. Sua aplicação não segue uma lista de conferência com um ordem pré-definida, e se aplicam simultaneamente e da mesma maneira a todas as situações. Quando usados no estudo de campanhas passadas, são poderosas ferramentas de análise, assim como devem ser considerados como premissas no Processo de Planejamento Militar (PPM).

Cada força armada adota seu próprio conjunto de princípios, estando aqui listados 9 deles: Objetivo, Iniciativa, Concentração de Meios, Economia de meios, Manobra, Unidade de Comando, Segurança, Surpresa, Simplicidade (Padrão da doutrina do EB).

Objetivo

Toda operação militar deve buscar um objetivo definido, decisivo e tangível. Para se chegar a ele, frequentemente será necessário conquistar outros objetivos intermediários de menor importância, que igualmente deverão ser claros e tangíveis, sendo que a conquista de cada objetivo secundário deverá contribuir para se chegar ao objetivo estratégico ou principal. Também deverá estar claro o acoplamento entre eles, e a importância da conquista de cada um. Toda e qualquer ação desnecessária a consecução dos objetivos deverá ser evitada. O objetivo a ser atingido e os limites a serem observados são ditados pelo comando, sendo que a linha de ação adotada deve ser preferencialmente uma prerrogativa do executor, salvo orientação contrária. Nenhuma ação deve ser posta em prática sem que um plano adequado tenha sido elaborado para norteá-la.

Iniciativa

A iniciativa deve ser buscada a todo momento, de forma a forçar o inimigo a reagir a um plano já traçado, evitando que este venha a seguir um plano próprio. Quem detém a iniciativa comanda o combate e decide seus rumos, seja tanto em operações defensivas como em ofensivas. Na guerra é necessário ser agressivo e violento de forma a frustrar qualquer esforço de organização por parte do inimigo, evitando que ele decida quando, onde e como combater. Agarrar, reter e explorar a iniciativa é uma das chaves do sucesso.

Concentração ou Massa

O poder de uma força de combate está na eficiente composição desta. Elementos adequados, alocados nos pontos onde produzem seus maiores efeitos, agindo de modo sincronizado e desfrutando de proteção mútua, maximizam o efeito sobre o inimigo com um mínimo de baixas. Não se bate no inimigo com a ponta do dedo de uma mão aberta, e sim com um punho fechado (violenta e decisivamente), visando esmagar seu poder de combate. Uma unidade inimiga vencida será desarmada e presa, a fim de evitar que venha a combater novamente (O cativeiro deverá ser em local longe do risco de resgate). O engajamento procurará o momento em que o inimigo estiver numericamente inferior, seja em pessoal ou meios. Manobras que visam fracionar suas forças são desejáveis e devem ser implementadas a fim de facilitar contatos com contingentes reduzidos (quanto menor o efetivo inimigo maior o efeito de concentração ou massa). Quando se está numericamente inferior, deve-se buscar compensar com meios multiplicadores do poder de combate a fim buscar a vantagem do engajamento, e caso isso não seja possível, o contato deverá ser evitado até que tal situação se configure. Não se engaja o inimigo em inferioridade tática.

Economia de Meios

Todo e qualquer engajamento empregará o poder de combate necessário ao cumprimento da missão, de forma a concluí-la do modo mais efetivo possível, sempre levando-se em consideração a integridade das tropas e procurando preservar no que for possível a disponibilidade do equipamento e recursos logísticos. Não se empregam recursos que podem ser poupados e não se poupam recursos que possam comprometer a missão e os meios de combate. Esforços secundários devem ser limitados ao mínimo, de forma a preservar os sempre escassos recursos disponíveis. Estas considerações revestem-se de maior ou menor importância de acordo com os recursos que as forças dispõem, e como na guerra eles podem ser extremamente limitados, seja pela limitada capacidade de reposição de meios ou deficiências na estrutura logística, seja por infortúnios causados pelo inimigo. A ausência desse ou daquele item em momentos decisivos, pode decidir uma batalha ou mesmo uma campanha. Operações militares demandam esforços logísticos de grande monta e todo alívio e racionalização desta estrutura de apoio é sempre desejável.

Manobra ou Mobilidade

Colocar o inimigo em uma posição de desvantagem pela aplicação inteligente e flexível do poder de combate é o objetivo da manobra. Manobra é o movimento de forças em relação ao inimigo para ganhar vantagem posicional em relação a este. Uma manobra efetiva, evita que o inimigo assuma posições vantajosas e protege as forças aliadas. É usada para explorar sucessos, preservar a liberdade de ação e reduzir a vulnerabilidade. Ela traz continuamente problemas novos para o inimigo fazendo suas ações ineficazes devido a impossibilidade de organização e o lançamento de ações coordenadas. Em todos os níveis a aplicação da manobra requer agilidade de pensamento, planejamento, operatividade, organização, designação de objetivos, aplicação dos princípios de concentração e economia de meios. Ao nível operacional, manobra é quando se decide onde e quando lutar, através da fixação de condições de batalha ou tirando proveito de ações táticas. A manobra é uma forma dinâmica de lutar que rejeita padrões previsíveis no desenrolar das operações.


O comando de qualquer operação deve ser vertical, único e sem paralelismos, em todos os escalões. Forças operando paralelas em uma mesma campanha tendem a duplicar esforços e demandarem mais recursos. A unidade de comando facilita a coordenação, sincronização de ações e a unificação de esforços, além de evitar sobremaneira o chamado “fogo amigo” ou fratricídio. Este princípio deve ser observado mesmo quando forças tiverem comandos distintos, as quais deverão operar de forma combinada.

Segurança

A segurança das forças em combate deve ser prioridade. O risco é inerente a guerra, porém àquele que corre riscos desnecessários, seja por negligência ou por desconhecimento dos fatores que afetam os campos de batalha, com certeza colherá frutos amargos. Conhecer as intenções inimigas de uma forma abrangente e detalhada é vital; bem como suas táticas, doutrina e tecnologias, a fim de evitar surpresas desagradáveis, permitir antecipar seus movimentos e frustrar seu planejamento. A tropa que opera em segurança pode se dar ao luxo de fazer experiências e testar o inimigo de um modo coordenado, estudando sua reação sem que este adquira vantagens inesperadas. A segurança aumenta a liberdade de ação e reduz a vulnerabilidade. Toda operação militar lançada de bases não seguras, sejam físicas ou doutrinárias, está exposta a um grau de risco que se convenientemente explorado pelo inimigo, pode comprometer tanto a si própria, como ao bojo das operações.


Agir onde e quando o inimigo não espera, de uma forma inusitada e criativa pode alterar decisivamente o equilíbrio de um combate. Avanços crescentes da tecnologia, especialmente nos campos das comunicações e vigilância tornaram a surpresa cada vez mais difícil de se alcançar. Fatores que influenciam efetivamente na surpresa são a mobilidade, a efetividade dos sistemas de C3I (comando, controle, comunicações e informações), a capacidade de guerra eletrônica (EW), a variação no modo de agir que impede o inimigo de prever ações, etc... A surpresa pode estar ainda no uso do tempo, na utilização da força e tecnologia, na direção de um avanço, ou na manipulação de qualquer outro fator inesperado pelo inimigo. É um multiplicador de combate poderoso, porém temporário. Não é essencial, se bem que desejável, apanhar o inimigo completamente desavisado; muitas vezes se faz suficiente que ele se dê conta muito tarde para reagir efetivamente. Fatores que contribuem para surpreender incluem velocidade, superioridade de informação e assimetria.

Simplicidade

Todo planejamento deverá basear-se em planos claros e descomplicados, além de ordens objetivas, de forma a assegurar compreensão completa, sem margem a dúvidas ou dupla interpretação. Planos simples propiciam assimilação intuitiva e difíceis de esquecer, e ordens objetivas minimizam o engano e a confusão. A simplicidade é especialmente valiosa quando os soldados e seus comandantes estão cansados, onde avaliações equivocadas podem resultar em graves consequências e detalhes são facilmente esquecidos. Quanto mais simples uma operação se apresentar, maiores as chances de obter êxito. Os planos devem ser simples, porém o planejamento deve ser minucioso.

A Marinha do Brasil adota ainda os princípios da Moral, Exploração e Prontidão em complemento aos já enunciados, e a FAB o da Cooperação, que exprimem a vontade de alcançar o objetivo aceitando os revezes inerentes ao ofício da guerra; a constante prática do esclarecimento visando a ciência da situação; a máxima do "sempre alerta" a fim de não ser pego desprevenido e o implemento do espírito de corpo entre os operadores, respectivamente.